quarta-feira, julho 31, 2024

Richard Wagner: música, genialidade e controvérsias

 

[Wagner era um] “gnomo fungador da Saxônia com talento bombástico e caráter desprezível”

Thomas Mann, sobre o compositor alemão.

 



No início da semana, terminei a audição da famosa tetralogia do Anel, do compositor alemão Richard Wagner. Os quatro trabalhos somam mais de quinze horas de música, teatro e uma exigente performance para os músicos. Os quatro trabalhos – “O ouro do Reno”, “As Valquírias”, “Siegfried” e “O crepúsculo dos deuses” são trabalhos complexos e que revelam as enormes aspirações do compositor. “O anel do Nibelungo” pode ser colocado como uma das produções mais rigorosas já produzidas por um ser humano. Por trás dessa grandiosa obra, nota-se o homem Richard Wagner.

Para completar esse quadro, li uma excelente reportagem no jornal alemão DW, publicada há dois dias que tratava sobre o homem e o mito Richard Wagner. Ao longo de sua vida – e até hoje -, o compositor construiu, ao mesmo tempo, um exército de admiradores quase religiosos e um outro exército de críticos ao seu trabalho e à sua personalidade. Ou seja, não há como negligenciar a condição de polemista do alemão.

Primeiramente, é importante abordar o caráter político do alemão. Há por trás de sua personalidade manifestações preconceituosas e oportunistas. Em vida, Wagner foi o defensor de um resgate do verdadeiro espírito alemão. Seu antissemitismo é um dos aspectos mais asquerosos de sua biografia. Certamente, ele fortaleceu, no final do século XIX, muitas das aversões que foram direcionadas aos judeus. Outro aspecto nebuloso é a ligação de seus descendentes com a ideologia de Hitler. Não se pode dizer que Wagner inaugurou o nazismo. Não existe o menor fundamento histórico para isso, mas pode-se afirmar que a música do compositor foi usada como estética para a pedagogia do 3º Reich. Quando se observam as imagens dos soldados perfilados, da regularidade da marcha, dos uniformes, as multidões perfiladas, tudo cria uma frugalidade e um rigor operístico. Certamente, o entusiasmo nacionalista do compositor criou essa identificação. A personalidade de Wagner passou a ser admirada e endeusada pelos principais líderes do regime nazista.

Hitler, desde a juventude, havia se apaixonado pela música do alemão. Fazia incursões anuais para Bayreuth, pequena cidade do interior da Alemanha, onde foi construído sob o patrocínio de Luís II, da Baviera, o famoso teatro para que as óperas do compositor fossem encenadas. Todos os anos, 11 de suas principais óperas são encenadas nos meses de julho e agosto. Isso tem sido feito desde 1876. A fila para conseguir um ingresso é altamente disputada, chegando a 8 ou 10 anos para se conseguir um ingresso.

Em segundo lugar, é importante dizer que a música de Wagner não deve ser negligenciada. O drama é uma condição inexpugnável de sua música. Ela é elevada a níveis altíssimos. Algumas de suas óperas possuem quase quatro horas de uma apresentação intensa em que não é possível baixar o nível. Ou seja, um verdadeiro desafio para aqueles que desejam representá-la. A obra do compositor procura exaltar um ideal de grandiosidade e pureza. Sua música é capaz de provocar fortes emoções. Há nela elementos fantasiosos e uma atmosfera quase religiosa.

O “talento bombástico” ao qual se refere Mann diz respeito, certamente, ao magnetismo que a música do alemão promove. Bruckner o chamava “mestre dos mestres”. A admiração do compositor austríaco era das mais exageradas. Ele viajou algumas vezes da Áustria para a Alemanha para acompanhar o famoso Festival na cidade de Bayreuth. Suas 11 sinfonias estão impregnadas de Wagner. Dedicou a Terceira Sinfonia, cujo nome “Wagner” faz uma referência explícita à admiração que tinha pelo grande operista.

Wagner insere uma nova página para a música moderna. Suas inovações podem ser percebidas, por exemplo, na relação que ele estabelece da voz com a força da massa sonora da orquestra. Em Wagner, não somente os cantores contam a história. A orquestra também o faz. Notam-se por meio de insinuações dos instrumentos, a adequação entre o que está sendo cantado e o que está sendo reproduzido pelos músicos da orquestra. Nada é gratuito. Tudo deve ser observado, pois tudo compreende o drama. Os leitmotivs também foram uma técnica desenvolvida por ele como espécie de metalinguagem para que fossem percebidos insinuações do tema do trabalho que é representado. 

