Assisti ao discurso de José Eduardo Cardozo, então Advogado-Geral da União, e não deixei de me impressionar. Cardozo equilibrou-se com imensa habilidade por 25 minutos em cima de argumentos construídos com rigor, peso e método, tanto do ponto de vista jurídico quanto político. É uma verdadeira aula de retórica de alguém que domina com perícia aquilo que fala. O eloquente advogado amargou críticas pesadas de setores do Governo enquanto esteve à frente do Ministério da Justiça. Afinal, ele era o chefe da Polícia Federal. Para os sujeitos que firmavam as críticas, a Polícia atuou de forma política e viciada, sem que o ministro interviesse. Escutemos. Daqui a alguns anos, a arquitetura de seu discurso será estudada.
sábado, abril 16, 2016
sexta-feira, abril 15, 2016
O momento político atual e uma frase de Lima Barreto
Lima Barreto no início do século XX, verbalizava por meio de seu imortal personagem Policarpo Quaresma: "Ou o Brasil acaba com as formigas; ou as formigas vão acabar com o Brasil". Darcy Ribeiro quando foi ao programa Roda Viva, disse que o Brasil é uma potência; é um país bonito, cheia de energia criadora, mas a sua elite 'ranzinza', 'mesquinha', finória', impede que o país avance. Pensado pela perspectiva policarpeana, as formigas continuam acabando com o Brasil. Alimentam-se de sua seiva, de suas riquezas, de seu viço; impedem avanços, refreiam otimismos. É difícil aceitar que passados mais de cem anos da escrita do livro de Lima Barreto, o Brasil continue a amargar um quadro político regressivo.
Do início do século XX até hoje, o país passou pelo menos por três golpes. Todos eles apresentaram o desejo sanguinário das elites, conectadas aos desejos do grande capital internacional, de manter o Brasil como um país pequeno e insignificante. Golpes são dados todas as vezes que os interesses das elites são contrariados. O simulacro de democracia que temos, atesta um modelo para se chegar ao poder: no Brasil, para se alcançar o mandato eletivo, é necessário consegui-lo por meio do voto. Mas, essa garantia é relativa em um país de grande violência perpetrada pelas elites.
Para isso, arranja-se, constrói-se o consenso em torno de determinadas máximas falíveis aos olhos da razão. O poderes República não são esferas harmônicas, capazes de fazer funcionar o Estado Democrático de Direito. O Judiciário não é "última trincheira da cidadania", como afirma o ministro do STF, Marco Aurélio de Melo; trata-se de um espaço para que alguns juízes façam política e distorçam o direito. O Legislativo não é a casa do povo; é o espaço para que os parlamentares trabalhem para os empresários que financiaram as suas campanhas. A palavra "povo" é um termo conveniente para o Legislativo. Pensar no trabalhador, nas crianças de rua, na políticas públicas necessárias, na dignidade, é uma miragem impossível. E o Executivo é o centro que coordena "a gerência da casa". Ou seja, é de lá que saem projetos que dinamizam a vida social e econômica. Dependendo de quem coordene, presida "a casa", abre-se espaço para as políticas que podem ou não beneficiar os trabalhadores - ou ainda determinados grupos da sociedade.
Pois é justamente o Executivo o centro de interesse da burguesia brasileira. O impedimento de Dilma Rousseff está assentado em uma grande farsa, por isso é um golpe. A burguesia aliançada ao capital usa os mais diferentes métodos para aplicar golpes: firma aliança com os militares como aconteceu no Brasil em 1964; judicializa os resultados eleitorais como atualmente está acontecendo; desgasta o governo opositor e popular por meio de determinadas pautas sensacionalistas, estabelecendo conexões explícitas com o aparelho midiático. Para se destruir alguém, nada melhor do que o jogo de especulações e sensacionalismos; nada melhor do que criminalizar, enxovalhar a imagem pública, "depredar" a credibilidade política por meio do alardeamento de escândalos selecionados e potencializados. Corrupção não é uma prática privativa do governo do PT. Os erros políticos de Dilma não são suficientes para impedi-la politicamente, fazendo romper o seu mandato.
Um golpe a essa altura, colocar-nos-ia na mesma posição de Paraguai e Honduras, que foram os primeiros países latino-americanos a experimentarem rupturas democráticas em pleno século XXI. Essa condição vulnerabiliza conquistas. Coloca-nos numa posição de bagunça; de ausência de seriedade; cria retrocessos graves; abocanha direitos como se visualiza no horizonte que se desenha: a aliança PMDB-PSDB será um massacre contra os trabalhadores e contra os mais pobres. Para que a burguesia continue a ter seus lucros, é necessário fazer mudanças constitucionais e construir garantias de que não haverá resistências ao longo dos próximos anos. Por isso, são necessários pelo menos duas certezas imediatas: (1) retirar Dilma do poder e implantar um agenda conservadora para fazer acontecer aquilo que não aconteceu nos quatorze anos de governo do PT; (2) destruir a credibilidade política do PT e do seu principal líder - Luis Inácio Lula da Silva. Para isso, é importante colocá-lo como o grande bode expiatório da Lava a Jato. Hoje, li uma notícia que informava que há intenções no juiz Moro de encerrar a Operação ainda este ano. Por quê? Por que nos dois anos de Operação nenhum parlamentar do PSDB foi investigado, por exemplo, e tantas figuras ligadas ao PT amargaram a implosão pública de suas imagens? Por que Moro se nega a investigar os duzentos nomes da lista da Odebrecht e não quis a delação do empresário famoso?
Há quem defenda o golpe sabendo daquilo que deseja com essa ruptura. Todavia, é inadmissível perceber trabalhadores defendendo esse artifício. É como se o algoz convencesse o condenado a comprar a própria corda que matará este. Um dos meios mais eficazes das elites conseguirem seus intentos, convencendo a opinião pública, é por meio de seu aparato de informações. No Brasil, desde o Império e início da República, que os jornais hegemônicos pertencem às famílias mais ricas do país. Com o advento da TV e do rádio, a força retórica do convencimento se tornou maior. Ou seja, não há escapatória para o homem médio - se ele não ler, ele escuta no rádio; se ele não ler nem escutar no rádio, a televisão cria o consenso por meio das edições de imagem.
Diz Lima Barreto que o quixotismo de Policarpo Quaresma, levou-o à morte. Suas ideias não surtiram nenhum efeito. O seu desejo de "reformar" o Brasil foi suplantado pelos choques com o mundo dos interesses e das conveniências dos grupos que mandam no país. Infelizmente, o que já está desenhado e, que, neste momento está sendo colorido, é a certeza manifesta de que continuamos sendo devorados "pelas formigas"; e que as nossas elites desejam que vivamos acorrentados na escuridão, sem possibilidades de sonharmos com o futuro.
sexta-feira, abril 08, 2016
"Fome de Saber - a formação de um cientista", de Richard Dawkins
Há mais de um mês fui à Livraria Cultura. Perambulei por entre as estantes como sempre faço. Permiti que os meus olhos passeassem pelas pilhas de livros, que ficam logo à entrada, ostentando os lançamentos. Os livros são dispostos em círculos. São três ou mais círculos. São verdadeiros chamarizes. Entre os muitos livros que encontrei, estava "Fome de Saber - a formação de um cientista" (Companhia das Letras), de Richard Dawkins. Quando o vi, imediatamente coloquei o livro embaixo do braço. Não li nada dele - orelhas, contracapa, introdução... Desejei fazê-lo mais tarde. Sabia apenas que se tratava de material relevante. Naquela ocasião estava lendo Kafka e Graciliano Ramos, por isso, não comecei a leitura imediatamente.
Richard Dawkins é uma figura importante e internacionalmente conhecida. Sua militância é conhecida, seja em debates, palestras ou seminários. O cientista inglês é um dos mais conscientes ateus da atualidade. Não
apenas isso, pois ele é um militante da causa ateia. Como em "Deus, um
delírio", Dawkins mostra o quanto a religião institucional traz
malefícios para a humanidade. "Fome de Saber" é uma autobiografia - sua aguardada autobiografia. Como é característico do autor, o livro possui uma linguagem simples, leve, convidativa. É possível ficar por boas horas lendo sem perceber a passagem do tempo.
Dawkins começa a contar a história de sua vida, fiando-se pelos costumes bretões. É importante para ele contar certos feitos traditivos de sua família. Busca na história, que chega até o século XVI, o nome "Dawkins". Essa incursão genealógica é relevante para as figuras do Velho Mundo. Nós brasileiros não temos essa preocupação. A história não é um elemento no qual prestamos atenção. Não buscamos encontrar nela os caminhos que nos trouxeram ao presente. Sendo um cientista, Dawkins sabe muito bem analisar a evolução de sua história.
Como era filho de um militar, Dawkins passou boa parte de sua infância no centro-sul do continente africano. Seu pai estava a serviço do seu país. Ele morou em Uganda, Malaui, Tanzânia, África do Sul. Sua vivência com a riqueza natural talvez o tenha preparado, inconscientemente, para a biologia. Dawkins conta que aquilo era um grande prazer. Tanto é assim, que as viagens módicas que realizava para a Inglaterra a fim de visitar os avôs não possuíam o sabor que deveria ter. O clima e a natureza inglesas não davam o prazer sensual que ele sentia quando estava no continente africano. O livro traz algumas fotografias. Entre elas, é possível encontrar algumas de sua residência na África.
