terça-feira, abril 28, 2009

O Outro - Por Jorge Luis Borges

O conto que ora posto dispensa apresentações, assim como o seu autor - Jorge Luis Borges. Serei frugal no texto de apresentação deste magnífico documento literário. O Outro revela muito da temática trabalhada por Borges nos seus textos, o duplo. O escritor argentino é, em sua essência, labiríntico, o que se deve ao fato de seus textos não serem de fácil leitura. Mas uma vez que se descubra, se ache a chave dos labirintos boergeanos, tem-se acesso à sua imagética. O Outro, por exemplo, para ser entendido, é preciso mais de uma leitura. É um texto extraordinário. A sua linguagem é convidativa, atrai-nos, puxa-nos para dentro de sua teia de possibilidades. O bruxo Borges é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos mais importantes da História da Literatura Universal. Jorge Luis é uma unanimidade na Argentina e por aqui, no Brasil, tem sido descoberto com certa razoabilidade.

Separei dois sites importantes onde se pode achar mais informações sobre Borges: Primeiro: AQUI e Segundo:AQUI



O Outro

O fato ocorreu no mês de fevereiro de 1969, ao norte de Boston, em Cambridge. Não o escrevi imediatamente, porque meu primeiro propósito foi esquecê-lo para não perder a razão. Agora, em 1972, penso que, se o escrevo, os outros o lerão como um conto e, com os anos, o será talvez para mim.
Sei que foi quase atroz enquanto durou e mais ainda durante as noites desveladas que o seguiram. Isto não significa que seu relato possa comover a um terceiro.
Seriam dez da manhã. Eu estava recostado em um banco, defronte ao rio Charles. A uns quinhentos metros à minha direita havia um alto edifício cujo nome nunca soube. A água cinzenta carregava grandes pedaços de gelo. Inevitavelmente, o rio fez com que eu pensasse no tempo. A milenar imagem de Heráclito. Eu havia dormido bem; minha aula da tarde anterior havia conseguido, creio, interessar aos alunos. Não havia ninguém à vista.
Senti, de repente, a impressão (que, segundo os psicólogos, corresponde aos estados de fadiga) de já ter vivido aquele momento. Na outra ponta de meu banco, alguém se havia sentado.
Teria preferido estar só, mas não quis levantar em seguida, para não me mostrar descortês. O outro se havia posto a assobiar. Foi então que ocorreu a primeira das muitas inquietações dessa manhã. O que assobiava, o que tentava assobiar (nunca fui muito entoado), era o estilo crioulo de La Tapera de Elias Regules. O estilo me reconduziu a um pátio já desaparecido e à memória de Álvaro Mellián Lafinur, morto há muitos anos. Logo vieram as palavras. Eram as da décima do princípio. A voz não era a de Álvaro, mas queria parecer-se com a de Álvaro. Reconheci-a com horror.
Aproximei-me e disse-lhe:
— O senhor é oriental ou argentino?
— Argentino, mas desde o ano de 1914 vivo em Genebra — foi a resposta.
Houve um silêncio longo. Perguntei-lhe:
— No número dezessete da Malagnou, em frente à igreja russa?
Respondeu-me que sim.
— Neste caso — disse-lhe resolutamente — o senhor se chama Jorge Luis Borges. Eu também sou Jorge Luis Borges. Estamos em 1969, na cidade de Cambridge.
— Não — respondeu-me com a minha própria voz um pouco distante.
Ao fim de um tempo insistiu:
— Eu estou aqui em Genebra, em um banco, a alguns passos do Ródano. 0 estranho é que nos parecemos, mas o senhor é muito mais velho, com a cabeça grisalha.
Respondi:
— Posso te provar que não minto. Vou te dizer coisas que um desconhecido não pode saber. Lá em casa há uma cuia de prata com um pé de serpentes, que nosso bisavô trouxe do Peru. Há também uma bacia de prata que pendia do arção. No armário do teu quarto, há duas filas de livros. Os três volumes das Mil e Uma Noites de Lane, com gravações em aço e notas em corpo menor entre os capítulos, o dicionário latino de Quicherat, a Germania de Tácito em latim e na versão de Gordon, um Dom Quixote da casa Garnier, as Tábuas de Sangue de Rivera Indarte, o Sartor Resartus de Carlyle, uma biografia de Amiel e, escondido atrás dos demais, um livro em brochura sobre os costumes sexuais dos povos balcânicos. Não esqueci tampouco um entardecer em um primeiro andar da praça Dubourg.
— Dufour — corrigiu.
— Está bem. Dufour. Te basta, tudo isto?
— Não — respondeu — Essas provas não provam nada. Se eu estou sonhando, é natural que eu saiba o que sei. Seu catálogo prolixo é totalmente vão.
A objeção era justa. Respondi:
— Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um de nós dois tem que pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. Nossa evidente obrigação, enquanto isto, é aceitar o sonho, como aceitamos o universo e termos sido engendrados e olharmos com os olhos e respirarmos.
— E se o sonho durasse? — disse com ansiedade.
Para tranqüilizá-lo e me tranqüilizar, fingi uma serenidade que certamente eu não sentia. Disse-lhe:
— Meu sonho já durou setenta anos. Afinal de contas, ao rememorar, não há pessoa que não se encontre consigo mesma. É o que nos está, acontecendo agora, só que somos dois. Não queres saber alguma coisa de meu passado, que é o futuro que te espera?
Assentiu sem uma palavra. Prossegui, um pouco perdido:
— A mão está saudável e bem, em sua casa de Charcas y Maipú, em Buenos Aires, mas o pai morreu há uns trinta anos. Morreu do coração. Uma hemiplegia o liquidou; a mão esquerda posta sobre a mão direita era como a mão de uma criança posta sobre a mão de um gigante. Morreu com impaciência de morrer, mas sem uma queixa. Nossa avó havia morrido na mesma casa. Alguns dias antes do fim chamou-nos a todos e disse-nos: "Sou uma mulher muito velha que está morrendo muito devagar. Que ninguém se perturbe por uma coisa tão comum e corrente". Norah, tua irmã, se casou e tem dois filhos. A propósito, em casa como estão?
— Bem. O pai sempre com seus gracejos contra a fé. Ontem à noite disse que Jesus era como os gaúchos que não querem se comprometer e que, por isto, pregava através de parábolas.
Vacilou e disse:
— E o senhor?
— Não sei o número de livros que escreverás, mas sei que são demasiados. Escreverás poesias que te darão uma satisfação não partilhada e contos de índole fantástica. Darás aulas como teu pai e como tantos outros de nosso sangue.
Agradou-me que nada perguntasse sobre o fracasso ou êxito dos livros. Mudei de tom e prossegui:
— No que se refere à História... Houve outra guerra, quase entre os mesmos antagonistas. A França não tardou a capitular; a Inglaterra e a América travaram contra um ditador alemão, que se chamava Hitler, a cíclica batalha de Waterloo. Buenos Aires, ao redor de mil novecentos e quarenta e seis, engendrou outro Rosas, bastante parecido com nosso parente. Em cinqüenta e cinco, a província de Córdoba nos salvou, como antes Entre Rios. Agora, as coisas andam mal. A Rússia está se apoderando do planeta; a América, travada pela superstição da democracia, não se resolve a ser um império. Cada dia que passa nosso país está mais provinciano, Mais provinciano e mais presunçoso, como se fechasse os olhos. Não me surpreenderia se o ensino do latim fosse substituído pelo do guarani.
