sábado, outubro 30, 2010

Dona Margarida vota Dilma 13!

Dona Margarida, septuagenária, nem precisa comparecer à seção eleitoral, mas votou no 1º turno e está decidida a repetir o gesto neste final de semana. Ela acompanha a campanha eleitoral, assiste aos programas, debates e procura se manter bem-informada.

Fui visitá-la e, claro, ela logo puxou o assunto da eleição. Se depender dela, o Serra não se elege. Ela considera-o mentiroso e cínico. Minha mãe não se referia à escola filosófica de Diógenes Sínope (413-323 a. C.). Para esticar a conversa, brinquei: “A senhora quer dizer que ele tem mil caras?!” Ela reafirmou que o demo-tucano mente, se faz por bonzinho e é um sem-vergonha, além de arrogante. Já a Dilma… Bem, ela se desmanchou em elogios.

A opinião da minha mãe espelha bem o que os eleitores convictos da Dilma Rousseff pensam. Não há marqueteiro que consiga demovê-los da decisão de votar nela. Quanto mais a atacam, mas lhes parecem que são mentiras. E não adianta o Serra fazer cara de bom moço e de “presidente do bem”. A pecha de cinismo o acompanha!

Minha mãe não navega na internet. Imagino o quanto ela ficaria aborrecida com a boataria contra a Dilma! A rede reproduz e potencializa as fofocas da vida real. A Dona Margarida comentou que no grupo da terceira idade alguém disse que a Dilma era “sapatão”. Ela ficou irritadíssima com a boataria. E resumiu tudo na frase: “É preconceito!” Tive orgulho dela.

Não tentei demovê-la da decisão de votar na Dilma. Até porque também voto contra o Serra. Poderia, porém, argumentar que há a alternativa de votar nulo ou em branco; poderia listar uma série de razões políticas e ideológicas. Bem, estávamos apenas conversando e respeito as opiniões dela. De qualquer forma, ela me fez pensar.

Ao contrário da Dona Margarida, o meu amigo Walterego diz que vai anular o voto. Ele não milita no PSTU nem nos grupos de esquerda, organizados ou não em partidos, que defendem o voto nulo. Ele não faz campanha pelo voto nulo! Walterego também é esclarecido e tem título de doutor. Já a Dona Margarida não teve oportunidades de estudo e aprendeu a ler e fazer contas por esforço próprio, na escola da vida. Isto não desqualifica suas opiniões. Na verdade, ambos têm argumentos fortes para defender as posições políticas que consideram melhores.

O que os exemplos de Dona Margarida e Walterego mostram é que posição política nada tem a ver com educação formal e titulação acadêmica. O título universitário não indica, necessariamente, inteligência e capacidade política. Não obstante, há muito preconceito contra os pobres e pessoas humildes no que diz respeito à opção política. O preconceito é social e regional (contra os nordestinos). Ora, a atitude política não é determinada por um canudo universitário e o fato de tê-lo não torna ninguém politicamente melhor nem pior. Não é critério de avaliação política. Há muitos analfabetos políticos titulados por aí!

O meu amigo Walterego pode até votar nulo, mas duvido que ele se considere superior à Dona Margarida, aos pobres e nordestinos. Não é porque ele é doutor que sua posição política é qualitativamente melhor. Afinal, há muitos pobres e nordestinos que também votam no Serra. Os preconceituosos esquecem que ninguém se elege apenas com o voto da classe média e dos ricos. O governo Lula, aliás, foi um dos melhores para os ricos. Não estranho que muitos figurões o apóiem.

Por outro lado, boa parte da classe média divide-se entre a postura de tutela dos pobres e o preconceito social, racial e regional. A tutela também é uma forma invertida de preconceito, pois indica a desconfiança na capacidade política dos pobres. Dona Margarida, que vota em Dilma, diria: “É preconceito!” Decididamente, ela não é analfabeta política!

Extraído DAQUI

sexta-feira, outubro 22, 2010

Dilma: garantir conquistas e consolidar avanços

Serra representa outro projeto de Brasil que vem do passado, se reveste de belas palavras e de propostas ilusórias mas que fundamentalmente é neoliberal e não-popular e que se propõe privatizar e debilitar o Estado para permitir a atuação livre do capital privado nacional, articulado com o mundial.


O Brasil já deixou de “estar deitado eternamente em berço esplêndido”. Nos últimos anos, particularmente sob a administração do Presidente Lula, conheceu transformações inéditas em nossa história. Elas se derivaram de um projeto político que decide colocar a nação acima do mercado, que concede centralidade ao social-popular, conseguindo integrar milhões e milhões de pessoas, antes condenadas à exclusão e a morrer antes do tempo. Apesar dos constrangimentos que teve que assumir da macroeconomia neoliberal, não se submeteu aos ditames vindos do FMI, do Banco Mundial e de outras instâncias que comandam o curso da globalização econômica. Abriu um caminho próprio, tão sustentável que enfrentou com sucesso a profunda crise econômico-financeira que dizimou as economias centrais e que devido à escassez crescente de bens e serviços naturais e ao aquecimento global está pondo em xeque a própria reprodução do sistema do capital.

O governo Lula realizou a revolução brasileira no sentido de Caio Prado Jr. no seu clássico A Revolução Brasileira (1966):”Transformações capazes de reestruturarem a vida de um pais de maneira consentânea com suas necessidades mais gerais e profundas, e as aspirações da grande massa de sua população…algo que leve a vida do país por um novo rumo". As transformações ocorreram, as necessidades mais gerais de comer, morar, trabalhar, estudar e ter luz e saúde foram, em grande parte, realizadas. Rasgou-se um novo rumo ao nosso pais, rumo que confere dignidade sempre negada às grandes maiorias. Lula nunca traiu sua promessa de erradicar a fome e de colocar o acento no social. Sua ação foi tão impactante que foi considerado uma das grandes lideranças mundiais.

