terça-feira, setembro 09, 2008

O "Epiríto da Época (Zeitgeist) do bloco Realista-Naturalista enquanto movimentos estéticos.

Nietzsche costumava dizer que quem escreve quer ser lido. Ele enfrentou sérios dilemas com relação aos seus textos, que foram pouco lidos ou comentados enquanto o filósofo estava vivo. O filósofo alemão tornou-se uma unanimidade apenas a partir da segunda década do século XX. Não quero me comparar a Nietzsche, pois me falta todo um cabedal crítico e filósofico. Ser igual a Nietzsche exige mais do que uma postura filósofica. Exige renúncia e radicalidade. Algo a que o homem comum não está preparado para enfrentar. Mas passa em mim a tristeza de que poucos são aqueles que lêem aquilo que escrevo. Que não entendam essa afirmação como algo lânguido e cheio de ressentimentos. Isso contrariaria o meu espírito nieztscheniano. Pois para Nietzsche somente os fracos e anêmicos ressentem-se. Os impávidos caminham para frente a despeito dos obstáculos. Todavia, fica assim. Em outro momento voltarei a escrever sobre essa facticidade. O texto abaixo é resultado de uma pequena pesquisa que fiz. Aborda "o espírito do tempo" (o zeitgeist - termo alemão) dos períodos das artes conhecido como Relismo e Naturalismo. Talvez hajam erros no texto - ensaísticos e conceituais. Fica como está. Resolvi colocar a tela de François Millet, um dos mais famosos pintores do período. A tela chama-se As Respigadeiras e marca uma nova atitude estética por parte dos artistas do século XIX. Àqueles que tiverem coragem de ler o texto, fica o abraço mais genuíno da minha alma nietzscheniana.

INTRODUÇÃO:

O século XIX constitui um período singular do ponto de vista das produções humanas e estéticas. Pode-se afirmar que foi um século romântico. O Romantismo permitiu uma nova maneira de se fazer arte. O artista colocava a subjetividade como grande tema a fim de apreender e se comunicar com a realidade. O individualismo era a ferramenta ser considerado como o objeto a ser analisado. A grande preocupação do romântico era externar as suas visões interiores. Quanto mais essas visões estivessem ligadas a um senso ilógico, de uma oscilação entre alegria profunda e desolação melancólica aguda, mais existosas eram essas produções. O que se percebe é que as características mais acentuadas deveriam ser cheias de grande mistério, o que fazia com que o espírito romântico fosse atraído pelas matérias ocultas da existência; de sonho, que representava um abandono do mundo e a criação de um universo de mitos e símbolos; de escapismo, ou seja, de fuga da realidade e criação de um lugar ideal onde o romântico pudesse se abrigar das intempéries da vida; de culto à natureza, ou em outras palavras, a natureza era um lugar puro, não contaminado pela sociedade, lugar de cura física e espiritual; de exagero, o romântico buscava retratar com perfeição um mundo em que colocava tudo de bom, de bravo, de puro, de belo, no passado, no futuro, ou em um lugar distante, um mundo de perfeição e sonho; de fé, acreditava no espírito e na capacidade de mudar o mundo; de pitoresco, o romântico era atraído pelo espaço, o gosto pela floresta das longínquas terras selvagens, orientais, ricas de contornos imaginosos, ou seja, era a relação do romântico com a natureza que interessava, pois gerava melancolia, saudade e dor da ausência (COUTINHO, 1990, pp.146-147). Estas foram características mais marcantes na estética das produções românticas do fim do século XVIII e início do século XIX.
Esses atribustos são o eixo que abrigava o interesse do romântico. O que move a construção da arte para o romântico era justamente uma espécie de elocução própria, um desejo de retratar suas emoções e reflexões. Nisso residia o centro de gravitação de suas preocupações . Ele não lidava necessariamente com o fato, mas com o ideal, com a projeção, com os aspectos mais densos do mundo existencial, que se fazia conhecido e extravasado para o mundo.
Deve ser mencionado que esse apanágio do Romantismo, enquanto movimento estético, com o tempo foi perdendo completamente a sua razão de ser. Novos eventos e preocupações históricas fizeram rebentar uma plêiade de características novas, que pouco a pouco foram enfraquecendo o movimento romântico enquanto movimento estético. Novos ventos sopraram e constituíram uma mutação nas mentalidades. Imprimiram uma nova sensibilidade.

A CIÊNCIA COMO RAZÃO SISTEMATIZADA

Fazendo uma rápida digressão, pode-se afirmar que o Iluminismo do século XVIII havia infundido uma preocupação diferente, uma outra celebração no campo do pensamento. Os iluministas entendiam que a humanidade precisava passar de um estágio de obscurantismo para o século das luzes, onde o que triunfaria seria a razão, a ciência e uma era de respeito aos ideais de um novo projeto para a humanidade. Essas preocupações atingem um ápice quando da Revolução Francesa, que de certa forma constitui um capítulo singular na História do Ocidente. Se os grandes pensadores (Descartes, Hobbes, Locke, Rousseau, Newton, Galilei Galileu, Diderot, Montesquieu, D’Alambert, Voltaire) dos séculos anteriores haviam construído os alicerces para o avanço da razão cientifica, o século XIX permite a eclosão dos vários movimentos filosóficos e científicos que irão consagrar-se ao triunfo da Ciência.
Vale mencionar que quando se fala em Ciência estamos lidando basicamente com as razões lógicas em torno dos fatos, da realidade. A ciência como diz Carl Sagan tem por finalidade descortirnar o mundo assim como ele é. “A ciência baseia-se na experiência, na disposição de desafiar os velhos dogmas, numa abertura que permita ver o universo como ele na realidade é” (SAGAN, 1997, p. 15). A discussão é mais densa, quando se trata de uma definição ou de uma mera classificação, pois no século XX vai surgir justamente um debate em torno das razões da verdade e da exatidão da ciência (ALVES, 1981, p. 139). Não é o objetivo desse breve ensaio se estender até esses arraiais vastos. Ciência pode ser compreendida como, em seu sentido amplo, como qualquer conhecimento sistematizado e que costuma ser aplicado sobretudo à organização da experiência sensorial objetivamente verificável. A ciência busca o maior empenho possível a fim de organizar “as verdades” descobertas em sistemas.

Por exemplo, todos nós possuímos uma série de conhecimentos sobre os fatos da natureza: as forças, o movimento, e assim por diante. Qualquer motorista sabe, que se ele brecar bruscamente o carro, seu corpo será “empurrado” para frente. Todos nós sabemos que a Terra gira em torno do sol (...) O cientista aspira a organizar seus conhecimentos em sistemas. Por sua vez, deseja que suas afirmações sejam verdadeiras (LUNGARZO, 1989, pp.41-42).

Essa busca faz do cientista alguém que analisa os fatos, a realidade, que perscruta com imparcialidade e neutralidade a fim de encontrar nos eventos “a verdade” que move o universo. A ciência em sua busca deve fornecer respostas universais, independentes dos pontos de vista subjetivo, moral ou religiosos (GLEISER, 1997, p. 21). Para que haja credibilidade o cientista deve se munir de neutralidade.
O processo de renovação científico e das mentalidades está presente fortemente no século XIX. A Ciência abrangeu os aspectos mais gerais das produções humanas. Essa preocupação também se fez sentir no campo das produções artísticas, especialmente na literatura. Houve, assim, uma transferência do espiritualismo, das realidades intangíveis, incognoscíveis, metafísicas, para um tipo de preocupação com a matéria. Esse movimento de “mecanização da percepção”, ou seja, essa preocupação com a objetividade consagra a vitória da matéria sobre a subjetividade. Os elementos individualistas são substituídos pela crença na observação e no rigor cientifico que devia ser o eixo de gravitação da arte.
De um modo geral, transferiam do metafísico, incognoscível à mente humana, para o natural, acessível ao nosso conhecimento, a explicação do universo, cuja substância se traslada do espírito para a matéria. Se nem todos colocavam na matéria a essência do mundo, a ela cifravam a nossa cognoscibilidade, afastando de nossas cogitações, por conseguinte, toda especulação sobrenatural, por despicienda, pelo menos provisoriamente, no estado em que no momento se encontravam as indagações da razão humana; a qual deveria guiar-se pelo espírito científico, que é positivo e se coloca no terreno dos fatos, e apoiar-se nos métodos de experimentação objetiva obediente a normas impessoais e isenta de qualquer prévia interpretação subjetiva (PACHECO, 1971, p. 12).

Esta ânsia ou essa busca da impessoalidade exaltou aquilo que Afrânio Coutinho denomina de “fatualismo científico” (COUTINHO, 1990, 182). Esse ideário cientificista revolucionário era guiado por uma nova forma de interpretar a realidade. Haviam razões ideológicas nessa nova postura. A ciência era a ferramenta capaz de fazer “destrancar” o mundo e revelar os segredos ocultos. Era preciso decompor, analisar, dividir em partes a fim de que o mundo fosse estudado anatomicamente como um corpo. Isso pode ser constatado no pensamento do biólogo alemão Ernst Heinrich Haeckel que tentou conciliar por meio de uma teoria que unificasse biologia, ciência e religião.
O que deveria merecer atenção para o homem era a natureza do qual provinha pela seleção natural (não divina) da espécie; Os fenômenos naturais, segundo a compreensão, se ofereciam imediatamente aos sentidos, enquanto o espírito escapava à captação racional, permanecendo imponderável e inapreensível. Há assim nos espaços imediatos à realidade um determinismo mecanicista, que evolui do mais simples para o mais complexo, do homogêneo para o heterogêneo. Esse senso científico como instrumento aferidor da realidade era tanto mais exato quanto menos subordinado ao sujeito, ao individual, quer dizer, quanto mais neles prevalecesse o objeto em análise. O conhecimento processava-se pela razão, como intérprete capaz de apreender o real, e orientava-se indutivamente pela observação e da experiência para a generalização (PACHECO, 1971, pp. 12-13).
Essa compreensão de que havia um senso lógico que movia o mundo passa a ser uma determinante de análise retilínea. Ou seja, o que se quer dizer com isso é que as leis que estão presentes na natureza (kosmos) estão presentes também no mundo, na sociedade criada pelos homens. “As ciências sociais aliaram-se às ciências naturais, físicas e biológicas: economia, sociologia, estatística, biologia, psicologia, ciências naturais, geografia, antropologia e etnografia” (COUTINHO, 1990, p. 183). Assim passou-se a entender eram transformações científicas de ordem técnica que afetavam diretamente o dinamismo da sociedade.
Essa convergência de ciências vai permitir um modo muito peculiar de se ler a realidade. Essas transformações técnicas fornecem possibilidades para que se veja as estruturas que moviam o mundo. Ou seja, “essa revolução (...) suscita novas formas de atividade profissional, modifica as condições de trabalho, dá origem, por um encadeamento de causas e de conseqüências, a novos tipos sociais” (RÉMOND, 1990, p.53). Essas amarras vão conferir um apego acentuado aos aspectos técnicos, progressistas da ciência e se constituir naquilo que José Veríssimo chama de “infalibilidade da ciência e exagerada opinião da sua importância” (www.dominiopublico.gov.br). As leis naturais indicavam, segundo o entendimento, que havia uma uniformidade no mundo, que representava um sistema fechado. Sob a influência do pressuposto das causas naturais em um sistema fechado, a máquina não se limita a englobar só a esfera da física; ela abrange tudo. Esse pressuposto vai estabelecer o seguinte postulado: o que é, certo é. Ou seja, o que a natureza impõe pela sua força é totalmente coerente. Esse entendimento bania com as razões românticas que valorizavam profundamente a alma e o espírito (SCHAEFFER, 2002, pp. 49-50).
Logo, a sociedade torna-se um organismo vivo e pulsante em constante evolução, e a luta entre indivíduos passa a ser vista como uma luta de forças e classes antagônicas, da mesma forma que os animais selvagens competem entre si guiados pelo instinto. A aplicação da metodologia científica às ciências sociais foi acontecimento mais determinante para a orientação das produções humanas: ciência, política, religião, artes (SENRA, 2006, p.11).

