sexta-feira, maio 25, 2012

Que maravilha! "Filósofo meditando" - de Rembrandt

Mais do que um simples pintor, Rembradt foi um extraordinário psicólogo. O seu quadro Filósofo meditando (de 1632) é uma das obras mais laureadas de todos os temois. O pintor holandês consegue fundir uma série de impressões e elementos filósoficos por meio de símbolos na pintura. O aspecto mais curioso é a focalização da intimidade de um pensador. Seu dilema. O olhar vago. Perdido em possibilidades e abstrações. A escada em espiral, constituindo uma espécie de fuga, de viagem mental que leva ao infinito. A luz e a sombra a se beijarem, a constituírem um entrelaçamento como se fossem um redomoinho. 

No centro, um pequena porta fechada. O que ela abriga? Quais segredos velados ou possibilidades de descobertas esconde? A porta representa o mistério. O inconsciente e suas feições informes. O mistério. O insondável. O filósofo, de olhar baixo, contempla as mãos num gesto de abandono e seriedade. 

Em contraste, uma luz rala, diáfana, penetra o interior do espaço, doura as paredes de madeira. Ilumina o filósofo e sua mesa de traballho. Seria a razão, capaz de tornar clara todas as coisas em meio às trevas do não conhecimento? Um contraste se firma no interior do espaço, pois uma mulher em sua atividade diária manipula um braseiro. O labor diário é um contraste à atividade filósofica, que exige tempo e percepção das realidades aprisionadas no interior escuro da mente, por isso, o filósofo mergulha em si, iluminado pela luz da razão.

A espiral da escada é um centro em movimento, que sobe e desce. Na quietude da cena, esse dinamismo encarna as meditações do filósofo, que por fora mostra placidez, mas que, quiça, em sua interioridade, guerras estejam sendo travadas. Nietzsche diria mais tarde que o homem consciente de si e do mundo é um campo de batalhas. A proporção das personagens humanas em contraste com o cenário intensifica a tônica de sensação de interioridade. A metáfora é clara: o homem mergulhado na escuridão, no seu lado obscuro e desconehcido, busca com a rutilância da razão, entender a si mesmo num mundo vasto e misterioso.

Rambradt era um mestre extraordinário. Quadros como Filósofo meditando, A festa de Baltasar ou A volta do filho pródigo atestam a sua genialidade.

quinta-feira, maio 24, 2012

Devaneios - "Que é a verdade?" (Pôncio Pilatos)

Os homens morrem e matam por causa de supostas verdades. Mas o que é a verdade? Diz Nietzsche que uma das perguntas mais sensatas que já foram produzidas está na bíblia, naquele episódio protagonizado por Cristo no momento de seu julgamento pelas autoridades judaicas e romanas. Ao receber Cristo em seu palácio, Pilatos fez a seguinte pergunta: "Que é a verdade?". Tal pergunta revela o espírito da filosofia. O espírito que rege a natureza da existência dos homens. Ora, corroborando com essa inquirição de Pilatos, há alguma verdade? Ou vivemos num mundo de juízos criados por meio de convenções linguísticas? O que é, nesse mesmo sentido, a mentira? 

Não existe uma verdade ou verdades. Toda a contigência é resultado de uma interpretação. Nesse sentido, não há fatos. Somente interpretações, porque as supostas verdades não são coisas em si. O que o homem chama de verdade é, no fundo, a cristalização de um conjunto de códigos que se transformam em consolo psicológico. Enquanto entes que vivemos imersos no devir, somos acometidos pela fatum, em linguagem nieztscheniana. Ou seja, pelo movimento inexorável da vida. O homem não aprendeu a viver com esse fatum e com a possibilidade do sofrimento. Com isso, é necessário inventar para si um "sentido" para que o sofrimento faça sentido em sua existência, no qual o grande absoluto é o movimento. 

Verdade é a própria realidade em que vivemos. Isso é verdade. A natureza é a verdade. O conceito de história, de direito, de verdade, de mentira, são invenções humanas para dar sentido à sua busca por uma âncora onde deposite as suas angústias. Ninguém deve arrogar para si a pretensão de ter a verdade. A verdade não é propriedade de ninguém, porque ela não é algo em si. 

Erigimos nessa luta uma realidade fundada em dualismos - preto e branco, saúde e doença, bem e mal, realidade e aparência. Os julgamentos que fazemos propendem para um lado, pois entedemos que somente um lado da moeda da vida possui uma figura a ser considerada. Aquilo que não se encaixa nessa categoria não é. Em sentido nietszcheniano o corpo é a grande razão. Todos os segredos e potências estão nele adormecidos. O sentido do mundo é construído pela linguagem. A palavra expressa o conceito e o conceito expressa a avaliação, um modo de ver, uma perspectiva.

Quando avaliamos a religião, verificamos que o conteúdo metafísico e espiritual que ela alega carregar não é algo em si. É construto. É a sedimentação de uma linguagem. De metáforas. De metonímias. De símbolos que abrigam a ausência daquilo  mesmo que diz ter e abrigar. Crer é depositar fé em algo que não é, mas que torna-se na força daquilo que digo crê. Então quando digo crê, não creio em algo externo a mim, alguma realidade que é algo em si - absoluto, eterno, guardador da moral etc. Creio numa linguagem que ganha lógica, sentido e coerência por causa da linguagem criada como elemento que passa ser, sem que de fato seja. Então cremos naquilo que criamos. Na força vazia de uma crença que nada é senão força sem conteúdo. 