Quando a Guerra acabou, Dawkins voltou para a Inglaterra. Seu pai comprou uma propriedade no interior do país. É o período em que o cientista estabelece contato com o ensino inglês. É numa dessas instituições que ele nos conta como perdeu a fé. Vale fazer uma digressão para contar que Dawkins foi um fervoroso crente na fé cristã quando jovem. Fazia suas orações. Frequentava os cultos da Igreja Anglicana. Cantava no coral da Igreja. Mas, o contato com a ciência fê-lo desistir da fé. Passou a não haver mais sentido para o conjunto de crenças em dogmas que arrimam a fé cristã. Em determinado culto, enquanto todos se ajoelhavam, ele permaneceu de pé, com os braços cruzados. Ele estava a sua nova forma de experimentar a religião - com frieza, tentando discerni-la por meio da razão.
Na segunda parte do livro, o escritor descreve a sua vida como pesquisador. As engenhocas inventadas na Academia. Sua paixão pelos computadores. A descoberta do darwinismo. O emprego conseguido em uma universidade dos Estados Unidos. Na segunda parte, há mais descrições da sua teoria, ou seja, de como ele chegou a escrever a sua grande obra, a saber, O gene egoísta, que o projetou para o mundo e o tornou um dos principais cientistas do século XX.
Dawkins termina o livro com a promessa que haverá continuação da sua autobiografia, ou seja, um segundo livro.
sexta-feira, abril 01, 2016
"O Castelo" de Kafka e a anunciação: "algo falta"
"O Castelo, cujos contornos começavam já a diluir-se, continuava silencioso como sempre; K. ainda não tinha visto o menor sinal de vida; talvez fosse absolutamente impossível reconhecer qualquer coisa a distância, e no entanto os olhos o exigiam e não podiam suportar aquela atitude. Quando K. olhava para o castelo, frequentemente lhe parecia estar observando alguém, sentado tranquilamente lá, olhando para ele, não perdido em pensamentos e esquecido de tudo, mas livre e despreocupado, como se estivesse só, sem ninguém a observá-lo; e no entanto não podia deixar de perceber que estava sendo observado" Franz Kafka, in O Castelo, p. 144
Passei mais de um mês lendo O Castelo, de Kafka. A leitura seguiu lenta. Em alguns momentos larguei o livro e me fiei por outro texto. Não é que estivesse achando a história "chata". Havia em mim uma tentativa de tentar assimilá-la, degluti-la, processá-la; desejo de penetrar em seu tema; não me perder em seus labirintos. O fato é que O Castelo não é uma obra para leitores neófitos. Quem deseja gostar de ler, não comece por essa obra do escritor tcheco. Haverá abismos enormes pelo caminho. E, certamente, indisposições compulsórias surgirão.
Novamente, Kafka flerta com a inverossimilhança. Se em A Metamorfose Gregor Samsa se transforma em um inseto asqueroso e acaba sendo repelido pela família, passando a ser uma espécie de câncer social; em O Processo, Joseph K. recebe dois misteriosos visitantes que avisam haver um processo inexplicável contra ele, em O Castelo, Kafka trabalha com uma redução ainda mais gravosa. A personagem chama-se apenas K. É o suficiente. Uma letra seca, mínima; um código tentando burlar os obstáculos para entrar no Castelo. A construção fica na distância como gigante intransponível. Ele está presente em todo canto por meio dos seus subordinados - secretários, chefes de gabinetes, autoridades várias, que impedem K. de ter acesso ao Castelo. O conde West-West, dono do castelo, ramifica-se por meio do espectro de subordinados que dificultam a existência de K.
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| Franz Kafka |
Nesse sentido, é importante dizer que Kafka foi um visionário, alguém que criou narrativas grotescas a fim de revelar a modernidade. Walter Benjamin, que escreveu um importante ensaio sobre o escritor tcheco (Franz Kafka - a propósito do décimo aniversário de sua morte), diz que "o mundo das chancelarias e dos arquivos, das salas mofadas, escuras, decadentes, é o mundo de Kafka" (2012, p.148). Kafka constrói cenários absurdos para exemplificar o quanto a vida do homem nas grandes cidades, metido dentro do labirinto das burocracias estatais, perdido nas incongruências de uma rede invisível, que possui o controle do olhar; um deus que é ubíquo, mas que não é alcançado. Ele se faz presente, pois vemos aqueles que agem em seu nome, mas não podemos enxergar-lhe o rosto. É nesse sentido que a obra de Kafka ganha dimensões insondáveis.
Em O Castelo a narrativa é permeada pelo caos, pelas digressões impossíveis que quebram o fluxo narrativo; vemo-nos perdidos em meio a personagens que surgem do nada. Todos eles parecem ser cúmplices das autoridades do Castelo. Dos três romances que li do escritor, ficou a sensação de que as ações narradas por Kafka sempre insinuam algo que falta. As personagens estão numa grande busca. Samsa não entende o porquê de ter se metamorfoseado em um inseto; Joseph K. procura encontrar uma resposta para o processo e K. procura romper os muros invisíveis que impedem a sua entrada no castelo do conde. O escritor parece direcionar o seu olhar para a existência asfixiada dos homens modernos, controlados, medidos, contidos, premidos pelo poder invisível. As enormes estruturas dos aparelho estatal. O controle com mãos habilidosas. A força que coage, que reprime e aplica sanções, quando o sujeito não atende aos reclames dos tentáculos burocráticos.
Curiosamente, o livro termina do nada. A história é interrompida sem que a personagem consiga ingressar no castelo. Leandro Konder em seu "Kafka - vida e obra", diz que que Thomas Mann premeditou um final para o livro.
"Ao se interromper o original d'O Castelo, vemos o seu herói, o agrimensor K., sozinho, cansado, obrigado a executar tarefas domésticas para a criadagem do hotel, a fim de não morrer de fome. Segundo afirma o escritor alemão Thomas Mann, o romance deveria terminar com a morte de K. e, minutos após o seu falecimento, a chegada de uma mensagem autorizando-o a se apresentar no Castelo para a tão ansiada entrevista pessoal com um dos inacessíveis comparsas do conde West-West" (1974, p. 175).
Sei que isso seria uma digressão ou, talvez, uma comparação esdrúxula, mas o esdrúxulo é a
argamassa que Kafka utilizava para erguer os seus monumentos literários. Imagine um paciente que precisa de um transplante de rim ou que esteja com uma doença que demanda cuidados urgentes. Não tendo dinheiro para pagar um tratamento em um serviço particular, a pobre criatura recorre ao serviço público. Dorme na fila a fim de conseguir uma consulta. Na primeira vez não consegue o que pretendia. Recebe apenas a indiferença de servidores públicos acostumados com a insensibilidade da máquina emperrada da burocracia estatal. Tenta mais uma, duas, três... cinco vezes até conseguir. Ele quer o hospital (o castelo?). Ele precisa entrar ali. Entrevistar-se com um médico de cara dura. Consegue marcar a consulta. Precisará esperar quatro meses para ser atendido. Todavia, nesse espaço, a sua saúde complica e o infeliz paciente acaba falecendo a um dia da consulta.
Outra situação é um preso que acabou sendo condenado injustamente. Ele é de periferia. É pobre. Sabe que o Estado está em dívida com ele. O único advogado que consegue é da Defensoria Pública. Mas, nas idas e vindas, o seu caso acaba passando pela mão de cinco defensores. Cada defensor que analisa o caso, precisa voltar a estaca zero. O réu precisa de uma apelação. Ele deseja um novo julgamento. Não tem êxito. Sua solicitação é indeferida por juízes frios, entricheirados no regulamento. Os anos vão passando - cinco, dez, quinzes anos. A única coisa que o condenado deseja é provar a sua inocência. Quer um novo julgamento. Estar diante do juiz e da promotoria (o castelo?) com um advogado honesto, probo, comprometido. Finalmente, consegue. A audiência é marcada. Mas, uma rebelião explode em seu pavilhão. Os presos amotinam-se. Fazem reféns. A polícia tenta negociar. O charivari aumenta. E no meio do ensadecimento, dois dos reféns são mortos. Um deles é o condenado, que morre a um dia do seu julgamento.
Por mais que sejam excêntricas essas histórias, elas são kafkianas. Penso que essa monumental obra que é o Castelo, aponte para esses casos. Kafka olhava para o mundo e ele estava vestido pelo grotesco.
Livros citados:
BENJAMIN.Walter, Magia e Técnica, Arte e Política - ensaios sobre literatura e história da cultura - Obras Escolhidas I, Brasiliense, 2012, 271 pp.
KAFKA.Franz, O Castelo, Nova Cultural, 2003. 446 pp.
KONDER.Leandro. Kafka - vida e obra, José Alvaro/Paz e Terra, 1974, 217 pp.
segunda-feira, março 21, 2016
Algumas considerações sobre Graciliano Ramos e Memórias do Cárcere
"Quem dormiu no chão deve lembra-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas".
Graciliano Ramos, in Memórias do Cárcere, p. 34
Estabelecer
contato com a literatura de Graciliano Ramos, permite-nos uma
experiência indelével com a palavra. Para o escritor alagoano, a palavra
é uma centelha poderosa capaz de produzir incêndios incontroláveis aos
sentidos. Desde o fim de minha adolescência que tenho estabelecido um
contato e uma admiração elevada pelo grande escritor. Desde o primeiro
livro que li dele - São Bernardo ou Memórias do Cárcere? - que
todos as vezes que vou aos seus textos, sou acometido por uma sensação
de que estou diante de algo extraordinário; da alta literatura, da
narrativa orquestrada por um maestro de gestos secos, ásperos e pouco
afeito à lisonja. Conhecido pela discrição, pelas poucas palavras, pela
biliosa relação que mantinha em algumas situações, é possível sentir a
torrente de realismo, de honestidade e força da sua literatura.
Quem
quiser descobrir o efeito que as palavras possuem. Como elas devem ser
limadas, esmerilhadas, catadas, lançadas na bateia da grande narrativa, é
preciso recorrer ao Graça. Nele, percebemos a ausência de cortesia; o
que há é a dureza contra os ademanes da bajulação, contra a blandícia
escondida nas convenções sociais. Essa seriedade, esse vigor, extraído
da vida, foi posto em sua literatura. Graça é um nome que traduz aquilo
que João Cabral de Melo Neto expressou de forma arrojada em seu
antológico Educação pela Pedra:
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.
