domingo, abril 15, 2018

Ian Curtis, um gênio morto precocemente

Cartaz para o filme Control
O rock sempre foi um movimento dinâmico, uma fábrica de mitos; de sujeitos geniais, perturbados, incompreendidos e com fortes propensões para a autodestruição. Foi assim com Jimmy Hendrix, com Jim Morrison, com Bon Scott ou Kurt Cobain. Aqueles que não morreram ainda como, por exemplo, Ozzy Osbourne ou Iggy Pop, causam grande espanto pelas loucuras e imprudências provocadas contra a própria saúde.

Há alguns dias, assisti pela segunda vez ao filme Control (2007), do holandês Anton Corbijn. A obra é uma homenagem ao lendário vocalista do Joy Division, Ian Curtis. O músico, à semelhança de outros icônicos artistas, também esteve na esteira da autodestruição e acabou por cometer suicídio aos vinte três anos. O filme tem como intérprete de Curtis Sam Riley, que está muito bem no filme. Outro ponto forte é a semelhança física com Curtis. Riley mais tarde encenaria a adaptação da famosa obra On the Road, de Jack Keroauc. Na atuação do filme sobre o livro de Kerouac, Riley também está muito bem, embora o filme deixe a desejar. Tentar imitar as sutilezas febris, a velocidade; a agilidade das cenas; a movimentação frenética dos personagens de Kerouac; as experiências com drogas e sexo é, simplesmente, impossível. 

O fato é Riley consegue representar muito bem a personalidade do misterioso Ian Curtis. O vocalista chamava atenção nas apresentações ao vivo pelos movimentos enérgicos; pelas performances que imitavam os ataques de epilepsia que o acometia sempre. Os ataques eram constantes. Às vezes, as convulsões surgiam em meio a uma apresentação. O público não distinguia se era a performance arrebatada, frenética ou se era mais um ataque.
Ian Curtis em alta performance
Curtis foi um poeta soturno. Desde a adolescência, sempre prestara atenção na cena musical britânica. O punk estava em alta, mas ao mesmo tempo havia monstros sagrados espargindo cintilações lisérgicas como, por exemplo, Lou Reed ou David Bowie. Estes dois nomes foram caros para ele. Sua banda, o Joy Division, pode ser classificada como do cenário pós-punk. Mas as letras estão mergulhadas numa atmosfera que muito diverge do movimento punk. O efeito discordante começa pela voz lúgubre de barítono de Curits. Músicas como Atmosphere ou Love Will Tear Us Apart, que estão entre as suas principais gravações, criam um cenário sombrio, de volumosas nuvens cinzentas. Sua voz nos arrasta para uma melancolia leve e atordoante. Curtis como todo sujeito sensível parecia antever determinadas realidades. Era excêntrico por natureza como todo o gênio. 

Até que viu na morte a possibilidade de libertação para os males que o oprimia. Ficamos questionando quais razões teriam levado um garoto tão talentoso como ele a fazer isso. A letra de Love Will Tear Us Apart (que escuto agora) é soberba - "O amor vai nos separar". É um daqueles paradoxos que comprimem a nossa inteligência, que nos empurram a fazer um malabarismo com a razão. Como o amor pode separar? Certamente, trata-se de uma inusitada provocação; de um escracho para as sentimentalidades. Talvez, Curtis tenha se baseado em sua relação conturbada com a sua esposa Deborah Curtis. Mas, o fato é que a letra transcende a sua relação. Ela evola-se. Ganha contornos delicados, a liberdade singela de uma delgada pena.  

A música transmite esse sentimento de ruptura. As batidas ritmadas, o baixo a marcar a viagem e a sua voz grave dizendo que a rotina corrói as ambições e aponta para caminhos separados e, assim, o amor pode dilacerar, fazer mal, asfixiar, tornar-se tóxico. E para isso não há controle. Com a sua morte, houve a dissolução do Joy Division. Os músicos acabaram por formar o New Order.

Por esses dias, separei para ler a biografia escrita por Deborah Curtis, a mulher de Ian, cujo título é: "Tocando a Distância. Ian Curtis e Joy Division".

segunda-feira, abril 09, 2018

A transcendência política de Lula

Extraído da página do Facebook do professor da Universidade de Brasília Luiz Felipe Miguel

O homem que foi preso anteontem é o maior líder popular da história do Brasil. As duas informações, claro, estão ligadas: o homem foi preso por ser o maior líder popular da história do Brasil. E por ter, no governo, com todos os limites e ambiguidades que lhe podem ser imputados, demonstrado, de forma inédita, que o Estado pode ser mobilizado para responder às necessidades prementes dos mais pobres.

É importante ter claro que, ao contrário do que a imprensa se esforça em dizer, a prisão não significa o fim da liderança de Lula. A arbitrariedade e a injustiça de seu encarceramento são patentes. Lula preso não é a derrocada do líder político, mas o emblema do arbítrio.