Para finalizar cito Nietzsche e seu texto Sobre verdade e mentira no sentido extramoral:

O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como mtal, não mais como moedas.

quarta-feira, maio 23, 2012

Aceitar a vida como movimento

É curioso e ao mesmo tempo espantoso ler um filósofo como Nietzsche; ou ler a respeito de um filósofo como Nieztsche. Os textos do alemão possuem tanta força, fúria e beleza, que até mesmo quando escrevem sobre ele, sentimos por tabela as marteladas das frases a quebrarem aquelas paredes enormes que a cultura do senso comum construiu em nós. Lendo o opúsculo de Mauro Araújo de Sousa (Nietzsche: viver intensamente, tornar-se o que é), encontrei uma frase do bigodudo que encheu a minha alma de um entusiasmo atômico. De repente, senti-me o ser mais vivo e perceptivo do mundo. Na tarde fria de Brasília, enquanto caminhava para um compromisso de início de noite, a afirmação do filósofo me fez entender (mais uma vez) o quanto é bom viver; o quanto é bom existir; ser o que se é; afirmar a vida em todo tempo; não ressentir-se. Nietszsche é um filósofo da vida. Fala o filósofo por intermédio do seu Zaratustra:

"Tudo vai, tudo volta; a roda da vida gira sem cessar. Tudo morre; tudo volta a florescer; correm eternamente as estações da vida. Tudo se destrói, tudo se reconstrói, eternamente se edifica a mesma casa da existência. Tudo se desagrega, tudo se saúda outra vez; o anel da vida conserva-se eternamente leal a si mesmo. A todos os momentos a vida principia; ao redor de cada aqui, gira a bola acolá. O centro está em toda parte. O caminho da eternidade é tortuoso".

Ou seja, a única novidade da vida, a única regra, a única verdade, o único absoluto que nos conduz é o movimento. Somos a eterna novidade da vida. Não há obstáculos ou está acima do bem e do mal aquele que aceita a potencialiadora realidade do movimento. Dizer sim à vida é aceitar a diversidade da mesma.

quinta-feira, maio 17, 2012

Uma caixa com sabor ibero-americano

Hoje cedo, ao sair para trabalhar, por volta de seis horas da manhã, o porteiro do prédio onde moro afirmou que havia uma encomenda para mim - na verdade duas! A primeira: um livro de Julio Cabrera (Projeto de Ética Negativa) que comprara há alguns dias ; o segundo: uma caixa com 25 livros da Coleção da Folha - Literatura Ibero-Americana. 

Não regressei para levar o material para casa. Estava em cima da hora. Teria problemas se me detivesse em outras situações. Mas um prazer silencioso se apoderou de mim. Fiquei lembrando a caixa o dia todo. Dentro, 25 volumes de mundos silenciosos, com lombadas roliças e aquele cheiro característico de livro novo.

Por volta das cinco da tarde, ao sair do trabalho, fui esperar minha esposa em um shopping aqui da cidade e, enquanto esperava, acabei indo a uma livraria. Exercício para viciado que fica por horas e horas olhando aquelas lombadas coloridas nas prateleiras. Deti-me numa coleção da José Olympio. E fui fisgado por Hermann e Hesse e Virginia Woolf. Acabei trazendo a inglesa. Gostei de Cenas Londrinas, um livro de crônicas gestadas a partir do olhar da autora de Mrs. Dalloway. Material curto. De 70 a 80 páginas com aquele estilo lancinante da autora inglesa. 

Ao chegar ao prédio onde moro, peguei a caixa e subi feliz. Quando abri a caixa, encontro os livros de autores do mundo latino. Ou seja, aquele mundo ligado por laços históricos e linguísticos - Espanha e Portugal e a galáxia de países da América Latina. Dos 25 livros, possuía apenas dois títulos: As meninas, de Lygia Fagundes Telles e O túnel, de Ernesto Sábato. Alguns outros títulos eu pretendia ler como, por exemplo, Cinzas do Norte, de Milton Hatoum; Suícidios exemplares, de Vila-Matas; Memória de Elefante, de António Lobo Antunes; e Repiração Artificial, de Ricardo Piglia.

Há outros nomes importantes na coleção: Saramago (Ensaio sobre a lucidez); Borges (O livro de areia); Onetti (47 contos de Juan Carlos Onetti);  Roberto Bolaño (Estrela distante). Em suma: estamos diante de um grande empreendimento. Algo realmeente desafiador. 

Os livros são bem encadernados. Possuem capa dura, o que nos dá a impressão de uma edição de luxo. Os desenhos foram bem escolhidos. Realmente de boa qualidade. Penso que a Folha ao publicar estes livros nas bancas, queira se aproveitar do mote do momento: a literatura produzida nos países de origem latina está em alta. Esta semana, morreu o mexicano Carlos Fuentes. Os noticiários anunciaram o acontecido. Achei curioso tal fato. Isso apenas mostra que vivemos um momento em que os escritores desses países se estabeleceram. Porque os países da América Latina eram subdesenvolvidos, achava-se que a literatura também era subdesenvolvida. Em outros tempos, se achava que os bons autores tinham a sua origem no eixo Europa/Estados Unidos. Isso mudou.  Descortina-se um outro cenário.

Para a nossa sorte!

quarta-feira, maio 09, 2012

Breve comentário a uma leitura inicial de A Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire

Quando Paulo Freire escreveu os seus primeiros trabalhos, o contexto mundial era de Guerra Fria. O mundo estava dividido entre americanos e soviéticos. Mesmo com essa divisão, criou-se a ideia de Primeiro Mundo e Terceiro Mundo. O Primeiro Mundo pertencia àquelas nações ricas, desenvolvidas. O Segundo Mundo pertencia aos países socialistas, que não faziam parte do Primeiro Mundo, mas também não poderiam ser classificados como de Terceiro Mundo. E, por fim, do Terceiro Mundo fazia parte aqueles países probres, nos quais as desigualdades sociais e econômicas eram alarmantes. 

A reflexão de Freire tem por finalidade refletir sobre a massa de opressos que vivia à margem nesse chamado Terceiro Mundo. Que eram explorados e consentiam com isso. Por conta disso, ele chamou um dos seus livros (que estou lendo nesse momento) de A Pedagogia do Oprimido. Seu discurso era direcionado aos oprimidos - embora também ao opressor. Analisando o seu texto (docemente poético e ao mesmo tempo visceral porquê trágico), nota-se o quanto permanece atual a reflexão feita no final da década de 60, enquanto estava exilado no Chile. Paulo Freire sempre buscou, dialeticamente, entender a condição do marginalizado, daqueles que nada são e que foram "proibidos de ser".

