segunda-feira, novembro 28, 2011

Nietzsche e a religião


Rogério Miranda de Almeida

Todo aquele que se interrogar pela concepção de Friedrich Nietzsche com relação ao cristianismo e à religião em geral deve dar um passo a mais na sua interrogação e perguntar-se pela concepção que tem o filósofo dos valores que até então atravessaram a história da moral ocidental e a história de toda moral. Um passo a mais será ainda necessário na medida em que, para Nietzsche, o que realmente subjaz à criação e à destruição dos valores são as forças e as relações de forças que não cessam de se superar, de se recriar, de se repetir, de se renovar, de se excluir e de se incluir numa dinâmica recíproca que permeia, invade, domina e determina toda a realidade, todo o existir, todo o ser.

Com efeito, se existe um problema que acompanhou e obsedou o discípulo de Dioniso, esse foi o problema das forças e das relações de forças responsáveis pela criação e pela destruição, pela construção e pela demolição dos diferentes valores. Embora a vontade de potência só se encontre plena e explicitamente elaborada no terceiro e último período do filósofo – que, na minha leitura, começa com Aurora (1881) e se estende até os últimos escritos (1888) –, este conceito já se faz presente no primeiro período – dominado pelas análises em torno da tragédia e da cultura grega em geral – e também no segundo, com Humano, Demasiado Humano I e II (1878-1880), cuja característica principal é o deslocamento de acento para um determinado tipo de moral, a moral utilitária.

Dos três conceitos básicos de Nietzsche – a vontade de potência, o niilismo e o eterno retorno –, foram os dois primeiros que principalmente pontilharam e fundamentalmente marcaram o desenrolar e a dinâmica de seu pensamento e de sua escrita. O niilismo, que é essencialmente inerente à vontade de potência, é ambíguo na medida em que se desdobra como uma contínua destruição dos antigos valores e, simultaneamente, como uma construção de novas e imprevisíveis interpretações, valorações, significações. Recriações. Não há, pois, um demolir para depois construir; há antes uma aniquilação e uma reedificação que se fazem concomitantemente, simultaneamente, na repetição e na diferença, na satisfação e na insatisfação, no gozar e no querer-mais.

Convém ressaltar que as religiões, e o cristianismo em particular, não são sinônimos de niilismo, embora, na perspectiva de Nietzsche, não se possa conceber uma religião que não moralize e, consequentemente, não encerre uma tábua ou uma hierarquia de valores. A religião cristã e as religiões orientais não subsumem o niilismo, que é um movimento muito mais amplo e do qual, enquanto forças niilistas da decadência, estas se apresentam como expressões ou manifestações essenciais. Não se pode pensar na concepção nietzschiana do judeu-cristianismo e do budismo sem vinculá-la à sua visão da religião grega no tempo da tragédia e à crítica que, já na sua primeira fase, ele endereçara à filosofia de Schopenhauer.

Os deuses do Olimpo e o Deus judaico-cristão

Com efeito, já nos seus primeiros escritos, Nietzsche denuncia o fundo moral e as relações de forças a ele subjacentes que disputam entre si a potência sob os mais variados disfarces e os mais sublimes, nobres, elevados e espirituais atributos. Segundo Nietzsche, há basicamente dois tipos de forças: as forças que afirmam e enaltecem a vida e aquelas que, ao contrário, a denigrem, depreciam, caluniam e rebaixam. Eis a razão pela qual, já na Visão Dionisíaca do Mundo (1870) – escrito póstumo que data de dois anos antes da publicação do Nascimento da Tragédia –, o filósofo fazia ressaltar a superioridade da religião grega sobre as demais religiões, porquanto os deuses gregos que descrevem Homero, Hesíodo e Epicuro não são divindades que exprimem a indigência, a ascese ou o dever, mas, antes, criaturas que apontam para um excesso de força, de seiva e, consequentemente, para tudo aquilo que a vida tem de belo, de bom, de mau, de transbordante, de afirmativo e cruel. Os artistas que forjaram esses deuses eram, pois, senhores de uma fantasia genial que, projetando suas próprias imagens sobre o céu azul da Grécia, construíram um Olimpo onde essas formas podiam respirar o triunfo da potência juntamente com um sentimento de exuberância e justificação da existência e do mundo.

Curiosamente, num fragmento póstumo da mesma época – fim de 1869, primavera de 1870 –, Nietzsche analisa essa mesma problemática ao chamar a atenção para a figura do asceta cristão que, ao contrário do artista heleno, encarna o tipo do negador e destruidor da natureza. Para o autor de , as direções ascéticas são o que há de mais hostil e oposto à natureza e à fertilidade que esta encerra. No seu intuito e no seu trabalho subterrâneo de tudo negar e tudo emendar, elas já revelam o que realmente são: frutos enfezados e estiolados que a própria natureza se encarregou de rejeitar, porquanto ela não quer propagar uma raça ou uma espécie de depauperados e enfraquecidos. “O cristianismo só poderia triunfar num mundo degenerado”, diz Nietzsche.

A partir dessas considerações, súbito se adivinha: os deuses se apresentam para Nietzsche como reflexos da exuberância ou da indigência de um povo. De sorte que, quanto mais potente e aguerrida for uma nação, tanto mais exibirão os seus deuses as marcas da guerra, da conquista e do orgulho nacional. Inversamente, os deuses dos “bons”, dos falidos e dos fracos não terão senão sentimentos de vingança, de rancor e ressentimento contra tudo aquilo que eleva, transfigura e diz “sim” à vida. É o que Nietzsche já mostrava da maneira mais enfática no escrito de transição, Humano, Demasiado Humano I (1878). É o que ele também dirá num de seus últimos textos, O Anticristo, redigido no final de 1888 e publicado em 1895.

No parágrafo 114 de Humano, Demasiado Humano, que tem sintomaticamente por título “O Não-grego no Cristianismo”, o filósofo declara que os helenos não olhavam para os deuses homéricos como seres acima deles próprios, à maneira de senhores; não se viam tampouco abaixo dos deuses, como servos, ao modo dos judeus. “Viam como que apenas a imagem em espelho dos exemplares de sua própria casta que melhor vingaram; portanto, um ideal, não um contrário de sua própria essência.” Onde, porém, os deuses olímpicos se eclipsavam, a vida grega também se revelava mais sombria, mais inquieta e ameaçada de arruinar-se. “O cristianismo, por sua vez” – conclui o filósofo –, “esmagou e alquebrou completamente o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal.”