Notei que mal me prestava atenção. O medo elementar do impossível, e no entanto certo, o aterrorizava. Eu, que não fui pai, senti por esse pobre moço, mais íntimo que um filho da minha carne, uma onda de amor. Vi que apertava entre as mãos um livro. Perguntei-lhe o que era.
— Os possessos ou, segundo creio, Os Demônios, de Feodor Dostoiewski — me replicou não sem vaidade.
— Já o esqueci. Que tal é?
Nem bem o disse, senti que a pergunta era uma blasfêmia.
— O mestre russo — sentenciou — penetrou mais que ninguém nos labirintos da alma eslava.
Essa tentativa retórica me pareceu uma prova de que se havia acalmado.
Perguntei-lhe que outros volumes do mestre havia percorrido. Enumerou dois ou três, entre eles O Sósia.
Perguntei-lhe se, ao lê-los, distinguia bem as personagens, como no caso de Joseph Conrad, e se pensava prosseguir o exame da obra completa.
— A verdade é que não — respondeu-me com uma certa surpresa.
Perguntei-lhe o que estava escrevendo e disse que preparava um livro de versos que se chamaria Os hinos vermelhos. Também havia pensado em Os ritmos vermelhos.
— Por que não? — disse-lhe. — Podes alegar bons antecedentes. O verso azul de Rubén Darío e a canção gris de Verlaine.
Sem me fazer caso, esclareceu que seu livro contaria a fraternidade entre todos os homens. O poeta de nosso tempo não pode voltar as costas à sua época.
Fiquei pensando e perguntei-lhe se verdadeiramente se sentia irmão de todos. Por exemplo, de todos os empresários de pompas fúnebres, de todos os carteiros, de todos os escafandristas, de todos os que vivem nas casas de números pares, de todos os afônicos, etc.. Disse-me que seu livro se referia à grande massa dos oprimidos e dos párias.
— Tua massa de oprimidos e párias — respondi — não é mais que uma abstração. Só os indivíduos existem, se é que existe alguém. O homem de ontem não é o homem de hoje, sentenciou algum grego. Nós dois, neste banco de Genebra ou Cambridge, somos talvez a prova.
Salvo nas severas páginas da História, os fatos memoráveis prescindem de frases memoráveis. Um homem a ponto de morrer quer se lembrar de uma gravura entrevista na infância; os solda¬dos que estão por entrar na batalha falam do barro ou do sargento. Nossa situação era única e, francamente, não estávamos preparados. Falamos, fatalmente, de literatura; temo não haver dito outras coisas que as que costumo dizer aos jornalistas. Meu alter ego acreditava na invenção ou descobrimento de metáforas novas; eu, nas que correspondem a afinidades íntimas e notórias e que nossa imaginação já aceitou. A velhice dos homens e o acaso, os sonhos e a vida, o correr do tempo e da água. Expus-lhe esta opinião que haveria de expor em um livro anos depois.
Quase não me escutava. De repente, disse:
— Se o senhor foi eu, como explicar que tenha esquecido seu encontro com um senhor de idade que, em 1918, lhe disse que ele também era Borges?
Não havia pensado nessa dificuldade. Respondi, sem convicção:
— Talvez o fato tenha sido tão estranho que eu tenha tratado de esquecê-lo.
Aventurou uma tímida pergunta:
— Como anda sua memória?
Compreendi que, para um moço que não havia feito vinte anos, um homem de mais de setenta era quase um morto. Respondi:
— Costuma parecer-se com o esquecimento, mas ainda encontra o que lhe pedem. Estou estudando anglo-saxão e não sou o último da classe.
Nossa conversação já havia durado demais para ser a de um sonho. Uma súbita idéia me ocorreu.
— Eu posso te provar imediatamente — disse-lhe — que não estás sonhando comigo. Ouve bem este verso, que nunca leste, que eu me lembre.
Lentamente entoei o famoso verso:
L'hydre — univers tordant son corps ecaillé d'astres.
Senti seu quase temeroso estupor. Repetiu-o em voz baixa saboreando cada resplandescente palavra.
— É verdade — balbuciou — Eu não poderei nunca escrever um verso como este.
Antes, ele havia repetido com fervor, agora recordo, aquela breve peça em que Walt Whitman rememora uma noite compartilhada diante do mar em que foi realmente feliz.
— Se Whitman a cantou – observei — é porque a desejava e não aconteceu. O poema ganha se não adivinhamos que é a manifestação de um anelo. Não a história de um fato.
Ficou a me olhar.
— O senhor não o conhece — exclamou. — Whitman é incapaz de mentir.
Meio século não passa em vão. Sob nossa conversação de pessoas de leitura miscelânea e de gostos diversos, compreendi que não podíamos nos entender. Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos nos enganar, o que torna o diálogo difícil. Cada um de nós dois era o arremedo caricaturesco do outro. A situação era anormal demais para durar muito mais tempo. Aconselhar ou discutir era inútil, porque seu inevitável destino era ser o que sou.
De repente, lembrei uma fantasia de Coleridge. Alguém sonha que atravessa o paraíso e lhe dão como prova uma flor. Ao despertar, ali esta a flor.
Ocorreu-me artifício semelhante.
— Ouve – disse-lhe — tens algum dinheiro?
— Sim me replicou. — Tenho uns vinte francos. Esta noite convidei Simón Jichlinski ao Crocodile.
— Diz a Simón que exercerá a medicina em Carouge e que fará muito bem... agora, dá me uma de tua moedas.
Tirou três escudos de prata e umas peças menores. Sem compreender, me ofereceu um dos primeiros.
Eu lhe estendi uma dessas imprudentes notas americanas que têm valor muito diferente e o mesmo tamanho. Examinou-a com avidez.
— Não pode ser — gritou — Leva a data de mil novecentos e sessenta e quatro.
(Meses depois, alguém me disse que as notas de banco não levam data.)
— Tudo isto é um milagre — conseguiu dizer — e o milagroso dá medo. Os que foram testemunhas da ressurreição de Lázaro terão ficado horrorizados.
Não mudamos nada, pensei. Sempre as referências livrescas.
Fez a nota em pedaços e guardou a moeda.
Eu resolvi lançá-la ao rio. O arco do escudo de praia perdendo-se no rio de prata teria conferido à minha história uma imagem vivida, mas a sorte não quis assim.
Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus a ele que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e dois lugares.
Assentiu logo e me disse, sem olhar o relógio, que já era tarde. Os dois mentíamos e cada qual sabia que seu interlocutor estava mentindo. Disse-lhe que viriam me buscar.
— Buscá-lo? — interrogou.
— Sim. Quando alcançares a minha idade, terás perdido a visão quase por completo. Verás a cor amarela, sombras e luzes. Não te preocupes. A cegueira gradual não é uma coisa trágica. É como um lento entardecer de verão.
Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte, não fui. O outro tampouco terá ido. Meditei muito sobe esse encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo em um sonho e foi assim que pude me esquecer. Eu conversei com ele na vigília e a lembrança ainda me atormenta.
O outro me sonhou, mas não me sonhou rigorosamente. Sonhou, agora o entendo, a impossível data no dólar.

