sábado, agosto 28, 2010

A grandiosidade da "Romântica" de Bruckner

Ouvi pouca música esta semana. Os fatos engoliram minha percepção e tudo passou rapidamente. A música é, para mim, um dos deleites mais agradáveis da vida. Beethoven disse certa vez que "a música é a linguagem de Deus". E, de fato, uma boa música proporciona uma verdadeira alegria espiritual. E do pouco de música que ouvi, acredito que mais de 80% foi dedicado à Sinfonia No. 4 de Anton Bruckner, também conhecida como "Sinfonia Romântica". A gravação com Claudio Abbado gravada em 2004 no Festival de Lucerne embalou minhas conviccções, proporcionou momentos de grandeza, de absoluta exaltação da existência. Em cada audição que efetuei, saí com um sorriso largo no semblante da alma. A "Romântica" de Bruckner foi gravada em 1874 e passou por inúmeras revisões até o ano de 1888. Revisionismo era uma palavra que seguiu a carreira do compositor Bruckner. Muitas das suas sinfonias passaram por imensas revisões. Talvez isso fosse uma traço da insegurança de Bruckner. Embora a Sinfonia No. 4 tenha o nome de "Romântica", ela não segue o ideário do "amor romântico" do século XVIII. Bruckner segue um programa medieval, inspirado nas óperas Lohengrin e Siegfried de Richard Wagner. Esqueçamos Wagner e nos fixemos em Bruckner, num dos trabalhos mais belos e populares do seu repertório.

Abaixo uma première com Günther Wand, o velhinho que entendia tudo de Bruckner. Sua integral das 9 sinfonias de Bruckner é uma das mais respeitadas de todo o mundo erudito. Observe os gestos sóbrios, elegantes, de quem domina o ofício como ninguém do velhinho Wand. O cenário é arrebatador, num ambiente que inspira o sagrado. Ou seja, que esboça uma maior ênfase, dá realces mais acentuados à música poderosa e Bruckner.



Observe a beleza, a leveza, toda a espiritualidade que emana da música







sábado, agosto 21, 2010

Mercado Eleitoral

O jogo é um vício nefasto. Ao contrário da bebida e da droga, a pulsão pela aposta não altera o estado de consciência e arrisca os recursos financeiros do jogador. Dostoiévski que o diga.

A fantasia de ganho fácil faz naufragar a razão na emoção. O jogador dobra apostas, blefa, convicto de que a sorte, mulher apaixonada, jamais o abandona.

O processo eleitoral, tal como ocorre hoje, não seria um jogo? A maioria dos candidatos é motivada pelo ideal de servir ao bem comum ou pela ambição de ocupar uma função de poder e, assim, assegurar melhor futuro para si e os seus?

Já no século IV a.C., Aristóteles, que defendia a rotatividade no poder como predicado da democracia, observava na Política (livro III) que as coisas mudavam porque, "devido às vantagens materiais que se tira dos bens do Estado ou que se alcança pelo exercício do poder, os homens desejam permanecer continuamente em funções. É como se o poder conservasse em permanente boa saúde os que o detêm...".

Hoje, isso se acentua. Os candidatos, salvo exceções, não têm programas (exceto no papel), mas performance; nem objetivos, mas compromissos com aliados; nem princípios ideológicos, mas o pragmatismo que ignora a ética mais elementar. A política se tornou a arte de simular e dissimular.

Os marqueteiros têm mais poder sobre os candidatos que o partido. Não se trata mais de divulgar um projeto político, e sim um produto capaz de seduzir o mercado eleitoral. O perigo, adverte Umberto Eco, é o político se tornar um produto semiótico, teatralizado.

Muitos políticos rezam pelo Breviário do cardeal Mazarin, escrito no século XVII, onde se multiplicam conselhos deste quilate: "Arranja-te para que teu rosto jamais exprima nenhum sentimento particular, mas apenas uma espécie de perpétua amenidade". Ou: "O importante é aprender a manejar a ambiguidade, a pronunciar discursos que possam ser interpretados tanto num sentido como no outro, a fim de que ninguém possa decidir".

Os marqueteiros são, hoje, os verdadeiros artífices das candidaturas. Os eleitores, o alvo mercadológico. A diferença com os produtos do supermercado é que estes são adquiridos para uso do consumidor. No caso da política, o eleitor é "consumido" para uso do candidato. Meses depois, o eleitor nem se recorda dos nomes a quem deu seu voto, embora se queixe dos políticos e da política.

A roleta eleitoral ainda não conseguiu eliminar do processo um fator incômodo: a entrevista. A mídia exerce poderosa mediação entre o candidato e o eleitor, daí as concessões feitas pelos partidos para ampliar suas alianças e garantir maior tempo de exposição midiática de seus candidatos.

A entrevista incomoda porque impede o candidato de manter-se nos estreitos limites da retórica recomendada pelos marqueteiros. Surgem perguntas indesejadas, questionamentos éticos, e as contradições que o candidato tanto gostaria de ocultar.

Sem entrevista, programa político e amor ao bem comum a democracia é mera farsa.

Por Frei Betto

Extraído DAQUI

terça-feira, agosto 17, 2010

"Pesos e Medidas" ou o Império Ataca

Resolvi postar um texto do editor Mino Carta da revista Carta Capital. Abaixo segue um "pedaço" da reflexão com uma excelente análise empreendida acerca das entrevistas realizadas pela Rede Globo com os candidatos à Presidência da República. O casal mais ridente do jornalismo brasileiro estava lá ostentando a natural faceirice de superioridade. Ou seja, de quem é detentor da verdade. Modelo de relação. Espelho para as famílias brasileiras. Com relação à entrevista, nada de cordialidades para com Dilma e Marina Silva, que foram "encurraladas". No tocante ao canditato das aristocracias (José Serra), verbalização, mesuras, risos de complacência, nada de interrupções, cortes abruptos. Nada de apertos. Apenas duas perguntas supostamente embaraçosas ao candidato tucano. Já era de se esperar por isso. É de ver o debate que os globais irão promover?!!! Ontem, em pesquisa encomendada pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, Dilma aparece com mais de 10 pontos percentuais de vantagem em relação a Serra. Existe até mesmo a possibilidade da candidata petista vencer no primeiro turno, o que seria realmente extraordinário. O que eles estão pensando em fazer para tirar esta diferença?

Uma outra pergunta: por que não levaram Plínio de Arruda Sampaio ao Jornal Nacional? Medo do discurso com propostas de ruptura do canditato do PSOL? A Globo, sempre a Globo! Quem quiser ler o texto de Mino na íntegra, AQUI.

Em itálico, texto do editor Mino Carta:

