terça-feira, julho 21, 2015

Registro Crônico IV

No quintal da casa de Pablo Neruda
Valparaíso, en cambio, abre sus puertas al infinito mar, a los gritos de las calles, a los ojos de los ninõs. 
Pablo Neruda

Um dos momentos mais especiais da viagem que realizei ao Chile foi a chance de visitar duas importantes cidades - Viña del Mar, a cidade jardim, e a velha e mítica Valparaíso, lugar que como diz Neruda na ode que escreveu para a cidade é um "puerto loco/ qué cabeza/ con cerros/ desgreñada". Viña del Mar é a moça jovem, formosa, povoada por prédios modernos e recantos para os ricos; lugar de flores, de praias convidativas durante o verão. Valparaíso, por sua vez, é uma senhora "louca", com suas encostas vestidas por casas; suas ladeiras íngremes escondem segredos e proporcionam uma visão indelével para "o infinito mar". 

A visita foi bastante prazerosa - e repleta de ensinamentos. A começar pelo divertido e competente guia: um senhor chileno que havia lido praticamente toda a obra em prosa de Machado de Assis; conhecia as literaturas inglesa, estadunidense e francesa; que conhecia o cinema produzido nas décadas de 30, 40 e 50 e citava com uma desenvoltura impressionável os nomes dos principais atores e atrizes que brilharam àquela época. Havia viajado por boa parte dos países da América do Sul e vivera quatro anos no Rio de Janeiro. Sabia falar francês e inglês, além de arranhar o português. Conversamos bastante. Seu nome era Alejandro. 

Conseguia narrar a história dos prédios públicos, dos espaços importantes e simbólicos, ligando-os à história social, militar e política do Chile. Acredito que o passeio tenha se tornado, em parte, repleto de encantos por sua presença. 

O Pacífico em Viña del Mar
Em Viña del Mar visitamos o famoso relógio de flores, que fica a poucos minutos da entrada da cidade. Fomos ao cassino, à praia e foi de lá que avistei o imenso Pacífico. Suas águas geladas a esconder mistérios. Os pássaros a voarem, os pelicanos com seus papos enfunados a delimitarem as superfícies pedregosas. Fiquei olhando a imensidão de um verde que oscilava para o escuro. Sua água gelada, influenciada pelas correntes glaciais vindas do extremo Sul do Planeta. 

Como afirmei acima, Viña del Mar é uma moça de corpo jovem a exalar as fragrâncias de mocidade moderna. Já Valparaíso, a cidade ao lado, é mais velha. Ao se chegar a Valparaíso é possível enxergar de longe as casas humildes e como dizia Neruda: "Valparaíso... en los cerros se derrama la pobretería como una escada". Sim! Debaixo é possível enxergar construções mais suburbanas. Valparaíso é uma cidade que foi se empoleirando pelas encostas para enxergar a distância do imenso mar. 

Ela é a porta de entrada para a vida econômica do Chile. Seu porto possui uma importância fundamental para o país. No passado, foi um dos locais por onde mais passavam riquezas no hemisfério sul. Os navios que vinham do Oriente ou do oeste americano, tinham que passar por lá para chegar ao Atlântico, passando pelo Estreito de Magalhães. É possível que o biólogo inglês Charles Darwin tenha passado por lá. Com a construção do Canal do Panamá, na primeira metade do século XX, sua importância foi empalidecendo. Todavia, ainda é o local por onde entram as mercadorias que abastecem todo Chile. Além desse aspecto econômico, Valparaíso é uma das primeiras cidades a serem fundadas no Chile. Estima-se que ela tenha surgido na década de 50 do século XVI. Suas lojas podem ser notadas próximas aos prédios antigos. Outra curiosidade sobre a cidade é o fato de o Legislativo do Chile funcionar lá, desde a Ditadura de Pinochet. O sádico ditador buscou descentralizar o poder, construindo a sede da casa que faz as leis no litoral do país. Por ser uma cidade muito importante para o país, a presença de militares é bastante satisfatória. É comum encontrar estátuas de militares pelas praças.
O porto de Valparaíso e suas casas esparramadas pelos cerros

Em Valparaíso tive a oportunidade de visitar uma das casas de Pablo Neruda. O poeta tinha cinco casas no território chileno. Quatro foram transformadas em museus e uma foi doada ao Partido Comunista do Chile. Fica em um local privilegiado. A casa tem uma vista privilegiada para o mar, para o porto e o restante da cidade que se derrama pelos cerros. Sobre isso, vou escrever depois.

Enquanto voltava para Santiago, que está situada a pouco mais de cento e dez quilômetros de Valparaíso, atravessava os vales frios e pedregosos e tinha a minha visão mesclada pela névoa que escondia a cabeça gelada da Cordilheira e  avistava as vinícolas, pensava nos elementos míticos que tornam Valparaíso uma cidade repleta de encantos e mistérios. Pensei como é importante conhecer e refletir sobre o feitiço que as novidades que se abrem para cada um nós no mundo. E aí pensei em Neruda e o tecido fino e transparente de sua poesia. E entendi aquilo que ele afirma sobre Valparaíso, dizendo que ela tem 'uma estrela' e que essa estrela 'possui um pulso magnético que nos atrai'. 

segunda-feira, julho 20, 2015

Registro Crônico III

Santiago e seu inseparável cobertor de gases ao fundo
Na terça-feira, dia 14 de julho, por volta de meia noite e meia, cheguei à cidade de Santiago. Enquanto o motorista, um senhor de pouco mais de sessenta anos, conduzia-me para o lugar onde eu ficaria, tentei recolher de forma superficial, no meio do tecido escuro da noite, as primeiras impressões da cidade. Enxerguei alguns prédios com feições clássicas na distância. Tentei dialogar com o motorista, fazendo uma exaltação à cidade. Recolhi da fala simples e amistosa uma lição.

- Não existem cidades feias. Existem cidades distintas! - externou peremptório. 

Fiquei pensando sobre aquela fala. A maior parte dos nossos juízos tentam se adequar àquilo que estabelecemos como certo, belo ou coerente. Temos uma grande dificuldade em aceitar o novo, o diferente e suas possibilidades convidativas. O problema não está necessariamente na coisa, mas naquele que julga afoita ou relaxadamente a coisa. Perguntou ainda de onde eu era. Disse que era do Brasil, ao que ele mencionou personagens e lugares - São Paulo, Rio de Janeiro, Romário etc.

A "distinção" de Santiago se define pela sua história. Ela está situada em um vale. Pablo Neruda, um dos maiores poetas do século XX - chileno - em um dos seus livros afirma construindo uma imagem dramaticamente bela: "Santiago es una ciudad prisionera, cercada por sus muros de nieve". De fato, Santiago geograficamente está presa, cercada por muros altos, a Cordilheira dos Andes, que ora a admira, ora a arrosta com seu hálito gelado. Ainda seguindo essa imagem de Neruda, podemos dizer que ela está sitiada por um exército de pedras, que a espreita vinte quatro horas por dia. É justamente esse fenômeno que torna Santiago uma das cidades mais cinzentas das Américas. Os gases produzidos pelas fábricas e pelos automóveis ficam retidos, criam uma espécie de cobertor cinza que cobre a cidade com uma gaze de monóxido de carbono. 

Em frente ao Palacio de la Moneda
Quando deixei Buenos Aires, fiquei com uma impressão singular. Mas, ao chegar à capital chilena, a afirmação do motorista me salvou dos juízos apressados. Buenos Aires é uma cidade de avenidas amplas; de prédios com aspectos modernos e europeizados. Santiago, pelo contrário, mostrou-se com um aspecto mais antigo. Sua arquitetura fornida por belos prédios, por igrejas suntuosas; por avenidas apinhadas por carros e pessoas nas calçadas estreitas. Nos momentos mais movimentados do dia, as rodovias ficam paradas. O trânsito é intenso e torna Santiago uma cidade complicada para se locomover de carro. 

