terça-feira, junho 25, 2024

"Riacho Doce", mais um livro de José Lins do Rego

 


                Li um dos poucos romances de José Lins do Rego que ainda não conhecia. Faltam ainda Eurídice e Água Mãe.                 Claro, existem aqueles textos esparsos do espólio do escritor – Bota de sete léguas, Histórias da Velha Totônia, as crônicas etc., todavia, dos textos mais robustos, li dessa vez Riacho Doce, de 1939. 

                A produção de José do Rego segue um fluxo intenso. Impressiona que nos primeiros anos da década de 30, ele escrevesse – praticamente - um livro por ano. São obras com uma narrativa frenética, inebriante, viciante. Foi desse fluxo criativo que surgiram, por exemplo, os romances do conhecido ciclo da cana-de-açúcar. São ficções de alta calibragem, obras cuja ressonância memorialística é incontrastável. Nascido no engenho do Pilar, na região açucareira, herdeiro da aristocracia canavieira paraibana, José Lins foi criado pela família paterna, já que perdeu a mãe ainda muito novo. Essa experiência é contada com traços de alta tensão emocional na obra “Meus verdes anos”.

                José Lins não se afasta daquilo que ele foi. Seus textos são altamente descritivos. Os cinco livros do seu famoso “ciclo da cana-de-açúcar” caracterizam a passagem do tempo. Em “Menino de engenho” há a demonstração do paraíso. A história acontece no engenho Santa Rosa. Em “Doidinho”, o segundo livro da série, o personagem principal – Carlos de Melo – vai estudar em um liceu. Nesta obra, repleta de fragrâncias de “O ateneu”, de Raul Pompéia, José Lins, descreve a saída do paraíso. Em “Bangüe, Carlos de Melo retorna ao Santa Rosa. Tanto o engenho quanto ele estão mudados. Ele se percebe incapaz de governar aquele mundo. Percebe-se um movimento decadentista que começa a tomar conta do mundo verde do Santa Rosa. Em “O moleque Ricardo”, percebe-se uma inflexão, já que a história deixa o eixo paraibano e acontece nos subúrbios do Recife. Curiosamente, José Lins centra a sua obra nos locais por onde passou – Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro. Esteve rapidamente no interior de Minas Gerais como promotor, mas não ficcionalizou nenhuma história.

                O último livro do ciclo é “Usina”, cujo título prenuncia a instituição que matou os bangues. A usina indicava uma mudança não somente do modo de produção, mas de um estilo de viver centrado na casa-grande. Saía o senhor de engenho, uma espécie de dono de feudo, capaz de mandar e desmandar na vida de todos aqueles que viviam sob o seu domínio e passa existir o usineiro, um capitalista pragmático, pouco preocupado com as vicissitudes da vida senhorial de outrora. Observa-se que a obra de José Lins é repleta de um saudosismo de um certo estilo de vida. Ele faz um inventário antropológico de uma maneira de ser, de um estilo de vida emanado da casa-grande. Ele descreve a derrocada daquele modo de ser, mas, no fundo, é como se estivesse a lamentar as mudanças que aconteceram.

                Quando escolhi “Riacho Doce”, no início do ano, enchi-me de expectativas. Sabia que encontraria uma literatura carregada de emoções à flor da pele. José Lins é daqueles escritores que colocam a narrativa em um plano bastante elevado e ela permanece no alto sem perder seu encanto, sua força, a profusa carga de emoções. No seu conhecido “Ciclo da cana-de-açúcar”, havia um largo terreno para que ele pudesse espraiar o seu olhar. Havia memórias das mais variadas. Ele narrou – em parte – aquilo que ele viveu, por isso o tom nostálgico. O realismo de sua literatura é contestador.

                Foi munido dessa expectativa que fui para o livro. O que Zé Lins – como era conhecido pelos amigos – diria? Teria fôlego para sair da geografia dos engenhos? Um ano antes (1938), ele escrevera “Pedra bonita”, cuja escrita dura, bruta, escancara – por meio de um realismo quase mágico – a superstição e a religiosidade do povo nordestino. Os episódios quase bíblicos da narrativa frenética denunciam eventos quase escatológicos da crença do povo sofrido.

                “Riacho Doce”, por sua vez, é como uma ópera em três atos. Dois terços da história se passa em Alagoas e a primeira metade numa improvável Suécia.  José Lins nunca esteve na Suécia. Os poderes da literatura extrapolam, certamente, as convenções do precisar “conhecer” para descrever, ainda mais em se tratando do escritor paraibano. Zé Lins, em sua produção, narrou o que viu. Esse fato é bastante acentuado na produção literária do escritor paraibano. José Lins é um escritor eminentemente memorialístico. A Suécia aparece decantada. É como se ele quisesse provar para os seus críticos que ele era capaz de criar sem ver. Observa-se que o escritor, ao contrário das obras do “Ciclo”, procura, cuidadosamente, focar a sua atenção nos dilemas das personagens.