Sim!
Havia uma pedra em sua literatura, de "carnadura concreta", de
adensamento compacto; capaz de infundir "a lição de moral"; de malear
lâminas com sua "resistência fria". A facticidade é realidade que não se
pode negar, por isso, a pedra simplesmente declara a sua presença.
Diz-se enquanto realidade no mundo. Em Graciliano, a palavra é pedra; e
ela diz mais que qualquer coisa, é sólida, promove uma experiência
concreta. Ele não buscava se meter em grandes divagações, em digressões,
em perambulações elogiosas. Sua preocupação era narrar o fato. Dizê-lo.
Assumi-lo enquanto realidade inolvidável.
Essas impressões se renovaram após a terceira - irrequieta e deliciosa - leitura que realizei de Memórias do Cárcere,
livro cuja singularidade me permitiu enxergar o inconfundível sabor da
literatura. Foi com ele, ainda no final do ensino médio, que desejei
aprender a escrever. Todo aquele comedimento, o método, a frase
perfeita, o período curto às vezes, mas, lancinante, a esmiuçar o tecido
nervoso da realidade. Sim! Foi com essa literatura que corta como um
bisturi; que não está preocupada com os brincos e maquiagens que
escondem a face nua do mundo e de suas amarras, que desejei aprender a
usar a palavra. As palavras são tijolos que constroem catedrais
invisíveis de discursos. São elas que dão sentido ao mundo humano. Elas
distorcem fatos verdadeiros. Maximizam acontecimentos irrelevantes e a
depender do locutor, pode transformar poças de água, em grandes oceanos.
Saber usá-las. Medi-las com diligência. Apascentá-las com o labor e
diligência de um pastor é um dever de todo sujeito que se propõe a
enunciá-las. Graça aprendeu isso como ninguém. Talvez, pelo fato de ter
crescido em ambiente hostil à palavra. Os pais eram duros. A mãe, Maria
Augusta Ferro, revelava dureza até no nome. Essa dureza fica evidente,
por exemplo, no capítulo Inferno, de Infância. Ou no outro capítulo do mesmo livro - Um cinturão
- que narra a surra que tomou do pai, um sujeito de "modos brutais,
coléricos". Neste livro encontramos uma afirmação bastante emblemática
que serve de fórmula metalinguística à sua literatura: "Na escuridão
percebi o valor enorme das palavras".
Memórias do Cárcere
é um livro póstumo. Foi escrito nos anos finais da vida do grande
escritor. Sua saúde já estava bastante combalida quando começou a
escrevê-lo. Graciliano trabalhou por árduas semanas. Não chegou a
concluir o último volume. Interrompeu para escrever Viagens,
livro que narra suas impressões da visita que realizou à União Soviética
e aos países da Cortina de Ferro. São livros que ele não teve tempo de
revisar. Se tivesse o tempo necessário, por exemplo, para analisar as Memórias do Cárcere,
certamente teria arrancado uma quantidade enorme de fatos. Sua função
era "dizer", simplesmente "dizer", a palavra mal empregada, mal
assentada no edifício do texto, comprometia qualquer obra do arquiteto.
Para escrever as Memórias,
Graça conta os fatos que sucederam nos anos de 1936 e 1937. Foi acusado
pelo Governo de Vargas de que era um conspirador, um agente vermelho a
serviço do comunismo. Todavia, eram apenas suspeições. Não havia provas
materiais contra o escritor. Ela assumia o papel de K. da obra O processo,
de Kafka. Existe uma acusação, mas aonde está o libelo material?
Acusado pelo aparelho estatal totalitário, o alagoano se ver diante de
personagens variadas. Percebe a ausência conexão entre os fatos e as
intenções revolucionárias dos presos políticos. Como fazer revolução em
país "cheio de beatos de Padim Cícero"? Ou como reunir a malta
sub-letrada de um país afundado na indigência intelectual? Graça fora
vitimado pela intrusão da burocracia varguista. O país estava mergulhado
num estado de exceção. Vargas flertava com Mussolini e com Hitler. O
Integralismo era um câncer social. O obscurantismo crescia por todos os
lados. Graça falava em "fascismo tupinambá". Como se defender? E num
erro de cálculo, os comunistas haviam tentado iniciar um levante
revolucionário em 1935. Eram razões mais que óbvias para a burguesia do
país referendar a perseguição. Sujeitos como Graciliano Ramos pareciam
oferecer perigo. Mas que perigo? O próprio Graça ria do senso
revolucionário tupiniquim e das momices do governo. Nossa anemia
intelectual nos impelia a construções extemporâneas, sem que houvesse
considerações da sociedade em que se vivia. Em Alagoas, ele encontrou em
um muro: "Índios, uni-vos!". A afirmação incongruente alargava a
indigência teórica dos revolucionários de nossa terra.
![]() |
| Carlos Vereza no papel de Graciliano. Memórias do Cárcere, filme de Nelson Pereira dos Santos |
Graça
ficou preso em um quartel no Recife. Depois, foi embarcado em um navio.
Costeou o Nordeste e, finalmente, chegou ao Rio de Janeiro - Ilha
Grande e Colônia Correcional. A latrina que se constituiu o porão do
navio era um amostra de como a burocracia totalitária e insensível de
Vargas tratava os prisioneiros políticos, em sua maioria sujeitos que
haviam ingressado em uma esparrela revolucionária. Eram colocados em um
submundo. Tornavam-se como bichos, jogados de um lado para outro. Sendo
ruídos pelos piolhos, percevejos e pela mucurana. Alimentado-se mal. Sem
um lugar satisfatório para dormir, Graça definha. Emagrece. Fuma
desvairadamente. Observa a fauna humana. Seus ritos. Caprichos. A
contradição nos gestos. Os muros erguidos. Os chefetes legitimados por
uma farda. Criaturas inexpressivas. Insetos sociais, que se agigantavam
quando escudados pela força autoritária do Estado. Mas, às vezes, a
cordialidade aparecia. E esmaecia por trás das nuvens dos interesses.
Como o próprio Graça vai dizer: "Éramos cupins dentro do edifício
burguês".
O livro é dividido em quatro partes. Cada uma das partes tem o propósito de narrar um lugar em que esteve o autor de Vidas Secas.
Quando penso em experiência em prisões, não devo deixar de citar três
livros imprescindíveis para mim: "Memórias do Cárcere", "Recordação da
Casa dos mortos", de Dostoiévski e "Os contos de Kolimá", de Varlam
Chalámov. São retratos de como a esterilidade de pensamento político
pode transformar seres humanos em resíduos, em peças de uma engrenagem
que desumaniza, que espolia a dignidade necessária que nos coloca numa
posição que, nós humanos, julgamos especial. A exploração do homem pelo
homem é um dos fatores que levam ao emprego dos mais variados tipos de
violência.
domingo, março 20, 2016
Os heróis e a conveniência
A mídia burguesa precisa construir heróis para que os setores
conservadores tenham uma sensação de que a justiça está sendo feita.
Todavia, todo Aquiles possui um calcanhar... O que a mídia não fala é
que a luta de classes tem lado. De um lado os trabalhadores, que
precisam de mobilização, organização; do outro, todo o aparato que
legitima esse estado de coisas da ordem burguesa (a mídia nos seus mais
variados formatos a destilar consensos, empresários, setores do Estado -
Polícia Federal, Judiciário, Ministério
Público, que são instâncias em que "os embaixadores das elites" se
estabelecem para subverter as garantias constitucionais) -, os rentistas
etc. No Legislativo, boa parte dos parlamentares são meninos de negócio
do capital. No meio disso tudo está a classe média "fascinada" com essa
cantilena de força tarefa anticorrupção. A corrupção deve ser vista
como elemento antropológico no Brasil. Deve ser estudada, debatida,
pesada, avaliada. Não é um sujeito que vai erradicá-la.
O que está em
jogo é a implosão do Estado Democrático de Direito, construído a duras
penas. O que está em jogo ainda é uma dura ofensiva conservadora
neoliberal que virá com fúria total contra os trabalhadores e contra os
direitos trabalhistas. Lembrem-se de que o projeto da terceirização está
guardado "em banho maria". Ainda não foi completamente derrotado. Que o
desejo da FIESP é a derrocada da CLT; a morte dos direitos que ainda
dão dignidade ao trabalhador - 13° salário, férias, seguro desemprego
etc; que o PSDB, o partido com mais chances de assumir a presidência
caso o PT saia de cena, foi majoritariamente favorável ao projeto quando
este foi votado na Câmara. A classe média não consegue enxergar que a
gravidade impele para baixo todo corpo que é jogado para cima. Uma pedra
atirada para o alto, pode voltar sobre a sua própria cabeça. É só olhar
para o lado e perceber o que Macri tem feito com a Argentina. Mais de
30 mil servidores públicos já foram demitidos; arrocho; aumentos
desordenados para favorecer o grande capital. O capital precisa de
crises para se fortalecer. Todas as vezes em que há crises, quem perde
são os trabalhadores que precisam voltar a rolar a pedra para tentar
subir a montanha como no mito de Sísifo.
P.S. Como disse alguém, há alguns anos atrás foi o Joaquim Barbosa.
quarta-feira, março 16, 2016
Algumas perguntas de um operário que tenta lê
Brecht provou no seu poema "Perguntas de um operário que lê", que é mais importante ter perguntas do que respostas para entender a sua condição. Por isso, fico indagando aqui com minhas limitações:
1 - Por que Sérgio Moro soltou um áudio da presidenta no início da noite, no dia em que Lula foi declarado ministro?
