quinta-feira, dezembro 21, 2023

"Murambi - o livro das ossadas", de Boubacar Boris Diop

           

                “Um genocídio fala a cada sociedade humana de sua fragilidade essencial”

Boubacar Boris Diop

                “Ruanda não tem estatura para perturbar o sono do universo”

Boubacar Boris Diop

 

                Boubacar Boris Diop é um jornalista e romancista senegalês. Pouco conhecido no Brasil, Diop é um militante e defensor de causas do continente africano. Sua preocupação em compreender os dilemas do continente tem feito com que estabeleça conexões com outros intelectuais do grande continente. Consciente dos efeitos das pós-colonização, Diop sabe que a África ainda precisa se compreender, se achar em meio aos grandes contrastes.

                Em 1998, quatro anos após o genocídio de Ruanda, ele foi convidado com dez outros intelectuais, a participar de um projeto de escrita a respeito do genocídio hutu contra os tutsis. O nome do projeto era bonito e evocativo: “Ruanda – escrever como um dever de memória”. Diop ficou dois meses no país. Viajou por várias regiões. Esteve no interior do “país das cem colinas”. Ouviu testemunhas; vítimas e algozes. E acabou por escrever o romance “Murambi: o livro das ossadas”. 

Até agora, este é o único livro do escritor traduzido aqui no Brasil. Em 2000, o escritor senegalês, recebeu o Grande Prêmio Literário da África negra, o que realça a sua grandiosidade e, por sua vez, demonstra o quanto o Brasil e o Ocidente desconhecem a relevância dos grandes nomes da literatura do continente africano. Um intelectual da estatura de Boubacar Boris Diop não pode passar desapercebido. Muitos dos debates a respeito de uma literatura pós-colonial dizem respeito ao Brasil também. Compreender os dilemas do continente africano, é também nos enxergar. Afinal, há muito de África por aqui.

                Murambi é o nome de uma cidade de uma ruandesa onde funcionava uma escola técnica. Nesse local, estima-se que 50 mil pessoas foram assassinadas. Uma das personagens da obra retorna a Murambi após uma temporada fora. Como é típico em uma obra que se propõe a abordar algo da complexidade do genocídio ocorrido no país, Diop não incorre em um maniqueísmo banal. Não há sentimentalismo em sua obra. Trata-se de uma escrita polifônica, que procura descrever tanto a perspectiva dos opressos, quanto a loucura dos opressores. É a partir da fala de múltiplos personagens que a descrição do horror vai sendo esculpida. O que é colocado em evidência é a sociedade ruandesa. O que leva um país jovem a produzir tão grande violência contra si mesmo? Uma das respostas é a interferência dos europeus. Um dos países responsáveis por fechar os olhos e ignorar a carnificina que estava para acontecer foi a França. Em anos posteriores, o governo francês se esforçou para obumbrar essa versão.

                Os chamados “cem dias de Ruanda” foram um dos momentos mais trágicos do século XX. Há estimativas que posicionam o número de mortos entre 800 mil e 1 milhão. As vítimas foram em sua maioria tutsis. Hutus moderados ou que não quiseram participar da barbárie também foram mortos. Não houve discriminações. Mulheres, crianças, homens novos ou velhos foram aniquilados – quase sempre – a golpes de facões. O simples fato de ser “o outro” já enunciava uma sentença fatal.

                Em abril de 1994, o avião do hutu Juvenal Habyarimana, presidente ruandês que governava o país com mãos de ferro, foi abatido. Era 6 de abril. Habyarimana ao longo de vinte anos de governo facilitara a perseguição aos tútsis. Milícias haviam sido criadas para hostilizar o grupo étnico. A principal dela era denominada como Interahamwe. No dia seguinte ao assassinato do líder máximo do país, começaram os massacres. Os números são impressionantes. Segundo estudos, a violência desfechada contra mulheres foi estarrecedora. Estima-se que aconteceram mais de duzentos e cinquenta mil estupros. Outros estudos, apontam que tenham chegado a algo em torno de quinhentos mil. Há descrições no livro de Diop que impressionam pelo nível de selvageria e desumanidade.

“O sangue me gelara ao vê-los assim, falar de uma coisa e outra, no instante em que uma vida se desfazia para sempre debaixo dos olhos deles. E entre os estupradores há quase sempre, de propósito, portadores de aids”.