O que funciona muito bem é o seu metropolitano. As primeiras estações foram construídas nos anos 70. E, de lá para cá, eles não deixaram de ampliar esse eficiente serviço. Existem pelos menos cinco linhas de metrô. Olhando o mapa, fica-se com a ideia de que estamos diante de um cipoal de cores (cada linha possui uma cor - vermelha, azul, verde, roxa etc). Nas estações, os trens passam de dois em dois minutos. É possível se locomover por toda a cidade andando de metrô. 

A cidade é repleta de museus (escreverei sobre eles em outro momento) e praças. Uma das mais famosas é a Plaza das Armas. É um lugar amplo, povoado por artistas de rua e construções belas. Próximo dali fica o Palacio de la Moneda, sede do governo chileno. É um lugar histórico. Foi construído primeiramente para ser a casa da moeda do Chile. Por isso, não tem o nome "de palácio do governo". Durante o golpe militar, ocorrido em 1973, foi bombardeado pelos militares, a mando de Augusto Pinochet, um dos algozes mais terríveis da ditadura daquela país. A intenção dos militares golpistas era fazer com que o governo socialista e popular de Salvador Allende viesse abaixo. Como aconteceu no restante dos países da América Latina, que sofreram golpes, esses arranjos totalitários foram orquestrados pelo governo americano. 

Os Andes, simplesmente
Um aspecto positivo da cidade é a educação do povo. São prestativos e simpáticos. Não se olvidam em ajudar, em oferecer préstimos quando solicitados. É possível enxergar o quão diferentes são fisicamente dos argentinos, revelando o quanto a presença indígena foi importante para a formação do país. Não encontrei tantos leitores quanto em Buenos Aires, embora no metrô tenha visto pessoas lendo. Há ainda em algumas estações, bibliotecas públicas. Quem quiser é só se cadastrar e pegar os livros. O preço dos livros segue a mesma tendência argentina. Namorei vários. Trouxe apenas dois - Confieso que he vivido e Odas Elementales, ambos de Pablo Neruda. 

Fui a três ou quatro livrarias chilenas. E sempre que visitava, como se deu também na Argentina, tentava perceber a presença de escritores brasileiros. Na Argentina, não tive muito sucesso. Vi apenas dois - Jorge Amado e Paulo Coelho. No Chile, o acintoso Paulo Coelho ainda se fazia presente, todavia, a coisa ganhou contornos mais favoráveis quando enxerguei Chico Buarque (O irmão alemão), Jorge Amado (Tenda dos milagres) e Erico Veríssimo (O tempo e o vento). 

Uma experiência que me deixou bastante satisfeito foi a possibilidade visitar a Cordilheira. Não me recordo a última vez que vi algo tão desconcertante e belo como a imagem de uma montanha gelada. Apesar de Santiago está cercado por montanhas, a cinza brumosa cria o efeito de uma cortina e acaba privando a possibilidade de se avistar o cume branco. O caminho até o cimo da montanha é amedrontador. É serpenteante, coleante pelo corpo da montanha; a subida vai se construindo pouco a pouco. As curvas do caminho são desafiadoras. Ao olhar para os abismos, ficamos com uma noção de imprevisibilidade. Mas à medida que subia, lembrava de uma afirmação de Nietzsche. O filósofo alemão disse certa vez, que há sujeitos que têm a oportunidade de subir o monte e contemplar o vale profundo com toda a sua constelação de belezas, mas desistem em saber que lá, também, há um vulcão que pode entrar em atividade. Não havia vulcão lá no alto, mas havia um perigo em cada curva como um aviso medonho que se desenhava em cada cotovelo da estrada. Apesar do medo, à medida que se sobe, a beleza se irradia como a luminosidade embasbacante. 

No próximo post, vou escrever sobre duas importantes cidades chilenas - Viña del Mar e Valparaiso. 

domingo, julho 19, 2015

Leonardo Padura no Roda Viva

Entrevista com um dos escritores latino-americanos mais expressivos e famosos da atualidade - Leonardo Padura. Ele escreveu uma infinidade de livros. É um mestre do romance policial. Escreveu ainda um dos livros mais sensacionais o qual eu já tive a oportunidade de ler - O homem que amava cachorros, romance este que narra a fuga de Trotski da União Soviética, até a sua morte a mando de Stalin, na cidade do México. Um livro imprescindível a todo amante de uma boa narrativa. Nesta entrevista, Padura fala de seus romances, sobre O homem que amava cachorros e sobre Cuba. O sujeito é muito sensato e coerente. Ponto alto da entrevista é a sua resposta à jornalista da Revista Veja, após esta ter feito uma pergunta indigente, típica do jornalismo mambembe, subserviente, pelego e que está a serviço dos interesses das elites caducas deste país. 


quinta-feira, julho 16, 2015

Registro Crônico II

Livraria El Ateneo
Os argentinos à semelhança de muitos brasileiros nutrem uma relação prazerosa com a leitura. Estando em terras portenhas não deixei de perceber a relação que eles têm com os livros. Em praças públicas, em transportes coletivos, os argentinos lêem. Pude perceber uma quantidade satisfatória de livrarias. Não tive tempo, nos dois dias em que fiquei na cidade, de fazer uma investigação mais satisfatória nesse sentido. Havia outras ocupações. Mas, sempre que podia eu tentava visualizar uma loja de livros. Na verdade, ficava à cata delas. 

Os argentinos são respeitados por serem um povo culto. O número de intelectuais e escritores que colocaram o nome entre os mestres da literatura universal é bastante expressivo: Borges, Cortázar, Sabato, Bioy Casares, Juan José Saer, Manuel Puig; e, outros que ainda estão vivos como, por exemplo, Ricardo Piglia e César Aira. Com uma constelação tão grandiosa de nomes respeitáveis, é importante dizer que antes de ser escritor, era-se um leitor. Onde há bons leitores, existe a possibilidade de bons escritores. 

Caminhando pela Avenida Mayo, que liga o Centro à Casa Rosada, pude perceber alguns sebos. Visitei apenas um deles. Eu e minha esposa estávamos apressaados. Pude perceber sua impaciência. Esse estado de espírito acabou por lançar por terra minha relação promíscua com os livros da loja. Perscrutei apenas a sessão de literatura latino-americana, enquanto estava por lá. Acabei por comprar um exemplar – Anatomía Humana, de Carlos Chernov. 

Se os argentinos estão bem de livrarias, não estão tão bem com os preços. Assustei-me com os valores. Ás vezes, penso que os brasileiros depreciam o seu país em excesso. Se há uma crise ela ainda não é colapsante como querem nos fazer crer. Ainda estamos em uma situação confortável. Um real, hoje, é equivalente a três pesos. É uma relação 1/0,35. Ou seja, se eu tenho um real, compro apenas 35 centavos de peso. O dinheiro argentino está desvalorizado e a inflação tem solapado o poder de compra. Os livros estão numa esteira terrível. Alguns pockets (Leonardo Padura, Piglia, Borges etc) que olhei no Aeroporto de Ezeiza custavam em média 160 pesos – ou mais de cinqüenta reais. Observe: estou a falar de edições de bolso. 

O choque veio quando fui à Livraria El Ateneo, uma das mais famosas e visitadas da Argentina. Não somente por causa de seu tamanho, mas também pelo lugar que ocupa. O prédio onde está a livraria foi um teatro no passado. Aquelas galerias indicando o lugar do público permaneceram. Só que agora as galerias são povoadas por livros. Um verdadeiro deleite para os olhos. Encontrei lá algumas preciosidades. Quis comprar. Fui detido pela monta absurda. Explico: encontrei alguns livros. Peguei um Sabato (como não!), um livro de Mario Vargas Llosa, um estudo sobre a obra de Ghershwin e uma biografia de Mozart. Fui ao caixa. Pedi para efetuarem a soma. O estapafúrdio valor apareceu como uma mureta de contenção – quase novecentos pesos, ou seja, quase trezentos reais por quatro livros, que no Brasil custariam no máximo uns cento e vinte reais. Senti-me besta! Pensei imediatamente: “Se os argentinos lêem tanto assim com a prática de preços absurdos, eles, verdadeiramente, são heróis; amantes incansáveis do saber”. 

