quarta-feira, setembro 30, 2009

Liberdade e justiça social

Na década de 1980 visitei, com frequência, países socialistas: União Soviética, China, Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia e Cuba. Estive também na Nicarágua sandinista. As viagens decorreram de convites dos governos daqueles países, interessados no diálogo entre Estado e Igreja.

Do que observei, concluí que socialismo e capitalismo não lograram vencer a dicotomia entre justiça e liberdade. Ao socializar o acesso aos bens materiais básicos e aos direitos elementares (alimentação, saúde, educação, trabalho, moradia e lazer), o socialismo implantara, contudo, um sistema mais justo à maioria da população que o capitalismo.

Ainda que incapaz de evitar a desigualdade social e, portanto, estruturas injustas, o capitalismo instaurou, aparentemente, uma liberdade - de expressão, reunião, locomoção, crença etc. - que não se via em todos os países socialistas governados por um partido único (o comunista), cujos filiados estavam sujeitos ao "centralismo democrático".

Residiria o ideal num sistema capaz de reunir a justiça social, predominante no socialismo, com a liberdade individual vigente no capitalismo? Essa questão me foi colocada por amigos durante anos. Opinei que a dicotomia é inerente ao capitalismo. A prática de liberdade que nele predomina não condiz com os princípios de justiça. Basta lembrar que seus pressupostos paradigmáticos - competitividade, apropriação privada da riqueza e soberania do mercado - são antagônicos aos princípios socialistas (e evangélicos) de solidariedade, partilha, defesa dos direitos dos pobres e da soberania da vida sobre os bens materiais.

No capitalismo, a apropriação individual e ilimitada da riqueza é direito protegido por lei. E a aritmética e o bom-senso ensinam que quando um se apropria muitos são desapropriados. A opulência de uns poucos decorre da carência de muitos.

A história da riqueza no capitalismo é uma sequência de guerras, opressão colonialista, saques, roubos, invasões, anexações, especulações etc. Basta verificar o que sucedeu na América Latina, na África e na Ásia entre os séculos XVI e a primeira metade do século XX.

Hoje, a riqueza da maioria das nações desenvolvidas decorre da pobreza dos países ditos emergentes. Ainda agora os parâmetros que regem a OMC são claramente favoráveis às nações metropolitanas e desfavoráveis aos países exportadores de matérias-primas e mão de obra barata.

Um país capitalista que agisse segundo os princípios da justiça cometeria um suicídio sistêmico; deixaria de ser capitalista. Nos anos 80, ao integrar a Comissão Sueca de Direitos Humanos, fui questionado, em Uppsala, por que o Brasil, com tanta fartura, não conseguia erradicar a miséria, como fizera a pequena Suécia. Perguntei-lhes: "Quantas empresas brasileiras estão instaladas na Suécia?" Fez-se prolongado silêncio.

Naquela época, nenhuma empresa brasileira operava na Suécia. Em seguida, indaguei: "Quantas empresas suecas estão presentes no Brasil?" Todos sabiam que havia marcas suecas em quase toda a América Latina, como Volvo, Scania, Ericsson e a SKF, mas não precisamente quantas no Brasil. "Vinte e seis", esclareci. (Hoje são 180). Como falar em justiça quando um dos pratos da balança comercial é obviamente favorável ao país exportador em detrimento do importador?

Sim, a injustiça social é inerente ao capitalismo, poderia alguém admitir. E logo objetar: mas não é verdade que, no capitalismo, o que falta em justiça sobra em liberdade? Nos países capitalistas não predominam o pluripartidarismo, a democracia, o sufrágio universal, e cidadãos e cidadãs não manifestam com liberdade suas críticas, crenças e opiniões? Não podem viajar livremente e até mesmo escolher viver em outro país, sem precisar imitar os "balseros" cubanos?

De fato, nos países capitalistas a liberdade existe apenas para uma minoria, a casta dos que têm riqueza e poder. Para os demais, vigora o regime de liberdade consentida e virtual. Como falar de liberdade de expressão da faxineira, do pequeno agricultor, do operário? É uma liberdade virtual, pois não dispõem de meios para exercitá-la. E se criticam o governo, isso soa como um pingo de água submergido pela onda avassaladora dos meios de comunicação - TV, rádio, internet, jornais, revistas - em mãos da elite, que trata de infundir na opinião pública sua visão de mundo e seu critério de valores. Inclusive a ideia de que miseráveis e pobres são livres...

Por que os votos dessa gente jamais produzem mudanças estruturais? No capitalismo, devido à abundância de ofertas no mercado e à indução publicitária ao consumo supérfluo, qualquer pessoa que disponha de um mínimo de renda é livre para escolher, nas gôndolas dos supermercados, entre diferentes marcas de sabonetes ou cervejas. Tente-se, porém, escolher um governo voltado aos direitos dos mais pobres! Tente-se alterar o sacrossanto "direito" de propriedade (baseado na sonegação desse direito à maioria). E por que Europa e EUA fecham suas fronteiras aos imigrantes dos países pobres? Onde a liberdade de locomoção?

Sem os pressupostos da justiça social, não se pode assegurar liberdade para todos.

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Por Frei Betto.

segunda-feira, setembro 21, 2009

Primeiro Domingo

Este primeiro domingo de 2009 está

Cheio de silêncio e mistério.

A luz fina, morna, é filtrada das nuvens.

A manhã está tépida.

Pedaços de luminosidade esparramam-se pela parede.

As roupas vadias balançam no varal.

O vento traz desejos e eu rio.

Árias, andantes e adágios mozartianos entram

Pelos meus ouvidos que convidam os barulhos de

Fora a virem morar dentro de mim.

Simbiótico, desejo as canções.

Já estou a bastante tempo ouvindo esse som

Com propriedades etéreas.

Sozinho, sinto que os astros do universo moram

Comigo.

O sol é meu irmão e a lua é minha companheira.

Os desejos estão adormecidos.

Sinto a calma mongética.

Como dizia Nietzsche: “eu sou um brâmane”.

Penso nas coisas grandiosas e espirituais.

A beleza necessariamente anda com pés delicados.

Ela é uma moça cândida, cheia de recatos.

Consigo ouvir barulhos longínquos.

Perto de minha casa há bares abarrotados.

Lá vive a loucura com lábios molhados, pronta

Para beijar seres incautos.

A loucura é a musa dos homens doentes.

Os sãos gostam de valores frágeis, delicados.

As árias, andantes moltos e adágios se sucedem

Como águas turbulentas e sábias de uma cachoeira.

O meu domingo de solidão e silêncio musical

É uma efeméride para os meus sentidos.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: domingo, 4 de janeiro de 2009, 11:56:07.

sábado, setembro 12, 2009

Outras Impressões

Parece sempre nova a visão que

Tenho deste ponto.

Já estive aqui por diversas vezes.

Presencie essa mesma paisagem.

Extasio-me de forma completa.

Não deixei de me sentir integrado

Ao mundo.

O calor acentuado.

O dia que se vai.

O astro que se esconde por

Trás dos morros distantes.

Uma bola incandescente.

As nuvens que ainda fazem perceber

As reverberações de mais

Um espetáculo ocasual.

É sempre belo.

Ternos versos poéticos.

Misterioso como uma religião,

Cheio de fragrâncias distintas

Como se fosse um bosque.

Triste como uma despedida.

