“Monika e o Desejo” é um filme de
1953, dirigido por Ingmar Bergman. Entre os filmes bergmanianos já vistos por
mim, este foi aquele que mais diverge das características peculiares
encontradas nas películas do diretor sueco. Em uma leitura ligeira, parece-nos de
que se trata de uma obra preocupada apenas com a hedonística irresponsável da
vida de dois jovens. Todavia, há elementos na obra que apontam a genialidade
destacada de Bergman. A personagem Monika esbanja liberdade, desenvoltura para
lidar com os problemas que a cerca. É decidida. Corajosa. Não leva desaforo
para casa. Seu romance com o jovem e confuso Harry é uma metáfora das relações
jovens e descomprometidas. Após o casamento, a atmosfera de aventura e romance
acaba. Instala-se a melancolia. Após o nascimento do filho, Monika mostra-se
inadaptada e insatisfeita com a maternidade. O final do filme surpreende, pois
coloca em evidência uma crítica aos padrões esperados pela sociedade. Trata-se
de um filme em que Bergman abusou das simbologias. É ver com calma para
entender qual é o desejo de Monika.
“A quem em nossa terra
percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas, ou em via disso,
tolhidas de insanável caquexia, uma verdade, que é desconsolo, ressurte de
tantas ruínas: nosso progresso é nômade e sujeito a paralisias súbitas”.
Monteiro
Lobato, in “Cidades Mortas”.
Ainda não havia entrado em contato
com a prosa de Monteiro Lobato. Havia saboreado de forma superficial, no
máximo, fragmentos do conto “Negrinha”. Lobato é e foi um grande polemista.
Enquanto vivo, conservou uma posição de genuína independência intelectual. Foi
um homem de ação; um sujeito ousado que não tinha medo de assumir posições.
Ainda em nossos dias, existem
polêmicas em torno de seus textos. Algumas de suas afirmações causam
estranhamento para o momento em que vivemos – o tempo do politicamente correto.
Cem anos após a escrita desses textos, a sociedade refletiu sobre determinados
aspectos das relações sociais. É demasiado exagerado, cobrar de um intelectual
como Lobato certas reflexões. Ele era um homem do seu tempo. É preciso ler
essas passagens com certa criticidade, sem condenar a totalidade da obra do
escritor paulista. Há muito o que se aprender com ele. Seus textos além de bem
escritos, pois era dono de um estilo único, inconfundível, estão eivados de elementos
antropológicos da sociedade brasileira da primeira metade do século XX.
Cidades Mortas é uma reunião
de contos escritos nas duas primeiras décadas século XX. Eles compreendem um
período de vinte anos. São narrativas curtas com certo gosto pitoresco. Lobato
é um cronista mordaz da vida interiorana. Como nessa frase que se segue, em que
se percebe os elementos sarcásticos de um narrador atento à vida social: “(...)
o mexerico é a ambrosia dos lugarejos pobres”.
Ao terminar o curso de Direito na
Faculdade do Largo de São Francisco, na capital, volta para o Vale do Paraíba,
de onde era originário. Nasceu em Taubaté. Vai exercer a profissão. Mas, a vida
citadina agitada que experimentara enquanto cursava Direito na capital havia
ficado para trás. O ramerrão da vida do interior é um elemento que se plasma à
sua vida. Para furar o tecido grosso da monotonia, ler e escreve. Em alguns
contos de Cidades Mortas é possível ouvir o carro de boi; o dialeto caipira dos
homens afeitos ao trabalho com a terra; os estalinhos de arrogância das
autoridades pequenas do interior; o silêncio brumoso de uma manhã; sentir o
calçamento de pedra vazio ao meio dia, enquanto o cachorro errante descansa à
sombra de uma palmeira.
Monteiro Lobato
O escritor não se preocupa com
análises psicológicas. Sua matéria de trabalho é o que acontece externamente
com o mundo. Não é sua preocupação os dramas existenciais. Como diz Alfredo
Bosi, “Lobato concentrava-se no retrato físico, na busca dos defeitos do corpo
ou dos aspectos risíveis do temperamento ou do caráter”.Há uma objetividade na forma como descreve.
Lobato escancara o decadentismo dos
proprietários. Os latifúndios exageradamente improdutivos. A técnica
insuficiente para lidar com os problemas da terra. Dessa forma, o escritor
critica a falta de racionalidade estratégica das elites agrárias. Nas “cidades
mortas”, como diz Lobato, “não se conjugam verbos no presente. Tudo é
pretérito”. Vive-se dentro de um tempo que não evolui. “(...) casarões que
lembram ossaturas de megatérios donde carnes, o sangue, a vida, para sempre
refugiram”. Era objetivo do escritor denunciar o provincianismo da aristocracia
rural, que não conseguia se apropriar de novas estratégias, de uma compreensão
que a arrancasse da letargia de “Oblivion”. A condição de mandatário não seria
eterna. Era preciso munir-se de novas técnicas; encher-se de dinamismo.
Como grande positivista e
evolucionista que era, defensor dos avanços das técnicas científicas, Lobato
sabia que a mesmice anêmica das elites nacionais levaria o país à decadência.
