quinta-feira, março 29, 2018

"A Guerra do fim do mundo", de Mário Vargas Llosa

Ruína da antiga cidade de Canudos-BA
Uma das primeiras coisas que li em português foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para mim, foi uma das grandes experiências da minha vida de leitor. Foi como ter lido, quando garoto, Os Três Mosqueteiros, ou, já adulto, Guerra e Paz, Madame Bovary ou Moby Dick. Foi realmente o encontro com um livro muito importante, uma experiência fundamental. Um deslumbramento, realmente, um dos grandes livros que já se escreveram na América Latina. Mario Vargas Llosa

Canudos é um dos pontos mais controvertidos da história do Brasil. Até hoje, o debate em torno da ação do Estado em relação ao genocídio promovido pelas forças armadas no nordeste da Bahia é um fato pouco explorado ou refletido, como tantos outros no Brasil. Acertar contas com a história é uma questão essencial para um país que deseja corrigir injustiças promovidas para que elas não se repitam. 

Muitos já escreveram sobre Canudos. O relato mais conhecido é o de Euclides da Cunha, o jornalista de formação militar e positivista que esteve na região cobrindo os combates sangrentos e que mais tarde levaria ao papel as suas afiadas memórias. O relato de Euclides é tão fascinante que, para além de história, ganhou conotações de grandiosidade literária. 

Já separei Os Sertões para realizar a leitura. Acredito que todo brasileiro possui, obrigatoriamente, o dever de ler a obra de Euclides da Cunha. Ela revela um pouco da violência com que as oligarquias do país tratam os pobres. Um pretenso orgulho republicano, de uma das sociedades mais atrasadas da América Latina à época, vitimou quase trinta mil vidas. Eram sertanejos que fugiam da miséria. Ancoravam-se na fé. Esperavam uma espécie de redenção histórica. Acreditavam que Antônio Conselheiro era um enviado de Deus; um profeta poderoso. Um mensageiro de Dom Sebastião. Canudos constituía-se em um grande oásis. Ela possuía suas próprias regras. Conselheiro um propalado republicano era um inimigo da República. Possuía posições obscurantistas.

Pois essa história extraordinária fascinou Mario Vargas Llosa. Após ter lido Os Sertões (imagino que não deve ter sido fácil para ele, já que o texto de Euclides oferece bastantes obstáculos. Seja por sua formação militar do escritor, seja pelas habilidades técnicas como engenheiro, o texto de Euclides é denso, repleto de uma linguagem provocadora), o escritor peruano ficou enfeitiçado pela narrativa euclideana. Aquilo enche-o de otimismo. Isso eram os idos dos anos 70. Resolveu, pois, visitar a região onde ficava situada a cidade. Sentiu as emanações quentes do clima agreste. Visualizou as elevações, o terreno, as pedras, aspectos estes pormenorizados na primeira parte do livro de Euclides da Cunha; esteve ainda nas cidades circunvizinhas a Canudos. Estas cidades são fartamente citadas no romance A guerra do fim do mundo.  

A tarefa de campo demandou alguns meses. Foi necessário colher as informações. Ouvir depoimentos. Deixar-se inundar pelos aspectos humanos da região. Ouvir a voz do povo. O fato é que Vargas Llosa, como ele mesmo disse, teve muito trabalho para escrever a obra. É a obra que demandou mais trabalho em sua longa jornada como escritor. O resultado é fascinante. Diferentemente de Euclides, Vargas Llosa insere elementos fictícios com caricaturas grotescas. Ao lado do combate que se desenrola em longas páginas, nota-se também a presença de personagens histriônicos e quase carnavalizados como é o caso do Leão de Natuba. 

Existem muitos elementos na obra que devem ser ressaltados. Um livro de quase oitocentas páginas não deve ser caricaturado em tão magras linhas como as minhas. Mas acredito que um dos principais aspectos que saltam do livro é o fanatismo. Há um fé inabalável; uma crença que fortalece os miseráveis sertanejos que moravam no arraial. Uma vez que passavam a morar no arraial, uma força irresistível brotava do espírito coletivo e da fé. Se não fosse isso, eles teriam sucumbido na primeira campanha armada que se levantou contra eles. Não teriam matado o arrogante oficial Moreira César, um dos algozes mais temidos no Exército durante a República Velha. César era um homem impiedoso. Ele lutara no Sul do país na Revolta Federalista. Fizera fama por lá. Chegou a Canudos com respeito e com a alcunha de grande matador. 