                Ou algo como o depoimento de uma das personagens:

“Quando terminam [os estupros], te jogam ácido dentro da vagina ou te enfiam cacos de garrafa ou pedaços de ferro”.

Ou esta que, simplesmente, demonstra o quanto o ser humano pode abdicar de forma completa de um nível básico de racionalidade:

“O chefe deu alguns passos e, mudando de ideia, voltou e esmagou a cabeça da moça com uma pedra grande, e na mesma hora só ficou aquele caldo vermelho e branco no lugar do crânio. Isso não interrompeu o miliciano Interahamwe, que continuou a mexer o corpo agitado por pequenos sobressaltos. Tinha os olhos saltados, virados para o céu, e até acho que estava mais excitado do que antes”. 

Boubacar Boris Diop

                O genocídio tutsi foi uma das páginas mais medonhas da história. Por dia, entre 8 mil e 10 mil pessoas foram assassinadas. Vilarejos inteiros foram dizimados. Famílias se mataram; vizinhos se mataram; homens mataram crianças de forma cruel. Muitos tutsis se esconderam em igrejas e escolas do interior, mas acabaram sendo entregues e mortos. Até hoje, ossadas continuam a ser descobertas em várias regiões do país.

                A relevância do livro de Diop se afirma nesse ponto, pois escancara para o mundo do que os homens são capazes. Há um belo apêndice do autor na obra que procura problematizar o porquê do silêncio dos países ocidentais. No período em que a carnificina estava a acontecer naquele pequeno país, sem atrativos, sem muitos recursos naturais, o país constituído apenas de camponeses e criadores de animais, não despertou qualquer interesse. A comunidade internacional assistiu à distância de maneira indolente. A Copa do Mundo de 94 estava sendo disputada nos Estados Unidos. Não houve qualquer despertamento em impedir o auto-aniquilamento daquele minúsculo país pobre e sem qualquer relevância no cenário geopolítico.

                A mensagem parecia muito clara: “Essa é uma disputa de selvagens. Não nos meteremos”. Os tutsis foram abandonados à própria sorte. Nos anos seguintes, após o derramamento de sangue ter sido estancado, o país mergulhou em um processo de reconstrução. A necessidade de um livro como “Murambi” indica o quanto o exercício de “lembrar” é significativo, pois impele a uma reflexão capaz de impedir que a barbárie se instale novamente. Em extermínio em massa dos tutsis não foi um problema só para Ruanda. Foi problema para a humanidade. Talvez, essa seja a principal mensagem do livro.       

 

P.S. Há uma excelente entrevista com o autor AQUI

               

                 

 

segunda-feira, dezembro 11, 2023

Inadequação

 

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia”

Trecho da música "Não vou me adaptar", do grupo Titãs. Letra de Arnaldo Antunes

 

No sábado, após alguns anos, estive em um culto protestante. Visitei a Igreja Presbiteriana Nacional (IPN). Seria o dia da colação de grau do meu cunhado. Ele bacharelou-se em teologia. Sendo assim, fui à IPN por causa desse fato. Meu cunhado estudou teologia por quatro anos no Seminário Presbiteriano de Brasília, onde também estudei entre os anos de 2002 e 2005.

                Desejei ir para resgatar da memória a experiência que lá vivi. Encontrar algumas fisionomias. Perceber como a vida nos apresenta paisagens diversas. E, por fim, praticar a bonomia com alguns sorrisos. A pergunta mais intrigante da noite foi feita a mim por um colega chamado Wesley, que estudou no período em que lá estive:

                - Que bom te ver! Onde você está? – Para quem é de fora do mundo protestante, quiçá, não perceba a força semântica da inquirição. A indagação é feita para interpelar o interlocutor a respeito da igreja que ele frequenta. Ele queria saber a respeito do meu nível de envolvimento com o mundo eclesiástico. Respondi a sua indagação entre um esgar e a consciência de que aquele tipo de pergunta era comum.  Certamente, minha resposta o surpreendeu, gerando decepção.