Era preciso dinamizar a vida social e produtiva do país. Não era apenas colocar
um fraque, uma cartola, acender um charuto e sentar em um banco do alpendre da
casa-grande como costumavam fazer os coronéis do interior a fim de olhar a
plantação, os escravos, as crianças, mulheres, ou seja, tudo o que lhes pertenciam.
Aquilo sepultaria o país. Conduziria a uma condição de subserviência diante das
modernizações exigidas pela dinâmica do capitalismo que passava por uma grande
transformação no início do século XX. Isso fica provado com a decadência da
República Velha, que era essencialmente cafeicultora. Nesse sentido, Lobato foi
um grande visionário.
Há contos no livro que estão entre
os grandes textos já escritos em língua portuguesa: “Os perturbadores do
silêncio”, “Por que Lopes se casou”, “Júri na roça”, “O luzeiro agrícola”.
“Café! Café!”, “Um homem de consciência”, “Anta que berra”, “Um homem honesto”
e “A nuvem de gafanhotos”.
O livro é importantíssimo. A leitura
é deliciosa. Alguns contos estão repletos de picardia. Lobato escrevia como
profundo conhecedor dos intestinos do Brasil agrário, do Brasil que descansava,
que não se importava com o tempo e, por isso, trazia características de algo
que havia morrido, sem que percebesse.
"Deus é mulher e o seu nome é Petúnia" é um filme macedônio de 2019, dirigido por Teona Strugar Mitevska. Este é o quinto longa da diretora. A Macedônia é um país de história bastante complexa, que remonta à Antiguidade. É a terra de nascimento de Alexandre o Grande. A Macedônia de hoje é um país que conseguiu independência em 1991, junto com outras nações, após o fim da Iugoslávia. É um país que pratica o cristianismo ortodoxo e possui certas tradições como qualquer país. Pois é nesse país longínquo dos Balcãs, que vive Petúnia - formada em história, desempregada, 32 anos de idade, gorda, mulher; segundo a mãe, havia passado da idade de casar.
Certo dia, após voltar de uma malsucedida entrevista de emprego - o entrevistador comete um aliciamento e, em seguida, humilha-a - Petúnia faz algo que foge aos convencionalismos. Todos os anos, um clérigo da Igreja Ortodoxa joga uma cruz do alto de uma ponte. Somente os homens podem pular para pegar o objeto santo. Segundo o costume, quem pegar a cruz terá uma ano afortunado. Desenganada, humilhada pela experiência, Petúnia pula inopinadamente e pega o objeto. O ato de Petúnia se constitui em um sacrilégio. Os homens tentam arrancar a cruz, mas ela consegue escapar. Quando ela menos percebe, todos estão contra ela - a família, a igreja, a polícia (que representa o braço do Estado machista) e a sociedade, pois passa a ser hostilizada, principalmente pelos homens que pularam para pegar a cruz. Um baita filme sobre a condição da mulher numa sociedade patriarcal e como as estruturas e instituições contribuem para manter certas tradições que oprimem.
Terminei a leitura da aclamada biografia sobre Clarice Lispector, escrita pelo laureado estudioso estadunidense Benjamin Moser. O calhamaço com mais de setecentas páginas chegou por aqui nos idos de 2013. Foi um sucesso imediato. Moser fez um trabalho à altura da magnitude da escritora brasileira, nascida na Ucrânia no início da década de 1920. O trabalho apresentou Clarice para o mundo. Em locais onde ela ainda não era conhecida com os encômios devidos, ela gerou, no mínimo, uma curiosidade. Certamente, como aconteceu ao longo da vida da escritora, houve a indagação: quem é essa escritora de nome tão minimalista – Clarice – digna de ganhar uma biografia tão volumosa?
Moser explica que chegou aos textos de Clarice Lispector por um lance inopinado. Era estudante de línguas. Tinha a intenção de estudar uma língua pouco vulgar. Pensou no russo. Mas acabou optando pelo português do Brasil. Como um processo natural de aprofundamento da língua, teve como tarefa a leitura de escritores brasileiros contemporâneos que produziram textos curtos. Entrou em contato com “A hora da estrela”, o último texto escrito por Clarice. Foi uma paixão inconteste no primeiro encontro. Quem era aquela escritora densa, de texto com uma carga epifânica que beirava o atordoamento? É o que ele tenta descrever ao longo de sua deliciosa prosa.
Clarice Lispector nasceu em Tchecenilk, uma pequena cidade da Ucrânia, no dia 10 de dezembro de 1920. Seu nome de nascimento era Chaya Pinkhasovna Lispector. Nascida em uma família judia, os Lispector tiveram que sair do país em decorrência de uma Guerra Civil. Estudaram vários destinos como possibilidade de uma nova morada. Os dois últimos destinos foram os Estados Unidos e o Brasil. Como possuíam parentes já estabelecidos no Brasil, optaram pelo distante e singular país da América do Sul. De forma ainda mais emblemática, foi o estabelecimento em Maceió, uma cidade pequena, de clima peculiar e que não abrigava uma comunidade judaica. Os parentes ali estabelecidos haviam chegado anos antes e haviam conseguido se estabelecer junto ao comércio. Na ocasião da chegada, Clarice tinha apenas dois anos de vida.