Ao final, abortei a intenção. Trouxe apenas dois livros – o Sabato (que deve ser uma sensação lê-lo em sua própria língua) e o estudo sobre a música de Gershwin. Tudo isso pela bagatela de Ar$ 450,00 (quatrocentos e cinqüenta pesos), cerca de R$ 150,00 – claro, sem o IOF da transação bancária. Alguém poderia inquirir: “Mas o livros não seriam grossos?, ao que responda: “Não!” Eram edições de pouco mais de duzentas páginas.

Algumas coisas não possuem respostas imediatas: nós temos livros mais baratos e não lemos tanto; eles têm livros mais caros e leem mais que a gente.

Aeroporto de Ezeiza, Buenos Aires – 13 de julho de 2015.

quarta-feira, julho 15, 2015

Registro Crônico I

Faculdade de Direito, Bairro da Recoleta
Fiz a minha primeira viagem internacional. Não foi para tão longe – Laos, Sibéria, Austrália, Alaska... Minha esposa e eu rumamos para terras argentinas e chilenas. Ela foi à frente. Saiu daqui no dia cinco; eu, dia dez, pela madrugada. Fiquei no aeroporto Internacional de Brasília até por volta de duas e vinte da madrugada. Viajei pela Aerolíneas Argentinas. A primeira impressão que ficou do avião da companhia foi curiosa. O avião, um modelo da Embraer, fez-me pensar em multilateralidade, já que os dois países fazem parte do Mercosul e a Embraer é uma empresa brasileira. 

O voo foi tranquilo. Dormi a maior parte do tempo. Cheguei ao Aeroporto de Ezeiza por volta das cinco e meia da manhã. Passei pela imigração (Polícia Federal Argentina). Peguei as malas. Fui ao Banco de La Nacion comprar os famosos pesos argentinos e me aboletei para o hotel em um ônibus bastante confortável. A cabeça parecia ter um buraco enorme por causa da noite mal dormida. No dia anterior eu acordara cinco e meia da manhã; trabalhara o dia todo. Não descasara um só instante. Havia uma confusão interna por causa da novidade. Um sorvedouro nervoso a engolir e dissipar minha capacidade de concentração. 

Enquanto organizava as primeiras imagens das terras argentinas, olhando pelos vidros embaçados do ônibus, eu parecia ter um pedaço enorme de chumbo sobre as minhas pálpebras. A cabeça estava um desvario. Todavia, a escuridão às sete horas de uma fria manhã, deixou-me com uma visão positiva de Buenos Aires. Árvores desnudas e retorcidas pareciam dar "um boas vindas" espectral, com feições fantasmagóricas. O trânsito não possui muita relação com o trânsito de Brasília. Na Capital brasileira, assumi uma visão bastante crítica do modo de condução do brasiliense, pois esta é uma extensão do individualismo pequeno-burguês da cidade. O processo de desumanização chegou às ruas das capitais brasileiras. Em Brasília, lugar conhecido pela frieza das pessoas, o privatismo da vida do sujeito médio ganha dimensões eloquentes quando se sai aos espaços públicos. Estes espaços são encurtados para que prevaleça a moral individualista do sujeito, que entende que o espaço público existe para sua satisfação pessoal. 

Avenida Mayo, próximo à Casa Rosada
Pois ao olhar para as ruas ocupadas por carros velozes, percebi a existência de uma cultura muito diferente daquela do brasileiro. Aqui parece que buzinar, parar fora da faixa (ou ocupando duas ao mesmo tempo); tomar a frente; não dar a preferência parece ser parte valores argentinos. Com hábitos tão singulares, o argentino faz da rua um espaço para aventuras e protestos. É comum se ver alguém colocando o braço para fora, após um buzinaço nervoso, em sinal de reclamação. Mesmo com essa característica bastante peculiar, o trânsito flui de forma significativa. Sua infraestrutura de trânsito e o sistema de transporte está bem à frente daquele encontrado nas cidades brasileiras.

Outro aspecto bastante curioso está relacionado com a receptividade do povo argentino. Muitos brasileiros foram acostumados a julgar a realidade a partir dos signos midiáticos. E se existe algo que a mídia hegemônica construiu foi ideia de que os argentinos são antipáticos, indivíduos faltos de generosidade e bom humor. Trabalha-se uma perspectiva tendenciosa de uma rivalidade futebolística, que acaba por ser trazida para o campo das relações do mundo fático. 

Quando pedi informações, percebi uma boa vontade para ajudar, para indicar as direções requisitadas. Enquanto caminhava pela rua, um sujeito me parou e perguntou se eu era colombiano. Disse que era brasileiro e aí ele externou exclamativamente: “Maravilha!!”. Empolgou-se em elogios ao Brasil. Falou das grandes cidades brasileiras. Apenas assenti com a cabeça e ri de forma tímida. Ofereceu-se para tirar fotografias – e fê-lo. 

Casa Rosada, palácio presidencial argentino
A simpática e charmosa Buenos Aires é uma cidade repleta de parques. Eles estão por toda parte. Não estou acostumado com essa visão. Os parques e praças são espaços para encontros da coletividade. Para conversas; prática esportiva; convívio social. A existência desses espaços cria a possibilidade de uma cidade mais humana. Brasília é uma cidade em que não se vislumbra tais espaços – os que existem são usados por determinada parcela da população. Um desses exemplos é o Parque da Cidade, que fica distante das cidades satélites e, portanto, mais afastado das pessoas mais humildes da Capital Federal. É usado “privativamente” pelos sujeitos “engomados” da cidade.

Algo que me impressionou na cidade foi a quantidade de fumantes. Por aqui, em sentido hiperbólico até os cachorros fumam. Claro, trata-se de um gracejo. Mas, é natural ver adolescentes, jovens e pessoas mais velhas soltando baforadas despudoradas pelas ruas. Quando se está dentro de um espaço fechado e se sai à rua, sente-se o cheiro enauseante da nicotina. Tal costume não é tão comum em Brasília ou em algumas cidades brasileiras. Existe, pelo menos nesse sentido, uma política de desincentivo de pretensão pelo tabagismo. 

Os quatro dias em que fiquei em Buenos Aires foram entusiasmantes. Saí com uma percepção animada, em sentido apreciativo, dos argentinos e da bela cidade. Se tiver oportunidade, voltarei sem titubeios. 

Buenos Aires/Santiago

quarta-feira, julho 01, 2015

"Ressurreição", de Machado de Assis

Comecei um projeto que há muito eu pretendia realizar: ler toda a obra em prosa de Machado de Assis, com destaque para os romances. Li já praticamente toda ela de forma aleatória em outros tempos - Dom Casmurro, Quincas Borba, Esaú e Jacó, Memórias Póstumas, Papéis Avulsos, A mão e a luva, Helena. Revisitar alguns desses livros gera uma sensação de ansiedade e, ao mesmo tempo, de curiosidade. A curiosidade é estimulada, pois ainda não li Iaiá Garcia, Memorial de Aires e Casa Velha

Na semana que passou, li Ressurreição. Confesso brandamente que as minhas defesas já estão minadas com relação a alguns livros da literatura brasileira do século XIX. Em outros tempos li com maior entusiasmo José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Bernardo Guimarães etc. Atualmente, lê livros com aquele artificialismo de vivências burguesas de imitação da nobreza europeia é bastante cansativo. Há algumas semanas assisti ao excelente Barry Lindon, de Stanley Kubrick. Fiquei a observar como se davam as relações nas cortes europeias - o parasitismo social, a necessidade de bajulações, os títulos que exalavam ostentação despudorada, a hipocrisia dos barões, condes, viscondes e etc. Ao ler Ressurreição veio todo aquele quadro genialmente retratado por Kubrick, ficou a certeza de que a obra escrita por Machado de Assis era uma história tropical, mas com todo o requinte da burguês das cortes europeias. 