Esse inestimável legado não pode ser posto em risco. Apesar dos erros e desvios ocorridos durante seu governo, que importa reconhecer, corrigir e punir, as transformações devem ser consolidadas e completadas. Esse é o significado maior da vitória da candidata Dilma que é portadora das qualidades necessárias para esse “fazimento” continuado do novo Brasil.

Para isso é importante derrotar o candidato da oposição José Serra. Ele representa outro projeto de Brasil que vem do passado, se reveste de belas palavras e de propostas ilusórias mas que fundamentalmente é neoliberal e não-popular e que se propõe privatizar e debilitar o Estado para permitir atuação livre do capital privado nacional, articulado com o mundial.

Os ideólogos do PSDB que sustentam Serra consideram como irreversível o processo de globalização pela via do mercado, apesar de estar em crise. Dizem, nele devemos nos inserir, mesmo que seja de forma subalterna. Caso contrário, pensam eles, seremos condenados à irrelevância histórica. Isso aparece claramente quando Serra aborda a política externa. Explicitamente se alinha às potências centrais, imperialistas e militaristas que persistem no uso da violência para resolver os problemas mundiais, ridicularizando o intento do Presidente Lula de fundar uma nova diplomacia baseada no dialogo e na negociação sincera na base do ganha-ganha.

O destino do Brasil, dentro desta opção, está mais pendente das megaforças que controlam o mercado mundial do que das decisões políticas dos brasileiros. A autonomia do Brasil com um projeto próprio de nação, que pode ajudar a humanidade, atribulada por tantos riscos, a encontrar um novo rumo salvador, está totalmente ausente em seu discurso.

Esse projeto neoliberal, triunfante nos 8 anos sob Fernando Henrique Cardoso, realizou feitos importantes, especialmente, na estabilização econômica. Mas fez políticas pobres para os pobre e ricas para os ricos. As políticas sociais não passavam de migalhas. Os portadores do projeto neoliberal são setores ligados ao agronegócio de exportação, as elites econômico-financeiras, modernas no estilo de vida mas conservadores no pensamento, os representantes das multinacionais, sediadas em nosso pais e as forças políticas da modernização tecnológica sem transformações sociais.

Votar em Dilma é garantir as conquistas feitas em favor das grandes maiorias e consolidar um Estado, cuja Presidenta saberá cuidar do povo, pois é da essência do feminino cuidar e proteger a vida em todas as suas formas.

Por Leonardo Boff*

*Leonardo Boff é teólogo e escritor.

Extraído DAQUI

quinta-feira, outubro 21, 2010

A verdadeira "pedrada" que o Serra levou ontem

Olhe aí a verdadeira pedrada que o Serra levou ontem. Fez até cara de "zé ninguém". A campanha baixa que o sujeito faz - denúncias infundadas, factóides, dissimulações dignas de um "judas iscariotes" - não tem surtido o resultado esperado. Toma aí, Zé!

terça-feira, outubro 19, 2010

É preciso derrotar Serra

A candidatura do demotucano José Serra surpreendeu não por sua identificação com as políticas neoliberais, e sim pelo baixo nível de sua campanha.

No início do processo eleitoral deste ano, um conjunto de forças populares e movimentos sociais decidiram empenhar esforços para eleger o maior número possível de parlamentares e governadores identificados com as bandeiras da classe trabalhadora. E, nesse cenário, sobre o pleito presidencial, a unidade se deu em torno da luta para evitar um retrocesso ao país. Ou seja, não permitir a vitória da proposta neoliberal, representada na candidatura do tucano José Serra. Assim, passado o primeiro turno, realizado no dia 3 de outubro, é importante fazer uma avaliação do que significou esse processo. Até porque a expectativa era de vitória da candidata Dilma Rousseff no primeiro turno.

Importantes avanços

São boas as renovações que ocorreram nas assembleias estaduais, na Câmara dos Deputados, no Senado Federal, na eleição e reeleição de governadores progressistas. Nesse sentido, destacamos a vitória do povo gaúcho, que derrotou o mandato tucano de Yeda Crusius. Candidata à reeleição ao governo do Rio Grande do Sul, Yeda se notabilizou no controle da mídia, na criminalização dos movimentos sociais e na repressão à luta dos trabalhadores.

Campanha presidencial

É importante ressaltar que, nesta campanha presidencial, os graves problemas do povo ficaram ausente do processo. Evidenciou-se que a falta de debates em torno de projetos políticos e dos problemas principais que afetam a população brasileira. Assim, a campanha de Dilma Rousseff buscou apenas divulgar o desenvolvimento econômico e as políticas sociais do governo Lula e apoiar-se na popularidade do atual presidente. Com essa estratégia, obteve quase 47% dos votos, mas insuficientes para vencer no primeiro turno.

A candidatura do demotucano José Serra surpreendeu não por sua identificação com as políticas neoliberais, e sim pelo baixo nível de sua campanha. Foi agressivo, tentou interferir em julgamentos do Supremo Tribunal Federal (STF), espalhou mentiras e acusações infundadas. Independente de qualquer outro resultado, a biografia do candidato já é a maior derrotada nessas eleições.

Já as candidaturas identificadas com os partidos de esquerda, que utilizaram o espaço eleitoral para defender os interesses da classe trabalhadora, infelizmente tiveram uma votação baixa.

Outro elemento importante neste atual quadro é o descenso social de duas décadas em nosso país. A fragmentação das organizações da classe trabalhadora e a fragilidade da política de comunicação com a sociedade também influíram no resultado eleitoral.

Assim, as eleições deste ano demonstraram o poder nefasto e antidemocrático da mídia. Mas, por outro lado, potencializaram uma rede de comunicadores independentes, comprometidos com a liberdade de expressão, que enfrentaram o monopólio dos meios de comunicação. São avanços importantes rumo à democratização da informação e pelo controle social sobre meios de comunicação em nosso país.