No Anticristo, Nietzsche verá essa mesma dialética em ação no seio do próprio judaísmo, na medida em que ele considera a época dos reis o período mais rico, mais próspero e potente da história de Israel. Consequentemente, Javé era a manifestação da consciência que este povo possuía da sua própria soberania, da sua força e alegria de viver. Portanto, através de Javé o povo esperava vitória e libertação; por meio dele depositavam confiança na natureza para que esta lhes concedesse aquilo de que mais necessitavam: chuva e uma colheita abundante. No entanto, essa época também devia chegar a um fim, ao qual Nietzsche atribui três causas principais: a anarquia interior, a ameaça assíria do exterior e a ascensão da classe sacerdotal ao poder. Gradualmente, portanto, o Deus de Israel, que até então refletia o orgulho e o amor-próprio de seu povo, viu-se reduzido a um Deus condicionado e vinculado a preceitos morais: toda felicidade era vista como uma retribuição pela obediência a Javé; todo infortúnio era, ao invés, recebido como uma punição pela desobediência a ele infligida.

Se esta é, pois, uma das perspectivas a partir das quais Nietzsche analisa a religião dos gregos e aquela que brotou do solo e do povo judeu, como então ele considera o budismo e a sua relação com a filosofia de Schopenhauer?

Schopenhauer, a tragédia e a negaçãobudista da vontade

Na época em que Nietzsche redigia O Nascimento da Tragédia – publicado em janeiro de 1872 –, ele se achava sob a quase total influência de Schopenhauer. Assim, para o discípulo de Dioniso, a sabedoria trágica reproduzia, por meio da ilusão apolínea e da música dionisíaca, a mais íntima essência do mundo, da natureza, dos homens, da vontade ou, em suma, do Uno originário. No que diz respeito especificamente à música dionisíaca, esta se apresentava como um espelho sobre o qual se refletia a própria vontade universal, que nos chega como a verdade eterna ou, mais exatamente, como a verdade que jorra do fundo ou do núcleo do Uno originário.

Sem embargo, na própria obra O Nascimento da Tragédia – e mesmo em alguns textos que a preludiam –, já se vê desenhar uma tomada de posição crítica vis-à-vis de Schopenhauer. E esta posição só tenderia a acentuar-se à medida que Nietzsche fosse também se distanciando do autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Destarte, na seção 7 daquela obra, Nietzsche critica Schopenhauer justamente naquilo que o filósofo tem de comum com o budismo: a resignação e a negação da vontade diante do sofrimento que acarreta todo desejo. Ora, na perspectiva do discípulo de Dioniso, a consolação metafísica que suscita a tragédia, e que se encarna no coro satírico, é toda ela entretecida de gozo, o gozo na sua potência indestrutível que afirma a vida, apesar do caráter mutável do mundo fenomênico. Por conseguinte, o heleno profundo que o coro vem consolar – e que lança seu olhar sobre as forças demolidoras da natureza – corre ele também o risco de “aspirar a uma negação budística da vontade”. No entanto, a arte vem em seu socorro para redimi-lo, mas, “pela arte, é a própria vida que o redime para si mesma”.

Num fragmento póstumo do verão-outono de 1884, que faz parte de seu terceiro e último período, Nietzsche se mostrará ainda mais incisivo com relação às forças niilistas da decadência, que, por natureza, são negadoras da vida e de tudo aquilo que ela tem de fértil, de belo, de abundante, de potente, de tenso, de deleitoso e sensual. Com efeito, nada repugna mais a Nietzsche do que uma religião cuja moral recomenda a domesticação dos instintos e a supressão do prazer. Esta é “uma medida de emergência tomada por naturezas que não conhecem o critério da medida e que não têm outra escolha senão a de se tornarem libertinos e porcos, ou então ascetas”. Essas naturezas – continua o filósofo – encontraram no cristianismo e no budismo um modo de pensar que é, no mais alto grau, adaptado a toda a escória dos decadentes, dos doentes e malogrados da existência. Pode-se, pois, perdoar-lhes o fato de denegrirem um mundo onde foram malsucedidos. “Mas faz parte da nossa sabedoria considerar essas doutrinas e religiões como grandes manicômios e casas de reclusão.”

Em Para Além de Bem e Mal (1886), parágrafo 56, Nietzsche defenderá uma reflexão aprofundada sobre o pessimismo livre “da estreiteza e da simplicidade semicristã e semialemã” que, segundo ele, se exprimiram por último na filosofia de Schopenhauer. Assim, prossegue o filósofo, todo aquele que tiver lançado um olhar nos abismos do pensamento mais radicalmente negador – um olhar “para além de bem e mal e não mais, como Buda e Schopenhauer, na órbita da moral e de sua ilusão” – chegará talvez a abraçar um ideal totalmente oposto: o ideal do homem mais generoso, mais exuberante e mais afirmativo que possa existir.

Ora, conquanto o problema central da filosofia de Nietzsche esteja nas forças e nas relações de forças que não cessam de se superar e de se recriar, retorna inevitavelmente a questão: não seriam justificados todos os seus ataques contra a religião, ou as religiões, justamente por elas se apresentarem, na sua perspectiva, como as manifestações essenciais das forças niilistas da decadência?

sábado, novembro 19, 2011

Quantos são os evangélicos no Brasil?

Artigo extraído do sítio Cristianismo Hoje. Achei interessante e curioso o artigo, que apesar de buscar ser científico e imparcial, ficou (no fundo) com um sabor de triunfo típico de "crente". Algo dessa natureza: "Vamos ganhar essa nação para Jesus!" - um bordão triunfalista cego e sem materialização consequente.

Por Marcos Stefano


A velha máxima de que os números não mentem pode estar com os dias contados. Pelo menos, no que diz respeito a estatísticas sobre religião no Brasil. Contrariando as últimas pesquisas sobre a fé no país, que apontam os evangélicos como sendo 20,2% da população – ou menos de 40 milhões de pessoas –, diversas denominações apostam em um panorama mais otimista, no qual os crentes já seriam atualmente 51,1 milhões. Dizem mais: que, caso se mantenham as atuais taxas de crescimento do segmento cristão evangélico, os crentes em Jesus serão, já em 2020, mais da metade da população brasileira, o que equivaleria a 105 milhões de almas. Números evangelásticos (termo cunhado para se referir aos constantes exageros dos crentes) à parte,o certo é que organizações que se dedicam a estatísticas religiosas trabalham com números que apontam uma maioria religiosa protestante no Brasil em apenas dez anos.

O cálculo é feito por organizações como o Departamento de Pesquisas da Sepal (Servindo Pastores e Líderes) e o Ministério Apoio com Informação (MAI), levando em conta a taxa de crescimento que os evangélicos tiveram nas últimas décadas, sobretudo a de 1990. As projeções têm como ponto de partida os Censos periódicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo levantamento de 1991, por exemplo, sabe-se que os evangélicos eram 13 milhões naquele tempo, ou 8,9% da população brasileira. Nove anos depois, em 2000, já haviam dobrado de tamanho, passando a ser 26, 1 milhões, 15,45%. “Se o crescimento anual se mantiver nesses patamares, de cerca de 7,4% ao ano, poderemos ter, sim, mais de 50% da população brasileira composta por evangélicos”, aponta o pastor Luis André Bruneto, ligado ao Departamento de Pesquisas da Sepal. “Tudo bem que a tendência mais para frente é que esse aumento venha a se estabilizar. Mas, levando-se em conta a taxa de crescimento anual dos evangélicos, que é mais de três vezes o da população do país em geral, podemos dizer que hoje um em cada quatro brasileiros é protestante”, confirma a matemática Eunice Zillner, do MAI.