OS “ISMOS” DA CIÊNCIA

Essa orientação promoveu um desapego às crenças tradicionais ou políticas. Várias foram as correntes científicas que surgiram a fim de explicar a realidade com suas tangências. Desde um acatolicismo a um monismo ou ainda a um determinismo . Assim, não se pode fazer uma análise das produções do homem do século XIX sem deixar de compreender os movimentos de cunho científico surgidos naquele presente histórico. Determina-se a realidade a partir de um fator determinante permanente na natureza que com suas leis fixa critérios mensuráveis.
As mudanças do ambiente despertam novas necessidades, as necessidades criam novos órgãos, os órgãos desenvolvem-se pelo uso e atrofiam-se pelo desuso. As transformações individuais provenientes da ação destes fatores são depois fixadas pela herança, que as transmite aos descendentes (FRANCA, 1990, p.202).

Como se pode constatar, buscava-se a fixação de uma complexa explicação que abrangesse “todo o homem no conjunto de sua existência” (ROVIGHI, 2001, p.193). Essa nova sociedade, com novas estruturas conceituais, serve de pano de fundo para uma reinterpretarão da realidade, que gera teorias de variadas posturas ideológicas (NICOLA, 1998, p. 178). Para isso surgem essas escolas de caráter cientifico, que inquestionavelmente estão ligadas à história do século XIX. Escolas como o positivismo, o evolucionismo, o materialismo histórico e o darwinismo social se constituirão nas raízes semânticas de interpretação filosófica e científica. Essas escolas se coligam no ideal de evolução nos trabalhos de Darwin , Taine , Spencer e Comte (COUTINHO, 1990, p.184).
O evolucionismo legitimava a condição do mundo ocidental. De certa forma se constituía numa escola de cunho funcionalista. A ideologia hegemônica da civilização européia passou a ser uma idéia comprovada cientificamente comprovada por “leis naturais”, que determinava o rumo da história dos povos. Assim como na natureza há leis que impulsiona a presença do mais forte, a sociedade humana também seria regida por esta lei de manutenção. Isso conflagra naquilo que Darwin chama de “luta pela existência”. Os mais fortes ou favorecidos seguiriam uma tendência natural de beneficio da natureza (DARWIN, 2005, p.79).
A idéia básica do darwinismo social seria de que as circunstâncias históricas externas determinam a natureza de qualquer ser vivo e amplia-se a ponto de análise dos acidentes geográficos, do ambiente e da natureza propiciar não apenas caracteres psicológicos, como o comportamento social. Estudava-se o ambiente do homem para que se pudesse compreender o seu comportamento como o de um mero animal (SENRA, 2006, p.12). O mundo passa a ser encarado como um processo de crescimento e evolução. “A sociedade foi encarada, sob o influxo da biologia, composto por células de funcionamento harmônico e obedecendo às leis biológicas de lei e morte” (COUTINHO, 1990, p.183). Em suma, conforme continua expressado Coutinho (1990, p.184), “as circunstâncias externas determinam rigidamente a natureza dos seres vivos, inclusive o homem, e de que nem a vontade, nem a razão podem agir independemente de seu condicionamento passado”.
Já para o positivismo de Augusto Comte, que foi amplamente divulgado no século XIX como construto científico por excelência, considerava precipuamente que a metafisica e a teologia eram sistemas de conhecimentos imperfeitos, pois não poderiam ser explicados pela razão positiva. O filósofo francês entendia que somente a razão positiva era capaz de conduzir o homem a um novo estágio de lei, progresso e ordem. Para ele, não se devia reduzir o mundo apenas a um princípio (Deus, Homem ou Natureza). Tal forma de construção estaria equivocada, pois a construção de um novo estágio de civilização não devia ser feito de forma individual ou isolada. Em seja, qual fosse o campo, uma metodologia idêntica iria produzir convergência e homogeneidade de teorias, possibilitando, assim, que a filosofia positiva fosse o “fundamento intelectual da fraternidade entre os homens, possibilitando a vida prática em comum” ( 2005, p.10).
De fato o grande ideal de Comte era fundar uma religião que teria a ciência como principal personagem que orquestraria a humanidade. Ele enxergava certo determinismo entre os povos, uma amarra que ligava por meio de uma coexistência de todos os povos do globo. Ou seja, dessa forma o “encadeamento estabelecido segundo a sucessão dos tempos pode ser verificado pela comparação dos lugares” (COMTE, 1972, p.18). Para Comte, a história seria constituída por um conjunto de fases imóveis em si mesmas, que num contínuo substituem umas às outras, de forma que cada estágio superior ao anterior, decorrência necessária deste e preparação, também necessária, para o próximo estágio, até que se chegue, finalmente, ao estado superior (ANDERY; SÉRIO, 2004, p.379).
O materialismo histórico foi desenvolvido por Karl Marx como uma teoria crítica permite que se leia a história como uma intensa luta de classes. O que se estabelece a priori é que há aqueles que dominam e aqueles que são dominados, pois o que determina a organização de qualquer sociedade é o estado de suas forças produtivas. Quando se muda esse estágio, inevitavelmente se muda a organização social. O movimento da matéria move a história. Os fatos históricos não são determinados pela consciência sobre as coisas materiais, mas a consciência é determinada pela ingerência direta da matéria. Portanto, as forças sociais estão em constante estado de mudança quando as forças produtivas da matéria se estabelecem (PLEKHANOV, 2006, pp.80-81).
Essas concepções vão está presentes também na estética das artes, principalmente na literatura. Os escritores dessa época a partir desse ideário passam a valorizar esse cientificismo acentuado e fazem dos seus personagens bonecos sem livre-arbítrio ou os reduzem a um ambiente onde as forças hereditárias imprimiam caráter, ações, destino.

O REALISMO E O NATURALISMO.

Falar desses movimentos estéticos é perceber essa cristalização de caracteres cientificistas impressos nas páginas. O mundo vaporoso dos românticos foi ordenado e reduzido a construtos da ciência. Já não se priorizava o que o indivíduo tinha a dizer, mas o que os fenômenos naturais ou sociais diziam. O homem, afinal, nada mais era do que uma engrenagem na grande máquina, no mecanismo que é o mundo. Tais ordenações podem ser observadas textos produzidos nesse período. Isso pode ser visto, por exemplo, no Naturalismo e o Realismo que foram produções estéticas que buscaram realçar essas características.
O Naturalismo é o termo que designa uma ciência (natural + ismo) e significava uma filosofia, na qual nada tem uma explicação supranatural, e, portanto as leis científicas e não as concepções teológicas da natureza, é que possuem explicações válidas. Em literatura, é a teoria que explica que a arte deve conformar-se com a natureza, utilizando-se dos métodos científicos de observação no tratamento dos fatos e dos personagens (COUTINHO, 1990, p.188). Essa visão determinou uma possibilidade de fazer dos personagens meros caprichos do ambiente, que os condicionava. Isso fica patente nos escritos Émile Zola.
Nos meados do século XIX, a ciência fez novos progressos e as idéias mecanicistas voltaram a estar na moda. Dessa vez, porém, vinham de outra parte – não da Física ou da Matemática, mas da Biologia. A teoria da Evolução teve efeito de reduzir o Homem, da estatura heróica a que os românticos haviam procurado exaltá-lo, ao aspecto de um animal indefeso, mais uma vez minúsculo dentro do universo à mercê das forças que o circundavam. A humanidade era o produto acidental da hereditariedade e do meio ambiente, em cujos termos se tornava explicável. Esta doutrina chamou-se, em Literatura, Naturalismo, e foi posta em prática por romancistas como Zola, que acreditava serem idênticas a composição de um romance e a realização de um experimento de laboratório: bastava apenas fornecer às personagens um meio ambiente e uma hereditariedade específicos e depois acompanhar-lhes as reações automáticas. E por historiadores e críticos como Taine que asseverava serem a virtude e o vício produtos de processos automáticos, tanto quanto álcalis e ácidos, e que buscava explicar as obras-primas com estudar as condições geográficas climáticas dos países onde haviam sido produzidas (WILSON, 1993, pp.12-13).

Ou seja, esse axioma do Naturalismo permitia a arte se ligar à ciência e torná-la qual documento objetivo, de análise de fatos sociais.
O Realismo, por sua vez, conforme narra Coutinho (1990, p.185) derivava real, oriundo do adjetivo do baixo latim realis, reale, por sua vez derivado de res, coisa ou fato. Assim, seria a palavra que indicaria a preferência pelos fatos e a tendência a encarar as coisas tais como elas são na realidade. “Em Literatura, Realismo opõe-se habitualmente a idealismo (e a Romantismo), em virtude da sua opção pela realidade tal como ela é e não como deve ser” (1990).
O realismo logrou impor a pintura verdadeira das condições de vida dos humildes e obscuros, homens e mulheres que habitualmente são ignorados pelos olhos das elites. É uma literatura, enquanto tendência, um temperamento, uma forma de se posicionar no mundo, que buscava apresentar a verdade, uma busca de tratar com o máximo de verossimilhança, sem artificialismos ou sentimentalidades; buscava pintar retratos fiéis de seus personagens, são personagens concretos, não genéricos; encarava a vida objetivamente, de modo que o autor não confundia seus sentimentos e pontos de vistas com emoções e motivos das personagens; retratava a vida contemporânea, não se fiava pelo passado ou o futuro; tirava o maior número de detalhes específicos; a narrativa se desenrolava lentamente, pois buscava mais caracterizar do que narrar as ações; apoiava-se mais nas impressões sensíveis; escolhia uma linguagem mais próxima do real.
Como se pode ver tanto o Naturalismo como o Realismo buscavam uma visão claramente objetiva para lidar com a realidade. Essas características são advindas daquilo que pode ser denominado espírito da época.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

O século XIX constitui um momento singular na História da Humanidade, pois permitiu que surgisse uma importante desejo por se compreender as razões lógicas que moviam o mundo. Para isso, a ciência surgiu como um grande vulto que possibilitava a construção de uma base para se chegar a essa ordenação ou ideal criador. Este empreendimento buscava dissipar os aspectos meramente não naturais, não materiais como a teologia e a metafísica como possibilidade explicativa da realidade.
Com isso surgem diversas escolas cientificas que priorizam a aplicação do método cientifico como axioma absoluto para gerir a economia, a política, as artes, a religião. Tais construtos determinaram uma visão objetiva da história que passou a ser vista como um palco da matéria. Pensadores como Darwin, Marx, Comte, Spencer e Taine foram responsáveis por uma visão por empreender uma luta ideológica na construção de seus empreendimentos filosóficos.
A literatura não ficou como um terreno neutro. O espírito da época influeenciou também os escritores que se utilizaram claramente da objetividade da ciência para nos seus escritos. Isso fica claro, por exemplo, com o Realismo e com o Naturalismo, que são escolas estéticas profundamente tangenciadas pelo zeitgeist daquele momento histórico.
Compreender esse espírito da época possibilita ter uma visão mais abrangente desse momento tão singular da literatura da segunda metade do século XIX (pós-romântica). Pois um autor ao escrever uma obra está querendo ou não influenciado por determinadas circunstâncias históricas. A obra não se limita a um tempo, pois é matéria imorredoura, por isso, é arte. Todavia, o autor possui uma referência histórica que guia o seu pensamento e suas noções.