quarta-feira, abril 22, 2009

Noturno Sabático

O manto escuro da noite
envolve os homens.
Luzes trêmulas cintilam
no horizonte.
Carros com olhos de fogo
arrastam-se morosos na distância.
Tenho impressões dúbias
sobre o momento presente.
A cabeça dói, uma dor lancinante
me apoquenta.
Sentado, espero a condução.
Jovens passam com modelos possantes.
Uma música atordoadora derrama-se
dos veículos e arrebenta em meus ouvidos.
Do alto de meu orgulho,
relego-os ao ostracismo.
Como os animais na natureza emitem
sons extravagantes para chamarem a atenção
da fêmea, os animais humanos também buscam
impressionar, destacar-se na treva da noite sabática.
Mastigo o tempo, rumino impropriedades,
enquanto a noite de sábado revela os
desejos da humanidade.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 18 de abril de 2009, sábado, 19:10:36

terça-feira, abril 07, 2009

Que chique, hein?

Talvez influenciado pela pompa e circunstância da realeza britânica, em Londres, o presidente Lula apareceu todo sorridente, na semana passada, durante a reunião do G-20 – grupo das nações desenvolvidas e em desenvolvimento -, para perguntar aos jornalistas: “Vocês não acham muito chique o Brasil emprestar dinheiro ao FMI?” Lembrando que, no seu passado de sindicalista, se cansou de carregar faixas onde se lia “Fora, FMI”, Lula se gabou de poder oferecer dinheiro brasileiro para engrossar a proposta dos países ricos de reunir US$ 1 trilhão para o fundo emprestar a países afetados pela crise e ajudar, assim, a restabelecer o crédito no mercado financeiro internacional. Ou seja, para manter a ciranda perversa do capitalismo funcionando como sempre funcionou, ajudando os pobres para que esses continuem consumindo e assim, ajudar os ricos a ficarem mais ricos.
Enquanto o presidente esbanjava felicidade na capital londrina, trocando elogios com o “new brasileiro” Barack Obama ( “Se você encontrar Obama no Rio, vai pensar que ele é carioca, se encontrar em Salvador, vai pensar que é baiano...” disse Lula), a dona de um conhecido restaurante de Brasília tentava desesperadamente internar a mãe de 89 anos em um também conhecido hospital particular. Apesar do encaminhamento médico de emergência, ela rodou a noite toda em busca de UTI e só conseguiu vaga no começo da tarde do dia seguinte. Mas esbarrou numa exigência insólita: o hospital só internaria se a senhora desse entrada no estabelecimento dentro da UTI móvel. “Quer dizer que tenho que pagar uma UTI móvel só para minha mãe dar uma volta no quarteirão e poder entrar no hospital?”, disse ela, perplexa.
Na outra ponta da cidade, enquanto isso, uma mulher de 30 anos de idade, três filhos, moradora de Brasilinha com emprego no Plano voltava de maus um round da via-crúcis que enfrenta desde janeiro, tentando retirar um caroço que não para de crescer no olho direito e depende de cirurgia tão simples quanto inalcançável para trabalhadores sem plano particular de saúde. A moça, como milhares país afora, virou um número na burocracia que lhe tira o sono e não lhe dá solução. Em Planaltina de Goiás, conseguiu uma data para a próxima consulta – em julho! No DF, a ordem é aguardar. A vantagem do sarro que Lula tirou com o FMI foi todos saberem que dinheiro nós temos. Porque chique mesmo, presidente Lula, seria usá-lo para dar ao sofrido povo brasileiro a saúde e a atenção que ele merece.