                Observei toda condução do ritual tentando encontrar em mim mesmo uma dimensão que me conectasse com o seu sentido. Eu frequentei os cultos presbiterianos. Estudei na mesma instituição que estava declarando publicamente o curso de teologia do meu cunhado.  No dia 10 de dezembro de 2005, eu também recebi o mesmo título. Fui responsável por fazer o voto para a minha turma. Havia gestos apaixonados e uma motivação sincera em minha credulidade. Passados dezoito anos, julguei-me anômalo, indiferente a tudo o que aconteceu.

                A pregação de um reverendo chamado Marcelo, foi uma verdadeira declaração de chauvinismos e sensaborias egoicas. Prontificou-se a falar do texto do livro de Atos, que trata sobre Estevão, considerado pela tradição cristã como o primeiro mártir. Seu discurso foi pouco claro. Houve enormes digressões. Um discurso gabola típico dos líderes cristãos, criando dicotomias entre o mundo que se diz cristão e aquele que não é. Segundo ele, o mundo persegue os cristãos. Isso aconteceu em toda a história e acontece ainda hoje. Mencionou países africanos; falou a respeito da China. Para ele e sua mente colonizada, os Estados Unidos são um tipo de modelo missionário, pois os cristãos pioneiros que foram responsáveis pela formação da Igreja daquele país, foram fortes e sonharam com uma terra que seguisse, no dizer do pregador, “um país que segue o evangelho”. Ou seja, velhos bordões para arregimentar engajamento.

                É curioso como os presbiterianos valorizam aquilo que Rubem Alves chamou de “protestantismo da reta doutrina”. Por intermédio dessa fórmula, é possível perceber o quanto o desejo pelo saber teológico sedimenta ostentação. As falas no culto presbiteriano manifestam duas questões:

 (1) Há uma enorme preocupação com a teologia. A compreensão de deus passa, necessariamente, pelo rigor teológico. O saber teológico dessa forma é a régua de medir a divindade. Caso haja uma compreensão que não se harmoniza com a teologia, questiona-se essa compreensão. A teologia é a chave de interpretação dos fenômenos religiosos. Somente indivíduos treinados e moldados pelo saber teológico são capazes de adquirirem uma plausível respeitabilidade. O desejo de distinção e reconhecimento talvez explique o porquê desse fenômeno nos púlpitos e na prática dos condutores da denominação.  

(2) E, a segunda, que talvez, seja um desdobramento da primeira é a exaltação a uma fé pautada na construção de um discurso que se estrutura na fala. O discurso deve ser pomposo. Isso pôde ser verificado na fala do paraninfo da turma. Seu texto pareceu-me demasiado pernóstico. A estrutura sintática primou pela escolha de palavras pouco usuais. Havia ainda um enfeito pouco natural na leitura. Nota-se, assim, que há uma evidente preocupação com “a forma”. Pode-se dizer que, caso fossem enviar uma carta, os presbiterianos teriam mais preocupação com a aparência do envelope do que com o conteúdo que a carta abriga.

                Quando deixei o espaço, fiquei pensando no quanto o ser humano se preocupa em erguer muros discursivos para se sentir protegido. Todo aquele ritual somente confirmou o quanto nesses espaços de manifestação religiosa, a antropologia fale com tanta força. As manifestações trazem mais conteúdos sobre aqueles que o fazem do que sobre aquilo que eles alegam pregar. Há mais a respeito dos homens no pretenso discurso sobre deus, do que deus no discurso erguido pelos homens.


terça-feira, novembro 28, 2023

A filosofia da história dos judeus

 


O atual massacre desfechado por Israel contra os palestinos possui uma justificativa semântica: há um entendimento, uma maneira de ser e existir para esse povo nômade. Ao passear de forma panorâmica pelas páginas do Antigo Testamento, encontrei ao menos três passagens bastante representativas de como os judeus apreendem e se impõem no mundo.

A primeira dessas passagens encontra-se em Números 31.17. Nela notamos a orientação de um líder militar ordenando que não houvesse piedade para com mulheres, crianças e animais que seriam conquistados. Na ocasião, os judeus peregrinavam pelo deserto, conforme descreve o Pentateuco. Receberam uma ordenança por parte de Javé para que o povo midianita fosse aniquilado. As meninas ainda virgens deveriam ser apropriadas, certamente para serem escravas sexuais.