REFERÊNCIAS

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ANDERY, Maria Amália e etc. Para compreender a ciência – uma perspectiva histórica. São Paulo/Rio de Janeiro. EDUC – Editora da PUC-SP/Editora Garamond. 2004. 436p.

COMTE, Augusto. Opúsculos de Filosofia Social. Porto Alegre/São Paulo. Editora Globo/Editora da Universidade de São Paulo. 1972. 233p.

COUTINHO, Afrânio, Introdução à Literatura no Brasil, Editora Bertrand Brasil S.A. – 15ª. Edição: Rio de Janeiro, 1990, p. 213.

DARWIN, Charles. A origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida – tomo I. São Paulo. Editora Escala. 2005. 192p.

DICIONÄRIO AURÉLIO ELETRÔNICO. Versão 3.0. Lexikon Informática Ltda. Novembro 1999.

ENCICLOPÉDIA. Microsoft ® Encarta ® Encyclopedia 2002. © 1993-2001 Microsoft Corporation.

FRANCA, Leonel. Noções de História da Filosofia – 24ª. Edição. Rio de Janeiro. Agir. 1990. 384p.

GIANNOTTI, José Arthur. Augusto Comte – Vida e Obra – Os Pensadores. São Paulo. Editora Nova Cultural. 2005. 336p.

GLEISER, Marcelo. A Dança do Universo – dos mitos de criação ao Big Bang. São Paulo. Companhia das Letras. 1997. 425p.

LUNGARZO, Carlos. O que é ciência. São Paulo. Editora Brasiliense. 1989. 88p.

NICOLA, José de, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, Editora Scipione, São Paulo, 1998. 503pp.

PACHECO, João. O Realismo – volume III. São Paulo. Editora Cutrix. 1971. 206p.

PLEKHANOV. O papel do indivíduo na História. São Paulo. Editora Expressão Popular. 2006. 160p.

RÉMOND, René. O Século XIX – de 1815 – 1914 – introdução à história do nosso tempo. São Paulo. Editora Cutrix. 1990. 208p.

ROVIGHI, Sofia Vanni. História da Filosofia Contemporânea – do século XIX à neoescolástica. São Paulo. Edições Loyola. 2001. 662p.

SAGAN, Carl. Cérebro de Broca. Lisboa – Portugal. Gradiva Publicações. 1997. 203p.

SENRA, Flavio Pereira. A herança do período naturalista nas letras do século XX. Tese de mestrado em Literatura Comparada apresentada à coordenação dos cursos Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Orientador: Prof. Dr. Eduardo de Faria Coutinho. 2006. 114p.

SCHAEFFER, Francis A. A morte da razão – a desintegração da vida e da cultura moderna. São Paulo. ECC. 2002. 112p.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

WILSON, Edmund. O Castelo de Axel – estudo sobre a literatura imaginativa de 1870 a 1930. São Paulo. Editora Cutrix. 1993. 224p.

www.dominiopublico.gov.br, acessado dia 9 de junho de 2008, ás 18:00.

quinta-feira, setembro 04, 2008

Tempo de delicadeza

Li o livro tremendamente delicado de Affonso Romano Sant’Anna Tempo de Delicadeza. Impossível ler tal livro e não ser acometido por uma frescura delicada. Affonso é mineiro, da terra de Drummond, Guimarães Rosa e Rubem Alves, homens excessivamente delicados com o trato verbal. Há muito tempo eu vinha intentando colocar um texto de Affonso neste espaço e essa manhã eu fui acometido por um ímpeto de delicadeza. Decidi fazê-lo. Certa vez tive o privilégio de falar com o senhor Affonso Romano de Sant’Anna. Ele palestrara sobre Machado de Assis. Ao final de sua fala, decidi tietá-lo (talvez esse seja um termo indelicado, mas fica como está). Era uma sexta-feira airosa e eu perto daquele homem me senti mais docemente delicado. A sua voz grave, pronunciada com uma pausalidade, quase que cenográfica, causou-me impressão profunda. Ele de fato sabe ser um indivíduo delicado. Autografou um livro que estava em minha mão. Fiquei excitado, cheio de um contentamento, de uma veneração delicada. Falei da minha admiração por ele e o percebi educadamente delicado do alto de sua sobrancelha hirsuta.
Trata-se com certeza de um dos mais valorosos intelectuais vivos aqui no Brasil. Vale a pena ler as suas crônicas, poesias e textos científicos. É um homem catedrático, de erudição delicada. Ele herdou a tradição de Rubem Braga e Fernando Sabino para escrever coisas bonitas, doces, de fatos corriqueiros, porém vestidos por uma delicadeza profunda. O texto está abaixo. Ao lê-lo, temos a impressão de que estamos ouvindo uma ária de Mozart ou Bach. Leia o texto e seja remetido a um tempo de delicadeza.

Segue o texto: Tempo de Delicadeza


Sei que as pessoas estão pulando na jugular uma das outras.

Sei que viver está cada vez mais dificultoso.

Mas talvez por isso mesmo ou, talvez, devido a esse maio azulzinho, a esse outono fora e dentro de mim, o fato é que o tema da delicadeza começou a se infiltrar, digamos, delicadamente nesta crônica, varando os tiroteios, os seqüestros, as palavras ásperas e os gestos grosseiros que ocorrem nas esquinas da televisão e do cinema com a vida.

Talvez devesse lançar um manifesto pela delicadeza. Drummond dizia: "Sejamos pornográficos, docemente pornográficos". Parece que aceitaram exageradamente seu convite, e a coisa acabou em "grosseiramente pornográficos". Por isso, é necessário reverter poeticamente a situação e com Vinícius de Morais ou Rubem Braga dizer em tom de elegia ipanemense:

Meus amigos, meus irmãos, sejamos delicados, urgentemente delicados.

Com a delicadeza de São Francisco, se pudermos.

Com a delicadeza rija de Gandhi, se quisermos.

Já a delicadeza guerrilheira de Guevara era, convenhamos, discutível. Mas mesmo ele, que andou fuzilando pessoas por aí, também andou dizendo: "Endurecer, sem jamais perder a ternura".

Essa é a contradição do ser humano. Vejam o nosso sedutor e exemplar Vinícius, que há 20 anos nos deixou, delicadamente.

Era um profissional da delicadeza. Naquela sua pungente "Elegia ao primeiro amigo" nos dizia:

Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente.

E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha alma

Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre

um corpo de adúltera.

Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento.

Se me entediam, abandono-as delicadamente, despreendendo-me delas com uma doçura de água.

Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim

Deprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível

Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher

Mas com singular delicadeza. Não sou bom

Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado

Porque dentro de mim mora um ser feroz e fraticida

Como um lobo.

Está aí: porque somos ferozes precisamos ser delicados. Os que não puderem ser puramente delicados, que o sejam ferozmente delicados.

Houve um tempo em que se era delicado. E Rimbaud, que aos 17 anos já tinha feito sua obra poética, é quem disse um dia: "Por delicadeza, eu perdi minha vida."

Intrigante isso.

Há pessoas que perdem lugar na fila, por delicadeza. Outras, até o emprego. Há as que perdem o amor por amorosa delicadeza. Sim, há casos de pessoas que até perderam a vida, por pura delicadeza. Não é certamente o caso de Rimbaud, que se meteu em crimes e contrabandos na África. O que ele perdeu foi a poesia. E isso é igualmente grave.

Confesso que buscando programas de televisão para escapar da opressão cotidiana, volta e meia acabo dando em filmes ingleses do século passado. Mais que as verdes paisagens, que o elegante guarda-roupa, fico ali é escutando palavras educadíssimas e gestos elegantemente nobres. Não é que entre as personagens não haja as pérfidas, as perversas. Mas os ingleses têm uma maneira tão suave, tão fina de serem cruéis, que parece um privilégio sofrer nas mãos deles.

Tudo é questão de estilo.

Aquele detestável Bukovski, sendo abominável, no entanto, num poema delicado dizia que gostava dos gatos, porque os gatos tinham estilo. É isso. É necessário, com certa presteza, recuperar o estilo felino da delicadeza.

A delicadeza não é só uma categoria ética. Alguém deveria lançar um manifesto apregoando que a delicadeza é uma categoria estética.

Ah, quem nos dera a delicadeza pueril de algumas árias de Mozart. A delicadeza luminosa dos quadros dos pintores flamengos, de um Vermeer, por exemplo. A delicadeza repousante das garrafas nas naturezas mortas de Morandi. Na verdade, carecemos da delicadeza dos adágios.

Vivemos numa época em que nos filmes americanos os amantes se amam violentamente, e em vez de sussurrarem "I love you" arremetem um virótico "Fuck you".

Sei que alguém vai dizer que com delicadeza não se tira um MST - com sua foice e fúria - dos prédios ocupados. Mas quem poderá negar que o poder tem sido igualmente indelicado com os pobres deste país há 500 anos?

Penso nos grandes delicados da história. Deveriam começar a fazer filmes, encenar peças sobre os memoráveis delicados. Vejam o Marechal Rondon. Militar e, no entanto, como se fora um místico oriental, cunhou aquela expressão que pautou seu contato com os índios brasileiros: "Morrer se preciso for, matar nunca".

A historiadora Denise Bernuzzi de Sant'Anna anda fazendo entre nós o elogio da lentidão, denunciando a ferocidade da cultura da velocidade. É bom pensar nisso. Pela pressa de viver as pessoas estão esquecendo de viver. Estão todos apressadíssimos indo a lugar nenhum.

Curioso. A delicadeza tem a ver com a lentidão. A violência tem a ver com a velocidade. E outro dia topei com um livro, A descoberta da lentidão, no qual Sten Nadolny faz a biografia do navegador John Franklin, que vivia pesquisando o Pólo Norte. Era lento em aprender as coisas na escola, mas quando aprendia algo o fazia com mais profundidade que os demais.

Sei que vão dizer: "A burocracia, o trânsito, os salários, a polícia, as injustiças, a corrupção e o governo não nos deixam ser delicados."

- E eu não sei?

Mas de novo vos digo: sejamos delicados. E, se necessário for, cruelmente delicados.


Extraído do Livro Tempo de Delicadeza.


SANTA'ANNA, Affonso Romano de. Tempo de Delicadeza - Porto Alegre: L&PM, 2007.



terça-feira, agosto 26, 2008

As secas vidas de vidas secas

“(...) já nem sabemos o que é bom e o que é ruim, tão embotados vivemos”.

Graciliano Ramos (Angústia)

Graciliano Ramos é um dos mais importantes escritores de toda história da Literatura Brasileira e mundial, também. O escritor alagoano conseguiu pintar páginas de um impressionante realismo em seus livros. Trata-se de uma literatura funda, existencial, em que as paisagens interiores dos personagens se entrelaçam numa complexidade crescente. O homem interior, psicológico, é agudizado se tornando uma projeção daquilo que existe no exterior. O que importa para Graciliano não é o ambiente necessariamente a priori, mas o personagem com suas complexidades que constitui o centro da narrativa. Ou seja, o ambiente é um elemento necessário; mas, o personagem com sua densa carga de diálogos e complexidades interiores, é que constitui a vida romanesca.