VELOSO, Valéria. Que chique, hein? Correio Braziliense. Caderno Opinião. Brasília –DF, terça-deira, 7 de abril de 2009.

sábado, abril 04, 2009

Os 27 Beijos Perdidos

O filme “OS 27 beijos perdidos”, da diretora georgiana Nana Djordjadze deixou-me feliz e introspectivo. Viu-o sábado, dia 24/01/2009. Tenho uma relação de filmes para serem vistos. A produção tinha que ser assistida naquela data. Antes de ver ao filme, resolvi ler alguns comentários sobre a película. Havia mais críticas negativas do que positivas.

Após ter visto à obra aprendi algo: devo formar minha própria opinião e não ser induzido por sentenças alheias. Lembro-me de Nietzsche no epílogo da “Gaia Ciência”: “Moro em minha própria casa, / Nada imitei de ninguém/ E ainda ri de todo mestre/ Que nunca riu de si também”. Segundo o livro, estes dizeres estavam sobre a porta da casa do filósofo. Não sei se era intenção dele fazer qualquer menção ao texto bíblico de Deuteronômio. Talvez, Nietzsche sardônico como era, deva ter seguido a instrução de Moisés quando disse ao povo de Israel: “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua força. Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração; tu as inculcarás a teus filhos, e dela falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te. Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos. E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas” (Dt 6.4-9). Nietzsche conhecia profundamente as Escrituras. O ato de colocar tal inscrição deve ter sido premeditado.

Voltemos aos 27 Beijos Perdidos. De início, comecei a assistir ao filme com aquela desconfiança, mas aos poucos um fino interesse se avivou em mim. O filme é bonito sob vários aspectos. A começar pela fotografia. A diretora abusou – no bom sentido – em mostrar as belas paisagens da Geórgia, país situado nas proximidades do mar Cáspio e ex-república da União Soviética. A presença do comunismo está na obra. Fotos do grande Lênin aparecem em algumas cenas. Os livros de Karl Marx servem de apoio para uma cena de amor. Uma bruma leitosa toma os espaços naturais e humanos: a floresta, o campo, a cidade, o rio. A última cena do filme é extraordinária. Um rio enorme, com montanhas escondidas e embaçadas por uma névoa que envolve os montes.

O filme se passa numa cidade afastada. A chegada de Sybilla à cidade, dá novas conotações comportamentais aos habitantes. Garota de hábitos precoces, conhecedora da poesia de Safo e Shakespeare, Sybilla desperta paixão em Myka, filho de Alexander, um viúvo metido a cientista. Todavia, Alexander um mulherengo de 41 anos de idade, faz nascer a paixão na menina de 14 anos.

O jovem Myka busca de todas as formas chamar a atenção da jovem. A única promessa que receba dela é de 100 beijos naquele verão. O jovem só consegue dá 73 beijos, os 27 restantes dão nome ao filme.

A produção é pródiga em sensualidade. Não se trata de uma sexualidade leviana, baixa. Trata-se de um incremento à beleza da obra. A garota não hesita em mostrar os seios esculturais e o corpo franzino em várias ocasiões. Não chega a consumar nenhum tipo de relação libidinosa durante o filme. Verônica é justamente a personagem que substantiva aquilo que Sybilla não executa. Esposa de um militar ciumento e machista, Verônica se mostra ninfomaníaca.

O filme busca mesmo é enfocar a paixão da menina por Alexander que não corresponde às intenções da garota. Ao passo que Sybilla empreende ações com o fim de conquistar Alexander, Myka se fecha para o pai. São as reações adversas da paixão que toma a alma e o corpo do jovem. E nesse sentido é que o filme se torna surpreendente. Certa noite, Sybilla adentra à casa de Alexander, despe-se e busca fazer amor com o viúvo. Este a manda embora. Ela desce correndo, semi-desnuda, as escadarias da casa de Alexander e encontra com Myka, que fora despertado pelo barulho que ouvira. Myka num acesso de irracionalidade se mune de uma arma. Vai até o quarto do pai. Embaixo, enquanto saia, Sybilla escuta o estampido da arma. Myka ainda aparece na janela e ver a garota que já tinha tido acesso à rua. Não se mostra, nem se entra em detalhes explícitos sobre a morte de Alexander. Fica a interrogação: matou ou não matou? A garota foge num barco. Some no horizonte como se fosse uma miragem. A bruma de vodka engole todas as coisas. A paixão é gestora de desatinos.

Após o filme ficamos pensando embriagados nesse acontecimento. A música russa, triste, amalgama-se à paisagem com cheiro de umidade. As florestas ralas se mostram distantes. Permanecemos imaginosos. Para onde se foi Sybilla, aquela de seios à semelhança dos da Vênus de Milo? Será que ela nos enfeitiçou como fez a Myka? Cometeremos um parricídio? Os créditos do filme a subir e eu a pensar no inusitado.

Nana Djordjadze foi feliz com o longa de 2000. Fiquei com a impressão de que ela era um ser angélico. Seu corpo esguio faz morada na nossa mente, assim como os rios de água verde e as florestas amarelas de folhas caducas da Geórgia.


