quarta-feira, julho 27, 2022

"Água de barrela" - algumas considerações

 

            “A história continuou e está prosseguindo através de todos nós, pessoas comuns, mas que têm em suas mãos os pedaços miúdos da vida”.

Eliana Alves Cruz

           

            Cheguei ao romance “Água de barrela”, de Eliana Alves Cruz, após entrar em contato com uma lista de duzentos livros por ocasião do bicentenário da Independência do Brasil. A lista está disponível no site da Folha de São Paulo. Foi construída a partir de uma votação de obras que versam sobre o país, um verdadeiro mergulho cultural naquilo que foi produzido de melhor em literatura, sociologia, história etc ao longo desse tempo. A lista que traz “Quarto de Despejo”, de Conceição Evaristo, em primeiro lugar é bastante interessante. Eliana, negra como Conceição Evaristo, escreveu uma obra de fôlego. Formada em jornalismo, a escritora foi premiada pela da Fundação Cultural Palmares, no ano de 2015, por causa da escrita do livro. Seu livro possui  uma escrita fácil, direta, objetiva, sem embaraços, como deve proceder o bom jornalismo investigativo.

            À medida que avançava na leitura, não deixei de estabelecer um paralelo com a minha história. Os fatos narrados por Eliana se comunicam com a história de milhões de brasileiros, oriundos de um processo de formação que, necessariamente, passa pela África. Nascido em Pernambuco, carrego comigo algumas reminiscências de parentes distantes e que conservam de maneira rala suas fisionomias em minha memória. Recordo-me, por exemplo, de minha bisavó, mãe do meu avô materno. Conhecia-a pela alcunha matriarcal de “Mãe Lúzia”. Ela era negra. Vivia em uma casinha acanhada. Quando eu era criança, ela já era bem idosa. Diziam os familiares que os seus pais haviam sido escravos. Sempre cresci com esse registro que funciona como um eco em minha existência. Gostaria de ter conversado com ela. Escutado as suas histórias. Certamente, ela as possuía em grande número. Mas, à época, eu era muito pequeno. Essa intuição só me chegou quando eu já estava mais velho.

            Mais tarde, tencionei escrever uma pequena narrativa com crônicas da história de minha família. Todavia, desisti da tarefa. As pessoas com as quais eu poderia contar, já não se encontram mais disponíveis. Meus dois avôs já não se encontram nesse plano. Quem sabe mais tarde, um pouco mais velho, eu volte a realizar esse exercício investigativo.

            Enquanto lia o livro de Eliana, veio-me essa impressão. A obra é fruto de uma densa pesquisa da escritora ao longo de mais de seis anos. Ela esteve em vários locais da Bahia, região onde viveram seus ancestrais; e outras regiões do país. Leu documentos. Colheu depoimentos orais. Organizou de forma criteriosa as informações e alinhavou um período de mais de trezentos anos de história. E, nesse sentido, é importante falar na construção de uma “história preta”. O livro constrói o relevante trabalho de contar a história das personagens a partir da perspectiva daqueles que foram arrancados do continente africano e vieram para o Brasil, colocando diante do leitor a escravidão de homens e mulheres arrancados do continente africano, a grande “diáspora” da Modernidade.

            Eliana procura mostrar a história de seus ancestrais – marcadamente – com figuras femininas. São retratos de mulheres fortes. Nesse sentido, não há ufanismos na obra. Há muita crueza e honestidade na escrita. Todavia, é importante ressaltar que as mulheres foram uma força necessária e relevante na formação do país. A história singularmente começa com a comemoração do aniversário de cem anos de Damiana, já no final do século XX. Ela está cansada. Seu corpo se mostra frágil. Os olhos já não distinguem com tanta nitidez as cores do mundo. Ela verifica mudança que se dá em sua família; como ela, a família, havia “embranquecido” após sucessivas gerações. Ela nascida no ano da Abolição, via como aquele episódio era representativo. É justamente nesse ponto, que Eliana constrói de forma habilidosa os caminhos para a sua narrativa – a começar pelo título. 

Eliana Alves Cruz

            Barrela é um alvejante caseiro usado – ainda hoje em certas regiões do país – para embranquecer tecidos. Ele é feito com cinza de madeira, ou seja, um elemento escuro, misturado a outros componentes químicos. Como algo escuro pode embranquecer? Reside nesse elemento simbólico uma imagem da própria formação do Brasil. A família de Damiana é um cadinho daquilo que é o próprio país. O povo brasileiro é, em últimas palavras, o elemento contemplado na obra de Eliana. Ao contar a história da família, ela descreve a história de todos nós.