De todo modo, o encarceramento e o veto judicial à presença nas eleições daquele que foi seu porta-voz principal durante décadas colocam com urgência, para a esquerda brasileira, a questão do seu futuro. Que passa, como outro dia bem lembrou Frederico de Almeida, por duas discussões simultâneas: a superação de Lula e os termos da manutenção de seu legado. Afinal, não se pode jogar fora uma base social tão importante, mas também não se pode permanecer na dependência de uma única pessoa e de um projeto político cujas condições de viabilidade estão cada vez mais estreitas. E essa discussão precisa ocorrer sem que esmoreça a luta pela libertação do ex-presidente, pela restituição de seus direitos políticos e pelo fim da perseguição contra ele. Lula é tanto a vítima de uma injustiça, que reclama por nossa solidariedade ativa, quanto o símbolo da exceção que avança no país, e é nessa dupla condição que a defesa de sua liberdade é prioritária.

A meu ver, há dois elementos em Lula e no lulismo que a esquerda brasileira precisa reter – mas cada um deles inclui também sua própria armadilha. Um é a capacidade de comunicação com as massas populares. O outro é o sentido de urgência no enfrentamento das carências dos mais pobres.

A capacidade de comunicação de Lula tem a ver com sua trajetória, invulgar mesmo para lideranças da esquerda, e com uma competência oratória, uma sensibilidade para compreender as audiências e um talento para gerar empatia que parecem inatos e não estão dando sopa por aí. Mas nasce também de uma recusa consciente a fazer política para seitas. Lula se comunica com a massa porque quer fazer política com a massa, quer ampliar o alcance do discurso, quer romper o círculo da própria esquerda. Sem essa virtude, ele seria talvez um nome com importância na história do sindicalismo brasileiro, mas não o fenômeno político que é.

O problema é que, por vezes, a busca por uma comunicação ampliada imediata leva a evitar enfrentamentos com o senso comum e a ideologia dominante – e isso dificulta avanços além de certo limite. Julgo que, nos melhores momentos de sua carreira política, Lula soube evitar essa armadilha. Sem jamais recair nos chavões da esquerda, fez do diálogo com a massa um momento de educação política real. Mas não quando reduziu seu programa ao ideal liberal da “igualdade de oportunidades” e passou a minimizar o conflito social adotando a persona “paz e amor”.

O sentido de urgência também nasce da vinculação direta com as classes populares, cujas carências não permitem esperar os nossos sonhos. Reconecta a esquerda com o melhor entendimento da política como prática baseada na verdade efetiva das coisas e instrumento para transformação do mundo. E permite a obtenção de uma base social alargada.

Por outro lado, é muito comum que o realismo resvale no possibilismo – o esquecimento de que a vontade de mudar o mundo também é parte da realidade do mundo, a aceitação dos limites à transformação do mundo como inamovíveis, a secundarização da parte da luta política que consiste em alterar as condições da própria luta. Com isso, o enfrentamento das necessidades urgentes acaba por se tornar o horizonte final do projeto político e a transformação social radical é deixada de lado.

Preservar as virtudes do lulismo escapando de suas armadilhas não é um projeto fácil, mas é necessário. A meu ver, a esquerda pós-lulista deve reter um lulismo interpretado à esquerda. Não é um programa popular: alguns rejeitam o prefixo “pós”, julgando que o lulismo deve ser preservado in totum, enquanto outros têm alergia ao lulismo e acham que ele deve ser eliminado até não deixar rastros. Mas para quer uma prática política que seja radical sem ser onírica e que incida na realidade sem deixar de recusá-la, esse me parece ser o caminho possível.


https://www.facebook.com/luisfelipemiguel.unb/posts/10211728057817850


sábado, abril 07, 2018

Brasil: cada vez menor

Hoje é um dia bastante triste. A tristeza sempre nos acomete quando algo traumático nos acerta; ou quando algo importante é arrancado de nós, deixando um espaço enorme. É assim que me sinto neste momento. É inglório viver em país que não decola, que não permite avanços democráticos, que não admite mudanças sociais; um país em que aqueles que ousam enunciar um discurso heterodoxo acabam por amargar o ostracismo político; um país cuja mesquinhez de sua burguesia impede qualquer avanço no campo democrático.

A prisão de Lula no dia de hoje possui um significado simbólico. Lula é o maior líder popular que as forças populares desse país já produziram. Não existe outro nome. Nordestino pobre. Retirante como tantos outros "severinos" (como afirma João Cabral de Melo Neto) que saem daquela região  à procura de novas oportunidades. De família enorme, começa a trabalhar muito jovem. Ingressa num curso técnico. Faz-se na atividade sindical. Passa a ser respeitado. Organiza uma greve geral. É preso em plena Ditadura Militar. Percebia-se que ele não era um mero "joão-ninguém". Com as forças populares e setores amplos da classe trabalhadora, fundo o Partido dos Trabalhadores (PT). O Partido tornou-se grande. Ocupou um espaço importante da vida política nacional. Engajou uma militância aguerrida. Na verdade, o PT é o que de mais sólido a esquerda produziu em quinhentos anos de história.