Segundo turno

No dia 31, o povo brasileiro terá de fazer sua escolha. De um lado, o demotucano José Serra. E, como já dissemos aqui neste espaço, atrás da candidatura Serra estão as forças do capital mais atrasadas e subservientes ao império estadunidense, os grandes bancos, a grande indústria paulista, o latifúndio atrasado de Kátia Abreu e o agronegócio "moderno" do etanol. Seu programa é um só: a volta do mercado, benefícios para as empresas e a repressão para conter as demandas sociais. Seria a prioridade no programa dos PPPs já aplicado em São Paulo: privatizações, pedágios e presídios.

De outro lado, a candidatura de Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT). Também como já dissemos, a candidatura Dilma representa continuidade do governo Lula e tem forças sociais entre a burguesia (temerosa da reação das massas), setores da classe média que melhoraram de vida e amplos setores da classe trabalhadora. Praticamente todas as forças populares organizadas têm sua base social apoiando a candidata petista.

Assim, o conjunto das forças populares e movimentos sociais, que mantêm o compromisso de defesa das bandeiras de lutas da classe trabalhadora e da construção de um país democrático, socialmente justo e soberano, defendem a candidatura de Dilma. Mas manterá a autonomia de luta independente do governo eleito.

Infelizmente, os avanços do governo Lula em direção às bandeiras democrático-populares foram insuficientes, em que pese o acerto de sua política externa. Também preocupa constatar que, no arco de alianças da candidatura de Dilma Rousseff, há forças políticas que se contrapõem a essas demandas sociais.

Porém, fica uma certeza: José Serra, por sua campanha, pelo seu governo em São Paulo e pelos oito anos de governo FHC, tornou-se inimigo da classe trabalhadora e das nossas bandeiras de lutas. Pelo caráter anti-democrático e anti-popular dos partidos que compõem sua aliança e por sua personalidade autoritária, uma possível vitória sua significará um retrocesso para os movimentos sociais e populares em nosso país. Além disso, uma eventual vitória do demotucano será um retrocesso para as conquistas democráticas em nosso continente e representará uma maior subordinação aos interesses do império estadunidense.

Evitar o retrocesso

Por isso, frente a esse cenário, as forças populares e os movimentos sociais da Via Campesina declaram seu apoio e compromisso de lutar para eleger a candidata Dilma Rousseff. E o Brasil de Fato soma-se a essas organizações no sentido de derrotar o demotucano Serra e tudo o que sua candidatura representa. Ou seja, é preciso derrotar a candidatura Serra, pois ela representa as forças direitistas e fascistas do país.

Mas alertamos. É importante seguir organizando o povo para que lute por seus direitos e mudanças sociais profundas, mantendo a autonomia frente aos governos.

Fonte: AQUI

sábado, outubro 16, 2010

Porque voto na Dilma


Eu voto Dilma, pelos mais de dois milhões de brasileiros que saíram da pobreza. [mais de 20 milhões] - retificação minha

Pelo Pro Uni e a inclusão de jovens de famílias pobres no ensino universitário.

(...)

... [pelo] milagre do desenvolvimento que está acontecendo no interior do Nordeste.

Voto pela Transnordestina, que vai levar prosperidade por onde passar.

Voto pela descentralização da cultura nesse país, pelo reconhecimento das diferentes manifestações populares de cada região e pela sua promoção através dos pontos de cultura, algo nunca visto nesse país.

Voto Dilma, pela interiorização do ensino universitário, do ensino técnico como nunca foi visto.

Voto Dilma, pela continuação da valorização das regiões e dos seus povos, que sempre serviram de esteio e mão de obra barata para os “desenvolvidos” eleitores de CLODOVIL, TIRIRICA e outras criaturas deste país.

Voto para que esse povo continue a não precisar sair do seu lugar, para ser alguém na vida.

Voto Dilma, pela altivez conquistada diante do resto do mundo.

Voto Dilma, para que meus tataranetos, não nasçam com o pecado original de dever ao FMI.

Voto Dilma, para que mais e mais corruptos, sejam demitidos nesse país, como está acontecendo e nunca é divulgado.

Voto Dilma, para que não mais tenhamos um engavetador geral da república.

Voto Dilma, pelo maior programa de moradia popular e por todos que conseguiram realizar o sonho da casa própria nesses últimos oito anos.

Voto Dilma, pelo Bolsa Família, que é reconhecido pela ONU, como o melhor programa de erradicação da pobreza e da fome no mundo e que para os “desenvolvidos, intelectuais”,antes da eleição, não passava de uma esmola.

Voto Dilma, pelo continuo crescimento da economia do país, dos empregos com carteiras assinadas, do crédito, da produção industrial, e do aumento das riquezas do país, sem que tenha sido preciso entregar nenhum patrimônio da nação.

Voto Dilma, por tantos motivos que temos para nos orgulhar e comemorar, que mesmo depois de tentar relacioná-los, fica a sensação de não ter se lembrado de muita coisa, de tanto que foi feito.

Voto Dilma, pelo BRASIL.

Voto pelo Nordeste.

Voto por Pernambuco

Voto por Garanhuns.

Voto por minha família, para que meus filhos tenham o que aproveitar no futuro.

Extraído DAQUI

quinta-feira, outubro 07, 2010

A hora da estrela, de Clarice de Lispector

“Ela era subterrânea e nunca tinha tido floração. Minto: ela era capim”.
Clarice Lispector

“...sua vida era uma longa meditação sobre o nada”.
Clarice Lispector

Li poucos livros de Clarice Lispector. Talvez dois ou três. Mas foi o suficiente para incuti em mim noção de que ela figura no rol dos grandes escritores da história da literatura universal. Não é exagero. Quem já leu e prestou atenção no texto clariceano sabe do que estou falando. Cada leitura que fazemos de Clarice resulta numa experiência de atordoamento. Clarice não é somente uma escritora de literatura. É uma filósofa. O seu texto possui um interseccionamento com Sartre. Percebo fortes pontos de verossimilhança entre a abordagem existencialista de A Náusea de Sartre e A Paixão Segundo G.H. de Lispector, por exemplo, embora os objetos da narrativa sejam distintos.