Gostaria apenas de citar um trecho de A Pedagogia do Orpimido: "Há, por outro lado, em certo momento da experiência existencial dos oprimidos, uma irresistível atração pelo opressor. Pelos seus padrões de vida. Participar destes padrões constitui uma incontida aspiração. na sua alienação querem, a todo custo, parecer com o opressor. Imitá-lo. Seguí-lo. Isto se verifica, sobretudo, nos oprimidos de "classe média", cujo anseio é serem iguais ao "homem ilustre" da chamada classe "superior"".

Notável síntese. Freire fala de uma violência trans-histórica de sedimentação de uma lei, pois "esta violência, como um processo, passa de geração a geração de opressores, que se vão fazendo legatários dela e formando-se no seu clima geral. Este clima cria nos opressores uma consicência fortemente possessiva. Possessiva do mundo e dos homens. Fora da pessoa direta, concreta, material, do mundo e dos homens, os opressores não se podem entender a si mesmos. [...] Daí que tendam a transformar tudo o que os cerca em objetos de seu domínio. A terra, os bens, a produção, a criação dos homens, os homens mesmos, o tempo em que estão os homens, tudo se reduz a objeto de seu comando. Nesta ânsia irrefreada de posse, desenvolvem em si a convicção de que lhes é possível transformar tudo a seu poder compra. Daí a sua concepção estritamente materialista da existência. O dinheiro é a medida de todas as coisas. E o lucro, seu objetivo principal".
Sigamos com a leitura do texto freiriano!

Abaixo, dois vídeos que trazem uma entrevista concedida por Freire em 1997, ano de sua morte.

sábado, maio 05, 2012

Letras esparsas sobre Monsieur Pain de Roberto Bolaño

Roberto Bolaño é a sensação literária do momento. Todos aqueles que se intitulam bons leitores ou curiosos vorazes da literatura já o leram, estão lendo ou fazem projetos para lê-lo; ou também aqueles leitores diletantes e curiosos (meu caso), que tendo uma dívida enorme com o conhecimento da literatura, vão se apropriando tardiamente das novidades do universos mágico do texto literário. Não é para menos. Bolaño é viciante. Diga-se de passagem que ele resgata o lado selvagem da literatura. O lado underground de uma boa narrativa. O chileno consegue fazer um belo coquetel com o estilo borgeano e com Poe, com aquele tipo de texto eivado de mágica onírica e habilidade lancinante para descrever episódios.

Em Monsieur Pain, primeiro livro a que tenho acesso do escritor de 2666 (Raquel de Queiroz o chamaria de cartapácio) e Detetives Selvagens, reparei na beleza dos diálogos. Bolaño parece subverter aquela imagem de Paris como a "cidade das luzes", a cidade da arte; a sempre bela Paris, arrebatadora de gestos apaixonados. O livro escritor por Bolaño como um ensaio literário ainda no início da década de 80, possui uma atmosfera noturna, com becos asfixiantes, uma trama policialesca digna dos grandes escritores ingleses. Pain, o personagem principal da obra, é vítima de uma conspiração e acaba oscilando entre pensamentos filósoficos e terrores aziagos.

A Paris de Pain é aquela do final da década de 30. É Paris de chuvas intermitentes, de noctívagos contumazes. A narrativa nos apresenta ruas estranhas, perseguições, personagens enigmáticos, caminhos tortuososos e bares incidentais onde os personagens se enveredam por conversas habitadas por mistérios, sendo que logo em seguida após o sono da personagem Pain, segue-se o despertamento sempre permeado por uma atmosfera de suspeita de sonho. O clima de perseguição psicológica me faz lembrar de Kafka em O Processo.

Em suma: Bolaño constrói uma narrativa visceral, como na descrição da cena de um galpão abandonado, uma das melhores passagens do livro. A descrição apurada oscila entre o real e o inversossímil. Simplesmente fantástico. Faz suspender a respiração. As pitadas velozes da descrição, mete-nos a impressão de que estamos ali com a personagem.

No dia em que comprei Monsieur Pain na Livraria Cultura, também adquiri Chamadas Telefônicas. Minha intenção era comprar Detetives Selvagens. O vendedor disse-me que na loja não havia nenhum exemplar.  Mas não faz mal. Não foi de todo ruim. Próximas aquisições de livros do mestre chileno: 2666, Putas Assassinas e Detetives Selvagens


Indico ainda como suplemento para que se conheça um pouco mais sobre Monsieur Pain, o comentário escrito por Charlles Campos, sujeito que conhece literatura de maneira profunda. Cada texto que leio do Charlles percebo o quanto preciso me apronfundar nesse universo mágico, no qual Bolaño é um mestre incontestável. Outro leitor voraz de Roberto Bolaño é Cassionei Petry.


quinta-feira, maio 03, 2012

Na natureza selvagem - uma viagem em busca de liberdade

Na natureza mais selvagem não há apenas o material da mais cultivada das vidas e uma espécie de antecipação do resultado final, mas também um refinamento maior do que o homem jamais conseguiu alcançar".
 Henry David Thoreau

Em 2007, o ator e diretor Sean Penn, escreveu o roteiro e dirigiu o filme Na natureza selvagem, baseado no livro homônimo de John Krakauer, que conta história real de Christopher McCandless que se autodenominou de Alxander Supertramp. Assisti a esse longa-metragem na noite de segunda-feira. Mais de duas horas e meia de uma trilha sonora belíssima, escrita por Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam, e de cenas de tirar fôlego. Na natureza selvagem já era um projeto antigo. As pessoas que me haviam indicado o filme o fizeram mais pelo lado estético. Não chegaram a reportar o lado filósofico.