José Lins do Rego, o autor prolífico

                Na primeira parte do romance, o narrador descreve a sofrida história de Edna, moradora de um longínquo vilarejo sueco. Sua existência é grávida de dissabores, até conhecer a professora Ester, que a trata com desvelo e carinho. Mais tarde, ela conhece Carlos, um engenheiro. Mesmo sem amor, decide casar com Carlos. Edna enxerga nisso uma possibilidade de mudar a sua trajetória e manter uma distância necessária ´dos parentes, como que para esquecer o próprio passado. Carlos é convidado para perfurar poços de petróleo em uma inóspita região brasileira. São essas as circunstâncias que trazem o casal para uma região ignorada de um país ignoto.

                A segunda parte do romance descreve a chegada do casal a Riacho Doce, um local rústico, mas de natureza exuberante. Edna é arrebatada pela natureza e pelas feições tão destoantes daquelas com as quais convivera até aquele momento de sua vida. Aos poucos, afasta-se do seu marido Carlos. Realiza longas, demoradas, repetitivos banhos na praia. Aquela ligação telúrica com Riacho Doce parece sugerir um exercício de purificação. Edna deseja viver uma tropicalização de sua própria existência. É nesse intervalo de transformação que ela conhece o mestiço Nô.

                Na terceira parte da obra, a ênfase é dada à paixão avassaladora entre Edna e Nô. Os dois experimentam intensamente os eflúvios febris da paixão. Ignoram as convenções da pequena Riacho Doce. O companheiro de Edna toma conhecimento. Nada parece impedir a consecução daquele enlace clandestino. Todavia, é nesse ponto da narrativa que percebemos a mão de José Lins evocando tão bem uma das suas qualidades – ou seja, inserir o elemento supersticioso, miraculoso, mágico da cultura nordestina. Aninha, a avó de Nô, atua como uma força que captura a mente de Nô. Aos olhos de Aninha, Edna era uma mensageira do mal. A continuação da relação entre os dois era amaldiçoada. Eventos terríveis poderiam acontecer, caso Nô, teimosamente, insistisse em conduzir aquela relação.   Esse fato perturba o neto. O que acontece a partir desse evento é repleto da força narrativa tão característica do escritor. Ele parece retomar força e a densidade de “Bangue” e “Usina”, os dois melhores livros do “Ciclo” – em minha humilde concepção.

A próxima frase ou o próximo período em Zé Lins nunca esgota o anterior, todavia se renova no próximo. Possui, incrivelmente, a pujança dialética do fôlego que não se perde. É essa capacidade que faz do seu estilo algo tão característico. Zé Lins sabia como ninguém criar uma boa história. Conseguia, por meio de um estilo capaz de aproximar o texto escrito da enunciação oral, sustentar um fluxo narrativo que segurava o leitor. Riacho Doce possui essas características. É um romance exitoso. Há todo aquele sabor idílico das paisagens estruturadas em uma ontologia tão característica, mas que é permeada por um realismo trágico. Nota-se em José Lins que a história atua como uma força que faz desequilibrar a vontade das personagens. Ou seja, a realidade descontrói as ambições das personagens, enquanto se convive com aquilo que poderia ter sido.

Após ter lido “Riacho Doce”, no próximo ano, leremos “Eurídice”.  


terça-feira, junho 11, 2024

Anton Bruckner e a imensidão

 


                Em 2024, o mundo e o Universo comemorarão os duzentos anos do nascimento do compositor austríaco Anton Bruckner. Falar o nome de Bruckner por si só já é um grande acontecimento. A vida do compositor foi repleta de curiosas ocorrências. Há relatos que o descrevem como uma pessoa ingênua e insegura; dono de uma personalidade com aspectos infantilizados. Oriundo do interior da Áustria, Bruckner era o que convencionamos chamar de caipira, de homem provinciano. Possuía hábitos incomuns. Alimentava superstições. Quem o observava – e muitos foram os seus detratores – não conseguia ligar as suas densas reflexões em forma de música, ao homem simples, de aspectos bonachões.

                Embora com uma personalidade tão excêntrica, Bruckner compôs obras que traduzem o infinito. Foi um compositor eminentemente religioso. Compôs sinfonias, missas, motetos, etc. Suas missas estão entre as obras mais bonitas para o gênero. O Seu Te Deum impressiona pelo rigor e pela grandiloquência barroca de sua estrutura.  Suas obras possuem um forte aroma espiritual.

Bruckner era um católico devoto. Alguém que levava a sério as exigências de seu credo. Como era um homem inseguro, precisava ter convicções firmes e orientadas. O compositor pode ser colocado na tradição de Bach, de Palestrina, de Victória, de Ockhegem, de Lassus ou de Josquim des Près, no que diz respeito à forte evocação religiosa de sua obra. Nota-se que Bruckner elevou o conceito de sinfonia e, por isso, é considerado um dos maiores compositores desse gênero de todos os tempos.