A geração de 30 escreve romances seguindo a tradição dos naturalistas/realistas europeus e brasileiros do século XIX. Com isso significa dizer que o que é narrado é verossímil, é semelhante à verdade. Não há quebras de leis físicas ou biológicas, não há intervenção de forças divinas ou diabólicas. O romance de 30 fixa diretamente estruturas históricas perfeitamente identificáveis por suas características econômicas e sociais. Os romancistas de 30 têm uma postura crítica – que se bem interpretado, pode ser visto como uma atitude panfletária – em relação às características políticas, sociais e econômicas das estruturas históricas apresentadas. Vê-se ainda no romance de 30, algo que o distingue dos realistas e naturalistas do século XIX, que é a possibilidade. Ou seja, apesar da desordem e do caos instalado na sociedade (mundo) há um otimismo na transformação do homem, na passagem para um estado novo, de maior satisfação para a vida (DACANAL, 1986, p.13-15).

Graciliano Ramos constrói uma espécie de “realismo socialista”. Não há fantasias no escritor, apenas o real com as cores da tragédia da vida. A tragédia social está depositada nos ciclos da natureza. Os personagens são objetos da articulação malfadada da vida. São vítimas da articulação da vida, do modo deteriorado pelo qual os gestos humanos se cosem e descosem num tecido em que natura e cultura se confundem em fios de sol, aspereza, esterilidade, animalidade, azedume, seca, alheamento, carência... toda arte de Graciliano está em saber fundir o ideológico e o ecológico. Numa linguagem concisa, onde só se escreve o necessário e o suficiente (RODRIGUES, 1979, p. 214).

Essa característica pode ser constatada em Vidas Secas. O romance ou novela, como referem alguns, é a história da estada de retirantes de uma seca sem data numa fazenda abandonada e encravada em um lugar sem nome. A Família de retirantes – Fabiano, Sinha Vitória, o Menino mais velho, o Menino mais novo, a cadela Baleia – ficam todos no lugar até chegarem as primeiras chuvas. Nesse mesmo local, permanecem mais tempo com o consentimento do dono da terra que, trazendo seu gado de volta, permite que Fabiano seja seu vaqueiro. A confusa e traumática relação com a cidade, a exploração sofrida junto ao patrão, ao comerciante, ao soldado amarelo, ao fiscal da prefeitura, são esses os conflitos por que passa a gente narrada por Graciliano. No seu meio, o campo, o conflito é com o próprio meio, sempre os obrigando arribar. E é assim que termina essa saga sem fim nem começo, escrita entre 1937-38, na qual impera não somente a ação dolorosa do meio sobre o homem, e sim, a impotência do homem pobre, analfabeto, esmagado por uma forte tradição de relações, diante de outros homens ditos fortes, sabidos, poderosos (MENDES, 2004, p.11).

O romance Vidas Secas é escrito em terceira pessoa e enfoca os modos de ser e as condições de existência, segundo uma visão distanciada da realidade. Graciliano envolve a seca, o latifúndio, o drama dos retirantes, a caatinga, a cidade. Dentro dessa estrutura rigidamente construída, fica claro que os personagens não conseguem o que desejam. O que prevalece são “o que as circunstâncias impõem, gestos, intenções, desejos e esforços, [e no mais] tudo se torna inútil”(NICOLA, 1998, p.363).

Um dos protagonistas do romance é Fabiano. Fala-se em “um dos protagonistas”, pois o sertão é também um dos principais agentes da obra. Fabiano não possui sobrenome, do seu passado é ressaltado apenas o fato de se tratar de uma linhagem de vaqueiros servis, o que constitui uma certa hereditariedade da miséria. É analfabeto e traz consigo uma vontade repelida: não sabe falar direito e se relacionar com os outros homens, sobretudo com os da cidade. Vive com a família no isolamento de uma fazenda de gado esquecida, onde ensina aos filhos o seu ofício e teme a chegada de mais uma estiagem. Graciliano se utiliza do discurso indireto livre na obra. Os personagens pouco falam, pouco se expressam. Afirmam-se por meio de uma fala inexpressiva e gutural (“Às vezes utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e talvez perigosas”).

Fabiano é um tipo de homem em que é perceptível a ausência dos aspectos básicos do ser humano. Falta a ele um perfil fundamental da sua condição humana que é a dignidade. A consciência que ele tem de si mesmo é a mais atroz possível. Fabiano é um bicho, um animal que aprendeu a andar pelo mundo procurando uma sombra aonde se colocar (“parecia um macaco”). Ele não tem melhor sorte do que os demais seres. Afinal, ele é uma vítima das condições fulminantes, do aspecto agreste da paisagem sertaneja, que vitima tanto homens quanto bichos e os encerra à mesma condição – a luta pela vida.

Essa idéia faz dos personagens bichos (“Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à camarinha escura, pareciam ratos”). Fabiano assim como sua família se mostra alheada. Possuem características animalizadas. Aos animais não resta outra necessidade a não ser comer, beber, dormir e sobreviver. É uma espécie de luta primal que o meio impõe sobre os personagens. A natureza dita e sacramenta os desejos de Fabiano. Ele espera as estações, espera as chuvas, olha para o céu e sabe que os ciclos naturais ditam a sua sorte. O ressecamento interior do personagem, a ausência de dignidade, o alheamento, é uma derivação da paisagem exterior. Em suma, o que impera para Fabiano é apenas o desejo de sobreviver à semelhança dos animais. Estes constituíam os mais “civilizados” e corteses “colegas” de Fabiano (“Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais”).

O monólogo de Fabiano é mais interior do que exterior. Suas reflexões são densamente existenciais. O que está em jogo é o desejo de ser homem (“Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos, mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra”). O personagem busca uma posição idealizada, uma postura que o faça ser mais gente (“cabra”), mais homem. O personagem descobre-se na sua inanição, no seu estágio de bicho ignorante, ordinário, estúpido.
A rudeza da existência põe um pessimismo ácido e dilacerante nas percepções de Fabiano. “O pessimismo não é uma moral ou uma filosofia. É uma estado de alma” (CARPEAUX, 1998, p.235). Essa condição imprime no personagem uma forma peculiar de se apropriar do mundo. As condições reais do mundo instila em Fabiano um tipo de consciência crítica. Repete-se aqui a sentença de Marx de que as condições materiais do mundo constrói a consciência dos indivíduos.

Tal concepção mostra que a História não acaba se resolvendo na “consciência de si”, como “espírito do espírito”, mas que, em cada um das suas fases, encontra-se um resultado material, uma reunião de forças de produção, uma relação historicamente criada com a natureza e entre os indivíduos, que geração transmite à geração seguinte; uma massa de forças produtivas, de capitais e de condições que, embora sendo em parte modificada pela nova geração, prescreve a esta suas próprias condições de existência e lhe imprime um determinado desenvolvimento, um caráter particular (MARX;ENGELS, 2006, p.66).

Ou seja, percebe-se em Fabiano que as condições de sua existência, o monólogo travado consigo mesmo são um reflexo da tirania do espaço e do tempo. As suas concepções e percepções da realidade estão diretamente influenciadas por esta neblina do meio que obscurece a consciência que tem de si mesmo. A compreensão “ressecada” de si mesmo projetava-se de fora para dentro, mas a natureza e as condições reais da vida formaram a sua consciência.

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CARPEAUX, Otto Maria, in, RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro/São Paulo. Editora Record. 1998. 240p.

DACANAL, José Hildebrando Dacanal. O Romance de 30 – 2ª. Edição. Porto Alegre. Mercado Aberto. 1986. 67p.

RODRIGUES, Medina A. [et al.]. Antologia Brasileira: textos comentados – volume III. São Paulo. Marco Editorial. 1979. 372p.

MENDES, Francisco Fabiano de Freitas. Ponto de fuga: tempo, fome, fala e poder em Vidas Secas e São Bernardo. Dissertação apresentada como exigência parcial a obtenção do grau de mestre em História Social à Comissão Julgadora da Universidade Federal do Ceará, sob orientação da Professora Dra. Ivone Cordeiro Barbosa. Fortaleza, 2004. 204p.

MARX, Karl; ENGELS, Frederich. A Ideologia Alemã – Feuerbach, A Contraposição entre as Cosmovisões Materialista e Idealista. São Paulo. Martin Claret. 2006. 157p.

NICOLA, José de, Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias, Editora Scipione, São Paulo, 1998. 503p.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas – 29ª. Edição. São Paulo. Livraria Martins Editora. 1971. 175p.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, agosto 19, 2008

Notas avulsas.

Uma vaidade besta se apoderou de mim esta manhã.
Julguei-me sabido.
Adquiri uma consciência bem maior do que a dos outros dias?
Os outros dias já passaram.
O presente é grande porque já não temos o passado,
Que é apenas fato morto, diluído na memória.
À medida que os dias passam os fatos amarelecem.
Adquirem um poder morredouro.
Entram num definhamento.
Penso satisfeito nessa ilação.
É um artifício besta, com certeza.
Não havia claras disposições para isso.
Li alguns fragmentos de Vidas Secas, mais precisamente
O capítulo denominado “Baleia”.
Incrível o que Graciliano faz com o animal coberto
De escaras sanguinolentas.
Animal sabido.
Habitado por sentimentos cristãos.
Um animal obediente que encerrava em si sentimentos
Humanos, maiores do que os dos humanos propriamente
Ditos – Fabiano, Sinhá Vitória e os meninos.
Assustei-me com tamanha habilidade para narrar os
Sentimentos de um cachorro.
A sensibilidade áspera de Graciliano inseriu em meu interior
Uma matéria fofa, que avaliei como sendo de humanitarismo.
Tratava-se de uma vontade represada.
Não consegui divisá-la.
Todavia, sabia que ela estava aqui comigo.
Um esmorecimento tão grande quanto o de Baleia
Se apoderou de mim.
Sentimentos tão grandes quanto os de Baleia.
Teria eu me animalizado?
Ou pensando como Baleia eu seria realmente humano?Confundo-me nesta irresolução imprecisa que põe
Grandes e famigerados sentimentos em minha órbita interior.
O cheiro dos objetos abandonados estão distantes
De minha percepção mais elementar.
Ausento-me da paisagem distante da memória.
Enxergo coisas grandes.
Os preás dos meus desejos são corpos sem matéria.
Sinto vontade de morder os homens.
Não posso.
Fui ensinado a sentir como eles.
Mais que isso: a natureza me muniu de um aparato semelhante
Aos deles.
Minhas mãos estão abandonadas, imóveis.
O corpo magro esparrama-se no sofá e se torna
Um sinal de interrogação.
Muitas perguntas habitam o meu crânio nessas horas em que a
Pedaços de pensamentos esparsos se desprendem e voam
Imprecisos como nuvens agitadas pelo vento.
Penso na paisagem agreste do sertão.
Aquilo que Graciliano botou no papel era mais que uma
Caracterização geográfica.
Tratava-se com certeza de uma representação interior
Da alma dos homens.
O mundo era o mesmo tanto dentro quanto fora dos homens.
Paisagem geográfica e paisagem interior se confundiam
Na empresa literária do sr. Ramos.
Baleia possuía, apesar do esqueleto e do corpo canino,
Uma das paisagens humanas mais belas que já foram
Postas no papel da literatura.
Comovido penso que todos os homens deveriam se nutrir
Como Baleia de uma sensibilidade de tão grande beleza.
A vida se encheria de amizades.
Haveriam gestos de fidelidade escancarada.
De certezas firmes e brandas.
Tal faculdade também me é leviana.
Insisto nesta disposição.
A consciência sussurra outras vozes.
Alimento outras disposições
E me abandono num átimo de imperturbabilidade.
Escuto rumores estranhos.
Pareço ouvir meu coração.
Meus pensamentos cintilam num ocaso irresoluto.
A claridade do dia será substituída por cores surreais.
Um réquiem diferente se faz num momento de aura mística.
Toda a paisagem amarela, torna-se alaranjada, quase vermelha.
O dia briga com a noite neste ponto distante da existência.
Os raios vermelhos são os fios molestos da decadência.
Encosto a cabeça fatigada no vão do sofá.
Todo o meu interior é uma exclamação desencontrada.
Meu corpo quente denuncia a vida.
O sangue comburente corre como um rio de magmas substanciais.
Desejo dormir.
Acordar também num mundo cheio de realidades grandes.
De verdades com mãos enormes.
Onde a esperança não resseque.
Onde os sonhos se tornassem gordos, enormes.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sexta-feira, 30 de maio de 2008, 09:36:32.