A obra nos lança um debate sobre relação entre vida social e vida natural. O filme é acima de tudo uma viagem ao interior do mundo de McCandless, um jovem rico, de uma inteligência brilhante e inquieta, que larga tudo e se refugia no coração gelado do Alaska e acaba morrendo de inanição. Tal saga tinha por finalidade o delineamento de experiências que deixassem de lado a ganância, a desistabilidade familiar e todo séquito de fatores mesquinhos. McCandlesse constrói um sonho e esse sonho passa a ser a sua grande busca. É necessário viver para aquilo o qual o coração faz pulsar.
Foto do próprio McCandless

O jovem McCandless poderia ser o que ele quisesse. Todavia, a sua grande escolha foi a liberdade. Fica no muito claro na obra, que as suas andanças, aventuras e perquirições buscavam tornar a liberdade um elemento vital. No final da obra, Mc Candless entende que tal sentimento somente tem razão de ser quando proporciona felicidade. "A felicidade só é real quando é compartilhada" - afirmação do próprio McCandless. Felicidade só pode ser felicidade quando vivida ao lado do outro. Ou seja, o outro é a porta dimensional capaz de me levar a experimentar a felicidade como projeto existencial.

O personagem encenado pelo talentoso Emile Hirsch é alguém atraente. Pródigo de ideais. É uma personalidade rebelde. Uma espécie de Thoreau moderno, inadaptado às intenções pequenas e condicionantes do capitalismo. Ele se insurge contra as premissas dos pais, que querem fazer dele um homem médio - desses que andam no fluxo da história; fazem o que todos fazem e acabam fenecendo como reles mortais. McCandless anda na contramão dessa lógica da domesticação. Busca viver no seio da natureza. Lendo Thoreau, os textos morais de Tolstói e, acima de tudo, Jack London (outro viajante inquieto), McCandless acende uma flama em seu coração. Experimenta por mais de 4 meses essa solidão que o remete à liberdade tão sonhada.

Emile Hirsch, no papel de Christopher McCandless
Não contava com o fato de que a lógica da natureza é a imparcialidade. Que ela não está condicionada aos romances. Como disse certa vez o próprio Henry David Thoreau: "A natureza é lenta porém segura; ela é a tartaruga que ganha a corrida pela perseverança". Essa mesma natureza que o personagem ama, é inamistosa. McCandless acabou morrendo de inanição. Ao tentar sair do seu carro-abrigo e procurar auxílio, é supreendido pelo degelo e engrossamento das águas de um rio. Não pode atravessar e aquilo resultou em cerceamento. Após ter voltado, ficou sem comida e teve que se alimentar de ervas. Infelizmente ingeriu uma planta que possuía propriedades venenosas e aquilo resultou em algo que o debilitou até a morte.

O filme nos lança uma importante reflexão intimista. Tudo é feito para nos silenciar. A música gravosa de Eddie Vedder. As cenas de uma América pouco conhecida. Uma América sem o establishment que a constitui. Uma América formada por longas estradas, canyons, rios, hippies e toda uma gama de atores que buscam um outro estilo de vida. A busca existencial e espiritual de MacCandless é corroborada pela frase: "Ao invés de amor, de dinheiro, de fama, de justiça, dê-me a verdade”. O jovem "Supertramp" (algo como "super andarilho") era um inquiridor. Todo aquele que se empenhe em achar o que é a verdade, necessariamente, chegará ao limiar dos portões da liberdade. Foi para isso que McCandless viveu.

Uma das faixas que serviram de trilha sonora para o filme. No vídeo, algumas imagens sobre McCandless.

 

terça-feira, maio 01, 2012

Graciliano Ramos e o "valor enorme das palavras"



Graciliano Ramos é um mundo vasto, mas medido pelas palavras. Da afirmação encontrada em Infância, autobiografia mesclada com elementos fictícios, de que o autor percebeu "o valor enorme das palavras", resta uma explicação para a sua obra tão ajustada, tão arrojada, como aquelas prensas utilizadas pelos nordestinos para tirar o veneno da mandioca e preparar farinha. Graça, como era conhecido pelos mais íntimos, coseu cada vócabulo como estivesse produzindo um tecido raro, medido, para o baile perfeito da literatura. Cada palavra é um tijolo de sustenção, capaz de estruturar magicamente cada um dos seus livros. Se uma palavra for extraída dessa grande estrutura, todo o restante vem abaixo. Nada se torna prescindível. Tudo está lá, posto. A argamassa de Graciliano é a literatura.

Descobri Graciliano Ramos quando estava no final do ensino médio. Ainda lembro do primeiro livro que li: São Bernardo, para mim, a sua obra mais visceral. A introspecção-reflexão de Paulo Honório no último capítulo, não perde para nenhum autor de qualquer lugar do mundo. Aquilo é de fazer chorar. Logo em seguida veio Vidas Secas, o popular tornado em elegante e erudito; e, Memórias do Cárcere, livro que me abriu olhos, deixou-me com uma impressão de que precisava daquele mundo. Em Memórias do Cárcere, percebi o peso de cada uma das palavras. Se em Vidas Secas e São Bernardo houve a preocupação com o sentido da leveza de cada uma das palavras que, juntas, constroem o peso de uma literatura capaz de aturdir, em Memórias do Cárcere a crueza e o ceticismo-realista úmido de cada palavra, lança-nos num mundo de injustiças, caos e na bárbarie dos bichos acossados pela insânia do governo getulista. Em logo em seguida, ainda no ensino médio, li Angústia. O romance me fisgou por completo. O retrato do mofino Luis da Silva dá a Graciliano, o epíteto de "dostoiévski do sertão". Crime e Castigo à brasileira.