Ao ouvir as quatro óperas (uma por semana) de “O anel do Nibelungo”, pude absorver um pouco da atmosfera grandiosa e megalomaníaca do compositor. Em um primeiro momento, a impressão que nos passa é de que estamos diante de lendas ultrapassadas sobre mitos germânicos. Não. Wagner depositou ali os dramas humanos – a força, a honra, a coragem, a verdade, a mentira e tudo aquilo que envolve o desafio que é ser humano. O homem Wagner está escondido por trás de camadas polêmicas de controvérsias, mas sua música é grande, sublime, de força avassaladora. E isso é incontestável.

terça-feira, julho 30, 2024

"Esaú e Jacó", de Machado de Assis - algumas observações


“Paulo gostava mais de conversa que de piano; Flora conversava. Pedro ia mais com piano que com a conversa, Flora tocava. Ou então fazia ambas as coisas, e tocava falando, soltava a rédea aos dedos e à língua”.

Capítulo XXXV

“Todos os contrastes estão no homem”.

Capítulo XXXV

Terminada a releitura de “Esaú e Jacó”, restou a impressão de que essa é uma das obras que melhor desvelam o seu autor. Revela um escritor maduro, que oscila entre a sátira, o niilismo e um estoicismo recolhido, personificado na pessoa do personagem do Conselheiro Aires. Vale lembrar que o ataráxico Aires seria o personagem principal que levaria o nome do último romance escrito por Machado – “Memorial de Aires”. No de caso de “Esaú e Jacó”, o escrito emprega o pessimismo e o faz por meio daquilo que ele sabia fazer melhor – a ironia fina, escorregadia, urdida em uma arquitetura textual primorosa. 

O livro foi publicado no ano de 1904, mesmo ano em que faleceu a sua inseparável companheira de 35 anos – Carolina Xavier. Machado contava com 65 anos de idade. Era um sujeito experimentado e habilidoso. Havia acumulado uma carreira de muito trabalho e consequente sucesso. Até aquele momento, escrevera obras que estão colocadas no panteão definitivo das produções literárias nacionais – “Memórias Póstumas”, “Dom Casmurro”, “Quincas Borba”, além de inauditos contos como “O alienista”, “A igreja do diabo”, “O espelho” e “A teoria do medalhão” entre outros. O seu realismo havia se escancarado, como lhe era comum; todavia, pode-se notar um ceticismo medido e mais acentuado em “Esaú e Jacó”.

As camadas de ironia do texto construído em torno dos antípodas Paulo e Pedro, encobrem, numa camada profunda, o entendimento de que a realidade pode ser diversa; que a história dos homens pode se alternar; que o elemento preponderante da realidade é a impermanência. Na parte final da obra, o narrador afirma: “Enfim, a morte chega, por muito que se demore, e arranca a pessoa ao pranto ou ao silêncio”. Em um dos capítulos da obra, naquelas incursões típicas do narrador que dialoga com o leitor (tão próprias de Machado de Assis), encontramos: “Não envelheças, amiga minha, por mais que os anos te convidem a deixar a primavera; quando muito aceita o estio”. Verifica-se que há uma acentuada preocupação com a questão do “tempo”. Ele aparece como motivo de reflexões ou envolve a vida dos personagens, traduzindo em acontecimentos em que se nota o quanto as personagens são atravessadas por esses efeitos. Ninguém pode se conduzir pela existência, simplesmente, ignorando-o; ou desconsiderando os seus sinais.

Machado de Assis

Fato curioso reside – de início – no nome da obra. Esaú e Jacó são os nomes dos dois filhos de Isaque – e este, filho de Abraão, de acordo com o texto bíblico. Os dois irmãos são criados de forma distinta. Esaú é caçador e tem a predileção do pai; Jacó, por sua vez, é benquisto pela sua mãe Rebeca. Os dois são concebidos em disputa. Esaú nasce primeiro, mas Jacó segura-lhe o calcanhar. O nome Jacó deriva de uma expressão hebraica que significa “ele agarra o calcanhar” e serve para designar uma pessoa de comportamento enganoso. Esaú é o mais velho e, portanto, todas as prerrogativas jurídicas da herança caíam sobre ele.  Jacó e sua mãe conseguiram usar um estratagema para fazer com que o irmão mais velho trocasse o direito de primogenitura por um prato de lentilha. Mais tarde, todos os efeitos da primogenitura recaem no colo de Jacó e ele passa a ser chamado de Israel. Esse confronto manifesto é explicado por meio de uma profecia dirigida a Rebeca pelo próprio Javé: “O mais velho servirá ao mais novo”. Os dois fundariam dois povos poderosos, mas essas nações seriam inimigas.