[...] Para revidar às perguntas que não são do seu gosto, o candidato José Serra adota uma linha de refinado senso de humor. Anota a repórter Juliana Cipriani, de O Estado de Minas, que Serra “parece ter dificuldade em entender o que dizem os brasileiros ou inventou uma nova estratégia para evitar responder às perguntas que não o agradam”. Em meados de julho passado, em Pernambuco, o repórter de um jornal local dirigiu-lhe uma pergunta sobre o trem-bala destinado a ligar São Paulo ao Rio: obra feita ou tiro de festim? A pergunta deveria ser do seu gosto, pois o candidato é contrário ao projeto. Surpresa. “Não entendi, foi muito sotaque”, decretou Serra. Em Minas, quando um jornalista o questionou sobre recente entrevista de Lula em que o presidente lamenta-lhe a falta de sorte ao enfrentá-lo em 2002 e agora diante de Dilma Rousseff, Serra escandiu: “Esta fala mineira de vocês eu não entendo”. O candidato tucano consegue, porém, ser mais cordato, a depender das situações. Lá pelas tantas desta tertúlia eleitoral, o repórter Fábio Turci dirige a Serra uma pergunta sobre juros. O perguntado não esconde sua irritação, e indaga com a devida veemência: “De onde você é?” Turci esclarece ser da Globo. E Serra, de pronto: “Ah, então desculpe”. Tucano não voa, mas sabe onde pisa. Na noite de 11 de agosto coube a ele ser sabatinado por 12 minutos pelo casal JN, William Bonner e Fátima Bernardes, os sorrisos mais radiosos do Brasil. Antes, a oportunidade foi bondosamente oferecida às candidatas Dilma Rousseff, segunda 9, e Marina Silva, terça 10. Para ambas, um sufoco. As perguntas do locutor que considera Homer Simpson como telespectador ideal foram muito mais esticadas que as respostas, quando estas não foram furibundamente atropeladas. No caso de Dilma, o propósito foi mostrar (ingenuamente?) que ela é ao mesmo tempo uma marionete na mão de Lula e personagem dura, prepotente, mandona. De sorte a suscitar a observação da entrevistada, mais ou menos do seguinte teor: então, como vocês me querem, como títere do titereiro ou como a ministra inflexível que chama às falas os colegas de gabinete? Na vez de Marina, o intuito foi outro: provar que ela saiu do governo por discordâncias sobre a política ambiental enquanto, tempos antes, não se incomodou com o mensalão, o escândalo pretendido e até hoje não provado. A certa altura, a ex-ministra teve de reagir com alguma, insólita veemência, para pedir que a deixassem concluir o raciocínio. Com Serra, na quarta 11, tudo mudou. O casal JN deixou o candidato falar à vontade. E quando a entrevista pretendeu chegar ao ponto de fervura, a pergunta foi: o senhor não se sente constrangido de ter o apoio do PTB, partido metido no escândalo do mensalão petista? Nada do mensalão mineiro nem do escândalo do DEM em Brasília. Maluf e Quércia? Esquecidos. E os votos comprados para a reeleição de FHC? Segundo momento de aperto. Pergunta a evocar os usuários que reclamam dos preços altos do pedágio em São Paulo. Serra ganha a oportunidade de falar mal das estradas federais. Aí Bonner acrescenta: não existe um meio-termo, só dá para ter estradas boas e caras ou ruins e baratas? Serra emenda, feliz, que na última concessão que fez, os preços do pedágio caíram pela metade. Omitiu que os postos de cobrança foram dobrados e ao cabo cita sua origem humilde, estudante de escola pública etc. etc. Só falta chorar. A rapaziada não se dá ao respeito. Quem sabe haja quem se incomoda ao perceber que nos enxergam como malta de idiotas. Esta visão da plateia é própria, aliás, dos jornalistas nativos e seus patrões. Será que não usam na medição o metro recomendável para medir a si mesmos?

Abaixo os vídeos com as extrevistas dos três candidatos conforme a ordem "erigida" pelo Jornal Nacional da Rede Globo. As entrevistas foram realizadas do dia 09 a0 dia 11 de agosto de 2010:

Segunda-feira, dia 9 de agosto de 2010 - Dilma Rousseff (PT):



Terça-feira, dia 10 de agosto de 2010 - Marina Silva (PV):



Quarta-feira, dia 11 de agosto de 2010 - José Serra (PSDB), candidato global. Quem teve paciência de ver aos dois vídeos acima, observe como a tônica da entrevista com o candidato tucano é diferente:



segunda-feira, agosto 09, 2010

Reflexões natalícias

Escrito há dois anos numa ocasião como esta.

Penso que a vida seja um dos elementos mais difíceis de serem cultivados. Ideais sem fim surgem como cenas fixas em oásis imaginários. Fazemos desses espectros, materializações a que denominamos de metas alcançadas. Somos convencidos de quanto mais as alcançamos, mais realizados somos. Tenho entendido que isso é uma grande mentira. Assustado e, ao mesmo tempo resignado por esses malabarismos da existência, assenta-me a convicção de que viver seja um imenso, um enorme desafio.
À medida que os anos chegam vão se definindo algumas tendências a que denominamos apenas de intuição. Mas no fundo não se trata apenas de intuição. É como se de uma hora para outra olhássemos efetivamente para a realidade e enxergássemos manchas derramadas no ar. Como se de repente víssemos mundos escondidos por trás de uma cortina-obstáculo. A intuição que era impulsividade, torna-se num olhar sábio. A serenidade nos torna mais cautelosos. Se não nos tornamos pensadores, pelo menos somos revestidos interiormente com a calma de monges veneráveis.
Pensar é uma capacidade que diferencia o ser humano dos demais seres. Mas mesmo entre os que potencialmente são capazes de pensar há aqueles que não o fazem. Resta-lhes a inércia, a inação. Aquilo que Nietzsche chamava de “mergulho na massa”. Ou seja, caminhar no fluxo inconsciente da moral dos escravos. Em outras palavras: viver como todo mundo vive; fazer o que todo mundo faz. Mesmo pensando, discernindo, o homem não possui privilégios em relação aos demais seres. O muito pensar conduz ao enfado. Gera o fardo do cair em si. Refletir como homem é ver-se dentro do turbilhão trágico do acaso.
Vivemos para frente, mas somente compreendemos a vida quando olhamos para trás. A resposta para as perguntas que são feitas no presente se encontram no passado. Vivo para frente, todavia compreendo-me quando olho para o ontem. Esses lampejos de consciência são necessários. Os anos passam e marcam o meu rosto com o cinzel implacável do tempo. Já não sou mais a mesma criança de ontem. Vejo os fatos acontecendo como se eu estivesse num trem. As paisagens ficam pelo caminho. À minha frente o desconhecido, apenas. Em meu interior, algumas expectativas, esperanças, planos, nacos de um otimismo cultural.
Abjuro algumas convicções e me agarro a outras. Homem supersticioso sou eu. Elevo-me em nuvens ilusórias de pensamentos. Pareço divisar coisas por demais sensíveis. Espanto-me com isso. O simples gesto de caminhar é por demasia pesado para mim. É um portal que me conduz a outros mundos. Estou crivado incontinentemente ao pensamento. As flechas da reflexão me alcançaram. Atravessaram-me com seus poderes miraculosos. Mudaram-me o semblante. Minha mãe disse-me hoje que eu caminhava como um velho – “Caminha como um velho! Penso para um lado”. Não me impressiono com isso. Kierkegaard dizia que há homens que já nascem velhos. É um paradoxo com toda certeza – “nascer velho”. Somos concebidos novos, por isso à fase de menor idade chamamos de infância. Acredito que o filósofo dinamarquês se referisse a contingências existenciais. A idade é um aspecto mesclado de relatividade. Há indivíduos que nascem velhos e há aqueles que, sendo velhos, possuem uma interioridade jovem. Somente aos homens é reservada a captação desses fenômenos estranhos.
Fazer 29 anos é acontecimento extraordinário. Vêem-me a idéia de que a vida é maior do que a minha sensibilidade seja capaz de abarcá-la. Capto sinais invisíveis. Vislumbres de que por mais que tivesse condições de viver mil vidas, não seria capaz de saber nada. Estranho. Aprendo enquanto vivo; vivo para aprender, mas por mais que aprenda, sou sabedor de que não saberei nada efetivamente como se deve saber. Viver é ser limitado. Limitado por circunstâncias físicas, espirituais, tangenciais, contingenciais, sigo a cada dia com a prudência e com a frugalidade dos monges. Vamos aprendendo a rir dos próprios desatinos e ponderar a condição dos fatos. Atitude ignara. Própria dos seres que pensam. Própria dos monges veneráveis.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: terça-feira, 12 de agosto de 2008, 20:15:03.

quinta-feira, agosto 05, 2010

Eu, Nietzsche e o Concerto de Aranjuez

Imerso numa nuvem fina, delicada de contentamento, escuto o Concerto de Aranjuez de Joaquim Rodrigo. Como faz bem essa música suavemente trágica. Nietzsche, No Caso de Wagner, faz algumas considerações interessantes sobre a música enquanto arte - eu não poderia deixar de ser alusivo a essa bela e oportuna reflexão. O filósofo alemão, na explicação sobre a sua “libertação” da música wagneriana, diz que tinha encontrado em Bizet o suporte da “melodia infinita”.