A despeito de não ter lido apenas Viagem, conheço o restante das obras do escritor alagoano. Graciliano é uma paixão. Na minha humilde concepção, um dos maiores escritores do século XX aqui no Brasil. Citaria ainda Clarice Lispector e Guimarães Rosa para formular a tríade perfeita da literatura brasileira. O homem do sertão e de alma com impressões agrestes; de fala parca; de gestos sóbrios. Ateu. Indiferente à música. Fumante inveterado marcou a literatura. O filho biógrafo Ricardo Ramos uso o termo "rompante" para descrever esse fenômeno. Ou "diapsão alagoano". O filho privilegiado, que conviveu com o escritor durante pouco mais de vinte anos, afirma que viu o pai chorar apenas em dois episódios: (1) quando do suicídio do filho Márcio; e (2) e a outra foi na ocasião da morte de Stálin, no ano de 1953. 

Este ano, o mundo comemora 120 anos dos nascimento de Graciliano Ramos. Um dos escritores brasileiros mais respeitados do mundo.

Depois comentarei o livro Graciliano - Retrato Fragmentado, de Ricardo Ramos, que chegou à sua nova edição.

domingo, abril 29, 2012

Cinema egípcio e literatura latina - numa noite

(1) Ontem tive a grata experiência de assistir ao filme egipício, que se encontra no Espaço Itáu Cinema aqui em Brasília, Cairo 678. Eu e minha esposa gostamos bastante da obra do diretor Mohamed Diab. O filme é de dois 2010, mas somente chegou ao Brasil por agora. Mohamed Diab narra a difícil realidade das mulheres em seu país. O filme é excelente. Numa sociedade machista, na qual os homens desde pequeno são ensinados a silenciarem e cometerem abusos sexuais contra o sexo feminino no espaço público, três mulheres corajosas buscam se posicionar contra essa opressão. O aviso inicial de que a selvageria cometida contra as mulheres é baseada em fatos reais, deixa-nos com um amargor enorme na boca. Diab consegue reter nossa atenção, prender-nos à poltrona para que sintamos as possibilidades de um cinema que tem a finalidade de ser uma importante arma de denúncia.

Para que se alcanse o respeito, um alto preço é pago. E e justamente o que o diretor tenta mostrar. Uma sociedade egípcia caótica, patriarcal, na qual os homens abusam das mulheres no meio da rua e quando as mulheres buscam denunciar são infamadas. Segundo as informações finais da obra, a selvageria cometida contra as mulheres teve uma atenuante, quando da publicação de uma lei que proíbe o abuso. Belíssima a película. Serve para quem quiser conhecer um pouco mais sobre Oriente. E nos tirar do "lugar-comum". Ou seja, o padrão Hollywood.

Fiquei observando as filas enormes que se formavam para ver o The Avengers (Os vingadores), aquela porcaria hollywoodiana, com heróis com o nome da América e outros parafernálias fantasiosas. As sessões estavam esgotadas. Quando cheguei à sala em que ia passar o filme de Diab, constatei "os gatos pingados". Talvez alguns estivessem ali por não conseguirem ingressos para a sessão dos musculosos heróis. Vivemos uma vida sem poesia. Estéril de impressões artísticas. Falta de sentido. A sensação de enxergar aquilo que gostaríamos de ser, acaba volatizando a consciência de si e nos empurra para a fantasia dos efeitos especiais, com heróis que voam, destroem prédios, sofrem dilemas e salvam o pleneta contra forças infernais.

(2) Outro fato significativo é que fui à Livraria Cultura e comprei três livros que há muito desejava: (1) Chamadas Telefônicas e Monsieur Pain, ambos do escritor chileno Roberto Bolaño; e a biografia da kafkafiana Clarice Lispector, Clarice, escrita no ano passado por Benjamin Moser. Fiquei feliz com a minha noite dividida entre o Oriente distante e proximidade latina de Bolaño.

quarta-feira, abril 25, 2012

Graciliano Ramos, a literatura feita com cipó

Após ter lido as memórias biográficas de Ricardo Ramos ("Graciliano - Retrato Fragmentado", Editora Globo) sobre o pai Graciliano Ramos, bateu-me um senso de proximidade com o escritor alagoano, o maior escritor brasileiro do século XX, junto com Guimarães Rosa. Estou cogitando há alguns dias escrever alguma coisa sobre o autor de Vidas Secas. Mas enquanto início a redação dessas parcas palavras, minha mulher me chama para um compromisso social-familiar. Lamento. Embora tenha que sair, fica-me a certeza de que em Graciliano Ramos, no meio do caminho tinha uma estilo pedra, estilo cipó, estilo sertão.

quinta-feira, abril 19, 2012

“…su cadáver estava lleno de mundo” - por Rubem Alves

Recordo-me que li este texto nos idos de 2003. A primeira vez que o li, fui pertubado pela reflexão contudente e sensata que ele carrega. Estava em um seminário protestante. Estudava para ser um clérigo e após várias leituras que vinha fazendo, cheguei a algumas reflexões. Fui sendo libertado pelo valor da lógica. "O menor contato com lógica, dissolve os raciocínios falhos" (Victor Hugo).  Mas este texto possui um valor sentimental. Quando o li, as minhas convicções e suspeições mais profundas foram estremecidas. Todas vezes que volto a lê-lo, fico com a impressão que esta é uma reflexão com um corte metaliguístico. Encho-me de um saudosismo existencial. Ele fala de mim. É como se ele explicasse a minha jornada. A minha caminhada de ente apaixonado. Mas não se tratava de uma paixão consequente. Eu, simplesmente, não sabia o porquê de estar apaixonado. O peso desse texto passou por cima dos meus eflúvios sentimentais e me deixou em posição indigesta.

Hoje, olhando para trás, não indigno-me por tudo o que vivi. Muito pelo contrário, penso que aquilo foi necessário para que eu aprendesse alguns valores fundamentais. A história é a maior mestra que existe. Olhemos para ela e encontraremos as respostas mais sensatas para aquilo que fomos, somos e seremos. Como diz Rubem Alves: "Caminhante, não existem caminhos. Os caminhos se fazem ao caminhar".