2 - Por que a emissora escolhida foi a Rede Globo (G1 e Globo News)?
3 - Segundo a Constituição na parte que trata das competências do Judiciário, as decisões desse poder devem ser motivadas, mas aonde está a motivação para o que fez?
4 - Como servidor público, suas decisões não deveriam levar em conta os princípios do direito administrativo (proporcionalidade, razoabilidade, moralidade etc)?
5 - Por que o áudio foi entregue deliberadamente (não é vazado, pois semanticamente daria a entender que se trata de algo que aconteceu de forma acidental) no dia em que ele perdeu a competência para julgar o ex-presidente?
6 - Teria o sr. Moro se ressentido pela perda de competência?
7 - Teria desejado entrar para a história como alguém que fez "justiça" no país, prendendo preventivamente um dos brasileiros mais respeitados do mundo?
8 - Lembro certa afirmação de Nietzsche: "Não há fatos apenas; o que há são interpretações". Estariam suas "interpretações" viciadas, deixando transparecer sua falta de credibilidade como juiz?
9 - 'Se o que há são interpretações", não seria possível apontar o vício em suas interpretações à luz do que vem acontecendo?
10 - Por que ele sempre aparece em eventos promovidos por empresários antigovernistas, pelo Grupo Abril e pela Rede Globo?
11 - Com relação à pergunta "10", isso não geraria uma potência interna capaz de afetar o princípio da "imparcialidade" esculpido no artigo 37 da Carta Magna?
12 - É comum que ele entregue os áudios de todos os casos que julga?
13 - O que ele pretende com essas deliberações?
14 - Isso não prova que há uma invasão na competência dos poderes, violando o princípio constitucional "da independência e da harmonia", originado em Montesquieu?
15 - O sr. Moro não estaria violando a seção que trata dos direitos e garantias fundamentais do cidadão na Constituição?
16 - Não prova que ele deixou de fazer "justiça" e passou fazer "justiçamento"?
17 - Como presidenta, Dilma não tem a competência para nomear quem ela quiser, já que Lula não é réu da justiça?
18 - Ele não atentou contra a segurança nacional, já que expôs a presidenta da República?
19 - Se luta contra a legalidade, por que se utilizou de mister ilegal para conseguir um áudio que implica a presidenta da República?
20 - Com relação à pergunta 19, ele, também, não teria violado a lei, tornando-se "corrupto" por isso?
21 - Ele desconhece a lei que vige sobre grampo telefônico?
São apenas perguntas de um "operário" que tenta lê...
domingo, março 13, 2016
As elites, a classe média e o nosso nanismo intelectual
Sou um sujeito de parcos meios. Não tenho dinheiro. Sempre morei em subúrbio. Não ostento marcas. Se viajo no final do ano é por conseguir fazer um malabarismo financeiro: ajustar, apertar, poupar. Hoje cedo, enquanto corria pelas míticas ruas de Ceilândia, lembrava aquilo que sempre afirmo para a minha esposa: "Seria interessante morar fora do Brasil". Vez ou outra conversamos sobre essa possibilidade. A pergunta sempre surge em momentos de desapontamentos com a situação política do país. Mas, as minhas condições talvez não favoreçam. Olho para dentro do país e me bate um desalento. Somos um país com uma classe média nanica e facilmente cooptável. Pensava sobre esse fato e uma indignação sorna foi surgindo silenciosamente. Ao voltar para casa, pude ver alguns "idiotas úteis" com camisas amarelas da seleção brasileira, uma organização cujo caráter dos seus dirigentes e de suas ações são, no mínimo, questionáveis. A imagem apenas realça os paradoxos desse país de raquitismo intelectual. Outro terrível paradoxo é ver o PSDB (na pessoa de Aécio Neves) convocando as manifestações contra o Governo.
Somos um dos países mais ignorantes do mundo. Procurando informações sobre a quantidade de livros que os brasileiros leem por ano, cheguei a um número absurdo para as nossas pretensões: em média 1,8 livros por ano por habitante. Mas, se medirmos o tamanho de nossa ignorância sobre amplos setores da cultura humana, encontraremos níveis estratosféricos. Não lemos como deveríamos. Não temos curiosidade intelectual. Todavia, em contrapartida, emitimos opiniões peremptórias sobre quase tudo - principalmente, sobre o campo político. E se formos conversar sobre a situação do Brasil com qualquer sujeito, encontraremos aquele chavão mais velho que as estradas do mundo: "político é tudo corrupto; é preciso investir em educação". Aonde o sujeito achou essa tese? Ora, naquilo que ele escuta e ver todos os dias na televisão. O lugar comum. O senso rasteiro. A facebookização do nosso país, permitiu que aqueles viviam com sua fascistas e farsescas teses íntimas, tornassem isso em ejaculação plena.
O Brasil é um país ainda colonizado sobre vários aspectos. O ethos da colonização ainda está preso dentro de nossa sociedade assentada na desigualdade. Temos uma das elites mais atrasadas do mundo e uma classe média que se acha elite. No filme Mauá - o imperador e o rei, filme cuja importância histórica é indescritível, pude presenciar como as nossas elites se acumpliciam contra o país. No século XIX, o barão de Mauá, inspirado pelos ideais do liberalismo inglês, queria desenvolver o Brasil, torná-lo em uma potência; industrializá-lo. Tirá-lo da condição subalterna. Elevá-lo aos olhos do mundo. "Descolonizar" a nossa condição. Exorcizar nosso servilismo à frente do países europeus. Ele chegou a ser mais rico do que Dom Pedro II. Era um sujeito altamente influente. Foi responsável pela construção da primeira estrada de ferro do Brasil. Mas havia um problema, os barões do café, as oligarquias subservientes urdiram arapucas contra o barão empreendedor. Até mesmo Pedro II ficou contra o barão. Mauá acabou indo a pior. Faliu. Recuperou-se. Todavia, nunca voltou a ser o que foi. Mas, as elites continuaram seus voos de cabra-cega. Manoel Bandeira satiriza isso no poema Os sapos.
Em 1889, quando o imperador já não servia para os interesses das oligarquias, aplicou-se um golpe sem que o povo desse pela passagem do Império para a República. Os golpes sempre foram a arma mais sobeja utilizada pelas elites.
Existe uma característica fundamental em nossas elites: ela não mede esforços para se perpetuar no poder. A ausência do poder, do controle, é uma ameaça terrível à sua hegemonia. É estando no poder que essa mesma elite promove a moral manca da ordem; da eugenia; do imobilismo social. Ela não quer ter os seus privilégios ameaçados. E aí entra a classe média, que acha que é elite - sem sê-lo. A classe média é burra, pois entende que, por ter um cartão de crédito e poder viajar, pensa já ter alcançado um status que a coloca na posição de mandatária do país. É preciso dar uma boa risada nesse sentido. Ela é conservadora, pois busca "conservar" a ordem (desculpem o trocadilho) para que não desça do degrau do consumo. Para ela, quanto mais se consome, mais cidadão se é, mais se vive numa sociedade plenamente democrática. Não. Não é o cartão de crédito que torna um sujeito cidadão. As elites já entenderam isso. Todas as vezes que essas mesmas elites buscam perpetrar seus intentos, elas açulam a ignorância e cegueira da classe média.
Nossa democracia é estreita. E como disse José Saramago: "uma espécie de democracia amputada". Ou seja, democracia deficiente, involuída, sem a robustez necessária para que o nosso país avance no que tange aos direitos; para que as liberdades necessárias sejam respeitadas; para que os poderes funcionem com autonomia e isenção. O que vemos no Brasil é um vício institucional em todos os sentidos.
Já faz treze anos que um governo de origem popular está no poder. Treze anos sem que as oligarquias façam aquilo que sempre fizeram: estripar o país para manter os seus privilégios. Nada de inserção das camadas populares no ensino superior; nada de aumento da renda; nada de programas habitacionais; nada que favoreça a agenda dos bancos públicos como envidadores econômicos. As elites desejam os seus privilégios. Elas não se importam com a classe média nem com as camadas mais populares da sociedade. Essas elites defendem o Estado mínimo, sim, mas para o povo; e máximo para ela.
A vitória de Lula em 2002 era inexorável. Não havia como detê-lo. Todavia, para que ele governasse com "tranquilidade", foi necessário que fizesse um pacto com essas elites que existem como espectros para punir o país. O governo era do PT, mas, dentro dele, havia o braço do capital financeiro - ou seja, a seara de atuação daqueles que mandam no país. É, por isso, que nunca na história desse país, os bancos e outros setores da economia como a construção civil, empresas que atuam no campo da infraestrutura do país, lucraram tanto.
Com o Governo Dilma, as elites não puderam mais continuar com o seu projeto. Enquanto todos se beneficiavam com um governo que atendia aos seus interesses, o casamento de mentira podia se manter. Acontece que com as crises cíclicas e típicas do capital, Dilma não conseguiu emplacar o sucesso de Lula. A diferença de Lula e Dilma não está somente nos governos, mas na capacidade que cada um tem: aquele é imensamente habilidoso para costurar alianças e subverter situações adversas, esta possui uma oratória claudicante, que demonstra o seu desarranjo em situações várias.
Treze anos de Governo do PT é muito para as nossas elites. É insuportável para quem, em quinhentos anos, esteve assentado no sofá da casa-grande.
Essa onda que tomou o país desde 2014, quando da eleição de Dilma, chegou a um paroxismo insustentável. A mídia conservadora, que pertence às nossas famigeradas elites, tem conseguido desmontar um governo eleito e legitimado pelas urnas. Os dias tornam-se nebulosos não somente para o Governo, mas para todos aqueles, que como eu, possui uma crença ingênua na democracia.