A família de Clarice acabou indo, após algumas dificuldades na capital alagoana, para uma das mais importantes econômica, política e culturalmente capitais nordestinas, o Recife. A família ficou ali por praticamente dez anos. Moraram no bairro da Boa Vista, que possuía uma sólida comunidade judaica. Ali as irmãs Clarice, Tânia e Elisa viveram anos tranquilos. Clarice era a mais nova das três irmãs. Moser registra que, mais tarde, Clarice foi interpelada sobre a sua nacionalidade. Ela afirmou sem embaraços que era brasileira e pernambucana. Nutria uma grande admiração pelo estado nordestino onde passara boa parte de sua adolescência. Gostava da culinária, do sotaque característico, do clima da cidade; do caldo cultural tão próprio da capital pernambucana. Alguns dos seus contos são ambientados em Recife; algumas de suas memórias afetivas estavam carregadas pelos acontecimentos nos dez anos em que viveu no bairro da Boa Vista. Na capital pernambucana foi alfabetizada. Iniciou as primeiras leituras. Encontrou-se com os russos; com Herman Hesse, cuja livro “O lobo da estepe” foi tão significativo.
Benjamin Moser
Mais tarde, muda-se para o Rio de Janeiro com o pai e as irmãs. No Rio, notam-se os eventos que foram fundamentais para a formação profissional e o pleno amadurecimento da carreira de escritora. Quando morou no Recife, Clarice já escrevera algumas singelas histórias. Envia-as para o jornal Diário de Pernambuco. Todavia, os seus textos nunca foram escolhidos. A preterição ocorria com frequência. Ela mesma explicou aquilo talvez tenha ocorrido por causa do intimismo dos textos que escrevia. As pessoas estavam acostumadas a lerem coisas do tipo: “Era uma vez...”. Seus textos não traziam nada dessa marca previsível.
Muda-se com a família de Recife para a Capital do país, o Rio de Janeiro. Iniciou o curso de Direito na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. E ao concluir o curso, escreve “Perto do Coração Selvagem”, que causou uma sensação enorme. Acabou por chamar atenção de críticos e intelectuais. À época, ela tinha pouco mais de vinte anos. Quem seria aquela mulher com sobrenome estranho? Seria um pseudônimo, alguém que buscava permanecer anônimo? Afinal, quem era a dona daquele texto tão impregnado de psicologismo; de uma estar consigo? Quem era aquela mulher que não ligava para as paisagens externas, que tinha como material para os seus romances as “estepes” interiores?
Procurou conciliar o Direito com a prática do jornalismo. Publica alguns contos. A produção desse material ajuda-lhe a consolidar o manejo do gênero o qual dominou com grande maestria. Ao lado de Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Graciliano Ramos, Osman Lins entre outros nomes, Clarice se estabeleceu como uma das mais importantes contistas da literatura brasileira.
Por essa época, entra em contato com Lúcio Cardoso, um dândi, um boêmio, um intelectual inquieto, por quem ela se apaixona. Ela veio, mais tarde, a descobrir que Lúcio era homossexual. Havia uma impossibilidade de levar à frente um relacionamento com Lúcio. Ao longo de sua vida, pelo que se sabe, Clarice envolveu-se emocionalmente somente com três homens – Lúcio Cardoso, Mauri (pai dos seus filhos) e Paulo Mendes Campos.
Mais tarde se casaria com Mauri. O relacionamento consolidou-se enquanto ela ainda cursava Direito. Mauri passou em um concurso para o Itamarati. Foi por conta disso, que Clarice morou por alguns anos fora do Brasil – Itália, Suíça, Estados Unidos.
Enquanto estava morando na Suíça, Clarice ganhou primeiro filho. Escreveu seu segundo romance – “O Lustre”. A escritora era uma jovem recém-entrada na casa dos vinte anos. Uma das marcas que mais incutiram força em Clarice, foi a solidão e a saudade do Brasil. Apesar dos amigos, apesar das oportunidades de conviver com eventos diferentes, Clarice era povoada por grande inquietação. Aliás, esta foi uma característica que a perseguiu por todos os anos de sua vida.
Essa inquietação foi responsável pelo questionamento sobre as condições do seu casamento. Estar casada – e longe do Brasil – gestava questionamentos. Nesse sentido, Clarice oscilava em reflexões à semelhança de Joana, personagem central do seu romance de estreia, “Perto do coração selvagem”. A escritora escavava suas emoções; fazia perquirições sobre suas intenções mais íntimas. Por fim, decidiu voltar para o Brasil com os filhos. Mauri ficou nos Estados Unidos. Ele, ainda apaixonado; buscando reatar o relacionamento. Ela, esquiva. Tentaram uma última vez a aproximação, mas não foi possível. Clarice era imensa, possuía sentimentos indefiníveis e incógnitos. Novamente, pode-se evocar a célebre frase da personagem de “Perto do coração selvagem”: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. O inominável sempre foi o desejo das personagens criadas pela escritora. A vida de Clarice também foi repleta por uma tentativa de entender o indefinível.