            Um importante aspecto do livro é não deixar de tratar sobre alguns importantes eventos como, por exemplo, “A Guerra do Paraguai”, a “Lei do Ventre Livre”, a “Abolição” etc e como elas impactaram diretamente ou indiretamente a vida dos negros. Um exemplo, diz respeito ao episódio da Guerra do Paraguai. Pouco se fala de como os negros foram enviados para o conflito para que os filhos dos senhores da terra não morressem em combate. Muitos negros foram com a promessa de que, se voltassem, conseguiriam uma carta de alforria. Muitos dessas figuras morreram combatendo por um país que não era o seu; por uma terra que não os reconheciam como cidadãos – ou, minimamente, humanos.

            O livro é importante documento por revelar uma dimensão da história do Brasil que ainda permanece oculta: a história de milhões de negros e negras que foram forçados a saírem da África para serem escravizados em uma terra distante; em um país em que eram tratados como animais e eram forçados a esquecer o próprio passado. A história estudada na escola ignora a narrativa a partir daquele que foi opresso, a saber, o próprio negro. Eliana reaviva essa história tão ignorada, tão mal contada.

 

terça-feira, julho 26, 2022

As possibilidades da língua

Enquanto lia o romance “Água de barrela”, de Eliana Alvez Cruz. Encontrei uma palavra até então desconhecida para mim – “minete”. Achei-a diferente. Conta-nos a narradora que havia um certo personagem denominado “Nego Arigofe”. Pela descrição feita sobre essa exótica figura, faz lembrar um daqueles apimentados personagens criados por Jorge Amado. De acordo com a narração, “Arigofe” “tinha a fama de praticar o melhor ‘minete’ de Salvador e quiçá da Bahia".

            Eliana insere um aposto explicativo para que o leitor saiba o significado desse termo francófilo – “sexo oral em mulheres” (p.270). Achei curiosa a palavra e fui à cata de novas explicações. Encontrei o termo latim “cunilíngua” – que eu já conhecia. E, por fim, encontrei uma deliciosa crônica do jornalista Sérgio Rodrigues alargando ainda mais as possibilidades da língua (ops! desculpe o trocadilho). O texto traz mais do que uma explicação – insere elementos eruditos, extraídos de um acontecimento ocorrido em Portugal. Vale a pena a leitura. O título já diz muito sobre o texto. Abaixo, o texto da Folha

 O minete e a língua

Estávamos na vila medieval de Óbidos, em Portugal, terra da ginja, para participar de um festival literário. Na roda formada por homens e mulheres de nacionalidades lusófonas diversas, o escritor angolano José Eduardo Agualusa resolveu pegar no pé de uma lacuna vocabular brasileira.

“No Brasil não existe minete”, declarou, para espanto e indignação da ala feminina do grupo. Embora conste que em certas regiões do país a palavra não seja desconhecida, Agualusa tinha lá sua razão, como comprova o fato de que poucos leitores desta coluna saberão o que vem a ser o tal minete.

A confusão proposital entre a palavra, que de fato não existe para a maioria dos nascidos aqui, com a coisa, que tem existência vibrante para muita gente, era parte da piada. Uma piada que exigia resposta rápida do único brasileiro presente, ou seja, eu. 

Estava em jogo nada menos que a dignidade nacional, ainda que em sua versão simbólica de jogo de salão.

Para que a história faça sentido será preciso explicar logo o que é minete, um substantivo que, naquele momento, eu mesmo acabava de conhecer. Chega de preliminares: minete é sexo oral em mulheres. O contraponto feminino do boquete. 

Em português brasileiro, um silêncio, uma lacuna que a gozação de Agualusa diante da plateia escandalizada tornava constrangedora. Quando não uma lacuna, no máximo um daqueles substantivos informais feitos na marra com o particípio —no caso, do verbo “chupar”. Mas isso não livraria nossa 
cara coletiva naquela hora.

Por que, afinal, não temos um substantivo bom e honesto para nomear ato tão relevante? Logo nós, com nossa fama —não inteiramente justa, mas insuflada por décadas de campanhas turísticas oficiais— de povo liberadão e de sexualidade à flor da pele.