Hoje cedo, ao ver aqueles sujeitos vestidos com a camisa da seleção brasileira, que pertencem à classe média (e, portanto à classe trabalhadora), indo para uma suposta manifestação contra o governo; "protestar"contra uma corrupção "seletiva", já que muitos dos políticos do PSDB que estariam na nefasta manifestação, também, não são ninfas puras e santas, percebi o tamanho de nosso desarranjo. Vendo a farândola vestida de amarelo, como amarelo estava o meu ânimo, com a bandeira nas costas, percebi o nível de nossa imbecilidade. O idiota útil que foi à manifestação de hoje e que amanhã acordará para trabalhar, não percebe que o que está em jogo é uma ruptura democrática. Que o nosso país de biltres e pulhas, de malandros e carnavais, de futebol e otimismo chocho, que nossa frágil "coesão democrática" construída desde 1988 com a nova Constituição está ameaçada. Quando cai um governo de origem popular (por mais que o PT não seja um partido socialista e que tenha perdido muito de sua legitimidade), mas, que historicamente, sinalizou para a preservação dos direitos da classe trabalhadora, quem perde são os trabalhadores - inclusive a "boçal" classe média, que não é elite. Hoje vivemos um dilema: ruim com o PT; pior sem o PT.
domingo, fevereiro 21, 2016
Crônica de uma viagem - parte 2
Como deixei transparecer na última postagem sobre a viagem que eu e minha esposa realizamos, saímos da rústica e atraente Lençóis e rumamos para Aracaju. Saímos por volta de 11 horas da manhã. O sol estava a pino. Incidia diretamente no calçamento pedregoso e criava uma expectativa por sombra. Tiramos algumas fotos do lugar. Olhei lânguido para os morros que cercam a cidade. Lençóis foi construída em um vale. Por dentro do seu organismo, há um rio com o nome da cidade, que a atravessa como se fosse uma veia femural.
Entramos no carro. Dirigimos os onze quilômetros da BA 144, que separam Lençóis da BR 242. Rumamos em velocidade regular. Bebericava a paisagem. Engolia-a. Sorvia o máximo possível. Tenho uma paixão por viajar de carro. Faz-me lembrar aquele música de Luis Gonzaga: "Estrada de Canindé". É indo pela estrada que vemos a natureza em sua largueza primeva - "O orvalho beijando a flor; o galo-de-campina, que quando canta muda de cor; as águas do riacho... que água fresca, nosso Senhor". Essa paráfrase surgia mansa por entre as folhagens da floresta enorme de contentamento. Todas as vezes que escuto essa música, sou atravessado pela certeza de que são as pequenas coisas que trazem gozos singelos e necessários.
A velocidade do avião - para mim - é uma metáfora do mundo moderno. Estamos sempre correndo - até mesmo na hora em que viajamos. Não tenho pressa. Alguns detalhes acabam ficando para trás quando nos arvoramos, quando aceitamos a tresloucada indisciplina do nosso tempo. Estamos sempre correndo. E, por corrermos em excesso, deixamos passar alguns elementos que tornam a nossa vida mais plena de sentido. Pensando nessas coisas, eu conversava com a minha esposa.
A estrada ia ficando para trás. As cidades a se sucederem, enquanto empreendia marcha tranquila - Tanquinho, São Miguel, Itaberaba, Argoim, Feira de Santana. Desde criança, desejava dirigir por esses trechos. Lembro-me de que em tempos de criança, eu, minha mãe e meu irmão costumávamos percorrer esse trajeto no ônibus da Viação Itapemirim. Íamos para Pernambuco praticamente todos os anos. Ficávamos quase três dias dentro do caixote amarelo motorizado. Até hoje, quando vejo um ônibus da empresa, vêm a mim os aromas indeléveis da infância. E, nesse sentido, recordo-me de uma frase de Rubem Alves. Diz ele que 'a felicidade é o que descobrimos quando voltamos ao mesmo lugar'. Sim. Para mim, voltar àquele lugar significa sentir os eflúvios de um tempo que não é mais matéria, mas é saudade.
Chegamos a Feira de Santana por volta das três da tarde. Entreguei o volante à minha esposa. Ela dirigiu um pequeno trecho pela BR 324, que segue para Salvador. Pegamos desvio. Seguimos pela BR 101, uma das maiores rodovias do Brasil. O pesado fluxo de caminhões torna a direção um negócio que exige paciência. Alguns sujeitos acabam assumindo uma postura de doidivanas. Fiam-se por um estouvamento inconsequente. Fazem ultrapassagens impossíveis como se estivessem fugindo de ameaça poderosa. Metem-se em brechas. Costuram pelo acostamento. Põem em risco a vida do cidadão tranquilo que segue alheio a esses rompantes de imprudência. Absurdifiquei-me em alguns momentos. Arreliei-me. Engrossei o discurso em um protesto arrepiado. Tentei meter juízo em minha razão incrédula. Fazer um exercício de compreensão. Mais protestos. Minha esposa achou que minha expansão era pouco razoável. Voltei a mim. Fiquei a pensar como o sujeito se mete em desatinado empreendimento. Certamente, tal ação é desnecessária. O procedimento do pequeno-burguês ajuda a aumentar as estatísticas com acidentes terríveis pelas estradas brasileiras. Dentro do seu modelo SUV, o patife sente-se protegido. Exibe sua pretensa potência para o mundo. O carro é uma armadura. O pulha se acha encapsulado, protegido das refregas do mundo exterior. Seu senso de liberdade é uma ameaça a sujeitos que buscam apenas seguirem com tranquilidade para os seus destinos como eu estava naquele momento.
Trecho complexo entre Feira de Santana-BA e Estância-SE. E minha esposa aguentou a premência da situação. Uma admiração silenciosa cresceu em mim. Chegamos a Aracaju por volta de sete e meia da noite. Em um primeiro instante, julguei o trânsito caótico. Ao passar pela Rodoviária Interestadual da cidade, lembrei o fato de ter estado lá dois anos antes. Achamos o hostel onde ficaríamos por seis dias. Saímos para comer. Fizemos um reconhecimento inicial da orla simpática de Atalaia. Nunca havia visto tanto lugar onde se pode tomar açaí. Pensei em associação invisível entre os sergipanos e paraenses.
Ficamos na cidade do dia 29 de dezembro até o dia 4 de janeiro. A experiência foi positiva. A capital sergipana é cheia de atrativos. A logística do trânsito funciona de forma satisfatória. Enquanto estive por lá, a cidade estava empanturrada de turistas. Sair para comer à noite era sempre disputado. Os restaurantes e lanchonetes estavam lotados.
Suas praias não são das mais belas. O mar é bastante recuado. Caminha-se mais de cem metros para se chegar até a praia em alguns trechos. As ondas são sempre agitadas. Quem gosta de vagas mais tranquilas, certamente não as encontrará em Aracaju. Todavia, a cidade possui um charme particular. O povo é receptivo e conversador.
Dois locais deixaram marcas salientes em minha visita a Sergipe. O primeiro deles é a visita que fiz à Usina de Xingó, localizada a aproximadamente duzentos e trinta quilômetros da capital, localizada no município de Canindé de São Francisco. Compramos o passeio. A empresa apareceu por volta de sete e meia da manhã. O café da manhã da pousada ficou incompleto. Não concluímos o repasto matinal. A vã deu várias voltas pela cidade para pegar outros sujeitos que se fiariam na viagem também. Viajamos por cerca de três horas e meia para chegar até lá.
O motorista da condução aparentava sinais de cansaço. Os olhos eram duas esferas vermelhas. Disse em outro momento para mim que acordara às cinco e meia da madrugada. Um átimo de preocupação acometeu os circunstantes. Certos indivíduos resolveram puxar conversa com o sujeito. Com esse mister seguimos pelo sertão sergipano. Casas acanhadas no meio da vegetação seca, estorricada. Árvores distantes, separadas por distâncias enormes. As catingueiras a surgirem floridas em ilhas no meio da paisagem agreste. Em planícies ressequidas, povoadas pelas manchas amarelas dos pau d'alhos, o gado magro se alimentava de uma vegetação inexistente e seca. Plantações de cactos nos quintais das casas criavam uma paisagem diversa. Fiquei a pensar na utilidade da planta; como o sertanejo arranjava emprego para a palma espinhosa.
Ao passarmos por Poço Redondo, o guia nos comunicou que aquele foi o lugar em que Lampião e seus cabras foram apanhados pelas tropas policiais e depois tiveram suas cabeças cortadas, sendo exibidas em seguida como se tratasse de um aviso sinistro, terrível. Pelo que entendi, existe um passeio que é feito para se conhecer o local da emboscada montada pelos sicários do governo para apanhar a grande lenda do cangaço.
De Poço Redondo a Canindé de São Francisco a viagem deve demorar, no máximo, quarenta minutos. Seguimos. Chegamos à cidade. Coleamos um trecho íngreme. Descemos. Debaixo, pude avistar as paredes e as turbinas da Hidroelétrica. Um trecho pedregoso se avizinhou. Chegamos a um plano mais alto. De lá, pude avistar o imenso lago da Usina. O motorista tentou arranjar uma vaga no estacionamento impossível. Uma renque de ônibus e carros de passeio a equilibrarem-se numa ladeira. Descemos do veículo. O sol inclemente golpeava o meu cocuruto. Criava uma sensação de asfixia. Gotículas davam a sensação de que ribeiros insignificantes corriam por baixo da camisa. Queria uma sombra. Fomos conduzidos a um espaço exíguo. O guia foi comprar os ingressos. Fiquei a observar o espaço no meio da grande chusma. Vozerio imenso. Sujeitos passavam. Uma música capenga de tom festivo se misturava a uma voz que dava instruções para as viagens que sairiam mais tarde nos catamarãs.
