segunda-feira, outubro 05, 2026

Um dia para se refletir

Melancolia (1892), Edvard Munch.  
 

“São as nossas escolhas que mostram quem realmente somos...”

Alvo Dumbledore,
em uma conversa com Harry Potter, no livro Harry Potter e a Câmara Secreta, de J. K. Rowling.

Trabalhei como mesário na eleição de ontem. E, enquanto verificava a documentação e procurava ser atencioso com as pessoas que chegavam para votar, fiquei a observar os jovens, as mulheres, as pessoas mais velhas que manifestavam sua opção pelo candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, por meio dos ícones que usavam para identificar sua preferência eleitoral. Eram pessoas comuns. Pessoas com quem, talvez, eu já tenha cruzado alguma vez sem o saber - posto que trabalhei nas proximidades de minha casa.

Todavia, o problema não foram esses. Mas, sim, aqueles que, envergonhados, incógnitos, apertaram o 22 para votar no candidato do PL.

Aquilo que havia visualizado na seção eleitoral em que trabalhei manifestou-se, de maneira inequívoca, na apuração dos votos realizada pelo TSE. A extrema-direita, simplesmente, fez uma das maiores bancadas da história do país. Talvez só durante a Ditadura Militar o Congresso tenha sido tão reacionário. Para piorar, Flávio ainda levou o primeiro turno com uma vantagem inacreditável. Teve mais de 56 milhões de votos. 

A partir desse fato, surgem as perguntas: o que aconteceu? O campo progressista dormiu no ponto? Menosprezou-se a astúcia do adversário? Como pessoas comuns, que convivem conosco diariamente, chegam a fazer escolhas políticas que consideramos profundamente incompatíveis com aquilo que entendemos como democracia? A existência dessas perguntas é legítima, mas acredito que é preciso, também, responsabilizar aquele que realizou a escolha, na solidão da urna, por candidatos reacionários; por figuras que não possuem o menor compromisso com a democracia e com o pacto social que temos construído a duras penas.

Não é só alienação, falta de cognição. Acredito que seja ódio. Cegueira mesmo. O voto em Flávio e nos parlamentares bolsonaristas é o resultado de nossa perversidade. Todo aquele devaneio de que somos um país altruísta, generoso, sorridente, possui uma meia-verdade. Esse lado festivo, do samba, do riso, veio das senzalas. É o nosso lado mais humano. Todavia, o Brasil foi forjado para ser visto da casa-grande. Simpatizamos com os de cima, mas temos ódio aos nossos semelhantes, ou seja, àqueles que estão no mesmo nível em que nos encontramos.

A escolha por Flávio - um candidato despreparado, amigo de corruptos e ele mesmo, segundo a avaliação que faço, um corrupto inveterado -, alguém que não possui nenhum compromisso com políticas públicas inclusivas e com o Estado Democrático de Direito, preocupa. Veremos, nos próximos anos, caso sua vitória seja confirmada, a “exportação” da estrutura corrupta da política do Rio de Janeiro para Brasília.

Ontem, chegamos ao mais profundo abismo enquanto país. A nossa falência moral ganhou feições dramáticas. Ficou evidente que não há como nos tornarmos um país decente. A solidão enquanto povo é a nossa pena capital. Não há possibilidade de essa aldeia de imbecis cognitivos, domesticados pela religião, construir um país que venha a dar certo.

Hoje, enquanto fui levar o meu filho à escola, escutei uma criança de oito ou sete anos conversando, em tom de mofa, sobre o fato de Lula haver perdido a eleição. Provavelmente, ela manifestava ali o que ouviu em casa. A construção da subjetividade acontece assim no Brasil: desde pequeno, somos vocacionados a escolher o obscuro e a não reconhecer o que é bom e, fazendo disso, um destino.