Em relação às disparidades de números com um dos últimos levantamentos feitos, o Mapa das Religiões da Fundação Getúlio Vargas (FGV), baseado nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE, Bruneto aponta que essa classificação pode ser imprecisa. O estudo destaca uma estabilidade do crescimento pentecostal, que fica em 12% do total da população, um pequeno crescimento das denominações históricas, que passam de 5,39% para 7,47%, e um forte aumento daqueles que se dizem evangélicos, mas não estão em nenhuma denominação específica. “Essas nuances já eram esperadas quando comparadas as mesmas curvas estatísticas entre os censos de 1980 e 2000. Por outro lado, o Mapa das Religiões coloca as quase 200 classificações batistas como ‘históricas’, quando a maioria desse grupo deveria ser classificada como ‘pentecostal’. Em contrapartida, a Universal do Reino de Deus, que sofre grande concorrência, é tida também como ‘pentecostal’ – mesmo grupo no qual foram incluídas as Testemunhas de Jeová no estudo”, critica.

Apesar deste e outros notáveis equívocos, o Mapa das Religiões também confirma o que diversos estudiosos do fenômeno religioso brasileiro já vinham falando: o crescimento econômico e as melhores condições sociais e educacionais no Brasil favoreceriam uma migração de fiéis para igrejas históricas, conhecidas pelo ensino bíblico mais profundo e pela organização eclesiástica que favorece maior participação dos membros, inclusive em termos administrativos. Já o aumento explosivo dos evangélicos, hora ou outra, acabaria levando a um processo de secularização, com o surgimento de crentes apenas “nominais”. Ou seja, é gente que se identifica como protestante por ter nascido ou feito parte de uma denominação, mas agora não frequenta mais a igreja.

PADRÕES HISTÓRICOS

Tais nuances fazem com que muita gente fique com a pulga atrás da orelha com previsões muito otimistas neste aspecto. Mesmo trabalhando com os números, o próprio Bruneto é um que recomenda cautela. “Não se tratam de dados reais. São apenas projeções e perigosas”, observa. Como se está lidando com pessoas, e não com uma ciência exata, é bom deixar claro que a dinâmica populacional é muito intensa e que disparidades e mudanças dificultam a concretização de muitas previsões. Um bom exemplo é o surgimento do secularismo e a queda do crescimento de qualquer religião, comuns após a terceira ou quarta gerações dos convertidos. Exemplo disso acontece na Região Sul, justamente onde aportaram os luteranos, primeiros protestantes a chegarem ao Brasil como grupo organizado, a partir de 1824, com a imigração germânica. No Rio Grande do Sul, é possível encontrar a cidade mais evangélica do Brasil, Quinze de Novembro, com 80,4% de crentes, a apenas 20 quilômetros de uma das menos evangélicas, Alto Alegre, com 0,28% de protestantes. Outro caso é Timbó, em Santa Catarina. Lá, a Igreja Luterana tem mais de 15 mil membros, mas apenas 40 pessoas participam de seus cultos a cada domingo.

“Não existem estudos sérios e estatísticas confiáveis que nos permitam acreditar que o Brasil terá maioria evangélica em uma década”, sentencia o sociólogo Paul Freston, professor catedrático de religião e política na Wilfrid Laurier University, no Canadá, e colaborador na pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos (SP). Ele defende que, para fazer uma conta mais próxima da realidade, é necessário considerar os padrões históricos de crescimento dos evangélicos a partir dos anos 1950 e não somente na década de 90, quando houve um “pulo”. “Tempos atrás, também falaram que alguns países da América Central teriam a maior de parte de suas populações composta por evangélicos ainda antes da virada do milênio. Claro, isso não se confirmou. Se uma religião avança, outras respondem para frear a perda de fieis”, argumenta o estudioso.

Freston, que é evangélico, diz que já foi considerado um homem sem fé por causa de suas posições mais conservadoras, mas prefere optar por estimativas que considera mais realistas. “Se o crescimento não continuar tão acelerado, os evangélicos terão fracassado? De forma alguma”, ressalva. “A se confirmar o maior crescimento dos tradicionais, devemos levar em conta que, durante 25 anos, pentecostais e neopentecostais estiveram na linha de frente do avanço evangélico no Brasil. Mas essa perda de vigor também precisa ser melhor analisada. O processo pode mostrar uma perda de capacidade de diálogo dos evangélicos com a sociedade. E isso pode trazer consequências ruins a longo prazo”, alerta. Até a divulgação dos números definitivos do Censo 2010, que se promete para o ano que vem – e mesmo depois disso, já que eles parecem tão inconclusivos –, muita água vai correr sob essa ponte.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Memórias - os itinerários do tempo (II)

Nasci na Zona da Mata pernambucana. Região que recebe esta designação, porque abrigava grandes porções da Mata Atlântica quando da chegada dos portugueses. Lugar de exuberância verde. De pluralidade de espécies. De uma vegetação pródiga. De um terreno muito típico. De clima tropical. Planaltos e planícies enormes. Ainda hoje é possível encontrar pedaços da vegetação preservada em locais da Zona da Mata nordestina. Por conta das exigências econômicas, os portugueses foram destruindo a vegetação original: primeiro com o pau-brasil, que teve por conseqüência um “esvaziamento” lento da mata, seguido pela degradação; em seguida, com o cultivo da cana de açúcar, na qual grandes porções foram desmatadas. Ainda hoje a região é conhecida como zona canavieira.

Ainda é possível vê o resultado desse tempo de progresso e privilégio econômico. A região era preenchida por grandes engenhos, que como feudos medievais abrigavam toda sorte de gente. Os donos de engenho podiam ser considerados como os senhores feudais. Uma classe constituída por “privilegiados”, exploradores da ingenuidade e da miséria do povo. Ela detinha soberanamente toda sorte de regalias econômicas, políticas e podia interferir na vida de quem quisesse como um César da Antiga Roma. Do outro lado havia os assalariados que “viviam de depender” do senhor de engenho, possuidor da alcunha de “coronel” ou “doutor”.

Os engenhos eram organismos que possuíam vida própria. O vigor de um engenho era medido pela visão que se tinha da sua chaminé. Para um estado normal na saúde do engenho, era preciso que ele cuspisse fumaça. Significava que ali havia vida produtiva nos pulmões do engenho. Pessoas ali estavam trabalhando, produzindo, moendo a cana. O sangue que corria nas veias do engenho era doce. Aquilo entusiasmava os moradores do engenho, pois isso significava trabalho, ocupação, possibilidade para os “matutos” daquela comunidade terem o que fazer, buscar subsistência, ter condições de oferecer o necessário para a família – geralmente volumosa.