Ingressos conseguidos, eu e minha esposa entramos numa debate sobre a possibilidade de almoçar. A fila para comprar os ingressos para o almoço era uma serpente de extensão considerável. Dava voltas. Adquiria formas novas. Fundia-se. Era atravessada por ela mesma. Os cozinheiros levavam panelas enormes para um espaço contíguo. Faziam-se solicitações a fim de lograrem espaço ocupado por copiosa gente. Eu e e minha esposa chegamos à beira do caixa para sermos atendidos. Encetamos novo debate. Seria possível almoçar em meio a tão grande magote? Perderíamos a embarcação? Por fim, desistimos.
Fato interessante se deu quando eu estava sozinho, encostado à amurada de madeira, observando as susceptibilidades. Alguém chegou e perguntou em qual fila seria possível comprar o ingresso para o almoço. Senti-lhe o sotaque. Percebi que se tratava de um habitante da comunidade lusófona. Fiz algumas indagações e iniciamos uma parolagem que se estendeu por quase uma hora. Tratava-se de um sujeito de nome Wagner Bichó, nascido em Guiné Bissau, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que estava por ali com finalidades prescrutadoras. A conversa ziguezagueou por temas diversos. O sujeito falava dos assuntos do nosso nanismo nacional com conhecimento, agudeza e tenacidade. Não pude deixar de admirar-lhe a capacidade. Sua visão humanística. A elasticidade da fala. O primor na análise. A docilidade do dialeto. Os tropos a se derramarem em aplicações exatas. Entusiasmei-me. Gostei daquela figura. Havia um vínculo invisível em nossas histórias. Aproximava-nos por causa dos lastros de exploração sofridos pelo continente africano e o colonialismo impingido ao Brasil e ao restante da América Latina. O encontro com o Wagner valeu a minha ida até o Xingó. Desejei conversar mais. Despedi-me. A embarcação fazia a chamada para o passeio.
Aprumamo-nos na prancha da embarcação. O sol inclemente do início da tarde molestava selvagemente. Recebemos instruções. A embarcação saiu leve, singrando pelas águas esverdeadas do Velho Chico. A extensão líquida de cor de esmeralda criava um contraste intrigante com a paisagem severa que se espalhava ao redor. Dentro da embarcação, procurei um lugar adequado para fazer algumas fotografias. Um falatório grosso não possibilitava qualquer compreensão. A massa sonora era um afluente da música que tocava. As duas braças sonoras se encontravam. Formavam um organismo confuso. O consumo de cerveja esticava os ânimos. Mais falatório. No canto, eu procurava me nutrir da paisagem. Trata-se de um lugar de beleza exótica. A água, potencializadora da vida, estava ali em excesso, costurada nas várias ramificações do corpo do lago e, mesmo tempo, do outro lado, a secura, a paisagem pedregosa e inamistosa, polvilhada pelo sol abrasivo, fazia surgir dualidades. Não deixei de pensar sobre esse fato. Grotas enormes. Pedras. Escarpas vermelhas. Imaginei os bichos que se abrigavam por ali - serpentes venenosas, escorpiões, lagartixas.
A viagem durou cerca de quarenta minutos. Ao chegar ao destino, ficamos uma hora. Retornamos próximo das quatro. A viagem de volta foi longa. Desejei retornar logo. Imaginei os bugalhos vermelhos do motorista. O cansaço acumulado. O corpo a reclamar o descanso. Finalmente, Aracaju apareceu por volta da oito da noite.
Outro fato gostoso que se deu foi a visita ao Museu da Gente Sergipana. O espaço é dedicado à divulgação da cultura e da história do povo sergipano. Procura-se com isso dignificar os costumes, tradições, os falares, as personagens, que construíram e constroem o modo de ser de Sergipe. Algumas revindicações do museu, pelo que observei, podem ser encontradas em outros estados nordestinos - Pernambuco, Paraíba, Alagoas, por exemplo. Refiro-me a determinadas expressões, festas, objetos variados da cultura. O visitante desavisado acaba achando que se trata de algo privativo da cultura de Sergipe. Não. Penso que além de exaltar o Estado, o museu enobrece a bela e rica cultura nordestina.
Um aspecto muito importante do museu é a interatividade. Em todos os espaços, o visitante pode participar, jogar, manipular, verbalizar com os objetos, vídeos, telas animadas. Pode-se ficar bastante tempo por ali. Enriquecer-se com o enxurro de informações.
Aracaju deixou-me impressões grossas e prazenteiras. Saí de lá bastante feliz. Valeu a visita. Pretendo revisitá-la.
Suas praias não são das mais belas. O mar é bastante recuado. Caminha-se mais de cem metros para se chegar até a praia em alguns trechos. As ondas são sempre agitadas. Quem gosta de vagas mais tranquilas, certamente não as encontrará em Aracaju. Todavia, a cidade possui um charme particular. O povo é receptivo e conversador.
Dois locais deixaram marcas salientes em minha visita a Sergipe. O primeiro deles é a visita que fiz à Usina de Xingó, localizada a aproximadamente duzentos e trinta quilômetros da capital, localizada no município de Canindé de São Francisco. Compramos o passeio. A empresa apareceu por volta de sete e meia da manhã. O café da manhã da pousada ficou incompleto. Não concluímos o repasto matinal. A vã deu várias voltas pela cidade para pegar outros sujeitos que se fiariam na viagem também. Viajamos por cerca de três horas e meia para chegar até lá.
O motorista da condução aparentava sinais de cansaço. Os olhos eram duas esferas vermelhas. Disse em outro momento para mim que acordara às cinco e meia da madrugada. Um átimo de preocupação acometeu os circunstantes. Certos indivíduos resolveram puxar conversa com o sujeito. Com esse mister seguimos pelo sertão sergipano. Casas acanhadas no meio da vegetação seca, estorricada. Árvores distantes, separadas por distâncias enormes. As catingueiras a surgirem floridas em ilhas no meio da paisagem agreste. Em planícies ressequidas, povoadas pelas manchas amarelas dos pau d'alhos, o gado magro se alimentava de uma vegetação inexistente e seca. Plantações de cactos nos quintais das casas criavam uma paisagem diversa. Fiquei a pensar na utilidade da planta; como o sertanejo arranjava emprego para a palma espinhosa.
Ao passarmos por Poço Redondo, o guia nos comunicou que aquele foi o lugar em que Lampião e seus cabras foram apanhados pelas tropas policiais e depois tiveram suas cabeças cortadas, sendo exibidas em seguida como se tratasse de um aviso sinistro, terrível. Pelo que entendi, existe um passeio que é feito para se conhecer o local da emboscada montada pelos sicários do governo para apanhar a grande lenda do cangaço.
De Poço Redondo a Canindé de São Francisco a viagem deve demorar, no máximo, quarenta minutos. Seguimos. Chegamos à cidade. Coleamos um trecho íngreme. Descemos. Debaixo, pude avistar as paredes e as turbinas da Hidroelétrica. Um trecho pedregoso se avizinhou. Chegamos a um plano mais alto. De lá, pude avistar o imenso lago da Usina. O motorista tentou arranjar uma vaga no estacionamento impossível. Uma renque de ônibus e carros de passeio a equilibrarem-se numa ladeira. Descemos do veículo. O sol inclemente golpeava o meu cocuruto. Criava uma sensação de asfixia. Gotículas davam a sensação de que ribeiros insignificantes corriam por baixo da camisa. Queria uma sombra. Fomos conduzidos a um espaço exíguo. O guia foi comprar os ingressos. Fiquei a observar o espaço no meio da grande chusma. Vozerio imenso. Sujeitos passavam. Uma música capenga de tom festivo se misturava a uma voz que dava instruções para as viagens que sairiam mais tarde nos catamarãs.
Ingressos conseguidos, eu e minha esposa entramos numa debate sobre a possibilidade de almoçar. A fila para comprar os ingressos para o almoço era uma serpente de extensão considerável. Dava voltas. Adquiria formas novas. Fundia-se. Era atravessada por ela mesma. Os cozinheiros levavam panelas enormes para um espaço contíguo. Faziam-se solicitações a fim de lograrem espaço ocupado por copiosa gente. Eu e e minha esposa chegamos à beira do caixa para sermos atendidos. Encetamos novo debate. Seria possível almoçar em meio a tão grande magote? Perderíamos a embarcação? Por fim, desistimos.
Fato interessante se deu quando eu estava sozinho, encostado à amurada de madeira, observando as susceptibilidades. Alguém chegou e perguntou em qual fila seria possível comprar o ingresso para o almoço. Senti-lhe o sotaque. Percebi que se tratava de um habitante da comunidade lusófona. Fiz algumas indagações e iniciamos uma parolagem que se estendeu por quase uma hora. Tratava-se de um sujeito de nome Wagner Bichó, nascido em Guiné Bissau, professor da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), que estava por ali com finalidades prescrutadoras. A conversa ziguezagueou por temas diversos. O sujeito falava dos assuntos do nosso nanismo nacional com conhecimento, agudeza e tenacidade. Não pude deixar de admirar-lhe a capacidade. Sua visão humanística. A elasticidade da fala. O primor na análise. A docilidade do dialeto. Os tropos a se derramarem em aplicações exatas. Entusiasmei-me. Gostei daquela figura. Havia um vínculo invisível em nossas histórias. Aproximava-nos por causa dos lastros de exploração sofridos pelo continente africano e o colonialismo impingido ao Brasil e ao restante da América Latina. O encontro com o Wagner valeu a minha ida até o Xingó. Desejei conversar mais. Despedi-me. A embarcação fazia a chamada para o passeio.
Aprumamo-nos na prancha da embarcação. O sol inclemente do início da tarde molestava selvagemente. Recebemos instruções. A embarcação saiu leve, singrando pelas águas esverdeadas do Velho Chico. A extensão líquida de cor de esmeralda criava um contraste intrigante com a paisagem severa que se espalhava ao redor. Dentro da embarcação, procurei um lugar adequado para fazer algumas fotografias. Um falatório grosso não possibilitava qualquer compreensão. A massa sonora era um afluente da música que tocava. As duas braças sonoras se encontravam. Formavam um organismo confuso. O consumo de cerveja esticava os ânimos. Mais falatório. No canto, eu procurava me nutrir da paisagem. Trata-se de um lugar de beleza exótica. A água, potencializadora da vida, estava ali em excesso, costurada nas várias ramificações do corpo do lago e, mesmo tempo, do outro lado, a secura, a paisagem pedregosa e inamistosa, polvilhada pelo sol abrasivo, fazia surgir dualidades. Não deixei de pensar sobre esse fato. Grotas enormes. Pedras. Escarpas vermelhas. Imaginei os bichos que se abrigavam por ali - serpentes venenosas, escorpiões, lagartixas.
A viagem durou cerca de quarenta minutos. Ao chegar ao destino, ficamos uma hora. Retornamos próximo das quatro. A viagem de volta foi longa. Desejei retornar logo. Imaginei os bugalhos vermelhos do motorista. O cansaço acumulado. O corpo a reclamar o descanso. Finalmente, Aracaju apareceu por volta da oito da noite.
Outro fato gostoso que se deu foi a visita ao Museu da Gente Sergipana. O espaço é dedicado à divulgação da cultura e da história do povo sergipano. Procura-se com isso dignificar os costumes, tradições, os falares, as personagens, que construíram e constroem o modo de ser de Sergipe. Algumas revindicações do museu, pelo que observei, podem ser encontradas em outros estados nordestinos - Pernambuco, Paraíba, Alagoas, por exemplo. Refiro-me a determinadas expressões, festas, objetos variados da cultura. O visitante desavisado acaba achando que se trata de algo privativo da cultura de Sergipe. Não. Penso que além de exaltar o Estado, o museu enobrece a bela e rica cultura nordestina.
Um aspecto muito importante do museu é a interatividade. Em todos os espaços, o visitante pode participar, jogar, manipular, verbalizar com os objetos, vídeos, telas animadas. Pode-se ficar bastante tempo por ali. Enriquecer-se com o enxurro de informações.
Aracaju deixou-me impressões grossas e prazenteiras. Saí de lá bastante feliz. Valeu a visita. Pretendo revisitá-la.
Saímos de lá dia quatro de janeiro e fomos para João Pessoa, a capital paraibana.
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| Últimos instantes em Lençóis |
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| BR 242 - próximo a Argoim-BA |
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| Sertão sergipano |
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| Chegada ao lago de Xingó. No centro, São Francisco |
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| Praça Lampião - Poço Redondo- SE |
terça-feira, fevereiro 09, 2016
"Contos de Kolimá", um retrato implacável feito pelo homem - contra o homem
“A natureza no Norte não fica
apática, indiferente: ela entra em conluio com aqueles que nos mandam para lá”.
(p. 116)
"Cada minuto da vida no campo de
prisioneiros é um minuto envenenado". (p. 239)
O livro Contos de Kolimá, de Varlam Chalámov, é uma revelação do asfixiamento moral e do desnudamento completo da natureza humana; de como o ser humano pode se transformar em criatura guiada pelo instinto de sobrevivência quando enxovalhado por condições que maculam a sua existência.
Kolimá é uma região desolada da imensa Sibéria. Era para lá que os prisioneiros políticos do regime soviético eram levados. Segundo Varlam Chalámov, em certas épocas a temperatura chegava a sessenta graus negativos ("o cuspe congelava antes de chegar ao chão"). As vestimentas precárias, a condição de vida miserável, a alimentação insuficiente e pobre, o trabalho excessivo no ambiente frio, aniquilavam o corpo e o espírito.
A prosa de Varlám Chalámov é fria, assim como a paisagem da Sibéria. A imersão que ele faz nos tipos humanos: a arrogância dos soldados do regime, a canalha acumulada aos magotes no campo de concentração, a comida capenga, o escorbuto a fazer cair a pele, a carunchar os tecidos epiteliais, os ambientes inóspitos da região gelada, a natureza que parecia se aliar aos algozes, fazendo aumentar os infortúnios; o trabalho excessivo, às vezes, chegando a turnos extremos de dezesseis horas diárias em minas de carvão e ouro para cumprir as sanções do regime stalinista.
Chalámov esteve por mais de vinte anos nesses campos de trabalhos forçados. A primeira vez foi para lá por ter ingressado em um grupo que pedia a renúncia de Stálin. Na segunda vez, escreveu um livro e acabou sendo preso, acusado de orquestrar atividades clandestinas. Filho de um sacerdote, sua família perdera os privilégios com a Revolução de Outubro. Com o recrudescimento dos expurgos de Stálin, quando passou a haver uma sistematização da perseguição aos opositores do regime e o "arranjo" humilhante da deportação para a Sibéria, Chalámov foi parar em Kolimá. A paisagem branca e severa da Sibéria é uma inimiga atroz da condição humana. E quando não se está preparado para ela, ela castiga mais que o ódio humano.
As autoridades soviéticas sabiam muito bem o porquê de enviar os prisioneiros para lá: não havia possibilidades de fugas ou expansões que permitissem revoltas. Subnutridos e humilhados, os prisioneiros iam sendo puídos pelas condições medonhas a que eram submetidos. A única alimentação medonha que, o escritor teve, de forma sobeja, foram os traumas que se sedimentaram como uma camada compacta, maciça, escabrosa, fossilizada, nos recantos escuros da memória. O escritor externou, a partir de 1953, o resultado daquele produto. O trabalho o absorveu por vinte anos. Desfazer-se daquilo foi uma tarefa arqueológica. Escoimou-se, por isso. Purificou-se. Ou simplesmente, narrou de forma dura a fim de exprimir com o realismo necessário a dureza sentida na pele e na alma.
Chalámov deixou um registro da brutalidade, da vilania direcionada a outro ser humano. Atualmente, os Contos são de leitura na Rússia. Acredito que sejam um dos documentos mais bem escritos sobre as condições de penúria da vida de qualquer ser humano. O homem submetido a juízos extremos tende a perder a casca desenhada pela civilização; um homem que tem a fome como companheira inseparável, tende a ganhar instintos selvagens; um homem que passa a ter sua dignidade der ser humano ameaçada, volta a um estado de natureza, ou seja, passa a desprezar a vida de si e do outro. Chalámov é um retratista atento desse quadro medonho. A vida humana não valia nada naquele lugar. A mão poderosa de um Estado invisível que se agigantava, tornava-se presente na ameaça implacável do fuzil. Os prisioneiros eram matéria imprestável e passageira para a essa burocracia mesquinha. Se morressem, eram jogados na paisagem fantasmagoricamente branca; alimentariam os lariços ou a taiga quando chegasse o verão ou a primavera.
Qualquer degrau social possui a sua característica. Os tipos humanos de cada geografia correspondem aos atributos do lugar. É curioso, por exemplo, perceber Chalámov citar Dostoiévski (Recordação da casa dos mortos) e apontar que o autor de Crime e Castigo ficou "enternecido" com os tipos criminosos da cadeia, quando estivera preso na Sibéria, no século XIX. Em Kolimá, Dostoiévski "não se permitiria a expressar nenhuma compaixão". Chalámov acrescenta: "O chefe é grosseiro e cruel, o educador mentiroso, o médico inescrupuloso, mas tudo isso são bobagens em comparação com a força corruptora do mundo da bandidagem. De qualquer modo, são pessoas, mas neles raramente se manifesta algo de humano. Os bandidos, portanto, não são humanos". Na prosa de Chalámov se encavalam monstros, bichos sórdidos que buscam sobreviver na tenacidade contrastável do submundo.
A Editora 34 lançou os Contos de Kolimá o ano passado. Pretende lançar outros cinco volumes com a prosa dura de Chalámov - Vol. 1 - Contos de Kolimá; Vol. 2 - A margem esquerda; Vol. 3 - O artista da pá; Vol. 4 - Ensaios sobre o mundo do crime; Vol. 5 - A ressurreição do lariço; e Vol. 6 - A luva, ou KR-2. Se assemelharem ao primeiro são, portanto, imperdíveis.
Kolimá é uma região desolada da imensa Sibéria. Era para lá que os prisioneiros políticos do regime soviético eram levados. Segundo Varlam Chalámov, em certas épocas a temperatura chegava a sessenta graus negativos ("o cuspe congelava antes de chegar ao chão"). As vestimentas precárias, a condição de vida miserável, a alimentação insuficiente e pobre, o trabalho excessivo no ambiente frio, aniquilavam o corpo e o espírito.
A prosa de Varlám Chalámov é fria, assim como a paisagem da Sibéria. A imersão que ele faz nos tipos humanos: a arrogância dos soldados do regime, a canalha acumulada aos magotes no campo de concentração, a comida capenga, o escorbuto a fazer cair a pele, a carunchar os tecidos epiteliais, os ambientes inóspitos da região gelada, a natureza que parecia se aliar aos algozes, fazendo aumentar os infortúnios; o trabalho excessivo, às vezes, chegando a turnos extremos de dezesseis horas diárias em minas de carvão e ouro para cumprir as sanções do regime stalinista.
Chalámov esteve por mais de vinte anos nesses campos de trabalhos forçados. A primeira vez foi para lá por ter ingressado em um grupo que pedia a renúncia de Stálin. Na segunda vez, escreveu um livro e acabou sendo preso, acusado de orquestrar atividades clandestinas. Filho de um sacerdote, sua família perdera os privilégios com a Revolução de Outubro. Com o recrudescimento dos expurgos de Stálin, quando passou a haver uma sistematização da perseguição aos opositores do regime e o "arranjo" humilhante da deportação para a Sibéria, Chalámov foi parar em Kolimá. A paisagem branca e severa da Sibéria é uma inimiga atroz da condição humana. E quando não se está preparado para ela, ela castiga mais que o ódio humano.