P.S. Segundo informações encontradas AQUI: "Esta fita participou do Festival de Cannes 2000 e ganhou o prêmio especial do Júri do Festival de Bruxelas e prêmio do público do Festival de Montpellier, ambos em 2001".


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: 28 de janeiro de 2009, quarta-feira, 21:06 hs.

terça-feira, março 31, 2009

Carta de Um Louco

O conto deste mês veio em espanhol. Isso por si só já constitui um desafio. Não percebo a presença constante e notória de visitantes no SER CARLINO - e ainda para ler em espanhol?! O fato é que queria muito postar este conto. Na minha opinião é um dos contos mais fabulosos que já foram escritos. Busquei em vários sítios da Net o texto em português, todavia não obtive sucesso. Até que o achei em espanhol. Tentei traduzi com o TRADUTOR DO GOOGLE, mas o resultado não foi positivo. Resolvi deixar como está. Se você não ler em espanhol há edições POCKET a preços acessíveis. Pensei em postar outros contos que achei de Maupassant, como O Horla, Bola de Sebo, Magnetismo ou A Morta, entrementes desde o dia que li este conto, ele passou a fazer parte de minha preferência. É aquela química do texto essencial, que se inscreve de forma definitiva no seu séquito literário.

Henry René Albert Guy de Maupassant nasceu em 5 de agosto de 1850 e morreu em 6 de julho de 1893. É considerado por muitos como um dos maiores contistas de todos os tempos. Seus escritos possuem uma densa carga psicológica e firme crítica social. Cultivou amizade com os grandes escritores naturalistas e realistas do seu tempo - Zola, Flaubert e com o russo Turguniev. Desde pequeno, Maupassant sempre revelou propensões para a literatura. Principiou as suas leituras por Shakespeare muito cedo incentivado pelo pai. Foi enviado para o seminário, mas na vida eclesiástica não se firmou. Zombava dos colegas e superiores. Por essa época entrou em contato com Musset e Hugo. Serviu ao exército na guerra franco-alemã. Ao cabo da guerra, entrou para a Marinha realizando tarefas burocráticas. As anotações minunciosamente trabalhadas da vida pública, vai lhe fornecer material para a escrita dos seus textos.


Realizava longas caminhadas às margens do rio Sena e fixava atenção na água. Nutria uma admiração espantosa para com a água. Segundo ele, o líquido era o símbolo da morte. Ao abandonar o serviço público, passa a trabalhar com Gustav Flaubert. Dar-se aí o seu crescimento como escritor. Flaubert incuti-lhe subtilezas estilísticas. Fornece-lhe o treinamento para que Maupassant se torne num grande objetivista.


Descobriu nas drogas a possibilidade da criação literária. Usava éter, haxixe, ópio e morfina. Buscava com isso abafar suas constantes dores de cabeça e aguçar a percepção. Guy passou em certo momento a ter alucinações, uma obsessão por doenças e pela morte. Temia principalmente a si mesmo. Certa vez escreveu: "Fixando os meus olhos sobre a minha própria imagem refletida no espelho, acredito perder a noção de mim. Nesse momento tudo se atrapalha em meu espírito, e eu acho estranho não me reconhecer. É curioso ser o que sou, isto é, qualquer um. E eu sinto que, se esse estado demorasse mais um minuto, eu me tornaria completamente louco. Pouco a pouco meu cérebro esvaziaria de todo pensamento". Esses impulsos atormentadores, fizeram-no com tentasse o suícidio em 1892 cortando a garganta. Ficou bastante tempo internado em um hospital na capital francesa. Morre em 1893.


Apesar de viver num período literário em que a estética é realista e naturalista, Maupassant é classificado como objetivista, embora traga em seus escritos características das duas tendências citadas. Para a Maupassant, a vida não é boa nem ruim. Ele não chega a conclusões morais acerca dos eventos que narra. Resume-se apenas a narrá-los. Enfatiza apenas a impotência do ser humano diante dos fatos da vida. Percebe-se aí a influência shopenhauriana. O homem é um animal efêmero sobre um globo perdido na imensidão do Universo.


No conto
Carta de um Louco que ora posto, versa sobre "o fantástico que reside em nossa máquina imperfeita, em nossos sentido insuficientes. O homem só tem olhos para o mundo humano, a prisão humana é uma condenação".


As paráfrases que fiz aqui foram extraídas de dois livros de Maupassant que possuo:
Bola de Sebo e outros contos, lançado pela Editora Martin Claret e Contos Fantásticos - O Horla & Outras Histórias da Editora gaúcha L&PM. AQUI é possível ler um pouco mais sobre a biografia de Maupassant e AQUI alguns outros contos.


Carta de um Louco

Querido doctor, me pongo en sus manos. Haga usted de mí lo que guste.

Voy a decirle con toda franqueza mi extraño estado de ánimo, y juzgue si no sería mejor que cuidasen de mí durante algún tiempo en una casa de salud, en vez de dejarme presa de las alucinaciones y sufrimientos que me atormentan.

Ésta es la historia, larga y exacta, de la singular enfermedad de mi alma.

Vivía yo como todo el mundo, mirando la vida con los ojos abiertos y ciegos del hombre, sin sorprenderme ni comprender. Vivía como viven las bestias, como vivimos todos, cumpliendo todas las funciones de la existencia, analizando y creyendo ver, creyendo saber, creyendo conocer lo que me rodea, cuando un día me di cuenta de que todo es falso.

Fue una frase de Montesquieu la que súbitamente iluminó mi pensamiento. Es ésta: “Un órgano de más o de menos en nuestra máquina nos hubiera dado una inteligencia distinta. En una palabra, todas las leyes asentadas sobre el hecho de que nuestra máquina es de una determinada forma serían diferentes si nuestra máquina no fuera de esa forma.”