Habitado por sensações variegadas

Como uma viagem.

Um momento de velocidade parada.

A escuridade tênue, leitosa,

Engole o dia.

Alimenta-se da pressa.

Muda-se a cor do cenário.

Cobre-se o mundo com

Um manto trevoso.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: 12 de setembro de 2008, sexta-feira.

terça-feira, setembro 01, 2009

A Sinfonia Inacabada e a minha relação com a música

A música clássica mostrou-se a mim com a Sinfonia Inacabada de Franz Schubert. Devo afirmar que preciso aprender a ouvir o compositor austríaco. Ele não é um dos meus preferidos. Há outros compositores que admiro com maior ênfase – Beethoven, Mahler, Mozart, Bach, Brahms e Shostakovich são compositores que exercem um efeito inebriador sobre mim.
Mas voltemos à Sinfonia Inacabada. Eram os idos de 1997 ou 98. Eu era um adolescente de 17 para 18 anos. Estava saindo da puberdade e conhecendo as realidades agrestes do mundo adulto. Apesar de ter as minhas amizades, o que de fato fundava-se em mim como material necessário, era a introspecção, os deleites reflexivos da solidão. Por esse tempo, não sei por que cargas d’água eu fui presenteado com uma fita K-7 com peças de Schubert. À época não entendia muito bem o matéria daquele objeto. O colega que me dera a fita K-7 fazia parte de uma família de diletantes. Conheciam o básico, o necessário, o trivial de cada assunto. O fato típico da burguesia.
A grande questão é que não atribuir muita significação àquele presente. Como os gregos antigos, eu tinha curiosidade por aprender, mas no que tange à fita, ela ficou a um canto. Em dados momentos, quando me encontrava mais contido, eu comecei a ouvir o material da fita. Trata-se de uma coletânea com as melhores peças de Schubert. Franz compôs em demasia quando vivo e o que uma fita de 46 minutos poderia conter além de fragmentos esparsos do grande músico romântico? Como descobrir mais tarde, havia na fita pedaços das Sinfonias 3 e 5, o quarto movimento do Quinteto para Piano, “A Truta”, uma canção de um dos inúmeros lieders compostos por Schubert. O fato que reputo por mais importante foi a presença, naquela fita, que ainda trago comigo (apesar do áudio não está tão bom), da Oitava Sinfonia, denominada simplesmente de “Sinfonia Inacabada”. A música clássica provocou os seus poderes em mim com essa sinfonia de Schubert.
O nome da peça chama atenção (“Inacabada”). Para mim ela estava perfeitamente acabada. A música era densa, poderosa. Revelava poderes noturnos. Exigia-se bastante dos instrumentos e da orquestra. Os violoncelos imprimiam gravidade. As madeiras apareciam estabelecendo contrastes. Os violinos chamavam de volta o tema e os tambores ruflavam. Apenas dois movimentos (Um allegro moderato e um Andante con moto). Pouco mais de 23 minutos de música acachapante. Aquilo era de mais para mim.
Schubert foi um compositor precoce. Aos 11 ou 12 anos ele já compunha missas. Morreu muito jovem – com 31 anos de idade, acometido de um ataque sifilítico. Trabalhava num ritmo alucinado. Muitas das peças que começava a compor, largava de mão. Isso deve ter se dado com esta Sinfonia, que deve ter sido escrita quando o compositor tinha 25 anos de idade. Nela é possível verificar uma reflexão densa, pesada. Por aquilo que já ouvir de Schubert, essa peça é distinta em suas nuances. É música beethoviana, carregada de sentimentos represados. É como se Schubert já enxergasse a morte precoce. Ele enfrentava problemas de saúde. Viajava sempre à procura de climas melhores e benfazejos.
O primeiro movimento é denso, carregado de elementos tempestuosos, como se o dia estivesse aguardando o retumbar da tempestade. O segundo movimento inicia-se lento, nostálgico, com elementos bucólicos, quase pastorais. E de repente, a orquestra irrompe numa eclosão volumosa de sons e novamente a reflexão lenta, ciciosa. Esta reflexão imprime poderes profundos na alma.
Ainda hoje posso ouvi-la por inúmeras vezes. É uma das minhas peças favoritas. Bateu-me o desejo de escrever estas palavras após tê-la ouvido na manhã de ontem. Agora enquanto escrevo estas palavras, a sua música é reproduzida suavemente ali do meu aparelho de som. Devo ter cinco gravações da Oitava Sinfonia aqui em casa. Num dos encartes que tenho, gravado pela London Festival Orchestra, encontro as palavras:
A Inacabada foi terminada provavelmente durante o verão de 1822. Não foi revelada até 1860 e foi estreada em Viena em 17 de dezembro de 1865, Schubert morrera a quase quarenta anos.
A Sinfonia # 8, obra bastante enigmática quanto ao modo de organização das figuras musicais que desenvolve, colocou, aos musicólogos, o problema do seu estado incompleto. Apesar de não todos opinarem que tivesse de ter uma continuação. Para alguns – entre outros Brahms – Schubert, a trabalhar o scherzo, considerou que as duas primeiras partes formavam um todo completo, não se teria sentido obrigado a ter em conta a tradicional divisão quatripartida.
Aqueles que consideram que a obra está inacabada afirmam, duma parte, que isto não é nada extraordinário na criação schubertiana e doutra, que Schubert não conseguiu um final adequado para esta obra tão notável e decidiu abandonar. Outra suposição consiste em pensar que Schubert subestimou o valor da sua obra, ao considerá-la demasiado próxima do estilo de Beethoven.
Alguns ao contrário, elaboraram a hipótese de um final que teria decidido extrair, totalmente ou em parte, da música de intermédio número 1 de
Rosamunda, uma vez terminado o scherzo.
Ouvindo esta peça hoje, vem-me a convicção que ela não precisa de um terceiro movimento. Ela não está inacabada como o próprio nome sugere. Creio que ela está poética e romanticamente acabada. Ela é misteriosa por, justamente, ter somente dois movimentos vestidos do mais profundo mistério. Talvez não produzisse tantos efeitos caso tivesse três movimentos. A música passou a ter outros motivos para mim graças a esta peça do gênio singular de Franz Schubert.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Sexta-feira, 16 de janeiro de 2009, 10:04:33

sexta-feira, agosto 28, 2009

Via Crucis - Por Clarice Lispector


Clarice Lispector é mais que uma escritora de literatura. Ela costuma fazer profundas viagens filósoficas e poéticas em seus texos. Por isso, resolvi postar este conto fascinante: um misto de ironia, realismo fantástico e crítica da vida.


