“São as nossas escolhas que mostram quem realmente somos...”
Alvo Dumbledore,
em uma conversa com Harry Potter, no livro Harry Potter e a Câmara Secreta, de J. K. Rowling.
Trabalhei como mesário na eleição de ontem. E, enquanto verificava a documentação e procurava ser atencioso com as pessoas que chegavam para votar, fiquei a observar os jovens, as mulheres, as pessoas mais velhas que manifestavam sua opção pelo candidato da extrema-direita, Flávio Bolsonaro, por meio dos ícones que usavam para identificar sua preferência eleitoral. Eram pessoas comuns. Pessoas com quem, talvez, eu já tenha cruzado alguma vez sem o saber - posto que trabalhei nas proximidades de minha casa.
Todavia, o problema não foram esses. Mas, sim, aqueles que, envergonhados, incógnitos, apertaram o 22 para votar no candidato do PL.
Aquilo que havia visualizado na seção eleitoral em que trabalhei manifestou-se, de maneira inequívoca, na apuração dos votos realizada pelo TSE. A extrema-direita, simplesmente, fez uma das maiores bancadas da história do país. Talvez só durante a Ditadura Militar o Congresso tenha sido tão reacionário. Para piorar, Flávio ainda levou o primeiro turno com uma vantagem inacreditável. Teve mais de 56 milhões de votos.
A partir desse fato, surgem as perguntas: o que aconteceu? O campo progressista dormiu no ponto? Menosprezou-se a astúcia do adversário? Como pessoas comuns, que convivem conosco diariamente, chegam a fazer escolhas políticas que consideramos profundamente incompatíveis com aquilo que entendemos como democracia? A existência dessas perguntas é legítima, mas acredito que é preciso, também, responsabilizar aquele que realizou a escolha, na solidão da urna, por candidatos reacionários; por figuras que não possuem o menor compromisso com a democracia e com o pacto social que temos construído a duras penas.
Não é só alienação, falta de cognição. Acredito que seja ódio. Cegueira mesmo. O voto em Flávio e nos parlamentares bolsonaristas é o resultado de nossa perversidade. Todo aquele devaneio de que somos um país altruísta, generoso, sorridente, possui uma meia-verdade. Esse lado festivo, do samba, do riso, veio das senzalas. É o nosso lado mais humano. Todavia, o Brasil foi forjado para ser visto da casa-grande. Simpatizamos com os de cima, mas temos ódio aos nossos semelhantes, ou seja, àqueles que estão no mesmo nível em que nos encontramos.
A escolha por Flávio - um candidato despreparado, amigo de corruptos e ele mesmo, segundo a avaliação que faço, um corrupto inveterado -, alguém que não possui nenhum compromisso com políticas públicas inclusivas e com o Estado Democrático de Direito, preocupa. Veremos, nos próximos anos, caso sua vitória seja confirmada, a “exportação” da estrutura corrupta da política do Rio de Janeiro para Brasília.
Ontem, chegamos ao mais profundo abismo enquanto país. A nossa falência moral ganhou feições dramáticas. Ficou evidente que não há como nos tornarmos um país decente. A solidão enquanto povo é a nossa pena capital. Não há possibilidade de essa aldeia de imbecis cognitivos, domesticados pela religião, construir um país que venha a dar certo.
Hoje, enquanto fui levar o meu filho à escola, escutei uma criança de oito ou sete anos conversando, em tom de mofa, sobre o fato de Lula haver perdido a eleição. Provavelmente, ela manifestava ali o que ouviu em casa. A construção da subjetividade acontece assim no Brasil: desde pequeno, somos vocacionados a escolher o obscuro e a não reconhecer o que é bom e, fazendo disso, um destino.