Ressurreição é o primeiro romance de Machado de Assis, de 1872. Ao lê-lo, restou-me a consequente visão ácida das oligarquias brasileiras. Em alguns momentos senti o desejo de largar a leitura. Mas, não sou de fazer isso. Se inicio um livro, por mais que ele tenha uma história sofrível, vou até o fim. Ressurreição não é uma obra imponente. Suas características estão postas em outros romances escritos no século XIX aqui no Brasil. Se Machado de Assis tivesse escrito unicamente esta obra, hoje, ele seria um escritor "menor" e insignificante, colocado na periferia da história da literatura. 

Mas, enquanto lemos a obra, percebemos algumas características que passaram a ser marcas registradas e indeléveis do autor de Memórias Póstumas: a ironia fina, as construções sintáticas simples e eloquentes; o diálogo do narrador com o leitor; a citação de nomes importantes das artes (música, literatura) ou da mitologia. Machado já desfere golpes na sociedade com suas conduções forçadas e sua moral fingida e hipócrita. E essa é uma característica marcante no romance Ressurreição. O final do livro é machadiano por excelência. É como um filme de Woody Allen: o destino sempre prega uma peça descontínua nas personagens, o que nos conduz a um final bastante imprevisível.

Quando escreveu Ressurreição, Machado de Assis tinha pouco mais de 31 anos de idade. Não era o gigante que, nove anos mais tarde, soltaria para o mundo uma das obras mais belas e emblemáticas da literatura brasileira - Memórias Póstumas de Brás Cubas. Parece-me que Ressurreição seja um espécie de treino que antecede uma grande realização. 

Sendo assim, pulemos para o próximo exercício, que é A mão e a luva.

quarta-feira, junho 10, 2015

A obra de Lima Barreto ainda fala - Clara dos Anjos

Lima Barreto é um dos escritores brasileiros a quem tenho mais respeito. Essa visão especial sobre o escritor carioca nasce de sua biografia e de sua literatura, que foi uma expressão de sua vida conturbada  - e que dar uma história com feições bastante trágicas. Lima foi vítima do preconceito da aristocracia coberta de pó-de-arroz, vestida de fraque e com cartola à francesa num calor de quase quarenta graus do Rio de Janeiro, para demonstrar o quanto era diferente dos sujeitos humildes dos subúrbios da República Velha e se assemelhava "aos povos civilizados" - no caso, os europeus. 

O escritor nunca conseguiu o devido reconhecimento em vida. Buscou mais de uma vez ingressar na Academia Brasileira de Letras, tendo sempre o silêncio como resposta peremptória. Qual o seu pecado? Ser mulato, falar das cenas do cotidiano, ser morador de subúrbio, denunciar o parasitismo e o artificialismo de uma elite esdrúxula que militava contra o próprio país - como ainda continua a fazer nos dias de hoje. 

Lima escreveu poucos livros. Sua existência foi povoada por rupturas dolorosas; por intervalos entre a produtividade e o vício amalgamado com tendências à loucura, inclinação que vinha de família. Escreveu pelo menos três ou quatro livros que fazem parte do espectro da grande literatura que revela, que tornam os nossos dilemas mais claros, transparentes; livros que exatificam as nossas feiuras, nossos desvarios, nossos voos de mosquito. Podem ser citados O triste fim de Policarpo Quaresma (sua maior obra), Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Os Bruzundangas e Clara dos Anjos. Este último eu tive a oportunidade de ler semana passada. Além dos romances, vale mencionar os excelentes contos escritos pelo autor. 

Clara dos Anjos é uma obra póstuma. Foi lançado apenas em 1948, vinte e seis anos após a morte do autor. Segundo informações, Lima começou a escrevê-lo por volta de 1904 e após a sua morte, em 1922, ainda fica a impressão de que a obra possui traços de inacabamento. Clara dos Anjos, uma espécie de alter ego do autor, é uma metáfora da vida de Lima.  

A obra possui traços bem aproximados do naturalismo do século XIX. O que a torna diferente ao meu modo de ver é o despojamento da linguagem. Lima parece "brincar" com termos do falar popular, criando expressões, adaptando termos ou, simplesmente, manifestando por meio de frases sentenças do francês, do inglês ou do latim. Ele desenha com bastante vivacidade o modo de ser da periferia. As personagens vivem de forma humilde; já, outros, buscam a malandragem para locupletarem ganhos de forma fácil. É o caso de Cassi Jones, personagem finório, que trará enormes desventuras à personagem principal, deixando-a exposta aos preconceitos e deferências explícitas da sociedade.

Clara é uma mulata. Possui bons modos. É sonhadora como é pintado em traço comum pelos escritores do século XIX - a mulher sempre tida como ser frágil e alvo das intenções dos homens.  Mas Lima avança no que tange a essa visão. No seu tempo, havia um papel social definido para a mulher. Cabia a ela, quando moça, preparar-se para o casamento, alimentando essa perspectiva como criatura virtuosa que faria todos os caprichos do marido; que teria as melhores intenções, os pensamentos e as expressões mais puras. Era com esse ideal que a mulher vivia a sonhar. Se ela se inclinasse para algo que não dissesse respeito àquilo que se esperava dela, ela pagaria com a culpa, com o opróbrio e com a desaprovação da sociedade.  Em Lima a culpa deixa de ser da mulher e é transferida para a própria sociedade. Quando a sociedade atua de forma preconceituosa, ela simplesmente revela sua hipocrisia, seu racismo, seu moralismo de fachada. É nesse aspecto que a denúncia feita pelo escritor é tão mordente. Essa crítica ainda permanece viva. O mito do não preconceito, da aceitação incondicional do outro, do diferente, é outra mentira inventada para maquear o debate em torno do preconceito em nosso país. E nesse aspecto que a literatura de Lima Barreto permanece tão viva e falando tanto ainda de nossas doenças. 

Por esses dias começarei a leitura de Recordações do Escrivão Isaías Caminha

sexta-feira, junho 05, 2015

Silas Malafaia e as certezas de uma cor só

"Todo homem irrefletido acha que somente a vontade é atuante; que querer é algo simples, puramente dado, não deduzível, em si mesmo inteligível. Está convencido de que quando faz algo, quando desfecha um golpe, por exemplo, é ele que golpeia, e que golpeou porque quis fazê-lo". 

Nietzsche, in A Gaia Ciência, Aforismo 127

Como deixei transparecer em outras postagens incipientes, já engrossei os filões do evangelicalismo. Já fui ao púlpito, lugar da prédica, e enchi os pulmões de ar a fim de publicizar as minhas certezas, tidas como honestas e inolvidáveis por todos os crentes. Dei aula na escola dominical, lugar de formação, de consolidação das premissas absolutas, que não podem ser contraditadas, posto que a verdade não é uma categoria relativa, capaz de ser posta à prova no mundo da religião.

E acabei aprendendo uma coisa: por mais que se tenha uma visão flexível em torno de determinados temas; por mais que se busque uma relação "frouxa" e de desobrigação com os pressupostos do absoluto, uma vez que você o abrace, essas convicções estreitarão a capacidade de entender a complexidade da totalidade que move o universo. O crente não sofre crises filosóficas, pois a verdade não é um problema para ele. Em seu interior mora a certeza, a fé, que é a capacidade de se acreditar em algo que não se ver, mesmo que não se tenha provas acerca disso. Assentado nessa convicção que é confirmada apenas pela sua experiência; pelos fiapos frágeis da experimentação que emanam dos sentidos, o crente contradiz tudo aquilo que não caiba ou que não possua as tonalidades pictóricas de sua linguagem. Para tornar o imaterial, o intangível em algo claro ou que se estribe na sedimentação de algo possível ou visualizável, cria-se o dogma. O dogma é a tentativa de tornar o imaterial, a ausência, em algo factível, que estrutura o absurdo. 