Não será verdade que a exuberância vocabular sempre acompanha o peso cultural das coisas, como sugerem os incontáveis nomes que a cachaça acumula país afora? Se for verdade, o que essa fenda pudica em nosso vocabulário revela? Em resumo: custava tanto assim termos importado “minete”?

Seria uma mentira cômica dizer que, sendo um povo erudito, “cunnilingus” resolve a questão para nós. Além de ser pedante, feioso e de uso raro, o termo latino tem sonoridade que pode provocar certos 
mal-entendidos anatômicos.

Tudo ao contrário de “minete”, um vocábulo simpático e tão popular em Portugal quanto na África lusófona. Vem do francês “minet”, ou mais provavelmente de seu feminino, “minette”. Quer dizer gatinho ou gatinha e tem sentido lúbrico por associação óbvia com a lambeção apreciada pelos bichanos.  

Caros compatriotas: naquele momento difícil, eu precisava de uma iluminação divina, nada menos que isso, e tenho o prazer de relatar que ela veio. Ponderei à pequena audiência lusófona multinacional que nem sempre a ausência de uma palavra traduz desinteresse ou falta de apreço.

Às vezes é o contrário: por respeitar demais alguma coisa, por nos sabermos pequenos e indignos diante de sua grandeza, nos recusamos a reduzi-la a um nome. “Vejam o caso de Deus. YHWH, o impronunciável tetragrama hebraico, é um exemplo.” Não sei se colou. Fez o pessoal rir, e isso bastava”.

 

P.S. O humorista Gregório Duvivier escreveu na Folha uma coluna, ano passado, tratando também sobre o "minete". 

terça-feira, junho 28, 2022

Algumas palavras sobre "Medida Provisória", de Lázaro Ramos

 

Tive a oportunidade de assistir ao polêmico filme “Medida Provisória” de Lázaro Ramos. A obra estreou comercialmente em abril de 2022. Chamou atenção pela força do debate que suscita. Afinal, o longa aponta para um dos problemas mais caros à formação do Brasil – a condição e a posição do negro em uma sociedade desigual, onde o racismo atua em uma dimensão recôndita dessa mesma sociedade, dissimulada pelo credo hipócrita de uma suposta democracia racial.

O Brasil ao longo de sua história construiu muros invisíveis de segregação. A dramática questão da inserção do negro em uma sociedade que conviveu com a escravidão durante mais de trezentos anos, sempre foi um dilema. Nunca houve efetivamente uma abolição com o sentido que a palavra exige. A abolição jurídica não significou uma abolição no campo material e social. Os negros continuam invisibilizados. São eles os que mais morrem nas periferias. São eles que ganham os menores salários. São eles que sofrem o drama da falta de moradia. São eles que ocupam majoritariamente as prisões. São eles que possuem os menores índices de formação escolar.

A condição do negro em uma sociedade verticalizada como a sociedade brasileira sempre foi subalterna. O país sempre se mostrou um verdadeiro caldeirão de impasses e demandas reprimidas. Após a abolição de 1888, a simples “liberação dos negros” que viviam em condições sub-humanas nas fazendas, não representou uma resposta à altura para as necessidades desses mesmos atores. Antes, escravos; agora, livres. O que isso significava?  Cada um ficou à sua própria sorte.

Nós, cidadãos do século XXI, não temos ideia de como foi essa passagem. Antes, um humano em condição subalterna e inferior. Afinal, os negros eram tratados como animais de carga. Realizavam todo tipo de trabalho pesado. Havia uma negativa para que nem mesmo os negros lessem ou escrevessem. A força dessa estrutura cria impedimentos para que o Brasil se torne uma verdadeira democracia; para que haja um verdadeiro combate às desigualdades seculares que acometem os mais pobres. Não há como o Brasil avançar sem que resolva a questão do negro.

Não há como um país construir um projeto de nação sem enfrentar esses dilemas. Há sempre uma memória saudosa da escravidão. Há no inconsciente coletivo do país, um olhar que busca criar distinção entre brancos e negros. Como se existisse uma dimensão valorativa baseada na cor da pele, ou seja, na quantidade de melanina existente em cada indivíduo.