As autoridades soviéticas sabiam muito bem o porquê de enviar os prisioneiros para lá: não havia possibilidades de fugas ou expansões que permitissem revoltas. Subnutridos e humilhados, os prisioneiros iam sendo puídos pelas condições medonhas a que eram submetidos. A única alimentação medonha que, o escritor teve, de forma sobeja, foram os traumas que se sedimentaram como uma camada compacta, maciça, escabrosa, fossilizada, nos recantos escuros da memória. O escritor externou, a partir de 1953, o resultado daquele produto. O trabalho o absorveu por vinte anos. Desfazer-se daquilo foi uma tarefa arqueológica. Escoimou-se, por isso. Purificou-se. Ou simplesmente, narrou de forma dura a fim de exprimir com o realismo necessário a dureza sentida na pele e na alma.
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| Varlam Tikhonovitch Chalámov |
Qualquer degrau social possui a sua característica. Os tipos humanos de cada geografia correspondem aos atributos do lugar. É curioso, por exemplo, perceber Chalámov citar Dostoiévski (Recordação da casa dos mortos) e apontar que o autor de Crime e Castigo ficou "enternecido" com os tipos criminosos da cadeia, quando estivera preso na Sibéria, no século XIX. Em Kolimá, Dostoiévski "não se permitiria a expressar nenhuma compaixão". Chalámov acrescenta: "O chefe é grosseiro e cruel, o educador mentiroso, o médico inescrupuloso, mas tudo isso são bobagens em comparação com a força corruptora do mundo da bandidagem. De qualquer modo, são pessoas, mas neles raramente se manifesta algo de humano. Os bandidos, portanto, não são humanos". Na prosa de Chalámov se encavalam monstros, bichos sórdidos que buscam sobreviver na tenacidade contrastável do submundo.
A Editora 34 lançou os Contos de Kolimá o ano passado. Pretende lançar outros cinco volumes com a prosa dura de Chalámov - Vol. 1 - Contos de Kolimá; Vol. 2 - A margem esquerda; Vol. 3 - O artista da pá; Vol. 4 - Ensaios sobre o mundo do crime; Vol. 5 - A ressurreição do lariço; e Vol. 6 - A luva, ou KR-2. Se assemelharem ao primeiro são, portanto, imperdíveis.
segunda-feira, fevereiro 01, 2016
sexta-feira, janeiro 29, 2016
Surpresas...
Ao chegar do trabalho, hoje, no princípio da tarde, fui avisado pelo porteiro com sotaque potiguar do prédio onde moro, que havia chegado uma caixa para mim. Imediatamente, fiquei cioso para saber do que se tratava. Olhei para o interior da saleta em que trabalha o sujeito de fala moderada e gestos parcos, esperando a encomenda. Dei o recebido. Aboletei-me no elevador, equilibrando o pacote em uma das mãos.
Tratava-se de uma riqueza literária. O fato é que no início da semana, comprei Guerra e Paz (caixa), os contos completos (caixa) - ambos de Tolstói - e Hereges, de Leonardo Padura. O que me impressionou foi a celeridade na entrega. Nunca havia recebido uma encomenda tão rapidamente. Certa vez, comprei doze livros no site da Livraria Saraiva e esperei mais de vinte dias para que chegasse a encomenda. Outra vez, no site da Boitempo, foram mais de quarenta dias. Encomendas que chegam antes do prazo estipulado abalam a nossa compreensão. Metem uma incongruência em nosso senso moral. A Amazon se elevou em meus conceitos de criatura pequena.
Os livros de Tolstói (em edição glamourosa) são de uma elegância indescritível: a capa dura, as folhas de uma branquidão sem máculas, o tamanho, a espessura, o cheiro inebriante; a expectativa lúbrica do enredo, a estesia da leitura. Dei uma folheada. Aproximei uma das brochuras com mais de mil páginas do nariz. Senti a fragrância. Um enlevo. Prazer capaz de nos fazer fechar os olhos.
O ano passado havia encontrado essa mesma caixa de Guerra e Paz por cinquenta e três reais na mesma Amazon. Acabei não comprando. Desconfiei da oferta. Quando voltei para conferir, percebi que o preço havia subido em demasia. Passava dos cem reais. Todavia, esta semana, resolveram fazer uma oferta. E eu não pensei duas vezes.
Tenho uma versão de Guerra e Paz aqui em casa. Adquiri-a em 2008. É aquela edição barata da LP&M. Não chega a ser grande, luxosa, imponente, repleta da magnificência da edição da Cosacnaify, mas serviria para leitores médios como eu. Comprar essa, que é uma das obras máximas da literatura universal, faz parte de um projeto ganancioso de leitura para 2016 - e pelos anos que se seguem. Aprendi que se não nos dispusermos a ler, não leremos de forma alguma. O fluxo da vida não diminui a velocidade para que venhamos a dar atenção a vaidadezinhas entorpecedoras, capazes de anestesiar interesses e acanalhar expectativas.
Pensando em vaidades minúsculas, emulei um adágio que vivo a repetir em voz baixa: "passar por essa vida e não ler Guerra e Paz, Os irmãos Karamázov, Os miseráveis e Dom Quixote" é não ter conhecido o sentido do glorioso, do fenomenal, do espetaculoso, capazes de enobrecer a humanidade e lhe impor uma código decifrador, totalizador.
Pois, pensando nisso comprei Os miseráveis (edição da mesma Cosac), Os irmãos Karamázov, Memórias do Subsolo (da Editora 34) e um livro de ensaios de Auerbach. Tenho esses livros (Victor Hugo e Dostoiésvki) em edições ordinárias. Nada melhor do que lê-los numa prosa arrumada e diligente. Amanhã, talvez, eu seja surpreendido mais uma vez pela Amazon.
quarta-feira, janeiro 27, 2016
Sobre "O sal da terra" (2015)
"Somos um animal muito feroz... Somos uma violência extrema, de verdade. Nossa história é uma história de guerras"
Sebastião Salgado
O ano passado, fiquei desejoso de assistir ao documentário O Sal da Terra, que passou pelas salas do Espaço Itaú aqui em Brasília. A produção saiu de cartaz e eu fiquei a lamentar. A excessiva exigência das horas me impediu de de dar cabo às minhas intenções. Trata-se de documentário baseado na obra de Sebastião Salgado.
Esta semana eu consegui efetivar esse desejo aquecido pelo tempo. E não me decepcionei. Gostei do que presenciei. É uma produção que delineia num fluxo cronológico a carreira do premiado e conhecido fotógrafo mineiro. Salgado é um nômade. Já viajou praticamente pelo mundo todo. Sua técnica (fotografias em preto e branco), aliada a uma sensibilidade poderosa, cria quadros de estetização intensa. Paisagens, secas, dramas humanos, costumes indígenas, animais, tudo é imortalizado em um clique, que acaba por se transformar em uma obra de arte.
O documentário filmado por Juliano Salgado (filho do fotógrafo) e pelo premiado diretor alemão Wim Wenders, coloca Salgado diante de sua obra, comentando boa parte dela. Assim, o diretor comenta desde as fotos que fez na América Latina (Bolívia, Equador, México), em Serra Pelada, ainda na década de oitenta, ao extermínio étnico em Ruanda e na antiga Iugoslávia; ou ainda tece observações acuradas sobre o olhar de um gorila.
O momento que gera emoção é quando Salgado comenta o que viu e sentiu no Sahel, antiga região da Somália, na década de oitenta. A fome como uma dizimadora; como uma agente cruel e violento, a diminuir seres humanos a carcaças imprestáveis e inanimadas. O testemunho do massacre em Ruanda, resultado do conflito entre tutsis e hutus (que pode ser visto no filme Hotel Ruanda), ocorrido em 1994, também marca o fotógrafo. Nesse conflito covarde, um dos maiores do século XX, quase 1 milhão de pessoas morreram à vista da comunidade internacional. Daí surge a tese, segundo o próprio Salgado, que o ser humano é um "animal muito feroz". A sua face cruel faz avançar a injustiça.
Essa tese é contraditada pela recuperação das matas da fazenda da própria família. A região que parece ser uma espécie de metáfora para a crença de Salgado, teve sua densa mata Atlântica arruinada pela exploração irresponsável e despreocupada pela própria família do artista. Até mesmo os riachos que passavam pela propriedade desapareceram. Todavia, houve um movimento do próprio Sebastião para replantar dois milhões de árvores na propriedade para restabelecer as antigas características do lugar. E é justamente nessa crença, nessa possibilidade de reversão do caos; dessa capacidade de restabelecer à vida aquilo que fazia grassar apenas a esterilidade, que Salgado ver um afluxo redentivo para o ser humano. Hoje, a atinga fazenda foi transformado em um parque ecológico.
Trata-se de um documentário muito bonito. As fotografias que aparecem no filme, criam paroxismos para o dilema humano. Quem somos nós? Por que somos tão cruéis, mas tão encantadores? Esse dualismo cria uma teologia do desconhecido e da incerteza. A técnica em preto e branco torna mais patente uma metafísica sombria. Impossível olhar as fotografias e não se abismar; impossível não descolorir nossas arrogâncias, nossa crença no progresso, nossa vaidade presumida de que somos a coroação da matéria criativa do universo.
Assim, o documentário nos aponta "a violência extrema" das obras humanas e sua pátina caótica de injustiças, mas ao mesmo tempo nos apresenta o amparo poético de uma perspectiva fundada na metáfora do "replantio" de nossa história.
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