A partir de 1989, Lula começa a participar das campanhas presidenciais. Essa participação se efetiva de maneira inglória até 2002, ano em que o PT ganha. Antes disso, ele perdera para Collor (uma vez) e Fernando Henrique (duas vezes). O Governo é marcado por uma coalizão com partidos de esquerda e de centro; por partidos abutres e oportunistas. Lula foi crédulo demais. O grande líder ganhou um grande condomínio para presidir, sob uma condição: que alguns andares não fossem desfeitos, ou seja, que a velha burguesia nacional não perdesse os seus privilégios. O governo do PT foi um governo resignado a algumas condições. As tímidas políticas sociais do governo Lula causaram uma impressão negativa nos donos do condomínio. Talvez, essa seja uma das principais causas do ódio que existe ao PT. Viveram-se dias de um forte otimismo. Achávamos que dessa vez o país decolaria. Todavia, por causa de sua burguesia ranzinza, invejosa, predatória e insensível, o país foi obrigado a ser o que sempre foi: um campo fértil de desigualdade e privilégios mesquinhos.

Com o fim do governo Lula, Dilma Rousseff assume a condução do país. Era a terceira vitória do Partido dos Trabalhadores. Esse fato já demonstrava uma contrariedade de determinados setores do capital. Em 2013, as manifestações que aconteceram em julho foram decisivas para influenciar as eleições de 2014. Mesmo com a campanha sórdida da mídia contra a reeleição da presidenta Dilma, ela ganhou, mas não conseguiu governar um único dia até o seu escandaloso impeachment, em 2016. 

A deposição de Dilma foi só o início. Foi apenas um aspecto do golpe. Era necessário mais do que isso. Era necessário impedir a maior ameaça aos grandes oligopólios. O maior medo é de ter um governo que possui resplandecências populares como foi o governo do PT, mesmo que o lulismo tenha promovido uma política de não agressão aos interesses do grande capital.

A mídia, um dos braços dos poderosos desse país, orquestrou uma campanha sórdida contra o PT. Desde 2014, não há um único dia que a mídia não tornem o PT e o seu líder Lula em notícia negativa nos seus jornalões. Setores inteiros da classe média - que não se reconhece trabalhadora - "consolidou" um movimento urdido pelo grande capital. As instâncias políticas fizeram um pacto agressivo contra o Partido dos Trabalhadores. O ódio se acirrou. Doses enormes de fascismo tomou o país.

Afirmar que o PT é um partido vendido à corrupção é uma das maiores baboseiras que existem. É lugar-comum rasteiro; argumento de sarjeta. É uma tentativa de criminalizar a esquerda. Os próprios agentes do estado (vide Ministério Público) criaram epítetos perigosos como, por exemplo, "organizações criminosas". Chamar um partido de "organização criminosa" é colocar em aberto ataque a democracia do próprio estado burguês. Já haviam feito isso com o Partidão (PCB) no passado.

O problema do PT foi aceitar, de maneira crédula, a relação de compadrio com as forças antipopulares. A corrupção é a tática utilizada pelas oligarquias que sempre buscaram se apropriar da condução política do país - custe o que custar. E, nesse sentido, é importante que fique claro que, a crítica ao lulismo deve ser feita. Mas, não se deve olvidar o homem Lula. Aqueles que aplaudem a prisão do Lula não entendem a força simbólica daquilo que ele representa para as camadas populares do Brasil. Lula é a maior liderança popular que esse país já produziu. Zumbi, Antônio Conselheiro, Getúlio Vargas, João Goulart e, agora, Lula são nomes que foram imolados pelas arbitrariedades da burguesia brasileira. Ou seja, todos aqueles que se levantam oferecendo um grito contrário aos desmandos das velhas oligarquias do estado burguês, acabam sendo abafados pela violência das instituições do estado brasileiro. 

Triste saber que um homem como ele - septuagenário - , ficará impedido de participar das lutas do povo. A conjuntura indicava que assim como, deu-se em 1950, com Getúlio Vargas, Lula seria um forte candidato a ganhar a eleição de outubro de 2018. Triste! Viver em um país como o Brasil ter a certeza da instabilidade - de que não é possível alimentar esperanças nem ter sonhos. Somos o país da rasteira, do tapete puxado de maneira absurda; país dos voos de galinha; um país que se torna cada dia menor - e mais difícil de se viver.


quarta-feira, abril 04, 2018

Um excerto sobre Graciliano

Durval Muniz de Albuquerque Jr
"O burguês é, para Graciliano, o homem que desperdiça a vida sem saber por quê, que não tem ideias. É um simples explorador feroz, egoísta e cruel, desconfiado de todos. Um homem submetido a uma miséria existencial. Um homem que só concebe as relações sociais como relações de apropriação, apossando-se de terras, homens e mulheres. O ciúme de Paulo Honório é apenas um modo de manifestação do sentimento de propriedade, que procura transformar Madalena numa coisa, num objeto, ao que ela recusa, afirmando sua condição humana. A luta entre a ética da coisificação burguesa e a ética humanista se revela pela própria incompreensão de Paulo Honório em relação à sua esposa. Ele não consegue compreendê-la, também não consegue entender o humanismo, porque este é a sua própria negação. Sua amabilidade com as pessoas é apenas de casca, visto que ele é também a negação do sertanejo pobre; enquanto este é pura autenticidade, ele é tração. Se adquire a "docilidade" do antigo coronel, é apenas para melhor explorar, não está verdadeiramente preocupado em proteger ninguém. Era um novo senhor de escravos, que não oferece aos seus trabalhadores sequer o que se dava antigamente aos negros das senzalas.