A Guerra do fim do mundo é um livro épico. É fascinante. Não deve ser comparado ao livro de Euclides da Cunha por possuírem abordagens completamente diferentes para um mesmo evento. Vargas Llosa sabia isso. Ele tinha consciência de que seria um tarefa perigosa escrever sobre Canudos. Como estrangeiro, falante de uma outra língua, seria complicado fazer algo que se equiparasse ao livro Os Sertões. Mas o fato é que estamos nos referindo a um dos maiores escritores americanos de todos os tempos; estamos nos referindo a um ganhador de Prêmio Nobel. Vargas Llosa é um conservador esclarecido. Desses com os quais discordamos, mas damos a ele o direito de resposta por sabermos que há um sólido embasamento naquilo que está dizendo. 

Como um homem da literatura, Mario Vargas Llosa é imbatível. Certamente, para mim, foi uma das mais ricas e agraciadoras experiências  da minha vida ler A Guerra do fim do mundo.

sábado, março 10, 2018

Ainda José Lins do Rego - "Banguê"

Apesar de ter terminado a leitura de Banguê há bastante tempo, o terceiro romance de José Lins do Rêgo, somente agora me decidi por realizar alguns comentários. Do ponto de vista da escrita, Banguê é o que possui a melhor redação dos três primeiros romances. Como foi comentado anteriormente, Menino de Engenho, o primeiro, é uma narrativa centrada na nostalgia. Não há dramas psicológicos. É a infância verbalizando suas impressões. Carlos de Melo é uma criança órfã que decide contar alguns fatos sob uma perspectiva altamente saudosista. 

Apesar da ficção, ouvimos a partir dele, quiçá, a própria voz do romancista José Lins do Rego, que experimentou a sua infância também em um engenho. Ele empresta a sua história a Carlos de Melo. No segundo livro, Doidinho, percebe-se que "o ciclo" começa a ganhar contornos sólidos. A narrativa se avoluma. José Lins continua a sua incansável saga memorialística. Carlos de Melo ainda está no centro. Enquanto em Menino de Engenho, temos-lo criança, em Doidinho ele é o adolescente que vai para escola e experimenta os rigores da disciplina. 

Carlos tem o futuro à frente, mas insiste em olhar para o Santa Rosa. Os acontecimentos são quase inexistentes no engenho Santa Rosa na narrativa. O engenho é visto como o Éden; como o espaço privilegiado da pureza inconteste; da felicidade inquebrantável; dos acontecimentos grávidos de liberdade. Há uma polarização entre o Liceu em Itabaiana e o Engenho Santa Rosa - aquele, o espaço claustrofóbico, do confinamento, do medo, do susto, da violência repressora; já este é o jardim das delícias; da fauna e da flora privilegiadas; em suma, de um mundo sem porteiras nem muros.

Banguê, por sua vez, escrito em 1934, é o mais denso livro da trilogia de Carlos de Melo. Fica-nos a impressão de que José Lins tenha desenvolvido a técnica que o conduziria a Fogo Morto, sua obra máxima. O livro foca a atenção em um Carlos de Melo já adulto, formado e herdeiro do espólio do Santa Rosa. O avô José Paulino, figura emblemática do patriarca, aquele que ergueu o grande feudo, morrera. Ela era o inexpugnável dono de terras, animais e "gentes". Carlos de Melo, bacharel em Direito, formado no Recife - assim como José Lins, um herdeiro das famílias tradicionais do Nordeste - após a formatura, volta para o Engenho. Sua indolência para com as coisas do Santa Rosa colocam-no em crise. Percebe-se claramente a sua falta de habilidade para gerir, para tocar as terras antigas do avô. 

As safras não são as mesmas. Um medo profundo de ser morto o abate. Desconfia dos parentes. Nota que há moradores mais habilidosos do que ele na condução das lavouras. Por fim, percebe que está na iminência de perder o Engenho para uma usina. Não consegue pagar uma carta de crédito. Se isso acontecer, ele liquidará a história do imortal Engenho Santa Rosa, que é uma extensão da memória do avô José Paulino.