He pensado en esto durante meses, meses y meses, y poco a poco ha penetrado en mí una extraña claridad, y esa claridad ha creado ahí la oscuridad.

En efecto, nuestros órganos son los únicos intermediarios entre el mundo exterior y nosotros. Es decir, que el ser interior que constituye el yo se halla en contacto, mediante algunos hilillos nerviosos, con el ser exterior que constituye el mundo.

Pero, además de que ese ser exterior se nos escapa por sus proporciones, su duración, sus propiedades innumerables e impenetrables, sus orígenes, su futuro o sus fines, sus formas lejanas y sus manifestaciones infinitas, nuestros órganos, sobre la parcela que de él podemos conocer, no nos suministran otra cosa que informes tan inseguros como poco numerosos.

Inseguros, porque únicamente son las propiedades de nuestros órganos las que determinan para nosotros las propiedades aparentes de la materia.

Poco numerosos, porque al no ser nuestros sentidos más que cinco, el campo de sus investigaciones y la naturaleza de sus revelaciones se hallan necesariamente muy restringidos.

Me explico: la vista nos indica las dimensiones, las formas y los colores. Nos engaña en esos tres puntos.

No puede revelarnos otra cosa que los objetos y seres de dimensión media, proporcionados a la estatura humana, lo cual nos lleva a aplicar la palabra grande a determinadas cosas y la palabra pequeño a otras, sólo porque su debilidad no le permite conocer lo que es demasiado vasto o demasiado menudo para él. De ahí resulta que no se sabe ni se ve casi nada, que el universo casi entero le queda oculto, la estrella que habita el espacio y el animal que habita la gota de agua.

Incluso, aunque tuviera cien millones de veces su potencia normal, aunque viese en el aire que respiramos todas las especies de seres invisibles, así como los habitantes de los planetas próximos, todavía quedarían numerosos infinitos de especies de animales más pequeños y mundos tan lejanos que jamás alcanzaría.

Así pues, todas nuestras ideas de proporción son falsas porque no hay límite posible en la magnitud ni en la pequeñez.

Nuestra apreciación sobre las dimensiones y las formas no tiene ningún absoluto al venir determinada únicamente por la potencia de un órgano y por una comparación constante con nosotros mismos.

Hemos de añadir que la vista todavía es incapaz de ver lo transparente. Un cristal sin defecto la engaña, la confunde con el aire que tampoco ve.

Pasemos al color.

El color existe porque nuestra vista está hecha de modo que transmite al cerebro, en forma de color, las diversas formas en que los cuerpos absorben y descomponen, siguiendo su constitución química, los rayos luminosos que dan en ellos.

Todas las proporciones de esa absorción y de esa descomposición constituyen matices.

Así pues, este órgano impone a la inteligencia su modo de ver, mejor dicho, su forma arbitraria de constatar las dimensiones y de apreciar las relaciones de la luz y la materia.

Analicemos el oído.

Somos juguetes y víctimas, más todavía que en el caso de la vista, de ese órgano fantasioso.

Dos cuerpos, al chocar, producen cierta vibración de la atmósfera. Ese movimiento hace estremecerse en nuestra oreja cierta pielecilla que trueca inmediatamente en ruido lo que en realidad no es otra cosa que una vibración.

La naturaleza es muda. Pero el tímpano posee la propiedad milagrosa de transmitirnos en forma de sentidos, y de sentidos diferentes según el número de vibraciones, todos los estremecimientos de las ondas invisibles del espacio.

Esa metamorfosis realizada por el nervio auditivo en el breve trayecto de la oreja al cerebro nos ha permitido crear un arte extraño, la música, la más poética y precisa de las artes, vaga como un sueño y exacta como el álgebra.

¿Qué decir del gusto y del olfato? ¿Conoceríamos los perfumes y la calidad de los alimentos sin las propiedades peregrinas de nuestra nariz y nuestro paladar?

Sin embargo, la humanidad podría existir sin oído, sin gusto y sin olfato, es decir, sin ninguna noción del ruido, del sabor y del olor.

Así pues, si tuviéramos algunos órganos menos, desconoceríamos cosas admirables y singulares, pero si tuviéramos algunos más, descubriríamos a nuestro alrededor una infinidad de otras cosas que nunca supondremos por falta de medio para constatarlas.

Por lo tanto, nos equivocamos cuando juzgamos lo Conocido, y estamos rodeados de Desconocido inexplorado.

Por lo tanto, todo es inseguro, y puede apreciarse de diferentes maneras.

Todo es falso, todo es posible, todo es dudoso.

Formulemos esta certidumbre sirviéndonos del viejo proverbio: “Verdad a este lado de los Pirineos, error al otro lado.”

Y decimos: verdad en nuestro órgano, error en el de al lado.

Dos y dos no deben ser cuatro fuera de nuestra atmósfera.

Verdad en la tierra, error más lejos, de donde deduzco que los misterios vislumbrados como la electricidad, el sueño hipnótico, la transmisión de la voluntad, la sugestión y todos los fenómenos magnéticos sólo siguen ocultos para nosotros porque la naturaleza no nos ha proporcionado el órgano o los órganos necesarios para comprenderlos.

Después de haberme convencido de que todo lo que me revelan mis sentidos sólo existe para mí tal como yo lo percibo, y de que sería totalmente diferente para otro ser organizado de otro modo, después de haber llegado a la conclusión de que una humanidad hecha de otra forma tendría sobre el mundo, sobre la vida y sobre todo ideas absolutamente opuestas a las nuestras, porque el acuerdo de las creencias sólo deriva de la similitud de los órganos humanos, y las divergencias de opiniones provienen únicamente de ligeras diferencias de funcionamiento de nuestros hilillos nerviosos, he hecho un esfuerzo de pensamiento sobrehumano para suponer lo impenetrable que me rodea.

¿Me he vuelto loco?