O filme “Medida Provisória” cria uma distopia tropical. Em um futuro inominado, após o advento de políticas compensatórias (cotas), o país implementa uma decisão - via Parlamento – de repatriar os negros (aqueles com “melanina acentuada ou melaninados) para o continente africano. Vale mencionar que o filme lida o tempo todo com o intertexto. Há referências constantes a movimentos ou personagens que fizeram a história do país e que estão ligadas à história negra do Brasil – Capitu, Machado de Assis, Luiz Gama, Isabel etc. Há a ainda a referência ao momento político recente, com a referência ao golpe jurídico-parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff.

A medida provisória é um dispositivo constitucional unipessoal, pertencente ao presidente da República. A medida tem efeito imediato e é usada para preencher uma necessidade sobre um tema urgente. A Câmara e o Senado posteriormente apreciam a matéria da medida, tornando-a em lei complementar ou, isso não ocorrendo, há uma perda de validade dos seus efeitos. No filme, a medida é sancionada. Os negros são obrigados a deixarem o país, numa flagrante violação constitucional. Conforme a Constituição de 88, nenhum brasileiro nato poderá ser expatriado. Trata-se de um expurgo. Uma medida nazificadora.

As forças policiais entram em ação para prender os resistentes. Quilombos modernos são formados com a uma nova denominação – “afrobunkers”. Nesses espaços, estrutura-se um espaço de resistência contra essa medida extrema. Duas personagens – André e Antônio -  ficam em um apartamento e o drama direcionado a esse eixo do filme busca criar o apelo dramático da obra.

Após ter visto o filme, fiquei com duas cambiantes impressões:

(1)    O filme é importante por trazer à luz um debate que precisa ser realizado em uma sociedade altamente seccionada como a nossa. É preciso erguer um país amplamente democrático e essa construção passa por um acerto de contas com a história. O filme preocupa-se em estruturar um enredo que inclua temáticas da negritude, que passam pelas músicas ou pelas vestimentas, por exemplo. O país possui uma dívida enorme para com os negros. Ignorar esse fato é desconsiderar a luta de milhões de negros ao longo da nossa história; é fechar os olhos para as violências que são perpetradas cotidianamente nas grandes cidades ou nos rincões afastados do Brasil profundo. O racismo estrutural é uma força que se aglutina nos espaços vários da sociedade brasileira e que acaba por orientar as relações sociais, políticas, institucionais do país. O racismo é um cimento posto nas estruturas da sociedade brasileira.

 

(2)    Olhando por outra perspectiva, a obra deixou muito a desejar. Não consegui ficar empolgado. Senti um grande incômodo à medida que via. O enredo apresenta fragilidades. Há uma profusão de elementos da cultura negra que são gratuitamente mostrados sem uma mediação. Um expectador pouco afeito ao assunto, não entenderá os elementos simbólicos trabalhados na obra. Há a percepção de que alguns temas são trabalhados de maneira forçada ou descuidada, o que acaba por resultar em um grande clichê. Essa percepção, talvez, seja oriunda da falta de orçamento. Com um séquito de participações especiais, ou seja, de pessoas que não são atores profissionais, algumas atuações são bem ruins. Há como que uma saturação de elementos, mas que pouco dizem; algumas sutilezas que são insinuadas de forma desconectada. Vale mencionar que nessa perspectiva, o filme funciona como uma produção para o sujeito que assiste à obra aponte os problemas do país, mas que não se situe como cidadão, como alguém que compõe a sociedade que está sendo criticada. Afirma-se isso pelo fato da intenção crítica do filme não corresponder àquilo que é prometido. Afinal, o objetivo da obra é propor uma discussão que problematize o racismo estrutural da sociedade brasileira. A obra fica comprometida no aspecto dramático. As atuações são fracas ou pelo menos não conseguem criar suspense, tensão, fazendo com que a experiência de ver o filme não seja um evento impactante. O filme promete muito, mas entrega pouco. Fica uma percepção negativa de que esteve, durante uma hora e quarenta, vendo algo repleto de clichês; barulho sem catarse.  A direção frouxa da narrativa cria um constrangimento – pelo menos foi assim que me senti em alguns momentos: constrangido. Até mesmo nas cenas de ação, em que deveria haver conflito, tensionamento, percebe-se que não empolga. A cena final, que demonstra uma perseguição, é uma das mais acintosamente constrangedoras; daquelas cenas que enrubescem alunos de ensino fundamental pelo amadorismo na condução.