Nesta sociedade, o homem pobre continuava sendo uma coisa, quase um animal, tendo de meter a cabeça para dentro do corpo, como cágado, ao ouvir as ordens do patrão. Era como animais tristes, bichos domésticos, que só eram capazes de fúrias boçais, só eram capazes de destilar veneno aprendido na senzala, indo da subserviência à brutalidade. Graciliano parece, continuamente, estar dividido entre a beleza da teoria de mudança do mundo e a feiúra dos homens concretos que teriam de colocá-lo em prática. Esse certo desprezo pelos homens concretos parece só ser aplacado quando estes são levados para o papel, quando são transformados em estética; então ele demonstra a sua vontade de participar dos sofrimentos alheios, de tornar vísivel um mundo de desigualdades que aprendeu a perceber desde a infância, quando uns sentavam nas redes e outros permaneciam de cócoras no alpendre, solidarizando-se com as pessoas, como ele, vítimas de violência e da prepotência dos mais poderosos. (...)"

A invenção do Nordeste. Durval Muniz de Albuquerque Jr., pp. 268 e 269


segunda-feira, abril 02, 2018

Felicidades cotidianas...

Eu já contei isso aqui para os leitores inexistentes deste espaço: a Amazon me impressiona pela capacidade - eficiência, profissionalismo, competência e as múltiplas qualidades que meu parco vocabulário não consegue qualificar. Comprei doze livros na quarta-feira. Houve o aviso de que os livros seriam entregues até o dia 3 de abril. Eles encaminharam a mercadoria na quinta-feira. Sexta-feira foi feriado. No sábado eu viajei para Goiânia tranquilo. Sabia que era possível a entrega, mas como o feriado acontecera na sexta-feira, eles tinham um belo álibi para que a entrega não se efetivasse no sábado.

À noite, no sábado, para a minha surpresa, recebi, enquanto estava em Goiânia, o aviso de que haviam entregado diligentemente a encomenda. Ao receber o comunicado pelo aplicativo do celular, movimentei o lábio em um riso displicente, daqueles que confirmam uma crença: de fato, os caras são muito bons.

E eis que chegaram... seguem alguns:
















































































quinta-feira, março 29, 2018

"A Guerra do fim do mundo", de Mário Vargas Llosa

Ruína da antiga cidade de Canudos-BA
Uma das primeiras coisas que li em português foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para mim, foi uma das grandes experiências da minha vida de leitor. Foi como ter lido, quando garoto, Os Três Mosqueteiros, ou, já adulto, Guerra e Paz, Madame Bovary ou Moby Dick. Foi realmente o encontro com um livro muito importante, uma experiência fundamental. Um deslumbramento, realmente, um dos grandes livros que já se escreveram na América Latina. Mario Vargas Llosa

Canudos é um dos pontos mais controvertidos da história do Brasil. Até hoje, o debate em torno da ação do Estado em relação ao genocídio promovido pelas forças armadas no nordeste da Bahia é um fato pouco explorado ou refletido, como tantos outros no Brasil. Acertar contas com a história é uma questão essencial para um país que deseja corrigir injustiças promovidas para que elas não se repitam. 

Muitos já escreveram sobre Canudos. O relato mais conhecido é o de Euclides da Cunha, o jornalista de formação militar e positivista que esteve na região cobrindo os combates sangrentos e que mais tarde levaria ao papel as suas afiadas memórias. O relato de Euclides é tão fascinante que, para além de história, ganhou conotações de grandiosidade literária. 

Já separei Os Sertões para realizar a leitura. Acredito que todo brasileiro possui, obrigatoriamente, o dever de ler a obra de Euclides da Cunha. Ela revela um pouco da violência com que as oligarquias do país tratam os pobres. Um pretenso orgulho republicano, de uma das sociedades mais atrasadas da América Latina à época, vitimou quase trinta mil vidas. Eram sertanejos que fugiam da miséria. Ancoravam-se na fé. Esperavam uma espécie de redenção histórica. Acreditavam que Antônio Conselheiro era um enviado de Deus; um profeta poderoso. Um mensageiro de Dom Sebastião. Canudos constituía-se em um grande oásis. Ela possuía suas próprias regras. Conselheiro um propalado republicano era um inimigo da República. Possuía posições obscurantistas.

Pois essa história extraordinária fascinou Mario Vargas Llosa. Após ter lido Os Sertões (imagino que não deve ter sido fácil para ele, já que o texto de Euclides oferece bastantes obstáculos. Seja por sua formação militar do escritor, seja pelas habilidades técnicas como engenheiro, o texto de Euclides é denso, repleto de uma linguagem provocadora), o escritor peruano ficou enfeitiçado pela narrativa euclideana. Aquilo enche-o de otimismo. Isso eram os idos dos anos 70. Resolveu, pois, visitar a região onde ficava situada a cidade. Sentiu as emanações quentes do clima agreste. Visualizou as elevações, o terreno, as pedras, aspectos estes pormenorizados na primeira parte do livro de Euclides da Cunha; esteve ainda nas cidades circunvizinhas a Canudos. Estas cidades são fartamente citadas no romance A guerra do fim do mundo.  