Maria das Dores se assustou. Mas se assustou de fato.
Começou pela menstruação que não veio. Isso a surpreendeu porque ela era muito regular.
Passaram-se mais de dois meses e nada. Foi a uma ginecologista. Esta diagnosticou uma evidente gravidez.
— Não pode ser! gritou Maria das Dores.
— Por quê? a senhora não é casada?
— Sou, mas sou virgem, meu marido nunca me tocou. Primeiro porque ele é homem paciente, segundo porque já é meio impotente.
A ginecologista tentou argumentar:
— Quem sabe se a senhora em alguma noite…
— Nunca! mas nunca mesmo!
— Então, concluiu a ginecologista, não sei como explicar. A senhora já está no fim do terceiro mês.
Maria das Dores saiu do consultório toda tonta. Teve que parar num restaurante e tomar um café. Para conseguir entender.
O que é que estava lhe acontecendo? Grande angústia tomou-a. Mas saiu do restaurante mais calma.
Na rua, de volta para casa, comprou um casaquinho para o bebê. Azul, pois tinha certeza que seria menino. Que nome lhe daria? Só podia lhe dar um nome: Jesus.
Em casa encontrou o marido lendo jornal e de chinelos. Contou-lhe o que acontecia. O homem se assustou:
— Então eu sou São José?
— É, foi a resposta lacônica. Caíram ambos em grande meditação.
Maria das Dores mandou a empregada comprar as vitaminas que a ginecologista receitara. Eram para o benefício de seu filho.
Filho divino. Ela fora escolhida por Deus para dar ao mundo o novo Messias.
Comprou o berço azul. Começou a tricotar casaquinhos e a fazer fraldas macias.
Enquanto isso a barriga crescia. O feto era dinâmico: dava-lhe violentos pontapés. Às vezes ela chamava São José para pôr a mão na sua barriga e sentir o filho vivendo com força.
São José então ficava com os olhos molhados de lágrimas. Tratava-se de um Jesus vigoroso. Ela se sentia toda iluminada.
A uma amiga mais íntima Maria das Dores contou a história abismante. A amiga também se assustou:
— Maria das Dores, mas que destino privilegiado você tem!
— Privilegiado, sim, suspirou Maria das Dores. Mas que posso fazer para que meu filho não siga a via crucis?
— Reze, aconselhou a amiga, reze muito.
E Maria das Dores começou a acreditar em milagres. Uma vez julgou ver de pé ao seu lado a Virgem Maria que lhe sorria. Outra vez ela mesma fez o milagre: o marido estava com uma ferida aberta na perna, Maria das Dores beijou a ferida. No dia seguinte nem marca havia.
Fazia frio, era mês de julho. Em outubro nasceria a criança.
Mas onde encontrar um estábulo? Só se fosse para uma fazenda do interior de Minas Gerais. Então resolveu ir à fazenda da tia Mininha.
O que lhe preocupava é que a criança não nasceria em vinte e cinco de dezembro.
Ia à igreja todos os dias e, mesmo barriguda, ficava horas ajoelhada. Como madrinha do filho escolhera a Virgem Maria. E para padrinho o Cristo.
E assim foi se passando o tempo. Maria das Dores engordara brutalmente e tinha desejos estranhos. Como o de comer uvas geladas. São José foi com ela para a fazenda. E lá fazia seus trabalhos de marcenaria.
Um dia Maria das Dores empanturrou-se demais — vomitou muito e chorou. E pensou: começou a via crucis de meu sagrado filho.
Mas parecia-lhe que se desse à criança o nome de Jesus, ele seria, quando homem, crucificado. Era melhor dar-lhe o nome de Emmanuel. Nome simples. Nome bom.
Esperava Emmanuel sentada debaixo de uma jabuticabeira. E pensava:
Quando chegar a hora, não vou gritar, vou só dizer: ai Jesus!
E comia jabuticabas. Empanturrava-se a mãe de Jesus.
A tia — a par de tudo — preparava o quarto com cortinas azuis. O estábulo estava ali, com seu cheiro bom de estrume e suas vacas.
De noite Maria das Dores olhava para o céu estrelado à procura da estrela-guia. Quem seriam os três reis magos? quem lhe traria incenso e mirra?
Dava longos passeios porque a médica lhe recomendara caminhar muito. São José deixara crescer a barba grisalha e os longos cabelos chegavam-lhe aos ombros.
Era difícil esperar. O tempo não passava. A tia fazia-lhes, para o café da manhã, brevidades que se desmanchavam na boca. E o frio deixava-lhes as mãos vermelhas e duras.
De noite acendiam a lareira e ficavam sentados ali a se esquentarem. São José arranjava para si um cajado. E, como não mudava de roupa, tinha um cheiro sufocante. Sua túnica era de estopa. Ele tomava vinho junto da lareira. Maria das Dores tomava grosso leite branco, com o terço na mão.
De manhã bem cedo ia espiar as vacas no estábulo. As vacas mugiam. Maria das Dores sorria-lhes. Todos humildes: vacas e mulher. Maria das Dores a ponto de chorar. Ajeitava as palhas no chão, preparando lugar onde se deitar quando chegasse a hora. A hora da iluminação.
São José, com seu cajado ia meditar na montanha. A tia preparava lombinho de porco e todos comiam danadamente. E a criança nada de nascer.
Até que numa noite, às três horas da madrugada, Maria das Dores sentiu a primeira dor. Acendeu a lamparina, acordou São José, acordou a tia. Vestiram-se. E com um archote iluminando-lhes o caminho, dirigiram-se através das árvores para o estábulo. Uma grossa estrela faiscava no céu negro.
As vacas, acordadas, ficaram inquietas, começaram a mugir.
Daí a pouco nova dor. Maria das Dores mordeu a própria mão para não gritar. E não amanhecia.
São José tremia de frio. Maria das Dores, deitada na palha, sob um cobertor, aguardava.
Então veio uma dor forte demais. Ai Jesus, gemeu Maria das Dores. Ai Jesus, pareciam mugir as vacas.
As estrelas no céu.
Então aconteceu.
Nasceu Emmanuel.
E o estábulo pareceu iluminar-se todo.
Era um forte e belo menino que deu um berro na madrugada.
São José cortou o cordão umbilical. E a mãe sorria. A tia chorava.
Não se sabe se essa criança teve que passar pela via crucis. Todos passam.


* Este texto faz parte do livro A Via Crucis do Corpo de Clarice Lispector.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Mudança

Longe da fazenda, considerei-me fora da realidade e só. De fato, não estava só: várias pessoas transitavam por ali, ruídos vagos quebravam o silêncio. (...) Absurdo alguém viver num lugar onde se apertavam tantas casas.

Graciliano Ramos, in Infância, p. 43

No início do ano de 1.989 eu estava às vésperas dos dez anos. Um acontecimento extraordinário se deu. E isso desenhou contornos novos à minha vida. A minha existência se inclinou para outra direção. Foi um ano interessante para a minha família. Minha mãe era uma mulher de trinta anos; meu pai um homem de trinta e três anos; e meu irmão tinha apenas sete anos. Fomos visitados pela surpresa. Com certeza esse acontecimento mudaria a perspectiva da minha vida como estudante. Deixaria a escola rural. Lá estudei até a terceira série do ensino fundamental. Já sabia assinar o nome. Caminhava por estradas esburacadas quando ia ler. Intervalos volumosos. Gagueiras. Esforços no soletramento. Já havia vencido a cartilha. Estava num nível mais elevado. O livro agora tinha mais palavras e menos figuras, critério este, que para alguns, diferencia todo e qualquer livro.

Como acontecia naquelas paragens, muitos dos filhos daquela terra migravam para o centro-sul em busca de melhores condições para a sobrevivência. E assim havia se dado como Manuel Serafim que havia vindo para Brasília na década de setenta. Na capital do país chegara, constituíra família, arrumara um emprego e vivia com estabilidade na cidade satélite de Brazlândia. Chegara em Pernambuco no início de 1.989 – mês de fevereiro. Fez andanças. Visitou os colegas de infância. Foi à venda conversar com os matutos. Quando chegava alguém que morava num outro estado, a região inteira ficava excitada. Dizia-se, geralmente:

- Você viu, o filho de fulano chegou de...!?. Ou:

- Chegou de São Paulo, o filho de sicrano... – e assim se perpetuavam as novidades.