A opinião final que fica é a de que há uma superestimação da obra.  Trata-se de um panfleto político com muito barulho, mas de um conteúdo mal aglutinado e superficialmente trabalhado.

 

sábado, junho 11, 2022

Algumas palavras sobre "O encontro marcado", de Fernando Sabino

 
“De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro."  
                                                                                   Fernando Sabino, em "O encontro marcado".

Durante certo tempo, eu alimentei o desejo de realizar a leitura de “O encontro Marcado”, considerada a obra máxima do escritor mineiro Fernando Sabino. Cheguei, certa vez, a iniciá-la. Abandonei-a em seguida. Nascido em 1923, Sabino faz parte de uma geração de intelectuais e escritores brilhantes de Belo Horizonte. Junto com Hélio Pellegrino, Otto Lara Rezende e Paulo Mendes Campos – os quatro ficaram conhecidos extravagantemente como ‘os quatro cavaleiros do apocalipse’ - foram responsáveis por representar os anseios, o vigor, o dinamismo intelectual e a inquietação de espírito de uma geração.

Bem articulado e habilidoso socializador, Sabino desfechou amizades com os principais nomes da literatura brasileira de sua geração. Além do famoso círculo belo-horizontino, ao mudar para o Rio de Janeiro, passou a ter um séquito de respeitáveis relações. É o caso de Vinícius de Morais, Clarice Lispector, Marques Rêbelo entre outros importantes nomes. Além dessas amizades, ainda estabeleceu contatos com outros nomes como o do pernambucano Manuel Bandeira e do paulista Mário de Andrade.

Sabino desde cedo se mostrou detentor de uma capacidade incomum de manipular a palavra – fosse escrevendo ou falando. Quando assistimos a alguma das suas entrevistas (disponíveis no Youtube), fica mais que evidente a fluência fácil das palavras. Seus textos escritos também são marcados por esse estilo incomum. Sabino não era um escritor difícil. Já embebido do mais puro modernismo, seu texto possui o ritmo do jornalismo. Talvez, essa característica seja oriunda da sua carreira anterior à de escritor. Cronista por excelência, antes de ser romancista já possuía dois livros escritos: um de conto e outro de crônicas. O mineiro somente estreou como romancista quando já se encontrava com mais de trinta anos. E foi justamente com “O Encontro Marcado” que isso aconteceu.

Antes de ler o famoso livro de 1956, eu já havia lido outros três livros escritos pelo autor. O primeiro deles foi o divertido “O homem nu”, uma curta novela repleta de nuances cinematográficas. Depois, eu li “O grande mentecapto”, obra que possui uma forte ressonância religiosa. E – para mim – o seu melhor texto: “O menino no espelho”, obra cuja força memorialística nos coloca diante de um problema: ficamos sem saber se aquilo que está descrito é ficção ou puro registro autobiográfico.

Confesso que “O encontro marcado” não imprimiu em mim os mesmos sinais das obras citadas acima. Nota-se, inconfundivelmente, na produção romanesca, uma preocupação com a reflexão filosófica e de funda inquietação existencial. Todavia, não deixei de me sentir incomodado com a tentativa de deixar transparecer certa sofisticação esquemática, talvez, num esforço por imitar os existencialistas franceses. Quero estar enganado sobre isso. Talvez, seja a evidência do lado mais universal daquilo que é abordado na obra.

Nota-se, ainda, na figura da personagem principal – Eduardo Marciano – uma espécie de alter ego do escritor mineiro. O romance é aquilo que se pode chamar de “romance de formação”, porquanto procura descrever os eventos da vida da personagem até a fase adulta. Ou seja, romance de formação é aquele que se preocupa em narrar os eventos que levam ao amadurecimento da personagem principal, seja do ponto de vista biológico, psíquico, emocional, filosófico etc.

No caso em questão, o narrador em terceira pessoa descreve eventos que vão da infância, passando pela adolescência até a fase adulta da vida da personagem. Cada uma dessas fases é marcada por características que, querendo ou não, vão formar aquilo que Eduardo Marciano tornar-se-ia.

Na infância, notamos seu comportamento impulsivo, melindroso; repleto de vontades. Os pais não conseguem dobrar a vontade do garoto. Na adolescência surgem episódios de indisciplina na escola; e com a religião. Na juventude, o namoro repleto de altos e baixos com a filha de um diplomata. A ida para o Rio de Janeiro. O casamento que acabaria em frustração e leva ao adultério por parte dele. Os vícios e a irreprimível boêmia.