Quando a safra da cana passava, iniciava-se o período de cultivo, de adubagem, processo de “temperar” o solo a fim de fazer com que, a cana que crescia, encontrasse os nutrientes necessários. Dessa forma, o ciclo manter-se-ia e a saúde do engenho permaneceria sem ameaças graves.

Com o tempo, os engenhos foram entrando em decadência. Começaram a passar por um processo de “constipação estrutural”. Processo grave, de desembocadura terrificadora. Geralmente, os agentes patrocinadores dessa debilidade eram a maquinaria obsoleta, os modos rústicos e primevos dos engenhos que não podiam fazer frente às usinas que surgiam como locomotivas velozes, imparciais, prontas para atropelar quem estivesse à frente. Os achaques não isentavam ninguém. Quando o engenho adoecia, adoeciam também os moradores. A miséria gravitava na sorte de cada um dos moradores do engenho como um morcego negro, anunciador de augúrios inamistosos. Para onde ir com a família? Aonde alugar o serviço da enxada ou dos lombos duros como uma cangalha de jumento? Os engenhos estavam ameaçados por um vírus para qual não havia antídoto, a modernidade tecnologizada. A maquinaria substituiria os braços bambos, excessivamente magros do trabalhador acostumado às tarefas insensíveis.

Os engenhos adoeciam. As suas luzes eram extintas como estrelas que se obliteram num processo de gastamento, de perda de energia fluídica. As chaminés não mais faziam espirrar fumaça para o céu. Dia a dia elas se apagavam denunciando um mal estar que parecia crônico. Os moradores não tinham mais o que fazer. Como José Lins do Rego escreveu no seu romance Bangüê quando da ameaça de extinção do engenho Santa Rosa: “O engenho Comissário, em ruínas, com os restos do maquinismo exposto ao tempo. O melão-de-são-caetano gosta de enfeitar sempre estas desgraças. Onde houver uma casa caindo lá se encontra ele com viço, com aquele gesto de hiena pelos cadáveres” . A ruína dos engenhos foi sendo sacramentada pela fúria faminta das usinas. Muito dos moradores dos engenhos se tornaram retirantes, nômades da miséria, que pervagavam num desterro medonho, como alma penada. Saíam pelo mundo a oferecer os seus serviços, procurando uma Canaã na qual pudessem plantar, criar um novilho, uma cabra que desse leite. Em suma, buscar uma vida que conferisse possibilidades de alimentação regulares. Sonho pequeno, mas alimentado por uma expectativa volumosa, cheia de arrebiques supersticiosos. Supertição que sempre fez parte do imaginário do povo nordestino. A realidade miserável e lúgubre é entendida por uma metafísica determinista, de um Deus caprichoso, cheio de desejos e vontades mesquinhas. Deus este que parece caçoar com a miséria insalubre que o povo nordestino vive mergulhado: prende as chuvas, não se agrada das sazões providentes; concede privilégios a poucos e enfia o resto numa existência de penúrias e sortilégios. Tragédia. Caos social.

Os engenhos foram se tornando ruínas. Com a saúde desfalecida, restava a decomposição estrutural; com o tempo, os esqueletos do que fora o engenho ficavam à mostra. Cavername medonho. Carcaça morta. O bangüê arruinado. Tachas com samboques, morada de lagartixas. Bagaceira com entulhos mofados – ninho de jararacas e corais. Moenda enferrujada, comida pela ação dos agentes naturais. Esqueleto ruído, arreganhado, os engenhos morriam numa espécie de hecatombe processual.

Estes espaços passaram a pertencer às usinas. Aqueles engenhos que não foram vendidos ou apoderados pelas usinas, abrigaram os magotes de seres alheados do mundo. Gente matriculada na escola da sobrevivência, doutrinada nos métodos pedagógicos da subserviência, treinada no abecedário da subsistência. Gente analfabeta para as letras, mas capaz de soletrar a vida como ninguém. Foi de uma localidade com estas feições que vim para a vida.

Escrito em 2006.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Dia dos Mortos, 7 bilhões de humanos, Bach e o BWV 232

Aproveitando o ensejo da data, estou ouvindo algo profundamente "santificante" - o BWV 232 do "grande pai". Esta semana tive a oportunidade de conversar com um professor, colega de trabalho, sobre a informação veiculada pela mídia acerca dos 7 bilhões de humanos que agora habitam a terra. Falamos sobre Malthus e ele me explicou sobre as deficiências da teoria do inglês. Mas não deixamos comentar sobre o estágio avançado de agonia da civilização ocidental, gestora de um modo de vida que nos leva inevitavelmente para o buraco. A sociedade capitalista com toda a sua parafernália tecnológica possui uma finalidade - nos conduzir ao prazer. Mas à medida em que somos conduzidos ao prazer, recai sobre nós a maldição do niilismo.

A terra já não é um lugar que promove espantos contemplativos. O que regala os olhos do homem do nosso tempo são as superfícies vítreas. Nelas o indivíduo do nosso tempo encontra a redenção narcísica de que tanto a sua alma vazia precisa. O capitalismo e o estilo de vida acabou criando aquilo que os especialistas vão chamar de "não-lugar". Ou seja, não há um lugar que promove encantos, novidade, fascinação, pois o que há são as mesmas lojas, as mesmas lanchonetes, as mesmas marcas, as mesmas fragrâncias, como se as nossas percepções tivessem sido uniformizadas.

O meu colega contou uma experiência curiosa. Disse ele que uma amiga fora fazer um cruzeiro marítimo, mas ficou decepcionada. Ela queria novidades. Todavia, no navio em que estava, as lojas, os pubs, os cafés, eram os mesmos que ela estava acostumada a frequentar em terra firme. Ou seja, ela teve mais do mesmo, pois não existe um lugar de novidade. Existe um "não lugar" que está em toda parte. É por isso que o homem do nosso tempo viaja tanto. Ele está atrás de novidades. Ele quer encontrar um regalo para a sua fome insaciável. Perdemos o encantamento pela "nossa casa", pela mãe sábia, a natureza.

Mas o que tudo isso tem a ver com a missa de Bach? Muita coisa. É que o meu colega disse a certa a altura de nossa conversa que a única forma de brecar o calapso de nossa civilização está na formação de valores sadios, num processo a qual poderíamos dizer que se dá de dentro para fora. E para ele, um dos resposáveis para que isso ocorra é a religião. Não deixei de pensar na afirmação dele. Possuo uma visão crítica em relação a religião. Afinal, a religião é tão antiga quanto a própria humanidade. Se a religião fosse capaz de redimir, ela já teria redimido, transformado o nosso mundo num local de paz. Pois o que não falta é religião.