Outra passagem bastante singular encontra-se em Josué 6.21. De acordo com esse livro, os judeus estavam num processo de disputa territorial com os povos que habitavam Canaã, a Terra Prometida. Diz o autor do livro, fazendo ecoar as palavras já expressas em Números que “homens, mulheres, crianças e velhos, assim como bois, ovelhas e jumentos, foram passados a fio de espada. Novamente, Javé, que pode ser definido como uma divindade guerreira, ordenou que não houvesse clemência. Afinal, o cerco à cidade de Jericó seria apenas uma etapa de algo que ele já havia determinado. A cidade e os seus homens já haviam sido conquistados (Js 6.2).

Mais representativo ainda é aquilo que se pode ler em 1 Sm 15. O texto enuncia explicitamente uma vingança da parte de Javé. Nota-se que a ordem que Samuel deu a Saul era resultado de um acerto de contas, uma revanche, uma vingança da divindade guerreira: “Resolvi punir o que Amalec fez a Israel cortando-lhe o caminho quando subia do Egito” (1 Sm 15.2; Dt 25.17-19; Ex 17.8-16). Os amalequitas ou amalecitas eram povos que viviam na parte Sul, próximo à fronteira com o Egito, nas imediações do Sinai. Esse povo geralmente pilhava tribos mais fracas. Raptavam mulheres, capturavam homens e vendiam-nos como escravos. Realizavam ataques oportunistas. Javé decide se vingar do povo de Amalec, conforme se nota no texto de Samuel. A ordem é dada de maneira meticulosa a Saul, aquele que é considerado o primeiro rei de Israel.

"Vai, pois, agora, e investe contra Amalec, condena-o ao anátema com o que lhe pertence, não tenhas piedade dele, mata homens e mulheres, crianças e recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos” (1 Sm 15.3). É importante notar que Saul poupou “Agag e tudo o que havia de melhor do gado miúdo e graúdo” (15.9). E nesse ponto residiu o seu equívoco, segundo nos aponta o texto bíblico. Javé se “arrependeu” (sic) de ter dado a Israel a realeza de Israel (15.11).

Salienta-se aqui que os escritos dos dois livros de Samuel têm por objetivo firmar um conceito de identidade nacional. Nota-se que os textos retratam um período em que os judeus já haviam se estabelecido no território de Israel. Era necessário consolidar uma ideia de reino como acontecia com os assírios. A crítica moderna entende que o texto surgiu no período entre 630 e 540 antes da era comum, ou seja, entre o período do exílio ou do período pós-exílico. Quando o texto foi escrito, buscava-se construir um discurso de conquista, fortalecendo um senso identitário de nação. Ou seja, ao longo de sua história Israel sempre precisou existir em torno de uma disputa. A batalha, o cisma e o exílio sempre fizeram parte da noção de judaicização. Ser judeu é também um conceito existencial. A própria criação de Javé como divindade que aglutina e organiza o povo para a conquista passa por essa compreensão.

Atualmente, quando se notam os ataques violentos e impiedosos contra o povo palestino  - embora não se aceite a violência desferida pelo Hamas contra a população civil de Israel -, depreende-se que para o seguimento mais radical de Israel não existe nenhuma anormalidade. Há base histórica no discurso criado por eles mesmos. Aquilo que eles denominam de Tanak (Torá ou Pentateuco – os cinco primeiros livros do Antigo Testamento – o Neviim – os profetas; e o Kentouvim – os escritos que compreendem os textos sapienciais) é misto de mitos, fabulações e construtos políticos a fim de legitimar um tipo de concertação para justificar a própria existência. Trata-se de textos altamente parciais, de visão tendenciosa, escritos por indivíduos que possuíam uma intencionalidade, textos estes transformados em sagrados.

Israel sempre utilizou de disputas para ser o que é. Aliás, é compreensível que assim o seja, pois estamos a falar de povo que possui quase quatro mil anos de história. É necessário reconhecer que os judeus foram vítimas de enormes injustiças ao longo da história como aconteceu ao longo da Idade Média ou o morticínio orquestrado pela máquina assassina de Hitler. Todavia, esperar do governo de extrema direita de Benjamin Netanyahu que haja compreensão e piedade para com mulheres e crianças é impensado.

