segunda-feira, outubro 19, 2026

Romanceiro da Inconfidência e a grandeza da literatura

 



“Ai, palavras, ai, palavras
Que estranha potência a vossa”
Cecília Meireles

Terminado Romanceiro da Inconfidência, resta a impressão de que li uma das obras mais bonitas e densas da literatura já escrita no Brasil. Não se trata de uma confissão hiperbólica. Estamos a falar de um livro cujo tempo de pesquisa de documentos e fontes custou a disciplina e a paciência de Cecília Meireles. O tempo dedicado à escrita e à pesquisa perfaz um total de dez anos. Dez anos de um período em que as palavras foram organicamente pesadas e pensadas para remontar um dos momentos mais emblemáticos da história do país – “A Insurreição Mineira”.  Uso aqui o nome “insurreição”, pois o termo “inconfidência” foi uma designação da Coroa Portuguesa. “Inconfidente” é aquele ou aquela em que não se pode confiar ou depositar qualquer crença. São os traidores. Desse modo, observa-se um movimento para desprestigiar o movimento e aqueles que se organizaram em torno de uma causa.

A própria Cecília explica que, ainda no início dos anos 40, na condição de jornalista, esteve em Ouro Preto para escrever uma reportagem sobre o Movimento. Como lhe era comum, o primeiro contato com a cidade movimentou engrenagens interiores. O substantivo “viagem” sempre esteve no horizonte poético da escritora. Foram inúmeras as viagens que realizou. Essas viagens serviam como catalizadoras experiências existenciais. Em 1939, a poetisa (como gostava de ser chamada) escreveu o seu importante livro Viagem.

Em Ouro Preto, a antiga Vila Rica, era como se o passado, misturado a uma massa convulsa de heróis e vilões estivesse à espreita nas janelas do casario colonial; no incenso adormecido nas paredes e altares das igrejas daquela cidade viva. Ela mesmo chamou isso de “ressonâncias incansáveis”. Essa impressão é comum àqueles que vão a Ouro Preto. A primeira imagem da cidade impressiona. 

Recordo que estive em Ouro Preto em 2022. Cheguei à cidade à noite e, de longe, ao ver as igrejas históricas iluminadas, em cimos, em pontos estratégicos, deu-me a impressão inicial de que elas estavam suspensas na escuridão cerrada da noite. Fiquei fascinado. A impressão confirmou-se na manhã seguinte, quando percebi a geografia da cidade e as cercanias com suas elevações. Um embasbacamento naturalmente surgiu. Aquele contato inicial levou-a a iniciar uma investigação. Em 1953, o livro foi publicado. E não estamos a falar de uma obra poética convencional.

Embora vinculado ao Modernismo, o estilo da poetisa carioca é neossimbolista; a musicalidade, a sugestão, a espiritualidade, a atmosfera de indefinição e a reflexão sobre a transitoriedade são elementos que estruturam seus textos. Sua obra possui uma preocupação com as imagens. Apesar dos modernistas investirem no material, no real, no mundo dinâmico e contingente dos homens, Cecília transita para uma outra região.

Segundo o crítico Alfredo Bosi, há em Cecília “certo distanciamento do real imediato e norteia os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, quando não para o sentimento da ausência e do nada”.  O estilo da escritora está bem próximo da poesia católica de Murilo Mendes e Jorge de Lima – claro, não na forma. Embora compartilhe com os modernistas a liberdade de experimentação e a renovação da linguagem poética, Cecília diverge um pouco de Carlos Drummond, de Manuel Bandeira ou de Mário de Andrade. Seu texto transcende a matéria e preocupa-se com a memória, com os sonhos, com a transfiguração da experiência no tempo.

No “Romanceiro da Inconfidência” Cecília se viu livre para ampliar certas compreensões da história, utilizando a poesia como ferramenta. Procurou narrar certos feitos, descrevendo heróis, vilões, personalidades, grandezas e perfídias; refletiu sobre a passagem do tempo. Ela poderia ter utilizado o gênero épico, algo que certamente daria ao livro um outro encaminhamento. A questão é que ela teria de erguer a figura de um herói. O problema é que no movimento orquestrado pelos inconfidentes, não é possível falar em heróis. A coroa portuguesa foi inclemente. Todos aqueles direta ou indiretamente ligados ao movimento separatista foram torturados, presos, perdendo as suas posses ou exilados – o caso mais famoso é do poeta Tomás Antônio Gonzaga, enviado para Moçambique, nunca mais retornando ao Brasil; ou de Alvarenga Peixoto, banido para Angola, onde morreu de uma febre tropical.

Cláudio Manuel da Costa também morreu na prisão. Sua morte é questionada em  “Romanceiro da Inconfidência”. Foi um suicídio ou alguém que forjou a sua morte, criando o discurso de que o poeta teria tirado a própria vida? Resta a figura de Joaquim José da Silva Xavier, o alferes, mais conhecido como Tiradentes, por causa da sua segunda profissão. Essa personagem ficou para a posteridade como sendo aquele sofreu a mais atroz violência, tendo sido enforcado em 21 de abril de 1792 e, logo em seguida, sofrendo esquartejamento, uma morte com um requinte de selvageria. A imagem do mártir foi trabalhada ao longo da história pela iconografia, principalmente a partir da República. Hoje, suas retratações o aproximam de um cristo, de alguém que sofreu por uma causa grandiosa.

Diante desse problema, Cecília se utiliza do gênero romance ou romanceiro. Todavia, importa dizer que não estamos a falar do mesmo gênero surgido na modernidade, com personagens, tempo cronológico e psicológico, narração fictícia, enredo e desfecho. O gênero utilizado por Cecília surgiu na península Ibérica, estruturado na tradição oral, já na Baixa Idade Média, composto por blocos narrativos denominados romances. Ou seja, há um certo tipo de narração, mas que não é feito em prosa. A escritora era fascinada pela Idade Média.  A própria Cecília afirma sobre a escolha desse gênero em artigo escrito em 1955:

“O Romanceiro teria a vantagem de ser narrativo e lírico; de entremear a possível linguagem da época à dos nossos dias; de não podendo reconstituir inteiramente as cenas, também não as deformar inteiramente; de preservar aquela autenticidade que ajusta à verdade histórica o halo da tradição e da lenda”.

Cecilia Meireles em seu local de trabalho

Tendo realizado essa escolha, vislumbramos três momentos cronológicos que perpassam a obra.

(1) o primeiro é o do gênero, pois a poetisa busca na Idade Média elementos para retratar a história, mas distante do tempo de surgimento desse mesmo gênero. O romanceiro possui elementos épicos, sem se preocupar com o destino do herói, além de carregar consigo a tradição dos heptassílabos (redondilhas maiores) utilizados nas baladas medievais, oriundas da França e da Itália. A autora alterna versos de cinco e sete sílabas poéticas, sem se limitar a um padrão métrico fixo.

(2) Outro tempo é da própria ocorrência dos fatos. Para isso, muitos dos versos se inspiram na estrutura dos poemas árcades. É como se os próprios poetas do Arcadismo estivessem a escrever, a retratar os eventos ocorridos. Pode-se citar, por exemplo, o próprio Cláudio Manoel da Costa. Talvez, seja uma forma de homenagear aqueles intelectuais tão importantes, que foram responsáveis pela estruturação de um sentimento nacionalista e um país livre.

(3) O tempo em que o livro foi escrito e o momento em que lemos a própria obra. Cecília é considerada uma escritora da Segunda Geração Modernista. Apesar do rigor da forma, ela, como uma intelectual do seu tempo, utiliza elementos completamente diferentes para recontar feitos de quase duzentos anos, fazendo uso de um gênero oriundo da Baixa Idade Média. Sua obra não seria anacrônica? Talvez, com outro escritor, sim. Não com ela. A obra não deixa de ser modernista. São ao todo 85 romances, além dos discursos, que surgem como “Falas”, “Cenários”, “Imaginária Serenata” e “Retrato”. Há versos – como já descrito – pentassílabo ou heptassílabos; às vezes, os são versos livres. As rimas aparecem também – alternadas, intercaladas; mas, às vezes, os versos são brancos, ou seja, sem rimas. Cecília utiliza o romanceiro como gênero em que assenta seu compromisso em remontar aquelas “ressonâncias incansáveis”, mas procura ser livre na formatação dos versos e estrofes.

A obra possui passagens de grande beleza poética, característica que faz de Cecília um dos principais nomes da poesia escrita em língua portuguesa. Abaixo, alguns versos escolhidos com um forte apelo imagético, que atestam a beleza e eloquência poética da obra:

“A palavra Liberdade

Vive na boca de todos:

Que não a proclama aos gritos,

murmura em tímido sopro”.

(Romance XXIII)

“Hei de bordar-vos um lenço

Em lembrança destas Minas;

Ramo de saudade, imenso...

Lágrimas bem pequeninas”

(Romance LXX)

“Eles eram muitos cavalos,

Ao longo dessas grandes serras,

De crinas abertas ao vento,

A galope entre águas e pedras.

Eles eram muitos cavalos,

Donos dos ares e das ervas

Com tranquilos olhos macios,

Habituados às densas névoas,

Aos verdes prados ondulosos,

Às encostas de árduas arestas,

À cor das auroras nas nuvens,

Ao tempo de ipês e quaresmas”

(Romance LXXXIV)

“Romanceiro da Inconfidência” é uma obra cuja beleza se integra às belezas barrocas e à estética das produções árcades dos poetas e intelectuais que viveram em Ouro Preto. Cecília Meireles, com sua sensibilidade característica, não tinha como principal objetivo recontar a história da Conjuração ocorrida no final do século XVIII – para isso existem os historiadores. Sua tarefa foi construir um painel, remontar com o máximo de liberdade os eventos ali ocorridos, o que realça ainda mais o poder da literatura. A obra ajuda-nos a refletir como a arte é capaz de tornar os eventos do mundo material em algo ainda mais nítido. A literatura transfigura, por meio das palavras, o mundo e a história.  Talvez, seja, por isso, que a própria Cecília chama a atenção para a estranha potência que existe nas palavras. 

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