Clarice Lispector.
De acordo com os depoimentos de Moser, Clarice era uma mulher que despertava paixão à primeira vista. Fisicamente ela era bastante atraente. Dos seus olhos emanava uma energia envolvente, misteriosa, capaz de criar uma funda impressão em quem, por muito tempo, ficasse próximo a ela. Sua voz possuía um sotaque carregado. Mas este não era resultado da dificuldade de pronunciar os verbetes da língua portuguesa. Ela viera, afinal, para cá, com dois anos. Fora alfabetizada em português. Tratava-se de uma anomalia que ela possuía na língua – e que poderia ser resolvida com uma cirurgia – mas que ela se negou a fazer.
Ao longo de sua vida, Clarice construiu amizades que duraram a vida toda. Mencionam-se, por exemplo, a íntima correspondência que estabeleceu com Fernando Sabino. A amizade construída com Érico Veríssimo, principalmente, com Mafalda, esposa de Érico. E, nos anos finais, com Olga Borelli, que organizou o seu espólio e foi fundamental como amiga e companheira.
A grande questão que se sobressai sobre Clarice é que ala foi uma mulher inquieta, dona de uma alma selvagem; de uma vontade indômita. Sua literatura é fruto de sua personalidade misteriosa e inquieta. À medida que a biografia avança, chegando aos anos finais da vida da escritora, nota-se o quanto ela se tornou uma mulher depressiva e excessivamente pessimista. Ou, talvez, aquilo representasse uma forma de estar consigo.
Na famosa entrevista que concedeu Júlio Lerner, no ano em que morreu, 1977, fica claro o quanto ela se tornara excessivamente dura – com a vida e com ela mesma. O entrevistador pergunta por quem ela sentia raiva. Ela responde indefectivelmente: “Comigo mesma!” Ele vai mais a fundo e questiona: “Por que Clarice?” Ela responde meio displicente: “Sei lá... eu tô meio cansada”. Júlio estica a pergunta um pouco mais: “De quê, Clarice!” Ela volta à carga: “De mim!” É um pebolim existencial. Num último questionamento, que buscava conciliar a inspiração da escritora com a própria vida, Júlio pergunta: “Mas você não nasce e se renova a cada trabalho novo?” Clarice responde de forma enigmática: “Bom... agora eu morri. Vamos ver se eu renasço de novo; por enquanto, eu estou morta. Estou falando do meu túmulo”. Uma pessoa que se revela de forma tão pungente, não poderia escrever outra coisa senão aquilo - e do modo - que ela escreveu.
A impressão que transmite é de uma pessoa que alcançara os cumes da amargura. Em outro momento da entrevista, ela diz que era uma pessoa “alegre”. Se deixava entrever, naquele momento, uma postura negativa era pelo fato de estar cansada. Talvez, como diz Olga Borelli em uma entrevista, fosse o resultado da doença que a mataria – o câncer nos ovários.
O livro de Moser é excelente. O texto possui clareza jornalística. Não enfada. Há uma excelente contextualização histórica. O escritor procura conciliar os dados biográficos da vida de Clarice, mas relaciona os fatos históricos com a habilidade incomum de um bom pesquisador.
Abaixo, a última entrevista concedida pela escritora.
“A vida, novamente nos velhos, é um ofício cansativo”. Machado de Assis, in “Memorial de Aires”.
Escrevendo a Joaquim Nabuco,
Machado de Assis, no último ano de sua vida, refere-se ao “Memorial de Aires”
como sendo o seu “último livro”; além disso, assevera que o escrito era “fraco
e enfermo”. Enxergamos nisso mais do que é afirmado. Era o ano de 1908. Machado
perdera sua doce e fiel companheira no ano de 1904. Viveria quatro anos como
viúvo de Carolina. Os amigos preenchiam os nacos enormes de sua personalidade.
Não tivera filhos. Não transmitira a ninguém “o legado de sua miséria”.
Machado viveu 69 anos. Nasceu em
1839, em um arrabalde da Capital Federal. Parecia destinado ao anonimato como
os tantos mulatos que lutam pela existência diariamente em um país repleto de
contradições como é o Brasil. Mulato. Epilético. Obrigado a fazer pequenos
trabalhos. Forçado a colocar em prática os arranjos, os malabarismos que
permitem a vida do povo pobre a vencer os obstáculos. Desde cedo, aprendeu a
estimar o valor das palavras. A carpir o valor enorme de cada uma delas no
terreno agreste da realidade. Cedo torna-se jornalista. Aprende observando. Não
desperdiça as oportunidades. Ler muito. Aquilo que absorve transforma-se em sua
interioridade. O primeiro romance sai quando ele completa 32 anos de idade.
Antes já excursionara no conto, gênero este que dominou como poucos, e na
poesia. Com o “Memorial de Aires” foram nove romances ao todo.
Os quatro primeiros podem ser
colocados na fase experimentalista. São romances de formação. Possuem uma
perspectiva romântica. A partir do quinto (“Memórias Póstumas”) brotam obras de
um rigor impressionante. Aqui brota o mestre. O narrador sarcástico,
onisciente, zombeteiro, crítico capaz de revelar e engenho da alma humana. Esse
perfil segue o genial escritor até o seu último escrito, justamente o
“Memorial”.