O ministro da Defesa de Israel – Yoav Gallant – proferiu uma sentença que faz ecoar a mensagem de Javé enunciada por Moisés e por Samuel: “Estamos impondo cerco total à Gaza. Nem eletricidade, nem comida, nem água, nem gás, tudo bloqueado” (09/10/2023). Gallant sentencia como que fazendo ecoar o que encontramos nas páginas do Antigo Testamento: “Estamos lutando contra animais e agimos em conformidade”.

A fala do líder político israelita revela de maneira inesitante como Israel compreende o mundo, seja cercando Jericó, seja aniquilando os amalequitas ou exterminando os palestinos em pleno século XXI. Israel percebe-se como o povo escolhido por Javé, a divindade arrancada do panteão cananeu e eleita à força como a sua divindade única. Para fazer isso, os judeus possuem uma filosofia da história, estruturada em uma narrativa que mescla lendas, fabulações e revisionismos históricos. Por ser um povo que construiu a noção de deidade e espiritualidade do mundo Ocidental, possui a simpatia e a tolerância de boa parte da comunidade internacional. Eis aí a sua grande astúcia.

 

Salvador-BA, 15/10/2023.

               

terça-feira, novembro 14, 2023

"A via-crucis do corpo", de Clarice Lispector. Algumas palavras.

 


A escrita clariceana não é fácil. O leitor desavisado não conseguirá avançar para além da quinta página de alguns dos seus textos. Um exemplo é “O lustre” ou “Perto do coração selvagem”.  Por sua vez, Clarice não é uma escritora difícil. Ora, como se situar nesse aparente paradoxo? O que acontece com os seus textos é que eles lidam com uma matéria de difícil tradução, com o indefinível que é a interioridade humana. Falam sobre os desvãos, sobre o que existe quando não há a palavra. A escritora faz uma autópsia na alma humana. Cada um dos períodos escritos por ela preocupa-se em auscultar as emoções ambivalentes do complexo mundo humano. 

Essa noção sobre a criação clariceana é importante para que alcancemos o exato sentido de suas palavras. É preciso persignar-se para ler os seus textos. Clarice possui método: seu trabalho é desnudar a alma, as entranhas, os segredos escondidos nos interstícios do corpo. 

Peguei o magro volume de “A via crucis do corpo”. É preciso atentar para o título. Há um imediato chamado religioso. Um convite para que se reflita sobre o sofrimento. Afinal, a “via-crucis” é uma expressão latina, cujo significado é “caminho da cruz”. Faz referência ao percurso palmilhado por Jesus da sala do procurador romano ao Calvário. Ou seja, do lugar do julgamento ao lugar da morte.

O corpo é aquele que padece. Ele também carrega a sua cruz. À guisa de explicação, no texto que abre o volume, Clarice adverte os leitores como se algo muito arriscado estivesse pronto a eclodir – “Todas as histórias desse volume são contundentes”. Conforme ainda essa advertência inicial, as histórias nasceram em jorro febril; estavam dentro da autora, a reclamar a vinda ao mundo.

O livro foi escrito por encomenda. São treze curtas histórias. Algumas com no máximo duas páginas. Transmitem a ideia de que foram escritas de forma apressada, o que confirma a tese do “jorro”. Coloca em evidência uma Clarice menos misteriosa. Não há jogos de palavras. Sentenças tartamudeadoras; que deslocam o leitor como em “A paixão segundo G.H”. As epifanias cessam. A metafísica e o mistério são colocados num plano secundário. O elemento que fala é o corpo. O reclamante é o corpo. O desejante é o corpo, com a sua fome, com os seus maneirismos.

As histórias falam sobre sexualidade, mas não há insinuações pornográficas. O corpo possui a sua própria linguagem e, às vezes, fala mais quando está em silêncio. Há uma singularidade em sua semântica. É no interstício entre o que se diz e o que se cala, que reside o desejo. As personagens são femininas. Clarice procura dar voz ao desejo feminino. Talvez, isso tenha chocado muitos leitores dos anos 70 em plena Ditadura Militar.

Clarice deixa uma mensagem com esse pequeno, mas revelador livro: tudo está no corpo. Nele moramos; por meio dele acessamos o mundo; ele cansa; ele sente fome e sede; e é habitado por reclames primitivos. Em momentos de solidão, como lidar com esses reclames? A maior parte dos personagens de cada uma das histórias se ver diante desse dilema. É a “via-crucis”. É o movimento que se realiza do nascimento até à morte.

 

               

domingo, outubro 22, 2023

A Rosa do Povo, de Drummond - algumas impressões

 

Preso à minha classe e a algumas roupas,/ vou de branco pela rua cinzenta./ Melancolias, mercadorias espreitam-me./ Devo seguir até o enjoo? / Posso, sem armas, revoltar-me?

                Carlos Drummond de Andrade, in “A flor e a náusea”

 

Terminei a leitura de “A Rosa do Povo”, de Carlos Drummond de Andrade. Li lentamente os 55 poemas. Era minha intenção beber cada palavra, sentir o sabor de cada imagem; apreciar as paisagens repletas de nuances e perspectivas. Drummond revela em “A Rosa do Povo” sua inquietação com um mundo em mudança e questiona a finalidade da poesia. Os poemas, em um mundo em ebulição, saltavam dos jornais – “A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais” (in “Carta a Stalingrado”).  Era necessário a arte para refletir o próprio mundo social e a floresta urbana habitada por indivíduos com existências repletas de niilismo.

“A Rosa do Povo” foi publicado em 1945. Drummond escreveu-o entre os anos de 1943 e 1945. É o seu quinto livro. Até aquele momento, foi o livro mais denso em perspectiva política. O poeta mineiro trabalha a tese de que a realidade é imensa; de que o indivíduo dessa sociedade era um pequeno ponto impotente diante de estruturas que lhe eram enormes, intransponíveis, insensíveis. 

A década de 40 do século XX, apresentava um cenário pessimista em todos os sentidos, quer no plano nacional quer no plano internacional. O Brasil estava mergulhado na Ditadura do Estado Novo, de Vargas. Uma força invisível e onipresente criava uma sensação de asfixiamento. As liberdades eram cerceadas em nome de um projeto totalitário. No plano internacional, o mundo estava sendo sacudido pela máquina de guerra do nazifascismo. A Alemanha criara campos de extermínio a fim de trucidar judeus, comunistas e outras minorias. Desenhava-se um cenário trágico. Caso os alemães saíssem vitoriosos da Guerra, certamente o mundo iria experimentar um período de tiranias e incertezas. O projeto do Reich, segundo o seu mentor, deveria durar mil anos.

O poeta se coloca diante de uma encruzilhada, pois, em alguns poemas, nota-se claramente como “a náusea” se encontra com uma esperança frágil, como no poema “A flor e a náusea”, um dos poemas mais sublimes da obra. O poema “Medo” declara como a força do medo, da desconfiança e do selvagem pavor que acomete o homem moderno, impulsionam os afetos na sociedade capitalista: “E fomos educados para o medo. / Cheiramos flores de medo. / Vestimos panos de medo”. (...) “Assim nos criam burgueses”. Radicado no Rio, após ter deixado a sua Minas Gerais (e sua Itabira, que funciona como uma Ítaca), Drummond observa o mundo e se impregna de melancolia.

No poema “Passagem da Noite”, nota-se o uso da metáfora com ideia de um mundo circunscrito por uma força poderosa, que tudo conquista e domina. O escuro e sua força mesmerizante se alastra, criando uma ideia de imobilidade. Essa presença toma a interioridade o eu lírico. “É noite. / Sinto que é noite / não porque a sombra descesse / (bem me importa a face negra) / mas porque dentro de mim, / no fundo de mim, o grito / se calou, fez-se desânimo. / Sinto que nós somos noite, que palpitamos no escuro / e sem noite nos dissolvemos. / Sinto que é noite no vento, / noite nas águas, na pedra”.

Há poemas sublimes que se tornaram conhecidos como, por exemplo, “Procura da poesia”, “Consolo na praia” ou o belo e dramático “Morte do leiteiro”. Este último poema é um verdadeiro tratado sociológico sobre as contradições da vida urbana na periferia do capitalismo. Demonstra como a sociedade burguesa cria mitos para aniquilar os indesejados (“Há no país uma legenda, / que ladrão se mata com tiro”), mesmo que este seja um trabalhador que acorda cedo para trazer “leite bom para gente ruim”.  

