segunda-feira, julho 16, 2012

Amarelo Manga de Claudio Assis e a tese naturalista

Sábado à tarde eu estava em casa e resolvi assistir a um filme. Selecionei o filme nacional Amarelo Manga (tratava-se de um projeto antigo), de Claudio Assis, de 2002, e me impressionei com o que vi. Hoje, segunda-feira, mesmo estando longe de casa (estou na Serra Gaúcha - Gramado) ainda penso no filme. Amarelo Manga me pareceu um daqueles painéis pintados pelos naturalistas do século XIX; ou um daqueles romances dos quais se convencionou a produzir por escritores brasileiros como Aluísio Azevedo (Casa de Pensão, O cortiço etc) ou Júlio Ribeiro (A carne); ou ainda aquela produção francesa alavancada pro Émile Zola (A besta humana, Naná, Thérese Raquin, Germinal etc). 

Claudio Assis posicionou o seu foco sobre seres anônimos, satélites, escondidos em meio à putrefação. Em meio aos mais escabrosos, grotescos ambientes e antros do Recife, mas que poderiam figurar em qualquer cidade brasileira. Os personagens são suburbanos. Entrelaçam-se na condição vil e isso os torna humanos. Segundo a fala de um padre (padre Jonas, o intelectual do filme) "O ser humano, hem! O ser humano é estômago e sexo. E tem diante de si uma condenação. Terá obrigatoriamente de ser livre. Mas ele mata e se mata com medo de viver". A sua tese é determinista, terrivelmente naturalista e existencialista - uma mistura de Sartre e Schopenhauer. Protistutas, ambulantes, açougueiros, homossexuais, pervertidos, alcóolatras, derrotados mambembes, traficantes, maníacos, funcionário público corrupto, donas de casas são responsáveis pela formatação dos vícios e comportamentos inesperados. O ser humano é uma matéria imprevisível. Desse ser pode advir o absurdo. Mas esse absurdo é uma condição insofismável da própria condição de ser humano.

Existe uma tese de ruína social, já que "a carne" está presente em todos os espaços da obra. Tanto no aspecto real do termo quanto no figurativo. Os homens e mulheres de Amarelo Manga são seres canibais. Entredevoram-se numa teia doentia. Consomem-se. Comem-se socialmente. Existe um desarranjo social em torno de todas as relações. Marxismo, psicanálise e naturalismo se misturam para compô-los. Mesmo dentro dessa suposta anarquia existe um feixe hierárquico que deterimana as relações.

Um exemplo curioso no filme é a personagem Kika, um cristã fervorosa, que busca a virtude. Recata-se. Usa as idumentárias da decência. Busca ser um bom modelo social. Uma esposa fiel. Mas, não tolera a traição. Seu marido Wellington, um machista típico que encarna a imagem do homem nordestino, tem um caso com Daisy, outra personagem suburbana dos arrabaldes. Assim, o personagem deseja Kika para ser a esposa para "a matéria de mesa" e Daisy para "a matéria de cama".

Quando Kika descobre o caso de Wellington com Daisy transforma-se completamente. Assume a sua animalidade oculta pelo tecido da religião e da aparência social. Arranca orelha da desafeta Daisy com uma mordida; sai sem destino, vagabundamente, e entrega-se ao primeiro sujeito que se aproxima dela. Eis aí aquela tese de que do homem pode se esperar qualquer coisa. Que aquilo que vemos esconde outra força que pode vir à tona quando estimulada. Ou seja, o animal que esconde os instintos por trás cortina erguida pela moral. Segundo a obra, "o pudor é a forma mais inteligente de perversão."

Amarelo Manga não é um filme para se ver com a família. É uma obra marginal. Palavrões. O sangue do abatedouro que parece respingar em nosso corpo; o órgão genital ornamentado por pentelhos amarelos, de Lígia (dona do Bar Avenida), sugere a estética do filme. Por que "amarelo manga"? Amarelo, segundo a obra, é a cor da ruína, da podridão; "dos cabos das peixeiras, da enxada e da estrovenga. Do carro de boi, das cangas, dos chapéus envelhecidos, da charque. Amarelo das doenças, das remelas dos olhos dos meninos, das feridas purulentas, dos escarros, das verminoses, das hepatites, das diarréias, dos dentes apodrecidos".

O filme é bastante rico. Cheio de simbolismos e metáforas. Deve ser visto com atenção. Amarelo Manga é daqueles filmes que você ama ou rejeita. É cru. Visceral. Foge daquela estética que visa apenas impressionar o mercado, tendo por finalidade última ser arrematado para um Oscar - nosso eterno sonho.

Em meu simplismo diletante: baita filme!

P.S. tenho outro filme de Claudio Assis. Chama-se Baixio das Bestas (2006) e ganhou vários prêmios nacionais e internarcionais. Pretendo vê-lo o mais rápido possível.

Gramado-RS

sexta-feira, julho 13, 2012

Let there be rock ("Que haja rock")

Algumas pessoas me questionam pelo fato de gostar de música clássica de forma apaixonada (como gosto) e por outro, num paralelismo, gostar, também, de ouvir rock. Rio todas as vezes que escuto isso. Tento explicar que dentro de mim existem vários seres. Aqueles com propensões solares e aqueles com propensões mais eclípticas. Aos solares dou a música clássica; aos eclípticos, o rock n' roll. Somos em magnitude, o real e o aparente. 

Outro explicação é nietzscheana. Penso no apolíneo e no dionísiaco. O apolíneo representa a ordem, a luminosidade, a harmonia. Já o dionísiaco representa o desejo insaciável pela festa, pelo ritmo, pela dança, pela externalização dos instintos mais reprimidos. E talvez a força do rock esteja presente neste último aspecto: as qualidades da música estão na simplicidade e na estrutura pegajosa, que o tornou necessariamente popular. 

Hoje, dia 13 de julho (sexta-feira 13, que ajuda a incrementar o folclore da mística do rock), é convencionado como o "Dia Mundial do Rock!". Abaixo seguem duas músicas de que gosto e servem para incrementar essa força. São músicas que afirmam essa expressão mais aguda do rock: o movimento, o jogo jocoso, a melodia pegajosa e dançante. Considero que essas duas músicas sejam elementos metalinguísticos daquilo que é o rock. Johnny B. Goode é um clássico imortal de Chuck Berry e Let there be rock ("Que haja rock"), do AC/DC, carrega ainda mais essa ideia de o rock é uma música dada pelos deuses.  

Chuck Berry, Jhonny B. Goode
 

AC/DC, Let there be rock

terça-feira, julho 10, 2012

O Moloque Ricardo (uma obra política) - pequenas observações


Li neste último final de semana O moleque Ricardo, de José Lins do Rego. A intenção era ler Usina, mas verifiquei que O moleque Ricardo é o quarto livro de "o ciclo da cana-de-açucar" e decidi postergar a leitura de Usina, livro lançado no ano de 1936, já que temos uma questão cronológica envolvida. Usina é o último livro do "ciclo" criado pelo escritor paraibano. Coisa curiosa é ler os livros de José Lins do Rego. Já pude ler três das suas obras neste ano de 2012. Pretendo ler ainda outros dois - Fogo Morto e Usina - e, quiça, Cangaceiros. Quando tiver lido Usina, concluirei todo "o ciclo da cana-de-açucar".

Escusado é dizer que José Lins do Rego é um dos maiores escritores que já surgiram em terra brasileira. Ele é uma espécie de Marcel Proust nordestino. Um Balzac paraibano. Sabia contar uma história como ninguém; observar as idiossincrasias mais profundas do seu povo. À medida que avançava em seu texto, percebia como existe uma fluência em sua escrita. O texto corre célere como as águas de um richo. Vai embora exatificando por meio de uma transparência incomum os fatos mais caracteríticos da vida do homem nordestino. 

No caso de O Moleque Ricardo, José Lins desejou dar vida a um personagem que atuou como coadjuvante nos outros três romances iniciais do "ciclo" - O menino de Engenho, Doidinho e Bangue. Ricardo atua nas três obras iniciais como aquele que brincava com o "senhozinho rico" da casa-grande - no caso, Carlos de Melo, neto de Zé Paulino, o dono do Santa Rosa. Carlos de Melo após a morte do avó não consegue manter o engenho. A bancarrota acontece de maneira certa. A morte do coronel Zé Paulino simboliza a própria morte do engenho, como se dá em Bangue

Em O Moleque Ricardo, Zé Lins situa os holofotes sobre 'o negro que tinha caráter como o diabo', como o próprio romancista depõe acerca da personagem. Ricardo é antítese da própria vida citadina. É como se José Lins quisesse contrapor os valores da vida rural aos da vida urbana. Ricardo deixa o Engenho Santa Rosa e vai para o Recife tentar a sorte na cidade grande. Lá ele percebe o quanto "os homens pequenos" são pisoteados por uma desigualdade avassaldora. O romance narrado em terceira pessoa, demonstra fortemente o engajamento do romancista refletindo os problemas sociais. Fala-se em Marx, em Lênin, na Rúsia; no operariado; nas associações dos trabalhadores; em greve, em passeata; em comícios. Há em O moleque Ricardo um forte socialismo social, distendendo as forças entre os pequenos e a ganância do Estado na pessoa dos governantes. 

Ricardo representa o bucolismo da cena rural. A bondade do selvagem, uma tese quase rousseauniana, contra a ganância das elites; daqueles que aviltam com a finalidade de obtenção de lucro; que alienam; que vituperam o trabalhador. Um exemplo disso se dá quando um dos empregados de seu Alexandre, dono da padaria onde Ricardo trabalha, é despedido. O patrão após perceber que o empregado havia participado de uma passeata dá as contas do sujeito. Este após ficar sem emprego, vê-se numa situação de penúria e acaba cometendo assaltos para sustentar a família. Ricardo fica sabendo da história e comenta com os amigos. A conclusão a que chegam é que o responsável por aquilo era o patrão, pois deixou o empregado numa situação vulnerável. A ganância da sociedade corrempe e sujeita o trabalhador (o bom homem) à condenação.

Apesar de ser uma obra eminentemente política, O moleque Ricardo é uma obra lírica. Graciliano Ramos disse certa vez que se tratava de uma das maiores obras de ficção de nossa literatura. Há passagens belíssimas. Por exemplo, quando Ricardo e seus companheiros estão sendo enviados para Fernando Noronha, como resultado da punição por causa da greve. Zé Lins utiliza-se do recurso da repetição e imprime um forte toque minimalista e trágico à fala de uma das personagens - Pai Lucas. "Que fizeram eles?" Ao que se responde: "Não se sabe não.". 

É como se Zé Lins inocentasse o negro Ricardo e seus companheiros da sina medonha. Foram presos e seriam deportados para um lugar distante pelo simples fato de desejarem uma vida melhor, mais digna e o resultado foi catastrófico. E o repicar dessa sentença ("Que fizeram eles?" "Não se sabe não.") vai sendo repetido como algo que se perde na distância. Uma representação do navio que transporta a leva de degredados. As metáforas são lindas. As metonímias são exatas. As aliterações mexem com a compreensão. 

Baita livro!


quinta-feira, julho 05, 2012

Livros e uma sensação de pequenez

Às vezes fico pensando no fato de que quem gosta de livros possui uma síndrome fáustica. Mas também chego à conclusão que todo sujeito apaixonado por algo tende a fazer qualquer coisa para se aproximar do objeto do seu desejo. É vício. Inevitável. Vamos juntando e acabamos nos acercando do absurdo. Baixamos a cabeça quando percebemos que o caminho é vasto, quase infinito e que nossos esforços resvalam na totalidade, no contingente, achamo-nos pequenos, bestas, por causa disso. Segundo o Google, há mais de 3 trilhões de livros no mundo inteiro. Número surreal. Inimaginável. Seria a "Biblioteca de Babel" de Borges? Salomão disse certa vez que "não há limites para se fazer livros". 

Está aí! Simples. A vida é limitada e as possibilidades de produção são impensáveis. Nossa vida agitada não nos deixa muito espaço para as leituras queridas. Esprememo-nos no bonde. Fixamos o olhar na folha parda enquanto caminhamos. No intervalo do almoço, tentamos nos concentrar, mas o esforço ainda é insuficiente. Segundo informações, o bibliófilo José Mindlin que chegou perto dos cem anos (viveu 95 anos), leu pouco mais de 8 mil livros em sua vida. Parece um número absurdo para um sujeito médio. Diante dessas limitações fico impaciente.

Escrevo isso apenas, pois há alguns instantes atrás comprei 3 livros pela internet. Esse é um exercício para apaziguar a consciência. Que a minha esposa não saiba. Ela faz oposição a essas minhas aquisições. Ela parece personificar o lado mais conservador da minha psiquê. Sobre a minha mesa estão três livros (e tantos outros na estante) - dois que estou lendo (A beleza Salvará o Mundo - Todorov - e O Moleque Ricardo - José Lins do Rego) e um outro (Doutor Fausto - Thomas Mann) que iniciarei neste final de semana próximo.

Acabei comprando três livros que há muito procurava - Middlemarch - Um estudo da vida provincina - George Eliot; A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristam Shandy - Laurence Sterne (esse eu relutei bastante; preço pouco agradável); e O Som e a Fúria - de William Faulkner. Todo sujeito consciencioso fica com a cabeça povoada pelo cheiro de seu crime. Todavia, esse pecado me torna feliz. Metade de mim é uma baile e, a outra metade, uma noite escura.

Esperemos os livros! A noite é graciosa. A trilha de fundo (Come on Feel - do Lemonheads) é vaga e escandalizante como a luz rala do sol sob o Ártico.

domingo, junho 24, 2012

Pink Floyd e quinquilharias

A fria manhã de Brasília me deixou meio nostálgico. Adoro o frio. Penso que sejam nesses momentos que nos tornamos mais introspectivos. Devo afirmar que tenho uma predileção por esses momentos de recolhimento em mim mesmo. Julguei que fosse oportuno ouvir Meddle do Pink Floyd, álbum de 1971. Na minha opinião, penso que esse seja um dos melhores álbuns gravados pela banda inglesa. Ouvir Pink Floyd é como que está em um sonho. A realidade é vertida e parecemos nos locomover dentro de uma tela de Salvador Dali.

Todas as canções de Meddle beiram o absurdo. Possuem ecos espirituais e existenciais fortíssimos. Por exemplo, a canção A pillow of winds (algo como "Um travesseiro de vento") é uma das canções mais belas do disco. A músia soa como um idílio. Uma canção de ninar que faz adormecer criaturas inocentes.  A letra da música diz:

"Uma nuvem de penas desce ao meu redor
Suavizando o som
Um tempo sonolento quando eu me deito com meu amor ao meu lado
Ela está respirando lentamente, e a vela morre


Quando a noite chega, você fecha a porta
O livro cai no chão
Enquanto a escuridão cai e as ondas passam
As estações mudam, o vento está morno


Neste momento acorda a coruja, neste momento dorme o cisne
Eis um sonho, o sonho se foi
Campos verdes, uma chuva fria
Está caindo na aurora dourada


E profundamente abaixo do solo, o início da amanhã aparece,
e eu me abaixo
Um tempo sonolento quando eu me deito com meu amor ao meu lado
E ela está respirando lentamente
E eu me elevo como um pássaro
Na neblina quando os primeiros raios tocam o céu
E as ventos da noite morrem"
 
E isso  ajuda a colocar mais lenha da minha fogueira de ventos. Gosto desses voos surreais do Pink Floyd. Recordo que na minha adolescência, um dos discos que mais ouvi da banda de Gilmour foi A momentary lapse of reason. Fazendo uma diferenciação entre Meddle e A momentary lapse of reason, verificamos que o primeiro é mais leve, enquanto este último é mais melancólico e turbado por sentimentos eclipsados. 
Hiato. Agora estou ouvindo Fearless ("Destemido"). É uma balada que fala sobre desafios. A última estrofe da música é linda.

[...] "Caminhe, caminhe
Com esperança no seu coração
E você nunca andará sozinho
Você nunca andará sozinho".

Ontem à noite enquanto vagava pelo Youtube, achei um vídeo que muito me fez lembrar dos dias de minha adolescência. O vídeo traz uma das músicas do Floyd e imagens de tirar o fôlego. A canção é Sorrow ("Angústia"), do álbum A momentary lapse of reason. Não deixei de pensar no dinamismo da história. Do movimento constante da natureza. E de como nós, seres humanos, somos excrescências conscientes. Existe uma imparcialidade na natureza. Ou seja, ela existe regida por leis que são dinamizadas por uma dialética. Tudo se movimenta.(Hiato. Agora escuto Echoes ("Ecos") - assustadoramente bela). A natureza caminha a despeito da humanidade.

 Abaixo, o vídeo exibindo as imagens plasmadas à música do Pink Floyd e a voz angustiada e sentenciosa de Gilmour. 

sexta-feira, junho 22, 2012

O neoliberalismo e a morte da Terra

Baita texto do Mauro Santayana. O jornalista fala sobre algo que eu já intuía: o fiasco que foi a Rio+20, sendo que, como já era esperado, o responsável por tal fato vexatório é, no dizer de Santayana, "a peste da ganância do capitalismo". 

Por Mauro Santayana

Não se pode esperar muito da Conferência do Rio. Há quarenta anos que o problema do meio ambiente vem sendo discutido e, nesse tempo, pouco se fez de objetivo a fim de assegurar as condições que a biosfera oferece à Natureza. Ao que parece, o homem está à espera de uma catástrofe – como foi a peste negra, no século 14 – a fim de compreender as dimensões de seus erros. Naquele século emblemático – no qual historiadores encontram semelhanças com o nosso – a população européia quase desapareceu. Pulgas e ratos levaram a peste da Ásia e encontraram o continente vulnerável à bactéria Yersinia pestis: segundo os cálculos, mais de um terço dos europeus pereceram no curso de quatro anos. Como vemos, seres aparentemente tão frágeis são capazes de promover hecatombes.

O que está matando o mundo, hoje, vale repetir, é a peste da ganância do capitalismo, que transformou a razão científica em mera servidora do dinheiro, principalmente a partir do neoliberalismo. Todos nós sabemos que os nutrientes químicos, como o nitrogênio, e agrotóxicos, estão matando os rios e extensões cada vez maiores dos oceanos. A Monsanto continua, firme, em nome da liberdade do mercado, a envenenar os solos e os mananciais de água – isso sem falar nas suas sementes transgênicas. O que já era ruim em 1972, quando se reuniu, em Estocolomo, a Primeira Conferência sobre o Meio-Ambiente, tornou-se muito pior a partir da conjuração anti-estado, promovida por Reagan, Thatcher – e, como coringa solto na jogada, o papa Karol Wojtila. Nestes últimos trinta e dois anos, não obstante as sucessivas declarações de alarme, e três novas conferências realizadas, pouco se fez de objetivo, a fim de salvar a natureza. Assim, o neoliberalismo acelera o assassinato da Terra.

A realidade nos impõe uma constatação: enquanto os Estados Unidos que, para o bem e para o mal, são o modelo da civilização contemporânea, não mudarem a sua matriz energética, e não contiverem a insensatez da bio-engenharia a serviço dos interesses do grande capital, o mundo continuará sua marcha para a tragédia.

Em nosso caso, a salvação da biodiversidade com que nos privilegiou a Natureza e, em seguida, a História, vem correndo novos e evitáveis riscos, a partir do desmantelamento do Estado, promovido pelo governo neoliberal de Fernando Henrique Cardoso.

Desde Getúlio Vargas, o Brasil dispunha de grupos técnicos de planejamento de infraestrutura a médio e longo prazo. Durante o governo de Juscelino, esses grupos se tornaram a vanguarda do desenvolvimento da economia nacional. Os governos militares mantiveram alguns deles, reorganizaram outros e esvaziaram os demais. Um desses grupos, talvez o mais importante para o nosso desenvolvimento, era o Geipot – reorganizado em 1965, durante o governo de Castelo Branco, abandonado por Fernando Henrique e hoje em liquidação. A União teve o prejuízo de 400 milhões de reais na execução das obras da Ferrovia Norte-Sul, por falta de um órgão como o Geipot. O serviço das empreiteiras não foi fiscalizado, dia-a-dia, como deveria ter sido, e erros graves, além da não execução das obras planejadas, como estações e depósitos, foram constatados pela nova diretoria da Valec, a estatal que administra a implantação do grande trecho ferroviário.

Outra imprevisão do governo se manifesta agora, na Hidrelétrica do Jirau. Dois milhões de metros cúbicos de madeira e lenha, retirados da área a ser coberta pelas águas, estão destinados a apodrecer, por falta de aproveitamento econômico. A retirada dessa cobertura vegetal deveria ter sido planejada com antecedência e seu aproveitamento, da mesma forma.

Outras áreas da Amazônia estão sendo desmatadas para a exportação – legal e ilegal – da madeira, com os danos conhecidos ao meio-ambiente. É urgente que se planifique o aproveitamento racional da madeira e dos outros bens naturais existentes nas áreas a serem inundadas nas outras hidrelétricas em construção no território brasileiro. Há, ainda, no fundo da futura represa – cujo enchimento se iniciará ainda este ano – muita cobertura vegetal que, se não retirada a tempo, irá provocar danos imensos ao ambiente, ao produzir metano, um dos gases mais poluidores da atmosfera, além do carbono.

A eficiência do Estado se garante mediante o estudo prévio de suas necessidades e de suas possibilidades, ou seja, de planejamento. Desde o Império, empreendedores e homens de Estado pensaram em termos de planejamento. Até hoje é válido o projeto ferroviário de Mauá, que previa a ligação ferroviária entre o Norte e o Sul, entre o Leste e o Oeste, e o aproveitamento dos rios para o transporte de carga pesada. Vargas, na plataforma eleitoral de 1930, reafirmou a necessidade de planejamento e seguiu a idéia durante o Estado Novo. Vargas retomou o projeto nacional, em 1951 e Juscelino deu-lhe prosseguimento de forma vigorosa, em seu mandato. Com a desconstrução do estado nacional, o governo Fernando Henrique deixou o planejamento por conta das empreiteiras e dos estrangeiros. Vale lembrar a contratação da Booz Allen pelo governo tucano, para “identificar os gargalos” que dificultam o desenvolvimento do país, quando não faltam técnicos competentes nos quadros da administração federal para cuidar do planejamento dos projetos de infra-estrutura no Brasil, como é o caso dos transportes e da energia.

É hora de o Estado assumir diretamente a sua responsabilidade e buscar os meios constitucionais para acabar com as agências reguladoras e devolver aos ministérios as tarefas que devem ser suas. As agências reguladoras foram, nos Estados Unidos de Roosevelt e do New Deal, o instrumento do Estado para conduzir a economia nos anos de crise. No Brasil, elas tiveram o objetivo contrário, o de entregar aos agentes privados, a serviço dos interesses estrangeiros, a administração dos setores estratégicos nacionais, como a energia elétrica, as telecomunicações, as rodovias, as ferrovias e os portos – isso sem falar na saúde, com a Anvisa.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

domingo, junho 17, 2012

A beleza que salvará o mundo

Ao chegar à minha casa ontem à noite, por volta de meia-noite, o porteiro do prédio onde moro afirmou que havia uma mercardoria para mim. Tratava-se na verdade de um livro que eu comprara pela internet no início da semana passada - A beleza salvará o mundo, de Tzvetan Todorov, o renomado ensaísta e literato búlgaro, radicado na França. Fui atraído ao livro por causa do título. Não é que eu escolha os livros que leio pela capa. Mas é que ao ler aquele afirmação (A beleza salvará o mundo) imaginei haver ali um forte dose de reflexão estética sobre o belo e a literatura. 

Ando numa fase na qual as minhas mais firmes convicções em torno do absoluto têm sido repensadas, remodeladas. Construo diariamente uma posição que se aproxima cada vez mais da independência da fé institucional. Ou seja, aquela fé cega, não reflexiva, que é resultado de uma moral de rebanho; uma fé infantilizante; que enfeia o mundo e o transforma num espectro desolado, cujas verdades estão prontas e são capazes de silenciar qualquer postura dialética. Aliás, não existe dialeticidade na fé, já que sua base epistemológica é dualista - é e não é. E ao contrário, penso que o mundo é um belo instrumento onde estão adormecidas as mais belas e suaves melodias. Quando li na orelha no livro as palavras abaixo, mais se aguçou a minha vontade de ler a obra:

"Durante milênios, deram ao absoluto o nome de Deus; após a Revolução Francesa, ele foi trazido à Terra sob a forma de nação, depois de Classe ou Raça. Hoje, vários são aqueles que não se reconhecem nessas formas religiosas e políticas sem, no entanto, pretenderem renunciar ao absoluto. Que cada indivíduo, então, faça sua busca, invente seu caminho.

Três grandes artistas do passado recente, Oscar Wilde, Rainer Maria Rilke e Marina Tsvetaeva, situaram essa aventura no íntimo de suas existências. Insatisfeitos em criar obras inesquecíveis, puseram suas vidas a serviço do belo e da perfeição. Essa busca, porém, conduziu o primeiro à decadência física e psíquica, o segundo à profunda depressão e a terceira ao suicídio". Magistral!

quinta-feira, junho 14, 2012

Rio+20: o grande malogro

Quando se fala em debate sobre meio-amebiente, sempre fico com o beiço enrugado em sinal de grande pessimismo e riso surdo. Começou esta semana a Rio+20, a importante reunião que acontece na cidade do Rio de Janeiro e que reúne as principais economias, líderes goevrnamentais, intelectuais e agremiações não governamentais. O objetivo é claro: debater alaternativas para um desenvolvimento sustentável a fim de coibir o destino nebuloso para o qual o mundo caminha. 

Louvável. Mas à semelhança de Díogenes, rio acidamente de tal atitude. Existe um sentimento arrogante e egoísta no ser humano que o impede de fazer concessões quaisquer que sejam. Sem entrar em questões necessariemente econômicas, penso que a humanidade (leia-se os países ricos) não abrirá/abrirão mão de seu estilo de vida. Atualmente, por mais que haja ingentes avisos, debates, propagandas e alarmes sobre o sinal vermelho que começa a acender com relação ao esgotamento dos recursos naturais, vive-se como esses mesmos recursos fossem infinitos. 

A Terra é vista como um grande armazém de onde somente se tira. É como se tudo existisse para nós. Não nos vemos como seres que compõem a natureza, mas como seres apartados, distintos do mundo natural. Não refletimos que, quando falamos em natureza, a parte faz parte do todo e o todo é importante para a funcionalidade das partes. A humanidade não parou para refletir que somos absurdamente desnecessários para o Planeta; que a Terra poderia/pode continuar (muito bem!) sem qualquer rastro dos seres humanos. A existência do homem não está ligada teleologicamente a uma causalidade divina, mas a uma causa em-si da natureza. 

Surgimos da água. A evolução que nos trouxe até aqui é necessariamente dialética. Mas esquecemos que a natureza que produz é a mesma que, de forma firme e imparcial, pode negar as condições básicas da vida para que ela mesma continue a subsistir. Tudo faz parte de um grande sistema harmônico no qual tudo está interligado. Tudo faz parte de um halo sensível e delicado que nos envolve e da qual, também, fazemos parte. 

No tocante a isso, entendo que esse estilo de vida assentado sobre o consumo e o hedonismo não nos deixa um futuro muito promissor. Queremos cada vez mais. O que temos, em sua maioria, não é resultado de um elemento que compõe a vida, ou seja, algo inextricavelmente vital, mas resultado de uma necessidade forjada. Já não conseguimos viver sem os recursos energéticos do qual dispomos; sem os veículos; sem a maquinaria. Assoreamos rios, matamos florestas porque precisávamos construir novas cidades e novas estradas. 

A nossa paixão, assim como no sonho de Fausto, leva-nos-á à danação. Nosso destino é medonho. Ansiamos pelo inaudito. Namoramos o prazer e o consumo e sem querer estamos atraindo o caos. 

Sendo assim, a Conferência Rio+20 por mais que esteja baseada em célebre intenção não logrará resultados alvissareiros pelo simples fato de que mora a ganância, o hedonismo e a idolatria no coração do homem. O desejo de depredação e de estupro da natureza para que o seu estilo de vida continue. A Confereência não questiona o estilo de vida, mas tenta encontrar outros meios para os atuais padrões continuem e se estendam àqueles que ainda estã ofora do jogo do consumo. Fala-se em crescimento sustentável. Mas deixararíamos de consumir?

A história nos encaminhará para o cadafalço e quando quisermos regressar, então será muito tarde. Nesse dia entederemos, assim como Fausto, que já não temos mais alma, porque o sonho de um mundo melhor morreu nos corredores dos séculos de depredação e vilania. O Capitalismo roubou nosso espírito e decantou nossa capacidade de humanização.


sábado, junho 09, 2012

Thick as a Brick (do Jethro Tull), que disco, meus amigos!

A vida é um grande aprendizado. Quando penso no ser humano, fico duplamente impressionado: (1) o homem é o único ser capaz de produzir cultura e conhecimento. É capaz de inventar linguagens criadoras de sentido para a sua existência e que dão sustentação ao seu mundo. (2) mas é capaz, também, de se encher de orgulho, de viver em postura ufana, sem refletir a sua existência curta e atribulada. A máxima socrática ("Só sei que nada sei") deve morar na consciência de todo homem prudente, pois aquilo que conhecemos é ínfimo ante a grande constelação de saberes que habitam o universo.

Ora, escrevo tais palavras numa tentativa de aliviar a minha situação. Descobri uma das coisas mais sensacionais que já ouvi em toda a minha vida: o álbum Thick as a Brick, do Jethro Tull, um disco conceitual do ano de 1971. O disco é composto por apenas uma canção, cujo título é o mesmo do álbum. No primeiro lado, a música possui quase 23 minutos; já no segundo, possui pouco mais de 21 minutos. É uma grande viagem. Uma cavalgada pelas trilhas de um mundo rico de poesia e inventividade musical. Outro dia passei o dia inteiro (um desses sábados em que estamos em casa) ouvindo Aqualung, outro disco do Tull que é uma viagem sonora. A faixa inicial com aqueles acordes assombrosos produzem um efeito indescrítivel. Mas Thick as a Brick é diferente. Possui uma poesia diferente; um brilho sereno, no qual notamos a força criadora dessa banda inglesa, uma das maiores de todos os tempos.

Ian Anderson é mágico. Aquele som extraído da flauta, faz dele um bruxo produtor de alquimias sonoras incríveis. As melodias suscitadas pela flauta com elementos celtas e folks de Anderson são inigualáveis. A música começa lenta, uma balada serena. Vai encorpando aos poucos e ganha uma consistência na qual notamos a genialidade da banda. Na parte final, o tema se reencontra com a expectativa gerada na parte inicial da música. Até ouvir Thick as a Brick, pensava que a música mais visceral, ou seja, que possuía esta caractérística sideral, era 2112 do Rush, que é uma das canções que mais gosto da banda canadense. A música do álbum de mesmo nome (de 1976) da banda de Geddy Lee, possui pouco mais de dezenove minutos. Mas após ouvir o disco do Jethro Tull aquilo me fisgou por completo.

Agradeço ao Charlles Campos por ter me apresentado (indiretamente) ao Jetrho Tull. Charlles, que banda, meu rapaz!

Abaixo, um vídeo com a perfomance de Anderson.

domingo, junho 03, 2012

O dedo do Lula - por Emir Sader

O texto abaixo merece ser postado, divulgado,  difundido, como uma contudente reflexão. Escrito por um dos intelectuais mais autênticos do Brasil - Emir Sader - aponta o atraso histórico; o ódio purulento dos súcubos dos interesses externos, mas que têm raiva de sua própria história, dos trabalhadores que acordam todos os dias nas periferias e lutam arduam e dignamente para sobreviver num país repleto de desigualdade sociais. O texto mostra retrata a triste realidade do preconceito das elites brasileiras, principalmente, a paulista. O dedo do Lula é uma metáfora da própria classe trabalhadora brasileira. Muito bom!

O dedo do Lula

A sociedade brasileira teve sempre a discriminação como um dos seus pilares. A escravidão, que desqualificava, ao mesmo tempo, os negros e o trabalho – atividade de uma raça considerada inferior – foi constitutiva do Brasil, como economia, como estratificação social e como ideologia.

Uma sociedade que nunca foi majoritariamente branca, teve sempre como ideologia dominante a da elite branca, Sempre presidiram o país, ocuparam os cargos mais importantes nas FFAA, nos bancos, nos ministérios, na direção das grandes empresas, na mídia, na direção dos clubes – em todos os lugares em que se concentra o poder na sociedade, estiveram sempre os brancos.

A elite paulista representa melhor do que qualquer outro setor, esse ranço racista. Nunca assimilaram a Revoluçao de 30, menos ainda o governo do Getúlio. Foram derrotados sistematicamente pelo Getulio e pelos candidatos que ele apoiou. Atribuíam essa derrota aos “marmiteiros”- expressão depreciativa que a direita tinha para os trabalhadores, uma forma explicita de preconceito de classe.

A ideologia separatista de 1932 – que considerava São Paulo “a locomotiva da nação”, o setor dinâmico e trabalhador, que arrastava os vagões preguiçosos e atrasados dos outros estados – nunca deixou de ser o sentimento dominante da elite paulista em relação ao resto do Brasil. Os trabalhadores imigrantes, que construíram a riqueza de Sao Paulo, eram todos “baianos” ou “cabeças chatas”, trabalhadores que sobreviviam morando nas construções – como o personagem que comia gilete, da música do Vinicius e do Carlos Lira, cantada pelo Ari Toledo, com o sugestivo nome de pau-de-arara, outra denominação para os imigrantes nordestinos em Sao Paulo.

A elite paulista foi protagonista essencial nas marchas das senhoras com a igreja e a mídia, que prepararam o clima para o golpe militar e o apoiaram, incluindo o mesmo tipo de campanha de 1932, com doações de joias e outros bens para a “salvação do Brasil”- de que os militares da ditadura eram os agentes salvadores.

Terminada a ditadura, tiveram que conviver com o Lula como líder popular e o Partido dos Trabalhadores, para o qual canalizaram seu ódio de classe e seu racismo. Lula é o personagem preferencial desses sentimentos, porque sintetiza os aspectos que a elite paulista mais detesta: nordestino, não branco, operário, esquerdista, líder popular.

Não bastasse sua imagem de nordestino, de trabalhador, sua linguagem, seu caráter, está sua mão: Lula perdeu um dedo não em um jet-sky, mas na máquina, como operário metalúrgico, em um dos tantos acidentes de trabalho cotidianos, produto da super exploração dos trabalhadores. O dedo de uma mão de operário, acostumado a produzir, a trabalhar na máquina, a viver do seu próprio trabalho, a lutar, a resistir, a organizar os trabalhadores, a batalhar por seus interesses. Está inscrito no corpo do Lula, nos seus gestos, nas suas mãos, sua origem de classe. É insuportável para o racismo da elite paulista.

Essa elite racista teve que conviver com o sucesso dos governos Lula, depois do fracasso do seu queridinho – FHC, que saiu enxotado da presidência – e da sua sucessora, a Dilma. Tem que conviver com a ascensão social dos trabalhadores, dos nordestinos, dos não brancos, da vitória da esquerda, do PT, do Lula, do povo.

O ódio a Lula é um ódio de classe, vem do profundo da burguesia paulista e de setores de classe média que assumem os valores dessa burguesia. O anti-petismo é expressão disso. Os tucanos são sua representação política.
Da discriminação, do racismo, do pânico diante das ascensão das classes populares, do seu desalojo da direção do Estado, que sempre tinham exercido sem contrapontos. Os Cansei, a mídia paulista, os moradores dos Jardins, os adeptos do FHC, do Serra, do Gilmar, dos otavinhos – derrotados, desesperados, racistas, decadentes.

sábado, junho 02, 2012

O estilo de vida e "a bárbarie"

No ano 1 depois de Cristo, a população da Terra era de 300 milhões de habitantes. Mil anos após, a população do Planeta Terra havia chegado a 310 milhões de habitantes. Ou seja, em mil anos a população do mundo havia aumentado em 10 milhões de pessoas. Em 1600, a população havia dobrado para 600 milhões de habitantes. Em 2000, a estimativa era de que a população estivesse em 6 bilhões. E no ano passado o número de habitantes pulou para 7 bilhões. Algo realmente assustador. Crescemos em 10 anos o que não se cresceu em mil anos.

Oscilo entre o otimismo e o pessismismo e, por fim, permito que este último ganhe quando penso no futuro da humanidade e do Planeta. Em meados século XX, Rosa Luxemburgo gritava: "Socialismo ou bárbarie!". Não quero fazer uma defesa do socialismo ou repudiar peremptoriamente o capitalismo. Quero apenas refletir no fato de que o grande problema do mundo não é em si um sistema econômico, mas o próprio homem. O homem é o autor do colapso do Planeta e de si mesmo.

O que o Capitalismo faz é realçar esse egoísmo intrínseco. Adensar uma perspectiva que faz parte da essência do ser humano. O estilo de vida defendido pelo homem é parasitário e faz com que sobre pouco espaço para a manuntenção da vida. Quantas já não foram as espécies extintas por causa do homem? Quantas já não foram as florestas destruídas para que cidades fossem construídas? Quantos não foram os rios e córregos completamente assolados de maneira irresponsável. Já vivemos a "bárbarie" propugnada por Rosa Luxemburgo. 

Quase 1 bilhão de pessoas passam fome em todo mundo. Mais de 1,3 bilhão não têm sequer uma lâmpada em casa. O grande desafio do homem é manter-se vivo à depredação protagonizada por ele mesmo. Criamos um modelo de civilização e acreditamos que ele seja perfeito. Não queremos abrir mão de tudo aquilo que temos. O nosso estilo de vida parece irreversível. Nossas telas de computadores, de celulares, cospem o brilho irrefugável do orgulho; os carros velozes e cada vez mais sofisticados aguçam a velocidade de nossas fantasias. A necessidade de destruição das florestas para plantar, para construir casas, prédios, é cada vez mais premente. O espaço outrora reivindicado por todos os outros seres vivos, tornou-se do homem. 

Somente o homem é capaz de dizer: "Eu sou o dono disso aqui". "Isso é meu!" E com isso, todo o Planeta Terra está sitiado e medido pela ganância. Caminhamos a passos largos para o abismo. A estimativa é que em 2030, a população do mundo chegue a 9 bilhões de pessoas. E algumas perguntas nos surgem: Como vestir essas pessoas? Como alimentar essas pessoas? Como conseguir água? Como será a vida nas grandes cidades?

O Planeta oferece um limite e nós estamos demorando muito para perceber isso. Os economistas anseiam pelo progresso. Falam em "crescimento virtuoso", quando presenciam uma homogeneidade no desenvolvimento. Para eles, progresso é permitir que todos os sujeitos de uma determinada sociedade possam consumir a fim de gerar divisas e capital para uns poucos ficarem mais ricos. Mas para que o abismo civilizacional não chegue cada vez mais próximo, o que devemos fazer? Apostar num estilo de vida mais coerente? Pautar nossa vida num estilo mais responsável? As respostas são pouco otimistas.

O que notamos é que quanto mais o tempo passa, mais percebemos que a velocidade do trem que construímos é louca e inconsequente. Estamos numa ladeira enorme e não queremos enxergar a curva à frente. Enquanto isso, uma festa continua sem que nos preocupemos com as irregularidades do caminho. Os próximos mil anos podem não aparecer.

Música da banda Dave Matthews Band (Don't Drink Water). Belas e perturbadoras imagens.

terça-feira, maio 29, 2012

Morar em sua própria casa

Vivemos em tempos estranhos. Tempos nos quais os homens são cada vez mais adeptos de comportamentos oriundos de uma moral de rebanho. É curioso como condena-se determinadas práticas, mas essas mesmas práticas são repetidas em gestos inconscientes. Vivemos em meios pródigos de agenciadores ou propugnadores de uma ignorância explícita. Nietzsche chamaria essas pessoas de "filisteus da cultura". O "filisteu" é um tipo baixo, responsável por divulgar valores que rebaixam e mediocrizam. Assim, esses filisteus (a mídia, os líderes religiosos, a escola (sic.), os partidos políticos) são responsáveis por criar de tempos em tempos determinados valores para formarem um "rebanho social".

Hoje cedo, enquanto ia para o trabalho, ouvia dois colegiais conversarem sobre o UFC (Ultimate Fighting Championship). Dialogavam sobre "uma última luta". E o quanto aquilo havia sido importante para um deles. Ficara até altas horas da madrugada esperando o combate medonho entre dois brutamontes. Outro dia me pergutaram: "Você gosta de UFC?". Acabei respondendo indelicadamente: "Não gosto de rinhas de galo". O fato é que não vejo a menor diferença entre o famigerado esporte e as rinhas de animais. Na verdade, os esportistas são "galos vitaminados", prontos a se digladiarem num octógono, ou seja, que é, no fundo, uma "jaula de amimais". 

Após ouvir aqueles dois jovens conversando, bateu-me uma profunda desolação por viver em um tempo no qual os espíritos são decantados por uma necssidade acabrestante. E passei a entender que o sujeito verdadeiramente são precisa "ser solitário" num mundo de "ajuntamentos confusos", de "unanimidades estúpidas" em torno de consensos pífios. 

Num período tão povoado por uma moral de rebanho como o nosso, surge a necessidade de um pensamento autêntico, de uma postura que nos exima dos melindres da mediocridade em todos os sentidos. Lembro de uma frase de Nietzsche (epígrafe de A Gaia Ciência). O filósofo chama a atenção para o fato de que "o sujeito de pensamento" não deve se deixar enredar por supostos valores, mas deve morar "em sua própria casa".

"Moro na minha própria casa,
Nunca imitei ninguém,
Rio-me de todos os mestres
Que nunca se riram de si".
(Inscrição sobre minha porta)


sábado, maio 26, 2012

Para que servem os partidos políticos?


Os Partidos Políticos modernos estruturam-se sob dois princípios internos: enquanto organizações voltadas essencialmente para a indicação e a ocupação de cargos no Estado e/ou como partidos ideológicos. No primeiro caso, como define Weber, seu objetivo “será simplesmente o de, através de eleições, colocar o seu dirigente no cargo de direção, para que ele possa transferir os seus seguidores, isto é, os funcionários e os propagandistas do partido para a máquina do Estado”.

Isto é muito claro, principalmente nos países onde a autoridade governamental centra-se na figura do presidente. Basta considerar a quantidade de cargos do primeiro e demais escalões da administração direta, os cargos em fundações, estatais e outras instituições vinculadas ao aparato de Estado. Pense em sua cidade: quantos cargos o prefeito os vereadores têm em mãos para distribuir entre os seguidores e os aliados de primeira e última hora – sem falar no nepotismo que grassa à esquerda e à direita.

Imagine que você é indicado para dirigir uma secretaria municipal, estadual, um ministério ou mesmo a reitoria de uma Universidade Pública. Quantos cargos de confiança você têm para distribuir?

O outro tipo de partido, o partido ideológico, como a social-democracia do século XIX e início deste século, os partidos comunistas, o partido nazista, etc., são facilmente caracterizados e identificados pela postura política-ideológica diante da realidade vigente. Em geral, são partidos que defendem um projeto político-social de longo alcance, uma alternativa ao sistema capitalista ou a defesa intransigente deste e, em certos casos, têm no horizonte a utopia de uma nova sociedade.

Contudo, não há uma separação rígida entre os dois tipos de partidos. A regra geral é que eles se complementem. O partido ideológico, ao aceitar as regras do jogo determinadas pelas instituições burguesas, como a participação em eleições e no parlamento, também objetiva ocupar cargos no aparato de Estado. Este partido mantêm uma retórica ideológica – socialista ou comunista – mas, na realidade, também disputa o butim e a possibilidade de usufruir dos recursos estatais.

Não esqueçamos os partidos ideológicos puros, isto é, os que não se submetem à atividade eleitoral-parlamentar, caracterizando-a como secundária. Historicamente isto só se mostrou possível à medida que tais partidos se mantenham eleitoralmente insignificantes. Tão logo eles conquistem postos no executivo ou no legislativo viverão o dilema apontado por Przeworski: da integração à ordem burguesa que criticam. Manterão a retórica revolucionária, é verdade. Mas, a prática mostrará o oposto: o apego aos cargos e às benesses advindas da ocupação do Estado. Os que se recusam terminantemente em disputar o jogo eleitoral vivem o paradoxo de representarem a si mesmos. Em geral, transformam-se em seitas messiânicas que autojustificam a própria existência.
Os Partidos Políticos diferenciam-se de outras organizações sociais (como os sindicatos, as associações de moradores, etc.) por um simples motivo: arrogam-se o direito de representação dos interesses universais (diferentemente das instituições que defendem interesses corporativos e/ou particularistas) e buscam deliberadamente a conquista e o exercício do poder político. Um partido político que não se coloque este objetivo é anômalo.

Exercer o poder político significa dispor dos recursos disponíveis para a direção e controle da sociedade, de acordo com os objetivos traçados e os interesses econômicos predominantes que influem e condicionam a estrutura partidária.

Além da busca e preservação do poder, os partidos caracterizam-se por se constituírem enquanto organizações cuja existência é geralmente posterior à dos seus dirigentes; pelo fato de estabelecerem uma rede de relações entre os organismos locais, regionais e nacional; e, pela constante preocupação em angariar o apoio popular, seja pela via eleitoral ou de outra forma.

Evidentemente, à maneira do Estado, os partidos precisam aparecer para a massa dos eleitores enquanto defensores dos interesses genéricos e indistintos da comunidade. Nenhum partido cometerá a loucura de afirmar-se defensor dos interesses econômicos dos banqueiros, latifundiários e grupos dominantes. Seus programas políticos defendem, genericamente, o bem comum: saúde, educação, emprego, segurança, etc.

Falam em nome do povo e dos trabalhadores. O discurso se sobrepõe à realidade, à sua história e de suas lideranças; escamoteiam até mesmo sua composição de classe social; adotam nomes que anunciam promessas que nunca serão cumpridas e as siglas escondem seus reais interesses. Em seu propósito de convencer os eleitores e conquistar a legitimidade, utilizam de todos os procedimentos e recursos: fazem planos econômicos à véspera das eleições, mudam a legislação eleitoral de forma casuística, compram o voto, pagam cabos eleitorais, gastam milhões em campanha, disputam os melhores publicitários, os mais capazes em iludir a todos através dos recursos midiáticos.


Os partidos políticos arrogam-se ainda o privilégio de serem os mais importantes, senão os únicos, portadores da ação política coletiva. Fora deles, a política parece não existir. Todos somos obrigados a canalizar nossas expectativas para a instituição partidária – principalmente em épocas eleitorais. Abdicamos da ação política direta e da possibilidade de construção de novos tipos de organizações associativas em nome da representação – concedemos nosso poder de decisão a uma organização totalmente fora do nosso controle ou, o pior, confundimos Política com política partidária.

Por outro lado, vendem-nos a ilusão de que o poder reside essencialmente no ato de votar e não nos interesses e no poder econômico subjacentes ao processo eleitoral e aos vínculos obscuros no pós-eleição. O ilusionismo das campanhas eleitorais nos induzem à aceitação das promessas mirabolantes e das realidades virtuais, ampliando-se assim o fosso entre a realidade objetiva do eleitor-indivíduo e as instituições e políticos que se propõem a representá-lo.

Felizmente, este indivíduo-eleitor tem a capacidade da apreciação e não lhe é difícil verificar que o discurso não corresponde à prática. Infelizmente, já será tarde: o candidato eleito já se entronizou em seu posto de representação, no qual reinará absoluto, pelo menos até a próxima eleição.

Desacreditados e suportados como o mal menor, os partidos e os políticos sobrevivem. Num regime democrático sua função primordial é garantir a seleção de dirigentes, a elite – ou a contra-elite – que governará os nossos destinos. Uns ou outros serão menos ou mais democráticos. Em qualquer caso, nos reservarão o papel de coadjuvantes.

A democracia, mesmo que limitada e adjetivada, favorece o desvendamento das contradições e dos antagonismos escondidos sob a retórica da ordem e do bem comum. Na democracia, os partidos e os políticos são obrigados a se exporem, a dizerem minimamente pelo e para que vieram, condição essencial para garantir o suporte popular em épocas eleitorais.

Também devemos considerar que eles desenvolvem mecanismos de dissimulação. De qualquer forma, é preferível a existência os partidos e das suas disputas – ainda que mesquinhas – à ditadura dos generais de plantão ou do partido único portador da verdade absoluta.

Referências
PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social-democracia. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
WEBER, Max. Parlamento e governo na Alemanha reordenada: crítica política do funcionalismo e da natureza dos partidos. Petrópolis, Vozes, 1993.

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