                A sinfonia em Bruckner é uma forma de acessar a eternidade ou de trazer o transcendente à Terra. Ela passa a expressar grandes reflexões como já havia feito Beethoven, ou como, em sua época, fazia Brahms; e, mais tarde, faria Mahler ou Shostakovich, reputados como grandes sinfonistas. A força de suas reflexões suscita os mais elevados sentimentos, as mais ideais reflexões. Alguém afirmou que as sinfonias do compositor são enormes catedrais barrocas. São ricas em detalhes, repletas de minudências; de delicados pormenores que impressionam o observador atento. Nunca se apreende todos os detalhes numa primeira observação. É preciso parar, ouvir mais de uma vez; observar os contrastes; a força simbólica das evocações; as metáforas transcendentes que provocam uma sensação de pequenez diante do imenso, do grandioso. Esse aspecto de suas sinfonias provocou muitas incompreensões no período em que foram escritas. Seus críticos eram implacáveis, pois não entendiam os efeitos estéticos do compositor. Afirmavam que os trabalhos eram longos, cansativos e sem intencionalidade. 

                Em certo momento da minha vida, já tive dificuldades com a música do compositor austríaco. Todavia, entendo que não estava à altura dos efeitos caudalosos de suas reflexões. Se hoje consigo fruir a beleza de suas composições é por que passei por um processo de evolução. Hoje, eu percebo o quão prodigioso é ter a oportunidade de ouvir uma das suas sinfonias. Para o ouvinte pouco afeito à linguagem do compositor, não é fácil apreender numa só audição os intricados detalhes de suas galáxias em forma de sinfonia. Bruckner só se torna prazeroso a partir do momento que ouvimos outros compositores e, a partir daí, procuramo-lo. O compositor não é admitido na primeira audição para ouvintes iniciantes. 

Todavia, quando se descobre a beleza de sua música, é como se todos os mistérios da vida fossem explicados, simplificados, exatificados; como se todas as feiuras e misérias morais fossem abolidas; todas as injustiças e ignorâncias fossem justificadas.

                Nietzsche disse certa vez que Bizet o tornava em “um melhor filósofo”. O filósofo alemão mencionava isso quando escutava a ópera “Carmen” do compositor francês. Eu, seguindo a mesma lógica, a mesma percepção de Nietzsche, posso afirmar (sem nenhuma pretensão, claro) que Bruckner me torna um melhor ser humano. O compositor consegue abrir para mim dimensões intraduzíveis da beleza que abarca a existência como um todo. Bruckner é capaz de beatificar a vida; de torná-la mais suscetível ao espírito, à transcendência, ao senso do que é sublime.

Abaixo, um vídeo em espanhol, que fala sobre o aspecto sublime e metafísico da música de Bruckner:

sexta-feira, maio 31, 2024

Mozart, explorador da alma humana para além dos clichês

 


Excelente reportagem do jornal alemão D.W. sobre o gênio austríaco de Mozart.

A Flauta Mágica é uma das óperas mais adoradas do mundo; o Rondó a la turca, Uma pequena serenata musical KV 525 são famosos até como toque de celular. Costuma-se apresentar seu compositor, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), como popstar da música clássica: criatividade transbordante, luminoso, despreocupado.

Contudo mesmo suas obras mais leves geralmente abrigam um nível de profundidade, muitas vezes são testemunhos de conflitos psíquicos. E, como lembra a especialista mozartiana Evelyn Meining, "ele era uma criatura que trabalhava duro, compunha noite e dia".

Como diretora artística do Festival Mozart de Würzburg, na Baviera, ela quer promover uma nova imagem do compositor, liberta dos clichês, pois "Mozart é mais do que um bombom de Salzburg [a Mozartkugel] e mais do que um toque de celular". E certamente mais do que uma peruca empoada.

Em seus poucos anos de vida, o músico austríaco compôs cerca de 600 obras, entre as quais 41 sinfonias e 21 óperas, além de concertos, missas, peças de câmara e canções. "Contemplando a dimensão de sua obra gigantesca, numa vida tão breve, tem-se uma ideia de quantas horas e anos ele passou solitário, compondo", aponta Meining.

Menino-prodígio, rebelde, morte como indigente e posteridade

 
Desde pequenos, Wolfgang e sua irmã igualmente talentosa Anna Maria, "Nannerl", eram exibidos nas cortes como crianças-prodígio. O pai, Leopold, viajava com ambos por toda a Europa, numa sacolejante carruagem puxada a cavalos. Mais tarde Wolfgang desenvolveu uma ojeriza às figuras de autoridade, acabando por abandonar o serviço do arcebispo de Salzburgo a fim de seguir a carreira como autônomo em Viena.

Para os parâmetros da época, ele ganhava bem, mas os gastos sempre superavam o faturamento. Pouco antes da estreia da Flauta Mágica, adoeceu gravemente e, em dezembro de 1791, morreu, com pouco mais de 35 anos e, sem dúvida, uma multidão de composições inéditas na cabeça.