A minha fantasia também se colocava a trabalhar. Como seria esse novo mundo? Hoje, por exemplo, quando escuto a Nona Sinfonia de Anton Dvorak, “Novo Mundo” a compreendo e a sinto pelo simples fato de um dia ter experimentado as impressões de uma imaginação que brincava/brinca com a minha mente. Dvorak escreveu para descrever como os migrantes se sentiam ao chegar ao Novo Mundo, a América. Eu naquele tempo não conhecia o compositor tcheco, mas tinha nas paredes minha mente telas pintadas descrevendo estes mundos impressionantes. Contavam-me fora e eu os desenhava dentro. Por isso, imaginava esses novos mundos e os coloria com cores impressionantes.

O fato é que Manuel Serafim acabou encontrando meu pai. Fez promessas. Disse que levaria o meu pai para Brasília. No mês de março meu pai partia para Brasília. Ficamos eu, minha mãe e meu irmão sozinhos. Meu pai partia para criar condições, para que ao chegarmos a Brasília, não fossemos privados pela necessidade. Deixaria a minha terra. Partiria para um mundo estranho, novo. Como eram as criaturas. Meus nove anos me propiciava sensações agradáveis. Os meus pés calejados se afastariam da terra que nasci. Os meus banhos de riacho teriam cabo. Os coqueirais não mais tremulariam sob o vento para que eu os visse. Meus colegas seriam deixados. As cabras e bodes não mais seriam pastoreados por mim. A lenha na mata não teria mais necessidade de ser buscada. Iria embora a ameaça dos espíritos das matas. Os canaviais seriam abandonados. A visão do engenho Cacimba totalmente embargado pelo tempo se diluiria na memória. Esboroamentos completos. Lapsos abruptos. Expatriamento a fórceps, não tinha como lutar contra a mudança inexorável.

Cinco meses ficamos esperando até que as condições foram criadas para que partíssemos. Nesse período, lembro-me nitidamente, que abandonei a escola. Achava-me livre das lições morosas. Da professora que trocava “árvore” por “arvore”. Do cocó volumoso no alto da cabeça. Das vestimentas largas. Dos meninos que gastavam os olhos na lição ordinária.

Finalmente, no dia 19 de agosto de 1.989, às 21 horas e trinta minutos deixávamos o Pernambuco e nos dirigíamos para o coração do Brasil. Um novo tempo se desenhava, como a paisagem que corria fora das janelas do ônibus da Itapemirim. Meus olhos tentavam se adaptar às novas paisagens. Cheguei à Capital Federal num domingo. Tempo frio, seco, desértico. Os entardeceres tinham conotações místicas. O ocaso possuía tonalidades diferentes. O sol todos os dias se escondia avermelhado. As árvores eram banhadas por focos psicodélicos de luminosidade acobreada. Tinha a impressão de ver no céu um olho vermelho sem pálpebra. Uma bola enorme, incandescente. Menino desinformado, sentia-me inferiorizado diante dos outros. Fui morar em Ceilândia Norte num local insalubre. No lote em que morávamos várias famílias se escondiam em barracos de madeira. Espantalhos tortos. O local se assemelhava a um cortiço. Nas noites longas e frias ouvia as discussões entre os casais.

Nos meus dias eu sentia saudades do Nordeste. Ficamos eu, minha mãe e meu irmão no barraco crivado de instabilidade enquanto meu pai trabalhava. O frio molestava-nos. Fiquei o resto do ano de 1.989 sem estudar. Não lembro se brincava com o meu irmão e que brincadeiras poderíamos efetivar. O fato é que sentia um saudosismo dos meus avós. Habitava em meu peito um buraco que somente cabia às minhas vivências pernambucanas. Minha mãe se alimentava de cartas e eu de vontade de ser uma carta. Queria poder informar os meus parentes e ambientações distantes sobre como estávamos em nossa saudade do tamanho deles.

Mudamos para um outro local na mesma vizinhança, contudo tratava-se de um local melhor, mais amplo, mais privativo. Fiz amizades com meninos da minha idade. Brincava de carrinhos. Nas tardes que se finavam num processo morredouro, eu com minha sensibilidade lembrava do Pernambuco. Como naqueles mesmos momentos, enquanto estava nos rincões pernambucanos, eu ia catar lenha na mata, apascentar o rebanho de minha mãe, brincar, correr, andar descalço, buscar água na cacimba. Tecendo essas memórias, amarrando idéias e desembaraçando pensamentos, vejo hoje que deve ser por isso que até tenho o costume de fazer comparações, guardar fatos e mergulhar nos rios caudalosos de reminiscências doces. Aprendi esse artifício na minha infância. Criança invadida pela saudade, eu a levava comigo para onde ia e isso me fazia crescer. Uma despedida, hoje, abre hiatos no peito ao passo que me recordo de situações vividas. Didatismo aprendido de um tempo em que privado pela distância, eu guardava em mim a capacidade de me orientar nas estradas da minha imaginação.

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* Este texto é resultado de uma pequena autobiografia que escrevi no ano de 2006 para uma atividade na faculdade. Possui pouco mais de 65 páginas. Este capítulo narra a minha saída do Pernambuco. Foi num dia como este, 19 de agosto. Ainda me recordo dos acontecimentos. Pretendo futuramente engrossar as ideias e tornar esses fatos em um livro. Com disciplina isso será possível.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: 19 de agosto de 2009, 20:49:52

sábado, agosto 15, 2009

Pequenos Burgueses - uma breve reflexão

Terminei de ler há pouco a peça de teatro Pequenos Burgueses de Maximo Gorki. Causou-me impressão profunda. A história se passa num ambiente familiar asfixiante na Rússia pré-revolucionária. O realismo da obra revela como viviam os homens no Império Russo do início do século XX. A peça é, assim, um retrato exatificante da sociedade do escritor.
Gorki a escreveu em 1901. É um dos primeiros trabalhos de peso do escritor. As personagens vivem num meio niilista. São espectros de uma realidade condicionada pela mesquinhez. Bessemenov é a figura paterna que representa a ganância, a sovinice, o desejo pelo lucro. Piotr, filho de Bessemenov, é um intelectual insatisfeito. Tatiana é a filha depressiva e angustiada. É um tipo de figura de figura que representa a feminilidade opressa pelas tradições burguesas. A mulher deveria casar até certa idade. Era necessário se preocupar com essa imposição para não ficar mal vista.
Outra figura importante na peça é Nil, um entusiasta, destemido e trabalhador. É a figura do revolucionário. Daqueles que mais tarde empunhariam lanças e espadas e fariam a Revolução de 1905; e, mais tarde, a Revolução Russa de 1917. Nil é um tipo de arquétipo do proletário valente. Do homem destemido que enfrenta o frio, a neve, a fome, os soldados do czar e que é capaz de duelar com o desconhecido com as próprias mãos.
Mas ao meu modo de ver, o personagem mais interessante da obra é um pensionista e cantor que mora na casa de Bessemenov chamado Teteriev. Este personagem me deixou a impressão de que era um cínico, maquiavélico e cético. Essa atribuição de valores não é negativa. Muito pelo contrário. Teteriev é a figura mais lúcida da obra. Suas intervenções são profundamente filosóficas. As enunciações que faz evidenciam verdades desconcertantes. A lucidez de Teteriev cria um contraste na história. Ele é um ícone da racionalidade. Porque ao seu modo de ver “só os homens duros, inflexíveis como espadas, abrem caminho...”. Ou: “...é melhor morrer caminhando, do que apodrecer no mesmo lugar”. Ou ainda: “Vivo apenas por curiosidade”.
O livro é assim um tipo de literatura que evidencia o proletariado. O retrato familiar burguês é um quadro notável da sociedade russa. É a sociedade russa miniaturizada com suas lutas infames, com seus dilemas mesquinhos e com o seu niilismo. Gorki retrata essas questões com uma vivacidade realista impressionável. Acredito que quadro mais vivo e dramático é mostrado em A Mãe, que principiarei a leitura.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 15 de agosto de 2009, 20:38:51