Apesar desse pano de fundo, os dois personagens de “Esaú e Jacó” não são chamados dessa forma. Um se chama Paulo e, outro, Pedro. Aquele era um entusiasta republicano e este um calejado monarquista. São completamente distintos em várias questões. Parecem existir para se confrontarem. Paulo e Pedro também são nomes extraídos Bíblia. Todavia, são nomes ligados à fundação do cristianismo. Enquanto Pedro estava ligado à Igreja de Jerusalém, Paulo é o apóstolo onipresente que estrutura um discurso e o leva aos confins do Império Romano. Ele é o pregador da diáspora, seu “ethos” é o da integração, do universalismo, da difusão plural, pois pregava aos romanos, gregos e demais povos da Antiguidade. Dominava a língua grega, a língua da cultura sistematizada da época. Além disso, é possível que soubesse o latim, a língua do Império e responsável por organizar as questões políticas e militares. Pedro, por sua vez, estava circunscrito ao ambiente judaico de Jerusalém e dominava, possivelmente, o aramaico. Nota-se, assim, que Machado genialmente une Antigo e Velho Testamento para construir o enredo da obra. Estica-se um fio que se apropria de elementos judaicos e elementos cristãos.

O Rio de Janeiro, em 1889, ano da Proclamação da República
 

Outro importante aspecto diz respeito ao momento histórico que a obra retrata. Nesse sentido, é um importante texto para estabelecer conexões com a fundação da chamada República Velha. Lima Barreto também a retrataria, mais tarde, em “O triste fim de Policarpo Quaresma”. Pedro torna-se médico; forma-se no Rio de Janeiro, sede da capital do Império. Paulo, torna-se advogado; estuda em São Paulo, um dos centros irradiadores das ideias republicanas. Vale mencionar que em São Paulo fica a prestigiada Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. Lá estudaram boa parte dos intelectuais que alimentaram a chama do republicanismo no final do século XIX.

A única questão que une os dois personagens é a paixão pela linda Flora, que ora se decide por um; ora se inclina para outro, sem tomar qualquer decisão. Observa-se que ela morre sem se decidir nem por um nem por outro. Em “Esaú e Jacó” o jogo muda, ganha novos contornos, pois a vida é repleta do efêmero. O ser humano também o é. Em tempos de mudanças, o que fica é a força da falta de estabilidade. Para algumas pessoas, essa característica gera inseguranças. No geral, as pessoas não lidam muito bem com a impermanência. Todavia, a realidade se constitui pela transformação, pela contradição.

A obra faz referência a alguns dos eventos que foram responsáveis pela organização política e econômica do país no século XX. Um dos principais eventos foi a Proclamação da República, arrancando o país da condição de Império, o último das Américas. Menciona-se ainda a Abolição da escravatura, um dos eventos que mudaria em definitivo a relação do capital com as forças produtivas. Além dessas questões, a mudança do Império para República deflagrou uma crise econômica denominada de Encilhamento. 

Sendo assim, observa-se que Machado se utiliza de personagens complexos para realizar uma análise das contradições existentes no ser humano, bem como refletir sobre os eventos políticos do seu tempo. Machado lança mão da ambiguidade para apontar que a vida pode ser conduzida por mares diversos. Tanto Paulo quanto Pedro são faces da mesma verdade, que é a vida. As indecisões presentes em Flora também fazem parte da existência. As paixões exacerbadas apenas fazem sofrer, pois como diz o próprio narrador “todos os contrastes estão no homem”.  

quinta-feira, julho 04, 2024

Minhas 10 sinfonias favoritas


É muito comum encontrarmos as mais variadas listas na internet sobre os mais diferentes temas. O objetivo é sempre deixar transparecer as escolhas ou preferências de determinadas pessoa. Há listas a respeito de livros, filmes, séries, os melhores locais para onde uma determinada pessoa viajou, comidas, músicas, praias etc; ou sobre gêneros específicos. É possível, por exemplo, falar sobre as melhores crônicas, contos ou romances, dentro do tema livros.

Eu, particularmente, já cheguei a fazer algumas. Levando-se em conta que a escolha é muito pessoal e está envolta pelo o momento em que se faz a lista, resolvi construir uma com as minhas dez sinfonias preferidas. Escuto música clássica por muitas horas do meu dia. E, às vezes, chego a lamentar o fato de um dia não mais apreciar esse gênero musical. Há indescritíveis experiências da vida que são um lamento perder; a música é uma delas.

Fazer uma seleção musical sugere algumas dificuldades. Primeiramente, o que escolher? Em uma lista tão exígua, o que deixar de fora? Por exemplo, posso dizer que três ou quatro sinfonias de Beethoven estão entre as minhas preferidas; a mesma coisa posso dizer sobre Bruckner ou Mahler. Somente nessa contagem eu já extrapolei o número inicial a que me propus relacionar. Por isso, procurarei não repetir o mesmo compositor.

É importante salientar que essa lista é pessoal e circunscreve algumas de minhas predileções do momento como já enunciado. Pode ser que, em outro momento, essa lista mude completamente.