Todos esses eventos são construídos com uma prosa ágil, fluídica, dinâmica, como se tivesse a preocupação de contar os fatos como se eles fossem uma representação da passagem do tempo e do acúmulo de experiências e dramas da vida da personagem.




A década de 50 do século XX, apontava uma série de inquietações tanto no Brasil como no mundo. Em 1945, terminara a Segunda Grande Guerra. O mundo havia sido fracionado em duas partes, sendo que um lado ficaria sob influência ideológica dos Estados Unidos (capitalismo) e a outra parte sobre influência da União Soviética (socialismo). Teve início da Guerra Fria, que sempre deixava um receio no ar: a próxima guerra mundial seria nuclear. As duas potências vitoriosas detinham poderosos arsenais nucleares. Como decorrência desse cenário, começou uma aguerrida corrida espacial. Em 1957, a União Soviética enviaria o seu primeiro satélite ao espaço, sendo que, no mesmo ano, a cadela Laika alçaria voo em torno da Terra. Os Estados Unidos, por sua vez, enviariam o seu primeiro artefato espacial no ano de 1958. No Brasil, a década de 50 foi marcada por eventos políticos turbulentos. Primeiro se deu o retorno de Getúlio Vargas ao poder em 1951. Em 1954, houve o seu emblemático suicídio, após uma difamadora campanha contra o seu governo. Em 1955, houve uma tentativa de golpe militar. Em 1956, Juscelino Kubitschek iniciou o seu governo, que buscava modernizar o país e cujo bordão era: “50 anos em 5”.

Era mais que natural que isso gerasse ebulições internas e questionamentos a respeito da própria condição do país e da vida. O livro foi considerado, por conta disso, como “o retrato de uma geração”, porque apontava para os conflitos e o questionamento de certos valores estabelecidos e que pareciam caducar. O mundo estava em mudança. Havia a configuração de uma nova estrutura econômica, com novos atores políticos, o que acabava por gerar consequentes mudanças psíquicas e filosóficas, fazendo-se sentir nos mais jovens.

Além disso, é importante apontar para o fato de “O encontro marcado” problematiza aquilo que é mais caro para os jovens, que é lidar com os próprios desejos diante de cenários incertos. A questão mais séria colocada no livro diz respeito a sobre como amadurecer em um mundo desorientado, caótico, incerto, em rota de mudança.

segunda-feira, maio 23, 2022

Os Sertões, de Euclides da Cunha, algumas breves palavras

 “Tinha nos braços finos uma menina, neta, bisneta, tataraneta talvez. E essa criança horrorizava. A sua face esquerda fora arrancada, havia tempos, por um estilhaço de granada; de sorte que os ossos dos maxilares se destacavam alvíssimos, entre os bordos vermelhos da ferida já cicatrizada. A face direita sorria. E era apavorante aquele riso incompleto e dolorosíssimo aformoseando uma face e extinguindo-se repentinamente na outra, no vácuo de uma gilvaz”.

 

                “Os Sertões” é um colossal livro produzido por circunstâncias extremadas e pela genialidade de um brasileiro que conseguiu enxergar o nosso atraso e as nossas injustiças. Concluí, embasbacado, a leitura do desafiante livro no mês de fevereiro. Somente agora consegui escrever algumas magras linhas para assinalar as minhas impressões. Havia tentado em duas ocasiões realizar a leitura da obra; reunir esforços para finalizar o projeto. Não consegui. Desisti nas primeiras páginas. O livro escrito por Euclides Cunha exige paciência, disciplina e uma vontade indômita para vencê-lo. É preciso ficar de pé, com a espinha ereta para encará-lo. Quem se intimida nas primeiras páginas, acaba por se amofinar e acaba colocando a obra a um canto.

                A sua divisão interna – A terra, O homem e A luta, respectivamente – parece surgir para impor obstáculos.  A primeira parte é repleta por uma linguagem pejada por dificuldades; por termos técnicos – da geologia, da botânica, da climatologia. Euclides faz uma escrutinadora varredura pela região nordestina e, de forma pormenorizada, pela região agreste da Bahia, onde se deu o conflito entre os rudes sertanejos contra as forças da recém-criada República. Parece um teste de resistência. Todavia, algo curioso acontece: após nos acostumarmos à paisagem dura, empertigada, da estética euclidiana, ganhamos um vasto mundo de belezas, de sinuosidades.