O fato é que após ter finalizado a leitura de A hora da estrela, último livro publicado da escritora no de 1977, fiquei com aquela impressão atordoante. É como se eu tivesse saído de um dilúvio. A narrativa é uma revelação da nulidade que é a alma de Macabéa, retirante saída de Alagoas para viver no Rio de Janeiro. Clarice faz uma cirurgia sem anestesia na alma da nordestina. Revela a paisagem interior da personagem vinda de Alagoas e, constatamos, com isso, enormes espaços vazios, sem substância.

Macabéa não existe, apenas vive e o seu viver é uma sucessão de coisa nenhuma. É inocente. Tola. Sem atrativos. É ingênua. Ela era “virgem”. Não fazia “falta a ninguém”. Fisicamente, era indefinida. Era “assexuada”. “Macabéa tinha ovários murchos como um cogumelo cozido” (pp. 58-59). Sua gênese, possivelmente, deve ter sido resultado de uma ideia vaga dos pais famintos. Ela não tinha força de raça, era subproduto. As descrições nuas, pesadamente realistas, vão enchendo as páginas. É como se fôssemos constrangidos a amar a sua inanição, a sua feiúra, sua condição de ser que não é. A personagem situa-se entre o quixotesco e o idiotismo. Mas, apegamo-nos à sua saga e enxergamos nela um arquétipo da alienação de tantos brasileiros e brasileiras que possuem apenas o fôlego de vida.

O nome da obra (“A hora da estrela”) parece construir sentidos de uma grande ironia. Que momento (“hora”) se dá essa epifania (“da estrela”)? Macabéa não possui brilho nenhum. É opaca. Sua vida é andar no escuro. Viver numa cidade como o Rio de Janeiro é ser anônima no meio de uma constelação de astros autônomos e distantes. Seu alheamento a impelia a reflexões disparatadas: Ouvira na Rádio Relógio que havia sete bilhões de pessoas no mundo. Ela se sentia perdida. Mas com a tendência que tinha para ser feliz logo se consolou: havia sete bilhões de pessoas para ajudá-la (p. 58). Assim, talvez o “estrelato” de Macabéa tenha se dado nos minutos finais de sua vida. Após ter ido consultar Madama Carlota, uma vidente, sai da sessão esperançosa. Sua alma jubila. Sua confiança havia recebido um facho roliço de força: Até para atravessar a rua ela já era outra pessoa. Uma pessoa grávida do futuro. Sentia em si uma esperança tão violenta como jamais sentira tamanho desespero (...) Tudo de repente era muito e muito e tão amplo que ela sentiu vontade de chorar. Mas ela não chorou: seus olhos faiscavam como o sol que morria. Então ao dar o passo de descida da calçada para atravessar a rua, o Destino (explosão) sussurrou veloz e guloso: é agora, é já, chegou a minha vez! E enorme como um transatlântico o Mercedes amarelo pegou-a – e neste mesmo instante em algum único lugar do mundo um cavalo como resposta empinou-se em gargalhada de relincho. Macabéa ao cair ainda teve tempo de ver, antes que o carro fugisse, que já começavam a ser cumpridas as predições de madama Carlota, pois o carro era de luxo. Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão. Batera com a cabeça com a cabeça na quina da calçada e ficara caída, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E da cabeça um fio de sangue inesperadamente vermelho e rico. O que queria dizer que apesar de tudo ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito de grito. (pp.79-80).

O atropelamento proporciona a percepção dos transeuntes. De repente, surgem entes de todos os lados – alguns saem dos becos; outros, ao passarem constatam o corpo inerme, a matéria esquálida, caída. A libertação de Macabéa vem com morte. Aos poucos, a morte se aproxima com os seus braços e beiços frios e beija Macabéa. Nesta exata hora Macabéa sente um fundo enjôo de estômago e quase vomitou, queria vomitar o que não é corpo, vomitar algo luminoso. Estrela de mil pontas. (p. 85) Ou seja, o anonimato de uma existência que nada era, nada possuía, era um buraco sem fundo, parece ganhar corpo com a morte. O seu “estrelato” passa por ideia de libertação. A sua vida que era uma caixinha de música desafinada, passa por uma inflexão profunda com a morte.

Percebe-se nesse sentido, que Clarice busca apontar para o fato de que as vidas que não são, adquirem mais importância com a morte. Tantas pessoas padecem da mesma doença, vivem sem saber o que é a vida. São astros sem luz. Estrelas que não possuem energia em si. Nascem para nada ser. Não se indagam. Não aprendem nada. Vivem em um mundo à parte. Há uma cortina que os impossibilita de enxergarem o que é existir, o que é sentir, o que é ser. Indagar a si mesmo é primeiro passo para se enxergar incompleto. Clarice nos abre os olhos da percepção para que entendamos o que é ser. Faz-nos entender que mais que viver é existir. Existir é sentir o gosto, o cheiro, o tato da vida.

Que escritora, meus amigos!

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: Domingo, 3 de outubro de 2010, 11:52:30

sábado, outubro 02, 2010

A mídia comercial em guerra contra Lula e Dilma

Amanhã acontecerão as eleições. O texto a seguir de Leonardo Boff explicita de modo contundente como a mídia golpista, representante das velhas oligarquias, manipula o povo, destoando informações, coloca a opinião pública contra Lula e sua candidata Dilma Rousseff. Um excelente texto para quem quiser se esclarecer acerca desse crime perverso, cometido pelos "coronéis da informação".

Sou profundamente a favor da liberdade de expressão em nome da qual fui punido com o silêncio obsequioso pelas autoridades do Vaticano. Sob risco de ser preso e torturado, ajudei a editora Vozes a publicar corajosamente o Brasil Nunca Mais onde se denunciavam as torturas, usando exclusivamente fontes militares, o que acelerou a queda do regime autoritário.

