terça-feira, maio 22, 2018

Sobre uma classe média marrenta e burra

Hoje é comum encontrar um médico com pressa de chegar em casa para assistir ao Big Brother Brasil, um engenheiro prostrado em sua sala vendo programas de auditório de domingo, ou advogados e professores ansiosos para o lançamento do próximo Vingadores, filme de maior bilheteria da indústria cultural.

Uma pesquisa divulgada em 2016 mostra que 44% dos brasileiros não leem, e que 30% nunca compraram um livro. Portugueses já estão criticando a enxurrada de brasileiros que estão desembarcando em terras lusitanas, dizendo que os recém-chegados, em muitas situações, se “acham melhores do que as outras pessoas, ‘apesar de terem baixíssima cultura e civilidade’”, segundo o jornalista Sidney Rezende.

Curiosamente foi o PT que criou essa “nova classe média”, um grupo que saiu da classe D para a classe C devido ao aumento, exclusivo, do poder de compra. Lógico que o poder de compra leva a um acesso maior aos bens culturais produzidos e herdados historicamente. O número de brasileiros que frequenta a faculdade aumentou consideravelmente nos anos 2000. Mas por que o brasileiro continua inculto?

O pensamento estruturalista de Clifford Geertz e Raymond Williams entende “cultura” como redes de significações nas quais está suspensa a humanidade, ou como um sistema significante do qual uma ordem social é comunicada, reproduzida, experienciada e explorada. Mas, e aqui concordo com Terry Eagleton, “a cultura não é alguma vaga fantasia de satisfação, mas um conjunto de potenciais produzidos pela história e que trabalham subversivamente dentro dela”.[1] A neófita classe média parece desprezar o contato com esses sinais herdados historicamente.

Sim! Ao sair da classe D, faz questão de negar o que acha inferior, mas não consegue absorver os elementos mais “sofisticados”. Vê o pobre como inculto, ignorante, mas será que é tão diferente assim? Talvez o poder de compra a tenha contaminado, espiritualmente falando. Contudo, não podemos negar que ela corre atrás de cultura, pois busca estudar, se especializar, viajar etc., mas é uma cultura para ter trabalho e lazer, que jamais permitirá a inversão desse processo: o trabalho e o lazer para se ter cultura.

Adquire o conhecimento útil, apenas o que serve para o trabalho e, assim, obter poder de compra. Estuda, faz faculdade para ter um bom emprego e só. Cultura para trabalho e não trabalho para cultura. Essa classe média enche suas redes sociais com fotos de viagens, geralmente com legendas ligadas a diversão e ao lazer. Não pretende apreender a cultura dos lugares que visita, o “conjunto de potenciais produzidos pela história”, como disse Eagleton. É uma cultura que está para o lazer e a diversão e que jamais conceberá o lazer e a diversão para a cultura.

É uma classe que avilta tanto a cultura que coloca o dinheiro acima de qualquer manifestação interpretativa do real. Talvez por isso os professores são tão menosprezados atualmente, pois com o salário que recebem, não podem ser tão confiáveis assim. Confiam mais em comediantes, atletas e youtubers endinheirados que na fala de um especialista assalariado.

Não estou dizendo que a pessoa não pode ir ao cinema ou consumir o que quiser apenas para se divertir, mas que os instrumentos disponíveis por ela, em muitos casos, para interpretar o que vê, não estão tão distante dos das crianças que só têm “como atração o bar e o candomblé pra se tomar a bênção”.

O mercado se aproveitou dessa “cultura” de classe média e intensificou uma indústria cultural que vende o que a mantém mentalmente na posição que está (enojando a produção cultural dos debaixo, e invejando a vida material dos de cima). Na produção excessiva de séries e filmes, uma ideologia que foca na liberdade de consumo é venerada, provocando risos, lágrimas e catarse. Além de cultuar a tecnologia, um dos principais alvos do seu exagero consumista.

A classe média critica o modo de vida da “ralé” (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza), sua religião, sua música, a humilha na atividade laboriosa, esbanja sua soberba e superioridade, mas é inculta, não lê, e se contenta com análises superficiais da política, da economia e da sociedade que vive.

Como disse Terry Eagleton, a cultura produz elementos que podem ser usados contra ela mesma, isto é, subversivos. No entanto, essa classe que está mais preocupada em gastar em objetos que não passam de símbolos que esnobam uma superioridade alienada e alienante, não é capaz de criticar o que consome, apenas reproduz uma condição social e mental que seja supostamente útil para diferenciá-la das classes desprivilegiadas.

A partir da década de 1960, cultura passou a significar a afirmação de uma identidade, seja ela nacional, sexual, regional etc. A comercialização dessas identidades pela indústria cultural trouxe uma tolerância de fachada, consumidora apenas, que na prática, na troca simbólica do dia a dia, não mudou muita coisa. Essa classe média, principal consumidora dessa indústria, representa muito bem isso. Além disso, essa “cultura das identidades”, representada e apropriada pelas séries da Netflix e pelos filmes de Hollywood, desprezou as contradições da classe trabalhadora, ajudando a construir, na mentalidade dessa classe média, um ódio ao pobre maior que ao gay, ao negro, à mulher etc.

Contudo, quando esse grupo pensa em mudança, não almeja ir para frente, mas voltar a um passado de quando não era classe média, quando o que chama de “ordem” vigorava, quando aqueles que veneram (ricos empresários e poderosos “dignos”, como militares e alguns políticos entreguistas) eram “justos”, quando era menos arriscado consumir, embora a cultura fosse reprimida…

A ascensão social gerada pelo governo Lula produziu uma classe acéfala que presa mais pela condição de consumidor que a de cidadão. Que adquire cultura o suficiente para o trabalho, mas que não trabalha para adquirir cultura. Que gasta em cultura para adquirir prazer e não em prazer para adquirir cultura. Desta maneira, a arrogância encontra diversos hospedeiros que vomitam soberba e proliferam o ódio de classe.


*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

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