sexta-feira, agosto 08, 2008

O fluxo da cosciência

O fluxo da consciência traz paisagens
Intrigantes à nossa mente.
Vemos-nos por espelho.
A visão às vezes não é nada otimista.
A vida parece não ter sentido.
Tudo depende de como olhamos para os
Fatos.
Os fatos são fatos.
São acontecimentos que sendo o que são,
Continuarão sendo o que sempre serão.
Impressiona essa coisa.
O que define novos rumos é como se olha
Para esses mesmos fatos.
Pensar e logo existir é uma capacidade
Unicamente humana.
A maneira como se olha para vida
Define a qualidade dos caminhos por
Onde se deve trilhar.
Posso enxergar o belo numa gota
De orvalho, no ato de latir de um cachorro.
Ao mesmo passo posso me sentir infeliz
E determinar a feiúra, mesmo estando no mais
Belo jardim, morando na melhor casa do mundo.
A vida é um ente.
Se ela vai ser bela, se ela vai ser linda,
Vai depender da relação que estabeleço
Com ela.
Como anda a minha consciência essa manhã?

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, agosto 05, 2008

Templo dos desejos

Era um lugar paradisíaco. Estaria eu a sonhar ou sob efeito de uma droga involuntariamente ingerida? Eu caminhava pausadamente naquele simulacro do Jardim do Éden. Ali não havia pecado e nenhum de seus efeitos: miséria, violência, fealdade, imundície ou medo. Tudo absolutamente clean: o brilho das luzes, a beleza dos objetos, o requinte high-tech dos equipamentos.

À minha volta, todos pareciam felizes, traziam aspecto saudável. Ninguém descalço, desdentado, estendido em calçadas ou com olhar precocemente ameaçador. Sentia-me inteiramente seguro naquela pirâmide dourada, cujos túneis me conduziam a nichos de esplendor.

À minha disposição, os mais suaves calçados para os pés, roupas de colorido vivo, agasalhos de lã ou couro, camisas e ternos bem cortados, computadores de última geração, máquinas digitais, celulares de multiuso. No piso superior, iguarias importadas e refinados manjares, de sanduíches pentagruélicos a panquecas adocicadas, sem que se aspirasse o menor odor de gordura ou existissem pedintes ou gatos e cães vadios a espreitar sobras. Todos os veneráveis objetos eram acolitados por belíssimas sacerdotisas, e a contemplação de tão sofisticados artefatos enlevava a alma.

Ao fundo, uma delicada música que não agredia os ouvidos e contribuía à paz de espírito. Não trânsito nem o cheiro asfixiante de gases emanados de motores. Desprovidos de ruídos, nas alamedas feericamente iluminadas os transeuntes caminhavam sem pressa, atentos às maravilhas circundantes. Podiam subir de um piso ao outro sem o menor esforço; bastava pousar os pés numa esteira que os içava ao topo sem desprenderem energia.

O ambiente impregnava-se de leve odor de perfume todos ali pareciam muito felizes, livres do assédio de crianças de rua, do espectro de maus encarados, da presença intimidadora de viaturas policiais. Viam-se expostos inúmeros talismãs capazes de nos imprimir valor e suscitar a inveja alheia. Bastava pagar por um deles e ver consagrada a felicidade de tornar-se portador daquelas preciosidades, como se o mago houvesse se desprendido da lâmpada de Aladim.

Fascinava-me a inventividade dos seres humanos. Não que os artefatos fossem incomuns; pelo contrário, eram instrumentos para a escrita e equipamentos esportivos, objetos de cutelaria e precisão óptica, uma infinidade de frascos contendo o poder de, abertos, exalar beleza e fascínio. A diferença residia no design arrojado, na estética atratativa, na satisfação de peças como um simples abridor de garrafas.

Estaria eu num conto de Borges? Estaria a sonhar ou seria eu o resultado de um sonho? Estar ali era como se todos os dias fossem domingo, momento de ócio e distração, seduzido por aquele espaço lúdico que me permitia evadir da realidade e acreditar pertencer ao seleto clube dos eleitos a penetrarem o nirvana.

Eu não queria acordar, resistia a ser expulso do Paraíso e, como Lúcifer, precipitar-me na infernal rotina do trabalho árduo, da vida medíocre, da paisagem incolor, da insegurança das ruas e da atmosfera poluída contaminada pelo medo. Queria permanecer ali para sempre, guardado no ventre acrílico daquela imensa catedral habitada por ídolos de minha devoção cultuados por desmedidas ambições.

Ali eu me sentia próximo ao céu, ao mundo dos que foram poupados do sofrimento, à esfera dos premiados pela fortuna. Estava redimido dessa pobre humanidade que nos priva do encanto, da magia, do universo onírico onde se volatilizam todas as dores e angústias. Ali se me acercavam o Olimpo e todos os bens capazes de realçar uma pessoa acima de seus semelhantes.

Contudo, chegou a hora de cerrar vitrines e baixar portas. Fui avisado pelo vigilante que dentro de cinco minutos o shopping seria fechado.


BETTO, Frei. Templo dos Desejos, Correio Braziliense, Brasília, 01 Ago. 2008. Opinião. p. 25.



quinta-feira, julho 31, 2008

Breve comentário ao livro O mestre da sensibilidade

1. CURY, Augusto, O mestre da sensibilidade, Ed. Academia de Inteligência, São Paulo, 2000, pp. 214.

Acabei de ler o livro O mestre da sensibilidade de Augusto Cury. De certa forma eu já havia estado em contato com a literatura do sr. Cury indiretamente. Sempre tive em mim a visão de que a sua literatura era incipiente e com fito mercadológico. Encaixa-se na classe dos sensacionalismos da indústria livresca do país. Trata-se de uma série de abordagens feitas em torno da figura de Jesus de Nazaré, segundo o autor, “ o homem mais atraente que já existiu”.
Acabei comprando esse livro no ano de 2002 numa livraria católica. Decidi comprar, talvez, inspirado pelas motivações religiosas que me absorvia na época. O volume foi ficando em minha estante até que chegou o momento de lê-lo. Confesso que inicialmente houve uma indisposição de minha parte. Por mais que em algumas partes o livro seja simplório e completamente vendido aos clichês religiosos, embora haja a explicação de que não vá defender nenhum credo religioso, a leitura é leve e sem maiores complicações. O autor trata de assuntos complexos e amplos com idéias curtas. Alguns assuntos ligados à Psicologia são esboçados com uma superficialidade atordoante. Fica aqui com certeza a impressão de que essa brevidade e laconicidade do autor, possua um interesse mercadológico. É uma espécie de literatura de auto-ajuda, um fast-food literário, tão em voga em nossos dias. Poderíamos afirmar que o sr. Cury é um campeão de bilheterias. Seus livros vendem, desculpem a expressão, como água. Não é que a literatura do sr. Agusto Cury seja boa. O fato é que o público sente uma necessidade de um tipo de literatura que preencha suas necessidades existenciais. Tudo isso de espraia num lastro complexo na pós-modernidade. É resultado do niilismo que acomete nossa civilização. Uma abordagem fraca a fim de alimentar necessidades profundas dos homens dos nossos dias.
Algumas metáforas são sofríveis. Não agradam pela artificialidade com que são acometidas. Poesia pobre atordoa todo aquele que possui um pouco de apuro ou sensibilidade poético-literária. Desculpem a arrogância. Mas finalizo aqui este comentário breve dizendo que a relevância que esse livro tenha me proporcionado reside no fato de que possui alguns apontamentos sobre a personalidade Jesus de Nazaré que revela um certo interesse por todo aquele que deseja crescer como ser humano.

“Sempre haverá argumentos para adiarmos o desenvolvimento da sensibilidade. Se há uma cortina de poluição que aborta nosso campo visual, há certamente um universo de detalhes que pulsa ao nosso redor: um diálogo aberto, o sorriso das crianças, uma viagem para dentro de si mesmo, uma revisão de paradigmas, a leitura de um livro. Precisamos gastar tempo com aquilo que não dá lucro para o bolso, mas para o interior. Jesus dizia que o tesouro do coração e estável, enquanto o material é transitório”. (p.200).

22/02/2007, thurday.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

sábado, julho 26, 2008

Antífona

Eu não tinha esse sorriso bobo.
Esses gestos tão raquíticos.
Essas mãos enfermas.
Os lábios já não sussurram palavra.
Os beiços gretados da alma espera
Por uma chuva vã.
Minhas pernas frias estão quietas, inertes.
O corpo nem aquece e nem é aquecido.
Eu não era dono desses olhos cansados.
Desses sentimentos que são mais dor,
Do que qualquer coisa.
Em meu interior não havia esse turbilhão
De vontades serenas e contidas,
O crepitar magnético da desordem dessa ordem.
Os anos passaram e trouxeram a alegria
Inexpressiva.
A certeza dos gestos sem força.
A incerteza que vomita sua pujança.
Já não sei dar por mim.
A minha face cansada e cadavérica descansa.
Está aguardando o próximo
Bonde na encruzilhada da vida.
Talvez ele não passe.
Eu já não sei o que fizeram de mim;
Eu já não sei o que fiz de mim.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, julho 22, 2008

Motivações

A desmotivação é um ácido fatal.
É uma espécie de gangrena.
Somos aturdidos por algumas pressões.
O mundo se apresenta com determinadas
Tendências, com uma direção.
Sociedade de valores materiais.
Valorização extremada de certas mercadorias,
De certo comportamento.
A expectativa para que se veja cumprido
Certos prazos:
Crescer, estudar, conquistar, viver medianamente
Não refletir e se adequar burguesamente às condições
De um modo de ser.
Os espíritos sensíveis gostam de valores frágeis.
Apreciam não a correria, mas a beleza in natura
Dos elementos universais.
A vida é mais do que uma correria em busca de realização.
Casar, ter carros, usufruir de mulheres, ter dinheiro.
Essa é uma preponderação esdrúxula.
O alvo mais absurdo contemplado como o mais significante.
Tudo se tornou um grande contra-senso.
Os valores frágeis se desmontam e se transformam
Em força sensível.
A latência da dor rói os emplastos da motivação.
A alegria envelhece.
O céu se enche de escaras.
O mundo segue na direção equivocada.
A vida a ser preenchida por um vazio sem causa.
A matéria com seu poder erótico a enfeitiçar
Os homens que amanhã não mais serão – assim como eu.

Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

terça-feira, julho 15, 2008

A problemática do humano

O Livro de Michel de Montaigne Ensaios é uma obra prima profunda, necessária. O filósofo francês discorre sobre as vicissitudes humanas. Nada escapa à ótica de Montaigne. Os Ensaios são uma coleção de reflexões sobre as panacéias e os costumes humanos – a moral humana, os vícios humanos, sobre as organizações humanas, sobre as vaidades, variabilidades e futilidades humanas. Trata-se de uma bíblia filosófica que deve ser lida com exagerada reflexão atenta. Nessa época onde se vende livros de auto-ajuda. O mercado que procura títulos sobre o self, acredito que todos deveriam se debruçar sobre o conteúdo extraordinário de os Ensaios.
Para Montaigne os homens são iguais em nesciandades. O que ocorre a um homem ocorre a outro. Todos estão subjugados às mesmas forças naturais. Tanto o rei como o servo defecam. A se julgar a priori, alguns diriam que isso não é um pensamento filosófico profundo. Todavia, nisso repousa a mais profunda cadência daquilo que é essencial no humano. Não há vantagens, apenas aparências, que em sentido estrito, não conservam nenhuma diferença para ninguém. Todos morrem inexoravelmente. No fundo todos são iguais e as diferenças meras ilusões. A quem diga que Montaigne é um ceticista, um indivíduo com um senso extremos do negativo. Quem o lê assim não percebeu a crítica fina, cortante, profunda aos desmazelos humanos; às contradições humanas. Dentro de seu Castelo, albergado na torre, em sua biblioteca, Montaigne pensava o mundo (o humano).
Há uma passagem nos Ensaios profundamente emblemática que serve como eixo de gravitação da obra: “Esses escritos não têm outra orientação senão revelar-me”. Revelar diz respeito a desvelar a si mesmo, mostrar a si mesmo. Ele diz ainda: “Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo”. É dessa problemática em torno do humano que o pensamento de Montaigne se assenta e se estrutura. E quão extraordinária e difícil tarefa é essa.
Um tema da obra do filósofo é justamente sobre as metamorfoses por que passam os homens. A inconstância humana, a variabilidade, é um assunto complexo. “A constância é a qualidade mais difícil de encontrar no homem”. É por sua vez, “a mais fácil é a inconstância” – diz ele. “Não vamos, somos levados e impelidos como objetos que flutuam, ora devagar ora com violência segundo o vento”. O argumento é de que essa é uma condição humana. Pois, “valente será efetivamente quem o for em todas as ocasiões”. Ou seja, o homem é um descontínuo constante. É não é ao mesmo tempo. Se alguém diz ser algo, deve sê-lo em todo tempo.
Ser sendo é algo que não condiz com o humano. Ao humano resta o devir. Conforme diz Cícero: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio sólido”. Não nascemos com uma previsibilidade que nos permita antever os desafios e perigos. Construímos as pontes necessárias à medida que as exigências dos abismos se mostram. “Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O archeiro precisa antes escolher o alvo, só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos necessários. Nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo predeterminado. O vento nunca é favorável a quem não tem um porto de chegada previsto”.
Para aqueles que se deparam com o dilema de ser muitos em um, Montaigne é sincero e solidário. Dirijo-me a mim e a todos os homens: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um só homem”. Não sou um, sou vários e por isso a inconstância, os atos impensados. As sentenças que borbulham dos meus lábios revelam os muitos eus que tenho em mim mesmo. Paulo na sua carta ao romanos via-se nessa angústia, nessa dança desencontrada, nessa ciranda amalucada: “De maneira que eu mesmo não compreendo o meu modo de agir, pois não faço aquilo que quero; mas, sim, aquilo que não quero, isso sim faço”.
Somos seres inacabados construindo diariamente a possibilidade de sermos humanos. Os desafios surgem a todo instante e eis que o dilema da construção se faz. A cada momento construo uma nova ponte e isso vai me fazendo pela vida afora. Sou nesse momento a versão mais nova de mim mesmo. E amanhã a mais nova em relação a hoje. E: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-me como um único homem, quando tenho muitos duelando dentro de mim”. Viva o gênio profundo e perspicaz do homem Michel de Montaigne.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Terça-feira, 15 de julho de 2008, 10:58:37.

sábado, julho 12, 2008

Da incoerência de nossas ações - Montaigne

Os que se dedicam à crítica das ações humanas jamais se sentem tão embaraçados como quando procuram agrupar e harmonizar sob uma mesma luz todos os atos dos homens, pois estes se contradizem comumente e a tal ponto que não parecem provir de um mesmo indivíduo. Mário, o Jovem, ora parece filho de Marte ora filho de Vênus. Dizem que o papa Bonifácio VII assumiu o papado como uma raposa, conduziu-se como um leão e morreu como um cão. E quem diria que Nero, essa verdadeira imagem da crueldade, como lhe apresentassem para ser assinada, de acordo com a lei, a sentença contra um criminoso, observou: – Prouvera a Deus que eu não soubesse escrever! – tanto lhe apertava o coração condenar um homem à morte. Há tantos exemplos semelhantes, e tão facilmente os encontrará sozinho quem quiser, que estranho ver por vezes gente de bom senso procurando juntar tais contradições, mesmo porque a irresolução me parece ser o vício mais comum e evidente de nossa natureza, como o atesta este verso de Públio, o satírico: “Má opinião, a de que não se pode mais mudar”.
É aparentemente possível julgar um homem pelos fatos mais comuns de sua vida; mas, dada a instabilidade natural de nossos costumes e opiniões, pareceu-me muitas vezes que os melhores autores erravam em se obstinar a dar de alguém uma idéia bem-assentada e lógica. Adotam um princípio geral e de acordo com este ordenam e interpretam as ações, tomando o partido de as dissimular quando não as deformam para que entrem dentro do molde preconcebido. O imperador Augusto escapou-lhes; deparamos nesse homem com tal flagrante diversidade de ações, tão inesperada e contínua no decurso de sua existência, que os mais ousados juízes, renunciando a julgá-lo em seu conjunto, tiveram de deixá-lo assim indefinido. Acredito que a constância seja a qualidade mais difícil de se encontrar no homem, e a mais fácil a inconstância. Quem os julgasse pormenorizadamente de acordo com seus atos, um por um, estaria mais apto a dizer a verdade a seu respeito.
Fora difícil encontrar em toda a Antigüidade uma dúzia de homens que tenham orientado sua vida em obediência a determinado princípio, o que é o fim principal da sabedoria – a qual, segundo um autor antigo [Sêneca], se resume em uma frase que enfeixa, em uma só, todas as regras da vida: “Querer e não querer são sempre a mesma e a única coisa”. E poderia acrescentar: à condição de que o que queremos ou não queremos seja justo, pois, se não o é, impossível se faz que permaneça constantemente a mesma coisa. Efetivamente, sei de há muito que o vício nada mais é senão desregramento e falta de medida; e, por conseguinte, não o podemos imaginar constante. Atribui-se a Demóstenes a seguinte máxima: a virtude, qualquer que seja, consiste de início em recolhimento e deliberação; a constância, a seguir, comprova-lhe a perfeição. Em refletindo seguimos sempre o melhor caminho, mas ninguém pensa antes de agir. “Desdenha o que pediu, volta ao que largou e, sempre hesitante, contradiz-se sem cessar” (Horácio).
Nossa maneira habitual de fazer está em seguir os nossos impulsos instintivos para a direita ou para a esquerda, para cima ou para baixo, segundo as circunstâncias. Só pensamos no que queremos no próprio instante em que o queremos, e mudamos de vontade como muda de cor o camaleão. O que nos propomos em dado momento, mudamos em seguida e voltamos atrás, e tudo não passa de oscilação e inconstância. “Somos conduzidos como títeres que o fio manobra” (Horácio).
Não vamos, somos levados como objetos que flutuam, ora devagar, ora com violência, segundo o vento: “Acaso não vemos todo mundo indeciso; uns procurando sem descontinuar, outros mudando de lugar, como para largar uma carga pesada demais?” (Lucrécio). Cada dia nova fantasia, e movem-se as nossas paixões de acordo com o tempo: “O pensamento dos homens assemelha-se na terra aos cambiantes raios de luz com que Júpiter a fecunda” (Cícero).
Hesitamos em tomar partido; nada decidimos livremente, de maneira absoluta, coerente. Se alguém traçasse e estabelecesse determinadas leis de conduta e regime político de vida, veríamos brilhar em seus atos e atitudes uma harmonia cabal e em seus costumes uma ordem e uma correlação evidentes. Empédocles observa a seguinte contradição entre os agrigentinos: alguns se entregam aos prazeres como se devessem morrer no dia seguinte e outros edificam como se a vida não tivesse de acabar jamais. O plano de vida fora, entretanto, fácil de se estabelecer, como se vê em Catão, o Jovem: quem nele toca uma tecla, toca todas, pois há nele uma harmonia de sons bem-afinados que nunca se entrechocam. Não seguimos, nós outros, tão sábio exemplo e cada uma de nossas ações decorre de um juízo específico. E, em minha opinião, seria melhor procurar-lhes as causas nas circunstâncias do momento sem mais aprofundada pesquisa e sem tirar delas quaisquer conseqüências.
Durante as desordens que agitaram nosso pobre país, disseram-me que uma jovem, bem perto do local onde eu me encontrava, se jogara pela janela a fim de escapar à brutalidade de um soldado que hospedava. Não teve morte instantânea e para se acabar tentou cortar o pescoço com uma faca, o que não a deixaram fazer. Nesse triste estado, confessou que o soldado nada mais fizera do que lhe declarar seu amor, solicitá-la e presenteá-la, mas ela temera que chegasse a violentá-la. Daí seus gritos, sua atitude, o sangue derramado, como se se tratasse de uma nova Lucrécia. Entretanto, eu soube que antes e depois dessa ocorrência sempre se mostrou muito menos arisca. Como dizem por aí, “por mais belo e decente que sejas, se não és aceito pela tua amada, não concluas, sem mais amplas informações, ser ela de uma castidade a toda prova; isso não impede que o arrieiro tenha a sua possibilidade”.
Antígono, que se afeiçoara a um de seus soldados por causa de sua valentia e coragem, mandou que o médico tratasse de uma doença que o atormentava havia muito. Observando, após a cura, que o homem se expunha muito menos nos combates, perguntou qual a razão dessa mudança que o tornara poltrão: “Vós mesmo, Sire, porquanto me libertastes dos males que faziam com que eu não apreciasse a vida”.
Um soldado de Luculo fora roubado pelo inimigo. Para se vingar executou contra ele um golpe de mão notável, amplamente compensador de seus prejuízos. Luculo, que ficara com excelente opinião dele, quis empregá-lo em uma arriscada expedição e, a fim de decidi-lo, usava todos os meios de persuasão, “com palavras capazes de entusiasmar os mais tímidos” (Horácio). Mas o soldado atalhou: “Mandai algum soldado miserável que tenha sido roubado”. E recusou peremptoriamente. Como diz Horácio: “Irá quem tiver perdido a bolsa”.
Maomé II admoestara violentamente Chasan, chefe de seus janízaros cuja tropa fora desfeita pelos húngaros, sendo que se conduzira ele próprio covardemente durante o combate. Como única resposta, Chasan, sozinho, sem precisar de ninguém, precipitou-se furioso, espada na mão, contra o primeiro pelotão inimigo que percebeu e desapareceu em poucos instantes como se fora por ele tragado. Nesse ato, parece que foi movido menos pelo desejo de se reabilitar do que em virtude de uma reviravolta em seus sentimentos: Não agia sob o impulso da coragem moral e sim por despeito. Quem ontem vistes tão temerário, não vos espanteis em vê-lo poltrão no dia seguinte. A cólera, a necessidade, a companhia ou o vinho, ou o som de uma trombeta, terão feito de suas tripas coração. Não foi o raciocínio que lhe deu coragem: foram as circunstâncias. Não nos espantemos, pois, de ver que mudou ao mudarem elas. Essa variação e essa contradição, tão comuns em nós, levaram muitas pessoas a pensar que possuímos duas almas, ou duas forças que atuam cada qual num sentido, uma no sentido do bem e outra no do mal. Uma só alma e uma só força não poderiam conciliar-se com tão repentinas variações de sentimentos.
Não somente o vento dos acontecimentos me agita conforme o rumo de onde vem, como eu mesmo me agito e perturbo em conseqüência da instabilidade da posição em que esteja. Quem se examina de perto raramente se vê duas vezes no mesmo estado. Dou à minha alma ora um aspecto, ora outro, segundo o lado para o qual me volto. Se falo de mim de diversas maneiras é porque me olho de diferentes modos. Todas as contradições em mim se deparam, no fundo como na forma. Envergonhado, insolente, casto, libidinoso, tagarela, taciturno, trabalhador, requintado, engenhoso, tolo, aborrecido, complacente, mentiroso, sincero, sábio, ignorante, liberal e avarento, e pródigo, assim me vejo de acordo com cada mudança que se opera em mim. E quem quer que se estude atentamente reconhecerá igualmente em si, e até em seu julgamento, essa mesma volubilidade, essa mesma discordância. Não posso aplicar a mim um juízo completo, sólido, sem confusão nem mistura, nem o exprimir com uma só palavra. “Distingo” é o termo mais encontradiço em meu raciocínio.
Embora acredite sempre que é preciso falar bem do que é justo e interpretar com simpatia o que a tal juízo se presta, nossa condição é tão singular que não raro o próprio vício nos impele a bem fazer (se o bem não se julgasse unicamente pela intenção que o determina). Daí não se dever tirar de um ato corajoso a conclusão de que um valente o praticou. Valente será efetivamente quem o for sempre, em todas as ocasiões. Se fosse um hábito e não um gesto imprevisto, a virtude faria que um homem mostrasse sempre igual resolução; seria o mesmo, só ou acompanhado, na justa como no campo de batalha. Suportaria esse homem, com igual atitude, uma enfermidade em seu leito e um ferimento na guerra; e não temeria mais a morte em seu lar do que em um assalto. Não o veríamos lançar-se através de uma brecha com insopitável bravura e em seguida chorar como uma mulher a perda de um processo ou de um filho; ser covarde diante da infâmia e resoluto na miséria, ter medo da navalha do barbeiro e desafiar a espada do adversário. Em tais casos, a ação é louvável, não o homem. Há gregos, diz Cícero, que tremem à vista do inimigo e se mostram tenazes quando enfermos, e tem-se o inverso nos cimbros e nos celtiberos: “Nada pode ser estável se não parte de um princípio sólido” (Cícero).
Não há maior valentia, no gênero, do que a de Alexandre, o Grande; e, no entanto, não se verifica em tudo. Por incomparável que seja, tem suas falhas, o que o faz perturbar-se a mais insignificante suspeita de conjuras e o leva a incrível e absurda crueldade na repressão e a temores em nada compatíveis com sua apreciação habitual das coisas. A superstição que lhe era peculiar participa também da pusilanimidade, e a exagerada penitência que se impõe a si mesmo após o assassínio de Clito prova igualmente a desigualdade de sua coragem. Somos um amontoado de peças juntadas inarmonicamente e queremos que nos honrem quando não o merecemos. A virtude vale por si mesma; se para outro fim tomamos a sua máscara, logo ela no-la arranca da cara. Quando nossa alma se impregna dela, forma ela uma espécie de verniz fortemente adesivo que só se tira com a própria pele. Eis por que para julgar um homem é preciso seguir suas pegadas, penetrar sua vida; e, se não deparamos com a constância alicerçando seus atos, “com um plano de vida bem ponderado e previsto” (Cícero), se sua marcha, ou antes, seu caminho (pois é lícito acelerar ou diminuir o passo) se modifica segundo as circunstâncias, abandonemo-lo. Como a ventoinha gira de acordo com o vento, assim reza a divisa de nosso Talbot.
Não é de espantar, diz um autor antigo, que o acaso tenha tanta força sobre nós, pois por causa dele é que existimos. Quem não orientou sua vida, de um modo geral, em determinado sentido, não pode tampouco dirigir suas ações. Não tendo tido nunca uma linha de conduta, não lhe será possível coordenar e ligar uns aos outros os atos de sua existência. De que serve fazer provisão de tintas se não se sabe que pintar? Ninguém determina do princípio ao fim o caminho que pretende seguir na vida; só nos decidimos por trechos, na medida em que vamos avançando. O arqueiro precisa antes escolher o alvo; só então prepara o arco e a flecha e executa os movimentos necessários; nossas resoluções se perdem porque não temos um objetivo determinado. O vento nunca é favorável a quem não tem um porto de chegada previsto. Não estou de acordo com o juízo que se fez, ao assistir a uma tragédia de Sófocles, declarando-o, contra a opinião de seu filho, capaz de administrar seus bens. Não acho tampouco muito mais lógico o que fizeram os párias enviados com missão de reformar o governo dos milésios. Depois de visitar a ilha, observando o cultivo cuidadoso da terra, a boa ordem das propriedades, e registrando os nomes dos proprietários, considerando que a atenção e a eficiência demonstradas na administração de seus negócios particulares eram uma garantia de que de igual modo iam gerir os negócios do Estado.
Somos todos constituídos de peças e pedaços juntados de maneira casual e diversa, e cada peça funciona independentemente das demais. Daí ser tão grande a diferença entre nós mesmos quanto entre nós e outrem: “Crede-me, não é coisa fácil conduzir-se como um só homem” (Sêneca). Se a ambição pode impelir o homem a ser valente, sóbrio, liberal e mesmo justo; se a avareza pode dar coragem a um caixeiro criado no ócio e na indolência e infundir-lhe bastante confiança para que se lance à aventura em frágil navio, à mercê de Netuno, e lhe ensina a discrição e a prudência; se a própria Vênus arma de resolução e audácia o jovem ainda sob a autoridade paterna, e faz com que se mostre impudica a virgem de coração terno ainda sob a égide de sua mãe – “Passando furtivamente entre os guardas que dormem, protegida por Vênus, vai a jovem sozinha, dentro da noite, juntar-se a seu amante” (Tibulo) –; se assim é, não deve um espírito refletido julgar-nos pelos nossos atos exteriores; cumpre-lhe sondar as nossas consciências e ver os móveis a que obedecemos. É uma tarefa elevada e difícil e desejaria por isso mesmo que menor número de pessoas se dedicasse a ela.