Memorial é aquilo que faz
referência à memória, à lembrança, a eventos já acontecidos; ou pode está
ligado a um monumento que se ergue em homenagem a pessoas ou a um assunto. A
palavra é polissêmica. Ao denominar “Memorial de Aires”, Machado tinha essa
noção. Ele sempre disse mais do que aquilo que está repousado na superfície de
cada palavra.
O texto que Machado diz que é
“fraco e enfermo” é o resultado de anotações do conselheiro Aires. A personagem
regressara da Europa, de onde vinha aposentado do cargo de diplomata. As
anotações que faz em forma de diário fazem jus à sua antiga profissão. Não são
irônicas, zombeteiros; não se utilizam da “galhofa”. O narrador foge das
polêmicas sociais. Não está à cata de fenômenos faustosos. Observa com o
estoicismo daqueles que chegaram à terceira idade. Centraliza a sua atenção na
viúva Fidélia, um nome incomum, retirado da única ópera escrita por Beethoven.
Machado sabia como ninguém provocar esses lances cômicos, repletos de um humor
inteligente.
O outro personagem do livro é
Tristão, um nome retirado de uma famosa lenda europeia; também personagem de
uma ópera de Richard Wagner. O escritor já havia feito isso com “Esaú e Jacó”,
outra obra repleta de polissemias.
O interesse da personagem Aires
por Fidélia surge de uma brincadeira do conselheiro com a irmã Rita. Ele
observa o comportamento da então viúva Fidélia. Parece desinteressado.
Demonstra uma mornidão repleta de recatos. Mas, é justamente a contínua
insistência em acompanhar o que ocorre com a viúva que denuncia uma
contradição.
A fachada de curiosidade
imparcial não se sustenta. Ao acompanhar o desenlace entre Fidélia e o jovem
Tristão, Aires fala mais de si. Machado nessa situação revela uma das suas
características – que é de ser um extraordinário estudioso da natureza humana.
É sempre um grandioso prazer ler Machado de
Assis; uma oportunidade enorme de aprendizado. Seguimos com as nossas leituras
de literatura brasileira. Seguiremos com “Cidades Mortas”, de Monteiro Lobato.
Propus-me a ler o livro de Jó,
uma das obras magnânimas do Judaísmo e do Cristianismo. Pretendo ler um
capítulo por dia. Jó é um livro bastante emblemático, pois possui uma teologia
suscitadora de possibilidades interpretativas que chega ao terreno do mito. É
inegável a sua magnificente estrutura poética. Já o li algumas vezes. Sempre
ficou aquela sensação de que há, no livro, uma intenção sapiencial e moral em
seu autor. Não se sabe ao certo quem é o seu autor.
Outro fato bastante curioso
sobre o livro é a historicidade do seu personagem principal. Quem é Jó? O livro
começa situando os leitores geograficamente: “Havia na terra de Hus um homem
chamado Jó” (Jó 1.1)[1]
.É uma forma de posicionar o leitor
para a história que vai começar. É muito parecido com “Era uma vez,...”, das
histórias extraordinárias.
A personagem é apresentada e, de
início, já se diz que ele é “um homem íntegro e reto, que temia a Deus e se
afastava do mal”. A introdução procura estabelecer duas características para a
personagem: (1) uma preocupação moral; e (2) uma preocupação religiosa.
No segundo versículo, os dez
filhos de Jó são apresentados. E, somente em quarto lugar, aparece a fortuna da
personagem. Não se fala nada a respeito, mas, nota-se que os anos se passam. Jó
reúne a família. Há festas, banquetes, congraçamentos.Um espírito de fraternidade e amor parece
existir entre os irmãos. Mesmo com todas essas situações, Jó é escrupuloso ao
ponto de oferecer sacrifícios ao seu deus (Jó 1.5).
A partir do versículo 6, há um
deslocamento no texto. Assemelha-se a um efeito cinematográfico. “Os Filhos de
Deus”, em certo dia, vieram se apresentar a Iahweh. Quem eram esses “Filhos de
Deus”? Seriam deuses? Arcanjos? Entidades miríficas que habitam a eternidade? A
imagem deixa a entender de que se trata de um panteão. Vale ressaltar que os
povos vizinhos de Israel eram politeístas. Ou seja, acreditavam em vários
deuses. Do ponto de vista histórico, acredita-se que os judeus absorveram muito
da mitologia cananeia. Inclusive, há o entendimento por parte de alguns
historiadores, que o próprio Yaweh tenha sido incorporado da mitologia dos
cananeus.
Outro aspecto curioso a respeito
dessa narrativa é que entre esses “seres especiais”, apareceu “Satanás”.
Observa-se, nesse sentido, que “Satanás” ainda não possui os atributos
diabólicos que assume no Novo Testamento. Ainda não é o “Baal Zebuf” (“o senhor
das moscas”). Ou seja, aquele que habita o mundo escuro. Questionado por Yaweh a
respeito do que fazia, ele responde: “Venho de dar uma volta na terra, andando
a esmo”. É como se vivesse de forma desgarrada dos demais seres eternos. Nessa
separação, ele “espreita” a criação. É responsável pela fermentação de
antagonismos.