A tarefa de campo demandou alguns meses. Foi necessário colher as informações. Ouvir depoimentos. Deixar-se inundar pelos aspectos humanos da região. Ouvir a voz do povo. O fato é que Vargas Llosa, como ele mesmo disse, teve muito trabalho para escrever a obra. É a obra que demandou mais trabalho em sua longa jornada como escritor. O resultado é fascinante. Diferentemente de Euclides, Vargas Llosa insere elementos fictícios com caricaturas grotescas. Ao lado do combate que se desenrola em longas páginas, nota-se também a presença de personagens histriônicos e quase carnavalizados como é o caso do Leão de Natuba. 

Existem muitos elementos na obra que devem ser ressaltados. Um livro de quase oitocentas páginas não deve ser caricaturado em tão magras linhas como as minhas. Mas acredito que um dos principais aspectos que saltam do livro é o fanatismo. Há um fé inabalável; uma crença que fortalece os miseráveis sertanejos que moravam no arraial. Uma vez que passavam a morar no arraial, uma força irresistível brotava do espírito coletivo e da fé. Se não fosse isso, eles teriam sucumbido na primeira campanha armada que se levantou contra eles. Não teriam matado o arrogante oficial Moreira César, um dos algozes mais temidos no Exército durante a República Velha. César era um homem impiedoso. Ele lutara no Sul do país na Revolta Federalista. Fizera fama por lá. Chegou a Canudos com respeito e com a alcunha de grande matador. 

A Guerra do fim do mundo é um livro épico. É fascinante. Não deve ser comparado ao livro de Euclides da Cunha por possuírem abordagens completamente diferentes para um mesmo evento. Vargas Llosa sabia isso. Ele tinha consciência de que seria um tarefa perigosa escrever sobre Canudos. Como estrangeiro, falante de uma outra língua, seria complicado fazer algo que se equiparasse ao livro Os Sertões. Mas o fato é que estamos nos referindo a um dos maiores escritores americanos de todos os tempos; estamos nos referindo a um ganhador de Prêmio Nobel. Vargas Llosa é um conservador esclarecido. Desses com os quais discordamos, mas damos a ele o direito de resposta por sabermos que há um sólido embasamento naquilo que está dizendo. 

Como um homem da literatura, Mario Vargas Llosa é imbatível. Certamente, para mim, foi uma das mais ricas e agraciadoras experiências  da minha vida ler A Guerra do fim do mundo.

sábado, março 10, 2018

Ainda José Lins do Rego - "Banguê"

Apesar de ter terminado a leitura de Banguê há bastante tempo, o terceiro romance de José Lins do Rêgo, somente agora me decidi por realizar alguns comentários. Do ponto de vista da escrita, Banguê é o que possui a melhor redação dos três primeiros romances. Como foi comentado anteriormente, Menino de Engenho, o primeiro, é uma narrativa centrada na nostalgia. Não há dramas psicológicos. É a infância verbalizando suas impressões. Carlos de Melo é uma criança órfã que decide contar alguns fatos sob uma perspectiva altamente saudosista. 

Apesar da ficção, ouvimos a partir dele, quiçá, a própria voz do romancista José Lins do Rego, que experimentou a sua infância também em um engenho. Ele empresta a sua história a Carlos de Melo. No segundo livro, Doidinho, percebe-se que "o ciclo" começa a ganhar contornos sólidos. A narrativa se avoluma. José Lins continua a sua incansável saga memorialística. Carlos de Melo ainda está no centro. Enquanto em Menino de Engenho, temos-lo criança, em Doidinho ele é o adolescente que vai para escola e experimenta os rigores da disciplina. 

Carlos tem o futuro à frente, mas insiste em olhar para o Santa Rosa. Os acontecimentos são quase inexistentes no engenho Santa Rosa na narrativa. O engenho é visto como o Éden; como o espaço privilegiado da pureza inconteste; da felicidade inquebrantável; dos acontecimentos grávidos de liberdade. Há uma polarização entre o Liceu em Itabaiana e o Engenho Santa Rosa - aquele, o espaço claustrofóbico, do confinamento, do medo, do susto, da violência repressora; já este é o jardim das delícias; da fauna e da flora privilegiadas; em suma, de um mundo sem porteiras nem muros.

Banguê, por sua vez, escrito em 1934, é o mais denso livro da trilogia de Carlos de Melo. Fica-nos a impressão de que José Lins tenha desenvolvido a técnica que o conduziria a Fogo Morto, sua obra máxima. O livro foca a atenção em um Carlos de Melo já adulto, formado e herdeiro do espólio do Santa Rosa. O avô José Paulino, figura emblemática do patriarca, aquele que ergueu o grande feudo, morrera. Ela era o inexpugnável dono de terras, animais e "gentes". Carlos de Melo, bacharel em Direito, formado no Recife - assim como José Lins, um herdeiro das famílias tradicionais do Nordeste - após a formatura, volta para o Engenho. Sua indolência para com as coisas do Santa Rosa colocam-no em crise. Percebe-se claramente a sua falta de habilidade para gerir, para tocar as terras antigas do avô. 