Minhas palavras soam meio inexpressivas na tentativa de fermentar o interesse pela história, mas o fato é que o ritmo da prosa de José Lins deixa a impressão de um escritor que ia escrevendo à medida que memória fazia o seu trabalho. A narrativa pode ser comparada a uma mina que brota incessante. É delicioso ler José Lins do Rego! Percebe-se que ele não se preocupa com as grandes construções gramaticais. O fluxo de sua narrativa parece ser resultado de uma conversa, uma confissão privilegiada à imaginação dos leitores. 

Estou terminando dois livros atualmente - A guerra do fim do mundo (Mario Vargas-Llosa) e A invenção do Nordeste e outras artes (Durval Muniz de Albuquerque Junior). Assim que concluí-los, emplacarei a leitura de O moleque Ricardo. Quero perfazer toda a obra do escritor paraibano este ano. Sigamos. 

domingo, fevereiro 25, 2018

A guerra do fim do mundo

O ano passado, comecei a leitura de A guerra do fim do mundo, livro fundamental para se compreender o Brasil atual à luz dos eventos históricos ocorridos durante a Primeira República, também chamada de República Velha. Mario Vargas Llosa, escritor peruano e um dos poucos escritores latino-americanos a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, passou alguns meses no sertão baiano, colhendo informações; observando a paisagem; assinalando as características dos moradores do lugar; catalogando documentos históricos a fim de entender a épica história de Antonio Conselheiro e do arraial de Canudos. 

Estou na metade do livro. Devo confessar que se trata de uma obra extraordinária em todos os sentidos. Em outro momento farei uma breve reflexão sobre ela. Por enquanto, fica um vídeo do programa Direito e Literatura. Vale a pena assistir ao vídeo que possui pouco mais de 25 minutos.

Direito e Literatura - A Guerra do Fim do Mundo from Unisinos on Vimeo.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Um excerto sobre o tempo, essa matéria que nos molda

"Rachel de Queiroz se preocupa com a dicotomia entre tempo e espaço. Para ela, o tempo, diferentemente do espaço, não tinha estabilidade, não se podia ir e voltar nele. O que se passa no tempo some, anda para longe e não volta nunca. É com profundo pesar que ela constata ser o passado uma substância solúvel, que se dilui dentro da vida, escorre pelos buracos do tempo - águas passadas. Para Rachel, a dimensão do tempo é aflitiva para o homem, pois seus únicos marcos são as lembranças, cujas testemunhas são as pessoas que também passam, também se transformam. 

O homem não tem sobre o tempo nenhum comando, apenas sofre o tempo, sem defesa. O tempo anda no homem, mas este não anda nele. O tempo nos gasta como lixa, nos deforma, nos diminui e nos acrescenta. Os olhos de trinta anos desaparecem, a forma de ver também. Razão por que o espaço é repositório da memória, das marcas do tempo; é a dimensão que, segundo ela, deve proteger o homem dessa sensação de vertigem. O espaço seria a dimensão conservadora da vida". 

A invenção do Nordeste e outras artes. Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Editora Cortez. 2011, pp. 97-8.

domingo, fevereiro 18, 2018

Algumas palavras sobre "Enclausurado", de Ian McEwan

"Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz". Ian McEvan.

Comprei há pouco mais de um ano três ou quatro livros de Ian McEwan. Acredito que em outro momento eu já havia comprado "Sábado". Estão dispersos em meio aos meus livros. É o que a memória consegue resgatar. O inglês é tido como um dos grandes escritores da atualidade. Já escreveu quase vinte livros em sua carreira de sucesso. Ganhou prêmios. "Amsterdã" e "Reparação" entraram para a lista de obras-primas. 

Não sei o porquê, mas resolvi enfrentar o seu último sucesso - o romance "Enclausurado". Trata-se de uma das narrativas mais vivas e bem escritas que li nos últimos tempos. McEwan mostrou-se um verdadeiro mestre em manter o controle de um texto. Primeiramente, é necessário dizer que se trata de um livro com aspectos inusitados. Sua inverossimilhança o aproxima do humor machadiano. É possível colocá-lo em paralelo com o "Memórias Póstumas de Brás Cubas". No livro de Mchado de Assis, encontramos um narrador relatando fantasticamente o que se deu com enquanto estava vivo. Em "Enclausurado", pelo contrário, temos uma viagem inversa. O narrador é um ente que ainda não aportou no mundo. 