Iahweh parece provocar a
criatura que acabara de chegar: “Reparaste no meu servo Jó? Na terra não há outro
igual: é um homem íntegro e reto, que teme a Deus e se afasta do mal”. (Jó
1.8). Nota-se nesse sentido, que a observação em tom de arrogância provocativa
vem do próprio Iahweh. Satanás retruca, afirmando que era muito fácil para Jó
possuir todos aqueles atributos. Ele era protegido. “Porventura não levantaste
um muro de proteção ao redor dele, de sua casa e de todos os seus bens?”. (Jó
1.10).
O que mais impressiona nesse
fato é que, a partir dali, inicia-se uma espécie de aposta meta-histórica. Algo
que acontece numa dimensão imiscível, mas que passa a ter efeitos no mundo
material. Iahweh autoriza que Satanás inicie um processo de teste extremo à
fidelidade de Jó. “Pois bem, tudo o que ele possui está em teu poder, mas não
estendas tua mão contra ele”. (Jó 1.12). Diz o texto que “Satanás saiu da
presença de Iahweh”.
Fenômenos terríveis começam a
ocorrer com Jó. As suas posses são aniquiladas. Os seus filhos são assassinados
ou mortos em desastres naturais. Mas, vale lembrar, que a manipulação dos
elementos naturais, estava sendo realizada por Satanás. A consequência desses
eventos é a miséria suprema de Jó. O ato de Jó foi ‘rasgar o manto’; ‘rapou a
cabeça’; ‘caiu por terra’; ‘inclinou-se para o chão’. São gestos que atestam o
não conformismo, mas, ao mesmo tempo, uma humildade, uma aceitação
inquestionável. O capítulo 1 finaliza com a sentença objetiva: “Apesar de tudo
isso, Jó não cometeu pecado nem protestou contra Deus”.
Nota-se nesse primeiro capítulo
de Jó, pelo menos, duas perspectivas:
(1)O destino e a sorte dos homens são decididos,
muitas vezes, em “jogos” ou “apostas” meta-históricas. Iahweh parece ignorar
todos os sofrimentos que seriam experimentados por Jó. Há um claro equívoco na
perspectiva da bondade divina. A fidelidade como fica evidenciada nos
versículos iniciais do livro, não é uma garantia de proteção e zelo divino. A
principal preocupação de Iahweh é provar uma tese: a de que ele era temido por
Jó, independentemente da situação. Ou seja, muitos dos eventos trágicos –
enfermidades, acidentes variados, casos inexplicáveis – podem indicar a
presença de um jogo. Isso do ponto de vista das leis naturais é absurdo. Há
ainda uma clara falta de lógica no que tange ao controle dos fenômenos.
(2)A estrutura do texto possui claros elementos
mitológicos. Assemelha-se às narrativas dos povos vizinhos a Israel. Afinal, a
noção de seres eternos que reúnem para decidir o destino dos homens possui
fortes relações com a mitologia grega, por exemplo. A intriga entre os desejos
divinos, os caprichos que acometem os deuses, estão presentes na narrativa.
Seres eternos estão preocupados com aquilo que os homens fazem ou deixam de
fazer. Sentimentos humanos são direcionados a seres tidos como perfeitos. Essa
personificação é comum em histórias de contos maravilhosos. Para aquele que
crer, que aceita irrefletidamente os elementos do texto sem notar esses
arranjos discrepantes, acomodam-se com facilidade esses eventos da narrativa.
Vamos ao capítulo 2.
[1] Na
leitura, estou usando a excelente tradução da Bíblia de Jerusalém.
“Ir pensando em coisas cada vez mais distantes: a rua, a cidade, a estrada, o país, o mundo, o espaço, a eternidade...” Cecília Meireles in “Escolha o seu sonho”, p. 95.
Em meu processo de leitor amador e incipiente, sempre que imagino a poetisa Cecília Meireles, me vem à mente uma delicada imagem de uma fada a fazer arranjos suaves com as palavras. Mas, deixemos de lado essa construção banal e piegas. Essa impressão ganhou contornos mais sólidos, pois terminei a leitura de um dos textos da autora do “Romanceiro da Inconfidência”.
A leitura realizada não é de uma das dezenas de livros poéticos que escreveu. Trata-se de uma compilação de crônicas escritas sobre os mais variados assuntos, denominado apropriadamente de “Escolha o seu sonho”. “Sonho” é uma palavra com poderes intrínsecos nos textos de Cecília. Considerada uma das grandes poetisas da Língua Portuguesa, a escritora carioca recebeu inúmeros prêmios nos países os quais visitou.