Segue a lista:

01 – Dmitri Shostakovich - Sinfonia No. 13 em Si bemol menor, Op. 113 - "Babi Yar"

02 – Anton Bruckner - Sinfonia No. 4 em mi bemol maior, "Romântica"

03 – Gustav Mahler – Sinfonia No. 2 – “Ressurreição”

04 – Ludwig van Beethoven - Sinfonia No. 3 em mi bemol maior, Op. 55 - "Eroica"

05 – Johannes Brahms - Sinfonia No. 1 em dó menor, op. 68

06 – Piotr I. Tchaikovsky - Sinfonia No. 6 em si menor, op. 74, “Patética”

07 – Félix Mendelssohn - Sinfonia No.4 em Lá Maior, Op. 90 - "Italiana"

08 – Jean Sibelius - Sinfonia No. 3 in C maior, Op. 52

09 – W. A. Mozart - Sinfonia nº 41 em Dó maior, K. 551, “Júpiter”

10 – Robert Schumann - Sinfonia nº 2 em Dó maior, op. 61

Muitos trabalhos que poderia citar ficaram de fora. Por exemplo, a Sinfonia 100 – “Militar” -, de Haydn. A maravilhosa Sinfonia No. 5, de Prokofiev. A vaga, mas não menos bonita e noturna Sinfonia No. 3, de Rachmaninov, de que gosto bastante. Algumas das espetaculares sinfonias de Schubert como, por exemplo, a Sinfonia No. 8, a “Inacabada”. Algumas das sinfonias de Antonin Dvorak; a Sinfonia No. 9 (“Do Novo Mundo”) é um exemplo. A Sinfonia No. 3 – “Pastoral” -, de Vaughan Williams. A espetacular Sinfonia No. 5, do dinamarquês Carl Nielsen. A Sinfonia No. 3 – “Sinfonia com órgão” -, de Saint-Säens. A bonita Sinfonia No. 1, de Edward Elgar. A Sinfonia No. 2, de Glazunov. A belíssima Sinfonia em Sol menor, do brasileiro Alberto Nepomuceno. E a poderosa e evocativa Sinfonia No. 3 – “Guerra” -, de Villa-Lobos.

São todos trabalhos diletos pelos quais tenho grande admiração. Poderia citar outros, mas essas, acredito, fazem parte de minha formação musical. Poderia levá-las para uma ilha deserta sem nenhum embaraço.

Na próxima postagem desse tipo, destacarei meus dez concertos – e aqui independe o instrumento – favoritos.

P.S1. Criei uma pasta no Spotify com as dez que mencionei.
 
P.S2. Criei uma segunda pasta no Spotify com as sinfonias mencionadas acima, mas que não apareceram na lista das dez.

terça-feira, junho 25, 2024

"Riacho Doce", mais um livro de José Lins do Rego

 


                Li um dos poucos romances de José Lins do Rego que ainda não conhecia. Faltam ainda Eurídice e Água Mãe.                 Claro, existem aqueles textos esparsos do espólio do escritor – Bota de sete léguas, Histórias da Velha Totônia, as crônicas etc., todavia, dos textos mais robustos, li dessa vez Riacho Doce, de 1939. 

                A produção de José do Rego segue um fluxo intenso. Impressiona que nos primeiros anos da década de 30, ele escrevesse – praticamente - um livro por ano. São obras com uma narrativa frenética, inebriante, viciante. Foi desse fluxo criativo que surgiram, por exemplo, os romances do conhecido ciclo da cana-de-açúcar. São ficções de alta calibragem, obras cuja ressonância memorialística é incontrastável. Nascido no engenho do Pilar, na região açucareira, herdeiro da aristocracia canavieira paraibana, José Lins foi criado pela família paterna, já que perdeu a mãe ainda muito novo. Essa experiência é contada com traços de alta tensão emocional na obra “Meus verdes anos”.

                José Lins não se afasta daquilo que ele foi. Seus textos são altamente descritivos. Os cinco livros do seu famoso “ciclo da cana-de-açúcar” caracterizam a passagem do tempo. Em “Menino de engenho” há a demonstração do paraíso. A história acontece no engenho Santa Rosa. Em “Doidinho”, o segundo livro da série, o personagem principal – Carlos de Melo – vai estudar em um liceu. Nesta obra, repleta de fragrâncias de “O ateneu”, de Raul Pompéia, José Lins, descreve a saída do paraíso. Em “Bangüe, Carlos de Melo retorna ao Santa Rosa. Tanto o engenho quanto ele estão mudados. Ele se percebe incapaz de governar aquele mundo. Percebe-se um movimento decadentista que começa a tomar conta do mundo verde do Santa Rosa. Em “O moleque Ricardo”, percebe-se uma inflexão, já que a história deixa o eixo paraibano e acontece nos subúrbios do Recife. Curiosamente, José Lins centra a sua obra nos locais por onde passou – Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio de Janeiro. Esteve rapidamente no interior de Minas Gerais como promotor, mas não ficcionalizou nenhuma história.