Esta história de vida, me avalisa fazer as críticas que ora faço ao atual enfrentamento entre o Presidente Lula e a midia comercial que reclama ser tolhida em sua liberdade. O que está ocorrendo já não é um enfrentamento de idéias e de interpretações e o uso legítimo da liberdade da imprensa. Está havendo um abuso da liberdade de imprensa que, na previsão de uma derrota eleitoral, decidiu mover uma guerra acirrada contra o Presidente Lula e a candidata Dilma Rousseff. Nessa guerra vale tudo: o factóide, a ocultação de fatos, a distorção e a mentira direta.

Precisamos dar o nome a esta mídia comercial. São famílias que, quando vêem seus interesses comerciais e ideológicos contrariados, se comportam como famiglia mafiosa. São donos privados que pretendem falar para todo Brasil e manter sob tutela a assim chamada opinião pública. São os donos do Estado de São Paulo, da Folha de São Paulo, de O Globo, da revista Veja na qual se instalou a razão cínica e o que há de mais falso e xulo da imprensa brasileira. Estes estão a serviço de um bloco histórico, assentado sobre o capital que sempre explorou o povo e que não aceita um Presidente que vem deste povo. Mais que informar e fornecer material para a discusão pública, pois essa é a missão da imprensa, esta mídia empresarial se comporta como um feroz partido de oposição.

Na sua fúria, quais desesperados e inapelavelmente derrotados, seus donos, editorialistas e analistas não têm o mínimo respeito devido à mais alta autoridade do pais, ao Presidente Lula. Nele vêem apenas um peão a ser tratado com o chicote da palavra que humilha.

Mas há um fato que eles não conseguem digerir em seu estômago elitista. Custa-lhes aceitar que um operário, nordestino, sobrevivente da grande tribulação dos filhos da pobreza, chegasse a ser Presidente. Este lugar, a Presidência, assim pensam, cabe a eles, os ilustrados, os articulados com o mundo, embora não consigam se livrar do complexo de vira-latas, pois se sentem meramente menores e associados ao grande jogo mundial. Para eles, o lugar do peão é na fábrica produzindo.

Como o mostrou o grande historiador José Honório Rodrigues (Conciliação e Reforma) "a maioria dominante, conservadora ou liberal, foi sempre alienada, antiprogresssita, antinacional e nãocontemporânea. A liderança nunca se reconciliou com o povo. Nunca viu nele uma criatura de Deus, nunca o reconheceu, pois gostaria que ele fosse o que não é. Nunca viu suas virtudes nem admirou seus serviços ao país, chamou-o de tudo, Jeca Tatu, negou seus direitos, arrasou sua vida e logo que o viu crescer ela lhe negou, pouco a pouco, sua aprovação, conspirou para colocá-lo de novo na periferia, no lugar que contiua achando que lhe pertence" (p.16).

Pois esse é o sentido da guerra que movem contra Lula. É uma guerra contra os pobres que estão se libertando. Eles não temem o pobre submisso. Eles tem pavor do pobre que pensa, que fala, que progride e que faz uma trajetória ascedente como Lula. Trata-se, como se depreende, de uma questão de classe. Os de baixo devem ficar em baixo. Ocorre que alguém de baixo chegou lá em cima. Tornou-se o Presidene de todos os brasileiros. Isso para eles é simplesmente intolerável.

Os donos e seus aliados ideológicos perderam o pulso da história. Não se deram conta de que o Brasil mudou. Surgiram redes de movimentos sociais organizados de onde vem Lula e tantas outras lideranças. Não há mais lugar para coroneis e de fazedores de cabeça do povo. Quando Lula afirmou que a opinião pública somos nós, frase tão distorcida por essa midia raivosa, quis enfatizar que o povo organizado e consciente arrebatou a pretensão da midia comercial de ser a formadora e a porta-voz exclusiva da opinião pública. Ela tem que renunciar à ditadura da palavra escrita, falada e televisionada e disputar com outras fontes de informação e de opinião.

O povo cansado de ser governado pelas classes dominantes resolveu votar em si mesmo. Votou em Lula como o seu representante. Uma vez no Governo, operou uma revolução conceptual, inaceitável para elas. O Estado não se fez inimigo do povo, mas o indutor de mudanças profundas que beneficiaram mais de 30 milhões de brasileiros. De miseráveis se fizeram pobres laboriosos, de pobres laboriosos se fizeram classe média baixa e de classe média baixa de fizeram classe média. Começaram a comer, a ter luz em casa, a poder mandar seus filhos para a escola, a ganhar mais salário, em fim, a melhorar de vida.

Outro conceito innovador foi o desenvolvimento com inclusão soicial e distribuição de renda. Antes havia apenas desenvolvimento/crescimento que beneficiava aos já beneficiados à custa das massas destituidas e com salários de fome. Agora ocorreu visível mobilização de classes, gerando satisfação das grandes maiorias e a esperança que tudo ainda pode ficar melhor. Concedemos que no Governo atual há um déficit de consciência e de práticas ecológicas. Mas importa reconhecer que Lula foi fiel à sua promessa de fazer amplas políticas públicas na direção dos mais marginalizados.

O que a grande maioria almeja é manter a continuidade deste processo de melhora e de mudança. Ora, esta continuidade é perigosa para a mídia comercial que assiste, assustada, o fortalecimento da soberania popular que se torna crítica, não mais manipulável e com vontade de ser ator dessa nova história democrática do Brasil. Vai ser uma democracia cada vez mais participativa e não apenas delegatícia. Esta abria amplo espaço à corrupção das elites e dava preponderância aos interesses das classes opulentas e ao seu braço ideológico que é a mídia comercial. A democracia participativa escuta os movimentos sociais, faz do Movimento dos Sem Terra (MST), odiado especialmente pela VEJA faz questão de não ver, protagonista de mudanças sociais não somente com referência à terra mas também ao modelo econômico e às formas cooperativas de produção.