                Euclides ao escrever o seu livro segue um rigoroso método. Formado pelo arrojo acadêmico das ciências do século XIX, Euclides segue o determinismo taineano.  Segundo o filósofo francês Hippolyte Taine, para se fazer história, era necessário entender o homem à luz de três fatores: o meio ambiente, a raça e o momento histórico. O método taineano foi revolucionário. Na França, escritores como Maupassant e Zola foram impregnados pelo seu pensamento.

                Euclides da Cunha teve formação militar. Era um engenheiro. Seu rigor científico-matemático era imensamente aguçado. O escritor fazia parte de uma corrente de jovens intelectuais republicanos. Um agudo observador das transformações políticas do país, mas assentado numa sólida formação positivista. Euclides também se enveredou pelo jornalismo. Acompanhou à distância o conflito. Havia, no Centro-Sul, uma série de miragens sobre o que estava acontecendo no interior do país. Preconceitos. Caricaturas. Os jornais noticiavam que o grupo de Antonio Conselheiro procurava reinstalar a Monarquia, o que constituía uma afronta à República; às lideranças políticas e aristocráticas que haviam destituído o imperador.

Euclides da Cunha

                Por sua vez, no interior da Bahia surgira o mal-arranjado arraial, liderado pela misteriosa figura de Antônio Conselheiro, um andarilho que havia conseguido aglutinar em torno de si uma massa de sertanejos supersticiosos e necessitados. Nascido no Ceará, Conselheiro possuía as prerrogativas de profeta para o povo. Sua vida tinha sido até o estabelecimento em Canudos, uma ciranda de eventos de desencontrados. Havia exercido diversas profissões. Até que, após descobrir a traição da sua companheira, decide começar uma marcha messiânica pelos sertões. Peregrina pelo interior; passa por pequenas e desassistidas cidades. Prega para as populações incultas. Procura embelezar os cemitérios. Sua mensagem estava repleta por um messianismo escatológico. Até que se estabelece na fazenda Monte Santo, às margens do rio Vaza-Barris, na região caatingosa do sertão baiano.  Uma massa considerável segue seus enigmáticos ensinamentos. Euclides afirma em estilo seco como lhe é tão peculiar sobre o Conselheiro: “E surgia na Bahia o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão em que se apoia o passado tardo dos peregrinos...”

                Euclides descreve a biografia de Conselheiro na segunda parte do livro. É nessa sessão do livro que ele procura apresentar o sertanejo. É nela que encontramos a famosa frase: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Na segunda parte, Euclides procura levar à frente o empreendimento taineano abordando a perspectiva de raça, aplicando os conhecimentos da ciência da época. Segundo ele, o sertanejo estava fadado ao desaparecimento.

Acontece que o sucesso do arraial contrariou muitos interesses. Afinal de contas, muitos sertanejos abandonaram fazendas de coronéis mandonistas da região para acreditar nessa nova Canaã que havia surgido no meio do inclemente sol da região tórrida. Se não há ninguém para trabalhar, para explorar, o que fazer? O medo infundado era disseminado. As notícias tumultuadas por uma cortina de desencontros informativos, criavam especulações variadas tanto local, como nacionalmente. Havia um solerte perigo naquela chusma de sertanejos maltrapilhos. Certamente, que poderiam trazer perigo à jovem e promissora República – era o que diziam com a finalidade de criar um factoide contra os conselheiristas.

Vista do Arraial

Três expedições haviam, desde o final do ano de 1896, tentado debelar de uma vez por todas o Arraial de Canudos. De forma inexplicável, os nordestinos resistiram bravamente.  A tenacidade com que lutavam demonstrava que os sertanejos estavam dispostos a qualquer custo defender Canudos. Havia uma crença de que estavam lutando por algo que era sagrado. Caso não fossem perturbados ou acossados, certamente teriam impelido suas vidas; plantado suas roças; criado seus filhos e filhas sem nenhuma preocupação com os destinos da vida política do país. A famosa questão do Conselheiro acerca do casamento e das novas leis da República, eram mais uma superstição do que uma causa militante pelos quais se tornava possível lutar.