O autor usa uma linguagem circunspecta. Arrojada. Em alguns momentos, há como que um jorro de sua mineiridade. Em outros, verifica-se a fala medida, a sintaxe exata a explorar os versos livres. Não há rimas. Cada poema articula um discurso que fala dos próprios receios e limites da humanidade. Pode-se observar que o eu lírico de alguns poemas se permite a sentir, a sonhar com uma transformação, com a superação, com a resistência. Um exemplo é o famoso poema “Carta a Stalingrado”, que enaltece a resistência dos russos frente aos nazistas. Stalingrado é o símbolo da humanidade que procura frear o ímpeto assassino da máquina de guerra que semeia a barbárie. “Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente”.

“A Rosa do povo” contém aquilo que Alfredo Bosi chama de “existencialismo niilista”. Há versos duros. Carregados de uma potência negativa. Mas, é possível encontrar também a esperança vacilante, tosca, demasiado pequena e, mesmo em face da maior incredulidade do eu lírico, “é realmente uma flor”.  O livro enuncia um poeta jovem e consciente de sua presença no mundo. O poeta olha à distância o que sucede no continente europeu e como o Brasil, nas suas pequenas e contraditórias lutas, está repleto de disputas; de eventos que evidenciam a guerra particular que cada sujeito realiza todos os dias. Drummond nesse livro projeta-se como um trovador que canta à melancolia do homem contemporâneo. Sua estética é curva, é cinzenta; e, em alguns momentos, raios tímidos cismam em surgir por trás de nuvens grossas e sisudas. “Este é o tempo de partido, / tempo de homens partidos”.

segunda-feira, outubro 09, 2023

Carta à vizinha do 303



Boa tarde! Aqui é o vizinho do 301.

Segundo a Constituição de 1988, “a casa é o asilo inviolável do indivíduo”. Nela estruturamos aquilo que chamamos de lar. Expressamos as nossas individualidades. É o nosso espaço privativo por determinação. Colocamos em prática hábitos e costumes que comumente não o fazemos em público.  Sendo assim, ando descalço sem preocupação; fico sem camisa sem o receio de que alguém chame a minha atenção. Estou, afinal, em meu espaço de liberdade, na circunscrição do realizável.

Todavia, há uma limitação a esse asilo de liberdade. Por não viver isolado de relações - em um deserto ou uma ilha – há pessoas que estabelecem conexões com a minha pessoa. Devo respeito a elas. Há certas matérias como sons, fumaças e cheiros variados que não respeitam os limites que demarcam o meu espaço de liberdade.

Ora, por que escrevo tais coisas? Explico-me em seguida:

Somos vizinhos há pelos menos seis anos e sempre mantivemos uma boa relação – polida, amistosa, respeitosa. Já pude observar que a senhora é fumante. E esse é justamente o ponto a que gostaria de chegar.  Eu não fumo e nem tenho o interesse em fazê-lo. Respeito o direito de a senhora fumar. Eu não tenho nada a ver com isso. No entanto, nessa questão reside um problema, pois eu e minha família abominamos o cheiro de cigarro. Fazemos a opção de não fumar, pois somos sabedores do quanto um mísero cigarrinho faz mal à saúde. Além disso, temos um filho pequeno que apresenta, de tempos em tempos, problemas respiratórios.

Costumamos deixar a janela da sala aberta – ainda mais nesses dias quentes – e acabamos sendo violentados pelo cheiro indesejado do cigarro que a senhora “saboreia” em seu “asilo inviolável”. A fumaça do cigarro – que não respeita espaços – acaba tomando a minha casa inteira e eu sou obrigado a fechar, em muitos momentos, a minha janela. Com isso, a minha casa acaba sendo “violada” pelas emanações nauseantes do alcatrão. Imagino que a senhora fume de janelas abertas.

Minha esposa já foi até a síndica. Fez uma reclamação. Pediu uma solução. A síndica não se mostrou firme. Mastigou algumas explicações. Desconversou. Por fim, o problema nos incomoda há muito tempo. Por isso, numa tentativa de resolução do problema, solicito encarecida e respeitosamente que a senhora feche as janelas de seu asilo inviolável quando for fumar a fim de que o meu não seja “violado” pelo cheiro de cigarro.

Cônscio de sua atenção, desejo liberdade e entendimento. 

Obrigado.