sábado, julho 18, 2009

Um texto inacabado

EXPOSIÇÃO LIVRE SOBRE A SEXTA SINFONIA PASTORAL DE BEETHOVEN


1. INTRODUÇÃO

Recordo-me que certa vez fui à cidade mineira de Palmital e fiquei alojado numa fazenda, cerca de 5 quilômetros da cidade propriamente dita. Numa manhã de domingo em que havia chovido à noite eu resolvi acordar mais cedo. Deliberei por fazer uma caminhada pelas imediações. A fazenda ficava localizada numa área mais baixa e era circundada por grandes elevações. Eu saí bem cedo e me pus a caminhar. Subi numa daquelas elevações e pude olhar em todas as direções. O espetáculo que presencie foi divino. Eu vi grandes tufos de neblina que engoliam as casas distantes e pequeninas. Uma vegetação verde e molhada pelo orvalho exalava um cheiro que se misturava à terra molhada pela chuva da noite. Eu abri os braços e imaginei estar em outro espaço, em outro plano, que não o material. O vento era misterioso, uma carícia terna. Os pássaros adejavam com alegria. E eu ali a contemplar extasiado aquela cena magnífica em que as coisas do céu parecem vir passear aqui na terra. De modo que nunca mais esqueci aquela experiência tão cheia de beleza e encantamento.
Naquela época eu ainda não conhecia A Sexta Sinfonia de Beethoven. Quando a ouvi pela primeira vez, simplesmente, a visão que tivera reapareceu com todas as suas cores mágicas. Daí para frente surgiu o interesse em escrever algumas considerações sobre a Sexta Sinfonia em Fá Maior, Opus 68, mais solenemente conhecida como A Pastoral. Antes de discorrer sobre a peça musical farei algumas digressões sobre a vida do grande mestre.

2. ASPECTOS GERAIS DA VIDA DO GÊNIO


Beethoven é o que podemos denominar de personalidade incontida. Nasceu ao dia 16 de dezembro do ano de 1770, em Bonn, Alemanha. Começou a revelar talento com bastante precocidade. O seu avó Ludwig van Beethoven havia sido dono de um talento respeitável. O pai de Beethoven, por nome Johann, não herdou o talento do pai e quando este morreu passou a se entregar à bebida, o que veio a trazer penosas conseqüências. Beethoven herdou, assim, o nome do seu avó. O van não emanava diretamente de um título nobiliárquico dos alemães (von). O grande compositor possui uma ascendência flamenga. A família de Beethoven era belga. Havia migrado para a Alemanha.
Johann encaminhou Beethoven para música, mas o fez com austeridade. Talvez por tentar fazer de Beethoven aquilo que ele não conseguira ser. O pai do jovem Ludwig era um medíocre compositor; ou quiçá ainda por ver em Beethoven uma possibilidade de ascensão e reconhecimento social como havia sido com Mozart. À época da infância do compositor vienense, Leopoldo Mozart expunha para os reis e rainhas o gênio do filho. O pai de Beethoven o punia severamente. Obrigava-o ao estudo por horas e horas a fio. A sua alma foi dobrada insensivelmente pelo pai. Diz Romain Rolland que “pouco faltou para que ele se desgostasse para sempre da arte”. A violência e o estupro da vontade foram usados como mecanismos de educação para que Beethoven aprendesse a música. Desde muito cedo era obrigado a ficar horas e horas no seu quarto aprendendo cravo e violino. Essa disciplina espartana deixou marcas em Beethoven.
A agudeza da situação do pai obrigou o adolescente Beethoven a ajudar com as despesas da casa. Tratava-se de um adolescente tímido, retraído, introspectivo, metido em distrações e devaneios constantes. Beethoven era uma figura que não estava acostumado com a alegria. A sua obra oscila entre os aspectos solares e noturnos (dia e noite), resultado das variações de sua alma.
Essa condição permitiu a Beethoven desenvolver uma personalidade grave e silenciosa. Sai do ciclo formal da escola aos 11 anos por causa dessas necessidades acentuadas. Mais tarde quando conhece o conde de Waldstein é permitido a Beethoven retomar os estudos. Estuda literatura e estabelece contato com os ideais iluministas. Os ideais humanizantes da Revolução vão está presente em sua obra. Beethoven é um poeta que canta à humanidade. Isso fica claro, por exemplo, no segundo movimento (A Marcha Fúnebre) da Terceira Sinfonia, intitulada como Heróica. Trata-se de uma exaltação, mas ao mesmo tempo um profundo e revelador sentimento de compaixão para com a humanidade. Uma espécie de hino composto para cantar a grandeza e as dores humanas. Um réquiem de profundas e graves sentimentações. O contato de Beethoven com a literatura se faz sentir em sua obra. Shakespeare, Goethe, Schiller, aspectos profundos da mitologia grega vão está presentes na obra do compositor alemão.
No período de 1796 a 1800, o jovem Beethoven a partir dos 26 anos passou a experimentar os primeiros fantasmas da perda da audição. O compositor revela ao doutor e amigo Wegeler:

... Eu levo uma vida miserável. Desde há dois anos evito toda convivência, pois não me é possível conversar com qualquer pessoa: sou surdo. Se fossem outros os meus misteres, aquilo seria ainda possível; mas no meu caso, é uma situação terrível. Que diriam disso meus inimigos, cujo número não me é pequeno!... Ao teatro devo colocar-me muito junto à orquestra, para compreender o ator. Se fico um pouco longe, não escuto os sons altos, dos instrumentos e das vozes... Quando me falam suavemente, eu mal escuto... e, por outro lado, quando gritam, isso me é intolerável... Bem comumente, maldigo a minha existência... Plutarco conduziu-me à resignação. Desejo, todavia, se isso é possível, afrontar o meu destino; há momentos em minha vida que me considero a mais miserável criatura de Deus... Resignação! Que triste refúgio! Não obstante, é o que me resta .