Gostaria de mudar a afirmação do meu colega e dizer que o que pode salvar o homem é a metafísica, a espiritualidade que se encontra na beleza. E para se chegar à capacidade de apreciação e percepção dessa beleza é preciso educar os sentidos. É preciso direcionar os olhos para aquilo que nos torna maiores do que somos, deixando de lado os anseios vis da materialidade, que promete felicidade, mas não é capaz de gerar beleza, de fazer brotar um jardim no coração. Lembro aqui as palavras de Cristo: "O que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" Ou seja, a capacidade de ser humano, de sensibizar-se com a natureza, com a simplicidade dos elementos silenciosos que foram gerados pelo silêncio do universo.

Olhando do ponto de vista da objetividade, penso não haver chances para o homem. Em pouco mais de cem anos, as condições para a vida na terra tornar-se-ão insustentáveis. Para reverter isso é preciso de espiritualidade, da metafísica, que habita a obra de arte, os sonhos, a inocência, os silêncios gravitacionais das palavras, do rio que corre e não se cansa, nas amizades, na música, em Bach... Afinal, a natureza é um instrumento tocado pelo universo onde estão adormecidas as mais belas canções. Enquanto escuto essa extraordinária missa de Bach, vou pensando nisso tudo - e fico estarrecido e beatificado no dia dos mortos.

Abaixo um pequeno trecho do BWV 232 de Bach - regência de Herbert Blomstedt.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Drummond, 109 anos!

Hoje, se estivesse vivo, Carlos Drummond de Andrade completaria 109 anos de idade. Sou um fã incondicional da poesia do mineiro. Queria ter mais tempo para lê-lo. Drummond é um cantor solitário, um observador desconfiado numa meio de uma multidão que caminha na treva. Suas poesias são gestos políticos, uma voz que busca entender, interrogar a si e os outros homens. Sua voz "desconfiada" (mineira) possuía um alinho de timidez, que vinha inscrito em seu corpo franzino. Abaixo, seguem quatro das poesias que mais gosto da obra monumental do poeta - Procura da poesia, Confidências de um itabirano, Infância e Poema de Sete Faces - este último, uma espécie de auto-biografia poética, uma confissão do "ser-assim-no-mundo". Parabéns, poeta!

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Algumas poesias (AQUI) dos mais de 30 livros escritos pelo poeta.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Ele foi tudo o que eu quero ser - menos com as mulheres

O título parece estranho. A enunciação parece misteriosa. Intricada. Uma verdadeira charada. Explico. Penso isso todas as vezes que imagino o filósofo de Dionísio - Friedrich Nietzsche. Nietzsche foi mais que um filósofo. Foi uma águia que voou. Que ignorou as convenções religiosas e dogmáticas. Que se projetou para o céu e disse que o infinito acontece na existência de cada um de nós. Que a vida, apesar da feiúra, deve ser transformada numa obra de arte. Que é necessário inventar uma música que toque e, ao passo que toca, deve transformar nossa existência numa canção.

Nietzsche não tolerava os sentimentos fracos. As anemias do espírito. As fraquezas que aviltam. Segundo ele, era preciso caminhar, mesmo que em meio às trevas, transformando a vida num sol que ilumina. Para ele não existia nem bem nem mal. As dicotomias impedem que interpretemos corretamente a vida. Zaratustra não era criação. Era a própria voz profética (não em acepção religiosa) do filósofo falando. Falou. Criticou. Analisou sob diversos aspectos as sensaborias da sociedade em que viveu e para onde aquilo tudo conduziria. E de repente, - alguns julgam loucura - silenciou. Até mesmo a paralisia que o acometeu parece ser poética. Segundo ele, "quanto mais nos elevamos, mais pequenos pareceremos aos olhos daqueles que não sabem voar". Extraordinário. É preciso ser ousado para se alçar voos. Nem todos estão prontos ou possuem coragem para o ruflar de asas, que alcançam os céus celestiais da dúvida, do julgamento, da transvalorização dos valores. É preciso alcançar o que está "dalém do homem".

Li certa vez um artigo sobre o filósofo em que o autor dizia que a doença de Nietszche foi um castigo por ele ter se metido com Deus. Esse juízo apocalíptico (e citando Manuel Bandeira - "sifilítico", "raquítico"), não se sustenta pelos fatos. A vida do filósofo é trágica. Mas o trágico não o deteve. Como ele mesmo diz: "É preciso fecundar uma estrela bailariana de dentro do caos". E ele o fez. Sua obra atesta isso.

Agora o título "menos com as mulheres". Nieztsche não teve sucesso com as mulheres. Sua vida foi infelicitante nesse aspecto. Também nunca tive sucesso. O meu lance-acerto foi único. Mas colhi uma bela açucena, que brilha, cheira, reluz. Em tudo isso não me lamento. No mais, ignoro fatos adjacentes pelo peso da vida. Todavia, como desejo ser autêntico, ousado, destemido, amante da vida e da arte como ele foi.

Atualmente, estou lendo um livro sobre Nietzsche (SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche - biografia de uma tragédia: trad. Lya Luft - Geração Editorial: São Paulo. 2001. 364p.) - embora só leia nos intervalos e, na maioria das vezes, no metrô, a caminho do trabalho. Estou impressionado com a competência do Safranki, algo que eu já havia atestado na biografia sobre Heidegger. Pretendo ler ainda outra biografia importante escrita pelo mesmo autor sobre Schopenhauer, que possui uma ligação necessária com Nietzsche. O pensamento de Nietzsche possui ecos, um verbalizar, uma tonalidade, que nos faz distinguir o autor de O Mundo como Vontade e Representação. O que de fato tem me desagradado no livro de Safranki é o forte tom analítico e filosófico. Gostaria que o biográfo dialogasse mais com a vida do bigodudo. Com Nieztsche é assim: se não entedemos a vida, não entedemos a filosofia - em todos os sentidos.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 24 de outubro de 2011, segunda-feira.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Memórias - os itinerários do tempo (I)

A treva se enchia de mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam.

Graciliano Ramos, in
Infância, p.169


Cresci num ambiente profundamente rústico. Meus dias eram cheios. Dormia cedo e acordava com a alvorada. Parecia as aves do quintal. De manhã, cozinhava-se o cuscuz numa tigela de barro feita para esta finalidade. Um fumaceiro cobria a casa. A cozinha era um local negro. As paredes de barro estavam pintadas pelo pretume da fumaça fuliginosa. As panelas eram objetos bojudos feitos de barro completamente envernizados pela fumaça, resultado da combustão da madeira seca. A casa onde morava era uma tapera. Um local acanhado feito de madeira trazida da mata. Paus tortos que resultavam numa casa torta. Com o passar dos anos foram ruídos pelos cupins. Víamos pelos cantos das paredes o farelo da decomposição dos bichos miúdos que eram operários silenciosos. Na frente, uma porta mal dimensionada e uma janela escandalosamente mal projetada. Do lado direito, um oco ridículo. Dentro de casa, três cômodos estreitos e despidos de qualquer conforto. As paredes em alguns locais pareciam adquirir formas arredondadas. Quem teria sido o arquiteto daquela casinhola? Talvez matutos tivessem se ajuntado num final de semana, e, no meio da cachaça, e da conversa capenga, tivessem construído sem muitos cuidados, como era costume na região.