O que está em jogo neste enfrentamento entre a midia comercial e Lula/Dilma é a questão: que Brasil queremos? Aquele injusto, neocoloncial, neoglobalizado e no fundo, retrógrado e velhista ou o Brasil novo com sujeitos históricos novos, antes sempre mantidos à margem e agora despontando com energias novas para construir um Brasil que ainda nunca tínhamos visto antes.

Esse Brasil é combatido na pessoa do Presidente Lula e da candidata Dilma. Mas estes representam o que deve ser. E o que deve ser tem força. Irão triunfar a despeito das má vontade deste setor endurecido da midia comercial e empresarial. A vitória de Dilma dará solidez a este caminho novo ansiado e construido com suor e sangue por tantas gerações de brasileiros.

Por Leonardo Boff*

*teólogo, filósofo, escritor e representante da Iniciativa Internacional da Carta da Terra.

Extraído DAQUI

quarta-feira, setembro 29, 2010

Debate – sem nenhum caráter

Em período eleitoral notamos com maior nitidez a calamidade a que estamos submetidos. É o tempo em que os vampiros da política saem do túmulo das assembleias legislativas – câmara legislativa no caso do Distrito Federal (DF) - e dos castelos assombrados do executivo a fim de pedir votos. O intento é claro: dar continuidade à selvageria, ao ataque indiscriminado à coisa pública, à parasitagem ao sangue do povo.

Escrevo tais palavras, pois fui invadido por um profundo asco após assistir ao debate promovido pela Rede Globo com os candidatos ao governo do DF na noite de ontem, 28 de setembro de 2010. Ainda sinto os ecos aflitivos das falas postiças dos candidatos – Agnelo Quiroz (PT), Eduardo Brandão (PV), Wesliam? Roriz (PSC), que assumiu o governo no lugar do marido Joaquim Roriz, numa manobra desavergonhada[1]. Certamente vivemos uma séria crise política em nosso país. O que fica evidente nesses debates, supostamente democráticos, é a falta de inteligência, o estrangulamento das ideias e a leviandade resultante da mentira.

A palavra debate traz uma carga semântica que não se aplica à situação em comento. Não tivemos um debate. Debate sugere a discussão de um tema; a abordagem ou o desvelamento de um aspecto por duas ou mais pessoas. O que vi não foi um debate. Foi, sim, uma mediocrização sistemática, a materialização das venalidades. Ou seja, quem é quem no jogo político. Como cada patota, que muda apenas de cor, vai se apropriar do mesmo objeto: a galinha dos ovos de ouro – as verbas polpudas do Estado. E como distribuir os despojos após a lide eleitoral entre os marqueteiros, o empresariado por contratos lucrativos; com os setores da mídia, com as empreiteiras, com os políticos fisiológicos arrojados por uma síndrome fáustica – de quem vendeu a alma ao diabo.

Mário de Andrade retratou com brilhantismo a nossa saga em Macunaíma - o herói sem nenhum caráter, um estudo profundo de nossa etnicidade. Nascemos mudos. Fomos concebidos “no fundo mato-virgem”. Somos filhos do “medo da morte”. Em momentos como estes, a história de “nosso parto histórico” vem à tona. Não fomos concebidos em berço esplêndido. As intenções de nossa metrópole não era fazer do Brasil uma nação independente, civilizada, com valores nobres, como se deu na relação Inglaterra/Estados Unidos. Desde muito cedo fomos ensinados a sermos espertos. A nos apropriarmos pelo parasitismo das coisas alheias. Aprendemos a ver no outro ou no Estado a figura de um inimigo ou uma potencial mina de tesouros a serem saqueados. Crescemos com uma alma de pivete. Nossas propensões são vis. O nível de baixeza é alto.

Uma abastada minoria herdeira da Casa Grande continua a explorar uma maioria alienada. Essa minoria continua secularmente agarrada à jugular do país, bebendo-lhe o sangue. Para não perderem as rédeas a que estão acostumados, contam as piores mentiras ao povo. Gaguejam, abraçam, direcionam sorrisos maquiados de complacência.

Debates como os de ontem, apenas evidenciam a barbárie na qual estamos mergulhados. Os dias são de penúria. Exigem um protesto sábio. O melhor protesto é saber votar. A propalada democracia a qual temos que defender não é virtuosa. Esta democracia é o direito de alguns privilegiados serem e outros não serem. Emplastos não curam oncoses. A classe política brasileira, filhos da piveteria histórica, não debate, nos abate.

Data: quarta-feira, 29 de setembro de 2010, 18:29:55.


[1] Toninho, candidato pelo PSOL, também participou do debate.

terça-feira, setembro 28, 2010

Para que serve a literatura

Conta-se que no final da Segunda Guerra Mundial, quando chegaram num campo de concentração que contava com inúmeros prisioneiros inocentes, os soldados de uma das divisões das tropas aliadas surpreenderam alguns dos seus inimigos nazistas sentados e calmamente lendo uma das obras mais importantes e humanistas da literatura universal: nada menos do que Fausto, de Goethe.

A leitura daquele livro não tornava seus leitores menos culpados pelo horror que estava sendo cometido por eles próprios. Também não impedia que cada um daqueles soldados literatos cumprissem com suas atribuições de prender, torturar e matar seus semelhantes como nenhum outro animal além do humano é capaz de fazer.

Nada mais desconfortante para os defensores da literatura como forma de humanização do que a idéia de que o homem pode combinar a satisfação estética sentida após a leitura de uma peça de Shakespeare com uma prática anti-humana, perversa e cruel.

Apesar disso, como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um de nós “…aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.

A literatura serve, por certo, para dar prazer e satisfação para todos, mas só os bons levam a sério suas mensagens humanistas: os demais permanecem indiferentes. Bons livros não convencem uma pessoa má a melhorar. Pode-se supor que alguém que tenha sido pago para assassinar, na sua infância tenha sido um leitor entusiasmado de Monteiro Lobato.