Ao contrário de outras figuras máximas da arte mundial, sua última morada nunca se transformou em local de peregrinação, pois foi sepultado como indigente, em meio a uma tempestade, numa vala comum cuja localização exata logo se perdeu.

"Mozart era diferente, não era como a média de seus contemporâneos", afirma Evelyn Meining, que também é professora de gestão cultural. Seu talento o impelia a criar sem parar, um gênio sem botão de desligar, que não sabia fazer uma pausa. E sua música vive de contrastes: luz e sombra, solidão e alegria plena.

Você conhece a "Mozartkugel", o bombom do Mozart?


Ele descreveu seus estados de espírito paradoxais em numerosas cartas à esposa, Konstanze. Em 1790, escreve: "Se a gente pudesse ver dentro do meu coração, me daria quase vergonha. Tudo é frio para mim, frio como gelo."

Entre as numerosas obras sacras do católico Amadeus Mozart, a última é o Réquiem KV 626, que ficou inacabado. No cristianismo, culpa e redenção ocupam um papel importante, e o compositor também se ocupou intensamente desses temas em suas óperas: no fim de Don Giovanni, o libertino protagonista, incapaz de remorso ou contrição, é arrastado para o inferno pela estátua do comendador que ele assassinara, após seduzir sua filha.

"Ninguém sabe traduzir a alma em sons tão bem quanto Mozart", afirma a especialista Meining. Assim ele continua ressoando na posteridade. E como a voz é o melhor espelho da alma, em 2024 o foco do festival de Würzburg são as óperas, canções e obras corais mozartianas.

"Assim fazem todas": jogo de desilusão e perdão


Grande exemplo de culpa e redenção transformada em teatro e música é a ópera Così fan tutte (Assim fazem todas), composta sobre um libreto do poeta italiano Lorenzo da Ponte e estreada em 1790: dois casais se enredam num caos de sentimentos quando o abastado – e cínico – Don Alfonso desafia os jovens amigos Ferrando e Guglielmo a testarem a fidelidade e devoção de suas noivas, as irmãs Dorabella e Fiordiligi.

A quinta – e essencial – engrenagem desse mecanismo de equívocos e ardis é a esperta e amoral criada Despina. Na superfície, é uma comédia irreverente em torno da quebra de votos – mas também uma exploração do caminho até a resignação filosófica que se sucede à perda dos ideais, a desilusão.

O terceto de despedida de Don Alfonso com as protagonistas femininas trata de desejos e anseios. Através de dissonâncias, Mozart carrega justamente a palavra "desir" (desejo) com uma grande tensão.

O musicólogo Ulrich Konrad, especialista em Mozart, descreve esse momento como um "incomparável símbolo sonoro". Para o jornalista musical e autor Wolfgang Stähr, as "contradições do sentimento humano nunca foram expressas dessa forma em música, antes".

Até fins do século 18, o perdão era um tema central da opera seria: os poderosos perdoavam os pecadores contritos, honra e fama eram atributo dos nobres. Così fan tutte parodia tais noções: todos os participantes, não importa de que classe social, têm sua parcela de culpa. E no fim todos se perdoam mutuamente – ou será que não?

"É preciso não se deixar enganar por essa superfície, que aparentemente desemboca num final feliz", alerta Meining. "Mozart mergulha por baixo dela, nas camadas profundas da condição humana." Para o grande maestro Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Così fan tutte era a ópera mais triste da história da música.

Da culpa alemã até uma sociedade de paz


Em suas óperas, Mozart retrata seres humanos que fracassam, expondo suas culpas sem, no entanto, condená-los. E não por acaso, em 2024 o slogan do Festival Mozart de Würzburg é Culpa e perdão, Mozart explorador de almas (Schuld und Vergebung, Seelenforscher Mozart). "Anticonvencional e aberto a experimentos", o maior evento da Alemanha dedicado ao compositor explora facetas sempre novas. E também procura pontos de contato com o presente.

Nesse espírito foi criado o projeto "Hell ist die Nacht" ("Clara é a noite"), que trata da culpa dos alemães no nazismo. Em 16 de março de 1945, portanto já no fim da Segunda Guerra Mundial, num intervalo de 20 minutos uma chuva de bombas da Força Aérea Real britânica destruiu 90% de Würzburg.

Cerca de 500 pessoas encontraram proteção no abrigo aéreo do Convento das Irmãs do Santo Redentor. Quase 80 anos depois, o local é palco de uma instalação músico-teatral: com poesia, relatos de testemunhas da época e, naturalmente, também música de Mozart, a culpa dos alemães é tematizada.

"Mesmo depois da Segunda Guerra, muitos alemães afirmavam que nada sabiam da perseguição dos judeus. E, claro, uma guerra também não é coisa de poucos", questiona Evelyn Meining. Perante o recrudescimento do extremismo de direita e das guerras em curso, esse tema volta a ser dolorosamente atual.