Cecília é considerada uma autora modernista. Todavia, o seu modernismo não se preocupa com os jogos herméticos de sintaxe; com a manipulação de estruturas vernáculas para criar efeitos mirabolantes de linguagem, como característico em certos escritores modernistas. Não. O texto de Clarice é límpido como um riacho alpino. É singelo. É claro. Seus textos são considerados, do ponto de vista do enquadramento técnico, como neossimbolistas. Clarice transcende a realidade com poucas imagens. De repente, mergulhamos em um sonho e nos vemos desnudos diante de um espelho, abraçados pelas delicadezas e sublimidades da Via-Láctea. Quase sempre somos impelidos à contemplação; a eflúvios brandos; com a textura de nuvens brancas, brandas, macias.
“Escolha o seu sonho”, mesmo sendo um conjunto de textos em prosa, não deixa passar desapercebido essa delicadeza repleta de simplicidade da escritora. Os textos curtos partem de situações banais do dia a dia e que, de repente, são transcendidas por uma linguagem singela como uma pincelada certeira que colore um quadro. Quando menos se percebe somos impelidos a uma paisagem que se descola do corriqueiro. O olhar privilegiado e sensível de Cecília é capaz de transformar qualquer fato cotidiano em uma joia para uma reflexão irresistível.
O livro reúne 45 crônicas. Busquei ler uma por dia; às vezes, duas ou três. A ideia era refletir, meditar, ruminar as ideias expressas em cada texto. Apesar de serem textos simples, são densos de conteúdo. Como por exemplo, a crônica que descreve uma ida à feira numa tarde de sábado. Ou ainda, sobre quando a escritora se encontrou com nobelino escritor americano William Faulkner. O texto límpido como um regato, o qual conseguimos enxergar o fundo, deixou-me impressionado. Li-o duas vezes seguidas para me deixar encharcar pela sua prosa superior. Em certo momento do texto ela diz, referindo-se às falas enunciadas por Faulkner: “Foi um breve discurso em que afirmava a fé no espírito humano. Sua voz ainda parecia mais desaparecida ao estrugir dos aplausos. Lera, com simplicidade, pareceu-me que sem nenhuma ênfase. Pareceu-me que até com displicência. Mas o que dissera tinha eternidade” (destaque intencional). p. 56
Em suas deliciosas crônicas como se fosse uma manhã ensolarada, de vento fresco e céu azul, Cecília foge dos hermetismos. Ela possui uma fórmula capaz de transformar qualquer coisa em sagrado. Impressiona o quanto ela conseguia descomplicar o mundo. Parecia possuir uma chave que escancarava uma realidade elevada, alta, sem as peias do medíocre, do afetado, do banal.
Como o mundo precisa da singeleza, da delicadeza e da simplicidade do texto ceciliano!
Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa ideia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima ideia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença.
Mês passado, o extraordinário
Alfredo Bosi faleceu, vitimado pela Covid-19. Uma perda verdadeiramente
inestimável para a inteligência brasileira. Muitas homenagens ao seu legado
foram direcionadas honesta e devidamente. Procurei no Youtube algumas de suas
palestras. Pus-me a escutar uma em particular, feita (penso) em 2015, na
Academia Brasileira de Letras – vale ressaltar que Bosi fazia parte do corpo de
imortais da instituição fundada por Machado de Assis.
A palestra tratava sobre o
conceito de cultura e seus desdobramentos. O próprio Bosi diz na palestra que o
conceito de cultura é complexo e carece de enormes esforços reflexivos. E, ao
longo de sua fala, buscava conciliar a reflexão sobre o conceito de cultura com
experiências e histórias vividas, o que tornava a sua fala irresistível. Bosi
utilizava eventos aparentemente banais e os transformava em uma reflexão
poderosa. Em dado momento, ele disse algo que me deixou em suspensão. Evocando
o filósofo e educador estadunidense John Dewey, o autor de “A história concisa
da literatura brasileira” fala em “ideias inertes”.
Ele explica que a expressão era
extraída do pensamento de Dewey, um dos nomes mais importantes da filosofia dos
Estados Unidos. Dewey é considerado como um dos fundadores da corrente pragmatista
de filosofia ao lado de William James, Charles Sanders Peirce e Josiah Royce.
Para o pragmatismo uma ideia é boa, portanto, aproveitável, quando o conjunto
dos seus desdobramentos resulta em algo prático.
Com sua maneira muito singela, mas com grande vitalidade e erudição, Bosi
fala sobre as ideias que podem morar no campo da abstração e, portanto, do alto
idealismo, mas que nunca se transformam em substância prática. Coloquei-me a
pensar sobre essa questão – “ideias inertes” – e perceber o quanto a sociedade
e a nossa própria vida podem estar encharcadas por ideias estagnadas. Um
exemplo é a quantidade de leis existentes no nosso país. Somente as federais
são mais de quatorze mil, sem mencionar as estaduais e municipais. Essas leis
são abstrações, são fossilizações ideais. Existem apenas como um regulamento
ideal. Enquanto não se transformam em prática; enquanto não são se tornam em
eventos práticos, são meras ideias que pouco servem. Estão “inertes” em sua
inamovibilidade. E o que mais testemunhamos é o desrespeito a essas normas. Uma
sociedade que faz leis, mas não as segue, verdadeiramente, considera esse
conjunto normativo como “ideias inertes”.