Sua mãe Trudy está no nono mês de gestação. É uma mulher bonita, jovem; possui uma inteligência média. Ela se relaciona com Claude, um sujeito de inteligência duvidosa, típico fenômeno pós-moderno - de pouca acurácia intelectual, defensor de um nacionalismo caricato contra os estrangeiros; intransigente; de percepção acanhada. Mas, apesar desse aspecto negativo com relação à personalidade, Claude é um campeão na cama. O feto nos fornece descrições do seu desempenho. Trudy no nono mês tem tórridas relações sexuais com ele. Essa relação estaria dentro de um padrão, se não fosse pelo fato de Trudy planejar o assassinato de John, o seu ex-marido - e irmão de Claude. 

John é o contrário do irmão. É um sujeito sensível. Apaixonado. Educado. Poeta. Amante da vida. O que John possui de conteúdo, Claude deixa a desejar. São verdadeiros antípodas. 

A causa do plano para matar John é pelo fato deste possuir uma casa no valor de 7 milhões de libras. Se ele viesse a morrer, a casa ficaria com Trudy. Daí surge o plano. 

E como ficamos sabendo de tudo isso? Por intermédio de um feto, que empreende uma fina análise dos perfis dos personagens. É justamente nesse ponto que McEvan demonstra a sua competência. Um aspecto de fina ironia e de um intimismo melancólico que acaba por tornar a leitura apaixonante.

Penso que o livro seja uma joia que possui muitas faces a serem analisadas. Quero me restringir de maneira superficial à amplitude semântica do título. Notamos o desenrolar das ações pela percepção de um feto. Sua ambiência se restringe à experiência do mundo uterino. Ele escuta os planos; rumores da traição; a carga de vilania da mãe e do tio. "Enclausurado" significa, então, o encurralamento de possibilidades; a impotência que marca a criatura que assiste a tudo sem nada poder fazer. "Enclausurado", ainda, pode ser a possibilidade da cadeia. Ou seja, a mãe por ser assassina iria para a xadrez. O feto vive na "prisão" aconchegante e macia do útero materno. Mas, ao nascer, experimentaria a clausura da cadeia. O antes e o depois do narrador é a prisão. Genial a sacada de McEwan. É, por isso, que a literatura encanta.

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Enquanto isso... no andar de cima

O Brasil não é um país sério. Disso todo mundo está careca de saber. Acontecem coisas por aqui que seriam impensáveis em qualquer parte do mundo. Um dos problemas mais sérios do brasileiro é que ele não se leva a sério. Esse "ceticismo de vira-latas" é um mal que nos assola, que vai nos consumindo. Vejam, por exemplo, a charge abaixo. Ela vivica nosso raquitismo, nosso mandonismo diário e como o jogo político dos mandatários do país é realizado. E como disse certa vez Darcy Ribeiro 'as elites brasileiras estão entre as mais atrasadas e ranzinzas do mundo'. Há comicidade, mas também há uma tragicidade latente nisso tudo. 


segunda-feira, janeiro 29, 2018

Um pouco de José Lins do Rego...

Voltei ler José Lins do Rego. Trata-se, como já enunciei em outros momentos, de uma paixão. Existe um forte elemento de identificação na literatura do paraibano, que acaba por gerar uma forte atração gravitacional em mim. Resolvi começar pelo seu famoso ciclo da cana-de-açúcar - Menino de Engenho, Doidinho, Banguê, O moleque Ricardo e Usina. Já havia lido estes livros de forma aleatória. Comecei, desta vez, seguindo rigorosamente a ordem cronológica. Desejei sentir os efeitos gradativos da força criativa de José Lins.

No final de dezembro li Menino de Engenho. Acredito que dos livros do ciclo, Menino de Engenho seja o mais "descuidado". O livro me pareceu na segunda leitura que realizei escrito às pressas. Pareceu-me que José Lins o concebeu como um exercício. Os capítulos sucedem-se de forma rápida. O seu final é rápido. Acredito que a sua força esteja nas imagens evocadas, nas cores bucólicas de sua narrativa, povoada por doces memórias.