Abaixo, segue o texto de grande valor sentimetal:

“…su cadáver estava lleno de mundo” 

Por Rubem Alves

Eu era jovem e andava por um caminho plano e seguro. Todos os seus detalhes me haviam sido ensinados. Ele estava todo sinalizado com tabuletas para evitar que alguém se perdesse. Em algumas tabuletas se liam “certezas”. Em outras, “proibições”. Certezas e proibições têm importantes funções psicológicas. As certezas nos dizem que já encontramos a verdade. Quem já encontrou a verdade deixa de procurar. As certezas, então, embalam a inteligência que se põe a dormir. É tranqüilizante saber-se possuidor da verdade. Eu vivia tranqüilo. As proibições, por sua vez, nos dizem o que não se pode fazer. Sabendo-se o que não se pode fazer somos libertados da terrível necessidade de tomar decisões. As decisões são necessárias quando nos defrontamos com uma encruzilhada, bifurcação, dois caminhos à nossa frente. Posso tomar o caminho da direita, posso tomar o caminho da esquerda. Mas não há nenhuma tabuleta indicando qual deles conduz ao fim desejado. Toda encruzilhada nos coloca numa situação de incerteza. E a incerteza produz ansiedade: é preciso decidir, sem saber ao certo… Mas se existe uma tabuleta num dos caminhos com a palavra “Proibido”, a dúvida se resolve. A proibição decide por mim. Livro-me, assim, da terrível condição de ser um ser moral – que é, precisamente, a condição de tomar decisões sem ter proibições que decidam por mim. Eu não tinha conflitos morais porque as proibições já haviam tomado as decisões por mim. Assim caminhava eu, dezenove anos, pelo caminho das certezas e proibições, tranqüilo, pelo caminho que levava aos céus. Pois os céus não são o destino dos homens? Tão convencido estava eu do caminho que estava seguindo que até me havia matriculado numa escola onde se ensinam certezas e proibições, um seminário, porque o meu desejo era conduzir as almas pelo caminho que eu seguia.

Aí, o inesperado aconteceu. Um homem apareceu no meu caminho, andando na direção contrária. Perguntei-me, espantado, se ele não se dava conta de estar andando na direção errada. Aí, ao nos aproximarmos, ficamos um diante do outro, e olhei bem dentro dos olhos dele, e vi, refletido como num espelho, um mundo que eu nunca havia visto, o mundo que estava atrás de mim, o mundo do qual eu fugia, em busca dos céus. Olhando bem vi que naquele mundo não havia caminhos. “Caminhante, não há caminhos! Os caminhos se fazem ao caminhar!” E também não havia nem certezas e nem proibições. O que havia eram horizontes, direções, possibilidades, liberdade. E o mundo muito bonito. Me convidava…

O estranho não disse nada. Mas os seus olhos apontaram. E os meus olhos se abriram. Experimentei então os medos e os risos das dúvidas. Pois não é isso que experimenta o alpinista que escala o Aconcágua? O risco da morte bem vale a emoção dos desafios! Os que não suportam dúvidas jamais escalam picos; eles ficam nas planícies andando pelos caminhos conhecidos e seguros. Experimentei a alegria e o sofrimento de ter de tomar decisões sem que ninguém me desse ordens ou proibições, tendo apenas o meu próprio coração como conselheiro. Troquei o caminho que leva aos céus pelos muitos caminhos que levam ao mundo. E assim tenho andado pela vida afora, sem certezas e sem proibições… Tudo por causa do olhar daquele homem…

Ele, o estranho com que me encontrei, viveu aqui em Campinas. E posso dizer que a minha vida se divide em dois períodos: antes de conhecê-lo, depois de conhecê-lo. O seu nome era Richard Shaull. Lembro-me perfeitamente bem: encontramo-nos pela primeira vez na avenida Brasil, próximo ao cruzamento com a rua Frei Antônio de Pádua. Era o ano de 1953. As casas eram poucas, os eucaliptos eram muitos. Não falava português; falava espanhol. Havia sido expulso da Colômbia, por ordens da hierarquia católica. Uma igreja construída sobre verdades e proibições não pode suportar a presença de alguém que ensina dúvidas e liberdade. Viera então para o Brasil como professor do Seminário Presbiteriano, à avenida Brasil, 1.200. Se me perguntarem: “O que foi que você aprendeu com ele?” – a resposta é simples: “Dick Shaull me ensinou a pensar.” Lembro-me de um prova que fiz em uma de suas disciplinas. Eu estava certo de que teria 10, porque a prova tinha sido completa, perfeita. Mas ganhei um 9.0. Fui reclamar. Aleguei que havia escrito precisamente o que ele havia dito nas aulas. Ele me respondeu: “Por isso mesmo. Você apenas repetiu o meu pensamento. Lendo a sua prova eu não aprendi nada. Eu esperava encontrar na prova o seu pensamento…”

Profetas não são videntes que anunciam um futuro que vai acontecer. Profetas são poetas que desenham um futuro que pode acontecer. Profetas sugerem um caminho. Richard Shaull falava de futuros com que nós nunca havíamos sonhado. Ele via o que ninguém mais estava vendo. Em seis meses ele já sabia muito mais sobre o Brasil do que eu. Foi ele que me apresentou a um catolicismo inteligente. Sugeriu que eu lesse A Descoberta do Outro e Lições de Abismo, livros dos anos de lucidez de Gustavo Corção. Foi através dele que fiquei sabendo dos movimentos de renovação que silenciosamente fermentavam dentro da Igreja Católica, a renovação bíblica, a renovação litúrgica, movimentos esses que haveriam de influenciar profundamente o Papa João XXIII – de saudosíssima memória! – e o Concílio do Vaticano II.