As safras não são as mesmas. Um medo profundo de ser morto o abate. Desconfia dos parentes. Nota que há moradores mais habilidosos do que ele na condução das lavouras. Por fim, percebe que está na iminência de perder o Engenho para uma usina. Não consegue pagar uma carta de crédito. Se isso acontecer, ele liquidará a história do imortal Engenho Santa Rosa, que é uma extensão da memória do avô José Paulino.

Minhas palavras soam meio inexpressivas na tentativa de fermentar o interesse pela história, mas o fato é que o ritmo da prosa de José Lins deixa a impressão de um escritor que ia escrevendo à medida que memória fazia o seu trabalho. A narrativa pode ser comparada a uma mina que brota incessante. É delicioso ler José Lins do Rego! Percebe-se que ele não se preocupa com as grandes construções gramaticais. O fluxo de sua narrativa parece ser resultado de uma conversa, uma confissão privilegiada à imaginação dos leitores. 

Estou terminando dois livros atualmente - A guerra do fim do mundo (Mario Vargas-Llosa) e A invenção do Nordeste e outras artes (Durval Muniz de Albuquerque Junior). Assim que concluí-los, emplacarei a leitura de O moleque Ricardo. Quero perfazer toda a obra do escritor paraibano este ano. Sigamos. 

domingo, fevereiro 25, 2018

A guerra do fim do mundo

O ano passado, comecei a leitura de A guerra do fim do mundo, livro fundamental para se compreender o Brasil atual à luz dos eventos históricos ocorridos durante a Primeira República, também chamada de República Velha. Mario Vargas Llosa, escritor peruano e um dos poucos escritores latino-americanos a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, passou alguns meses no sertão baiano, colhendo informações; observando a paisagem; assinalando as características dos moradores do lugar; catalogando documentos históricos a fim de entender a épica história de Antonio Conselheiro e do arraial de Canudos. 

Estou na metade do livro. Devo confessar que se trata de uma obra extraordinária em todos os sentidos. Em outro momento farei uma breve reflexão sobre ela. Por enquanto, fica um vídeo do programa Direito e Literatura. Vale a pena assistir ao vídeo que possui pouco mais de 25 minutos.

Direito e Literatura - A Guerra do Fim do Mundo from Unisinos on Vimeo.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Um excerto sobre o tempo, essa matéria que nos molda

"Rachel de Queiroz se preocupa com a dicotomia entre tempo e espaço. Para ela, o tempo, diferentemente do espaço, não tinha estabilidade, não se podia ir e voltar nele. O que se passa no tempo some, anda para longe e não volta nunca. É com profundo pesar que ela constata ser o passado uma substância solúvel, que se dilui dentro da vida, escorre pelos buracos do tempo - águas passadas. Para Rachel, a dimensão do tempo é aflitiva para o homem, pois seus únicos marcos são as lembranças, cujas testemunhas são as pessoas que também passam, também se transformam. 

O homem não tem sobre o tempo nenhum comando, apenas sofre o tempo, sem defesa. O tempo anda no homem, mas este não anda nele. O tempo nos gasta como lixa, nos deforma, nos diminui e nos acrescenta. Os olhos de trinta anos desaparecem, a forma de ver também. Razão por que o espaço é repositório da memória, das marcas do tempo; é a dimensão que, segundo ela, deve proteger o homem dessa sensação de vertigem. O espaço seria a dimensão conservadora da vida". 

A invenção do Nordeste e outras artes. Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Editora Cortez. 2011, pp. 97-8.

domingo, fevereiro 18, 2018

Algumas palavras sobre "Enclausurado", de Ian McEwan

"Nem todo mundo sabe o que é ter o pênis do rival do seu pai a centímetros do seu nariz". Ian McEvan.

Comprei há pouco mais de um ano três ou quatro livros de Ian McEwan. Acredito que em outro momento eu já havia comprado "Sábado". Estão dispersos em meio aos meus livros. É o que a memória consegue resgatar. O inglês é tido como um dos grandes escritores da atualidade. Já escreveu quase vinte livros em sua carreira de sucesso. Ganhou prêmios. "Amsterdã" e "Reparação" entraram para a lista de obras-primas. 

Não sei o porquê, mas resolvi enfrentar o seu último sucesso - o romance "Enclausurado". Trata-se de uma das narrativas mais vivas e bem escritas que li nos últimos tempos. McEwan mostrou-se um verdadeiro mestre em manter o controle de um texto. Primeiramente, é necessário dizer que se trata de um livro com aspectos inusitados. Sua inverossimilhança o aproxima do humor machadiano. É possível colocá-lo em paralelo com o "Memórias Póstumas de Brás Cubas". No livro de Mchado de Assis, encontramos um narrador relatando fantasticamente o que se deu com enquanto estava vivo. Em "Enclausurado", pelo contrário, temos uma viagem inversa. O narrador é um ente que ainda não aportou no mundo. 

Sua mãe Trudy está no nono mês de gestação. É uma mulher bonita, jovem; possui uma inteligência média. Ela se relaciona com Claude, um sujeito de inteligência duvidosa, típico fenômeno pós-moderno - de pouca acurácia intelectual, defensor de um nacionalismo caricato contra os estrangeiros; intransigente; de percepção acanhada. Mas, apesar desse aspecto negativo com relação à personalidade, Claude é um campeão na cama. O feto nos fornece descrições do seu desempenho. Trudy no nono mês tem tórridas relações sexuais com ele. Essa relação estaria dentro de um padrão, se não fosse pelo fato de Trudy planejar o assassinato de John, o seu ex-marido - e irmão de Claude. 