As mensagens humanistas dos livros só atingem as pessoas predispostas para a sua recepção. É provável que os romancistas estejam condenados a “pregar aos convertidos”, a convencer aos convencidos, como tinha o costume de escrever o sociólogo Pierre Bourdieu.

Mesmo assim, um pioneiro investigador dos segredos humanos como Freud não dispensava os conhecimentos propiciados pela literatura. Para o fundador da psicanálise “…os poetas e romancistas são aliados preciosos, e seu testemunho deve ser tido em alta estima pois eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas com as quais nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar. Eles são para nós, que não passamos de homens vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois se banham em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência.”

Com tudo isso, não deixo de pensar que após a leitura de um livro como Levantado do Chão, de Saramago, que descreve o sofrimento e a luta dos trabalhadores rurais portugueses, nenhum dirigente do Fundo Monetário Internacional deixará de impor aos países devedores as medidas econômicas que levam a fome e o sofrimento para milhões de pessoas em todo o mundo.

Talvez a literatura sirva mesmo é para convencer os convencidos a permanecerem contra todas as formas de opressão do humano. Se servem para tanto, isso já é um grande bem, pois, embora aqueles que não praticam o bem continuem difundindo o mal, não conseguirão jamais impor a idéia de que ser humano é ser apenas como são.

Por Walter Praxedes - Doutor em Educação pela USP e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Publicado na REA nº 15, agosto de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/015/15wlap.htm

Extraído DAQUI

Justificar

quinta-feira, setembro 23, 2010

Primavera, mas não ainda

Hoje, 23 de setembro de 2010, teve início a primavera. É uma das estações que mais admiro – juntamente com o outono. A primavera é a estação do cio da natureza. É a estação das flores. Do colorido multifacetado. Das aquarelas alegres - vermelhas, roxas, brancas, amarelas. É como se a natureza fosse um daqueles paraísos descritos nos quadros de Bosch.

Aqui em Brasília, especificamente, surgem os ipês – roxos, amarelos, brancos. Os cachos generosos revelam uma beleza frágil e efêmera. Sempre enxerguei nos ipês uma metáfora da candura da beleza. Como dizia Nietzsche, ‘a beleza não é para todos’. Ela é cândida, acanhada, habitada por pudores virginais. Os ipês enunciam essa característica. Passam o resto do ano escondidos, incógnitos, no meio das demais árvores, mas de uma hora para outra, em pouco mais de uma semana (quando muito), poetizam o esplendor que alegra os olhos da alma. Ficam expostas com suas cores vivas, destacadas, como que a dizerem: “Olhem para mim!”. Mais algumas semanas e surgirão os flamboyants com suas cabeleiras inflamadas, incendiárias. Vermelhos, imponentes, a encherem os olhos de quem vê.
Mas, Brasília por estes dias tornou-se num grande deserto. Já se passaram 119 dias sem chover. A primavera não surgiu trazendo o canto dos pássaros, como em “As Quatro Estações” de Vivaldi. Ela trouxe mais um dia quente, cheio de vapores mornos. A gramínea da cidade crestou. O céu é um cobertor cinza, com cores em tons ensangüentados ao final do dia. Faz lembrar o céu pintado na tela “O grito” do norueguês Edvard Munch. E, de fato, Brasília grita, agoniza, com sua condição de insuportabilidade climática.
A Capital Federal transformou-se numa versão habitada do Deserto do Atacama. Nós, animais humanos, revelamos nossa fragilidade. A pele abre sucos quando não untada. Os lábios sofrem com a constância do tempo seco. O sol queima implacavelmente como se não houvesse atmosfera para filtrar a radiação. Corremos de um lado para o outro como bichos assustados, mas, somos azorragados pelo nosso implacável algoz.

Hoje, ao receber a notícia da chegada de minha musa, fiquei com um imenso cenho de melancolia. Os lábios encolheram. Os olhos enxergam apenas uma paisagem cinza, manchada pela poeira. Não há flores nos jardins. As árvores estão nuas, despojadas, mostrando galhos pardacentos e tortos. Não há zumbido de insetos. Eu não ouvi “As Quatro Estações” de Vivaldi. Lembro-me apenas de “O grito” de Munch. Não há poesia no mundo – nem em mim.

Data: 23 de setembro de 2010, 20:00 hs.

terça-feira, setembro 14, 2010

Por que lemos literatura?

Lemos porque queremos entender a realidade de outro ponto de vista ou porque precisamos fugir dela por um momento para voltar mais lúcidos. Lemos livros de ficção porque queremos saber como os outros vivem, enfrentam os problemas, como vencem ou como sucumbem. Lemos porque queremos ver refletido nosso eu no mundo dos personagens. A força do teatro é o arroubamento emocional, a participação grupal – que alimente, além do instinto estético, o instinto gregário do ser humano. Os espectadores estão na mesma sala assistindo à peça.

Ao contrário do teatro, a leitura é atividade solitária. Podemos falar sobre um livro com um amigo, familiar ou colega de trabalho. Mas lemos e nos emocionamos sozinhos. Contudo, um bom livro nos ajuda a suportar melhor a solidão. Por isso, os livros foram chamados de “bons amigos”. Estão sempre esperando os leitores. No teatro, os personagens estão diante do espectador, podemos olhar os personagens. A leitura, ao contrário, coloca em jogo a imaginação do leitor. No teatro as reações de qualquer pessoa da plateia podem ser observadas pelos outros.

A leitura dá lugar a expressões – como rir, chorar ? que muitas vezes, a pessoa oculta em público. Tanto a leitura de obras ficcionais quanto o teatro têm função catártica, mas as estradas são diferentes. No final de uma peça, o público aplaude. Ao terminamos de ler um livro também podemos sentir desejos de aplaudir ou de criticar. Mas aplaudimos ou criticamos mentalmente.
Também podemos escrever nossas impressões ou procurar outras pessoas para fazer comentários ou trocar opiniões. Por isso é tão importante a criação de clubes de leitura. O ser humano é gregário e precisa de outros para dialogar e crescer. Podemos entender que o esforço do escritor é ciclópeo. Ele precisa encontrar caminhos para chegar à mente do leitor e despertar o interesse. O importante é cultivar o hábito da leitura seja como fonte de informações, como caminho de autoconhecimento ou simples entretenimento.