Percebe-se nas palavras do compositor o infortúnio, a angústia de não poder apreciar o som que criava. Era como dar à luz a beleza e não poder apreciá-la. Essa condição crivou neste período na alma de Beethoven um conteúdo tal que permitiu que viesse ao mundo a Sonata Patética [opus 13], no ano de 1799. Há correntes dentro das artes que é pouco amistosa ao fato de se ler a obra do autor por meio da biografia do mesmo artista. É inegável que haja um importante mérito nessa tese, mas não se pode deixar de lado a consideração existencial que surge diretamente das vivências e experiências do artista. O artista ao produzir não o faz desjungindo dos elementos psico-existenciais acumulados durante a sua história. Com isso é importante ressaltar, por exemplo, que o quadro Campo de Trigos com Corvos de Van Gogh não teria vindo para o mundo se o pintor não estivesse mergulhado num caos existencial. A arte não existe apenas como uma entidade em si. O seu poder é infinito, suas possibilidades, imensuráveis. Todavia, o artista não atua numa atmosfera externa do mundo, pois as suas relações se dão no mundo humano, numa contingência material. Com relação ao quadro de Vincent é perceptível a pressão extrema da tristeza e da solidão. Van Gogh retrata com precisão a modelação da angústia que o acometia nos campos solitários repletos de corvos, “com caminhos que não levam a lugar nenhum, céus sombrios e mares de trigo que parecem uma onda que não se pode atravessar. Enfim, a impotência diante da imensidão” .
Nietzsche diz que o artista é um decifrador de mistérios como criatura humana que é. “(...) E todo o meu sonho e intento juntar num só todo o que é fragmento e enigma e horrível acaso. Como suportaria eu ser homem, se o homem não fosse também poeta e decifrador de enigmas e redentor do acaso?” A arte redime o acaso, sugere as intenções da existência. Ela surge como uma voz incontida na interioridade do artista. Todavia, existe uma provocação relacional entre o mundo e o ser do artista. A arte é a expressão de um modo de sentir do artista . Ela é pulsante de organicidade e vida. “A obra de arte resulta de um gesto humano, é, por isso, expressiva, orgânica, viva” .
A grande questão é se um chinês da Idade Média comporia um poema à semelhança de Brecht. Ou se outro qualquer dinamarquês escreveria uma filosofia análoga à de Kierkegaard. Ou ainda se qualquer outro compositor tão bom quanto Beethoven poderia criar peças como as de Beethoven. A resposta é não. Por quê? Porque a subjetividade é única. A percepção de mundo é única. Além do que ainda existe o fator ambiental e histórico que infunde outras referências no artista. Daí podemos chegar à dedução de que analisar os aspectos da obra pelos elementos biográficos não é de todo equivocado. Beethoven não teria composto a Patética ou a Sonata ao Luar se não houvesse uma força emuladora saltando de fora para dentro, criando assim condições para que o parto da arte viesse à luz.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

segunda-feira, junho 29, 2009

Difícil arte de ser mulher

Este artigo foi editado no Jornal Correio Braziliense da última sexta-feira, dia 26 de junho de 2009, no Caderno Opinião. No texto em questão, Frei Betto faz uma reflexão contudente sobre como a indústria do marketing, da banalidade e do fetiche, tem desfigurado a imagem, a pessoa e os atributos da mulher. Vale a leitura pela reflxão oportuna suscitada!

Hours concours em Cannes, um dos filmes de maior sucesso no badalado festival francês foi "Ágora", direção de Alejandro Amenabar. A estrela é a inglesa Rachel Weiz, premiada com o Oscar 2006 de melhor atriz coadjuvante em "O jardineiro fiel", dirigido por Fernando Meirelles.Em "Ágora" ela interpreta Hipácia, única mulher da Antiguidade a se destacar como cientista. Astrônoma, física, matemática e filósofa, Hipácia nasceu em 370, em Alexandria. Foi a última grande cientista de renome a trabalhar na lendária biblioteca daquela cidade egípcia. Na Academia de Atenas ocupou, aos 30 anos, a cadeira de Plotino. Escreveu tratados sobre Euclides e Ptolomeu, desenvolveu um mapa de corpos celestes e teria inventado novos modelos de astrolábio, planisfério e hidrômetro. Neoplatônica, Hipácia defendia a liberdade de religião e de pensamento. Acreditava que o Universo era regido por leis matemáticas. Tais ideias suscitaram a ira de fundamentalistas cristãos que, em plena decadência do Império Romano, lutavam por conquistar a hegemonia cultural. Em 415, instigados por Cirilo, bispo de Alexandria, fanáticos arrastaram Hipácia a uma igreja, esfolaram-na com cacos de cerâmica e conchas e, após assassiná-la, atiraram o corpo a uma fogueira. Sua morte selou, por mil anos, a estagnação da matemática ocidental. Cirilo foi canonizado por Roma. O filme de Amenabar é pertinente nesse momento em que o fanatismo religioso se revigora mundo afora. Contudo, toca também outro tema mais profundo: a opressão contra a mulher. Hoje, ela se manifesta por recursos tão sofisticados que chegam a convencer as próprias mulheres de que esse é o caminho certo da libertação feminina. Na sociedade capitalista, onde o lucro impera acima de todos os valores, o padrão machista de cultura associa erotismo e mercadoria. A isca é a imagem estereotipada da mulher. Sua autoestima é deslocada para o sentir-se desejada; seu corpo é violentamente modelado segundo padrões consumistas de beleza; seus atributos físicos se tornam onipresentes. Onde há oferta de produtos - TV, internet, outdoor, revista, jornal, folheto, cartaz afixado em veículos, e o merchandising embutido em telenovelas - o que se vê é uma profusão de seios, nádegas, lábios, coxas etc. É o açougue virtual. Hipácia é castrada em sua inteligência, em seus talentos e valores subjetivos, e agora dilacerada pelas conveniências do mercado. É sutilmente esfolada na ânsia de atingir a perfeição. Segundo a ironia da Ciranda da bailarina, de Edu Lobo e Chico Buarque, "Procurando bem / todo mundo tem pereba / marca de bexiga ou vacina / e tem piriri, tem lombriga, tem ameba / só a bailarina que não tem". Se tiver, será execrada pelos padrões machistas por ser gorda, velha, sem atributos físicos que a tornem desejável. Se abre a boca, deve falar de emoções, nunca de valores; de fantasias, e não de realidade; da vida privada e não da pública (política). E aceitar ser lisonjeiramente reduzida à irracionalidade analógica: "gata", "vaca", "avião", "melancia" etc. Para evitar ser execrada, agora Hipácia deve controlar o peso à custa de enormes sacrifícios (quem dera destinasse aos famintos o que deixa de ingerir...), mudar o vestuário o mais frequentemente possível, submeter-se à cirurgia plástica por mera questão de vaidade (e pensar que este ramo da medicina foi criado para corrigir anomalias físicas e não para dedicar-se a caprichos estéticos). Toda mulher sabe: melhor que ser atraente, é ser amada. Mas o amor é um valor anticapitalista. Supõe solidariedade e não competitividade; partilha e não acúmulo; doação e não possessão. E o machismo impregnado nessa cultura voltada ao consumismo teme a alteridade feminina. Melhor fomentar a mulher-objeto (de consumo). Na guerra dos sexos, historicamente é o homem quem dita o lugar da mulher. Ele tem a posse dos bens (patrimônio); a ela cabe o cuidado da casa (matrimônio). E, é claro, ela é incluída entre os bens... Vide o tradicional costume de, no casamento, incluir o sobrenome do marido ao nome da mulher. No Brasil colonial, dizia-se que à mulher do senhor de escravos era permitido sair de casa apenas três vezes: para ser batizada, casada e enterrada... Ainda hoje, a Hipácia interessada em matemática e filosofia é, no mínimo, uma ameaça aos homens que não querem compartir, e sim dominar. Eles são repletos de vontades e parcos de inteligência, ainda que cultos. Se o atrativo é o que se vê, por que o espanto ao saber que a média atual de durabilidade conjugal no Brasil é de sete anos? Como exigir que homens se interessem por mulheres que carecem de atributos físicos ou quando estes são vencidos pela idade? Pena que ainda não inventaram botox para a alma. E nem cirurgia plástica para a subjetividade.

Por Frei Betto

quinta-feira, junho 18, 2009

Pavilhão de artificialidades

Estou num pavilhão de artificialidades.
A estética é artificial,
Os passos são artificiais,
Os seres são artificiais.
Será que todos eles têm
Consciência da existência?
Existir é mais do que viver.
À mesa, um volume sartreano,
“A Náusea”.
Estou enauseado nesta noite
De modorra irritadiça.
Um gosto amargo na boca.
Certeza da pequenez,
Da quase ausência de ser.
Quanto mais penso,
Mais chego a conclusões atordoadoras.
Roquetin caminhava pela fria
E desalmada Paris do início do século XX.
Hoje estou aqui, em pleno século XXI,
Sentindo a mesma náusea.
Deve ser por isso que me animo, às vezes.
Existe cumplicidade, senso de identidade
Entre os homens.
A verdade é que todos morremos.
A consciência da morte gera paz em mim.
Todos os medíocres,
revestidos de artificialidades, passarão.
Mas enquanto não passam,
Se vestem com roupas de grife,
Passam pó nas faces amarelecidas
Pela vaidade;
Sorriem como hienas despreocupadas,
Assistem aos melhores shows, viajam
E vêem aquilo que eu costumeiramente sentiria.
Estou farto de tudo.
Inclusive dessas páginas queixosas.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 27/11/2006, segunda-feira.

quinta-feira, junho 04, 2009

A Sinfonia No. 1 de Mahler e eu

Ouvia há pouco a Sinfonia No.1, "Titã", de Gustav Mahler. O compositor austríaco inscreve-se como um dos meus favoritos. Suas peças musicais são monumentos erguidos a fim de engrandecer o homem e suscitar reflexões sobre o existir. Mahler em vida foi um indivíduo supersticioso. Sentia-se perseguido por uma compulsão: o medo da morte. A sua existência foi marcada por essa inquietação e, consequentemente, esses humores influenciaram em sua obra de forma profunda.
Suas sinfonias são catedrais grandiosas. Quando falo em grandiosidade, não quero me referir à duração cronológica das peças, mas à magnitude de reflexão e potencial exploratório de novas possibilidade sonoras. Compôs basicamente sinfonias. Embora figurem entre suas obras, lieders deliciosos e introspectos como "A Canção da Terra", um ciclo de canções feitos a partir de um poema chinês que desenvolve uma busca de compreensão filosófica para o existir humano. Aborda a efemeridade e a fuga transitória que é a vida do homem e todas as tragicidades inevitáveis que o acometem.
"Titã" é a primeira sinfonia de Mahler. É uma obra de juventude. Revela um Mahler otimista, grávido de expectativas triunfantes sobre o homem. Por isso, creio, que seja denominado de "Titã" (gigante). O compositor austríaco insere temas e nuances que sugerem a sua crença na vida.
Gustav foi tão grande como ser humano, quanto as suas peças. Sua música é a exata medida do homem. Exatificante, a música mahleriana alça voos metafísicos singrando por mares profundos da religião, da filosofia, do humanismo, do mistério e do triunfo.
Todas as vezes que escuto Gustav. morto em 1911, no auge da forma, como um grande compositor e regente, sinto-me mais homem, um homem melhor. É como dizia Nietzsche sobre Bizet: "A música desse compositor [Bizet] torna-me um melhor filósofo". Reflito como o pensador alemão. Ha realidades que devem nos modificar profundamente. Passarmos pela vida sem nos transformarmos em alguém positivo, a fim de causar um favor necessário ao próximo, é não viver. Quando escuto Mahler eu passo a acreditar na humanidade.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 27 de janeiro de 2009, terça-feira.

quinta-feira, maio 21, 2009

O homem moderno e a náusea de nada ser

Ontem pela manhã enquanto caminhava, veio-me à mente um trecho instigante do livro A Náusea de Sartre. Nada de notável. Não se trata obviamente de um resultado semelhante àquele de Nietzsche. A História da Filosofia nos retrata que enquanto o filósofo alemão caminhava, como sempre gostava de fazer, veio-lhe a intuição da filosofia do eterno retorno. Esse é um dos pontos basilares do pensamento de Friedrich. Os gregos costumavam filosofar enquanto caminhavam. Aristóteles ficou conhecido como um dos principais representantes do método. Chama-se peripatético (que em gregos significa “aquele que gosta de passear”). O peripapetismo seria o saber atribuído a essa prática.

O meu caminhar não era nem como o de Nietzsche, nem tão menos como o de Aristóteles. Todavia, enquanto caminhava, vendo os seres apressados que passavam por mim, lembrei-me das palavras do filósofo francês Jean-Paul Sartre: “Eles estão saindo dos escritórios, depois de seu dia de trabalho, olham para as casas e para as praças com ar satisfeito, pensam que essa é a sua cidade, uma ‘urbe burguesa’. Não têm medo, sentem-se em casa. Nunca viram senão a água domada que corre das torneiras, a luz que jorra das lâmpadas quando se aperta o interruptor, as árvores mestiças, bastardas, sustentadas por espeques. Eles comprovam, cem vezes por dia, que tudo se faz por mecanismo, que o mundo obedece a leis fixas e imutáveis. Os corpos abandonados no vazio caem na mesma velocidade, o jardim público é fechado todos os dias às dezesseis horas no inverno e às dezoito horas no verão, o chumbo funde a 335 graus centígrados, o último bonde sai da prefeitura às vinte e três e cinco. Eles são sossegados, um pouco taciturnos, pensam no Amanhã, isto é, simplesmente num novo hoje; as cidades dispõem apenas de um único dia que retorna igualzinho todas as manhãs. Só enfeitam um pouco aos domingos. Que Imbecis! (...) Eles legislam, escrevem romances populistas, casam-se, cometem a extrema tolice de fazer filhos. No entanto a grande natureza vaga penetrou em sua cidade, infiltrou-se por todo lado, em suas casas, em seus escritórios, neles próprios. Não se mexe, mantém-se quieta, eles estão bem dentro dela, respiram-na e não a vêem, imaginam que ela está lá fora, a vinte léguas da cidade”.

O livro A Náusea de Sartre dispensa maiores comentários. É ao lado de outras grandes obras, um dos textos mais representativos do século XX. Aponta o estado psicológico do homem moderno, mergulhado numa condição de nulidade existencial. O que acontece a Roquetin, personagem principal da obra de Sartre, é de certa forma emblemático, simbólico. O personagem é o arquétipo de um homem completamente desalojado. Sentado num determinado local, Roquetin faz a observação-reflexão acima transcrita. Enxerga como os homens andam zumbificados. A vida do burguês domesticado segue uma fluência maquinal. Os fatos e sistemas estão habitados por uma lógica constante, repisada. A existência só tem uma cor e essa cor se repete, se faz da mesma forma todos os dias.

A correria de todos os dias nos grandes centros. A tirania para conquistar, para alcançar um lugar satisfatório no funil da ascensão social são fatores que escravizam o homem. O homem moderno está escravizado por uma condição com a qual não pode lutar. Esmagado, o indivíduo moderno tornou-se uma espécie de joguete coisificado pela ausência de substância universal. O seu existir é seguir um jogo de regras inalteráveis. O homem moderno já não é um ser autêntico. É uma peça manipulada pelas estruturas opressoras que drenaram o sujeito como ente que possui potencialmente a capacidade de construir a História. É a morte do sujeito, conforme apregoava Foucault. Todos estão mortos. O homem moderno morreu.

Ele é, assim, um ente programado desde o dia em que nasce, até o dia em que morre. Vive para reproduzir um modelo de vida completamente robotizado. Já não sabe o que é real e o que é fictício. Confunde-se com os símbolos que criou. Nietzsche dizia que o homem é o único ser capaz de criar realidades e logo em seguida tornar-se escravo das realidades que criou. Ou seja, a criação sujeita o criador. O homem moderno corre atrás de modelos configurados por outros. Todavia, tais modelos ao mesmo tempo não são nada.

Todos os dias os homens vão e vêm, num ritmo sem significado. São seres autômatos, incapazes de responderem o que são e para onde estão indo. Caminham, mas não têm destino. Esmurram pela vida afora, mas o resultado de tal pugna é nulo, pois não há oponentes. A única realidade que há é o modelo que deve ser seguido, obedecido, mas o mesmo não é algo em si – apenas “a coisa”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sábado, 23 de agosto de 2008, 00:53:10.

sexta-feira, maio 15, 2009

Frei Tito, 30 anos do martírio

Extrair este texto do Betto do sítio ADITAL. O autor reflete sobre a morte de Frei Tito, que foi barbaramente torturado pelos militares durante o período do Golpe. Tito acabou cometendo suicídio enquanto estava exilado na França por conta das lembranças da tortura. O texto foi escrito em 2004, quando na ocasião celebrava-se 30 anos da morte do Frei. Neste ano completam-se 35 anos. O texto, porém, permanece bastante útil. Este fato é narrado pelo próprio Betto no livro Batismo de Sangue.


Quando secar o rio de minha infância, Secará toda dor. (Tito de Alencar Lima)

A 10 de agosto completa trinta anos da trágica morte de Frei Tito de Alencar Lima, em L'Arbresle, no Sul da França. Em sua dor gravou-se o que de mais hediondo produziu o militarismo brasileiro e, nele, reflete-se a venerável indignação de quantos acreditam na política como expressão coletiva de princípios éticos. No sofrimento de Tito, tornado símbolo das vítimas de torturas elencadas no livro Brasil, Nunca Mais (Vozes), inscreve-se a esperança de quantos acreditam na política como mediação de utopias libertárias. Preso em novembro de 1969, em São Paulo, acusado de oferecer infra-estrutura a Carlos Marighella, Tito é submetido à palmatória e choques elétricos, no DEOPS, em companhia de seus confrades. Em fevereiro do ano seguinte, quando já se encontra em mãos da Justiça Militar, é retirado do Presídio Tiradentes e levado para a Operação Bandeirantes, mais tarde conhecida como DOI-CODI, na rua Tutóia. Durante três dias, batem sua cabeça na parede, queimam sua pele com brasa de cigarros e dão-lhe choques por todo o corpo, em especial na boca, "para receber a hóstia", gritam os algozes. Fernando Gabeira, preso ao lado, tudo acompanha. Querem que Tito denuncie quem o ajudou a conseguir o sítio de Ibiúna para o congresso da UNE, em 1968, e assine depoimento atestando que dominicanos participaram de assaltos a bancos. No limite de sua resistência, Tito corta, com a gilete que lhe emprestam para fazer a barba, a artéria interna do cotovelo esquerdo. É socorrido a tempo no hospital militar, no Cambuci. As incessantes torturas não abrem a boca do frade dominicano de 28 anos, mas lhe cindem a alma. Cumpre-se a profecia do capitão Albernaz, da Oban: Se não falar, será quebrado por dentro, pois sabemos fazer as coisas sem deixar marcas visíveis. Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de seu silêncio. Em dezembro de 1970, incluído na lista de presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Bucher, seqüestrado pela VPR de Lamarca, Tito é banido do Brasil pelo governo Médici. De Santiago do Chile ruma para Paris, sem jamais recuperar sua harmonia interior. Nas ruas da capital francesa, ele "vê" o espectro de seus torturadores. Transferido para L'Arbresle, próximo a Lyon, em seu estreito quarto no convento construído por Le Corbusier, Tito estremece aos gritos do pai espancado no DOPS, geme aos berros da mãe dependurada no pau-de-arara, arrepia-se de pavor aos espasmos de seus irmãos eletrocutados, contorce-se em calafrios sob o fantasma do delegado Fleury. Sua mente naufraga em delírios. Tito não recupera, no exílio, a paz que lhe fora seqüestrada. No dia 10 de agosto de 1974, um estranho silêncio paira sob o céu azul do verão francês, envolvendo folhas, ventos, flores e pássaros. Nada se move. Entre o céu e a terra, sob a copa de um álamo, balança o corpo de Frei Tito, dependurado numa corda. O suicídio foi o seu gesto de protesto e de reencontro, do outro lado da vida, da unidade perdida. Deixara registrado nas páginas de sua Bíblia que "é melhor morrer do que perder a vida". De retorno ao Brasil, em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito tiveram solene acolhida na catedral da Sé, em celebração presidida pelo cardeal D. Paulo Evaristo Arns. Repousam agora em Fortaleza. Não se apagou, todavia, a luz de seu exemplo. A criatividade artística captou o rastro de sangue que se faz caminho. O curta-metragem Frei Tito, dirigido por Marlene França, recebeu aplausos em festivais do exterior, conquistou em Cuba o prêmio de melhor curta-metragem, no Festival Latino-Americano de Cinema e, no Brasil, o prêmio Margarida de Prata, da CNBB. Premiada pelo Serviço Nacional de Teatro, a peça de Licínio Rios Neto, Não Seria o Arco do Triunfo um Monumento ao Pau de Arara?, em memória de Tito, foi proibida pela Censura Federal durante o regime militar, impedindo Ricardo Guilherme de montá-la para percorrer o país. Adélia Prado homenageou-o num comovente poema. Oriana Fallaci dedicou a ele o livro - Um Homem - em que narra a paixão dela por Panagoulis, líder da resistência à ditadura grega. O senador italiano Raniero La Valle escreveu, sobre Tito, Fora do Campo, editado no Brasil pela Civilização Brasileira. Clara de Góes encontrou em Tito a força de inspiração para um de seus livros de poesia. Frei Tito é venerado por muitas pessoas de fé, que recorrem à sua intercessão em busca de graças. Recordá-lo é resgatar o sacrifício de todos que, no Brasil, lutaram pela restauração da ordem democrática. Ela ainda é frágil, porém promissora, considerando que a sociedade civil prossegue se organizando e mobilizando na conquista de cidadania e na consolidação da democracia. Celebrar neste ano a memória de Frei Tito é homenagear o sacrifício de todos que, no Brasil, viveram na bem-aventurança da sede de justiça e da fome de liberdade. E não temeram dar a vida para que todos tivessem vida, e vida em plenitude (João 10, 10).

* Frei Betto é autor de Batismo de Sangue (Casa Amarela), entre outros livros.