A instalação no convento também trata do caminho para uma nova vida, como sociedade pacífica. Assim, "aqui, partindo da culpa, pode começar um novo caminho para o futuro, com uma conduta responsável como sociedade e como indivíduos", exorta a diretora Evelyn Meining. A responsabilidade cabe a cada um.


Disponível AQUI.

 

quarta-feira, maio 22, 2024

Uma declaração de Todorov sobre os poderes da literatura



"Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano" 

Do livro "A literatura em perigo". 


segunda-feira, abril 15, 2024

Ler devia ser proibido



LER DEVIA SER PROIBIDO

Guiomar de Grammont1

A pensar fundo na questão, eu diria que ler devia ser proibido.

Afinal de contas, ler faz muito mal às pessoas: acorda os homens para realidades impossíveis, tornando-os incapazes de suportar o mundo insosso e ordinário em que vivem. A leitura induz à loucura, desloca o homem do humilde lugar que lhe fora destinado no corpo social. Não me deixam mentir os exemplos de Dom Quixote e Madame Bovary. 

O primeiro, coitado, de tanto ler aventuras de cavalheiros que jamais existiram meteu-se pelo mundo afora, a crer-se capaz de reformar o mundo, quilha de ossos que mal sustinha a si e ao pobre Rocinante. Quanto à pobre Emma Bovary, tomou-se esposa inútil para fofocas e bordados, perdendo-se em delírios sobre bailes e amores cortesãos.

Ler realmente não faz bem. A criança que lê pode se tornar um adulto perigoso, inconformado com os problemas do mundo, induzido a crer que tudo pode ser de outra forma. Afinal de contas, a leitura desenvolve um poder incontrolável. Liberta o homem excessivamente. Sem a leitura, ele morreria feliz, ignorante dos grilhões que o encerram. 

Sem a leitura, ainda, estaria mais afeito à realidade quotidiana, se dedicaria ao trabalho com afinco, sem procurar enriquecê-la com cabriolas da imaginação. Sem ler, o homem jamais saberia a extensão do prazer. Não experimentaria nunca o sumo Bem de Aristóteles: o conhecer. Mas para que conhecer se, na maior parte dos casos, o que necessita é apenas executar ordens? Se o que deve, enfim, é fazer o que dele esperam e nada mais?

Ler pode provocar o inesperado. Pode fazer com que o homem crie atalhos para caminhos que devem, necessariamente, ser longos. Ler pode gerar a invenção. Pode estimular a imaginação de forma a levar o ser humano além do que lhe é devido.

Além disso, os livros estimulam o sonho, a imaginação, a fantasia. Nos transportam a paraísos misteriosos, nos fazem enxergar unicórnios azuis e palácios de cristal. Nos fazem acreditar que a vida é mais do que um punhado de pó em movimento. Que há algo a descobrir. Há horizontes para além das montanhas, há estrelas por trás das nuvens. 

Estrelas jamais percebidas. É preciso desconfiar desse pendor para o absurdo que nos impede de aceitar nossas realidades cruas.

Não, não deem mais livros às escolas. Pais, não leiam para os seus filhos, pode levá-los a desenvolver esse gosto pela aventura e pela descoberta que fez do homem um animal diferente. Antes estivesse ainda a passear de quatro patas, sem noção de progresso e civilização, mas tampouco sem conhecer guerras, destruição, violência. Professores, não contem histórias, pode estimular uma curiosidade indesejável em seres que a vida destinou para a repetição e para o trabalho duro.

Ler pode ser um problema, pode gerar seres humanos conscientes demais dos seus direitos políticos em um mundo administrado, onde ser livre não passa de uma ficção sem nenhuma verossimilhança. Seria impossível controlar e organizar a sociedade se todos os seres humanos soubessem o que desejam. Se todos se pusessem a articular bem suas demandas, a fincar sua posição no mundo, a fazer dos discursos os instrumentos de conquista de sua liberdade.

O mundo já vai por um bom caminho. Cada vez mais as pessoas leem por razões utilitárias: para compreender formulários, contratos, bulas de remédio, projetos, manuais etc. Observem as filas, um dos pequenos cancros da civilização contemporânea. Bastaria um livro para que todos se vissem magicamente transportados para outras dimensões, menos incômodas. E esse o tapete mágico, o pó de pirlim-pim-pim, a máquina do tempo. 

Para o homem que lê, não há fronteiras, não há cortes, prisões tampouco. O que é mais subversivo do que a leitura?

É preciso compreender que ler para se enriquecer culturalmente ou para se divertir deve ser um privilégio concedido apenas a alguns, jamais àqueles que desenvolvem trabalhos práticos ou manuais. Seja em filas, em metros, ou no silêncio da alcova. Ler deve ser coisa rara, não para qualquer um.

Afinal de contas, a leitura é um poder, e o poder é para poucos.

Para obedecer não é preciso enxergar, o silêncio é a linguagem da submissão. Para executar ordens, a palavra é inútil.

