“A quem em nossa terra
percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas, ou em via disso,
tolhidas de insanável caquexia, uma verdade, que é desconsolo, ressurte de
tantas ruínas: nosso progresso é nômade e sujeito a paralisias súbitas”.
Monteiro
Lobato, in “Cidades Mortas”.
Ainda não havia entrado em contato
com a prosa de Monteiro Lobato. Havia saboreado de forma superficial, no
máximo, fragmentos do conto “Negrinha”. Lobato é e foi um grande polemista.
Enquanto vivo, conservou uma posição de genuína independência intelectual. Foi
um homem de ação; um sujeito ousado que não tinha medo de assumir posições.
Ainda em nossos dias, existem
polêmicas em torno de seus textos. Algumas de suas afirmações causam
estranhamento para o momento em que vivemos – o tempo do politicamente correto.
Cem anos após a escrita desses textos, a sociedade refletiu sobre determinados
aspectos das relações sociais. É demasiado exagerado, cobrar de um intelectual
como Lobato certas reflexões. Ele era um homem do seu tempo. É preciso ler
essas passagens com certa criticidade, sem condenar a totalidade da obra do
escritor paulista. Há muito o que se aprender com ele. Seus textos além de bem
escritos, pois era dono de um estilo único, inconfundível, estão eivados de elementos
antropológicos da sociedade brasileira da primeira metade do século XX.
Cidades Mortas é uma reunião
de contos escritos nas duas primeiras décadas século XX. Eles compreendem um
período de vinte anos. São narrativas curtas com certo gosto pitoresco. Lobato
é um cronista mordaz da vida interiorana. Como nessa frase que se segue, em que
se percebe os elementos sarcásticos de um narrador atento à vida social: “(...)
o mexerico é a ambrosia dos lugarejos pobres”.
Ao terminar o curso de Direito na
Faculdade do Largo de São Francisco, na capital, volta para o Vale do Paraíba,
de onde era originário. Nasceu em Taubaté. Vai exercer a profissão. Mas, a vida
citadina agitada que experimentara enquanto cursava Direito na capital havia
ficado para trás. O ramerrão da vida do interior é um elemento que se plasma à
sua vida. Para furar o tecido grosso da monotonia, ler e escreve. Em alguns
contos de Cidades Mortas é possível ouvir o carro de boi; o dialeto caipira dos
homens afeitos ao trabalho com a terra; os estalinhos de arrogância das
autoridades pequenas do interior; o silêncio brumoso de uma manhã; sentir o
calçamento de pedra vazio ao meio dia, enquanto o cachorro errante descansa à
sombra de uma palmeira.
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Monteiro Lobato
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O escritor não se preocupa com
análises psicológicas. Sua matéria de trabalho é o que acontece externamente
com o mundo. Não é sua preocupação os dramas existenciais. Como diz Alfredo
Bosi, “Lobato concentrava-se no retrato físico, na busca dos defeitos do corpo
ou dos aspectos risíveis do temperamento ou do caráter”. Há uma objetividade na forma como descreve.
Lobato escancara o decadentismo dos
proprietários. Os latifúndios exageradamente improdutivos. A técnica
insuficiente para lidar com os problemas da terra. Dessa forma, o escritor
critica a falta de racionalidade estratégica das elites agrárias. Nas “cidades
mortas”, como diz Lobato, “não se conjugam verbos no presente. Tudo é
pretérito”. Vive-se dentro de um tempo que não evolui. “(...) casarões que
lembram ossaturas de megatérios donde carnes, o sangue, a vida, para sempre
refugiram”. Era objetivo do escritor denunciar o provincianismo da aristocracia
rural, que não conseguia se apropriar de novas estratégias, de uma compreensão
que a arrancasse da letargia de “Oblivion”. A condição de mandatário não seria
eterna. Era preciso munir-se de novas técnicas; encher-se de dinamismo.
Como grande positivista e
evolucionista que era, defensor dos avanços das técnicas científicas, Lobato
sabia que a mesmice anêmica das elites nacionais levaria o país à decadência.
Era preciso dinamizar a vida social e produtiva do país. Não era apenas colocar
um fraque, uma cartola, acender um charuto e sentar em um banco do alpendre da
casa-grande como costumavam fazer os coronéis do interior a fim de olhar a
plantação, os escravos, as crianças, mulheres, ou seja, tudo o que lhes pertenciam.
Aquilo sepultaria o país. Conduziria a uma condição de subserviência diante das
modernizações exigidas pela dinâmica do capitalismo que passava por uma grande
transformação no início do século XX. Isso fica provado com a decadência da
República Velha, que era essencialmente cafeicultora. Nesse sentido, Lobato foi
um grande visionário.
Há contos no livro que estão entre
os grandes textos já escritos em língua portuguesa: “Os perturbadores do
silêncio”, “Por que Lopes se casou”, “Júri na roça”, “O luzeiro agrícola”.
“Café! Café!”, “Um homem de consciência”, “Anta que berra”, “Um homem honesto”
e “A nuvem de gafanhotos”.
O livro é importantíssimo. A leitura
é deliciosa. Alguns contos estão repletos de picardia. Lobato escrevia como
profundo conhecedor dos intestinos do Brasil agrário, do Brasil que descansava,
que não se importava com o tempo e, por isso, trazia características de algo
que havia morrido, sem que percebesse.
Vamos ao “O ateneu”, de Raul
Pompeia”.