Acontece que isso serviu de estopim para criar uma comoção nacional em torno da questão Canudos. Após a derrota da Terceira Expedição e a morte do generalíssimo Moreira César, o corta cabeças, famoso pela personalidade sanguínea e a humilhação pela qual passara os soldados, foi responsável por alargar ainda mais o preconceito da opinião pública do Centro-Sul contra os mais de vinte mil sertanejos que formavam o tecido humano de Canudos. Os jornais veiculavam especulações dia e noite. Disseminam preconceitos e desinformações. O próprio Euclides enquanto estava à distância, tinha a percepção de que aqueles rudes sertanejos precisavam aprender uma lição dada pela República. Não era possível que beatos ignorantes comprometessem o progresso. Como o próprio Euclides afirma: “O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais”.

Euclides segue para Canudos junto com a Quarta Expedição, capitaneada pelo ardiloso general Arthur Oscar, um veterano de guerra, que fora incumbido pelo ministro da guerra e pelo presidente da República a fim de que pusesse fim à cidade “monstruosa”. Euclides chega à Canudos em agosto de 1897, momento em que o conflito ganhava contornos dramáticos. Os sobreviventes do massacre estavam esfaimados, feridos, mutilados ou mortos dentro das casas, que haviam se tornado em jazigos de barro. O escritor ficou por pouco mais de um mês no ambiente do conflito. Assusta saber que nesse espaço de tempo, ele tenha se apropriado de impressões tão fundas ao ponto de derramá-las em um livro como “Os Sertões”, que somente seria escrito cinco anos após o conflito, no interior de São Paulo.

O cronista enviado pelo O Estado de São Paulo deixou o espaço da guerra em 3 de outubro de 1897, dois dias antes da derrocada completa de Canudos. Ele mesmo havia conseguido transitar pelas ruelas estreitas e mal planejadas da cidade.  Um “dédalo desesperador de becos estreitíssimos”, foi a categórica descrição utilizada por ele após ter caminhado em meio ao caos de destruição aos quais cidade havia sido submetida.

O escritor presenciou um quadro completamente diferente daquele que era mostrado pelos órgãos oficiais e pela imprensa da época. Não havia revolucionários revoltos; um exército disposto a pôr abaixo a República. Muito pelo contrário. Euclides estava diante de velhos carcomidos pela necessidade. Crianças feridas. Homens gastos que se equilibravam sofrivelmente, trôpegos, espreitados pelas tropas federais e pelas aves carniceiras. Nas palavras de Euclides: “Os feridos chegavam em estado miserando. Prolongavam pelas ruas da cidade aquela onda repulsiva de trapos e carcaças, que vinham rolando pelas veredas sertanejas o refluxo repugnante da campanha”.

Na visão de Euclides, a Campanha de Canudos havia mostrado uma face injusta e covarde da chamada civilização contra os ditos incivilizados, contra os inviabilizados. No trecho de abertura da obra ele enuncia em três reveladores parágrafos:

“Aquela campanha lembra um refluxo para o passado.

E, foi, na significação integral da palavra, um crime.

Denunciemo-lo”.

O escritor apresenta assim, no início, a sua posição. Esclarece o que o leitor vai encontrar pela frente no seu caudaloso e denso texto. Sim. Houve um crime. Uma das páginas mais bárbaras da história do país. As forças Estado exterminaram mais de 25 mil brasileiros sob a conivência da letargia de uma sociedade cega e preconceituosa. De um país que não se conhecia e que continua a não se conhecer.

“Os Sertões” é uma obra que possui muitos ecos. Pode ser enquadrado, por causa de seu estilo duro e torrencial sob vários pontos de vista – estudo historiográfico, antropológico, sociológico etc. É importante apontar que ele possui a força de uma epopeia. Constitui, assim, a epopeia trágica que representa as relações que o Estado Brasileiro estabelece com parcelas consideráveis de seus pobres e desassistidos.  O texto euclidiano é um libelo contra um país violento e ignorante; um país imenso, miscigenado, conduzido por uma das elites mais mesquinhas do mundo. Um país cujas lideranças são subservientes aos interesses internacionais, mas que possui um apetite voraz contra “os de baixo”.  Um país que não se entende; que não ressignifica a própria história.

“Os Sertões” é um livro obrigatório. Certamente, uma das leituras mais importantes da minha vida.