Além disso, a leitura promove a comunicação de dores e alegrias, tantos outros sentimentos. A leitura é obscena. Expõe o íntimo, torna coletivo o individual e público, o secreto, o próprio. A leitura ameaça os indivíduos, porque os faz identificar sua história a outras histórias. Torna-os capazes de compreender e aceitar o mundo do Outro. Sim, a leitura devia ser proibida.

Ler pode tornar o homem perigosamente humano.

 1Guiomar de Grammont é uma dramaturga, filósofa, escritora e editora brasileira, nascida em Ouro Preto/MG. Atualmente, também é diretora do Instituto de Filosofia Artes e Cultura da Universidade Federal de Ouro Preto. 

 

(In: PRADO, J. & CONDINI, P. (Orgs.). A formação do leitor: pontos de vista. Rio de Janeiro: Argus, 1999. pp.71-3. Disponível em: http://www.trt05.gov.br/trt5new/areas/ddrh/LER_DEVIA_SER_PROIBIDO.doc. Acesso em: 0

 

quinta-feira, abril 04, 2024

A língua portuguesa enquanto pátria

 


O português do Brasil ainda é provinciano. Nossas dimensões continentais nos tornaram condescendentes. A verdade é que são poucos os cidadãos mundiais que podem viver tão plenamente absortos em sua própria cultura quanto os brasileiros. Não é difícil viver uma vida inteira no Brasil, uma vida plena e rica, só consumindo cultura audiovisual brasileira, das músicas às novelas, só convivendo com pessoas brasileiras, mal e mal consciente de que existem outros países além-fronteiras. Só o estadunidense tem uma empáfia tão autocentrada quanto a nossa. Sim, sabemos que, um dia, no passado, houve um país chamado Portugal: Camões escreveu Os Lusíadas e ficamos independentes dele. Mas, para esse brasileiro médio, que nunca vê filmes portugueses no cinema ou ouve músicas portuguesas nas rádios, é como se Portugal não existisse mais, uma nação tão morta quanto a Roma Antiga. E, naturalmente, se Portugal mal e mal existe, os outros países lusófonos, do Timor-Leste a Angola, nunca nem existiram. Para quebrar esse paroquialismo, nada melhor que a onda de grande literatura lusófona sendo publicada no Brasil nas últimas décadas, especialmente africana, de Mia Couto a Agualusa, de Kalaf Epalanga a Ondjaki.

Para a imensa maioria das pessoas brasileiras, que ignora as milhares de línguas originárias ainda sobrevivendo em nosso país, a língua portuguesa é um dado. Ela está por todos os lados, em todos os periódicos, em todos os canais de TV, nas rádios, nos outdoors. Nunca houve a proposta de uma brasilidade que não fosse lusófona. Para todos os fins e efeitos, é como se Brasil e a língua portuguesa fossem uma coisa só, encalacrada, já resolvida.

Uma das maiores delícias de ler autores como o músico e escritor angolano Kalaf Epalanga é que, para ele, a língua portuguesa está longe de ser um assunto enterrado e resolvido. Ela é um problema apaixonante e uma paixão problemática. Epalanga nos lembra que não somos um continente que fala uma língua que é só nossa: por mais que façamos questão de ignorar essa realidade, somos parte de uma comunidade lusófona global. Linguisticamente, o brasileiro médio, mais que monoglota, é monogâmico: agimos como se a língua fosse só nossa. Mas o português, queiramos ou não, saibamos ou não, está na cama com vários outros países, com várias outras culturas. Me disse um amigo de Amsterdã: “A língua holandesa é como pijama: só usamos em casa”. Não é definitivamente o caso da última flor do Lácio. Ou — como sugere Caetano W. Galindo em seu recente e excelente Latim em pó (Companhia das Letras, 2023) — “broto africano, flor de Luanda”.

Para Epalanga, músico tornado escritor, a língua portuguesa não é um dado, mas uma ferramenta. O fato de sua produção artística ser classificada como “literatura lusófona” é algo que ele somente “aceita”, se sentindo incompleto e envergonhado por achar que não está contribuindo para a construção de uma literatura angolana descolonizada, “uma literatura que respondesse à minha inquietação: sem a presença, a compreensão e o uso das línguas que carregam a memória dos nossos antepassados, como poderemos gritar alto que a nossa história não começa com a chegada dos europeus à África?”, como escreve em Minha pátria é a língua pretuguesa, livro de crônicas que acaba de chegar ao Brasil pela editora Todavia. Nos outros países lusófonos, a relação com a língua nunca é tão tranquila. Como diz Mia Couto, citado por Epalanga: o idioma português pode até não ser o idioma dos moçambicanos, mas é o único idioma da moçambicanidade. 