Nietzsche afirma em certa ocasião que já ouvira a peça mais de 20 vezes e aquilo não o irritava. Conseguira se resignar como um monge asiático. Era impressionante, segundo ele, como a música tinha/tem o poder de “nos tornar mais perfeitos”, “melhores homens”, “melhores filósofos”. Bizet era francês e não espanhol como Rodrigo. Nietzsche fazia menção à ópera Carmem, que possui o cerne (tema) espanhol. Era à espanholidade da música que ele fazia referência. A música de Bizet não era egocêntrica, não tinha por objetivo exibir o compositor, mas a arte, a beleza. Não promovia o autor (Nietzsche se referia a Wagner). A música composta pelo francês Bizet não falava de um homem, mas de uma raça. Era completamente banhada pelo sol – uma música ensolarada. Ao mesmo tempo juntava “o destino, a fatalidade, o cínico, o inocente e o cruel”.

Toda gama grave eu constato na beleza da música de Rodrigo. Qualquer palavra que eu teça a respeito desse concerto será pouco, não necessário. A sua formosura nos impulsiona ao silêncio, à reflexão, à alegria, à tristeza, à sensação imaculada do divino. “É bom aquilo que é leve, tudo o que é divino se move com pés delicados” – como afirma Nietzsche. Esse era o primeiro princípio de sua estética. O que ele diria se ouvisse algo dessa natureza, se ele ouvisse Rodrigo?

O violão com acordes suaves revela com espanto todo o lirismo, dor e agonia da vida. É uma música habitada por uma alegria fugaz, fugidia. Mas como a perseguimos em sua fuga volátil?! Ouvimo-la para persegui-la. Para deixar que ela nos habite e infunda em nós uma sensibilidade reflexiva. É uma música cheia de pulos, de saltos melancólicos. A alma artística de Rodrigo era cheia de luzes, de galáxias, de raios e trovões. Esta arte reverbera por toda a vida. Ela mesma existe para embelezar a existência. Como esse Concerto de Aranjuez me torna melhor nessa noite fria de segunda-feira!

Abaixo segue o segundo movimento (Adagio) com o Paco de Lucia, um dos grandes intérpretes de Rodrigo na atualidade.




*Primeira imagem à direita: Nietzsche; segunda imagem à esquerda: Joaquin Rodrigo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 21 de julho de 2008, segunda-feira.

quinta-feira, julho 29, 2010

O intelectual, entre mitos e realidades

Convertido em objeto de estudo, no momento mesmo em que o modelo do intelectual engajado, na versão francesa, perde a sua eficácia, esse novo ator histórico vem suscitando debates e questionamentos. Presente na luta política ao longo dos três quartos do século XX, portanto, participando ativamente da História, o intelectual engajado desaparece da cena pública no início dos anos 1980, em razão mesmo das mudanças de paradigmas intelectuais e das transformações conjunturais. O enfraquecimento das ideologias do progresso e a ascensão dos valores individualistas explicam, em grande parte, o final de um modelo de intelectual que buscava, através de seus atos públicos, aliar moral e política. Na verdade, o engajamento intelectual, sob a forma de combates políticos (contra as opressões e as injustiças), pretendeu reduzir a distância que separa pensamento e ação.

Voltaire, Diderot e os Enciclopedistas constituem a gênese dos denominados “intelectuais” que, defendendo valores universais (justiça, verdade), se organizam como grupo social no final do século XIX, no momento do “caso Dreyfus”.[1] Por intelectuais são, então, designados artistas, professores, escritores, ou seja, pensadores que, já tendo uma notoriedade, intervêm no debate público, em nome de valores morais e políticos.

Desempenhando um papel ético e político, os intelectuais franceses participam da marcha de História, situando-se tanto à esquerda como à direita do jogo político. A luta contra o nazismo os predispõe a passar à ação. Conseqüentemente, a partir do final da Segunda Guerra, a prática do engajamento transforma-se em uma doutrina da ação.

Através de um primeiro manifesto, publicado no primeiro número da revista Les Temps Modernes (outubro de 1945) [2], Sartre lança as premissas para uma ação por parte dos intelectuais. Situando-se em seu tempo, o intelectual engajado deve se definir pela sua posição crítica em relação ao mundo, afirmando-se como o representante das forças progressistas e como o defensor de uma causa humanitária.

No entanto, a abnegação dos princípios morais em detrimento das paixões políticas parece ter sido uma constância na história dos intelectuais franceses, a partir desse momento. A conjuntura histórica no final da Segunda Guerra (o constato mesmo da derrota da razão em Auschwitz, a vitória do comunismo sobre o fascismo) configura um novo esquema de pensamento e uma nova maneira de se pensar uma ação intelectual. A partir de então, uma nova prática intelectual passa a ser adotada; o moralismo do passado transforma-se em uma práxis coletiva: o engajamento político. Mas, se o engajamento pressupõe uma ação do intelectual na História, visando a contribuir para mudar a sociedade, essa ação só poderá se realizar a partir de um projeto revolucionário. O engajamento será, portanto, uma resposta dos intelectuais à mística do comunismo. O intelectual francês engajado do pós-guerra posiciona-se, então, ora a serviço do partido (os “intelectuais orgânicos”), ora em sua periferia (os “compagnons de route” [3]). Simpatizando com o partido sem aderir a ele, Sartre encarna, admiravelmente, nos anos 1940 e 1950, esse último modelo. Variante do engajamento, o profetismo intelectual será portador de uma utopia revolucionária.

Se no momento das guerras de descolonização (na Indochina e na Argélia), os intelectuais franceses assumem verdadeiramente uma missão (de serem consciência moral), engajando-se na defesa dos oprimidos da História, por sua vez, no período stalinista, uma grande parte dos mesmos pecam pela sua omissão na denúncia dos crimes e dos gúlags.

Ora, a morte das utopias, assinalando o final desse modelo, é responsável pela crise de representação do intelectual. Assim, desde os anos 1980, os intelectuais franceses denunciam não só o sistema totalitário soviético e a teoria teológica-política, mas realizam uma verdadeira autocrítica responsabilizando, particularmente, Sartre pelos erros e desvios intelectuais.

Nesses tempos atuais de “desencantamentos” políticos e de imprevisibilidades históricas, como, então, apreender a missão atribuída ao “intelectual”? Desprovido de sua função de oráculo, o intelectual francês como membro de um grupo social afasta-se da política, voltando-se para a sua principal tarefa: a de produção e de transmissão do conhecimento.

Se, no contexto histórico francês, o seu papel de “guia espiritual” (no momento do pós-guerra) o induziu a pactuar com dogmas e com supostas “verdades”, o fim das ideologias do progresso o conduziu a um relativo silêncio. De “profeta” da revolução, (até metade dos anos 1970), o intelectual francês converteu-se em defensor (abstrato) dos direitos do homem.

O declínio do intelectual francês, diagnosticado através de numerosos estudos, deve-se, segundo os mesmos, às mutações conjunturais e intelectuais. Na opinião de Régis Debray [4], a inversão final de todos os valores que haviam inspirado o nascimento de sua história, faz com que o intelectual francês atinja o seu fim.

Em suma, a condição mesmo do intelectual, no contexto dos países ocidentais, ou seja, o seu papel na sociedade, derivando de conjunturas históricas precisas, evolui de acordo com as próprias mutações intelectuais e políticas. Desse modo, cada época parece fornecer um modelo específico de intelectual.

Fruto de uma realidade sócio-cultural específica, o intelectual, no sentido amplo do termo, encontra-se intimamente ligado a seu contexto histórico. Somente a particularidade desse contexto poderá revelar a singularidade desse intelectual. Para melhor apreendê-lo, torna-se, então, necessário mapear suas origens. Nos limites desse pequeno texto, apenas algumas questões podem ser colocadas. Como ele emerge em uma dada sociedade? Como ele pode ser entendido e definido? Trata-se de uma simples categoria sócio-profissional, pressupondo uma atividade intelectual ou de um simples grupo social (a elite erudita)? No estudo do caso brasileiro, o substantivo intelectual teria mais o valor de um conceito do que de um comportamento? A quem essa categoria se aplicaria?

Se na Europa Ocidental, o termo intelectual, tradicionalmente, designa uma larga fração de pensadores, constituída por pesquisadores, professores universitários, escritores, cineastas, etc., que exerce uma atividade criativa nas ciências e nas artes, nos Estados Unidos, esse termo se aplica, em geral, ao chamado mundo “acadêmico”, ou seja, àquele pesquisador e/ou professor universitário, responsável pela produção e transmissão do conhecimento. No Brasil, o termo parece hesitar entre esses dois modelos.