Dormia numa rede. A rede ficava na sala tosca. Durante o dia era enrolada e trepada na parede. Quando a noite chegava, a luz do candeeiro ajudava a nos desembaraçar do negrume. A luz mortiça do candeeiro balançava à brisa da noite. Uma fumaça escura se erguia da queima do pavio embebido no querosene. Tratava-se de uma lata com um bico feito para abrigar o pavio que, mergulhado no combustível contido no seu interior, proporcionava uma chama frouxa que alumiava a noite. Os vizinhos ficavam distantes: Mané Ivo, Zé Pequeno, João Severo, Seu Bastião, eram os mais próximos. Os mais afastados eram o meu avô Jeremias, que logo à frente contarei a importância dele para a minha educação, Bil Jorge, Vevé, Antônio Fragoso. Enxergava ao longe luzes anêmicas produzidas pelos candeeiros. Pequenos olhos acesos duelando contra o cobertor escuro da noite. As bananeiras que cercavam a minha casa produziam vozes na noite escura. Dentro de casa, criaturas – eu, minha mãe, meu pai e meu irmã. Geralmente, dormíamos cedo. Meu pai às vezes delongava-se na taverna do Seu Bastião em conversas e divertimentos com os amigos. À noite a rede era armada. Durante muitos anos dormi em redes. Quando estava na rede achava-me protegido dos entes fantasmagóricos que colhia nas conversas e que à noite trazia à minha imaginação. Cobria-me dos pés à cabeça e entedia que com este gesto estava totalmente isento de qualquer surpresa. Entedia que o pano que me cobria, proteger-me-ia do mundo, dos caiporas, das comadres fulosinhas e de todos os entes mal intencionados que surgissem. Arregalava os olhos tentava enxergar na treva medonha que me cercava.


Não me recordo bem da ocasião, mas certa vez minha mãe adquiriu um calendário com uma fotografia da Nossa Senhora Aparecida. O calendário foi afixado na parede da sala. A imagem da santa perturbava-me profundamente. A fisionomia negra da santa grudava-se na minha mente como matéria pegajosa. As vestes negras causavam-me pânico. O rosto duro, minúsculo, sumido no meio dos trajes quais plumagens de graúna, infundiam medo à noite quando os candeeiros se apagavam. Reclamava para a minha mãe.


- Deixa de se besta, menino! – dizia a minha querida mãe.


Não conseguia compreender como é que uma santa poderia provocar medo. A celestialidade dos santos estava coberta de luz, com ornamentos esbranquiçados, com faces angélicas; mas aquela santa era diferente. Era negra, de trajos negros, de fisionomia que me provocava sensações negras. Por causa disso, desde pequeno a cor preta está associada a fatos desagradáveis, a situações cavernosas na minha mente.


Quando ia para a casa do meu avô e tinha que voltar sozinho, uma apreensão grossa, graúda, abraçava-me. Por todos os lados eu estava cercado por canaviais. Mangueiras de troncos grossos, de folhagens enormes como um cogumelo gigante, que se tornavam imperceptíveis na noite escura. Embaixo delas, nos troncos, almas pelintras poderiam confabular como atacariam os humanos. Corria. Faltava-me o fôlego. Eriçava-me todo. Sentia uma mão fria pousar nas minhas costas. Espantava-me. Não tinha ânimo em olhar para trás. Com certeza havia no meu encalço seres de outro mundo. Corpos feitos de fumaça que voejavam na noite escura. Apreensão. Coração aos pulos. Tonto, não distinguia muito bem o caminho. Era guiado pelo instinto. Quando deitava, embrulhava-me embaixo da rede e me punha a pensar o que as criaturas espectrais estariam com suas legiões a fomentar contra a vida dos humanos. Mas por que tais criaturas tinham que ter raiva dos seres humanos? Não conseguia compreender.


Quando sentávamos à roda da fogueira na noite escura – eu meus colegas - , via as nossas sombras se mexerem misteriosamente na ramagem das plantas. Imaginava confabulações sendo feitas ali próximo de nós. Invisibilidade camuflada, mostrada unicamente por meio de nossas próprias figuras deformadas. Ali estavam seres de olhos de brasas, de corporatura indistinta, que se arrastavam à semelhança de vermes gigantes na treva noturna. A agonia me paralisava.


Com isto quero dizer que este cenário fantástico construiu em mim a capacidade para interpretar o mundo de modo fantasioso. De modo que hoje, ainda guardo em mim o poder da contemplação e da fantasia. Aquelas experiências amendrontadoras não incutiram medo em mim, mas a crença involuntária de que existe um outro além deste mundo. Hoje, por exemplo, quando leio uma poesia ou uma história mitológica sou remetido diretamente, sem dificuldades, ao mundo descrito no texto. Imagino realidades fantásticas com muita facilidade. Acredito, assim, que isto seja resultado dos anos mais incríveis da minha infância quando fui iniciado na arte da imaginação.


*Escrito em 2006, para uma pequena biografia que comecei a tecer. Postarei outros capítulos da pequena análise feita por mim.

quinta-feira, outubro 13, 2011

A natureza e a sua voz silenciosa

Hoje pela manhã, enquanto caminhava para o trabalho, observei que uma mudança se perpetrou nos canteiros e jardins de Brasília. Uma mudança suave, branda, quase imperceptível, que aos poucos vai tomando conta de tudo - a revolução persistente da natureza. Há alguns dias atrás, Brasília era uma braseiro no Planalto Central do Brasil. As gramíneas estavam ressecadas. O calor era insurportável, asfixiante. Uma emanação morna e sufocante brotava do asfalto quente. A umidade do ar dava à Capital Federal características de um deserto.

As feições se contraíam. Reclamações engrossavam o caldo de descontentamento dos brasilienses. Tudo seco. A paisagem era feia. A vida havia se escondido. As árvores nuas, muniam-se com a estratégia que a evolução havia dado a elas - perder as folhas, como se estivessem dizendo: "É necessário polpar energia e água". Curioso.

Mas bastou que as primeiras chuvas surgissem para que uma transformação silenciosa acontecesse. De repente, o verde sai da alcova, tímido, sonolento, e se insinua gracioso. Isso me faz lembrar de uma frase de Victor Hugo: "É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a escuta". Assim, como Victor Hugo, eu acredito que a natureza possua uma voz delicada. É uma voz murmurante, quase inaudível, mas que pode ser percebida se prestarmos atenção. Os desastres ambientais e catástrofes naturais que têm se dado a nível mundial, são o resultado da incapacidade do homem de ouvir a natureza.