John é o contrário do irmão. É um sujeito sensível. Apaixonado. Educado. Poeta. Amante da vida. O que John possui de conteúdo, Claude deixa a desejar. São verdadeiros antípodas. 

A causa do plano para matar John é pelo fato deste possuir uma casa no valor de 7 milhões de libras. Se ele viesse a morrer, a casa ficaria com Trudy. Daí surge o plano. 

E como ficamos sabendo de tudo isso? Por intermédio de um feto, que empreende uma fina análise dos perfis dos personagens. É justamente nesse ponto que McEvan demonstra a sua competência. Um aspecto de fina ironia e de um intimismo melancólico que acaba por tornar a leitura apaixonante.

Penso que o livro seja uma joia que possui muitas faces a serem analisadas. Quero me restringir de maneira superficial à amplitude semântica do título. Notamos o desenrolar das ações pela percepção de um feto. Sua ambiência se restringe à experiência do mundo uterino. Ele escuta os planos; rumores da traição; a carga de vilania da mãe e do tio. "Enclausurado" significa, então, o encurralamento de possibilidades; a impotência que marca a criatura que assiste a tudo sem nada poder fazer. "Enclausurado", ainda, pode ser a possibilidade da cadeia. Ou seja, a mãe por ser assassina iria para a xadrez. O feto vive na "prisão" aconchegante e macia do útero materno. Mas, ao nascer, experimentaria a clausura da cadeia. O antes e o depois do narrador é a prisão. Genial a sacada de McEwan. É, por isso, que a literatura encanta.

segunda-feira, fevereiro 05, 2018

Enquanto isso... no andar de cima

O Brasil não é um país sério. Disso todo mundo está careca de saber. Acontecem coisas por aqui que seriam impensáveis em qualquer parte do mundo. Um dos problemas mais sérios do brasileiro é que ele não se leva a sério. Esse "ceticismo de vira-latas" é um mal que nos assola, que vai nos consumindo. Vejam, por exemplo, a charge abaixo. Ela vivica nosso raquitismo, nosso mandonismo diário e como o jogo político dos mandatários do país é realizado. E como disse certa vez Darcy Ribeiro 'as elites brasileiras estão entre as mais atrasadas e ranzinzas do mundo'. Há comicidade, mas também há uma tragicidade latente nisso tudo. 


segunda-feira, janeiro 29, 2018

Um pouco de José Lins do Rego...

Voltei ler José Lins do Rego. Trata-se, como já enunciei em outros momentos, de uma paixão. Existe um forte elemento de identificação na literatura do paraibano, que acaba por gerar uma forte atração gravitacional em mim. Resolvi começar pelo seu famoso ciclo da cana-de-açúcar - Menino de Engenho, Doidinho, Banguê, O moleque Ricardo e Usina. Já havia lido estes livros de forma aleatória. Comecei, desta vez, seguindo rigorosamente a ordem cronológica. Desejei sentir os efeitos gradativos da força criativa de José Lins.

No final de dezembro li Menino de Engenho. Acredito que dos livros do ciclo, Menino de Engenho seja o mais "descuidado". O livro me pareceu na segunda leitura que realizei escrito às pressas. Pareceu-me que José Lins o concebeu como um exercício. Os capítulos sucedem-se de forma rápida. O seu final é rápido. Acredito que a sua força esteja nas imagens evocadas, nas cores bucólicas de sua narrativa, povoada por doces memórias.

No segundo livro do ciclo, Doidinho, Zé Lins imprime um desenho analítico maior em sua escrita. O mesmo Carlos de Melo surge contando a sua história. Há uma inversão do espaço da narrativa. Enquanto em Menino de Engenho, o espaço é o da liberdade do engenho - os banhos no rio Paraíba, a caça dos passarinhos; a exploração dos pomares; o olhar curioso para o trem que passava com o seu apito evocativo; a descoberta da sexualidade.

Em Doidinho, o espaço é o espaço do confinamento, da asfixia, da saudade do Engenho Santa Rosa.  Esse fato é tão impactante no livro que, ao final, a personagem foge da escola em Itabaiana e vai em direção ao engenho. As técnicas de ensino castrantes e demolidoras da liberdade. A férula do professor Maciel, que entendia que o castigo físico era uma forma de educação para as virtudes. Em outras ocasiões, o castigo era uma forma intransigente de mostrar seu estilo de liderança. As marcas se acentuavam em todos sentidos - físicas e psicológicas.

Ao meu modo de ver, o salto qualitativo de Menino de Engenho para Doidinho é evidente. Hoje, iniciei a leitura de Banguê, livro este que li há uns treze anos. Li cinquenta páginas de uma vez, dada a força da narrativa.

Os três livros colocam como centro da narrativa a pessoa de Carlos de Melo - Menino de Engenho (a criança); Doidinho (o adolescente); e Banguê (o adulto). Percebemos nestas obras, como se dá o processo de degradação das oligarquias canavieiras. Nos dois primeiros livros, o avô de Carlos - José Paulino - é uma metáfora da força da economia que existia nos engenhos. No terceiro livro, a velhice do avô se alia à decadência dos engenhos e, necessariamente, dos banguês (a propriedade agrícola com os canaviais e o engenho com moagem artesanal).