Sem tradição de engajamento, o intelectual brasileiro, que, aparentemente não reivindica uma função ética (de consciência moral) parece aproximar-se do modelo americano. Em geral, a produção de idéias e a transmissão do conhecimento são tidas como condições “sine qua non” para considerar como pertencentes à categoria de intelectual, os escritores, os acadêmicos e os cientistas.

No entanto, como afirma Umberto Eco, “o intelectual tem de ser a consciência crítica do grupo. Ele existe para incomodar”.[5] A esse propósito, algumas questões merecem ser levantadas. A primeira: os intelectuais brasileiros representariam, verdadeiramente, a consciência crítica de um grupo? A segunda: o pensamento crítico não deveria constituir o primeiro atributo para que acadêmicos, escritores e cientistas fossem designados intelectuais?

Sem dúvida, esses breves questionamentos remetem aos tradicionais debates que, desde o início do século XX, instigaram os intelectuais a enfocar sua relação com o poder.

Segundo A. Gramsci, exercer uma atividade intelectual pressupõe exercer um dever crítico da cultura. A principal tarefa dos intelectuais constituiria, então, em estabelecer uma relação crítica entre a cultura, as idéias e a política. Para Sartre, a ação do intelectual, enquanto consciência que escolhe livremente agir na sociedade, deveria produzir mudanças radicais na sociedade. Se, para Foucault, a função crítica foi plenamente exercida pelos intelectuais engajados no domínio político, entre o saber e o poder existiria uma correlação estreita. Ele, aliás, criticou, sistematicamente, o intelectual que se declara mestre da verdade e da justiça, aquele que pretende resistir aos efeitos repressivos do poder. Foucault denunciou, igualmente, a pretensão do discurso dos intelectuais de caráter profético e universal, insistindo sobre a idéia de que a verdade não é estranha ao poder.

Convém, no entanto, assinalar que o engajamento intelectual francês manifestou-se sob a forma de um contra-poder. Vigilantes em relação ao uso do poder, os intelectuais engajados de esquerda posicionam-se contra as formas de autoritarismo e os abusos do poder político. Privilégio de uma democracia, o contra-poder exprime-se em momentos particulares de tensões sociais e de crises políticas, visando a limitar o próprio poder.

Consciência moral e consciência crítica, o intelectual (da Europa ocidental) forneceu um modelo de intelectual que, embora inadequado e ultrapassado, poderia servir de referência na análise do papel do intelectual brasileiro. Ora, no Brasil, segundo Sérgio Miceli, “o estado sempre exerceu uma incrível atração sobre os intelectuais”.[6] Num país onde reina desigualdades e injustiças e onde o poder, seja ele qual for, tende a corromper a liberdade de pensar e de agir, a função do intelectual não deveria ser, antes de mais nada, crítica e ética?

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Por HELENICE RODRIGUES DA SILVA*

* Professora Adjunta da UFPR. Autora de: Texte, action et histoire – réflexions sur le phénomène de l’engagement. Paris, L’Harmattan, 1995. Fragmentos da história intelectual – entre questionamentos e perspectivas, Campinas, Papirus, 2002. Publicado na REA, nº 29, outubro de 2003, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/029/029csilva.htm

[1] De origem judia, o capitão Alfred Dreyfus foi acusado de traição pelas forças armadas francesas por atos de espionagem em favor da Alemanha. A denúncia dessa injustiça fornece a ocasião para uma manifestação pública envolvendo os “intelectuais” de diferentes tendências políticas. A publicação do artigo de Émile Zola, “J’accuse”, no jornal “L’Aurore”, pedindo a revisão do processo, inaugura, assim, a história política dos intelectuais franceses.

[2] Ver, Rodrigues da Silva, H. Texte, action et histoire: réflexions sur le phénomène de l’engagement.

[3] De difícil tradução, esse termo designa, grosso modo, os companheiros de uma aventura política.

[4] Régis DEBRAY. Suíte et fin. Paris, Gallimard, 2000.

[5] Umberto ECO. “A função dos intelectuais”; In: Ëpoca, 3 de fevereiro de 2003, pp. 22, 23.

[6] Veja –on line. Entrevista com Sérgio Miceli, http//veja.abril.com.br250/701/entrevista.html. (3/4/2003).

DAQUI

sábado, julho 24, 2010

Sobre livros e leitores

“Minha vida tinha tomado o caminho errado, e meu contato com os homens não era mais do que um monólogo interior. Havia descido tão baixo que, se tivesse que escolher entre ficar apaixonado por uma mulher e ler um bom livro, eu preferia o livro”. KAZANTZAKIS [1]

“Eu amo (…) a humanidade, mas admiro-me de mim mesmo. Tanto mais amo a humanidade em geral, quanto menos amo as pessoas em particular, como indivíduos”. DOSTOIÉVSKI [2]

“Chegamos a tal ponto que a “vida viva” autêntica é considerada por nós quase um trabalho, um emprego, e todos concordamos no íntimo que seguir os livros é melhor”. DOSTOIÉVSKI [3]

“Esses monges talvez leiam demais, e quando estão excitados revivem as visões que tiveram nos livros”. ECO [4]

Há livros que são perigosos. Os ditadores e censores de todos os tipos que o digam. Não obstante, talvez o perigo maior esteja em transformá-los em objetos de culto, em suspender a dúvida e acatá-los como a verdade a ser proclamada. O tratamento religioso dos livros não se restringe àqueles que fundamentam as religiões, os quais são assumidos como a doutrina inquestionável, a verdade revelada; há autores profanos transformados em profetas e seus livros religiosamente cultuados como a última verdade proferida. E ai dos hereges que duvidarem da palavra profetizada e interpretada pelos especialistas, os seus guardiões.

É perigoso tomar os livros como se fosse a realidade. Se na ficção há lugar para personagens como D. Quixote, é triste o quixotismo moderno dos que vivem com os pés no chão e a cabeça nas nuvens e se mostram sempre ciosos de abstrair e restringir a conceitos a realidade dos homens concretos, de carne e osso, com suas qualidades e imperfeições. Estes são transformados em abstrações e/ou dilemas a serem superados pelo debate teórico. Quando só se consegue experienciar a realidade pela ótica dos livros, seus personagens fictícios adquirem vida própria e os modelos conceituais existentes em nossas cabeças passam a delimitar os personagens reais que caminham sobre o mundo.

Os que idolatram os livros não vêem a riqueza que há na simplicidade das relações humanas cotidianas concretas. O livro também induz à perdição, isto é, à perda do sentido do real. O apego exagerado aos livros é uma espécie de doença que potencializa a vaidade dos candidatos a gênios, os quais, cada vez mais, se isolam do mundo dos simples mortais. Os que se encontram no Olimpo, ocupados com a imortalidade, têm dificuldades de se reconhecer nos comuns, cujos pés e cabeça teimam em se firmar na terra.

Os que preferem os livros à companhia humana, ou que só conseguem dialogar com aqueles que se identificam com suas leituras, falam de amizade como se esta tivesse seu fundamento nas teorias, conceitos e ficções literárias. Eles são capazes de debater por horas sobre o significado da amizade, desde os clássicos da antiguidade, mas são incapazes de suportar o amigo de carne e osso se este o trás de volta à terra e lhe fala em linguagem espontânea e vulgar. Parece que se protegem contra os choques que as relações pessoais reais inevitavelmente causam. Uma coisa é discutir a dialética dos livros, outra é assumir as contradições inerentes ao humano.

Existe a necessidade das ilusões e os livros são um convite à imaginação. O ser humano é capaz de amar a humanidade em geral e até mesmo de se declarar disposto a morrer por esta, mas é profundamente incapaz de suportar o indivíduo concreto e específico. O próximo torna-se o distante, o conceito, a abstração. Há a dificuldade de assumir a realidade para si e nas relações com os demais. Precisa refugiar-se na imaginação e no devaneio da ficção.

Ler é importante, mas o fundamental ainda é tentar viver a vida plenamente.

[1] KAZANTZAKIS, Nikos. Zorba, o Grego. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1978, p. 97.