                O último livro do ciclo é “Usina”, cujo título prenuncia a instituição que matou os bangues. A usina indicava uma mudança não somente do modo de produção, mas de um estilo de viver centrado na casa-grande. Saía o senhor de engenho, uma espécie de dono de feudo, capaz de mandar e desmandar na vida de todos aqueles que viviam sob o seu domínio e passa existir o usineiro, um capitalista pragmático, pouco preocupado com as vicissitudes da vida senhorial de outrora. Observa-se que a obra de José Lins é repleta de um saudosismo de um certo estilo de vida. Ele faz um inventário antropológico de uma maneira de ser, de um estilo de vida emanado da casa-grande. Ele descreve a derrocada daquele modo de ser, mas, no fundo, é como se estivesse a lamentar as mudanças que aconteceram.

                Quando escolhi “Riacho Doce”, no início do ano, enchi-me de expectativas. Sabia que encontraria uma literatura carregada de emoções à flor da pele. José Lins é daqueles escritores que colocam a narrativa em um plano bastante elevado e ela permanece no alto sem perder seu encanto, sua força, a profusa carga de emoções. No seu conhecido “Ciclo da cana-de-açúcar”, havia um largo terreno para que ele pudesse espraiar o seu olhar. Havia memórias das mais variadas. Ele narrou – em parte – aquilo que ele viveu, por isso o tom nostálgico. O realismo de sua literatura é contestador.

                Foi munido dessa expectativa que fui para o livro. O que Zé Lins – como era conhecido pelos amigos – diria? Teria fôlego para sair da geografia dos engenhos? Um ano antes (1938), ele escrevera “Pedra bonita”, cuja escrita dura, bruta, escancara – por meio de um realismo quase mágico – a superstição e a religiosidade do povo nordestino. Os episódios quase bíblicos da narrativa frenética denunciam eventos quase escatológicos da crença do povo sofrido.

                “Riacho Doce”, por sua vez, é como uma ópera em três atos. Dois terços da história se passa em Alagoas e a primeira metade numa improvável Suécia.  José Lins nunca esteve na Suécia. Os poderes da literatura extrapolam, certamente, as convenções do precisar “conhecer” para descrever, ainda mais em se tratando do escritor paraibano. Zé Lins, em sua produção, narrou o que viu. Esse fato é bastante acentuado na produção literária do escritor paraibano. José Lins é um escritor eminentemente memorialístico. A Suécia aparece decantada. É como se ele quisesse provar para os seus críticos que ele era capaz de criar sem ver. Observa-se que o escritor, ao contrário das obras do “Ciclo”, procura, cuidadosamente, focar a sua atenção nos dilemas das personagens.

José Lins do Rego, o autor prolífico

                Na primeira parte do romance, o narrador descreve a sofrida história de Edna, moradora de um longínquo vilarejo sueco. Sua existência é grávida de dissabores, até conhecer a professora Ester, que a trata com desvelo e carinho. Mais tarde, ela conhece Carlos, um engenheiro. Mesmo sem amor, decide casar com Carlos. Edna enxerga nisso uma possibilidade de mudar a sua trajetória e manter uma distância necessária ´dos parentes, como que para esquecer o próprio passado. Carlos é convidado para perfurar poços de petróleo em uma inóspita região brasileira. São essas as circunstâncias que trazem o casal para uma região ignorada de um país ignoto.

                A segunda parte do romance descreve a chegada do casal a Riacho Doce, um local rústico, mas de natureza exuberante. Edna é arrebatada pela natureza e pelas feições tão destoantes daquelas com as quais convivera até aquele momento de sua vida. Aos poucos, afasta-se do seu marido Carlos. Realiza longas, demoradas, repetitivos banhos na praia. Aquela ligação telúrica com Riacho Doce parece sugerir um exercício de purificação. Edna deseja viver uma tropicalização de sua própria existência. É nesse intervalo de transformação que ela conhece o mestiço Nô.