Em síntese, lemos literatura para interpretar o mundo, para esquadrinhar a alma humana, para conhecer, para compreender, para sair do dia a dia rotineiro. Ítalo Calvino, Julio Cortázar e outros aconselham ler os clássicos. Os clássicos passam valores enquanto desenvolvem histórias.O escritor Jorge Luiz Borges dizia que ler deve ser um ato prazeroso. Ler é vital para nosso desenvolvimento como seres humanos.

Por que escrevemos?

A criação literária é como a frágua de Vulcano. Escrever nunca é morno. Escrever é angústia, raiva, incêndio, esperança, fingimento e desespero. É criar castelos de areia com palavras e temer a ventania. Escrever é emoção primitiva, instinto de autoexpressão. É gritar, usando corretamente a linguagem. É, então, grito medido, sofisticado – chamo isso de fingimento – pois é grito visceral, mas contido. Educado para expressar-se através de figuras estilísticas, discursos e silêncios, focos narrativos e personagens.

Escrever é colocar rédea nos cavalos da emoção. Civilizar a cólera. Contê-la para não expor em demasia esse eu paradoxal que deseja expressar-se e ora aparece, ora volta-se sobre si mesmo. Escrever é, às vezes, um ato de coragem e outras, um ato de estupidez. Mas sempre uma busca de catarse.

O texto é o produto do transbordar de um eu – Netuno, escondido nas águas do inconsciente. E é esse eu desconhecido que brinca com as palavras... deleita-se com as próprias histórias e incentiva o leitor a navegar no tempestuoso mar da literatura.

Por Isabel Furini

Extraído DAQUI

quarta-feira, setembro 08, 2010

Comentário de uma carta de Mário de Andrade a Fernando Sabino

Sou um grande admirador da genialidade de Mário de Andrade. Acredito que ele tenha sido um dos maiores brasileiros que já passaram por esse país cheio de dificuldades e incoerências. Hoje pela manhã, li alguns fragmentos de uma carta que ele escreveu ao escritor mineiro Fernando Sabino - à época - um aprendiz literário. O texto me fez lembrar Rainer Maria Rilke, no livro Cartas a um jovem Poeta. Passagem magnífica do livro de Rilke é aquela em que ele fala da necessidade daquele que escreve: "Ninguém pode dar-lhe conselhos nem ajudá-lo - ninguém! Só existe um caminho: penetre em si mesmo e procure a necessidade que o faz escrever. Observe se essa necessidade tem raízes nas profundezas do seu coração. Confesse à sua alma: 'Morreria, se não me fosse permitido escrever?'"

Voltando ao escritor modernista. Os dois (Mário e Fernando) trocaram cartas. Nas correspondências, Mário deu instruções de como Sabino deveria proceder para se tornar um arguto pensador e, se possível, um grande escritor. Em carta de 21 de março de 1942, Mário escreveu mais ou menos assim para Fernando Sabino:

"Você me pede que lhe aconselhe algumas leituras... Isso é difícil como o diabo... Você precisa de uma cultura literária geral, que não deve ser feita duma vez só, mas dentro de um programa que pode durar ponhamos seis anos... Ler os brasileiros... Meu Deus! Aqui também entra a noção da dignidade do indivíduo. Me parece um pouco canalha a gente conhecer Anatole France e não ter lido as 'Cartas Chilenas'; falar de Proust e não falar de Gregório de Matos ou Cruz e Souza. É mais uma questão humana de proximidade. E, já falei, creio, você precisa ler muito Machado de Assis, mas ler como reler, roubando ele, plagiando ele, não no estilo nem no espírito mas na delicadeza de sentimento.

Machado de Assis não deve ser para você uma companheiro de vida, mas apenas um tesouro onde você vai roubar. Roube dele tudo quanto possa ser útil a você, jogando o resto fora. Mas sempre não esquecendo que você pode roubar errado. O problema é delicadíssimo. Veja o problema do estilo: se você escrever, chegar a escrever no estilo de Machado de Assis você si esculhamba por completo, si perde. Mas você precisa chegar a um estilo que fosse em você e em 1942 o correspondente do que foi o estilo de Machado de Assis pro tempo dele.

(...)

As leituras imprescindíveis não podem ser devoradas. E fazendo uma mistura bem equilibrada de tudo, acho que você consegue uma boa cultura literária. E não é possível um intelectual sem filosofia, sem orientação social. (O destaque é meu).

Achei a frase em destaque extraordinária. Acredito que a semântica empregada por Mário na frase seja um dos principais problemas do nosso tempo. O intelectual da atualidade vive em torre de marfim sem refletir com engajamento o mundo. Claro, não reflitamos com ideias curtas algo com tamanha compelxidade.

Leia os textos do Mário. Necessitamos de outros "mários".

*Ler outra carta de Mário de Andrade a Fernando Sabino - AQUI
* Exclente resenha sobre as cartas de Mário a Fernando, reeditadas em livro pela Editora Record AQUI

sábado, setembro 04, 2010

Perguntas de um operário que lê

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilònia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sòzinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas



Por Bertold Brecht

Foto 1 - Bertolt Brecht.

Foto 2 - Trabalhador negro em frente ao Congresso Nacional, sede do Legislativo Federal. É a torre que representa uma das "pernas" do poder da República. É a metáfora do progresso, da pujança arquitetônica. Mas, quem construiu tal torre com suor e sangue? Brasília completou 50 anos. As honras foram direcionadas a JK. Todavia, quem fez tudo isso?

Texto "Brasília 50 anos" AQUI

Poema Extraído do livro Antologia Poética, Elo Editora, Rio de Janeiro, 1983, p. 31