Me he dicho: “Estoy rodeado de cosas desconocidas.” He supuesto al hombre desprovisto de orejas y he supuesto el sonido como suponemos tantos misterios ocultos; el hombre constata fenómenos acústicos cuya naturaleza y procedencia no podría determinar. Y he tenido miedo de todo lo que me rodea, miedo del aire, miedo de la oscuridad. Desde el momento en que no podemos conocer casi nada, y desde el momento en que todo es ilimitado, ¿qué es el resto? ¿No es el vacío? ¿Qué hay en el vacío aparente?

Y ese terror confuso de lo sobrenatural que acosa al hombre desde el nacimiento del mundo es legítimo, porque lo sobrenatural no es otra cosa que lo que permanece velado para nosotros.

Entonces he comprendido el espanto. Me ha parecido que rozaba constantemente el descubrimiento de un secreto del universo.

He intentado aguzar mis órganos, excitarlos, hacerles percibir por momentos lo invisible.

Me he dicho: “Todo es un ser. El grito que pasa en el aire es un ser comparable a la bestia, puesto que nace, produce un movimiento y se transforma incluso para morir. Por lo tanto, el espíritu pusilánime que cree en seres incorpóreos no se equivoca. ¿Quiénes son?”

¡Cuántos hombres los presienten, se estremecen cuando se acercan, tiemblan con su imperceptible contacto! Uno los siente a su lado, alrededor, pero es imposible distinguirlos, porque no tenemos los ojos que los verían, o mejor dicho el órgano desconocido que podría descubrirlos.

Así pues, sentía en mí, más que nadie, a esos transeúntes sobrenaturales. ¿Seres o misterios? ¿Lo sé acaso? No podría decir lo que son, pero siempre podría señalar su presencia. Y he visto —he visto un ser invisible— hasta donde puede verse a esos seres.

Permanecía noches enteras inmóvil, sentado ante mi mesa, con la cabeza entre las manos y pensando en esto, pensando en ellos. De pronto creí que una mano intangible, o más bien un cuerpo inasequible, rozaba ligeramente mi pelo. No me tocaba, por no ser de esencia carnal, sino de esencia imponderable, incognoscible.

Pero una noche oí crujir el entarimado a mis espaldas. Crujió de un modo singular. Me estremecí. Me volví. No vi nada. Y no volví a pensar en ello.

Pero al día siguiente, a la misma hora, se produjo el mismo ruido. Tuve tanto miedo que me levanté, seguro, completamente seguro de que no estaba solo en mi cuarto. No se veía nada sin embargo. El aire estaba límpido y transparente en todas partes. Mis dos lámparas iluminaban todos los rincones.

El ruido no se repitió y fui calmándome poco a poco; sin embargo, permanecía inquieto y me volvía a menudo.

Al día siguiente me encerré a hora temprana, buscando la forma en que podría conseguir ver lo Invisible que me visitaba.

Y lo vi. Estuve a punto de morir de terror.

Había encendido todas las bujías de mi chimenea. La habitación estaba iluminada como para una fiesta. Sobre la mesa ardían mis dos lámparas.

Frente a mí, la cama, una vieja cama de roble con columnas. A la derecha, mi chimenea. A la izquierda, la puerta, con el cerrojo echado. A mi espalda, un grandísimo armario de luna. Me miré en él. Tenía unos ojos extraños y las pupilas muy dilatadas.

Luego me senté como todos los días.

La víspera y la antevíspera el ruido se había producido a las nueve y veintidós minutos. Esperé. Cuando llegó el momento preciso, percibí una sensación indescriptible, como si un fluido, un fluido irresistible hubiera penetrado en mí por todas las parcelas de mi carne, sumiendo mi alma en un espanto atroz. Y se produjo el crujido, justo a mi lado.

Me incorporé volviéndome tan deprisa que estuve a punto de caerme. Se veía como en pleno día, ¡pero yo no me vi en el espejo! Estaba vacío, claro, lleno de luz. Yo no estaba dentro, y sin embargo me hallaba enfrente. Lo miré con ojos enloquecidos. No me atrevía a avanzar hacia él, sintiendo que entre nosotros se interponía él, lo Invisible, que me tapaba.

¡Qué miedo pasé! Y he aquí que empecé a verlo envuelto en bruma en el fondo del espejo, en una bruma como a través del agua; y me parecía que aquella agua fluía de izquierda a derecha, lentamente, volviéndome más preciso segundo a segundo. Era como el final de un eclipse. Lo que me tapaba no tenía contornos, sino una especie de transparencia opaca que iba aclarándose poco a poco.

Y finalmente pude verme con claridad, como hago todos los días cuando me miro.

¡Lo había visto!

Y no he vuelto a verlo.

Pero lo espero sin cesar, y siento que mi cabeza se extravía en esa espera.

Permanezco horas, noches, días y semanas delante del espejo esperándolo. ¡Ya no viene!

Ha comprendido que yo lo he visto. Mas yo sé que lo esperaré siempre, hasta la muerte, que lo esperaré sin descanso, delante de ese espejo, como un cazador al acecho.

Y en ese espejo empiezo a ver imágenes locas, monstruos, cadáveres horribles, toda clase de bestias espantosas, de seres atroces, todas las visiones inverosímiles que deben acosar la mente de los locos.

Ésta es mi confesión, querido doctor. Dígame qué debo hacer.