Pensemos a seguinte situação hipotética, para entendermos como o mundo do religioso é sedimentado. Imaginemos que em um determinado dia, uma força impensável, contrariando as leis naturais surja para algumas pessoas e segrede: "Essa é a minha luz, a minha glória azulácea. De hoje em diante, vestirás o azul. E todo aquele que não vestir azul me negará. E todo aquele me negar estará do lado do mal e não terás relação com ele". Ao que os seres privilegiados e estupefatos pela visão, poderiam indagar: "E o que faremos a partir de agora?" A criatura sobrenatural diria em voz cavernosa do meio da fumaça: "Vai e prega que pelo azul se viverá e qualquer outra cor não será tolerada". 

Claro, criei uma ficção absurda para ilustrar o quanto as religiões são estreitas em suas certezas dicotômicas. Para o religioso, o mundo está dividido entre o mundo dele ( o caminho certo, da vida, reto) e o caminho dos outros (o caminho da perdição, do pecado). Assim como na historieta que criei o  azul seria o absoluto e tudo aquilo que não tivesse essa cor (o vermelho, o amarelo, o branco, o roxo, o marrom, o preto) seria visto como a anti-cor, da mesma forma acontece com o mundo encerrado nos preconceitos da religião. 

O direito a ter uma religião é sustentado pela Constituição. Isso é inegável. Todos os sujeitos têm o direito a professar uma fé, desde que esta não ultrapasse os limites do bom senso e seja posta como aquela está acima de todas as demais - o que quase sempre acontece em nosso país. Outra coisa é a sensibilidade oriunda de uma espiritualidade salutar. Isso independe da religião. Para ser espiritual, uma prática saudável que pode ser cultivada por todo ser humano, não é necessário ser religioso. Ser espiritual é ser capaz de notar a beleza posta nas pequenas coisas. Ser espiritual é enxergar no ser humano um outro como a si mesmo. Acredito que verdadeiramente esteja aí o sentido do religare (religião), ideia que nos "conecta" ao numinoso,  ao halo misterioso que envolve todas as coisas. 

Ora, escrevo essas palavras por causa da propaganda de O Boticário que suscitou tanto ódio esta semana nos religiosos empedernidos de plantão, defensores de que "o azul" é a única cor que existe no mundo. E que qualquer outra tentativa de colorir a realidade com outra cor seja nocivo e pecaminoso. Para Silas Malafaia, um bravateiro de plantão, sujeito que "arrota" as suas convicções dubitáveis e cegas, obrigando-nos a sentir o mal-cheiro do jorro de suas ideias conservadoras, só existe uma forma de se relacionar no mundo. Segundo ele, a família é milenar. Talvez ele precisasse ler uma pouco de sociologia ou antropologia para perceber que a ideia de família é construída socialmente. Que há tribos na África, na Oceania ou mesmo em meio aos índios brasileiros, que a ideia de "papai" e "mamãe" (uma concepção burguesa) é subvertida. Mas, quando ele diz que "a família é milenar", sei, está apontando para a bíblia, pois lá, segundo ele, estão os verdadeiros modelos a serem seguidos. Ou seja, esquece ele que a bíblia foi escrita em um contexto social e histórico em que determinada cultura, a dos judeus, possuía as suas especificidades. Com isso, o caricato polemista (não somente ele) quando leva em conta o modelo preconizado pelos judeus, acaba por absolutizar o modus operandis de uma cultura em detrimento de outras. E, assim, confirma-se a nossa tese. 

A fossilização da história é o grande problema do religioso. Ele olha para determinados aspectos. Perscruta, avalia, tira conclusões e afirma, relegando a multiplicidade de forma do mundo: "Tudo agora será roxo, cinza ou azul", como quer nos fazer crer o senhor Silas Mala-faia e sua trupe acostumada a enxergar o mundo de forma monocromática. Triste! 

Um comentário inacabado ao livro "Bandidos", de Eric Hobsbawn

O Nordeste do Brasil, por exemplo, impressiona à primeira vista como uma bastião do fatalismo, cujos habitantes aceitam morrer de fome passivamente como aceitam a chegada da noite ao fim de cada dia. Mas não está tão longe no tempo a explosão mística dos nordestino que lutaram junto com seus messias, extravagantes apóstolos, erguendo a cruz e os fuzis contras os exércitos, para trazer a esta terra o reino dos céus, nem as furiosas ondas de violência dos cangaceiros: os fanáticos e os bandoleiros, utopia e vingança, deram curso ao protesto social, cego ainda, dos camponeses desesperados.
Eduardo Galeano

O delicioso livro Bandidos, de Eric Hobsbawm, expõe no capítulo "O que é banditismo social?", que o fenômeno do banditismo social faz parte de sociedades agrárias e pastoris. Existem determinados elementos que dão vazão para que este tipo de movimento - marginal - se forme. Por exemplo, Hobsbawm diz que em épocas de muita fome, de repressão política, de descalabros variados, existe uma tendência que dá surgimento a esse fenômeno.

O banditismo "floresce em áreas remotas e inacessíveis, tais como montanhas, planícies não cortadas por estradas, áreas pantanosas, florestas ou estuários, com seu labirinto de canais e cursos d'água, e é atraído por rotas comerciais ou estradas importantes, nas quais a locomoção dos viajantes, nesses países pré-industriais, é lenta e difícil". O historiador inglês vai dizer que baste a construção de estradas ou a conexão com as regiões desoladas, onde originou o banditismo, para que este arrefeça, perca a força. Ou seja, a rapidez na comunicação permite ao Estado ações contundentes a fim de exorcizar o fenômeno do banditismo social.

O Brasil conheceu, no século XX, o fenômeno do banditismo social. O cangaço, classicamente, originado no Nordeste, possui características que levam Hobsbawm a dizer que os cangaceiros não podem ser vistos como "agentes da justiça", "e sim como homens que provam que até mesmo os fracos e pobres podem ser terríveis". Ou seja, os cangaceiros eram figuras ambíguas. Faziam parte de um mundo repleto de superstições, de autoritarismos, de ignorância, de mandos de determinados figurões. Ambientes com essas características, inevitavelmente, fazem surgir grupos justiceiros, como se deu com o fenômeno do cangaço no Nordeste. Figuras como Antonio Silvino ou Virgulino Ferreira da Silva, o "Capitão" ou "Lampião", estão dentro dos limites dessa lógica...

P.S. Escrito em janeiro de 2014. 

sexta-feira, maio 29, 2015

O cinema em março - 2015

A belíssima Rachel Weisz no papel de Hipatias
O blog e o blogger atravessam um período de indigesta preguiça para com a escrita, apesar da leitura ser um gesto quase diuturno. Tenho me ocupado com muitos afazeres. O mês passou célere. A azáfama diária nos joga em um cipoal de responsabilidades que vai nos consumindo; roendo a substância física e espiritual. É preciso estar atento. Desperto. Não permitir que o aquebrantamento seja maior do que a força para a inspiração. Algumas ideias com asas curtas e ralas sobrevoaram a superfície da mente, mas não suportaram a refrega por muito tempo. Não dei atenção a elas. Não as alimentei. E elas acabaram se dissipando com a tempestade inexorável das horas. 

Apareço por aqui hoje para escrever  linhas inexpressivas sobre alguns filmes a que assisti no mês de março. Esses relatórios magros e ordinários têm surgido desde o final do ano passado. Vinha produzindo com a regularidade e o entusiasmo necessários, todavia, uma lassidão me acometeu e acabou roendo por completo as cordas da disciplina. 

Se no mês de fevereiro eu vi seis filmes, no mês seguinte eu consegui assistir a dez. Não farei resumos, posto que o momento me impede de tal empreendimento. Estabelecerei apenas uma lista ordinal. Nela, colocarei aquilo que foi mais relevante, marcante; aquilo que produziu mais estesia no momento em que vi a obra. Há na lista o kitsch hollywoodiano como, por exemplo, Sniper Americano (2014) ou O último samurai (2003); destaco a maviosidade do último e a tragédia bélica, transformada em louvor heroico por uma sociedade que aprendeu que a guerra é a forma de se relacionar com diferença que há no mundo, no segundo. 

No segundo plano, vem De repente num domingo (1983), que apesar de ser um noir de François Truffaut, pareceu-me maçante e de história bastante confusa. Logo em seguida, posiciono Lugares Comuns (2002), filme argentino, que nos dá uma ideia clara do que foi a crise econômica no início do século XXI, crise esta cujas consequências ainda estão postas na combalida sociedade portenha. Podem ser colocadas mais duas obras nesse plano intermediário: Apocalipto (2006) e O jogo da imitação (2014). O primeiro possui o "selo-Mel Gibson de qualidade", ou seja, muito sangue, encaixe de câmeras que provocam efeitos no telespectador e um fundo moral cristão, apesar da história se passar em uma América pré-colombiana. O filme possui uma dualidade: (1) o diretor conseguiu reproduzir plasticamente, com bastante felicidade, os principais aspectos da cultura e dos rituais maias; (2) todavia, permitiu que sua perspectiva religiosa da história prevalecesse ao deixar bem claro que são os descalabros morais, que levam uma civilização ao colapso implacável, como deixa bem claro na epígrafe escrita pelo historiador inglês Will Durant, no início da obra. Já em O jogo da imitação, uma película de grande densidade dramática, o principal personagem, baseado na vida do brilhante matemático inglês Alan Turing, que pagou um preço altíssimo por ser homossexual numa sociedade conservadora e que sedimenta dogmas históricos como é o caso da sociedade inglesa. Caso semelhante havia se dado com o autor de O retrato de Dorian Grey, Oscar Wilde, que amargou a  prisão após o seu romance homo-afetivo ter sido descoberto. O filme busca mostrar como o genial e operoso matemático lidou por anos, até o desfecho medonho perpetrado pelos médicos ingleses, contrários aos impulsos da natureza.

As obras que  podem ser colocadas em um plano mais alto são: (1) Stálin (1992), uma fantástica recriação de como foi o surgimento, a ascensão calculada e o desfecho do coveiro chamado Koba, que se auto-denominou Stálin ("aço") e se tornou o chefe supremo do Partido Comunista da União Soviética. O filme busca descrever a desconcertante ambivalência da personalidade desse, que é um dos mais emblemáticos personagens do século XX. E como ele conseguiu trilhar o caminho do poder. (2) Bashu (1989), um filme iraniano, um dos primeiros daquele país a fazer sucesso no ocidente. O diretor Bahram Beizei construiu um filme singelo, mas de funda beleza poética. Bashu é um menino que foge ocultamente do norte país em um caminhão, após ver a sua família morrer em uma guerra estúpida. Ele acaba atravessando o país e indo para o sul. Lá, ele encontra uma mulher que se afeiçoa dele. Ele passa a viver no sítio dela, apesar dos dois não dominarem o dialeto um do outro.

(3) Alexandria (2009), de Alejandro Amenábar, um filme para ver, pensar e refletir sobre os limites da ignorância e a fragilidade da vida. A obra conta a história de Hipatias de Alexandria, uma das mulheres mais sensacionais que já passaram por esse planeta. Hipatias representa o arquétipo do sábio, do erudito, do sujeito que devota a existência ao conhecimento. Ela substituíra o neoplatônico Plotino, na intectualmente vulcânica Alexandria, um dos locais onde mais se reuniu o saber na antiguidade. Lá estava a mítica biblioteca de Alexandria. Hipatias ensinava com a inquietação característica das grandes mentes. Essa sua característica contrariava a visão tacanha e machista, um pressuposto básico na história. Quando olhamos para a história, não notamos a presença feminina exercendo um protagonismo claro, pois a história foi dominado pelos homens. Pois naqueles dias do segundo século depois de Cristo, Hipatias já antecipava a teoria heliocêntrica, sendo que mais de mil anos mais tarde seria defendida por Copérnico e Galileu Galilei; e punha em xeque a "arrogante" teoria geocêntrica de Ptolomeu, também defendida pela Igreja. O objetivo desta teoria era dar dignidade ao homem. Tirar a terra do centro significava não atribuir o devido valor pretendido pela fé cristã. Todavia, o que fica provado no filme é que determinadas compreensões radicais e fechadas são mais fortes do que a ebulição racional de uma mente que está a serviço da sensatez e do conhecimento. Hipatias sofre duplamente: sofre por ser mulher e sofre por ser alguém de postura independente com o seu pensamento. Maravilhoso esse filme!

(4) Ladrões de Bicicleta (1948) - após Ladrões de Bicicleta, de Vittorino de Sica, fiquei com a certeza de que vi um dos mais belos filmes da minha vida. O filme italiano é uma verdadeira aula de cinema, de um cinema engajado, mas que não perde a ternura. De Sica consegue expor com um realismo dramático a vida do humilde trabalhador Antonio Ricci, um sujeito crédulo e simples, que vive em um subúrbio com a sua mulher e o seu filho. Há um crise na cidade. Os trabalhos são escassos. São anos difíceis em uma Itália esfacelada por conta dos resultados da Segunda Grande Guerra. Ricci consegue um emprego após muito sacrifício. Anima-se. Todavia, para tornar esse emprego efetivo precisa de uma bicicleta. Sua esposa bastante ciosa consegue arranjar o necessário para a bicicleta. A noite anterior ao primeiro dia de labor fora de risos, de contentamento familiar, pois o emprego daria a dignidade, a possibilidade da manutenção do projetos da família. Poderiam comer. E lá se vai Antonio Ricci bastante feliz para o seu primeiro dia de trabalho.  A atividade se resumia a colar cartazes pela cidade. Acontece, porém, que, no primeiro dia, Ricci tem a sua bicicleta furtada. E a partir daí que começa o seu calvário pelas ruas da cidade em busca da bicicleta. Há um misto de beleza e dor nessa incursão de Ricci. De Sica com essa película colocou-se como um dos grandes diretores de todos os tempos. O que conta mesmo no filme é o drama existencial vivido pela personagem. Ou seja, como reage a alma do sujeito que não consegue trabalhar na sociedade capitalista, vivendo em uma sociedade miserável em que os valores se tornam relativos e volúveis de acordo com a necessidade; como a ausência de dinheiro faz convalescer; como a sociedade capitalista trata aqueles que não conseguem consumir as mercadorias. O capital cria a desigualdade e, ao mesmo tempo, numa relação diretamente proporcional, afirma por meio dos valores criados pela sociedade de consumo, que aquele que não consome é anormal, não serve para ser incluído no jogo social. Belíssima obra!

quinta-feira, abril 30, 2015

Nota de indignação

Quando vemos um cenário de barbárie, selvageria e truculência como o que aconteceu no Paraná no dia de ontem, numa indicação clara de como a educação é tratada nesse país, fica a indignação, o repúdio, um sentimento profundo de ojeriza. Existem inversões gritantes nesse país fundado sob uma concepção patrimonialista, repressiva e violenta. O estado brasileiro está a serviço de determinados interesses de classe. O tratamento dispendido aos professores apenas indica como o cidadão, o trabalhador, é visto numa sociedade formada por dois estratos: o Brasil real (do trem lotado, das escolas em má qualidade, do presídios apinhados, da saúde capenga, da favela, do espaço público segmentado) e o Brasil virtual, do andar de cima (dos privilégios, das negociatas, das cumplicidades corruptoras, dos acordos espúrios para se locupletar com a coisa pública).

 Ou seja, o estado brasileiro serve a determinados fins; serve a uma elite que há 500 anos se encastelou, fincou raízes no tecido social e extrai dele toda a seiva produzida pela força dos trabalhadores. Quando vejo uma notícia como a mostrada abaixo, apenas fica a certeza de que somente daqui a 300 anos, com um grande debate, uma mobilização social forçada, poderemos pensar em outro país. No presente, por enquanto, ao presenciar a ferocidade fascista do estado brasileiro contra os professores, por exemplo, morre a crença de que vivemos em um país que tem um projeto político de constituição coletiva.

domingo, abril 19, 2015

A arte de escrever para idiotas - por Márcia Tiburi e Rubens Casara

Após ler o texto, senti a necessidade de divulgá-lo aqui no blog. Pelo menos fica guardado à guisa de arquivo. 