Epalanga, nascido em 1978 numa Angola independente convulsionada pela guerra civil (1975–2002), é filho da geração que efetivamente fez a independência. Seus pais, em larga maioria, não tinham o português como língua materna, mas fizeram questão que seus filhos tivessem: “é-me difícil compreender o porquê de terem descartado o ensino das línguas bantus aos seus filhos”. A resposta dos pais é a mesma de tantos africanos: a língua do colonizador, justamente por não pertencer a nenhuma das etnias em conflito pelo poder político, era a que melhor servia ao projeto de união nacional. Ao vencedor, a língua.

Rara é a crônica onde Epalanga não faz conexões inusitadas entre países e culturas lusoafricanas que mal aparecem no horizonte cultural brasileiro, um horizonte que vai se parecendo mais e mais limitado na comparação, seja por paroquialismo (brasileiros que só falam de Brasil) ou viralatismo (que só enxergam valor na produção cultura dos Estados Unidos e Europa). A cada vez que esse angolano, com seus amigos moçambicanos, vai a um clube noturno lisboeta (cidade que ele define como a mais africana da Europa) ouvir ritmos cabo verdianos, é uma facada salutar na nossa condescendência continental brasilcêntrica.

Pode o pretuguês falar?

Duas das crônicas de Minha pátria é a língua pretuguesa trazem reflexões sobre o filme Pantera Negra (2018) e do seu significado para as pessoas africanas da geração de Epalanga. A existência de Wakanda, uma nação africana ultra tecnológica, traz consigo um exercício mental “com a amplitude que só um produto de Hollywood consegue atingir”: o que teria sido da África sem seus conquistadores brancos e colonizadores europeus? Se as fronteiras nacionais tivessem sido desenhadas pelos próprios africanos? E se? Para nós, pessoas brasileiras, esse exercício mental pode ser muito fecundo. Eu, por exemplo, penso logo em uma de nossas maiores autoras, Carolina Maria de Jesus. Quem seria Carolina sem a escravidão e sem a favela, sem a pobreza e sem a desigualdade? Como ela escreveria? Qual seria sua voz autoral?

Em 2005, fazendo mestrado em literatura brasileira nos EUA, nos deram para ler Quarto de despejo. Eu, menino privilegiado e ignorante, nunca tinha ouvido falar. Na livraria, não tinha pra vender. Na biblioteca, todos os exemplares em português já tinham saído. Li Quarto de despejo pela primeira vez em uma tradução ao espanhol. Chegando na aula, folheei os livros das colegas e senti a facada bem nas minhas costas. Tudo bem, sempre soube que tradutores são traidores, sou um deles, aceito a pecha, mas nunca tinha sentido essa traição realmente na pele: enquanto Carolina escrevia um português que era só dela, com todos os desvios da norma culta que tinham lhe sido impostos pela desigualdade brasileira, a Carolina-hispânica falava num espanhol quase perfeito. Ela tinha sido corrigida, domesticada, higienizada. E surge a questão: o português de uma de nossas maiores escritoras precisa ser corrigido? O pretuguês de Carolina Maria de Jesus precisa ser embranquecido?

O assunto ganhou as páginas dos jornais. Sua obra maior, Quarto de despejo, está atualmente em catálogo pela Ática na versão editada e corrigida por seu “descobridor”, o jornalista Audálio Dantas. Mas já sabemos, pelo cotejo cuidadoso desse texto publicado com os diários manuscritos de Carolina – trabalho primoroso realizado por Elzira Divina Perpétua, e publicado em seu A vida escrita de Carolina Maria de Jesus — que Audálio fez edições muito extensivas, cortando trechos e até acrescentando frases. Já a Companhia das Letras está publicando a obra de Carolina e começou por Casa de alvenaria, a sequência a Quarto de despejo, publicado em dois volumes e respeitando todas as idiossincrasias do pretuguês de Carolina. O assunto, porém, não está resolvido.

De um lado, intelectuais, como Regina Dalcastagnè, professora de Teoria Literária da Universidade de Brasília (UnB), consideram que, ao não corrigir esses desvios, o mercado literário mantém Carolina na posição exótica de outsider. Afinal, os grandes escritores sempre têm sua escrita corrigida pelas editoras antes de chegarem ao público. Do outro lado, o Conselho Editorial Carolina Maria de Jesus, formado por suas filhas e por escritoras e intelectuais negras, como Cidinha da Silva e Conceição Evaristo, defende “deixar a literatura de Carolina poder ser, sem tantas interferências”, “apresentá-la da maneira mais integral possível”, ao invés de “higienizá-la” e “esvaziá-la”.

O assunto “pretuguês”, como fica claro, transcende a própria lusofonia. Em 2014, publiquei pela Hedra uma tradução anotada da autobiografia do poeta escravizado afrocubano Juan Francisco Manzano. Autodidata, esse homem brilhante aprendeu a ler e escrever por conta própria, nas madrugadas, apesar das proibições de seus senhores. Em 1836, uma sociedade abolicionista lhe encomendou uma autobiografia de sua vida no cativeiro. Manzano atendeu a encomenda — o manuscrito original, em sua própria caligrafia, está na Biblioteca Nacional José Martí, em Havana — e, em troca, os abolicionistas publicaram o texto traduzido em Londres e fizeram uma vaquinha para comprar sua liberdade. Manzano, assim como Carolina Maria de Jesus, conquistou um futuro melhor — ele, a liberdade; ela, o sucesso literário — através de seu gesto transgressor de se apropriar da língua literária da elite para denunciar essa mesma elite. Mas, naturalmente, ambos escreviam fora da norma culta.