Pensador profundamente mergulhado na tradição da Reforma Protestante (celebrada no dia 31 de outubro, data em que Lutero afixou suas “95 Teses”, às portas da catedral de Wittenberg), ele nos ensinou a lição fundamental de teologia: “O problema do céu, Deus já o resolveu por nós. Não há nada que tenhamos de fazer. Resolvido o problema do céu, estamos livres para cuidar da terra, que é o nosso destino…”

Shaull tinha visões de um mundo diferente. Foi o primeiro que me falou da responsabilidade social dos cristãos. Se, para a igreja tradicional o mundo era o lugar da perdição do qual os cristãos deveriam fugir – foi isso que os monges fizeram –, para Shaull o mundo era o lugar da nossa vocação. É preciso estar presente no mundo para que ele se renove, ele dizia. Essa palavra, “presença”: como era importante no seu pensamento! E foi assim que ele liderou um projeto impensável: um grupo de seminaristas, durante as férias, trabalhando como operários numa fábrica na Vila Anastácio, em São Paulo. A inspiração para esse projeto veio de um movimento católico, os “padres operários” que, na França, resolveram parar de esperar que os trabalhadores fossem à igreja, e foram, eles mesmos, até onde eles viviam: as fábricas. Sem o saber, Shaull estava lançando as sementes da “teologia da libertação”.

Cerca de 10 anos antes do Concílio do Vaticano II ele já sonhava com o ecumenismo. Ecumenismo: essa palavra era maldita tanto para protestantes quanto católicos. Para os católicos, donos da verdade, maldita porque os protestantes eram apóstatas. Para os protestantes, donos da verdade, maldita porque os católicos eram idólatras. Inimigos irreconciliáveis, como poderiam católicos e protestantes se assentar para partilhar de uma fé comum e do mesmo ritual eucarístico? Pois o Shaull, andando na direção contrária como convém a um profeta, resolveu transgredir o proibido: organizou encontros secretos com os dominicanos de São Paulo e nos convidou, um pequeno grupo de seminaristas, a participar da conspiração. Sabíamos que se a conspiração fosse descoberta a punição seria certa: seríamos expulsos do seminário. E assim, com uma mistura de medo e de alegria, lá íamos nós com o Shaull, para uma experiência com que jamais havíamos sonhado. Foi bom descobrir que os católicos eram pessoas inteligentes, amantes da Bíblia, fraternas… Até então não sabíamos disso!

Não conheço ninguém que em tão curto espaço de tempo tenha semeado tanto. Não é possível contar tudo. Só posso dizer que um homem que anda na direção contrária não o faz impunemente. Os profetas são seres malditos. Nietzsche, um outro que caminhou na direção contrária, sabia o preço que se paga por ver o que os outros não vêem. Dizia ele: “Os fariseus têm de crucificar aquele que inventa a sua própria virtude”. Aqueles que não vêem odeiam aqueles que vêem. Richard Shaull foi crucificado. As igrejas não o suportaram: expulso da Colômbia, pelos católicos, expulso do Brasil, pelos protestantes…

Agora ele ficou encantado. Partiu. É certo que plantarei uma árvore para ele no meu lugarzinho solitário, no alto de um montanha, à beira de um vulcão, junto com as árvores de outros conspiradores… No silêncio, quando não houver ninguém por perto, as árvores conversarão entre si…

…“Sejamos simples e calmos/ como os regatos e as árvores,/ E Deus amar-nos-á fazendo de nós/ Belos como as árvores e os regatos/ E dar-nos-á verdor na sua primavera,/ E um rio aonde ir ter quando acabemos!” Alberto Caieiro.

* “…su cadáver estava lleno de mundo” . verso de César Vallejo

domingo, abril 15, 2012

A melancolia de um assunto teologal e Jacques Ellul

Jacques Ellul
Ontem fui a um casamento e encontrei um colega que não via há bastante tempo. Em tempos idos, conversavámos incansavelmente sobre teologia. Tratava-se de um grande prazer. Meu colega é um sujeito atilado, leitor curioso e inquiridor contumaz. No passado, anuía à maioria das suas ideias. Quando encontrou comigo já foi sacando seu séquito de novidades. 

Inseriu uma série de temas teologais. Falamos sobre o cenário evangélico. Mas nos fixamos mesmo foi em Jacques Ellul, teólogo, ativista e sociólogo francês, uma das mentes mais privilegiadas dos últimos cinquenta anos. Falou com entusiasmo sobre Ellul. Infelizmente ou felizmente eu nunca li nenhum livro do francês. Recordo-me que no passado fiz planos para ler os livros de o autor de Apocalipse, arquitetura em movimento editados em nosso país. O desejo foi esmaecido pela tempo. De modo que nem lembrava mais do projeto. Uma vez ou outra me vinha à mente o nome do ilustre ativista francês que lutou contra as forças nazistas durante a Segunda Guerra Mundial e se converteu ao cristianismo desde o 22 anos de idade.

Meu colega instigou-me a ler Ellul. Tentei desconversar e fui honesto ao afirmar que não suporto mais aquelas narrativas previsíveis da maioria dos autores intitulados cristãos. A gente sabe aonde aquele ramerrão vai dar. Atualmente, fujo de texto ruim. Ellul parece convincente. Odeio autores aos quais falta imaginação e um senso literário largo. Para não cometer os mesmos sortilégios do passado (e até dá uma chance ao novo), resolvi comprar imediatamente dois livros de Elull - Mudar de posição, o inelutável proletário e Apocalipse, arquitetura em movimento. Outro livro de Ellul a qual estou com uma ânsia muito grande de ler é Técnica e o desafio do século, livro este voltado para o campo da análise sociológica e lido nas principais universidades do nosso país.

Enquanto conversava com o meu colega, fiquei pensando que a teologia é um ramo do conhecimento humano que pode apresentar duas faces: (1) uma face monocromática, ou seja, repleta, arrogantemente, de supostas verdades e achismos peremptórios. É dessa faceta que estou fugindo. Não quero mais as supostas verdades de "cara feia". Aquelas supostas verdades que enfeiam a vida. Que a torna manchada. Repleta de culpa e impossibilidades. (2) a teologia pode se transformar em algo belo, que busca compreender o que é o homem e sua saga pela história, embora as respostas que venha a dar não sejam finalizantes, por que não são algo em si.