Não se trata de um pessimismo, mas penso que o erro fatal do homem será continuar com sua gana predadora, desconsiderando todos os gritos, gestos e avisos da natureza. Mas, enquanto ainda posso caminhar, vejo um parto natural sendo gestado e isso enche os meus olhos de alegria.


terça-feira, outubro 11, 2011

Religião – por quê? (parte I)

Percebo que os religiosos de nosso tempo enfrentam um dilema: como conciliar os valores antigos numa sociedade que prima pela pluralidade? Pela exigência da igualdade, seja ela ideológica, no nível das satisfações materiais ou sexuais? Essencialmente, a religião é monocromática. Possui um tom, um cacoete, um modo de dialogar, uma visão a qual o religioso julga o mundo. A partir desses óculos, as cores do mundo se adaptam.

O ser humano ao assumir uma religião, recusa-se a ser de fato aquilo que ele é. A religiosidade é um desvio. Um direcionar dos olhos para os silêncios, trevas e mistérios escondidos na bruma da eternidade. Camus disse certa vez que "o homem é a única criatura que se recusa a ser aquilo que de fato ele é". Ou seja, criar uma religião é desvencilhar-se de um medo. As religiões foram criadas por causa de temores ideais. Talvez medo dos elementos naturais – sol, chuva, ventos fortes, fogo; medo de lidar com a morte, com aquilo que surge (?) depois da vida, medo de supostos espíritos malignos. Ou quem sabe, como a expressão de um desejo – a religião lida necessariamente com um desejo. O crente é um depositário de desejos no “colo de sua divindade”. A divindade é uma espécie de banco, que guarda créditos e investimentos.

A afirmação de Camus trata de uma questão fundamental. Diviso dois entendimentos: (1) Ao não levar em conta
a questão crucial acerca da existência humana, poucas foram as pessoas que lidaram essencialmente consigo mesmas. Se a religião nos afasta daquilo que somos em essência, escusado é afirmar que poucas foram as pessoas que aceitaram ser aquilo que são – e viveram bem com isso. (2) Ao não aceitar ser aquilo que é o homem vive a tentar atingir o horizonte. A religião é uma espécie de caminhada rumo ao horizonte. É sempre um amanhã que nos afasta do hoje, do fundamental, do sólido, do histórico. A religião lida com símbolos ausentes. Com promessas que emulam comportamentos, que potencializam gestos autômatos.

A religião é uma espécie de teia invisível. Nela prendemos nossas aspirações. Vestimo-nos de uma linguagem excessivamente simbólica. O objeto a qual é a matéria abstrata é intangível. Domina-nos com mais eficácia aquilo que não vemos. Esse fato me faz lembrar Nietzsche: “O homem é o único ser capaz de criar e se tornar escravo de sua criação”. Assim, homem é o único ser que se deixa dominar passivamente por aquilo que ele mesmo cria.

A religião se instala na alma humana e atende a uma necessidade de segurança. Se o homem tivesse consciência de sua liberdade, de sua solidão em um universo inamistoso, resultado do acaso natural, possivelmente esse fato o levasse ao desespero. Mas a criação das religiões como um elemento cultural - somente os homens criam culturas e, portanto, religiões – aponta para uma necessidade d
e estabilidade. Cria-se o imaginário para estabilizar o real. A realidade está sedimentada no conflito e no trágico. A imaginação cria atmosferas ideais. É por isso, que a maioria das religiões promete um paraíso, que é a ausência do real, da realidade cortada por eventos contingentes. A religião não aceita aquela propositura de Nietzsche – o dionisíaco e apolíneo, como elementos essenciais da existência. Somos parte de um mundo no qual essas duas possibilidades existem como devir – e isso é o único absoluto.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: segunda-feira, 10 de outubro de 2011, 22:02:46.

sexta-feira, outubro 07, 2011

A genialidade de Fernando Gonsales

Aprendi a admirar o cartunista Fernando Gonsales por causa da criatividade desse artista de nossa terra. Suas tiras são sempre de muito bom gosto e graça. Seus trabalhos têm sido lançados em vários jornais nacionais e em alguns países como, por exemplo, Portugal e a Inglaterra. Dos vários personagens criados por Gonsales, Níquel e Náusea são os mais divertidos. Suas tiras são de um humor nonsense - e, por isso, maravilhosos. Mas é, justamente, em decorrência dessa habilidade, que repousa o valor do trabalho de Fernando Gonsales. Separei, a seguir, algumas tiras interessantes do cartunista.

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domingo, setembro 25, 2011

O homem do futuro e O Cheiro do Ralo – dois filmes em dois dias!

Apesar de andar bastante estafado nestes últimos dias, tive a ventura de assistir a dois filmes nos últimos dois dias. Primeiro, na sexta-feira, assisti à película morna O Homem do Futuro, que tem como protagonista o Wagner Moura. E, ontem, o intrigante O Cheiro do Ralo, que tem como personagem principal - numa atuação absurda de boa - Selton Mello.


(1) O Homem de Futuro - na verdade, a obra do diretor Cláudio Torres me deixou com um misto de sentimentos contraditórios - de aspectos elogiáveis e, outros, críticos. O cinema brasileiro progrediu consideravelmente nos últimos vinte anos. No passado, ia-se ao cinema para se ver a filmes de "sacanagem" e ouvir palavrões. Oscilávamos entre a pornochanchada e o riso nonsense dos filmes de Os Trapalhões; e outros de qualidade inferior. Esse quadro nos levou a ter uma péssima impressão do cinema nacional. O Homem do Futuro é uma obra bem elaborada. Os efeitos especiais não são tacanhos. Nada deixam a dever a Hollywood. A atuação de Wagner Moura é contunden
te. A trama é bem construída. Possui coerência. Possui vários momentos em que se pode dar boas risadas, mas não de piadas baixas, nem rasteiras. O personagem de Wagner Moura (Zero) é construído para gerar empatia com o espectador. Os paradoxos temporais são bem construídos, o que nos leva a constatar a melhora significativa do nosso cinema.


O filme é uma comédia romântica com enxertos de ficção. Enquanto assistia ao filme me lembrei da trilogia De volta para o Futuro, um ícone dos anos oitenta; ou Bill e Ted. Ou seja, da aventura que surge como resultado da teoria científica, do professor maluco e genial que constrói bugigangas capazes de viajar no tempo e mudar aspectos malquistos do passado. E é aí, talvez, que o filme m
ostre o seu lado artificial. Embora a história não seja previsível, eu senti algo quadrado, cheio de arestas, entrando em meu cérebro. Talvez, ainda, essa sensação seja resultado de uma má impressão que tenha adquirido do cinema nacional, algo que está instalado como uma espécie de inconsciente coletivo. Ou seja, de que não temos vocação para fazermos filmes com efeitos especiais; de ficção científica; com um tipo de história que nos leva a um desfecho incomum.


