Eram os idos de 1992. Meu pai me presenteou com uma fita K-7. Achara o produto em um ônibus. Ouviu mas não gostou. Eu era um garoto de apenas doze anos. Havia uma efervescência no mundo. O rock estava em alta. Havia bandas por todos os lados - Nirvana, Pearl Jam, Metallica, Soundgarden; outras antigas haviam passado por uma revitalização. Era o caso dos Rolling Stones ou o Ramones, que gravaram álbuns consideráveis naquele ano. O Iron Maiden havia gravado uma série de discos. O Rock n' Rio fazia edições cada vez mais suculentas. Trazia as bandas de Seatle; investia em novidades. O Titãs, aqui no Brasil, estava cada vez mais grunge. Outras bandas se destacavam pelo mundo a fora - Red Hot, Faith no More, Alice in Chains etc. Quem lembra de um tal de EMF? Se não lembra, vá ao Youtube e digite You're Unbelievable. Essa música tem a cara dos anos 90.Na fita a qual o meu pai me presenteou, havia um material do primeiro álbum do Guns n' Roses, Appetite for Destruction, banda que hoje me enfastia. Aquilo me fulminou. Acertou-me de cheio. Fiquei embasbacado com aquele som. Músicas rápidas e de vocal rasgado forjavam cenários de impressões radicais e de puro senso de liberdade. O rock possui em sua essência um ímpeto libertário. É uma música que aguça os sentidos. O lado mais primitivo da psiquê humana. Acompanhei durante muito tempo cena rock internacional. Até hoje não consegui me desvencilhar do contágio. Bandas como Beatles, AC/DC, Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Rush, Queen, entre outras, ainda falam muito a mim. Surgido no sul dos Estados Unidos, o rock é mais do que um estilo musical, é o manifesto de uma geração. Na década de 60, o Woodstock constituiu uma arma contra a força hegemônica do capitalismo. O protesto consistia em fazer música e amor e não guerra.
Quem gosta de rock certamente já ouviu um ditado: "O rock é imortal. Jamais morrerá". Esta é uma afirmação até certo ponto instigante. O rock já completou 70 décadas. E a cada novo ano se reinventa. Do surfing music ao heavy metal; do punk ao hard rock; do progressivo ao neometal; do doom metal ao trash metal. O rock possui um poder de auto-mutação. O som muda as atitudes daqueles que o escutam. Quem nunca viu um adolescente vestido de negro, com maquiagens aberrantes? Qual foi a força que o impulsionou a vestir-se daquela forma? O som e a rebeldia domesticam.
O rock possui um forte apelo sexual. Sua música é envolvente. As perfomances dos músicos revelam aquilo que foi denominado por Freud de id, ou seja, o lado do desejo, das ânsias, da irracionalidade, dos instintos. Nietzsche chamaria isso de música dionísiaca? O fato é que o rock tem sido e será por muito tempo, uma força rompente. Uma energia vibrante que faz tremer.
Abaixo segue uma apresentação de Chuck Berry no ano de 1958. É curioso como o músico negro, o rock tem a sua origem no sul dos Estados Unidos, é aceito pela platéia de brancos. Numa época de intolerância racial, um negro toca para os brancos. A desenvoltura de Berry impressiona. É a energia vinda do rock. O instrumento que ele toca parece ser uma extensão do corpo. Seus trejeitos sugerem uma força sexual. Sua habilidade é a de um amante, um galanteador inveterado.