No segundo livro do ciclo, Doidinho, Zé Lins imprime um desenho analítico maior em sua escrita. O mesmo Carlos de Melo surge contando a sua história. Há uma inversão do espaço da narrativa. Enquanto em Menino de Engenho, o espaço é o da liberdade do engenho - os banhos no rio Paraíba, a caça dos passarinhos; a exploração dos pomares; o olhar curioso para o trem que passava com o seu apito evocativo; a descoberta da sexualidade.

Em Doidinho, o espaço é o espaço do confinamento, da asfixia, da saudade do Engenho Santa Rosa.  Esse fato é tão impactante no livro que, ao final, a personagem foge da escola em Itabaiana e vai em direção ao engenho. As técnicas de ensino castrantes e demolidoras da liberdade. A férula do professor Maciel, que entendia que o castigo físico era uma forma de educação para as virtudes. Em outras ocasiões, o castigo era uma forma intransigente de mostrar seu estilo de liderança. As marcas se acentuavam em todos sentidos - físicas e psicológicas.

Ao meu modo de ver, o salto qualitativo de Menino de Engenho para Doidinho é evidente. Hoje, iniciei a leitura de Banguê, livro este que li há uns treze anos. Li cinquenta páginas de uma vez, dada a força da narrativa.

Os três livros colocam como centro da narrativa a pessoa de Carlos de Melo - Menino de Engenho (a criança); Doidinho (o adolescente); e Banguê (o adulto). Percebemos nestas obras, como se dá o processo de degradação das oligarquias canavieiras. Nos dois primeiros livros, o avô de Carlos - José Paulino - é uma metáfora da força da economia que existia nos engenhos. No terceiro livro, a velhice do avô se alia à decadência dos engenhos e, necessariamente, dos banguês (a propriedade agrícola com os canaviais e o engenho com moagem artesanal).

Sigamos com a leitura de Banguê.

domingo, janeiro 28, 2018

"Quem escreveu a Bíblia?", de Bart D. Erhman

A Bíblia é considerada por bilhões de pessoas em todo o mundo como um livro sagrado, de autoridade inquestionável. Ela é a expressão exata daquilo que Deus falou. É a verbalização, a materialização de sua voz. O inequívoco sopro de Sua boca, tornado em evento por meio dos profetas, evangelistas e outros sujeitos anônimos que, ao longo de mais de mil e quinhentos anos, foram responsáveis por essa construção. 

Analisando por essa perspectiva meramente de fé, os cristãos dizem que não há um equívoco sequer em seu texto. Está de acordo com a vontade da soberana de vontade do Criador. A própria Bíblia utiliza uma metalinguagem para justificar a sua autoridade. Na segunda carta, supostamente escrita por Pedro, encontramos uma afirmação categórica: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". (2 Pedro 1:19-21).

Quem lê a Bíblia em nossos dias, não relaciona o fato de que sua escrita seja o resultado de disputas. Essa tese está no livro do professor Bart D. Erhman  "Quem escreveu a Bíblia?", que acabei de ler. Ehrman, um renomado estudioso do Novo Testamento, mostra que boa parte da redação atribuída a determinados autores não se sustenta. Ou seja, a menção a esses autores está equivocada. 

Tomemos como exemplo as duas epístolas de Pedro. Sempre percebi nas leituras que já fiz das duas cartas que havia elementos distintos da personalidade do apóstolo daqueles encontrados nos evangelhos. Pedro era um indivíduo bronco, dado a rompentes; de personalidade forte, impulsivo. Em um dos episódios narrados nos evangelhos, Pedro corta a orelha de Malco, um dos soldados romanos que vieram prender Jesus. Ainda segundo os evangelistas é ele que quer que desça um raio do céu para fulminar aqueles que não creram em Cristo. Todavia, quando lemos as duas epístolas, notamos um Pedro diferente  - articulado, conhecedor dos textos Antigo Testamento; conselheiro, de sabedoria  proverbialmente paulina. 

Possivelmente, Pedro fosse um analfabeto. Segundo o próprio Erhman, apenas 3% das pessoas nos tempos de Jesus sabiam ler ou escrever. A grande massa de pessoas viviam numa profunda ignorância. É estranho que, de repente, Pedro se levante como uma autoridade intelectual. Outro elemento destoante é a qualidade do grego utilizado para escrever a carta, que é de boa qualidade. Pedro, certamente, não sabia grego. Sua língua era o aramaico, como um palestino humilde que era; habitante do norte de Israel. 

Utilizo a epístola de Pedro como exemplo citado por Erhman, mas, nos supostos textos de Paulo, também encontramos atribuições indevidas. A tradição entende que quase metade dos textos do Novo Testamento foi escrito por Paulo. Esse fato não se sustenta para Erhman. Para ele, não são paulinas as cartas de: I e II Timóteo, Tito (chamadas de cartas pastorais); Efésios, II Tessalonicenses e Hebreus. 

Durante os primórdios da Igreja, não havia um cânon (o conjunto de livros ditos "sagrados" como convencionamos hoje). Havia uma tradição oral. As pessoas que haviam convivido com Jesus transmitiam as narrativas. Aos poucos essas histórias começaram a ser coligidas, reunidas. O primeiro evangelho a surgir foi o de Marcos. Logo em seguida vieram Mateus e Lucas. O Evangelho de João foi último. A grande questão é saber quem de fato eram essas pessoas. Os nomes foram atribuídos. Não significam que pessoas com esses nomes e personalidades escreveram esses textos. Há dezenas de outros evangelhos escritos, mas, por que somente esses foram considerados sagrados? Existem livros atribuídos a Pilatos, a Nicodemos, a Maria Madalena, a Tomé, a Pedro etc; há livros de sujeitos que viveram próximos aos apóstolos como Clemente. 

Ao longo dos séculos, foram os concílios os responsáveis por fixar o que cabia e o que não cabia no chamado cânon. É possível que muita coisa que "não era" passou a ser considerado como sagrado; e muita coisa que "era", que também deixou de ser. O fato, é que "o uso" e a repetição de determinado entendimento cria a consolidação daquilo que é sagrado assim como conhecemos. Hoje, por uma questão que se tornou inquestionável, colocar em dúvida esses textos é cometer um crime mortal.  

Não se trata de uma implicação com a Bíblia. Erhman é um debatedor honesto. Sua função não é atacar a Bíblia, destratar a fé alheia. Suas argumentações são acadêmicas e honestas.  Vale a leitura!

sábado, janeiro 27, 2018

E AGORA, JOSÉ? A direita saiu do armário; a esquerda entrou

Você é capaz de identificar uma pessoa de esquerda? De direita é óbvio: defende a primazia do capital sobre os direitos humanos e o caráter sagrado da propriedade privada; apoia a privatização do patrimônio público; venera o gigantismo dos Estados Unidos; apregoa que “bandido bom é bandido morto”; e costuma ser racista, homofóbica e indiferente aos direitos dos mais pobres.

Ao longo de doze anos de governo do PT, a direita se manteve no armário. Não tinha razões para exibir as garras afiadas, já que se beneficiava economicamente (robustez da Bolsa de Valores, isenções tributárias, benesses do BNDES, captação de investimentos estrangeiros etc.).

Bastou a economia brasileira dar sinais de insustentabilidade para a direita sair do armário, decidida a assumir o controle da nação. A exemplo do que ocorrera em Honduras e no Paraguai, armou-se aqui um golpe parlamentar. Destituiu-se uma presidenta democraticamente eleita, isenta de qualquer acusação de ter cometido crime, para empossar Temer, acusado de vários e graves crimes.

A direita errou o alvo. Constrangida, não bate panelas quando Temer dá as caras na TV nem ocupa as ruas para protestar contra a corrupção escancarada. Mas vocifera raivosamente diante do menor indício de que o Brasil possa vir a ser novamente governado pelo petismo.

O que me parece estranho é a oposição não ir além dos limites do Congresso. Por que o “Fora, Temer” não ganha as ruas? Por que os movimentos sociais, sindicais e estudantis permanecem imobilizados, exceto quando se trata de reivindicações pontuais e corporativas, como ocupações de áreas urbanas e rurais? Onde se enfiou a esquerda brasileira?

Somos, hoje, uma esquerda envergonhada. A corrupção nos atingiu e abateu a nossa moral. Ficamos calados perante o ajuste fiscal proposto pelo governo Dilma. Trocamos um projeto de nação por um projeto de poder. Não cuidamos da alfabetização política do nosso povo. Não criamos uma mídia capaz de se contrapor à versão da direita.

