quarta-feira, agosto 27, 2014

Marina, Collor, o discurso de 'uma nova política" e a conjuntura

O vídeo abaixo é emblemático. Veja-o antes de continuar (se for do seu interesse). No bojo de seu discurso, há uma ressonância, uma aproximação com o discurso da candidata Marina Silva. Em 1989, em certo momento da disputa eleitoral, fortalecido pelo apoio midiático (leia-se Rede Globo), Collor dizia que não havia nem esquerda nem direita. Sua forma de fazer política era nova e mudaria necessariamente o país. Traria o progresso. Colocaria o Brasil em patamares novos. Enxugaria a máquina administrativa, iniciando um processo de doutrinarização neoliberal. Criaria empregos, construiria um país mais digno e solidário. Um discurso verdadeiramente leniente a determinados setores. A classe média comprou a ideia, pois via em Lula, ou seja, na possibilidade de contradição, um resultado nefasto. O conservadorismo, o moralismo, o reacionarismo, a incapacidade de pensar dialeticamente, levou o Brasil a enfrentar um dos momentos mais críticos de sua história recente. Não sei se sou o único, mas visualizo este mesmo discurso, esta mesma conjuntura impregnada na pretensa humildade de Marina Silva. Política no Brasil é feita, acima de tudo, com "marketing".
O discurso fragmentário de determinadas figuras ilude os eleitores. O "sistema de perito", conceito de Anthony Giddens, cria uma pretensão de legitimidade na fala de determinados sujeitos, sem que avaliemos os resultados de tal discurso. Marina Silva se aproveita de um momento iniciado o ano passado, nas manifestações de junho, aquele movimento inorgânico que desejava a extinção da política; em que muita gente tomou paulada por estar com "uma camisa vermelha", mostra o quanto os brasileiros não entenderam ainda que "política se faz com mais política". Aqueles que foram às ruas, possivelmente, sejam os que, hoje, elegem a Marina. São os descontentes, que embarcaram numa aventura. A tentativa de eliminação do conceito de política é um grande equívoco. Mesmo quando digo que não gosto de política, este já é um comportamento político. A política é uma relação com o poder. Ela pervade a vida social dos homens. Desprezar a política é desprezar uma dimensão inerente ao ser humano.

Herbert José de Souza, o Betinho, como era mais conhecido, escreveu um livrinho importante chamado "Como se faz uma análise de conjuntura" (Editora Vozes, 26a. edição, 2005). Ele diz que para se fazer uma análise de conjuntura são necessárias algumas categorias: "Acontecimentos, cenários, atores, relação de forças e articulação (relação) entre estrutura e conjuntura".

(1) Acontecimentos - é importante se distinguir fato de acontecimento. Fato é aquilo que se dá de forma banal. Por exemplo, o beijo de uma casal pode ser um fato comum, mas o beijo de Judas foi um acontecimento, pois teve consequências políticas. Na análise de conjuntura é importante distinguir os acontecimentos, conquanto são eles que determinam os efeitos e consequências sobre a vida de milhões de pessoas. A importância da análise dos acontecimentos é fundamental para indicar a percepção que uma sociedade ou grupo social, ou classe tem da realidade e si mesmos.

(2) Cenários - a trama social acontece em determinado contexto, em determinados espaços, que podem ser considerados como cenários. Identificar cenário é importante para perceber onde se trava a luta. Quando um determinado governo ou grupo consegue esfacelar um movimento contrário, mudando o cenário do embate, certamente ele levará vantagens sobre o movimento. Quando o governo desloca o conflito das ruas para o gabinete ele, inevitavelmente, levará vantagem, pois mudou o cenário e, ali, é o seu local estratégico de ação.

(3) Atores - o ator é alguém que representa, que encarna um papel dentro de uma trama. Um determinado indivíduo será um ator quando ele representara algo para a sociedade. Ele encarna um projeto, uma ideia, uma reivindicação, uma promessa. Um partido político, uma classe social, uma categoria, um sindicato, uma corporação, pode ser um ator social.

(4) Relação de forças - há um tensionamento constante na sociedade em decorrência do jogo de interesse de uma classe social, de um grupo diferente. Essas relações podem ser de coexistência, de cooperação, de confronto e estarão sempre revelando uma relação de força, de domínio, de igualdade ou subordinação.

(5) Relação entre estrutura e conjuntura - "A questão aqui é que acontecimentos, a ação desenvolvida pelos atores sociais, gerando uma situação, definindo uma conjuntura, não se dão no vazio: eles têm relação com a história, com o passado, com as relações sociais, econômicas e políticas estabelecidas ao longo de um processo mais longo. Uma greve geral que marca uma conjuntura é um acontecimento novo que pode provocar mudanças mais profundas, mas ela não cai do céu, ela é o resultado de um processo mais longo e está situada numa determinada estrutura industrial que define suas características básicas, seus alcances e seus limites. Um quadro de seca no Nordeste pode marcar uma conjuntura social grave, mas ela deve ser relacionada com a estrutura fundiária que, de alguma maneira, interfere na forma como a seca atinge as populações, a quem atinge e como". Por exemplo, a falta de água em São Paulo não é um problema apenas de falta de chuva. Está relacionada com a ausência de investimentos. Ou seja, a conjuntura está posta e pode ser entendida a partir da relação dos acontecimentos, dos atores e das forças. Betinho ainda diz: " É fundamental perceber o conjunto de forças e problemas que estão por detrás dos acontecimentos. Tão importante quanto apreender o sentido de um acontecimento é perceber quais as forças, os movimentos, as contradições, as condições que o geraram".

Assim, a história é feita por um fluxo em que as coisas objetivas refletem sobre as subjetivas. Esse novo jeito de fazer política da Marina é, no fundo, um discurso que serve politicamente a determinados grupos. Muitos daqueles que vão votar nela estão sendo induzidos por um movimento criado para "destituir", para alijar, para "derrubar o PT" custe o que custar. Perguntar com honestidade o porquê desse comportamento induzido, levará o oponente inevitavelmente a dizer (o discurso é de reificação): "mensalão", "corrupção", "comunismo", "me cansei do PT e da Dilma". Todavia, essas questões são menores do que o bom momento pelo qual o Brasil passa. Há meses atrás minha esposa esteve na Espanha e me contou que lá, idosos fazem trabalhos informais nas ruas para ganhar moedas para comprar o pão de cada dia. Acredito que não estejamos numa situação pior, apesar do caminho longo que precisamos percorrer. O Brasil é um país com muitos problemas. Talvez, os clamores que acontecem hoje venham a se resolver daqui a duzentos ou trezentos anos. Não sejamos ingênuos. A história anda aos saltos. Ela carrega no presente os elementos do passado. E o futuro estabelece uma aglutinação entre passado e presente, criando uma nova realidade, tendo elementos de todos os movimentos. A história não mente. Não esqueçamos de olhar que tipo de atriz é a Marina a essa altura do campeonato. Analisemos os fatos e cheguemos a uma conclusão sobre a presente conjuntura.

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