                Na terceira parte da obra, a ênfase é dada à paixão avassaladora entre Edna e Nô. Os dois experimentam intensamente os eflúvios febris da paixão. Ignoram as convenções da pequena Riacho Doce. O companheiro de Edna toma conhecimento. Nada parece impedir a consecução daquele enlace clandestino. Todavia, é nesse ponto da narrativa que percebemos a mão de José Lins evocando tão bem uma das suas qualidades – ou seja, inserir o elemento supersticioso, miraculoso, mágico da cultura nordestina. Aninha, a avó de Nô, atua como uma força que captura a mente de Nô. Aos olhos de Aninha, Edna era uma mensageira do mal. A continuação da relação entre os dois era amaldiçoada. Eventos terríveis poderiam acontecer, caso Nô, teimosamente, insistisse em conduzir aquela relação.   Esse fato perturba o neto. O que acontece a partir desse evento é repleto da força narrativa tão característica do escritor. Ele parece retomar força e a densidade de “Bangue” e “Usina”, os dois melhores livros do “Ciclo” – em minha humilde concepção.

A próxima frase ou o próximo período em Zé Lins nunca esgota o anterior, todavia se renova no próximo. Possui, incrivelmente, a pujança dialética do fôlego que não se perde. É essa capacidade que faz do seu estilo algo tão característico. Zé Lins sabia como ninguém criar uma boa história. Conseguia, por meio de um estilo capaz de aproximar o texto escrito da enunciação oral, sustentar um fluxo narrativo que segurava o leitor. Riacho Doce possui essas características. É um romance exitoso. Há todo aquele sabor idílico das paisagens estruturadas em uma ontologia tão característica, mas que é permeada por um realismo trágico. Nota-se em José Lins que a história atua como uma força que faz desequilibrar a vontade das personagens. Ou seja, a realidade descontrói as ambições das personagens, enquanto se convive com aquilo que poderia ter sido.

Após ter lido “Riacho Doce”, no próximo ano, leremos “Eurídice”.  


terça-feira, junho 11, 2024

Anton Bruckner e a imensidão

 


                Em 2024, o mundo e o Universo comemorarão os duzentos anos do nascimento do compositor austríaco Anton Bruckner. Falar o nome de Bruckner por si só já é um grande acontecimento. A vida do compositor foi repleta de curiosas ocorrências. Há relatos que o descrevem como uma pessoa ingênua e insegura; dono de uma personalidade com aspectos infantilizados. Oriundo do interior da Áustria, Bruckner era o que convencionamos chamar de caipira, de homem provinciano. Possuía hábitos incomuns. Alimentava superstições. Quem o observava – e muitos foram os seus detratores – não conseguia ligar as suas densas reflexões em forma de música, ao homem simples, de aspectos bonachões.

                Embora com uma personalidade tão excêntrica, Bruckner compôs obras que traduzem o infinito. Foi um compositor eminentemente religioso. Compôs sinfonias, missas, motetos, etc. Suas missas estão entre as obras mais bonitas para o gênero. O Seu Te Deum impressiona pelo rigor e pela grandiloquência barroca de sua estrutura.  Suas obras possuem um forte aroma espiritual.

Bruckner era um católico devoto. Alguém que levava a sério as exigências de seu credo. Como era um homem inseguro, precisava ter convicções firmes e orientadas. O compositor pode ser colocado na tradição de Bach, de Palestrina, de Victória, de Ockhegem, de Lassus ou de Josquim des Près, no que diz respeito à forte evocação religiosa de sua obra. Nota-se que Bruckner elevou o conceito de sinfonia e, por isso, é considerado um dos maiores compositores desse gênero de todos os tempos.

                A sinfonia em Bruckner é uma forma de acessar a eternidade ou de trazer o transcendente à Terra. Ela passa a expressar grandes reflexões como já havia feito Beethoven, ou como, em sua época, fazia Brahms; e, mais tarde, faria Mahler ou Shostakovich, reputados como grandes sinfonistas. A força de suas reflexões suscita os mais elevados sentimentos, as mais ideais reflexões. Alguém afirmou que as sinfonias do compositor são enormes catedrais barrocas. São ricas em detalhes, repletas de minudências; de delicados pormenores que impressionam o observador atento. Nunca se apreende todos os detalhes numa primeira observação. É preciso parar, ouvir mais de uma vez; observar os contrastes; a força simbólica das evocações; as metáforas transcendentes que provocam uma sensação de pequenez diante do imenso, do grandioso. Esse aspecto de suas sinfonias provocou muitas incompreensões no período em que foram escritas. Seus críticos eram implacáveis, pois não entendiam os efeitos estéticos do compositor. Afirmavam que os trabalhos eram longos, cansativos e sem intencionalidade. 

                Em certo momento da minha vida, já tive dificuldades com a música do compositor austríaco. Todavia, entendo que não estava à altura dos efeitos caudalosos de suas reflexões. Se hoje consigo fruir a beleza de suas composições é por que passei por um processo de evolução. Hoje, eu percebo o quão prodigioso é ter a oportunidade de ouvir uma das suas sinfonias. Para o ouvinte pouco afeito à linguagem do compositor, não é fácil apreender numa só audição os intricados detalhes de suas galáxias em forma de sinfonia. Bruckner só se torna prazeroso a partir do momento que ouvimos outros compositores e, a partir daí, procuramo-lo. O compositor não é admitido na primeira audição para ouvintes iniciantes. 