Nossa “pátria-mãe”, a União Soviética, ruiu. A China enveredou-se pelo capitalismo de Estado. O futuro da Revolução Cubana é incerto. “Proletários de todo o mundo, uni-vos”, exortava Marx. Foram os biliardários do mundo todo que se uniram em Davos. Como assinalou o historiador Perry Anderson: “Pela primeira vez, desde a Reforma, não há mais oposição propriamente dita – de visão de mundo rival – no universo do pensamento ocidental e quase nenhuma em escala mundial. […] O neoliberalismo, como conjunto de princípios, reina inconteste no globo”.1

E agora, José? Permanecer no armário e aguardar o resultado das eleições de 2018? Quem garante que os eleitos ao Congresso não serão ainda mais conservadores do que os atuais parlamentares? Ainda que Lula escape das ciladas da Lava Jato e vença a eleição presidencial, que tipo de alianças fará para assegurar a governabilidade?

Nós, da esquerda, abandonamos o trabalho de base, a formação de militantes, o enfrentamento ideológico. Sob os escombros do Muro de Berlim ficou soterrado nosso arcabouço teórico. Nunca mais fomos os mesmos. Ao nos afastarmos da base popular perdemos a vergonha de ser burgueses. Silenciamos quanto ao futuro socialista. Passamos a acreditar que o capitalismo é humanizável, tigre vulnerável a se transformar em gatinho doméstico. Arranha, mas não devora…

Se o nosso arcabouço teórico ficou sob o Muro de Berlim, a razão primeira da existência da esquerda se agigantou, mas nem sempre tivemos olhos para ver a grande horda de excluídos e marginalizados. Porém, o pobretariado não figura em nossas cogitações. Até gostamos de governar para ele, não de manter vínculos orgânicos que deem consistência a uma proposta política transformadora.

O passado se foi e não sabemos ainda como reinventar o futuro. Nossas ações pontuais, todas meritórias, não se consubstanciam em uma proposta política com indícios de viabilizar “o outro mundo possível”. Visto de hoje, ele parece impossível.

O que nós, progressistas (poupemos o termo “esquerda”), queremos de fato: governar para o povo ou governar com o povo?

Apesar dessa ausência de povo nas ruas e aparente inércia, algo de novo brota no seio da esquerda brasileira: a Frente Povo Sem Medo (www.vamosmudar.org.br) e a Frente Brasil Popular; além de tantas lutas assumidas por movimentos indígenas, quilombolas, atingidos por barragens, mulheres, LBGTodos etc. E nas redes digitais se fortalece a oposição ao governo Temer, obrigando-o a recuar em relação a medidas de retrocesso social.

Sem deixarmos de fazer autocrítica, há que guardar o pessimismo para dias melhores.


*Frei Betto é escritor, autor de Paraíso perdido – Viagens ao mundo socialista (Rocco), entre outros livros.

sexta-feira, janeiro 26, 2018

O engenho de Zé Lins (2007) - Documentário

Há muito que buscava assistir a esse documentário. Após muito procurar, quase não acreditei quando o achei. 

O engenho de Zé Lins (2007)
Direção: Vladimir de Carvalho

quinta-feira, janeiro 25, 2018

Filmes vistos em 2018



Vamos começar os trabalhos em 2018. Meta: 70 filmes

1. Matrix (1999), dir. Lana Wachowski, Lily Wachowski, EUA, 29/01, Ação, Ficção - 9,5;

2. Tropa de Elite 2 - o inimigo agora é outro, dir. José Padilha, Brasil, 24/03, Ação, Drama - 9,5;

3. Star Wars - os últimos Jedi (2017), dir. Rian Johnson, EUA, 29/03, Ação, Ficção - 8,0;

4.Jane Eyre (2011), dir. Cary Fukunaga, Inglaterra, 08/06, Drama - 9,0;

5. Meu malvado favorito (2010), dir. Chris Renaud & Pierre Coffin, EUA, 10/06, Animação - 9,5;

6. O livro de Eli (2010), dir. Albert Hughes e Allen Hughes, EUA, 15/06, Ação, Drama - 9,0;

7. Neve Negra (2017), dir. Martin Hodara, Argentina, 17/06, Drama - 9,1;

8. Blade Runner, o caçador de androides (1982), dir. Ridley Scott, EUA, 24/06, Ficção - 9,3;

9. Batman - o Cavaleiro das Trevas ressurge (2012), dir. Christopher Nolan, EUA, 01/07, Ação - 9,0;

10. Os imperdoáveis (1992), dir. Clint Eastwood, EUA, 13/07, Drama/Faroeste, 9,8;


quinta-feira, novembro 30, 2017

De como se deve lutar

"Na guerra, o que dissimula as suas intenções vencerá".

"[ O exército] Deve fazer com que sua rapidez seja igual à do vento, e a sua concentração seja igual à da floresta.
Deve investir e atacar como fogo; e quando imóvel, se defender como a montanha.
Que os seus planos sejam escuros e impenetráveis como a noite, e os seus movimentos sejam como um rio". 

"Há estradas que não devem ser percorridas, exércitos que não devem ser atacados, cidades que não devem ser capturadas, posições que não se deve desafiar, comandos do soberano que não devem ser obedecidos". 

Sun Tzu, A arte da guerra.

O livro A arte da guerra, do lendário estrategista militar Sun Tzu, é tratado no mundo corporativo como um importante elemento para a formulação de planos e técnicas para serem praticadas no âmbito do capital. Empresários, consultores, executivos utilizam a obra para extrair dela as possibilidades da pedagogia de Sun Tzu. É a velha habilidade que o capital possui de transformar em instrumento capaz de proporcionar ou de dar lucro.

Talvez tenha sido por isso que me mantive por tanto tempo distante do livro. Lembro que certa vez eu cheguei a comprar um exemplar. Emprestei para um colega e nunca mais tive o livro de volta. Isso já faz uns quinze anos. Há alguns meses vi que ele custava míseros quatro reais na loja Kindle da Amazon. Comprei-o mais munido por um impulso de colecionador de livros; de sujeito que sai acumulando livros o quanto pode. Um vício sem cura. 

Comecei a leitura. Leio-o vagarosamente. O livro de Sun Tzu não é para ser lido velozmente. Para ser consumido. A leitura deve ser atenta. Quem realiza a leitura de forma distraída, perde a beleza de sua sabedoria profunda.  É silencioso como uma serpente; contumaz em sua ciência como um rio que corre e flui. Existem sutilezas variadas à medida que realizamos a leitura. O livro é aforismático.

O que ele deseja para o guerreiro - ou para um exército inteiro - é a disciplina; a capacidade de antecipar situações; de ter sob controle os movimentos e, em perfeita harmonia, os sentidos. O corpo deve ser uma extensão dos pensamentos. Todavia, não se deve esquecer do terreno, dos caminhos. Deve-se atentar para o fato de quando se deve chegar, ficar ou partir em determinado lugar. 

É um livro de estratégias militares, mas que possui ensinamentos que podem ser praticados mesmo não estando em uma guerra. Seus ensinamentos profundos derivam do taoísmo. O taoísmo é uma tradição filosófica chinesa, pautada nos ensinamentos do "tao", termo este que significa "caminho", "meio", "estrada", "trilha", "lugar por onde se caminha". 

Continuemos a leitura!

terça-feira, outubro 24, 2017

A ética dos justos

Havia numa cidade dos Estados Unidos uma igreja batista. Os batistas, como se sabe, são um ramo do cristianismo muito rigoroso nos seus princípios éticos. Havia na mesma cidade uma fábrica de cerveja que, para a igreja batista, era a vanguarda de Satanás. O pastor não poupava a fábrica de cerveja nas suas pregações. Aconteceu, entretanto, que, por razões pouco esclarecidas, a fábrica de cerveja fez uma doação de 500 mil dólares para a dita igreja. Foi um auê. Os membros mais ortodoxos da igreja foram unânimes em denunciar aquela quantia como dinheiro do Diabo e que não poderia ser aceito. Mas, passada a exaltação dos primeiros dias, acalmados os ânimos, os mais ponderados começaram a analisar os benefícios que aquele dinheiro poderia trazer: uma pintura nova para a igreja, um órgão de tubos, jardins mais bonitos, um salão social para festas. Reuniu-se então a igreja em assembléia para a decisão democrática. Depois de muita discussão registrou-se a seguinte decisão no livro de atas: "A Igreja Batista Betel resolve aceitar a oferta de 500 mil dólares feita pela Cervejaria na firme convicção de que o Diabo ficará furioso quando souber que o seu dinheiro vai ser usado para a glória de Deus."

(Extraído do livro O Deus que conheço - Rubem Alves. Verus Editora, pp. 69 e 70