A verdade é que a autobiografia de Manzano e o diário de Carolina são mais que seu conteúdo: a forma da escrita de ambos é o melhor autorretrato que temos deles e sua maior contribuição à literatura. Seus erros de ortografia, gramática e sintaxe nos inspiram respeito: não são erros, mas sim marcas tão concretas e tão reais da escravidão quanto os lanhos de chicote em sua carne. Corrigi-los significa apagar sua trajetória, silenciar seu sofrimento, rasurar sua vida.

Para tentar transmitir à pessoa leitora brasileira uma experiência o mais próxima possível à de ler Manzano no original, tentei criar desvios da norma culta e idiossincrasias verbais em português que fossem similares, e na mesma proporção, aos que ele teria cometido se tivesse crescido e aprendido a escrever como uma pessoa escravizada no Brasil de princípios do século XIX. Ou seja, na prática, inventei um pretuguês oitocentista. A editora, entretanto, apesar de aceitar essa versão pretuguesa, bateu o pé: se não houvesse também uma versão na norma culta, o livro não poderia ser publicado. “E os editais do governo?”, disseram. (De fato, o livro foi um dos selecionados para o PNLD 2018.) Então, o livro, como saiu em 2014, tem duas versões da mesma tradução: em pretuguês e em português.

Em pretuguês: “Mas vamos saltar dos annos 1810 11 e 12 até o presente de 1835 deixando em seu intermedio o vastisimo campo de visisitudes escolhendo entre elles os graves golpes com qe. a fortuna me obrigou á deixar a caza paterna ou nativa pa. experimentar as diversas cavernas com qe. o mundo me esperava p. devorar minha inesperiente e debil joventude”. E na norma culta: “Mas vamos saltar dos anos de 1810, 1811 e 1812 até o presente de 1835, deixando em seu intermédio o vastíssimo campo de vicissitudes, escolhendo entre elas os graves golpes com que a fortuna me obrigou a deixar a casa paterna, ou nativa, para experimentar as diversas cavernas com que o mundo me esperava para devorar minha inexperiente e débil juventude”.

Em um ensaio famoso, publicado em 1985, a pensadora indiana Gayak Spivak perguntou: “Pode o subalterno falar?” Talvez seja o caso de levarmos a pergunta um passo além: “pode o pretuguês falar... sem ser corrigido?” O pretuguês se basta? Precisa ser escoltado pela norma culta?

Minha nação é minha pele

Epalanga, ao escrever sobre o leve aceno de cabeça com o qual todas as pessoas negras se cumprimentam pelo mundo, comenta que a cor da pele já é, em si mesma, uma nacionalidade. Até pouco tempo atrás, com a exceção dos mouros do Norte da África, poucos foram os africanos negros que saíram do continente por vontade própria. Quase sempre, foram violentamente arrancados. Então, ser negro fora da África é compartilhar uma pátria, uma identidade, um senso de comunidade que independe do país onde a pessoa nasceu. O aceno é reconhecimento e uma celebração: eu te vejo, estamos aqui, estamos vivos. Nesse sentido, o pretuguês de Epalanga e de Carolina, assim como a fala do escravizado cubano (afrospanhol?), são diferentes variantes de uma mesma língua pan-africana, dessa fala comum a todas essas pessoas que, ao se esbarrar em Oslo ou Osaka, trocam um rápido, poderoso aceno de reconhecimento.

Minha pátria é a língua pretuguesa traz crônicas interessantes e compartilha conosco o amplo universo cultural afrolusófono do autor. Mas, por serem crônicas, não se propõem em aprofundar as questões da africanidade do português. Para quem quiser saber mais, recomendo Por um feminismo afro-latino-americano (Zahar, 2020), citado na epígrafe e escrito por Lélia Gonzalez, a brilhante antropóloga afro-brasileira que cunhou o termo “pretuguês”. Além disso, também vale a pena ler o já citado Latim em pó, de Caetano W. Galindo, que além de fazer um delicioso passeio pela história da nossa língua, dedica deliciosas páginas às suas raízes africanas. São leituras tão leves quanto um livro de crônicas, muito informativas e bem mais recompensadoras.

 

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segunda-feira, abril 01, 2024

Literatura - o que é isso?

 Estou fazendo uma pós-graduação em Literatura, Gramática e Texto. Enquanto lia o material, foi-me sugerido assistir a esse vídeo. Decidi compartilhá-lo. Pareceu-me muito bom! O segundo vídeo traz o maravilhoso Antonio Cândido.