Do mesmo modo, há aqueles sujeitos que se cercam de “ideias inertes”; de
sonhos inertes, que não se tornam em movimento. Importante dizer que existem
ideias que são como o vento: elas são intangíveis. O que seria do mundo se não
existissem as ideias intangíveis? Seríamos homens e mulheres apoéticos. Nós
humanos temos uma necessidade de abstrair. A literatura e a arte em geral são
campos das ideias e abstrações. Acredito que não era sobre esse tipo de
abstração à qual Dewey estava se referindo.
Penso que Bosi ao evocar Dewey queria justamente chamar a atenção para o
fato de que é preciso tornar concreto aquilo que se pensa. Sair do mundo dos
pensamentos que não se encaminham para a vida. Abandonar as resoluções estéreis,
aquelas que pouco contribuem com a história. Neste sentido é importante pensar
em João Cabral de Melo Neto e seu fabuloso poema “A Educação pela pedra”. Diz
ele que é importante experimentar da pedra “sua carnadura concreta”. Sim! É
importante experimentar a “carnadura concreta” da vida. Sentir a sua
resistência! Seu bafo quente! Seu arrojo, seu movimento. “Captar a sua voz
inenfática, impessoal”, ainda citando o poema de João Cabral de Melo Neto.
O que é “inerte” não muda, não transforma, não exaspera, não comove o
mundo.
Existem compositores que
são cerebrais. É o caso, por exemplo, da música de Prokofiev; ou de Schoenberg.
Escutou-os sabendo o que vou encontrar. É como se eles dissessem: “Nós não
estamos aqui para que você sinta; tudo aqui é seguro e milimetricamente
contado”. Todavia, há outros compositores que tocam as cordas das emoções.
Visito-os e, de imediato, já sou colocado numa planície com horizontes
misteriosos.
Sou acometido por essas
ideias após escutar o Concerto para piano em sol, do compositor francês Maurice
Ravel. Ravel é um dos compositores de que mais gosto. Nascido em 1875 e morto
em 1937, Ravel é um dos compositores mais singulares e importantes da primeira
metade do século XX, ao lado de Debussy, de quem herdou o lugar no rol de relevância
da música francesa. Vale mencionar ainda a morte de Gabriel Fauré em 1924.
Debussy morrera em 1918.
Olhando do ponto de vista
da produção, nota-se que Ravel não possui uma obra numerosa. Era muito
frequente, demorar de um a dois anos para terminar uma obra. Sua produção vai
até o ano de 1933, quando passou a enfrentar graves problemas de saúde decorrentes de um
acidente automobilístico.
O compositor escreveu
dois concertos para piano. O primeiro deles é o Concerto para mão esquerda,
escrito nos anos de 1929 e 1930. E, logo em seguida, encontramos o Concerto
para piano em Sol, cuja escrita começou em 1929, mas que foi concluída mesmo em
1932. Ou seja, é uma das suas últimas obras. Trata-se de uma das mais bonitas
obras para piano já escritas. Aliás, o Concerto para mão esquerda também pode
ser colocado nessa categoria. De maneira mais extensiva, podemos afirmar que
tudo o que Ravel escreveu possui um lugar especial na história da criação
artística.
Em 1928, Ravel
excursionou pelos Estados Unidos. Ficou impressionado com então efervescente
movimento jazzístico que eclodia com muita força naquele país. Essa influência
pode ser encontrada no Concerto em Sol. Outra referência é à música espanhola.
O Concerto para piano em
Sol possui três momentos. O primeiro movimento possui aquela orquestração
perfeitamente construída, misturado aos elementos do jazz e da escola
espanhola. O terceiro movimento retoma o tema trabalhado no primeiro movimento,
tirando-nosdo sonho existente no
segundo movimento. No terceiro movimento notamos a energia sem freios,
estimulada pelos gritos resfolegantes do clarinete e do flautim. O trombone
solta urros fanhos e é contrastado pelos floreios de uma pequena fanfarra.
Todavia, o que me chama a
atenção nesse concerto é o segundo movimento. É um tipo de música para morrer e
viver. É uma das músicas mais belas já produzidas no seio grávido de
possibilidades do universo. Nele encontramos a alegria da vida, mas, também,
vislumbramos as dores da morte. O compositor afirmou certa vez que, para escrever
o segundo movimento, inspirou-se no Larghetto (segundo movimento) do Quinteto
para clarinete, de Mozart. Escutei há pouco o aludido movimento e pude
concordar com Ravel. Há beleza excesso nesse fragmento da música do compositor
austríaco.
O inquestionável cenário
de sonho do segundo movimento da obra de Ravel, revelam uma poética delicada. Somos
conduzidos pela mão; impelidos ternamente por momentos doces. Tudo parece
suspenso. Sentimo-nos nobres, exultantes e a vida e a realidade deixam de lado
sua face incognoscível.Os elementos
complexos e nós herméticos que custamos a administrar se tornam rarefeitos. É
uma visão do paraíso; das inomináveis visões de um sonho cristalino e
iluminado. Quanta beleza colocada em nove minutos de música. Aliás, a existência
inteira colocada no idílio sensível do piano.