Autor: Michel de Montaigne
Tradução: Sérgio Milliet
Original: Ensaios; 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980, pp. 159-162

terça-feira, julho 08, 2008

Algumas palavras

A tolerância, a paciência, as virtudes.
Somos forçados a agir de certa forma.
Quando nascemos encontramos um mundo
Pronto: com seus valores, princípios éticos.
Temos que nos moldar irremediavelmente
Aos ditames da sociedade a que pertencemos.
Se a sociedade diz: “É necessário que a família
Seja nuclear”.
O indivíduo aceita essa imperatividade e certamente
Entende que o arranjo nuclear de família é o mais “correto”.
De certa forma, o ser humano com seus ideais julga o próprio
Comportamento como o mais acertado.
Temos por tendência defender os nossos princípios e
Pontos de vistas até que o outro seja “derrotado” – vencido.
Isso revela um estado cruel de beligerância.
Penso que devemos ponderar acerca daquilo que é cultural
E aquilo que é ideal.
É claro que entendo que o artifício que conduz esse texto
Está desbotado desde o princípio narrativo, mas
Não devo deixar de acrescentar
Que aprender a ouvir e falar deve ser um imperativo
De valor universal.
Essa postura não denunciaria nenhum tipo de beligerância,
Mas de sabedoria.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

quarta-feira, julho 02, 2008

Um fragmento nietzscheniano

Postei este fragmento do Ensaio de 1873 de Nietzsche - Verdade e Mentira no Sentido Extramoral - pois e julguei necessário difundir as questões relativas a construção dos sentidos da realidade imediata. As construção da "verdade" é uma metáfora humana, demasiado humana. Nietzsche busca neste texto "explorar o lado gnosiológico, de origem e fundamentação do conhecimento. O conhecimento é uma ilusão, a única relação do homem com o mundo possível é a estética. O conhecimento típico do homem, que assimila o mundo à sua perspectiva. Existem os instrumentos do conhecimento (categorias e linguagem) e seu produto, o mundo percebido. Uma das perspectivas que aprecem em Nietzsche é noção de que o instinto da conservação da espécie é a responsável por muitos atos. O conhecimento é útil à preservação da vida, e é também o objetivo de todos os líderes religiosos. O conhecimento não é transcendente, o homem é criador de seus valores. O homem interpreta e dá um sentido humano às coisas, o resultado é o mundo articulado. O conhecimento foi inventado em um minuto, em relação aos cosmos, pelo homem. Foi um minuto mentiroso. A verdade é procurada para ser válida e comum e a linguagem dá as primeiras leis da verdade. A verdade e a mentira seriam relativas, válidas para o ponto de vista humano. No processo de antropomorfização do mundo, o reduzimos e generalizamos. Por exemplo, ao estereotiparmos folha, ignoramos qual folha é verdadeira e válida. Não existe na natureza a folha, elas são bilhões. Nietzsche observa os humanos de longe, e não o considera um ser privilegiado. Um dos pontos principais de sua obra é a crítica aos valores judaico-cristãos. O homem não é divino. Necessita sobreviver e dominar, na história estão presentes a vontade de poder, de dominar. O destino de um homem não é tanto assim, afinal, o sistema solar é apenas um ponto. O homem se apega à mentira do conhecimento como se sua filosofia ou ciência explicasse realmente o mistério cósmico. São invenções o conhecimento, a moral e a metafísica. No século XVIII caíram as teorias de origem divina do homem. Mas existe o idealismo metafísico, o homem é divino, a Terra é escolhida. Para Nietzsche, o homem está sem Deus, sem causa transcendente. O conhecimento é ativo e submisso à vida. O mundo que tem valor é o que criamos ao perceber. Nossas verdades são ilusão". Boa leitura

Capítulo 1.