EXTRAÍDO DAQUI

quinta-feira, março 26, 2009

A solidão da música

Caiu a noite.
Veio com ela a solidão.
Gotas miúdas tamborilam no telhado.
Mozart suaviza as minhas emoções.
A saudade que me envolve.
Desejo sair por aí.
Caminhar.
Contar para os homens das novidades
Sutis, poéticas que estão comigo
Aqui e agora.
Há vapores emanando de cada palavra
Que defendo.
O piano com sua melodia enche os
Meus olhos de certeza de que a beleza
É tímida.
Ele não se mostra costumeiramente.
A baixeza, os cultivos ineptos não
Contribuem positivamente para o futuro
Da humanidade.
Sinto todas as cores do arco-íris a me embargarem.
Essa experiência me mostra a grandeza
Dos pequenos, delicados acontecimentos.
Abraço-me com o silêncio que sai da música.
Penso em realidades enormes.
A música que é vaga como um sonho
E exata como a algébrica sentença da matemática.
Alegro-me com essas disposições.
Descubro: não estou sozinho.
Estou com Mozart e o seu concerto para piano e
Orquestra número 26.
Isso me faz completo.
A solidão da música me educa.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sábado, 20 de setembro de 2008, 23:25:17.

quinta-feira, março 12, 2009

Quase diário IV

Vês, ninguém achou engraçadas as tuas pantominas!
Porque o esforço que se tem de desprender para ser é quase diário.
Hoje pela manhã eu ouvi o que não queria ouvir.
Vieram-me á cabeça sentenças desaprovativas.
As palavras furavam as costelas de minha inauteridade.
Mas doíam, e como doíam – eram laminosas.
Palavras e sentenças machucam quando elas vêem das pessoas
Com as quais você já firmou acordos e vínculos estabelecidos.
É grandiosa a vida e o senso de quase sobre-vida que se tem de aceitar
E tomar como valor e determinação pelo chão erosivo da vida.
É quase diário que os valores e convicções devam permanecer como
Monumento catedrático, esculpido, moldado, assentado sob pilares
Fortes e inamovíveis.
Não gosto de ouvir tais sentenças.
Elas machcam-me. Verrumam minha paciência e a minha paz.
São duras as palavras quando precipitam do céu da verdade.
Elas martelam, comprimem a consciência cheia de certeza e reconhecimento.
Como me é duro aceitar a vida como proposta diária.
Quase todos os dias um desestímulo, uma agressão.
Ah, como eu gostaria de não ter ouvidos como captores para não poder
Apanhar esses sons perturbadores.
As palavras que tenho ouvido machuca-me como lanças afiadas.
Elas cutucam, grudam com efeito pegajoso na minha mente.
Deus do céu dar-me confiança, paciência e perseverança para que
Eu continue aceitando a vida como desafio diário.
Essa cama de pregos onde estou deitado me afugenta a paz.
Mãos invisíveis tem me segurado e me algemado os pés.
Eu sinto uma angústia desesperadora a me roer a semelhança
De cupins operários.
É quase diária a minha luta.
É quase diário o meu dilema.
Mas a vida passa a ser vida quando eu me decido a ser na contingência
Diária do ser sendo.
Sou o que sou, porque ainda não me tornei naquilo que pretendo ser.
Mas enquanto não me torno naquilo que pretendo, vou gozando
E sendo aquilo que sou agora, por não ter outra alternativa a não ser, ser.
Hoje é um novo dia para eu aprender a ser.
Hoje eu tenho uma luta para enfrentar.
Preciso aprender para ir sendo neste projeto diário de existência.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 11/6/2004 08:47:32, sexta-feira.

quarta-feira, março 04, 2009

Baleia

Não postei o conto no mês de fevereiro como havia prometido inicialmente. O cronograma se orientaria por textos (diz-se contos) que marcaram a minha caminhada como leitor. "Que bom!"- penso. No mês de março teremos dois contos. Devo explicar o texto que ora posto. Do ponto de vista do gênero literário, não se classificaria como um conto. Está mais para o capítulo de uma novela, gênero mais extensivo, com maiores desenvolvimentos e números de cenas. Portanto, com um número maior de acontecimentos e personagens. O texto abaixo é um dos capítulos do livro "Vidas Secas", de Graciliano Ramos (mais uma vez!). O capítulo chama-se "Baleia". Narra como se dá a morte da canhorra que era um dos membros da família malfada de Fabiano. Acredito que seja uma das páginas mais lindas e sensíveis da história da literatura. Não quero entrar em discussão para situar o texto no terreno do gênero literário. Fica como está! O texto é formidável. Precisa ser lido e apreciado. Após ter postado o texto, fiz uma leitura em voz alta e os meus olhos se encheram de lágrima, tamanho o poder de encanto da escrita seca do velho Graça - como era chamado pelos mais íntimos. Boa leitura para os possíveis leitores desse blogger! Um abraço carlino!
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A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pelo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um príncipio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoco um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, rocava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção
de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito. Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgra,ca e não se cansavam de
repetir a mesma pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo. Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras. Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas Sinhá Vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia. Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia. Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia. Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como Sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens. Pouco a pouco a cólera diminuiu, e Sinhá Vitória, embalando as criancas, enjoôu-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável. Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros as orelhas. Como isto era impossível, levantou os bracos e, sem largar o filho, conseguiu ocultar um pedaço da cabeça. Fabiano percorreu o alpendre, olhando a baraúna e as porteiras, aculando um cão invisível contra animais invisíveis:
- Eco! eco!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou a janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, ateéficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar as catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos traseiros e inutilizou uma perna de Baleia, que se pôs a latir desesperadamente. Ouvindo o tiro e os latidos, Sinhá Vitória pegou-se a Virgem Maria e os meninos rolaram na cama, chorando alto. Fabiano recolheu-se. E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e as panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em tres pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se ai um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente, em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda. Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha folhas secas e gravetos colados as feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteiras, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu : um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latia: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tornavam-se quase imperceptíveis. Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra. Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava-se. Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha, fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade. Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinham fugido. Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e
consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas. O objeto desconhecido continuava a ameacá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou.
Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido. Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança. Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles. Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a impotência em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades. Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar as cabras: aquela hora cheiros de sucuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde Sinhá Vitória guardava o cachimbo. Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado. Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem díficil do barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito. Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, Sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha. A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo. Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas.