domingo, fevereiro 16, 2014

Uma crônica inacabada sobre minha viagem a Pernambuco


"Ter pátria é ter razão para chorar"
Mia Couto

Decidi visitar a terra onde nasci. Hesitei por alguns dias. A dúvida surgiu, pois fiquei a pensar sobre qual seria o meio que utilizaria. Divaguei. Decidi, por fim, ir de ônibus. A decisão surgiu após uma caminhada. Fui a uma agência próxima de minha casa e comprei o bilhete. 36 horas na estrada, aboletado em um meio de transporte gerador de cansaço. A questão: "por que ir de ônibus?" Essa era a indagação feita pela minha esposa. Queria reviver momentos. Puxar os nacos adormecidos de experiências vividas de quando eu era criança. Peguei uma rota impensável e estúpida. 

               
Saí de Brasília, no sábado, dia 11 de janeiro, às 14 horas, com destino a Picos, cidade do estado do Piauí. Minha intenção era enxergar as entranhas de um Brasil esquecido, de um Brasil que vive imerso na letargia; queria visualizar a tessitura de uma porção do nosso país que não surge nas novelas da Rede Globo. Premeditei essas intenções pretensas e assim aconteceu.  
                 
O grande desafio de se viajar por muitas horas de ônibus é o cansaço resultante. A posição cacete. As minudências da letargia. As paradas em enxovias repugnantes. Banheiros fétidos. Comida ruim. Tratamento ordinário, dispensado por funcionários mal preparados. Acostumados a lidar com atropelos à clientela, olham-nos como se fôssemos bichos insignificantes que precisam de um favor.
                 
Foto tirada por mim em uma das cidades do Piauí
O Brasil é um país assentado em contrastes. É curioso perceber o Centro-Sul tão desenvolvido e o Nordeste tão atrasado, tão fincado em ignorância e superstições variadas. Há dez anos atrás fiz essa mesma viagem. Naquela ocasião, fiquei por 21 dias no município de Santa Luz, no Piauí, e de lá fui para Pernambuco. Dessa vez, passei pelos mesmos locais que passei daquela vez. Pouca coisa mudou. O ponto positivo está no fato de que as rodovias federais estão em ótimo estado. De Brasília, até a minha cidade, percorrendo mais de dois mil quilômetros, passando por cinco estados - Distrito Federal, Goiás, Bahia, Piauí e Pernambuco – tudo na mais perfeita qualidade. Penso que tenha sido resultado do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) dos governos Lula/Dilma. Todavia, observando como espectador comum, não divisei grandes mudanças na miudeza dos vários municípios pelos quais passei. Tudo na mais intacta inamovibilidade. Há, assim, uma homogeneidade no ontem e no hoje.
                 
Foto tirada por mim da região one fui criado
O Nordeste continua encimado em seu atraso interiorano. Fiquei impressionado com o Piauí. Cidades tacanhas, vilarejos incipientes; o chão gretado; a vegetação rala; rios mortiços; poços de água de um amarelo esverdeado a maior parte do caminho. Ao passar pelo interior de Pernambuco, tentei fazer uma malabarismo mental para arranjar um pensamento de como o povo consegue viver em região tão falta de oportunidades e recursos. Os homens da região vivem zonzos sem terem o que fazer. O brasileiro do Centro-Sul rico, alijado nas esteiras do progresso, antes de criticar as políticas sociais do governo, deveria visitar o interior do Brasil e sair do lugar comum. Existe uma ignorância do brasileiro com relação ao seu próprio país. Não conhecemos satisfatoriamente quem de fato somos e como a nossa história de saques e vilipêndios foi construída. Assim, penso que um dos exercícios mais éticos e cidadãos, de cada brasileiro, deveria ser conhecer o seu país antes de embarcar para a Disney ou Miami.
                 
Somos iludidos com o presente. Fazemos uma crítica sem critérios e sem conhecimento de causa. Nossa história foi construída em meio à violência. O interior do Brasil ainda nos faz lembrar uma Rússia czarista; uma sociedade firmada em compreensões medievais, alicerçada em tradições de outros tempos. Como tudo isso ocorreu? Por meio da violência e da rapinagem econômica. Quando me vem à mente a frase tão conhecida de Euclides da Cunha, autor de Os Sertões - “O sertanejo é antes de tudo um forte” -, passo a ser entendedor do que ele tentou exprimir em sentido amplo. Daqui de onde estou escrevendo essas linhas magras, excessivamente magras, contemplo um sujeito com uma enxada trabalhando no sol inclemente das dez e meia da manhã. Ou seja, o sertanejo arenga, cisma, desfere golpes contra a vida, numa tentativa de sobrevivência. A sua briga com a enxada é uma metáfora da própria existência. O Nordeste já foi a região mais rica do nosso país. Enquanto produzia cana-de-açúcar, sua importância econômica transferiu-se para outro lugar do país.
                
 A mídia cisma em mostrar o Nordeste do litoral, aquele que o mesmo Euclides da Cunha disse que havia uma separação do outro Nordeste do interior. Já estive nesses “dois nordestes” e é nítida a apartação criada pelo capitalismo.
                
Foto tirada do local onde brinquei boa parte de minha infância. A ressonância de tudo isso ainda vive dentro de mim.
 O outro dia assisti a uma palestra de Ariano Suassuna e uma fala dele me chamou atenção. Disse ele que é possível encontrar a Idade Média no Nordeste. Pude atestar isso em dois momentos: (1) enquanto atravessava o interior de Pernambuco e o interior do Piauí (mais naquele do que neste), constatei que cada cidade tem a imagem de um santo ou um padroeiro. Ou seja, existe uma forte resiliência do sertanejo à vontade do sobrenatural. A vontade divina é uma força geradora de temor. O sertanejo leva a sua existência conforme “deus quer”. O catolicismo colocou as suas garras no imaginário do povo e expeliu o veneno de uma superstição medieval, que domina e tangencia a interpretação do mundo. A religião forte balança a vontade do sertanejo. Em nome dela, ele faz romarias; recita falas; declama rezas a fim de amortecer os maus augúrios de um deus carrasco e cheio de dengos. (2) as cantigas. Ontem, enquanto ia para a cidade, tomei uma lotação e fui ouvindo a voz do povo com o propósito de me abeberar das ressonâncias sonoras dos pernambucanos. Na condução, alguém cantava uma espécie de canto triste, melodramático, um repente de dor, que falava de amores não realizados; o tema da melodia tratava de um sujeito que morria por ingerir álcool em excesso por causa de uma paixão não correspondida.
(...)

Escrito e não finalizado, dia 15 de janeiro, no Sítio dos Melos, região pertencente ao município de Vitória de Santo Antão, minha cidade natal, Pernambuco.

P.S. Outro dia encontrei um colega que há muito não via. Ele me indagou sobre as minhas férias. Quando contei sobre a viagem que fizera, ele disse que isso é coisa de pessoal de "esquerda", não deixei de dar uma boa risada.


domingo, fevereiro 09, 2014

"As veias abertas da América Latina", de Eduardo Galeano, algumas palavras após a leitura

"A história é um profeta com o olhar voltado para trás: pelo que foi, e contra o que foi, anuncia o que será" - Eduardo Galeano

Sempre tive a intenção de ler As veias abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, um clássico sobre economia, história e política. O livro foi escrito no início da década de setenta, mas é "lamentável", como diz o próprio autor no posfácio para edição de 2010 da L&PM (que li), que ele continue "atual" em sua denúncia incisiva. Trata-se de obra que encontrou, ao longo de mais de quarenta anos, inúmeros desafetos. À época das ditaduras explícitas, a obra foi proibida em países como Uruguai, Chile e Argentina. Ainda ontem, li uma resenha de um blog da Veja, que falava da ocasião em que ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, em 2009, presenteou Barak Obama, seu desafeto ideológico, com um exemplar de As veias abertas, autografado por Galeano. Aquilo gerou um celeuma nos Estados Unidos, guindando o livro para a lista dos mais vendidos em menos de 24 horas, na toda poderosa Amazon.

O jornalista, em seu forte tom de ojeriza, defenestrou o uruguaio. Chamou-o de "herbívoro" ideológico. Segundo ele, Galeano apenas afirma cataclismos em sua obra; põe o continente em uma posição de nanismo; é como se tivesse surgido para perder. O livro é viciado em seu problema de estima. E dizia que o Brasil hoje é o líder da região, exaltando a posição hegemônica do país, sem se importar com o resto do continente, como se não tivéssemos nada em comum. Sua posição era firme no sentido de ridicularizar as informações trabalhadas por Galeano e seu forte diagnóstico contra a exploração secular a qual a América Latina vem sendo submetida em mais de quinhentos anos de história. Seu asco ideológico, como se pode perceber, não enxergou méritos na pesquisa do uruguaio; não estava interessado em analisar o nosso passado comum e nossa condição de países periféricos; é como se o passado em suas dores de sangue não contassem. A resenha do jornalista em seu forte tom de mofa, até mesmo questiona o fato de Galeano, um escritor branco e de olhos verdes, tomar a dianteira e se arvorar a ser o porta-voz do continente. Não sei se se tratava de ignorância ou desonestidade intelectual.

O fato é que As veias abertas é um texto apaixonado e apaixonante. Apesar ter por intenção fazer a denúncia do estupro sofrido pela América Latina ao longo do seu curso histórico, o texto se mostra leve, repleto de metáforas, de construções que primam pelo valor poético. Ou seja, foge do hermetismo dos laureados intelectuais e acadêmicos alambicados, que gostam de enviesar sentenças a fim de serem admiradores como profundos e difíceis. O texto de Galeano, talvez, tenha alçado a perenidade pela simplicidade. A simplicidade aqui citada não passa pelo simplismo. Galeano mostra o quão respeitável foi sua pesquisa pela quantidade de fontes citadas. Ele não se limitou apenas com as traduções do seu país. Percebe-se de forma clara que ele viajou para os locais os quais citou. Tanto é assim que as citações que surgem no livro dizem respeito ao país da qual ele fala. Por exemplo, se ele fala do Brasil, utiliza Darcy Ribeiro, Celso Furtado ou Caio prado Jr. - e assim por diante.

A tese do livro é simples: Galeano mostra como a América Latina desde sua origem é refém da gana parasitária dos países europeus - primeiramente Portugal e Espanha; logo em seguida, Inglaterra; e nos dias atuais, Estados Unidos da América. O escritor nos revela como se deu o criminoso extermínio de civilizações como a asteca por Hérnan Cortés, espanhol cujo interesse era levar o possível ouro do México para a Espanha; maia e inca. O contato do homem pré-colombiano foi traumático. O europeu não trouxe apenas a ganância; trouxe também a peste, o sarampo, e tantas outras enfermidades desconhecidas pelos nativos. É contado ainda como as índias foram estupradas, violadas, pela lascívia impudica dos colonizadores.

Galeano revela ainda como se deram os ciclos econômicos do continente. O Brasil, por exemplo, desde o início sempre foi visto como uma mina que tinha que dar tesouros a Portugal. Tanto é assim que nunca houve a tentativa de desenvolvimento de uma economia interna por aqui. Tal fenômeno se alastrou pela América Latina inteira. Nenhum país teve o pleno desenvolvimento econômico. Todos deveriam exportar suas riquezas para enriquecer a metrópole. Portugal primeiramente viu que a cana-de-açucar era o produto lucrativo e, por isso, alastrou essa monocultura no Nordeste brasileiro, uma das regiões mais ricas do mundo em pleno século XVI. Tal fato, como alega Galeano, foi um tragédia para o Nordeste, pois segundo ele, uma região que vive da monocultura passa por grande ameaça ("O povo que confia sua subsistência a uma só produto, suicida-se" - José Martí, herói nacional de Cuba). Se a monocultura entrar em colapso, a derrocada é absoluta. Isso se deu com o Nordeste. Os holandeses conseguiram desenvolver técnicas mais apuradas de plantio e produção de cana-de-açucar e tiraram o monopólio de Portugal. A proximidade física com a Europa também privilegiou o sucesso dos holandeses. Com o fim do ciclo glorioso da cana-de-açucar, o centro econômico migrou para o Centro Sul do Brasil, o que fez com que o outrora faustoso Nordeste dos coronéis e dos engenhos, ficasse à míngua com suas superstições e o povo em estado de penúria.

Tanto é assim, que segundo Galeano, a Guerra do Paraguai foi um dos episódios de maior comicidade e tragicidade da vida do continente. À época em que o tacão hegemônico do capital havia migrado de pólo e deixado Portugal e Espanha, o continente caiu nas mãos de outro explorador mais ardiloso e esperto - a Inglaterra. O capitalismo em seu estágio evolutivo e fortemente desenvolvido na Inglaterra, que passava pelo sucesso de seu ciclo industrializante, "exportou" a ideia de "livre mercado". Como era o país mais poderoso da época, a Inglaterra mandava economicamente no mundo. O Paraguai havia conseguido desenvolver uma relativa autonomia econômica, a exceção do continente. Havia conseguido, por conta própria, firmar de forma competente o desenvolvimento de um mercado interno, uma indústria incipiente, mas que dava conta das demandas nacionais. Era um dos países mais prósperos do continente. Ou seja, não dependia da economia inglesa - e nem comprava os produtos industrializados da terra da rainha. Era uma ameaça. Outros países poderiam, também, fazer "o dever de casa" que o país havia feito, o que constituía um grande perigo para os ingleses. A Inglaterra procurava meios para colocar o Paraguai em sua zona de influência. A guerra foi a oportunidade de ouro que ela teve. Brasil, Argentina e Uruguai se uniram para lutar contra os paraguaios. A Inglaterra, por sua vez, financiou a guerra. Emprestou dinheiro aos três países. Como era de se esperar, o Paraguai perdeu o conflito. Teve boa parte de sua população dizimada; suas indústrias nascedouras arruinadas; sua oportunidade de despontar como país rico, mutilada; e pedaços de seu país, "saqueados" como despojos de guerra. O fato é que, ao final, os ingleses possuíam quatro vítimas - três países endividados e com a sensação de que eram "vitoriosos" e um outro completamente desmantelado, como se pode ver ainda hoje. 

Atualmente, o Estados Unidos exercem a sua influência sobre a América Latina. Suas garras de aço estão "enfiadas" na garganta do continente. Sua arrogância e sua interesse são extremos. Ele teve uma colonização diversa daquele que teve seus vizinhos. Seu crescimento se deu de forma grandiosa. Se apropriou de extensões de terra que no passado pertenceram ao México - mais de quarenta por cento do território mexicano. Suas multinacionais estão em toda parte. Sua necessidade pelo minerais do continente; sua ânsia por petróleo; sua força imoral; seu protecionismo exagerado. São defensores radicais do livre mercado, mas não permitem que os produtos dos outros países invadam o seu mercado. Semeiam bancos por todo o continente, mas proíbem que um cidadão americano deposite dinheiro em um banco que não seja americano. Foram os grandes financiadores da ditaduras do continente, projetos políticos esses que mataram milhões de cidadãos e deixou uma herança de atraso de reacionarismo conservador no continente.

O livro é de leitura obrigatória para todo aquele que deseja conhecer melhor a história comum do continente. Há mais coisas que nos unem do que nos separa. É por isso, que Galeano diz que o livro não perdeu a sua "atualidade" - infelizmente. Nesse sentido, as veias, os tecidos, os músculos, os sentidos continuam sangrando, derramando dor e uma agonia asfixiada. São por descrições como essas que o livro se mostra tão contundente e relevante. Com certeza, o jornalista que fez a crítica ao livro estava equivocado. Ou ele não leu o livro ou agiu como a má fé tão costumeira da direita, que nega a história, pois como diz Galeano: "Os meios de comunicação estão a serviço de uma visão conformista história".

quinta-feira, fevereiro 06, 2014

O anti-esquedismo nosso de cada dia

Li há pouco o artigo de opinião do jornalista  José Antonio Lima, da Carta Capital, sobre o medo do comunismo no Brasil. E gostei bastante do texto. Ele faz cinco apontamentos sobre o medo saliente, que ainda vigora por aqui, sobre uma suposta "invasão comunista" em nosso país tão combalido. Existem alguns elementos que, com certeza, corroboram para a manutenção e sustentação desse estado de coisas. Afinal, somos um país imensamente conservador. Por aqui, historicamente, foi feito um trabalho de desqualificação dos movimentos sociais. Um forte empreendimento da mídia, a serviço dos interesses daqueles que estão no poder, para que os trabalhadores não entendam a sua condição.

Não houve na história do Brasil revoluções sangrentas. Conflitos dramáticos. O nosso Estado sempre esteve a serviço das elites. Como diz Caio Prado Júnior, o nosso país não passou por "rupturas" que trouxeram compensação e liberdade para os pobres. E, atualmente, existe uma estandardização, uma homogeneização forçada por parte do capital. O "homem burguês", nomenclatura sugerida por Leandro Konder em seu excelente livro "Os sofrimentos do homem burguês", fazendo uma referência intertextual explícita ao famoso romance de Goethe, "Os sofrimentos do Jovem Werther", é um sujeito domesticado, docilizado, por uma falsa impressão de que é livre. Sua função é consumir mercadorias, que são produzidas para gerar expectativas e fetiches. 

A onda anti-esquerdizante que ultimamente tem acometido o Brasil é resultado da ausência de um acerto de contas com a nossa história, como sugere o colunista da Carta Capital. Costumo acompanhar os comentários em fóruns, em blogs, em textos de opiniões, em vídeos do Youtube e tenho me impressionando com o reacionarismo raivoso que vigora em nosso país. O anti-esquerdismo se vincula a um antipetismo, que leva a rechaçar qualquer referência às ideias de Marx. Tornam-se cada vez mais famosos conservadores radicais e fascistas como Olavo de Carvalho e Rachel Sheherazade. O olavismo está cada dia mais forte. Seu famigerado livro, "O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota", vende como água. Outro livro, "Esquerda Caviar", de Rodrigo Constantino, tem feito salivar a boca dos empedernidos radicais. Ou ainda "Porque virei à direita", livro cuja propaganda alardeia o porquê de três "intelectuais" (João Pereira Coutinho, Luiz Filipe Pondé e Denis Rosenfield) terem deixado a esquerda. Os argumentos de obras como as citadas não estão pautadas em uma análise dialética dos fatos, criticamente, historicamente. A arma da esquerda é a análise pautada no materialismo histórico dialético; a, da direita, a análise moral e cultural da história. O corte é feito em cima de supostas situações causadoras de constrangimentos para a esquerda como, por exemplo, os milhões de mortos pelo regime stalinista; o regime cubano; o muro de Berlim; o governo da Coreia do Norte, etc. Ou seja, a estandardização é absoluta. Não se quer saber se tais eventos estão ligados à teoria de Marx. Joga-se fora a criança e a água suja da bacia. Não se separam os fatos. 

Protesto dos chamados black blocs, que são os filhotes da pós-modernidade
Cada vez mais vemos nascer um radicalismo perigoso que isola a proteção aos direitos sociais, os códigos internacionais que explanam os direitos humanos e que nos tornam ainda humanos - e próximos um dos outros. A mídia tem feito um trabalho de criação de um espírito de hecatombe. É como se vivêssemos no pior dos mundos. É como se já experimentássemos aquele evento bíblico-mágico: o armagedom. Vivendo em cidades cada vez mais cheias e carregadas de problemas, o homem burguês sofre com a própria sociedade que ele ajuda a criar com o seu sangue. Não percebe que a mudança desse estado só é possível com a transposição ou a superação desse estilo de vida que foi criado. Em nosso país não é diferente. O grande problema é que nos aproximamos cada vez mais de um tipo de radicalismo perigoso: que é o fascista, aquele que não é capaz de reconhecer o outro como um igual. Aproximamo-nos cada vez mais da barbárie.

O ano passado vi esse trio em frente ao Palácio do Planalto com um cartaz que rezava: "Intervenção Militar já!! O Brasil exige ordem e progresso". Nada mais perigoso: unir militarismo e positivismo.
Somos uma democracia frágil. A burguesia brasileira sente-se atingida com os governos de Lula e Dilma, pois sempre idolatrizou o modelo dos países centrais - não quero fazer defesa ao governo do PT, pois entendo que o Partido dos Trabalhadores se afastou em muito de sua agenda histórica. Por sua vez, a classe média brasileira é admiradora daqueles que ditam as regras do jogo. É aquilo que Paulo Freire costumava dizer: "O sonho de todo oprimido é tornar-se opressor". A ditadura militar fez um trabalho de domesticação muito eficaz em nosso país, criando um espírito anti-esquerdista. Desmobilizou a nossa resistência à opressão. Criou um medo falso de que comunista é aquele que comia criancinhas; eram sujeitos feios e barbudos; e que trariam a desordem ao mundo. Em seu delírio cego para rechaçar as intenções políticas de João Gourlart, que era um suposto comunista para eles, acabou por criar um espírito de desconfiança ante tudo aquilo que se diga de esquerda. Hoje ainda temos essa imagem. O PT sempre foi associado a isso, apesar de não ser um partido comunista. O PT é, no máximo, aquilo que poderíamos chamar de partido social-democrata. Suas intenções iniciais talvez tenham sido "vermelhas", pois foi um partido que surgiu do seio dos movimentos sociais. E uma das "broncas" da classe média é, justamente, a associação do PT com comunismo. Ela não consegue aceitar esse fato, sem atentar para a lavagem cerebral histórica da qual é vítima.

Somos ainda uma sociedade confusa. A mídia e as redes sociais ajudam construir essa atmosfera de desordem. Não sabemos nos reconhecer. Existem muitas opiniões que saltam do lugar comum. E todas elas servem para alimentar aquilo que mais nos destrói: a nossa ignorância histórica. A nossa falta de visão para enxergar de onde vem o problema - a saber, do próprio capitalismo. Socialismo, conforme pensado por Marx, não é ditadura, é humanismo, bom senso e equidade. E como precisamos disso em nosso país!

domingo, fevereiro 02, 2014

Rosa Luxemburgo - algumas palavras

"Ser humano significa lançar, se for preciso, toda sua vida, alegremente, 'sobre grande balança do destino' [Goethe], mas, ao mesmo tempo, alegrar-se com cada dia de sol, com cada bela nuvem". 
Rosa Luxembugo, in Carta a Mathilde Wurm, Wronke, 28 de dezembro de 1916

Rosa Luxemburgo ainda é pouco conhecida em nosso país. A efervescência elétrica de suas ideias e sua atuação militante são ainda desconhecidas por muitas pessoas interessadas no pensamento político do século XX. Rosa tem um importância capital para as ações, principalmente, que começaram a ser gestadas a partir de sua morte, em 1919, na Alemanha. Caso tivesse obtido resultado positivo a Revolução Alemã, de 1918, talvez o mundo não tivesse conhecido um flagelo demente como Hitler.

Analisando a vida de Rosa a partir da leitura do livro Rosa Luxemburgo - Vida e obra, de Isabel Maria Loureiro - uma das grandes autoridades brasileiras no pensamento da filósofa e revolucionária -, é possível atestar o dinamismo revolucionário da polonesa, que se tornou doutora aos dezenove anos de idade; casou-se com um alemão como estratégia para conseguir a cidadania alemã para participar dos embates do momento histórico daquele país completamente esfacelado, humilhado e dilacerado pela guerra ; que não fugia de participar ativamente dos embates da luta pelo comunismo na Europa nas duas primeiras décadas do século XX. 

Rosa era uma mulher de uma sensibilidade profunda. Lendo uma de suas cartas, encontradas no livro de Isabel Loureiro, pude perceber o quanto a fundadora do Partido Comunista Alemão possuía uma intuição poética rara. A carta foi escrita à sua amiga Sonia Liebknecht, pela ocasião do Natal de 1917. Rosa estava presa. Todavia, os seus sentidos estavam despertos e livres: ela nota o pigarro do guarda, que "dá alguns passos lentos para desentorpecer as pernas". Ela diz que o momento era singular, estando "deitada", "sozinha", "enrolada nos véus negros das trevas", "do tédio", "da falta de liberdade", "do inverno". Todavia, ela sentia uma alegria incomensurável; e ficava perscrutando, à cata de explicações para aquilo que sentia; e não encontrava nada; o sorriso tinha que ser dirigido para algum lugar e ela acabava rindo de si mesma.

Outra descrição de lhana beleza é reflexão que ela faz dos sofrimentos de alguns búfalos que foram trazidos da Romênia e que perderam a liberdade, assim como ela. Ela escreve assim: 

"Outro dia, chegou uma dessas carroças, puxada não por cavalos, mas por búfalos. Era a primeira vez que via esses animais de perto. São mais fortes e maiores que nossos bois, têm cabeça chata, chifres recurvados e baixos, o que faz com que sua cabeça, inteiramente negra, de grandes olhos meigos, se pareça com as dos nossos carneiros. Originários da Romênia são um troféu de guerra... Os soldados que conduziam a carroça diziam ser muito difícil capturar esses animais selvagens e ainda mais difícil utilizá-los para carregar fardos, pois estavam acostumados à liberdade. [...] Há alguns dias, portanto, entrou no pátio uma dessas carroças cheias de sacos. A carga era tão alta que os búfalos não conseguiam transpor a soleira do portão. O soldado que os acompanhava, um tipo brutal, pôs-se a bater-lhes de tal maneira com grosso cabo do seu chicote que a vigia da prisão, indignada, perguntou-lhe se não tinha pena dos animais. [...] Os animais deram finalmente um puxão e conseguiram transpor o obstáculo, mas um deles sangrava... [...] Durante o descarregamento, os animais permaneciam imóveis, esgotados, e um deles, o que sangrava, olhava em frente com uma expressão no rosto negro e nos meigos olhos de criança em prantos. Era exatamente a expressão de uma criança que foi severamente punida e que não sabe por qual motivo nem porque, que não sabe como escapar ao sofrimento e a essa força brutal... Eu estava diante dele, o animal me olhava, as lágrimas saltaram-me dos olhos, eram as suas lágrimas. Ninguém pode ficar mais mais dolorosamente amargurado com a dor de um irmão querido do que eu, na minha impotência, com esse sofrimento mudo. Quão longe, inatingíveis, perdidas as pastagens da Romênia, suculentas e verdades, belas e livres! Como tudo era diferente, o Sol que brilhava, o vento soprando, os belos cantos dos pássaros e o melodioso chamado do pastor. E aqui, esta cidade estrangeira, horrível, o estábulo sombrio, o feno mofado, repugnante, misturado com a palha apodrecida, os homens desconhecidos, assustadores, e as pancadas, o sangue que corre da ferida aberta... Oh! meu pobre irmão querido, aqui estamos os dois impotentes e mudos, unidos na dor, na impotência, na saudade".
Rosa discursando para operários

Talvez, aqui, Rosa pressagiasse em dimensões mais atordoantes os sofrimentos as quais os nazistas impingiriam aos judeus nos campos de concentração. Talvez, o búfalo sirva de metáfora para todos aqueles que padeceram com os vários e diabólicos totalitarismos inexplicáveis e injustificados. Penso que percepção de Rosa no contemplar desse evento com o búfalo, declare aquilo que foi a sua vida. Hannah Arendt em seu livro Homens em tempos sombrios, cuja finalidade é estudar a personalidade de homens notórios, diz que existem inúmeros "mitos" e "lendas" em torno da figura emblemática de Rosa Luxemburgo. "Entretanto, o que não cresceu foi uma outra lenda - a imagem sentimentalizada da observadora de pássaros e amantes de flores, uma mulher de quem os carcereiros se despediam com lágrimas nos olhos, ao deixar a prisão como se não pudessem continuar a existir sem se entreterem com essa estranha prisioneira que insistira em tratá-los como seres humanos".

O socialismo de Rosa primava pela autogestão das massas. Para ela, a experiência histórica é o único mestre a que se deve prestar atenção. E esse mestre nunca falha. Ou seja, as massas aprendem com seus próprios equívocos, avanços e recuos; o movimento dialético dita a ação a ser tomada. Rosa, nesse sentido, destoa do centralismo leninista, que entendia que as decisões da ditadura do proletariado brotavam do núcleo duro do partido. Rosa, por sua vez, defendia um "socialismo conselhista". A burocracia do partido criava uma torre de prepotência por parte de alguns líderes metidos a supostos revolucionários. E aqui cabe uma pergunta: o que ela diria do stalinismo? 

Todavia, a luta pelo socialismo na Alemanha não foi fácil. Grupos paramilitares e reacionários brotavam como erva daninha. Entre eles se sobressaíam os ultranacionalistas e clandestinos Freikorps, cujos principais líderes foram cooptados por Hitler para formar sua tropa canina particular, a SS. Rosa foi detida e covardemente assassinada em janeiro de 1919, juntamente com o seu companheiro de luta Karl Libknecht. Seu corpo foi jogado em um rio das proximidades. Todavia, os restos mortais de Rosa foram encontrados somente em julho daquele mesmo ano. A morte Rosa e a impossibilidade de construção do socialismo na Alemanha, representa a vitória do nazismo de Hitler.

Analisando a epígrafe com a qual abri este texto magro, entendo, a partir da leitura que fiz do texto de Hannah Arendt e Isabel Loureiro, que Rosa Luxemburgo era uma mulher de espírito livre. Ela poderia ter abraçado qualquer causa. Costumava dizer sobre si mesma, como quem dá um sorriso meio sério, meio de brincadeira, que nascera para "cuidar dos gansos". Ela mesma era uma "águia", como Lênin a denominava. E assim, sentiu-se atraída pelo socialismo que, segundo ela, criava a necessidade de "autodisciplina interior, maturidade intelectual, seriedade moral, senso de dignidade e de responsabilidade, todo renascimento interior do proletário". Ainda dando continuidade a esse pensamento, ela entendia que "com homens preguiçosos, levianos, egoístas, irrefletidos e indiferentes não se pode realizar o socialismo". Refletindo sobre essas palavras - e analisando a situação atual do nosso país - quão aquém estamos dessa realidade A existência sob o capitalismo, tal qual vivemos, embrutece-nos, cerceia a capacidade da solidariedade; fragmenta o nosso zelo moral e nos torna em cínicos individualistas. Os movimentos que vemos se arrastando pateticamente pelas ruas desde junho do ano passado são, na verdade" caricaturas de revolução. Uma coletividade cínica, individualista, sem conteúdo, sem programa ideológico, gera apenas ativismo inconsequente, sem sequer, fazer cócegas sistema que se mostra cada vez mais sólido.

quinta-feira, janeiro 30, 2014

Uma citação de Emil Cioran e três tirinhas de "Um sábado qualquer"

Já deixei aqui por várias vezes a minha posição - que acredito ser tergiversante - sobre a religião institucional. Simplesmente, não ponho "a minha fé" naquilo que os fiéis chamam de deus ou outra força qualquer. É uma discussão pífia, um ramerrão insuportável, o debate sobre a existência ou não existência de deus. Vejo determinadas manifestações religiosas com profundo asco. É tudo tão infantil e desmesurado. Uma violência simbólica. Um sonho, um abraçar o escuro e, que no fim, resulta numa expectativa de estabilidade espiritual, que não é nada em si.

Hoje me chegou o Breviário da Decomposição - um dos três livros que comprei desse autor -, do escritor franco-romeno Cioran.  No primeiro capítulo intitulado "Genealogia do Fanatismo", encontramos as seguintes palavras:

"Em si mesma, toda ideia é neutra ou deveria sê-lo; mas o homem a anima, projeta nela suas chamas e suas demências; impura, transformada em crença, insere-se no tempo, toma forma de acontecimento: a passagem da lógica à epilepsia está consumada... Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto, convertemos em incondicionados os objetos de nossos sonhos e nossos interesses. A história não passa de um desfile de falsos. Absolutos, uma sucessão de templos elevados a pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece submetido a ela; esgotando-se em forjar simulacros de deuses, adota-os depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os crimes: o que ama indevidamente um deus obriga os outros a amá-lo, na espera de exterminá-los se se recusam. A história não passa de um desfile". São palavras de resplandecência nietzscheneana. Aliás, Cioran era um ardoroso leitor de Nietzsche. Mais que crítica destruidora, a afirmação do filósofo nos alerta para o niilismo anti-humano da religião.

O propósito deste post, deixando de lado o clima infenso, é compartilhar as três tiras ácidas abaixo, que explicam mais do que qualquer estudo antropológico e filosófico o processo hegemônico de dominação da religião cristã. As três suscitam de forma cômica e inteligente um debate relevante. Por que o deus judaico-cristão é o único deus? Por que o cristianismo é a religião que possui mais fiéis no mundo? As tirinhas foram tiradas da página Um sábado qualquer, do Facebook. As três são geniais!

















quarta-feira, janeiro 29, 2014

G.K. Chesterton e "O homem que foi quinta-feira (um pesadelo)" - e outras coisas

Gilbert Keith Chesterton ou simplesmente G.K Chesterton foi um jornalista, teólogo, filósofo, provocador, romancista, polemista, apologeta do cristianismo, místico - ou tudo isso ao mesmo tempo. Sua figura descuidada o transformava em um cômico bonachão. Mas por trás desse muro amparentemente frágil estava um argumentador poderoso; um construtor habilidoso de paradoxos sensacionais; um grande pícaro que se desenredava com a agilidade de um acrobata de qualquer embaraço filosófico. São conhecidos seus debates públicos com sujeitos como Bernard Shaw ou H.G. Wells; este último, construtor de distopias assustadoras e ao mesmo tempo fascinantes; tais empreedimentos intelectuais de Wells com Chesterton tornaram-se um verdadeiro passatempo da vida nacional inglesa.

Era um prolífico escritor. Praticamente abordou "todos" os temas do seu tempo. Escreveu mais de cem livros. Lá no blog do Charlles, há uma resenha sobre um dos livros de Chesterton (que já comprei): A inocência do Padre Brown. Além de fazer menção à dívida do escritor argentino Jorge Luis Borges para com Chesterton, existe uma citação do autor de O livro de Areia sobre o escritor  inglês, encontrada na edição da L&PM: "A literatura é uma das formas de felicidade; talvez nenhum escritor tenha me proporcionado tantas horas felizes como Chesterton".

De Chesterton li apenas dois livros: Ortodoxia, apontado pelo mesmo Charlles e, o último, que terminei hoje, O homem que foi quinta-feira (um pesadelo). Não preciso de dizer que o estilo límpido, de uma celeridade inebriante, uma mobilidade de ações, um colorido de eventos que determinam um apego do leitor de forma incontinênti, prendeu-me até que devorasse as duzentas páginas da obra ontem e hoje. 

Caricatura de Chesterton
A história é prazerosa e repleta de lances irreais e simbólicos - um misto de suspense, mistério, romance policial e alegoria filosófico-teológica. Um policial amargurado por uma obstinação de infância, decide ingressar em uma organização supostamente criminosa de anarquistas. Sua intenção é muita clara - espicaçar os tentáculos da cepa de finórios, que cometia atentados contra a ordem com dinamites, também sendo conhecidos como "dinamiteiros". Após ter recebido o nome de Quinta-feira, passa a ser perseguido pelos membros da organização. Todavia, após ser perseguido por seis dos supostos criminosos, descobre que todos são agentes policiais disfarçados.

 
É na forma de conduzir o enredo, que percebemos a habilidade genial de Chesterton para contar uma história. Por exemplo, quando Syme (Quinta-feira) está sendo perseguido por um dos bandidos, que se transmudara em uma velha e decrépita criatura, somos conduzidos por labirintos asfixiantes. Por ruas vielas abandonadas e frias; por conduções desertas e com aspecto de desolação. Sentimos a agonia da própria personagem querendo escapar da presença do ente infernal. Para onde Syme ia, o velho amedrontador o seguia com sua bengala e sua postura de zumbi demoníaco. Até que este se revela a Syme e diz se tratar de um policial. 

Ecce Homo
O romance aborda uma série de problemas filosóficos - como já apontei. Entre eles, a obstinação que é capaz de nos cegar e nos transformar em autômatos, conduzidos para determinado desejo que, no fundo, se mostra desarrazoado; e também acerca da própria possibilidade de conhecermos alguma coisa, deixando-nos numa encruzilhada metafísica meio kantiana, meio platônica. É emblemática e salutar esta passagem do romance: 

"Mas escutem! - gritou Syme com extraordinária ênfase - Vou dizer-lhes qual é o segredo do mundo. É que do mundo só conhecemos as costas. Tudo é visto por trás, e por isso parece brutal. Isso não é uma árvore, mas as costas de uma árvore. Aquilo não é uma nuvem, mas as costas de uma nuvem. Não veem que tudo está voltado de costas e esconde o rosto? Se pudéssemos dar a volta e ficar de frente..."

Chesterton sabia contar uma história como ninguém. Possuía um controle da linguagem de forma incomum. Quem deseja ler um boa história - ou pelo menos, aprender como se constrói um bom romance - precisa ler o inglês. Ele morreu em 1936, mas deixou uma obra imorredoura que, aos poucos, começa a surgir por aqui em nosso país.

segunda-feira, janeiro 27, 2014

"Vida Querida", de Alice Munro, algumas palavras

Não é minha intenção escrever uma resenha sobre o livro Vida Querida, da canadense Alice Munro, ganhadora do Nobel de Literatura, no ano de 2013. Tampouco, fazer apontamentos no sentido de execrá-la com apupos ou dirigir-lhe encômios exagerados. Aliás, estou ouvindo o minimalismo de Philip Glass (trilha sonora do filme As Horas) e tomando um espumante ordinário - e, talvez, a música e o gosto de maçã azeda se aglutinem com o espírito do livro. 

O livro Vida Querida, editado pela Companhia das Letras, no final do ano passado, talvez, como resultado da pressão mercadológica por um novo material da laureada nobelina, parece que goza de grande prestígio por aqui - ou, pelo menos, curiosidade. Alice Munro nasceu em Ontario e uma época de profunda melancolia econômica. E, atualmente, firmou-se como uma das grandes livreiras de seu país. Já publicou quatorze ou quinze livros. O conto é a sua especialidade. Há quem a chame de "Tchekov canadense", uma referência ao escritor russo, mestre do gênero. 

O fato é que Vida Querida me deixou com uma sabor agridoce na boca. O primeiro conto me pareceu artificial em demasia. Ela criou um cenário. Riscou dois traços. Conduziu esses traços de forma sinuosa. Afastou-os um do outro. E no final, fez com que eles se encontrassem. Um excelente roteiro para uma porcaria hollywoodiana. Talvez aí resida o "esquematismo" apontado pelo Aguinaldo, que afirmou que o livro, comparado a outros da autora "deixa a desejar". Todavia, a partir do segundo conto, peguei gosto pelo livro. As histórias se passam, a maioria, no período da Segunda Grande Guerra e podem ser compreendidas no intervalo que vai de 1940 a 1960. Estão ambientadas no interior do Canadá. É constante a referência a cidadelas; vilarejos; rios cristalinos e matizados pela luz do sol. 

Ela consegue descrever detalhes, minudências, e esboçar a vida psicológica de personagens com bastante habilidade. Seu texto não me pareceu complexo. É simples. Todavia, não é simplista. Sua habilidade em se ater a detalhes da vida, faz com que os seus contos, pelo menos nesse Vida Querida, estejam repletos, de paisagens psicológicas. Isso é positivo. Pois cria surpresas. Prende o leitor. Dar-lhe motivos para entusiasmos com o seu texto.

O livro é dividido em duas partes: encontramos na primeira dez contos, sendo que alguns me pareceram de ótima qualidade. Poderia apontar Trem e Com vista para o lago. Na segunda parte, temos o "Finale" com quatro narrativas ou paisagens da memória da própria autora. Ao meu modo de ver, um dos melhores momentos do livro. Tudo me pareceu imensamente nostálgico. Ela mesma diz na explicação que abre os textos: [...] "Acredito que eles [os textos] sejam as primeiras e as últimas - e as mais íntimas - coisas que eu tenho a dizer sobre a minha vida".

O leitor que talvez não tenho lido outros livros de Alice Munro - meu caso - e tenha tido acesso apenas a esse Vida Querida, pode incorrer em julgamentos sobre a capacidade da escritora. Poderia perguntar: "Será que não há outra autor(a) para ganhar o Nobel?" A obra exagera nos encontros casuais; na memórias dos acontecimentos e nos impele a julgar as obviedades da narrativa. Mas, o livro tem o sabor do "descompromisso", a leveza minimalista de paisagens rurais; o sabor e o cheiro de tempos pretéritos; de eventos que se cristalizaram e se transformaram em matéria para nos fazer lembrar o quanto a vida pode ser boa, querida. Penso que tenha sido isso que Munro quis nos transmitir com o seu livro.

P.S. Epa! Acho que saiu alguma coisa "próxima" de uma resenha.

domingo, janeiro 26, 2014

Vida no movimento silencioso de Rino Stefano Tagliafierro



Vi hoje cedo este enigmático vídeo e fiquei alguns instantes a refleti-lo. Rino Stefano Tagliafierro "sugere" determinados movimentos àqueles quadros consagrados pela história da arte. Há pinturas de Cornelius von Max, Rembrandt, Bouguereau, Caravaggio, Roberto Ferri, Pagliei, Falero, Thomas Hill, James Sant, Asher Brown Durand, Tanoux, Andrea Vaccaro, Guido Reni, Johannes Vermeer, Théodore Géricault, Rubens, etc. Com música de Enrico Ascoli, o vídeo imprime uma cadência misteriosa àquilo que tentamos enxergar quando contemplamos estes quadros. É como se Tagliafierro antecipasse a nossa visão. Excelente! Para ser ver muitas vezes.




sexta-feira, janeiro 24, 2014

Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista - por Leonardo Boff

Excelente texto! Vale ser compartilhado para os possíveis leitores incidentais que surgirem por aqui.

O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no Rio e em  São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações. Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de fazer vergonha.

Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três  especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e  de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras. Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:

Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias,  sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois  implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão  para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o  projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis  à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.

Em segundo lugar,  eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias,  das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressuposto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para vê-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.

Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desprezados e mantidos longe, na margem.

Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.

Daqui

quarta-feira, janeiro 22, 2014

"Crimes e Pecados", de Woody Allen - um tratado sobre o comportamento humano

Vi ontem, com um olho aberto e outro e outro fechado, em decorrência do sono, o ótimo filme Crimes e Pecados, de Woody Allen. Assisti a esse filme sempre foi uma luta (risos!). Iniciei várias vezes e nunca terminei. Desejei, da última vez, iniciar e finalizar. O filme é imensamente agradável. Está dentro do gênero comédia, mas, ao fim, percebemos que se trata de uma tragicomédia, com forte sabor filosófico.

Crimes e Pecados constrói uma tese cristã sobre os homens: todos os homens são culpados; todos os homens cometem crimes morais e, por isso, são pecadores. Os personagens centrais possuem máculas em sua personalidade ou cometem delitos privados, omitidos na vida pública. O oftalmologista bem-sucedido, dono de uma aparente reputação ilibada; pai de família exemplar; segue um fluxo amplo nas relações sociais, mas acoberta um adultério. E quando a amante ameaça trazer o romance proibido à tona, ele decide matá-la. Depois, se ver acometido pelo remorso e pela culpa, já que descendia de forte educação judaica. E segundo seu pai, "Deus retribuirá com um prêmio ao homem bom e com o castigo o homem mal". 
Judah Rosenthal (Martin Landau) e Dolores Paley (Anjelica Huston
 Halley Reed (Mia Farrow), que aparenta ser um oceano de recato moral, acaba casando com Lester (Alan Alda), simplesmente, por interesse. Cliff Stern (Woody Allen), apesar de parecer um sujeito aparvalhado, por certo momento, decide trair a esposa com a companheira de profissão, Halley Reed. Queria levar à frente o romance, mas se ver impedido pela deferência da moça. Até mesmo a esposa de Cliff, nas cenas finais do filme, diz ao irmão Lester que havia conhecido uma pessoa. Ou seja, a consumação de mais um adultério. Claro, as minhas descrições ficam apenas no campo do imediatismo, sem esboçar contundentemente a gama complexa trabalhada no filme.

Cliff Stern (Woody Allen) e Halley Reed (Mia Farrow)
Frase lapidar é enunciada pelo personagem de Woody Allen: "Nós somos a soma de nossas decisões". Entendo que essa frase possua metade do devir pela qual somos acometidos. Ela é verdadeira. Mas entendo que não são apenas as nossas decisões que fazem cada um de nós. Somos resultado de conjunturas sociais, culturais etc. Mas, por sua vez, o que Cliff quer dizer é que muitas das decisões que tomamos acabam por trazer consequências e que nos colocam em caminhos que definem a nossa existência. Escolher uma estrada é optar, também, não caminhar por outra estrada. E os fatos e relações que estão presentes na estrada que decidi caminhar, criam ramificações que vão trazendo consequências e se instauram como fios tentaculares. Tais eventos acabam gerando fatos que estão para além do nosso controle, como acontece, por exemplo, com o oftalmologista a qual citei acima.

Nossas decisões encerram premissas morais. A tese do filme é pessimista em excesso - e porque não dizer niilista? Ou seja, todos os homens são corruptos ou passíveis de corrupção. Isso me faz lembrar uma passagem bíblica: "O homem pode prevaricar até por um pedaço de pão" (Pv 28.21). Uma das definições para "prevaricar", segundo o Aurélio, é "torcer a justiça", "faltar ao dever", dando a entender que se trata de algo que encerra um elemento moral. Nesse sentido, Crimes e Pecados confirma essa afirmação reputada a Salomão.

Excelente filme! Vale a recomendação.

O filme pode ser visto no Youtube.

terça-feira, janeiro 21, 2014

"Ninfomaníaca, Volume I" - de Trier - ainda penso...

Na sexta-feira, dia 10 de janeiro, quando fiquei sabendo da estreia do mais novo filme de Lars Von Trier - Ninfomaníaca  - Volume I (2013) - fiquei com uma vontade imensa de ir ao cinema. Infelizmente, não pude ir naquele dia, pois chegara de Pirenópolis-GO e estava arrumando as malas para partir, no outro dia, para o Nordeste. Cheguei de Pernambuco no domingo, dia 19, e fomentei para o outro dia a possibilidade de ir ver o filme. E assim fiz numa sofreguidão incrível.

Tratava-se de um filme de Trier. O diretor dinamarquês é daqueles sujeitos talentosos e sabem vender bem a imagem que possui. Megalomaníaco em excesso, Trier já foi responsável por afirmações que, no final, sabemos, resulta em ganhos mercadológicos. Em 2009, por exemplo, no Festival de Cannes, afirmou ser o melhor diretor do mundo. E, talvez, até o seja! Estamos em uma época em que o cinema anda em um marasmo terrível com aquelas porcarias vindas de Hollywood.

Trier é um sujeito que sabe usar explorar bem isso. Tem sido assim com seus últimos dois filmes - O Anticristo (2009) e Melancolia (2011). O simples fato de ser um filme de Trier já desperta a curiosidade e aí temos a tese confirmada. Não sabemos ao certo se Trier é um artista erguido pelas qualidades geniais ou pelo mero marketing. Suas pretensões são, quiçá, de deixar o seu nome na história como um Bergman ou Tarkovsky. Mas, claro, trata-se de especulação. 

Após ter visto Ninfomaníaca, ainda continuo pensando que sua grande obra é Dogville (2003), cuja análise sobre a natureza humana e beleza estética estão longe de serem superadas por qualquer filme lançado neste século XXI. Em Ninfomaníaca, o diretor busca criar uma tese moral e usa como ingrediente o sexo, assim como alguém usa açúcar para atrair formigas. Falar sobre sexo na sociedade judaico-cristã ocidental é gerar dois sentimentos, no mínimo: (1) ou de interesse voyeurista; (2) condenação afetada pelo julgamento moralista.

Trier é sabedor dessa estratégia e busca com isso gerar estupefação na audiência. Percebi isso enquanto via o filme. Pelos menos três casais saíram da sala do cinema. Quero crer que se trate de uma fenômeno isolado. Todavia, analisando os recursos cinematográficos utilizados pelo diretor, notei que em dados momentos as cenas vão gerando uma "agonia", um "enjoo" filosófico. É como se ele tivesse por intenção provocar o espectador; mexer com suas veleidades morais; afrontá-lo em suas convenções de burguês-cristão.

Ninfomaníca - Volume I, pelo menos para mim, não causou impacto profundo como causou o já aludido Dogville ou Dançando no Escuro (2000), ambos de grande beleza plástica. O que Trier buscou insinuar com a Ninfomaníaca? O sexo é mau? Buscou criar sofisticação com um tema-tabu para a sociedade ocidental e com isso aumentar a audiência para a sua obra? Quis justificar seus próprios problemas pessoais? O filme confirma a tese de que Trier é alguém com ideias muito bem definidas do ponto de vista das especulações.

Penso que Ninfomaníca, desde 2000, tenha sido o filme mais fraco de Trier. A tentativa de fazer um estudo (psicanalítico? moralista? metafísico?) sobre a vida da personagem Joe, vivida por Charlotte Gainsbourg (sempre presente nos filmes do diretor) e a estreante Stacy Martin (que faz Joe ainda jovem), não se mostrou convicente. Percebi algo cuja finalidade é uma tentativa de pirotecnia com um tema sempre polêmico quando vem à baila - sexo. Outro fato é a tentativa de associar a "catedral numérica" na tentativa de encontrar a perfeição de Deus da música de Bach, a fatos relacionados com a vida da personagem. Isso é corriqueiro em Trier.

Talvez, aquilo que ainda não foi revelado em sua efetividade fique claro na segunda parte do filme, já que a obra foi separada em duas partes. Originalmente possui mais de cinco horas, mas essa extensão será exibida somente nas salas de festivais.

Tratam-se de impressões pessoais e aqui estão as minhas: rápidas e descuidadas!

sábado, janeiro 04, 2014

Tudo russo.

Dmitri Shostakovich
Adoro a força marcial das obras dos compositores russos - principalmente de Tchaikovsky e da inquietação existencial de Shostakovich. Há uma angústia, uma senso trágico nesses trabalhos; uma evocação da desolação; um flerte macabro com a dor; um cinzel que estilhaça a esperança e desfralda a bandeira da agonia. Tudo urdido por meio da força. A orquestra a avolumar o paroxismo dos saracoteios espasmódicos da desolação. Afinal, de onde vem esse vagido de agonia? É só observar essa desolação, esse dia escuro nas obras de Shostakovich, Tchaikovsky, Korsakov ou Glazunov. Quando não há a angústia, existe a força; quando não existe a força, existe um devaneio impregnado de aflição. E, às vezes, as tudo está vincado, justaposto, abraçado.

Piotr Ilitch Tchaikovsky

É só observar, por exemplo, a força presente na Marcha Eslava, de Tchaikovsky; ou na fúria irônica e cínica do Concerto para cello de Shostakovich; ou ainda na beleza trágica da Abertura Romeu e Julieta, Tchaikovsky; ou na desolação acabrunhante do Concerto para violino, Shostakovich. Obras não faltam - as sinfonias e os quartetos de cordas de Shostakovich; a maravilhosa Sinfonia Patética de Tchaikovsky; as obras ululantes de melancolia de Glazunov; a energia metalizada de Rymsky-Korsakov etc

E isso não está presente apenas na música. Está espargido na literatura - Dostoiévsky, Tolstói, Gogol, Maikovsky, etc.Mas isso já é outra história.

Adora a alma russa.

Tchaikovsky, Marche Slave Op.31 Evgeni Svetlanov


Tchaikovsky, Romeo e Juliet, Gergiev, London Symphony Orchestra

Shostakovich: Cello Concerto n.1 op.107 - Mischa Maisky - 1st mvt.

David Oistrakh "Violin Concerto No 1" Shostakovich

quinta-feira, janeiro 02, 2014

Alguns devaneios e um livro de Paul Tillich - "História do pensamento cristão"

Paul Tillich
Sempre fui religioso. Durante muito tempo, o medo e a culpa foram as minhas principais religiões. Fiz minhas preces. Li a Bíblia quatro ou cinco vezes. Frequentei igreja. Elaborei prédicas. Semeei esperanças e julgamentos. Tudo em nome de um dogma. Estudei em um seminário. Formei-me em teologia. Perscrutei como são as entranhas da religião. Senti o cheiro de seus órgãos. Como são estruturados os seus tecidos. A régua de cálculo é a teologia. É com ela que se mede os espaços; que se estabelece aquilo que é certo ou errado. A religião é, por natureza, dicotômica. Ela não existe sem um "sim" e sem um "não". Ou seja, ela não consegue existir sem a ideia de "bem" e sem a ideia de "mal". De "bem" se chama aquilo que está harmonizado com os ditames do dogma; de "mal" se chama aquilo que não está de acordo com as sentenças do dogma.

Analisando friamente a história da evolução do homem, chegamos a conclusões desconcertantes. Tudo está na história. Ela explica o presente. A questão essencial passa a existir quando negligenciamos a análise dos processos históricos. O mundo sempre foi o mesmo? Os antigos não estruturaram as nossas consciências? A resposta para as certezas do presente não estariam no passado? 

Hoje temos a tecnologia por todos os lados. Ela nos pervade. Estamos tão acostumados a ela, que achamos estranho quando ficamos sem nosso celular ou sem acessar a rede mundial de computadores; ou quando a energia elétrica tem o fornecimento prejudicado. Acostuma-nos às informações. Quando queremos saber algo vamos ao Google. Lá encontramos todas as respostas. Tudo é tão óbvio. A medicina caminha a passos largos. Conseguimos coibir boa parte da enfermidades que eram capazes de dizimar populações inteiras.  Temos ressonâncias computadorizadas sofisticadíssimas. Enxergamos, hoje, o núcleo essencial da vida. Mapeamos geneticamente o DNA. Vimos que não estamos distantes dos outros seres do ponto de vista genético. Existe um nível de parentesco muito grande - principalmente, com os primatas. Podemos escolher o sexo, a cor dos olhos, do cabelo das crianças.

Sören Kierkegaard

Mas tudo foi assim? E quando queríamos entender essas coisas e não tínhamos um aparato científico tão desenvolvido? É, justamente, aí que entra a religião. Ela foi a primeira forma de explicação. Os mitos surgiram como forma de explicar a materialidade. Os antigos, simplesmente, disseram: "É vontade dos deuses!" Era a forma de construir diques contra o caos de uma existência fincada no nada. Em momentos de solidão, de agonia, de dor, o melhor remédio é saber que não se está sozinho. Daí, ao se criar um "ser invisível", "onipotente", "onipresente", que vigia e guarda os nossos desejos, passamos a experimentar uma estabilidade psicológica. Feuerbach, filósofo alemão do século XIX, costumava dizer que religião é "antropologia". Eu diria, também, que religião é "psicologia". Tudo é resultado de uma consciência depositada em receptáculo onipotente (deus), que passa a guardar, salvar, premiar, privilegiar e explicar a totalidade do universo. 

O crente encontra tudo o que ele procura em sua fé. Ela explica tudo. Tire-se a fé e ele tem as suas estruturas psicológicas abaladas. Todavia, ele não sabe que tudo está em nós. Ou seja, a religião revela intimidade do próprio homem. Seus medos. Inseguranças. Seus desejos velados. Sua necessidade de justiça ante a injustiça. Sua vingança contra os cataclismos de um mundo desordenado. É a saudade sentida por algo que ele nunca experimentou, que se transforma em torrente psicológica quando ele verbaliza para um ente invisível. Deus é o próprio homem querendo achar a si mesmo na noite escura da alma. 

Ocorreram-me esses devaneios, depois que li o livro História do Pensamento Cristão, de Paul Tillich, um dos maiores teólogos da história do cristianismo protestante. Tillich era polonês e após ter participado da Primeira Guerra Mundial teve as suas percepções sobre o ser humano e a história completamente alterados. Por ter vivenciado as agruras da guerra como capelão, observou o quanto o ser humano é habitado por uma torpeza absurda. Abraçou uma epistemologia existencialista. Kierkegaard é um dos progenitores do seu pensamento. Leciounou teologia em um seminário que tinha nomes como Heidegger e Rudolf Bulltmann. E a partir desse entendimento buscou trazer lampejos de esperança ao homem do século XX. A desolação de uma época fundada na desesperança fez com que Tillich construísse uma teologia que respondia a um questionamento: "Onde está Deus em meio a tudo isso? Onde achar esperança?" E Tillich respondia: "A mensagem de esperança está escondida em ti. Deus é um evento relativo que está escondido em ti mesmo, ó homem do caos". 
 
A mensagem, necessarimente relevante, é aquela que responde a uma necessidade pessoal. A religião fica nua, sem os seus dogmas, sem as suas folhagens; sem seus códigos construídos pelos "eminentes" teólogos. Ou seja, a filosofia passa a está à frente da fé. Não é a fé que, agostianamente, dita o que é certo ou errado em matéria de crença, mas a existência que determina o ser ou não-ser.  Poderia dizer que é um quase tomismo sem o método escolástico. 

O livro de Tillich solidificou uma desconfiança que há muito me acompanhava. Vi como os dogmas do cristianismo, as polêmicas e o pensamento hegemônico se consolidaram. O mundo que está aí foi montado por alguém. E essa deve ser a premissa. Ora, quem "construiu" os dogmas do cristianismo? Por que se crer desse jeito e não de outro? Por que o mundo ocidental é cristão e não politeísta ou não se tem uma fé gnóstica? Por que se crer na trindade? Esse conceito sempre existiu? A dupla natureza de Cristo é algo que sempre foi acreditado dessa forma? E os livros bíblicos ditos sagrados, quem os tornou "santos"? E o dogma do pecado original? 

São questões que devem ser respondidas com máxima urgência. Quando se olha para a história, nota-se que determinados sujeitos construíram esses conceitos. Os concílios fomentaram aquilo que se deveria crer e aquilo que não se deveria crer. Ou seja, o mundo ocidental acredita naquilo que foi construído pela institucionalização de um movimento. A cultura hegemônica de um povo tornou-se a referência absoluta incomparável. Gramsci afirma de forma lapidar sobre esse tema: 

Antonio Gramsci
"(...) A história da filosofia, como é comumente entendida, isto é, como história das filosofias e dos filósofos, é a história das tentativas e das iniciativas ideológicas de uma determinada classe de pessoas para mudar, corrigir e aperfeiçoar as concepções do mundo existentes em todas as épocas determinadas e para mudar, portanto, as normas de conduta que lhes são relativas e adequadas, ou seja, para mudar a atividade prática em seu conjunto"
"A filosofia de uma época não é filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se "história" concreta e completa (integral)". 
"A filosofia de uma época histórica, portanto, não é senão a história desta mesma época, não é senão a massa de variações que o grupo dirigente conseguiu determinar na realidade precedente: neste sentido, história e filosofia são inseparáveis, formam um "bloco". (GRAMSCI, 1981, p.32).

Assim, nota-se que a construção de determinada massa ideológica ou determinado força filosófica hegemônica se dá em determinado momento histórico pelo grupo majoritário, pelo jogo de interesses do grupo dominante. Os dogmas ou os sentidos da fé são resultado da força da Igreja que açambarcou a estrutura do Estado romano e se tornou a força ideológica totalizante. Os filósofos, teólogos, são, simplesmente, debatedores de uma dogma criado superestrutura que tinha a Igreja como força oficial. Ou seja, debatiam o status quo filosófico.

O livro do Tillich é relevante. Ele faz um passeio pela história. Discute o pensamento de cada filósofo e as querelas suscitadas pelas filosofias de cada um deles. Boa parte do livro é dedicado a discutir o pensamento teológico e filosófico dos primeiros séculos da era cristã. Explica os principais movimentos filosóficos religiosos que faziam parte do background dos mundos grego e romano e que foram extirpados pelo cristianismo. Teólogos importantes como Pelágio, Orígenes, Filo de Alexandria, Ário, Sabélio, tiveram seus pensamentos colocados na marginalidade pela força oficial da Igreja. As cidades importantes que fomentaram importantes debates - Alexandria, Antioquia, Bizâncio, Calcedônia.

Discute os principais nomes da filosofia e da teologia medieval - Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval, Joaquin de Fiori, Anselmo, Guilherme de Ockham, Meister Eckhart. Discute os principais dogmas da Reforma e da Contra-Reforma. Discute, em seguida, o movimento escolástico protestante e o iluminismo. O livro é excelente para quem quiser conhecer profunda e filosoficamente como a fé ocidental está estruturada. O livro, na verdade, é resultado das aulas de Tillich dadas no período em que ele morou nos Estados Unidos.

Tinha o livro desde 2007 e li no final de dezembro último. O interesse foi tão salutar que comprei o outro livro do teólogo (Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX), em que Tillich aborda a filosofia e a teologia dos séculos XIX e XX. Consegui-o em um sebo de Goiânia pela bagatela de vinte e um reais. Está novinho em folha.

GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Civilização Brasileira. trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo. 1981, pp. 341

TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. ASTE. São Paulo. 2004, pp. 293