[2] DOSTOIÉVSKI, F. Os Irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p.48.

[3] DOSTOIÉVSKI, F. Memórias do subsolo e outros escritos. São Paulo: Editora Paulicéia, 1992, p. 185.

[4] ECO, Umberto. O Nome da Rosa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de S. Paulo, 2003, p.117.

Extraído DAQUI

sábado, julho 17, 2010

A UDN vestida de azul e amarelo

Há 52 anos, um homem cunhou uma frase belíssima sobre um então candidato a presidente. “Juscelino não pode ser candidato, se candidato não pode ser eleito, se eleito não pode ser empossado, se empossado não pode governar.” O nome do sujeito era Carlos Lacerda. Homem absurdamente brilhante — certamente mais brilhante que a grande maioria da oposição de hoje –, mas também um dos maiores cancros que a sociedade brasileira já produziu. Felizmente, apesar dos apelos de Lacerda, Juscelino foi candidato, eleito, empossado e realizou um governo memorável.

O golpismo de Lacerda, no entanto, não acabou ali. Tinha atrás de si uma vitória, ser um dos principais responsáveis pelo suicídio de Getúlio Vargas. Já tinha conseguido alguma coisa. Nos dez anos seguintes, Lacerda pediu incessantemente o golpe militar. Foi atendido em 1964, mas foi também uma de suas primeiras vítimas.

Carlos Lacerda morreu em 1977, politicamente destruído, vários anos depois de o partido de que era símbolo, a UDN, ter sido extinto pela ditadura da qual foi um dos principais artífices. Os militares sabiam que não podiam contar com aqueles golpistas. Aquelas vivandeiras eram muito pouco confiáveis.

Mas agora, quase 30 anos depois, o seu cadáver de triste lembrança foi exumado pela oposição tucana. Desesperados diante do que tudo indica será uma derrota incontestável, os tucanos sobem às tribunas para pedir, sem nenhuma vergonha, o golpe puro e simples, como o venerável senador sergipano José Almeida Lima, ex-prefeito e homem hoje rico, que utilizou a tribuna do Senado na semana passada para declarar que “não podemos tolerar a vitória da corrupção” e que o governo de Lula “tem que ser interrompido”. Assim como a UDN naqueles tempos, o discurso tenta usar disfarces democráticos. Mas as entrelinhas são grandes demais. E são golpistas. O raciocínio é simples: se a gente não consegue ganhar no voto, vai ganhar no grito.

E assim cai o véu. O jogo democrático não interessa a eles. O discurso da vontade soberana do povo, para eles, é só isso: discurso. Vestindo a túnica puída da UDN, o PSDB sobe às tribunas pedindo o golpe. O povo, para eles, só sabe votar quando elege um tucano. Quando deixa claro que acredita no governo e que acha que, com Lula presidente, vai comer algo melhor que chuchu ao molho FHC, os neo-udenistas se acham no direito de recorrer ao golpe e à destruição da democracia. Essa é a nova UDN, vestida de azul e amarelo.

Durante os primeiros anos do governo Lula, o tucanato elevava a voz para falar do seu republicanismo. Dir-se-ia serem vestais a serviço da democracia. Se não havia diálogo com o governo, era porque o governo Lula tinha tendências autoritárias, tinha voltado as costas para o social (é engraçado e estranho ouvir o PSDB dizer isso, mas na oposição a gente pode falar o que quiser). Com o escândalo do mensalão, eles passaram a ter algo mais concreto nas mãos. Mas a verdade é que a nova UDN ainda não está acostumada a fazer oposição, e errou na medida.

Por isso o ódio udenista da oposição passou dos limites. Com sua histeria e ferocidade, acabaram criando uma certa repulsa por parte de quem interessa: o povo. O que as últimas pesquisas do Ibope, do Datafolha e do Vox Populi indicam é que, apesar de tudo, apesar de ano e meio de campanha cerrada, o povo continua dizendo não às múmias udenistas. Apesar de todos os ataques a Lula dos últimos meses, o povo brasileiro continua reconhecendo uma coisa simples: para ele, o governo Lula foi o melhor dos últimos tempos.

Enquanto a oposição bate há tempos e de maneira burra na tecla do baixo crescimento econômico do Brasil, o que o povo entende é outra coisa: que as classes mais baixas, nesses quatro anos, melhoraram e muito de vida. O que ele percebeu — e por isso é chamado de ignorante — é que há uma diferença ideológica clara entre o governo Lula e a nova UDN, diferença traduzida no crescimento econômico para quem mais precisa dele. É por isso que hoje, ao contrário do que acontecia até o início de 2005, a oposição abandonou o discurso de que Lula voltou as costas para os pobres. Não que tivesse algum pudor em apelar para isso: mas a dissonância cognitiva é tão grande que até eles, nesta reta de final de campanha tentando tirar o último caldo de virtualmente todos os escândalos acontecidos no país nos últimos tempos, sabem que não funciona mais.

Mas o pior, mesmo, é ver o deboche com que a nova UDN trata instituições que dizia sagradas, como o voto popular. São capazes de insinuar uma tragédia para o Brasil, a destruição de tudo o que foi construído nos últimos 20 anos — inclusive com a sua participação, por sinal nada desprezível — apenas para se ver novamente no poder. Aquele republicanismo tão propalado se revelou uma farsa, como a democracia udenista nunca passou de falácia, e como a recém-descoberta honestidade do PSDB é tão falsa quanto a crença no voto soberano.

Perdendo de vez seus escrúpulos, a nova UDN se igualou ao seu aliado, Garotinho (aliança justificada pelo príncipe dos sociólogos aos dizer que “eu também fiz alianças, assim como Lula”), cujos conselhos programáticos para Alckmin são os de deixar de usar fitinhas do Senhor do Bonfim e evitar tomar banho de pipoca, coisa de altíssimo nível político; o mesmo ser deletério e que há alguns meses tentou fazer do Brasil uma república de bananas, pedindo observação internacional para as eleições, em meio à greve de fome mais ridícula de todos os tempos.

A UDN que se alcunha PSDB, hoje, é uma vergonha para o Brasil.

Originalmente publicado em 23 de outubro de 2006

Extraído DAQUI

quinta-feira, julho 08, 2010

As Três Fontes e as Três partes Constitutivas do Marxismo

Acredito que Marx tenha concebido uma das doutrinas mais belas e reveladoras das relações do homem com a História. O marxismo tanta vezes rechaçado, mal compreendido, tido por ciência e tendência política de radicais e tiranos é, quando entendido e estudado, uma das concepções mais humanizantes que já surgiram. Ele explica o por quê da desigualdade entre os homens. Mostra acima de tudo que a história é feita de lutas. O mundo não possui uma configuração final, como se ele tivesse sido concebido assim por vontade, uma força absoluta e que não pode ser mudada. Marx mostra que o mundo não "é asssim", mas "está assim". Portanto, é possível transformá-lo por intermédio de uma praxis atuante e não conformativa. No texto abaixo, Vladimir Lenin, um dos principais pensadores do marxismo no século XX, nos dá uma aula extraordinária de onde emana o marxismo. Ou seja, quais sãos as suas fontes.

Apenas uma história antes do texto: Ontem fui a um shopping aqui de Brasília e, como sempre faço, decidi ir a uma livraria. Gosto das livrarias. O ambiente me permite ficar lá "vagabundamente" folheando os livros. Estava olhando os lançamentos quando me deparei com o seguinte título: "Lênin, Stálin, Hitler - A era da catástrofe social", do liberal americano Robert Gellately (CAPA). Não cheguei a folhear o livro, pois fui tomado de um asco terrível. Pensei: "Pôr em paralelo Lênin e Hitler... Liberal infame". Manipular fatos históricos e vender meias verdades é um ato criminoso. O leitor menos atento e que não conhece a história soviética acaba por colocar na mesma balança os três nomes que estão ligados inextricavelmente à história do século XX. Mas não me espanta quando eu vejo uma obra "tendenciosa" como esta. Quando olhei para o livro, lembrei da frase de Lênin presente no texto abaixo: "A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão". Leiamos

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Por V. I. Lénine Março de 1913

A doutrina de Marx suscita em todo o mundo civilizado a maior hostilidade e o maior ódio de toda a ciência burguesa (tanto a oficial como a liberal), que vê no marxismo um a espécie de "seita perniciosa". E não se pode esperar outra atitude, pois, numa sociedade baseada na luta de classes não pode haver ciência social "imparcial". De uma forma ou de outra, toda a ciência oficial e liberal defende a escravidão assalariada, enquanto o marxismo declarou uma guerra implacável a essa escravidão. Esperar que a ciência fosse imparcial numa sociedade de escravidão assalariada seria uma ingenuidade tão pueril como esperar que os fabricantes sejam imparciais quanto à questão da conveniência de aumentar os salários dos operários diminuindo os lucros do capital.