(2) O Cheiro do
Ralo - O filme é baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. Assisti ontem à noite e fiquei impressionado com a qualidade. Fiquei me questionando como esse filme ficou à margem, na obscuridade. A qualidade da história é notável. A fotografia de um mundo suburbano, decadente, foi bem arquitetada. Ela faz jus ao papel de Lourenço (Selton Mello), o dono de um armazém, uma espécie de antiquário com vocação para ferro velho. Nesse local, o personagem trava batalhas psicológicas com as pessoas necessitadas que lá vão vender objetos velhos ou usados. A sua condição faz com que o personagem oprima, controle, dite as regras daqueles que vão lá vender os seus objetos. Mas, o curioso é que, no local onde fica a maior parte do filme, Lourenço passa a ser incomodado pelo cheiro do ralo de um banheiro contíguo à sua sala. Aos indivíduos que lá vão vender os seus objetos a baixos preços, Lourencço diz: "Olhe, esse mau cheiro é do ralo. Estou com um problema no banheiro".


O ralo possui uma relação simbólica com a personagem. Em dado momento da obra um dos visitantes anônimos diz: "Não! Esse cheiro é seu!" E aquilo passa a perturbar a personagem. É curioso que a relação da personagem com o ralo passa a assumir contornos existenciais. A vida marginal, pouco expressiva e decadente de Lourenço possui a fragrância do ralo. Com o tempo, ele passa a necessitar do ralo. Passa a cheirar o ralo como se aquilo fosse uma complementação necessária à sua existência. É como se o cheiro nauseabundo saísse de sua personalidade tacanha e conturbada.


A mente da personagem é complexa. Sua compulsão pela bunda de uma garçonete é curiosa. As pessoas que ele julgava controlar, principalmente, uma dependente química esquelética, levam a história a um desfecho curioso, um fim paradoxal. A última palavra que exprimimos para descrever a experiência proporcionada pela obra é: "Caramba! Que merda!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque


terça-feira, setembro 20, 2011

Britten, um caso de Interlúdio


Tenho uma paixão toda especial por Britten. E estes Four Sea Interludes do compositor inglês é a magestificação de uma beleza diferente. Britten foi um dos maiores compositores de todos os tempos. Sua música soa sempre perfeita e exata. Na dança dos nomes, o inglês sempre fica preterido frente à Stravinsky, Bartok e outros, mas penso que ele se imiscua nesse panteão dos gênios da música de todos os tempos. Abaixo uma palhinha com o André Previne a Filarmônica de Viena.


domingo, setembro 11, 2011

Blade Runner, uma película mórbida, mas intrigante e Nietzsche

Na última semana, assisti ao filme Blade Runner, o caçador de andróides. Trata-se de um filme mórbido. Fazer filmes de ficção é um empreendimento complexo, ainda mais quando se trata de uma obra produzida no início da década de 1980. O filme de Ridley Scott, autor de O Gladiador, 1492 e Cruzada, é maçante. As cenas se passam à noite. A evolução da história é morosa. Na Los Angeles de 2019, nota-se uma fotografia dark, complexa, eivada de caos social. Chove a maior parte do filme. É uma chuva negra, constante, num cenário velho, nauseabundo. A trilha sonora foi realizada por Vangelis. E pode se dizer que a música foi bem pensada. Ela parece ter um gosto plástico, o que causa uma sensação de gastura e mal-estar. Carros voadores dividem o espaço com modelos velhos, ultrapassados. Os comerciantes são orientais - chineses. Talvez, o diretor quisesse apontar o problema, já presente na década de 80, da orientalização da América. Trata-se de um cenário decadentista. A paisagem é opressiva. As mensagens publicitárias garantem vida plena, saúde, prazer, numa atmosfera sufocante, que parece ser o resultado de uma deterioração atômica. E nisso repousa um paradoxo.

Pode-se perceber uma condução distópica na problemática abordada pelo filme. Há uma guerra existencial, de sobrevivência e de descoberta de si mesmo. Deckard (Harrison Ford), o protagonista do filme, trabalha num filão da polícia chamada de blade runners, que tem por finalidade exterminar os “replicantes”, clones ou réplicas “mais que humanas”. Os “replicantes” se revoltam e são tidos como proscritos. A função do policial Deckard é aniquilar estes insurgentes. A questão é que estes “replicantes” vivem, no máximo, 4 anos. Eles envelhecem rapidamente. Mas, querem buscar estender a vida. Buscam resolver essa imperfeição, mas encontram o policial Deckard, que se apaixona por uma “replicante”. De certa forma, ele vive um paradoxo. Busca destruir os “replicantes”, mas está emocionalmente envolvido com alguém de vida breve e que deve morrer.

Penso que o diretor tenha desejado fazer o papel inverso, numa espécie de odisseia, da problemática do humano. Talvez Ridley Scott - e aqui podem falar os entendidos – tenha desejado projetar nos “replicantes” aquilo que é inerente ao humano, ou seja, a busca pelo prolongamento da própria vida. O tempo é um carrasco que aniquila a vida humana. Construímos cenários, tecnologias; buscamos a extensão da vida e nos apegamos com mais força aos recursos que nos são próprios, mas a vida é fugidia. Vivemos numa busca complexa num mundo cada vez mais desfigurado e sufocante. O drama da efemeridade dos “replicantes” é o drama dos próprios humanos. Os “replicantes” são o arquétipo da tragédia humana. Nascemos e vivemos em meio à ruína, ao niilismo e somos conduzidos, mesmo em meio à técnica e às buscas da ciência, ao fatalismo iminente da decadência. Como afirma um dos “replicantes” não basta “pensar para existir”. A vida é mais do que uma lógica retilínea.

Enquanto assistia à obra questionava para qual direção o filme estava sendo conduzido, mas as cenas finais são cheia de significações filosóficas. A cena que mais me pertubou é aquela em que o “replicante” Roy (Rudger Hauer) mata Tyrel, o seu criador. Nessa cena, vemos a própria implosão da metafísica. A criatura matou o criador. Pode-se evocar aquela famosa citação de Nietzsche descrita em “A Gaia Ciência”: “Deus está morto!” Talvez aqui resida uma das principais críticas feitas pelo filme: A falta de sentido do existir humano. A morte da metafísica significa a morte dos valores que sedimentavam a segurança do homem, os valores que estribavam os idealismos.

A película de 1982 é altamente instigante. Para finalizar cito o aforismo # 125 de Nietzsche, que muito bem retrata uma das problemáticas do homem moderno encontradas no filme de Ridley Scott – a criação “matando” o criador:

“Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá , por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele.“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.”

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: Domingo, 11 de setembro de 2011, 23:07:37