Sigamos com a leitura de Banguê.

domingo, janeiro 28, 2018

"Quem escreveu a Bíblia?", de Bart D. Erhman

A Bíblia é considerada por bilhões de pessoas em todo o mundo como um livro sagrado, de autoridade inquestionável. Ela é a expressão exata daquilo que Deus falou. É a verbalização, a materialização de sua voz. O inequívoco sopro de Sua boca, tornado em evento por meio dos profetas, evangelistas e outros sujeitos anônimos que, ao longo de mais de mil e quinhentos anos, foram responsáveis por essa construção. 

Analisando por essa perspectiva meramente de fé, os cristãos dizem que não há um equívoco sequer em seu texto. Está de acordo com a vontade da soberana de vontade do Criador. A própria Bíblia utiliza uma metalinguagem para justificar a sua autoridade. Na segunda carta, supostamente escrita por Pedro, encontramos uma afirmação categórica: "E temos, mui firme, a palavra dos profetas, à qual bem fazeis em estar atentos, como a uma luz que alumia em lugar escuro, até que o dia amanheça, e a estrela da alva apareça em vossos corações. Sabendo primeiramente isto: que nenhuma profecia da Escritura é de particular interpretação. Porque a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum, mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo". (2 Pedro 1:19-21).

Quem lê a Bíblia em nossos dias, não relaciona o fato de que sua escrita seja o resultado de disputas. Essa tese está no livro do professor Bart D. Erhman  "Quem escreveu a Bíblia?", que acabei de ler. Ehrman, um renomado estudioso do Novo Testamento, mostra que boa parte da redação atribuída a determinados autores não se sustenta. Ou seja, a menção a esses autores está equivocada. 

Tomemos como exemplo as duas epístolas de Pedro. Sempre percebi nas leituras que já fiz das duas cartas que havia elementos distintos da personalidade do apóstolo daqueles encontrados nos evangelhos. Pedro era um indivíduo bronco, dado a rompentes; de personalidade forte, impulsivo. Em um dos episódios narrados nos evangelhos, Pedro corta a orelha de Malco, um dos soldados romanos que vieram prender Jesus. Ainda segundo os evangelistas é ele que quer que desça um raio do céu para fulminar aqueles que não creram em Cristo. Todavia, quando lemos as duas epístolas, notamos um Pedro diferente  - articulado, conhecedor dos textos Antigo Testamento; conselheiro, de sabedoria  proverbialmente paulina. 

Possivelmente, Pedro fosse um analfabeto. Segundo o próprio Erhman, apenas 3% das pessoas nos tempos de Jesus sabiam ler ou escrever. A grande massa de pessoas viviam numa profunda ignorância. É estranho que, de repente, Pedro se levante como uma autoridade intelectual. Outro elemento destoante é a qualidade do grego utilizado para escrever a carta, que é de boa qualidade. Pedro, certamente, não sabia grego. Sua língua era o aramaico, como um palestino humilde que era; habitante do norte de Israel. 

Utilizo a epístola de Pedro como exemplo citado por Erhman, mas, nos supostos textos de Paulo, também encontramos atribuições indevidas. A tradição entende que quase metade dos textos do Novo Testamento foi escrito por Paulo. Esse fato não se sustenta para Erhman. Para ele, não são paulinas as cartas de: I e II Timóteo, Tito (chamadas de cartas pastorais); Efésios, II Tessalonicenses e Hebreus. 

Durante os primórdios da Igreja, não havia um cânon (o conjunto de livros ditos "sagrados" como convencionamos hoje). Havia uma tradição oral. As pessoas que haviam convivido com Jesus transmitiam as narrativas. Aos poucos essas histórias começaram a ser coligidas, reunidas. O primeiro evangelho a surgir foi o de Marcos. Logo em seguida vieram Mateus e Lucas. O Evangelho de João foi último. A grande questão é saber quem de fato eram essas pessoas. Os nomes foram atribuídos. Não significam que pessoas com esses nomes e personalidades escreveram esses textos. Há dezenas de outros evangelhos escritos, mas, por que somente esses foram considerados sagrados? Existem livros atribuídos a Pilatos, a Nicodemos, a Maria Madalena, a Tomé, a Pedro etc; há livros de sujeitos que viveram próximos aos apóstolos como Clemente. 

Ao longo dos séculos, foram os concílios os responsáveis por fixar o que cabia e o que não cabia no chamado cânon. É possível que muita coisa que "não era" passou a ser considerado como sagrado; e muita coisa que "era", que também deixou de ser. O fato, é que "o uso" e a repetição de determinado entendimento cria a consolidação daquilo que é sagrado assim como conhecemos. Hoje, por uma questão que se tornou inquestionável, colocar em dúvida esses textos é cometer um crime mortal.  

Não se trata de uma implicação com a Bíblia. Erhman é um debatedor honesto. Sua função não é atacar a Bíblia, destratar a fé alheia. Suas argumentações são acadêmicas e honestas.  Vale a leitura!