Peter Berger diz que "Os significados projetados da atividade humana cristalizam-se num gigantesco e misterioso 'outro mundo', que paira sobre o mundo dos homens como uma realidade alheia". Essa projeção que é criação passa a ter um domínio sobre o homem. E partindo desse raciocínio que Nietzsche vai dizer que "a criação domina o criador". O elemento que cria "o outro mundo" acaba sendo dominado por ele. O fato é que toda esse radical desejo é construído com a linguagem. Ou seja, as palavras podem ser matéria-prima com que constroem mundos.

Richard Dawkins, uma das personalidades mais odiadas pelos religiosos do mundo de hoje, diz que "temos que nos contentar, ao olharmos para um jardim, em vê apenas o jardim". Diz o Dawkins que "há pessoas que inventam ou criam a necessidade de afirmar de que ali há fadas e duendes". Não chego a tamanho radicalismo. Sou daqueles sujeitos "desconfiados" - não no sentido moral. Pelo contrário, penso que há um lugar para a teologia, desde que ela não me venha com sofismas proponentes, pois como diz o Dawkins: sempre há aqueles que gostam de gnomos e fadas e exigem que você veja aquilo que ele está (ou não) vendo. E talvez resida aí o grande equívoco da posição daqueles que aludi acima no primeiro ponto sobre a teologia.


terça-feira, abril 10, 2012

Raul - o início, o meio e o fim - anotações e memórias

No último domingo fui ao cinema assistir ao documentário de Walter Carvalho - Raul - o início, o meio e o fim - e veio à minha cabeça boas recordações de minha adolescência. Durante dois ou três anos seguidos do meu ensino médio, o cantor que mais ouvi foi o Raul Seixas. Havia um colega em minha turma (o Ronivon), que era um verdadeiro maníaco pelo roqueiro baiano. Aquela influência acabou me contagiando. Mas aquela força aos poucos foi arrefecendo. O vento tempestuoso da vontade acabou sendo sofreado pelas investidas do tempo. 

Quando me converti, no final de 1999, ao protestantismo acabei abandonando muitas das músicas que ouvia. E o Raul foi uma dessas vozes que foram silenciadas. Após algumas caminhadas e reveses, esqueci-me de sua música, de sua poesia, de sua mística roqueira. Mas o documentário (que vou comentar mais à frente) fez reavivar em mim uma vontade enorme de revisitá-lo. 

Raul Seixas nasceu em Salvador, no ano de 1945. Quando ainda era adolescente foi abduzido pelo ritmo contagiante do rock n' roll. Tratava-se de uma energia que contaminava corações e mentes. Era uma época de inocência e sonhos. A força do rock fazia com que os jovens mudassem o modo de vestir, de falar, de andar e, principalmente, o modo de se comportar. Ser roqueiro era pertencer a uma contracultura contestadora. Era caminhar pela via oposta. Significava contestar o modus operandis da sociedade. As engrenagens da vida burguesa. Todavia, o rock mesmo era um movimento feito por burgueses e para burgueses. No fundo, era um ato de rebeldia contra os valores instituídos, mas realizado por aqueles que o criaram. Dizia respeito a uma vontade de dizer na cara dos pais: "A vida não é só casamento tradicional. Existem outras experiências a serem vividas". O rock transmitia essa força. Envidava "anarquismos" contra a ordem instituída.
O garoto Raul Seixas entrou em contato com a música de Elvis Presley e aquilo mudou a sua vida. Determinou uma trajetória de existência. O rock sempre esteve nas veias do maluco beleza Raul Seixas - até no dia de sua morte, em 1989. Ele viveu até as últimas consequências as implicações da fama e da queda.

O documentário de Walter Carvalho é imensamente sensato. Não busca caricaturar, nem fornecer uma imagem distorcida do compositor de Gita. Mostra como se deu início da carreira do roqueiro e o fim melancólico no Rio de Janeiro. O documentário buscou dar voz àquelas pessoas que estiveram ao lado do artista - Paulo Coelho, Caetano Veloso, Marcelo Nova, as várias esposas, amigos e tantos outros que fizeram parte da trajetória do roqueiro. 

A obra amplificou algumas reflexões sobre Raul Seixas. O compositor é um artista maldito. Envolveu-se com toda sorte de experiência - tanto as psíquicas, quanto as espirituais. Pode se dizer que Raul Seixas foi um dos maiores artistas da contracultura do século XX. Se fosse americano, quiça sua fama tivesse alcançado alturas mais significativas. Mas o fato é que Raul Seixas ainda é imensamente popular. Seus discos ainda são vendidos. Sua obra ainda é cantada e celebrada por milhares de fãs espalhados pelo país.

O documentário de Walter Carvalho, acredito, chega em hora oportuna, para que os mais jovens conheçam a importância artística de um homem como Raul Seixas e reflitam sobre a poética de suas músicas. 

Quando saí do cinema, no último domingo, a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi ouvir o disco "Há 10 mil anos atrás", de 1976. Muito bom! Recordo que na minha adolescência, um dos discos que mais ouvia era o "Abre-te Sésamo". Músicas como Ouro de Tolo, Só pra variar, Metrô Linha 743, Aluga-se, As minas do Rei Salomão, Meu amigo Pedro ou Eu também vou reclamar são verdadeiras impressões de um artista habilidoso e genial.

Foi bom ter assistido ao documentário. Possui cenas muito curiosas e engraçadas da vida do roqueiro. Dei boas gargalhadas. Raul Seixas conseguia fazer belas ironias e críticas mordazes em pleno regime militar. Ele era um "transgressor" nato. Um verdadeiro "maluco beleza", que vivia dentro da "loucura real".