Todavia, quando se descobre a beleza de sua música, é como se todos os mistérios da vida fossem explicados, simplificados, exatificados; como se todas as feiuras e misérias morais fossem abolidas; todas as injustiças e ignorâncias fossem justificadas.

                Nietzsche disse certa vez que Bizet o tornava em “um melhor filósofo”. O filósofo alemão mencionava isso quando escutava a ópera “Carmen” do compositor francês. Eu, seguindo a mesma lógica, a mesma percepção de Nietzsche, posso afirmar (sem nenhuma pretensão, claro) que Bruckner me torna um melhor ser humano. O compositor consegue abrir para mim dimensões intraduzíveis da beleza que abarca a existência como um todo. Bruckner é capaz de beatificar a vida; de torná-la mais suscetível ao espírito, à transcendência, ao senso do que é sublime.

Abaixo, um vídeo em espanhol, que fala sobre o aspecto sublime e metafísico da música de Bruckner:

sexta-feira, maio 31, 2024

Mozart, explorador da alma humana para além dos clichês

 


Excelente reportagem do jornal alemão D.W. sobre o gênio austríaco de Mozart.

A Flauta Mágica é uma das óperas mais adoradas do mundo; o Rondó a la turca, Uma pequena serenata musical KV 525 são famosos até como toque de celular. Costuma-se apresentar seu compositor, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), como popstar da música clássica: criatividade transbordante, luminoso, despreocupado.

Contudo mesmo suas obras mais leves geralmente abrigam um nível de profundidade, muitas vezes são testemunhos de conflitos psíquicos. E, como lembra a especialista mozartiana Evelyn Meining, "ele era uma criatura que trabalhava duro, compunha noite e dia".

Como diretora artística do Festival Mozart de Würzburg, na Baviera, ela quer promover uma nova imagem do compositor, liberta dos clichês, pois "Mozart é mais do que um bombom de Salzburg [a Mozartkugel] e mais do que um toque de celular". E certamente mais do que uma peruca empoada.

Em seus poucos anos de vida, o músico austríaco compôs cerca de 600 obras, entre as quais 41 sinfonias e 21 óperas, além de concertos, missas, peças de câmara e canções. "Contemplando a dimensão de sua obra gigantesca, numa vida tão breve, tem-se uma ideia de quantas horas e anos ele passou solitário, compondo", aponta Meining.

Menino-prodígio, rebelde, morte como indigente e posteridade

 
Desde pequenos, Wolfgang e sua irmã igualmente talentosa Anna Maria, "Nannerl", eram exibidos nas cortes como crianças-prodígio. O pai, Leopold, viajava com ambos por toda a Europa, numa sacolejante carruagem puxada a cavalos. Mais tarde Wolfgang desenvolveu uma ojeriza às figuras de autoridade, acabando por abandonar o serviço do arcebispo de Salzburgo a fim de seguir a carreira como autônomo em Viena.

Para os parâmetros da época, ele ganhava bem, mas os gastos sempre superavam o faturamento. Pouco antes da estreia da Flauta Mágica, adoeceu gravemente e, em dezembro de 1791, morreu, com pouco mais de 35 anos e, sem dúvida, uma multidão de composições inéditas na cabeça.

Ao contrário de outras figuras máximas da arte mundial, sua última morada nunca se transformou em local de peregrinação, pois foi sepultado como indigente, em meio a uma tempestade, numa vala comum cuja localização exata logo se perdeu.

"Mozart era diferente, não era como a média de seus contemporâneos", afirma Evelyn Meining, que também é professora de gestão cultural. Seu talento o impelia a criar sem parar, um gênio sem botão de desligar, que não sabia fazer uma pausa. E sua música vive de contrastes: luz e sombra, solidão e alegria plena.

Você conhece a "Mozartkugel", o bombom do Mozart?


Ele descreveu seus estados de espírito paradoxais em numerosas cartas à esposa, Konstanze. Em 1790, escreve: "Se a gente pudesse ver dentro do meu coração, me daria quase vergonha. Tudo é frio para mim, frio como gelo."

Entre as numerosas obras sacras do católico Amadeus Mozart, a última é o Réquiem KV 626, que ficou inacabado. No cristianismo, culpa e redenção ocupam um papel importante, e o compositor também se ocupou intensamente desses temas em suas óperas: no fim de Don Giovanni, o libertino protagonista, incapaz de remorso ou contrição, é arrastado para o inferno pela estátua do comendador que ele assassinara, após seduzir sua filha.

"Ninguém sabe traduzir a alma em sons tão bem quanto Mozart", afirma a especialista Meining. Assim ele continua ressoando na posteridade. E como a voz é o melhor espelho da alma, em 2024 o foco do festival de Würzburg são as óperas, canções e obras corais mozartianas.

"Assim fazem todas": jogo de desilusão e perdão


Grande exemplo de culpa e redenção transformada em teatro e música é a ópera Così fan tutte (Assim fazem todas), composta sobre um libreto do poeta italiano Lorenzo da Ponte e estreada em 1790: dois casais se enredam num caos de sentimentos quando o abastado – e cínico – Don Alfonso desafia os jovens amigos Ferrando e Guglielmo a testarem a fidelidade e devoção de suas noivas, as irmãs Dorabella e Fiordiligi.

A quinta – e essencial – engrenagem desse mecanismo de equívocos e ardis é a esperta e amoral criada Despina. Na superfície, é uma comédia irreverente em torno da quebra de votos – mas também uma exploração do caminho até a resignação filosófica que se sucede à perda dos ideais, a desilusão.

O terceto de despedida de Don Alfonso com as protagonistas femininas trata de desejos e anseios. Através de dissonâncias, Mozart carrega justamente a palavra "desir" (desejo) com uma grande tensão.

O musicólogo Ulrich Konrad, especialista em Mozart, descreve esse momento como um "incomparável símbolo sonoro". Para o jornalista musical e autor Wolfgang Stähr, as "contradições do sentimento humano nunca foram expressas dessa forma em música, antes".

Até fins do século 18, o perdão era um tema central da opera seria: os poderosos perdoavam os pecadores contritos, honra e fama eram atributo dos nobres. Così fan tutte parodia tais noções: todos os participantes, não importa de que classe social, têm sua parcela de culpa. E no fim todos se perdoam mutuamente – ou será que não?

"É preciso não se deixar enganar por essa superfície, que aparentemente desemboca num final feliz", alerta Meining. "Mozart mergulha por baixo dela, nas camadas profundas da condição humana." Para o grande maestro Nikolaus Harnoncourt (1929-2016), Così fan tutte era a ópera mais triste da história da música.

Da culpa alemã até uma sociedade de paz


Em suas óperas, Mozart retrata seres humanos que fracassam, expondo suas culpas sem, no entanto, condená-los. E não por acaso, em 2024 o slogan do Festival Mozart de Würzburg é Culpa e perdão, Mozart explorador de almas (Schuld und Vergebung, Seelenforscher Mozart). "Anticonvencional e aberto a experimentos", o maior evento da Alemanha dedicado ao compositor explora facetas sempre novas. E também procura pontos de contato com o presente.

Nesse espírito foi criado o projeto "Hell ist die Nacht" ("Clara é a noite"), que trata da culpa dos alemães no nazismo. Em 16 de março de 1945, portanto já no fim da Segunda Guerra Mundial, num intervalo de 20 minutos uma chuva de bombas da Força Aérea Real britânica destruiu 90% de Würzburg.

Cerca de 500 pessoas encontraram proteção no abrigo aéreo do Convento das Irmãs do Santo Redentor. Quase 80 anos depois, o local é palco de uma instalação músico-teatral: com poesia, relatos de testemunhas da época e, naturalmente, também música de Mozart, a culpa dos alemães é tematizada.

"Mesmo depois da Segunda Guerra, muitos alemães afirmavam que nada sabiam da perseguição dos judeus. E, claro, uma guerra também não é coisa de poucos", questiona Evelyn Meining. Perante o recrudescimento do extremismo de direita e das guerras em curso, esse tema volta a ser dolorosamente atual.

A instalação no convento também trata do caminho para uma nova vida, como sociedade pacífica. Assim, "aqui, partindo da culpa, pode começar um novo caminho para o futuro, com uma conduta responsável como sociedade e como indivíduos", exorta a diretora Evelyn Meining. A responsabilidade cabe a cada um.


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quarta-feira, maio 22, 2024

Uma declaração de Todorov sobre os poderes da literatura



"Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las. Não creio ser o único a vê-la assim. Mais densa e mais eloquente que a vida cotidiana, mas não radicalmente diferente, a literatura amplia o nosso universo, incita-nos a imaginar outras maneiras de concebê-lo e organizá-lo. Somos todos feitos do que os outros seres humanos nos dão: primeiro nossos pais, depois aqueles que nos cercam; a literatura abre ao infinito essa possibilidade de interação com os outros e, por isso, nos enriquece infinitamente. Ela nos proporciona sensações insubstituíveis que fazem o mundo real se tornar mais pleno de sentido e mais belo. Longe de ser um simples entretenimento, uma distração reservada às pessoas educadas, ela permite que cada um responda melhor à sua vocação de ser humano" 

Do livro "A literatura em perigo".