Em nossa cultura intelectual e jornalística surge uma nova forma retórica. Trata-se da arte de escrever para idiotas que, entre nós, tem feito muito sucesso. Pensávamos ter atingido o fundo do poço em termos de produção de idiotices para idiotas, mas proliferam subformas, subgêneros e subautores que sugerem a criação de um nova ciência.
Estamos fazendo piada, mas quando se trata de pensar na forma assumida atualmente pela “voz da razão” temos que parar de rir e começar a pensar.
Artigos ruins e reacionários fazem parte de jornais e revistas desde sempre, mas a arte de escrever para idiotas vem se especializando ao longo do tempo e seus artistas passam da posição de retóricos de baixa categoria para príncipes dos meios de comunicação de massa. Atualmente, idiotas de direita tem mais espaço do que idiotas de esquerda na grande mídia. Mas isso não afeta em nada a forma com que se pode escrever para idiotas.
Diga-se, antes de mais nada, que o termo idiota aqui empregado guarda algo de seu velho uso psiquiátrico. Etimologicamente, “idiota” tem relação com aquele que vive fechado em si mesmo. Na psiquiatria, a idiotia era uma patologia gravíssima e que, em termos sociais, podemos dizer que continua sendo.
Uma tipologia psicossocial entra em jogo na história, baseada em dois tipos ideais de idiotas: o idiota de raiz, dentre os quais se destaca a subcategoria do idiota representante do conhecimento paranoico, e o neo-idiota, com destaque para o “idiota” mercenário que lucra com a arte de escrever para idiotas.
Vejamos quem são:
1- Idiota de raiz é fruto de um determinismo: ele não pode deixar de ser idiota. Seja em razão da tradição em que está inserido ou de um déficit cognitivo, trata-se de um idiota autêntico.
O Idiota de raiz divide-se em três subtipos:
1. 1 – Ignorante orgulhoso: não se abre à experiência do conhecimento. Repete clichês introduzidos no cotidiano pelos meios de informação que ele conhece, a televisão e os jornais de grande circulação, em que a informação é controlada. Sua formação é “midiatizada”, mas ele não sabe disso e se orgulha do que lhe permitem conhecer. No limite, o ignorante orgulhoso diz “sou fascista”, sem conhecer a experiência do fascismo clássico da década de 30 e o significado atual da palavra, assim como é capaz de defender sem razoabilidade alguma ideias sobre as quais ele nada sabe. Um exemplo muito atual: apesar da violência não ter diminuído nos países que reduziram a maioridade penal, a ignorância da qual se orgulha o idiota, o faz defender essa medida como solução para os mais variados problemas sociais. Ele se aproxima do “burro mesmo” enquanto imita o representante do conhecimento paranoico, apresentados a seguir.
1.2 – “Burro mesmo”: não há muito o que dizer. Mesmo com informação por todos os lados, ele não consegue juntar os pontinhos. Por exemplo: o “burro mesmo” faz uma manifestação “democrática” para defender a volta da ditadura. Para bom entendedor, meia palavra…
1.3 – Representante do conhecimento paranoico: tendo estudado ou sendo autodidata, o representante do conhecimento paranoico pode ser, sob certo aspecto, genial. Freud comparava, em sua forma, a paranoia a uma espécie de sistema filosófico. O paranoico tem certezas, a falta de dúvida é o que o torna idiota. Se duvidasse, ele poderia ser um filósofo. O conhecimento paranoico cria monstros que ele mesmo acredita combater a partir de suas certezas. O comunismo, o feminismo, a política de cotas ou qualquer política que possa produzir um deslocamento de sentido e colocar em dúvida suas certezas, ocupa o lugar de monstro para alguns paranoicos midiaticamenteimportantes.
Curioso é que o representante do conhecimento paranoico pode parecer alguém inteligente, mas seu afeto paranoico o impede de experimentar outras formas de ver o mundo, abortando a potência de inteligência, que nele é, a todo momento, mortificada. Isso o aproxima do “ignorante orgulhoso” e do “burro mesmo”.
Em termos vulgares e compreensíveis por todos: ele é a brochada da inteligência.
2 – Neo-idiota: o neo-idiota poderia não ser um idiota, mas sua escolha, sua adesão à tendência dominante, o coloca nesse lugar. Não se pode esquecer que, além de cognitiva, a inteligência é uma categoria moral. O neo-idiota não é apenas um idiota, mas também um canalha em potencial.
Há dois subtipos de neo-idiota:
2.1 – O “idiota” mercenário quer ganhar dinheiro. Ele serve aos interesses dominantes, mas é um idiota como outro qualquer, porque não ganha tanto dinheiro assim quando vende a alma.
Nessa categoria, prevalece o mercenário sobre o idiota. Por isso, podemos falar de um idiota entre aspas. Ganha dinheiro falando idiotices para os idiotas que o lerão. Seu leitor padrão divide-se entre o “burro mesmo” e o “idiota cool”. Ele escreve aquilo que faz o “burro mesmo” pensar que é inteligente. O idiota cool, por sua vez, se sente legitimado pelo que lê. O que revela a responsabilidade do idiota mercenário no crescimento do pensamento autoritário na sociedade brasileira. Apresentar Homer Simpson ou qualquer outro exemplo de “burro mesmo” como modelo ideal de telespectador ou leitor é paradigmático nesse contexto.
2.2 – O “idiota cool” lê o que escreve o idiota mercenário. Repete suas ideias na esperança de ser aceito socialmente. De ter um destaque como sujeito de ideias (prontas). Ele gosta de exibir sua leitura do jornal ou do blog e usa as ideias do articulista (do representante do conhecimento paranoico ou do idiota mercenário) para tornar-se cool. Ele segue a tendência dominante. Ao contrário do “burro mesmo”, nele sobressai o esforço para estar na moda. Como, diferentemente dos seus ídolos, ele não escreve em jornais ou blogs famosos, ele transforma o Facebook e outras redes sociais no seu palco.
Diante disso, temos os textos produzidos a partir da altamente falaciosa arte de escrever para idiotas. O sucesso que alcançam tais textos se deve a um conjunto de regras básicas. Identificamos dez, mas a capacidade para escrever idiotices tem se revelado engenhosa e não deve ser menosprezada:
1- Tratar como idiota todo mundo que não concorda com as idiotices defendidas. O texto é construído a partir do narcisismo infantil do articulista. O autor sobressai no texto, em detrimento do argumento. Assim ele reafirma sua própria imagem desqualificando a diferença e a inteligência para vender-se como inteligente.
2- Não deixar jamais que seu leitor se sinta um idiota. Sustentar idiotices com as quais o leitor (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) se identifique, o que faz com que o mesmo se sinta inteligente.
3- Abordar de forma sensacionalista qualquer tema. Qualquer assunto, seja socialmente relevante ou não, acaba sendo tratado de maneira espetacularizada.
4- Transformar temas desimportantes em instrumentos de ataque e desqualificação da diferença. Por exemplo, a “depilação feminina” já foi um assunto apresentado de modo enervante, excitante, demonizante e estigmatizante. Nesse caso, o preconceito de gênero escondeu a falta de assunto do articulista.
5- Distorcer fatos históricos adequando-os às hipóteses do escritor. Em uma espécie de perversão inquisitorial, o acontecimento acaba substituído pela versão distorcida que atende à intenção do autor do texto para idiotas.
6- Atacar alguém. Este é um dos aspectos mais importantes da arte de escrever para idiotas. A limitação argumentativa esconde-se em ataques pessoais. Cria-se um inimigo a ser combatido. O inimigo é o mais variado, mas sempre alguém que representa, na fantasia do escritor, o ideal contrário ao dos seus leitores (os idiotas: o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool).
7- Reduzir tudo a uma visão maniqueísta. Toda complexidade desaparece nos textos escritos para idiotas. O mundo é apresentado como uma luta entre o bem e o mal, o certo e o errado, o comunismo e o capitalismo ou Deus e o Diabo.
8- Desconsiderar distinções conceituais. Nos textos escritos para idiotas, conservadores são apresentados como liberais, comunistas são confundidos com anarquistas, etc.
9- Investir em clichês e ideias fixas. Clichês são pensamentos prontos e de fácil acesso. Sem o esforço de reflexão crítica, os clichês dão a sensação imediata de inteligência. Da mesma maneira, o recurso às ideias fixas é uma estratégia para garantir a atenção do leitor idiota (o burro mesmo, o ignorante orgulhoso e o idiota cool) e reforçar as “certezas” em torno das hipóteses do escritor (nesse particular, Goebbels, o chefe da propaganda de Hitler, foi bem entendido).
10-Escrever mal. A pobreza vernacular e as limitações gramaticais são essências na arte de escrever para idiotas. O leitor idiota não pode ser surpreendido, pois pode se sentir ofendido com algo mais inteligente do que ele. Ele deve ser capaz de entender o texto ao ler algo que ele mesmo pensa ou que pode compreender. Deve ser adulado pela idiotice que já conhece ou que o escritor quer que ele conheça.
(Para além do que foi identificado acima, fica a questão para quem deseja escrever para idiotas: como atingir a pobreza essencial na forma e no conteúdo que concerne a essa arte?)

A arte de escrever para idiotas constitui parte importante da retórica atual do poder. Saber é poder, falar/escrever é poder, e o idiota que fala e é ouvido, que escreve e é lido, tem poder. O empobrecimento do debate público se deve a essas “cabeças de papelão”, fato que é identificado tanto por pensadores conservadores quanto por progressistas.
O grande desafio, portanto, maior do que o confronto reducionista entre direita e esquerda, desenvolvimentistas e ecologistas, governistas e oposicionistas, entre machistas e feministas, parece ser o que envolve os que pensam e os que não pensam. Sem pensamento não há diálogo possível, nem emancipação em nível algum.
Se não houver limites para a idiotice, ao contrário da esperança que levou a escrever esse texto, resta isolar-se e estocar alimentos.

sábado, abril 18, 2015

A cultura do capital é anti-vida e anti-felicidade - Por Leonardo Boff

A demolição teórica do capitalismo como modo de produção começou com Karl Marx e foi crescendo ao longo de todo o século XX com o surgimento do socialismo e pela escola de Frankfurt. Para realizar seu propósito maior de acumular riqueza de forma ilimitada, o capitalismo agilizou todas as forças produtivas disponíveis. Mas teve como consequência, desde o início, um alto custo: uma perversa desigualdade social. Em termos ético-políticos, significa injustiça social e produção sistemática de pobreza.

Nos últimos decênios, a sociedade foi se dando conta também de que não vigora apenas uma injustiça social, mas também uma injustiça ecológica: devastação de inteiros ecossitemas, exaustão dos bens naturais, e, no termo, uma crise geral do sistema-vida e do sistema-Terra. As forças produtivas se transformaram em forças destrutivas. Diretamente, o que se busca mesmo é dinheiro. Como advertiu o Papa Francisco em excertos já conhecidos da Exortação Apostólica sobre a Ecologia: ”no capitalismo já não é o homem que comanda, mas o dinheiro e o dinheiro vivo. A ganância é a motivação … Um sistema econômico centrado no deus-dinheiro precisa saquear a natureza para sustentar o ritmo frenético de consumo que lhe é inerente.”

Agora o capitalismo mostrou sua verdadeira face: temos a ver com um sistema anti-vida humana e anti-vida natural. Ele nos coloca o dilema: ou mudamos ou corremos o risco da nossa própria destruição e parte da biosfera, como alerta a Carta da Terra.

No entanto, ele persiste como o sistema dominante em todo a Terra sob o nome de macro-economia neoliberal de mercado. Em que reside sua permanência e persistência? No meu modo de ver, reside na cultura do capital. Isso é mais que um modo de produção. Enquanto cultura encarna um modo de viver, de pensar, de imaginar, de produzir, de consumir, de se relacionar com a natureza e com os seres humanos, constituindo um sistema que consegue continuamente se reproduzir, pouco importa em que cultura vier a se instalar. Ele criou uma mentalidade, uma forma de exercer o poder e um código ético. Como enfatizou Fábio Konder Comparato num livro quer merece ser estudado A civilização capitalista (Saraiva, 2014):”o capitalismo é a primeira civilização mundial da história”(p.19). O capitalismo orgulhosamente afirma:”não há outra alternativa (TINA= There is no Alternative).”

Vejamos rapidamente algumas se suas características: finalidade da vida: acumular bens materiais; mediante um crescimento ilimitado, produzido pela exploração sem limites de todos os bens naturais; pela mercantilização de todas as coisas e pela especulação financeira; tudo feito com o menor investimento possível, visando a obter pela eficácia o maior lucro possível dentro do tempo mais curto possível; o motor é a concorrência turbinada pela propaganda comercial; o beneficiado final é o indivíduo; a promessa é a felicidade num contexto de materialismo raso.

Para este propósito se apropria de todo tempo de vida do ser humano, não deixando espaço para a gratuidade, a convivência fraternal entre as pessoas e com a natureza, o amor, a solidariedade, a compaixão e o simples viver como alegria de viver. Como tais realidades não importam para a cultura do capital, como reconheceu o insuspeito mega-especulador George Soros (A crise do Capitalismo, Campus 1999), porque, embora tenham valor, não tem preço nem dão lucro. Mas exatamente são elas que produzem a felicidade possível. Ele destrói as condições daquilo que se propunha: a felicidade. Assim ele não é só como anti-vida mas também anti-felicidade.

Como se depreende, esses ideais não são propriamente os mais dignos para efêmera e única passagem de nossa vida neste pequeno planeta. O ser humano não possui apenas fome de pão e afã de riqueza; é portador de outras tantas fomes como de comunicação, de encantamento, de paixão amorosa, de beleza e arte e de transcendência, entre outras tantas.

Mas por que a cultura do capital se mostra assim tão persistente? Sem maiores mediações diria: porque ela realiza uma das dimensões essenciais da existência humana, embora a elabore de forma distorcida: a necessidade de auto-afirmar-se, de reforçar seu eu, caso contrário não subsiste e é absorvido pelos outros ou desaparece.

Biólogos e mesmo cosmólogos (citemos apenas um dos maiores deles Brian Swimme) nos ensinam: em todos os seres do universo, especialmente no ser humano, vigoram duas forças que coexistem e se tencionam: a vontade do indivíduo de ser, de persistir e de continuar dentro do processo da vida; para isso tem que se auto-afirmar e fortalecer sua identidade, seu “eu”. A outra força é da integração num todo maior, na espécie, da qual o indivíduo é um representante, constituindo redes e sistemas de relações fora das quais ninguém subsiste.

A primeira força se constela ao redor do eu e do indivíduo e origina o individualismo. A segunda se articula ao redor da espécie, do nós e dá origem ao comunitário e ao societário. O primeiro está na base do capitalismo, o segundo, do socialismo na sua expressão melhor.
Onde reside o gênio do capitalismo? Na exacerbação do eu até ao máximo possível, do indivíduo e da auto-afirmação, desdenhando o todo maior, a integração na espécie e o nós. Desta forma desequilibrou toda a existência humana, pelo excesso de uma das forças, ignorando a outra.

Nesse dado natural reside a força de perpetuação da cultura do capital, pois se funda em algo verdadeiro mas concretizado de forma exacerbadamente unilateral e patológica.

Como superar esta situação secular? Fundamentalmente no regate do equilíbrio destas duas forças naturais que compõem a nossa realidade. Talvez seja a democracia sem fim, aquela instituição que faz jus, simultaneamente, ao indivíduo (eu) mas inserido dentro de um todo maior (nós, a sociedade) do qual é parte. Voltaremos ao tema porque não é suficiente fazer a crítica a esta cultura malvada, como a chamava Paulo Freire;   importa contrapor-lhe outro tipo de cultura que cultiva a vida e cria espaços para o amor, a cooperação, a criatividade e a transcendência.

Daqui