Mas não é tudo. A história da filosofia e a história da ciência social ensinam com toda a clareza que no marxismo não há nada que se assemelhe ao "sectarismo", no sentida de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial. Pelo contrário, o gênio de Marx reside precisamente em ter dado respostas às questões que o pensamento avançado da humanidade tinha já colocado. A sua doutrina surgiu como a continuação direta e imediata das doutrinas dos representantes mais eminentes da filosofia, da economia política e do socialismo. A doutrina de Marx é onipotente porque é exata. É completa e harmoniosa, dando aos homens uma concepção, integral do mundo, inconciliável com toda a supertição, com toda a reação, com toda a defesa da opressão burguesa. O marxismo é o sucessor legítimo do que de melhor criou a humanidade no século XIX: a filosofia alemã, a economia política inglesa e o socialismo francês. Vamos deter-nos brevemente nestas três fontes do marxismo, que são, ao mesmo tempo, as suas três partes constitutivas.

I

A filosofia do marxismo é o materialismo. Ao longo de toda a história moderna da Europa, e especialmente em fins do século XVIII, em França, onde se travou a batalha decisiva contra todas as velharias medievais, contra o feudalismo nas instituições e nas idéias, o materialismo mostrou ser a única filosofia conseqüente, fiel a todos os ensinamentos das ciências naturais, hostil à supertição, à beatice, etc. Por isso, os inimigos da democracia tentavam com todas as suas forças "refutar", desacreditar e caluniar o materialismo e defendiam as diversas formas do idealismo filosófico, que se reduz sempre, de um modo ou de outro, à defesa ou ao apoio da religião.

Marx e Engels defenderam resolutamente o materialismo filosófico, e explicaram repetidas vezes quão profundamente errado era tudo quanto fosse desviar-se dele. Onde as suas opiniões aparecem expostas com maior clareza e pormenor é nas obras de Engels Ludwig Feuerbach e Anti-Dübring, as quais - da mesma forma que o Manifesto Comunista - são os livros de cabeceira de todo o operário consciente. Marx não se limitou, porém, ao materialismo do século XVIII; pelo contrário, levou mais longe a filosofia. Enriqueceu-a com as aquisições da filosofia clássica alemã, sobretudo do sistema de Hegel, o qual conduzira por sua vez ao materialismo de Feuerbach. A principal dessas aquisições foi a dialética, isto é, a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e mais isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento. As descobertas mais recentes das ciências naturais - o rádio, os elétrons, a transformação dos elementos - confirmaram de maneira admirável o materialismo dialético de Marx, a despeito das doutrinas dos filósofos burgueses, com os seus "novos" regressos ao velho e podre idealismo.

Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até ao fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana. O materialismo histórico de Marx é uma conquisto formidável do pensamento científico. Ao caos e à arbitrariedade que até então imperavam nas concepções da história e da política, sucedeu uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.

Assim, como o conhecimento do homem reflete a natureza que existe independentemente dele, isto é, a matéria em desenvolvimento, também o conhecimento social do homem (ou seja: as diversas opiniões e doutrinas filosóficas, religiosas, políticas, etc.) reflete o regime econômico da sociedade. As instituições políticas são a superestrutura que se ergue sobre a base econômica. Assim, vemos, por exemplo, como as diversas formas políticas dos Estados europeus modernos servem para reforçar a dominação da burguesia sobre o proletariado. A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operaria sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.

II

Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política, Marx dedicou-se principalmente ao estudo deste regime econômico. A obra principal de Marx, O Capital, é dedicada ao estudo do regime econômico da sociedade moderna, isto é, da sociedade capitalista. A economia política clássica anterior a Marx tinha-se formado na Inglaterra, o país capitalista mais desenvolvido. Adam Smith e David Ricardo lançaram nas suas investigações do regime econômico os fundamentos da teoria do valor-trabalho. Marx continuou sua obra. Fundamentou com toda precisão e desenvolveu de forma conseqüente aquela teoria. Mostrou que o valor de qualquer mercadoria é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.

Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos (troca de umas mercadorias por outras), Marx descobriu relações entre pessoas. A troca de mercadorias exprime a ligação que se estabelece, por meio do mercado, entre os diferentes produtores. O dinheiro indica que esta ligação se torna cada vez mais estreita, unindo indissoluvelmente num todo a vida econômica dos diferentes produtores. O capital significa um maior desenvolvimento desta ligação: a força de trabalho do homem torna-se uma mercadoria. O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.

A teoria da mais-valia constitui a pedra angular da teoria econômica de Marx. O capital, criado pelo trabalho do operário, oprime o operário, arruína o pequeno patrão e cria um exercito de desempregados. Na indústria, é imediatamente visível o triunfo da grande produção; mas também na agricultura deparamos com o mesmo fenômeno: aumenta a superioridade da grande exploração agrícola capitalista, cresce o emprego de maquinaria, a propriedade camponesa cai nas garras do capital financeiro, declina e arruína-se sob o peso da técnica atrasada. Na agricultura, o declínio da pequena produção reveste-se de outras formas, mais esse declínio é um fato indiscutível.

Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social - centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado - enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população. Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.

Marx traçou o desenvolvimento do capitalismo desde os primeiros germes da economia mercantil, desde a troca simples, até às suas formas superiores, até à grande produção. E de ano para ano a experiência de todos os países capitalistas, tanto os velhos como os novos, faz ver claramente a um numero cada vez maior de operários a justeza desta doutrina de Marx. O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas, esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.

III

Quando o regime feudal foi derrubado e a "livre" sociedade capitalista viu a luz do dia, tornou-se imediatamente claro que essa liberdade representava um novo sistema de opressão e exploração dos trabalhadores. Como reflexo dessa opressão e como protesto contra ela, começaram imediatamente a surgir diversas doutrinas socialista. Mas, o socialismo primitivo era um socialismo utópico. Criticava a sociedade capitalista, condenava-a, amaldiçoava-a, sonhava com a sua destruição, fantasiava sobre um regime melhor, queria convencer os ricos da imoralidade da exploração.

Mas, o socialismo utópico não podia indicar uma saída real. Não sabia explicar a natureza da escravidão assalariada no capitalismo, nem descobrir as leis do seu desenvolvimento, nem encontrar a força social capaz de se tornar a criadora da nova sociedade. Entretanto, as tempestuosas revoluções que acompanharam em toda a Europa, e especialmente em França, a queda do feudalismo, da servidão, mostravam cada vez com maior clareza que a luta de classes era a base e a força motriz de todo o desenvolvimento. Nenhuma vitória da liberdade política sobre a classe feudal foi alcançada sem uma resistência desesperada. Nenhum país capitalista se formou sobre uma base mais ou menos livre, mais ou menos democrática, sem uma luta de morte entre as diversas classes da sociedade capitalista.

O gênio de Marx está em ter sido o primeiro a ter sabido deduzir daí a conclusão implícita na história universal e em tê-la aplicado conseqüentemente. Tal conclusão é a doutrina da luta de classes.

Os homens sempre foram em política vítimas ingênuas do engano dos outros e do próprio e continuarão a sê-lo enquanto não aprendem a descobrir por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe. Os partidários de reformas e melhoramentos ver-se-ão sempre enganados pelos defensores do velho, enquanto não compreenderem que toda a instituição velha, por mais bárbara e apodrecida que pareça, se mantém pela força de umas ou de outras classes dominantes. E para vencer a resistência dessas classes só há um meio: encontrar na própria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam - e, pela sua situação social, devam - formar a força capaz de varrer o velho e criar o novo.

Só o materialismo filosófico de Marx indicou ao proletariado a saída da escravidão espiritual em que vegetaram até hoje todas as classes oprimidas. Só a teoria econômica de Marx explicou a situação real do proletariado no conjunto do regime capitalista. No mundo inteiro, da América ao Japão e da Suécia à África do Sul, multiplicam-se as organizações independentes do proletariado. Este se educa e instrui-se travando a sua luta de classe; liberta-se dos preconceitos da sociedade burguesa, adquire uma coesão cada vez maior, aprende a medir o alcance dos seus êxitos, temperam as suas forças e cresce irresistivelmente.

Extraído DAQUI

terça-feira, junho 29, 2010

Paranóia, medo e fragilidade

O filme Crash – no limite, conforme foi traduzido no Brasil, é um trabalho produzido no ano de 2005, pelo diretor de origem canadense Paul Haggis. Ganhou o Oscar de melhor filme, edição e roteiro original do ano de 2006 e mais 6 prêmios internacionais, incluindo o Globo de Ouro (EUA) e o Bafta (Inglaterra). Até aí tudo bem! Afinal de contas até mesmo o filme Titanic (1997) ganhou 11 estatuetas do Oscar. Refiro-me aparentemente com negatividade ao filme de James Cameron, pois o longa é demasiado dramático, cheio de vôos sentimentais. A música da Celine Dion é sofrível (My Heart Will Go On).

Já a película de 2005, é em dimensão, muito mais inteligente do que Titanic. Crash é um filme para pensar, meditar, refletir; já por vez, no filme Titanic, a estratégia é fazer sentir, por isso o enorme sucesso de bilheteria. Fazer sentir é a melhor arma a favor do marketing. Quem quer vender, ser bem sucedido, deve acariciar as emoções do público. O produto pode não ser bom, mas se fala às emoções, as portas da conquista são abertas com maior facilidade.

Os personagens do filme de Paul Haggis são pessoas independentes. Há como que uma formação de astros separados orbitando em torno do mesmo eixo gravitacional. Diria que se trata de um fluxo não-linear de narrativa muito bem montada. Os personagens inicialmente parecem não ter nenhuma ligação uns com os outros. Mas de forma (casual?) cruzam-se num espaço de 36 horas e isso acaba modificando a existência de cada um deles. “U
ma histérica dona de casa (Sandra Bullock) e seu marido promotor público (Brandan Fraser); de um casal de detetives (Don Cheadle e Jennifer Esposito); de um diretor de televisão (Terrance Howard) e sua esposa (Thandie Newton); de um chaveiro mexicano (Michael Pena); de um comerciante persa (Shaun Toub); de dois ladrões negros (Larenz Tate e Chris Bridges); e de um policial novato (Ryan Phillippe) e outro racista (Matt Dillon)”. O filme se passa na cidade de Los Angeles, com direito a foto do prefeito da Califórnia Arnold Schwarzenegger e tudo mais. E mostra o drama do cotidiano numa grande cidade de forma realista. O caos fragmentário dos relacionamentos é explorado e exatifica a vida nos grandes centros.

O termo crash em inglês significa “barulho”, “estrondo”; “impacto”, “colisão”, “queda estrepitosa”; “despedaçar-se”. O filme não pode ser assistido uma única vez. Deve ser visto muitas vezes para que se possa captar as nuances, os detalhes ocultos. Logo no início há uma espécie de monólogo, um insignt, uma reflexão melancólica do detetive Graham:
'Em Los Angeles, ninguém toca um ao outro. Há sempre vidraças que separam as pessoas. Deve ser por isso que elas sempre se esbarram nas ruas. É o sentido do toque''. Ou seja, é nesse aspecto que o filme caminha. Busca retratar o turco, o policial racista, o migrante mexicano, o promotor, a dona de casa, o chinês, os ladrões, o trabalhador honesto e pai de família, o policial novo e cheio de humanismo como figuras de um mosaico complexo. Um quebra-cabeças no qual as peças não desejam se juntar (mas formam o tecido social), pois estão crivados pela intolerância, pela falta de amabilidade. Todos têm medo um do outro. O outro em sua literalidade é o inferno, como dizia Sartre.

O preconceito e a esperteza, a paranóia, o medo, a arrogância, o desrespeito são capas que escondem os aspectos profundos da fragilidade que habita as grandes cidades. Os homens não se tocam. Vêem o outro como potenciais inimigos. A solidariedade se ausentou e a solidão acampou nos corações. É como mostra a personagem de Sandra Bullock que ao caminhar na rua com o seu marido (Brandan Fraser), ao enxergar dois negros, arma no coração um desejo de segurança. Os negros, por sua vez, conscientemente sabem que há um comportamento defensivo da parte dela. Nessa cena percebe-se uma espécie de inamistosidade recíproca. Ela, branca, classe média alta; eles, negros, dos bairros pobres, dos guetos, parecem ter em suas identidades sociais um determinismo que os configura pela cor que possuem. Isso não é fruto apenas da paranóia dos americanos. É resultado de uma programação mental que habita as mentalidades, que julga e sentencia o outro pela cor, nível social, roupa que veste ou carro que possui.


O filme quer deixar a pergunta para que todos reflitam: até que ponto você se conhece? Até que ponto nos conhecemos? Esta pergunta é séria, pois ninguém está de certa forma imune aos incidentes que são derivados do medo; o medo que remete à paranóia; a paranóia que fragiliza as expectativas que temos sobre o outro. O gesto imprevidente que nos prepara para o contragolpe, invade-nos a cada vez que saímos à rua. Isso fica evidente na carona que o policial novato oferece a um dos dois negros. De certa forma, o policial julga-se indignado com o comportamento racista do policial (Matt Dillon) mais antigo que age movido pelo preconceito e pelo poder que o Estado confere a ele. É a arbitrariedade do homem que representa os interesses coletivos, a segurança pública. Abusa, molesta a esposa do negro parado sem necessidade, numa abordagem estúpida. O policial novo enche sua alma de certeza em favor da benevolência, quando aplaca uma revista, um incidente que possivelmente levaria a uma peça mal sucedida entre o diretor de televisão, antes abordado com injustiça e leviandade.

Ter conseguido aplacar a hostilidade entre outros dois policiais e o negro parece lhe encher de convicções humanitárias. Sua alma é aparentemente habitada por sentimentos nobres. Mas até que ponto o ser humano se conhece? Oferece carona e quando menos percebe mata um negro num gesto quase que autômato. Nisso fica patente dois fatos: (1) que todos os indivíduos vivendo em sociedade estão prontos para a disputa, para o triunfo contra o outro; que o outro não pode prevalecer contra mim. Afinal, numa guerra vence aquele que for mais ágil, mais rápido, mais esperto, mais perspicaz. (2) Mesmo imbuídos de convicções arraigadas ninguém é suficientemente bom. Num momento ou outro ficam claras as animosidades escondidas nos locais mais tenebrosos da alma. Essa abordagem quase que psicanalítica remete a um tipo de entendimento de que os homens por viverem diariamente num espaço habitado por medos e reveses alimentam em seus inconscientes gestos mecânicos de morte, de racismo, de incivilidade. Por mais que o indivíduo se sinta nobre, essa consciência é dispersada num momento inesperado, casos extremos se mostram em sua agudeza.


O preconceito, o individualismo, a hipocrisia e o auto-engano são realidades presentes em qualquer cidade grande. Nesse quesito, podemos afirmar que o filme apesar de retratar o drama de uma cidade americana e abordar apenas o microcosmo da vida daqueles personagens contigentes, em sua essência é universalista. Os homens são cada mais vulneráveis em todos os locais do mundo. O niilismo criado pela própria civilização adoeceu os homens. No fundo, como é mostrado nas cenas finais, todos possuem necessidades – querem ser amados, respeitados, acolhidos. A vida nos grandes centros prepara para a guerra, mas priva do preenchimento das necessidades existenciais. Restam apenas paranóia, medo, intolerância e o quebranto frágil.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: sexta-feira, 1 de agosto de 2008, 11:56:14.

quarta-feira, junho 23, 2010

Mais Saramago: "Saramago ou simplesmente José".

A morte não foi intermitente com José Saramago. Ela, a indesejada das gentes, que em um dos romances do escritor decidiu parar de agir, resolveu agora nos levar o gênio. Como ele mesmo escreveu uma vez, “somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se”. A chama, ou o lança-chamas, apagou-se. Já disseram que o mundo ficou mais burro nesta sexta-feira. A cegueira vai continuar, a lucidez vai diminuir, vamos continuar presos na caverna.

As mentes pequenas, que não aceitavam um contestador como Saramago, hoje se regozijam. Livraram-se do incômodo. Será? Creio que não. Seus livros estão aí, cada vez mais se multiplicando, como a cegueira do seu romance adaptado para o cinema. Continuarão chegando a todos os continentes, tal qual a jangada de pedra que se desprendeu do continente europeu. Ele continuará incomodando por muito tempo ainda.

Saramago, um “ser amargo” para alguns, que não esquecerão O evangelho segundo Jesus Cristo, censurado pela Igreja Católica e pelo governo português, por mexer com um mito inatacável. “Ser amargo” para os acreditam em um deus bondoso, na verdade um deus sanguinário, desmascarado no mais recente livro, Caim. “Ser amargo” para quem não sai de um shopping center, uma caverna platônica dos tempos modernos. “Ser amargo” é dizer um não para a história oficial. “Ser amargo” para os burocratas, “ser amargo” para os políticos, “ser amargo” para a Igreja, religiões, padres, pastores. “Ser amargo” para os capitalistas e para os banqueiros.

Mas “ser amargo” não é um defeito. Um ser doce não vê nossas idiossincrasias, não põe o dedo na ferida, aceita que tudo aconteça sem contestar e deixa os poderosos se perpetuarem. Um “ser amargo” nos deixa de olhos bem abertos, rói a cadeira do rei até ela quebrar.

Ser amargo, sal amargo, Saramago. Ou simplesmente José. Que seus livros continuem jogando pimenta nos nossos olhos e nos guiando para sair da escuridão dessa caverna chamada mundo.

Por Cassionei Niches Petry

Extraído DAQUI

segunda-feira, junho 21, 2010

Morre o escritor e comunista português José Saramago

Na manhã deste 18 de junho, faleceu em sua residência, aos 87 anos, o escritor e comunista português José Saramago. Ele vivia, desde 1993, com sua esposa e tradutora Pilar del Río na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias, Espanha. Saramago lutava há anos contra leucemia crônica e veio a óbito por falência múltipla dos órgãos. Filho e neto de camponeses sem terra, iletrados, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922. Seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda tinha dois anos de idade. Passou a maior parte de sua vida na capital portuguesa. Fez estudos secundários, mas, por dificuldades econômicas, não pôde concluí-los. Seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas outras profissões: desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado, em 1947, ficando até 1966 sem publicar. Em 1969, filia-se ao Partido Comunista Português (PCP) e enfrentou a repressão do regime fascista de Antônio Salazar. Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 e de um prêmio Camões, a mais importante condecoração da língua portuguesa, o autor é considerado o criador de um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século 20.De volta à prosa, seu estilo característico começa a ser definido em Levantado do Chão (1980) e em Memorial do Convento (1982). Em 1991, lança sua obra mais polêmica, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a qual foi considerada uma afronte pela Igreja Católica de Portugal e o levou a deixar o país pouco tempo depois. Seu último romance editado foi Caim, publicado em 2009.

O escritor e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho considera que as literaturas portuguesas perdem sua referência com a morte de Saramago. “Além de um grande escritor no campo da narrativa ficcional, Saramago foi o primeiro de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, dando a ela um caráter mais universal e sintetizando-a historicamente”. Entre os romances de Saramago, Hildeberto aponta O Ano da Morte de Ricardo Reis como o melhor. “É nesta obra que ele revela um olhar crítico sobre a ditadura de Salazar e a história do escritor Fernando Pessoa. Também faz uma profunda reflexão sobre o papel da arte e da estética na história”.

Extraído DAQUI

terça-feira, junho 15, 2010

A face oculta do futebol

A TV Brasil e a TV Câmara mostraram alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Está no ar o maior espetáculo de televisão. Em audiência nada bate a Copa do Mundo. Na Alemanha, em 2006, os 64 jogos foram vistos por 26 bilhões de telespectadores, número que neste ano pode alcançar os 30 bilhões.

São 60 bilhões de olhos vendidos pela FIFA para as emissoras de TV comercializarem com os seus anunciantes. As cifras envolvidas em dinheiro são estratosféricas. Ganham a Federação internacional, as empresas de televisão e os anunciantes reforçando marcas e alavancando a venda de produtos e serviços.

Um ciclo perfeito, onde nada pode ser criticado. Normalmente, a TV no Brasil não critica os jogos transmitidos já que, dentro da lógica empresarial, seria um contrasenso mostrar defeitos do próprio produto. E o futebol, para a TV, nada mais é do que um dos seus produtos, assim como as novelas e os programas de auditório.

Dessa forma se todos ganham e não há criticas, o grande espetáculo do futebol, em sua dimensão máxima que é a Copa do Mundo, chegaria as raias da perfeição. Pelo menos é que mostra a TV.

Mas, e ainda bem que há um mas nessa história, a TV Brasil e a TV Câmara mostraram no programa VerTV alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Para começar não é verdade que todos ganham. Há quem perca, e são muitos. Por exemplo, os jovens que por força da TV associam desde cedo o sucesso esportivo com o consumo de cerveja. Ou desprezam o estudo, uma vez que seus ídolos não precisaram dele para alcançar a glória e a fama.

No programa, Sócrates foi enfático: “A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime. Mostram ídolos do futebol que não estudam e são um péssimo exemplo para a sociedade. E não por culpa deles apenas. O sistema estimula que saiam da escola”.

Afirmação que desperta uma curiosidade. A mídia revela diariamente minúcias da vida dos jogadores. Onde vivem, que carros possuem, como são suas casas e suas famílias. Só não dizem até que ano estudaram, em quais escolas, como eram enquanto alunos. Por que será? Sócrates responde: “a ignorância dos jogadores é estimulada pelo sistema. A ele não interessam profissionais com possibilidade de critica”.

O jornalista José Cruz mostra outras perdas. De toda a sociedade. Por exemplo, com a irresponsabilidade dos dirigentes esportivos nos clubes, federações e confederações. Embora privadas, essas entidades recebem dinheiro público e, por isso, deveriam prestar contas publicamente. “As loterias esportivas repassam dinheiro para o futebol. A Timemania está hoje tapando o buraco das dívidas fiscais dos clubes produzidas por dirigentes irresponsáveis”.

E mostra outras perdas sociais. A do dinheiro público desperdiçado, por exemplo, nos Jogos Panamericanos do Rio, em 2007. Dá dois exemplos retirados do relatório do Tribunal de Contas da União: “a compra de 5 mil tochas para serem acesas no evento, das quais só chegaram 500 e, ainda assim apenas 380 foram aproveitadas e a descoberta, depois dos Jogos, pelos auditores do TCU, de 880 caixas contendo aparelhos de ar condicionado que sequer foram abertas. E tudo isso segue impune”.

Tanto Sócrates, como José Cruz, alertam para o fato da seleção nacional e dos seus jogos serem eventos públicos que, no entanto, estão totalmente privatizados. “A seleção brasileira – que usa as cores, o hino e a bandeira do nosso pais – deveria ter parte de suas receitas revertidas para o futebol brasileiro, muito pobre em várias regiões do Brasil”, diz o jornalista.

Sócrates lamenta o volume de recursos jogados fora pela falta de uma política esportiva de Estado. Para ele “o esporte deveria ser um braço da saúde e da educação. Se não ele fica solto” e aponta a deficiência dos cursos de Educação Física: “não há um que trate o esporte com viés comunitário. É tudo individualista”.

E há mais. Quem quiser saber basta entrar no site da TV Câmara, clicar em “conhecer os programas” e depois no VerTV. Lá revela-se um pouco do que a TV comercial teima em ocultar.

Carta Maior - terça-Feira, 15 de Junho de 2010

Por Laurindo Lalo Leal Filho

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

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