No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberboe mais mentiroso da .história universal., mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer. Esta é a fábula que se poderia inventar, sem com isso chegar a iluminar suficientemente o aspecto lamentável, frágil e fugidio, o aspecto vão e arbitrário dessa exceção que constitui o intelecto humano no seio da natureza. Eternidades passaram sem que ele existisse; e se ele desaparecesse novamente, nada se teria passado; pois não há para tal intelecto uma missão que ultrapasse o quadro de uma vida humana. Ao contrário, ele é humano e somente seu possuidor e criador o trata com tanta paixão, como se ele fosse o eixo em torno do qual girasse o mundo. Se pudéssemos entender a mosca, perceberíamos que ela navega no ar animada por essa mesma paixão e sentindo em si que voar é o centro do mundo. Nada há de tão desprezível e de tão insignificante na natureza que não transborde como um odre ao menor sopro dessa força do conhecer, e assim como todo carregador quer também ter o seu admirador, o homem mais arrogante, o filósofo, imagina ter também os olhos do universo focalizados, como um telescópio, sobre suas obras e seus pensamentos. É admirável que o intelecto seja responsável por esta situação, ele a quem todavia não foi dado senão servir precisamente como auxiliar dos seres mais desfavorecidos, mas vulneráveis e mais efêmeros, a fim de mantê-los na vida pelo espaço de um minuto . existência da qual eles teriam todo o direito de fugir, tão rapidamente como o filho de Lessing6 , não fosse esta ajuda recebida. Este orgulho ligado ao conhecimento e à percepção, névoa que cega o olhar e os sentidos do homem, engana-os sobre o valor da existência, exatamente quando vem acompanhada da avaliação mais lisonjeira possível com relação ao conhecimento. O seu efeito mais comum é a ilusão; mas seus efeitos mais particulares implicam
também qualquer coisa da mesma ordem. O intelecto, enquanto meio de conservação do indivíduo, desenvolve o essencial de suas forças na dissimulação, pois esta é o meio de conserva
ção dos indivíduos mais fracos e menos robustos, na medida em que lhe é impossível enfrentar uma luta pela existência munidos de chifres ou das poderosas mandíbulas dos animais carnívoros. É no homem que esta arte da dissimulação atinge o seu ponto culminante: a ilusão, a lisonja, a mentira e o engano, a calúnia, a ostentação, o fato de desviar a vida por um brilho emprestado e de usar máscaras, o véu da convenção, o fato de brincar de comediante diante dos outros e de si mesmo, em suma, o gracejo perpétuo que em todo lugar goza unicamente com o amor da vaidade, são nele a tal ponto a regra e a lei, que quase nada é mais inconcebível do que o aparecimento, nos homens, de um instinto de verdade honesto e puro. Eles estão profundamente mergulhados nas ilusões e nos sonhos, seu olhar somente desliza sobre a superfície das coisas e vê apenas as .formas., sua percepção não leva de maneira nenhuma à verdade, mas se limita a receber as excitações e a andar como que às cegas no dorso das coisas. Além disso, durante a vida toda, o homem se deixa enganar à noite pelos sonhos, sem que jamais o seu sentido moral procure impedi-lo disso, embora deva haver homens que, por força da vontade, tiveram sucesso
em se livrar do ronco. Mas o que sabe o homem, na verdade, de si mesmo? E ainda, seria ele sequer capaz de se perceber a si próprio, totalmente de boa-fé, como se estivesse exposto numa vitrine iluminada? A natureza não lhe dissimula a maior parte das coisas, mesmo no que concerne a seu próprio corpo, a fim de mantê-lo prisioneiro de uma consciência soberba e enganadora, afastado das tortuosidades dos intestinos, afastado do curso precipitado do sangue nas veias e do complexo jogo de vibrações das fibras? Ela atirou fora a chave; e infeliz da curiosidade fatal que chegar um dia a entrever por uma fresta o que há fora desta cela que é a consciência e aquilo sobre o que ela está assentada, e descobrir então que o homem repousa, a despeito da sua ignorância, sobre um fundo impiedoso, ávido, insaciável e mortífero, agarrado a seus sonhos assim como ao dorso de um tigre. Nessas condições, haveria no mundo um lugar de onde pudesse surgir o instinto de verdade? No estado de natureza, na medida em que o indivíduo quer conservarse diante dos outros indivíduos, ele não utiliza sua inteligência o mais das vezes senão com fins de dissimulação. Mas, na medida em que o homem, ao mesmo tempo por necessidade e por tédio, quer viver em sociedade e no rebanho, necessário lhe é concluir a paz e, de acordo com este tratado, fazer de modo tal que pelo menos o aspecto mais brutal do bellum omnium contra omnes7 desapareça do seu mundo. Ora, este tratado de paz fornece algo como um primeiro passo em vista de tal enigmático instinto de verdade. De fato, aquilo que daqui em diante deve ser a .verdade. é então fixado, quer dizer, é descoberta uma designação uniformemente válida e obrigatória das coisas, e a legislação da linguagem vai agora fornecer também as primeiras leis da verdade, pois, nesta ocasião e pela primeira vez, parece uma oposição entre verdade e mentira. O mentiroso utiliza as designações pertinentes, as palavras, para fazer parecer real o que é irreal; ele diz por exemplo: .eu sou rico., ainda que, para qualificar sua condição, fosse justamente a palavra .pobre. a designação mais correta. Ele mede as convenções estabelecidas, operando substituições arbitrárias ou mesmo invertendo os nomes. Se age assim de maneira interessada e demasiadamente prejudicial, a sociedade não lhe dará mais crédito e, por causa disso, o excluirá. Nesse caso, os homens fogem menos da mentira do que do prejuízo provocado por uma mentira. Fundamentalmente, não detestam tanto as ilusões, mas as conseqüências deploráveis e nefastas de certos tipos de ilusão. É apenas nesse sentido restrito que o homem quer a verdade. Deseja os resultados favoráveis da verdade, aqueles que conservam a vida; mas é indiferente diante do conhecimento puro e sem conseqüência, e é mesmo hostil para com as verdades que podem ser prejudiciais e destrutivas. Mas, por outro lado, o que são as convenções da linguagem? São produtos eventuais do conhecimento e do sentido da verdade? Coincidem as coisas e suas designações? É a linguagem a expressão adequada de toda e qualquer realidade? Somente graças à sua capacidade de esquecimento é que o homem pode chegar a imaginar que possui uma verdade no grau que nós queremos justamente indicar. Se ele recusa contentar-se com uma verdade na forma de tautologia, quer dizer, como cascas vazias, ele tomará eternamente ilusões por verdades. O que é uma palavra? A transposição sonora de uma excitação nervosa. Mas, concluir a partir de uma excitação nervosa uma causa primeira exterior a nós, isso é já até onde chega uma aplicação falsa e injustificável do princípio da razão. Se a verdade tivesse sido o único fator determinante na gênese da linguagem e se o ponto de vista da certeza o fosse quanto às designações, como teríamos então o direito de dizer, por exemplo, que .esta pedra é dura., como se conhecêssemos o sentido de .duro. de outro modo que não fosse apenas uma excitação totalmente subjetiva? Classificamos as coisas segundo os gêneros, designamos l.arbre como masculino e a planta como feminino: que transposições arbitrárias! A que ponto estamos afastados do cânone da certeza! Falamos de uma serpente: a designação alcança somente o fato de se contorcer, o que poderia convir igualmente ao verme. Que delimitações arbitrárias, que parcialidade é preferir ora uma ora outra propriedade de uma coisa! As diferentes línguas, quando comparadas, mostram que as palavras nunca alcançam a verdade, nem uma expressão adequada; se fosse assim, não haveria efetivamente um número tão grande de línguas. A .coisa em si. [como sendo precisamente a verdade pura e sem conseqüência], enquanto objeto para aquele que cria uma linguagem, permanece totalmente incompreensível e absolutamente indigna de seus esforços. Esta designa somente as relações entre os homens e as coisas e para exprimi-las ela pede o auxílio das metáforas mais audaciosas. Transpor uma excitação nervosa numa imagem! Primeira metáfora. A imagem por sua vez é transformada num som! Segunda metáfora. A cada vez, um salto completo de uma esfera para outra completamente diferente e nova. Imaginemos um homem que seja totalmente surdo e que jamais tenha percebido o som e a música: da mesma maneira que ele sem dúvida se espanta com as figuras acústicas de Chladni8 feitas de areia e descobre sua causa na vibração das cordas, jurará então por esta descoberta que não poderá ignorar daí por diante o que os homens chamam de som, assim como ocorre com todos nós no que concerne à linguagem. Acreditamos possuir algum saber sobre as coisas propriamente, quando falamos de árvores, cores, neve e flores, mas não temos entretanto aí mais do que metáforas das coisas, as quais não correspondem absolutamente às entidades originais. Assim como o som enquanto figura de areia, também o x enigmático da coisa em si é primeiramente captada como excitação nervosa, depois como imagem, afinal como som articulado. A gênese da linguagem não segue em todos os casos uma via lógica, e o conjunto de materiais que é por conseguinte aquilo sobre o que e com a ajuda de quem o homem da verdade, o pesquisador, o filósofo, trabalha e constrói, se não provém de Sírius9 , jamais provém em todo caso da essência das coisas. Pensemos ainda uma vez, particularmente, na formação dos conceitos: toda palavra se torna imediatamente conceito, não na medida em que
ela tem necessariamente de dar de algum modo a idéia da experiência original única e absolutamente singular a que deve o seu surgimento, mas quando lhe é necessário aplicar-se simultaneamente a um sem-número de casos mais ou menos semelhantes, ou seja, a casos que jamais são idênticos estritamente falando, portanto a casos totalmente diferentes. Todo conceito surge da postulação da identidade do não-idêntico. Assim como é evidente que uma folha não é nunca completamente idêntica à outra, é também bastante evidente que o conceito de folha foi formado a partir do abandono arbitrário destas características particulares e do esquecimento
daquilo que diferencia um objeto de outro. O conceito faz nascer a idéia de que haveria na natureza, independentemente das folhas particulares, algo como a .folha., algo como uma forma primordial, segundo a qual todas as folhas teriam sido tecidas, desenhadas, cortadas, coloridas,
pregueadas, pintadas, mas por mãos tão inábeis que nenhum exemplar teria saído tão adequado ou fiel, de modo a ser uma cópia em conformidade com o original. Dizemos de um homem que ele é honesto; perguntamos a nós mesmos porque ele agiu hoje tão honestamente. Respondemos geralmente que foi por causa da sua honestidade. Honestidade! Isto significa novamente dizer que a folha é a causa das folhas. Não sabemos mesmo absolutamente nada de uma qualidade essencial chamada honestidade, no entanto conhecemos inumeráveis ações individualizadas e por
conseguinte dessemelhantes, mas que postulamos como idênticas ao deixarmos de lado o que as torna diferentes; assim, designamos as ações honestas a partir das quais afinal formulamos uma qualitas occulta10 com o termo: a honestidade. A omissão do particular e do real nos dá o conceito, assim como nos dá a forma, contrariamente ao que revela a natureza, que não conhece formas ou conceitos e portanto nenhum gênero, mas somente um x para nós inacess ível e indefinível. Pois a oposição que introduzimos entre o indivíduo e a espécie é também antropomórfica e não provém da essência das coisas, mesmo quando ousamos dizer que esta oposição não corresponde à essência das coisas; pois isto seria de fato uma afirmação dogmática e, enquanto tal, tão indemonstrável quanto a afirmação contrária. O que é portanto a verdade? Uma multidão móvel de metáforas, metonímias e antropomorfismos; em resumo, uma soma de relações humanas que foram realçadas, transpostas e ornamentadas pela poesia e pela retórica e que, depois de um longo uso, pareceram estáveis, canônicas e obrigatórias aos olhos de um povo: as verdades são ilusões das quais se esqueceu que são, metáforas gastas que perderam a sua força sensível, moeda que perdeu sua efígie e que não é considerada mais como tal, mas apenas como metal. Não sabemos ainda todavia de onde provém o instinto de verdade, pois até agora só temos falado do constrangimento que a sociedade impõe como condição da existência: é necessário ser verídico, quer dizer, empregar metáforas usuais; portanto, nos termos da moral, só temos falado da obrigação de mentir segundo uma convenção estabelecida, mentir como rebanho e num estilo obrigatório para todos. Na verdade, o homem esquece que é assim que se passam as coisas. Ele mente portanto inconscientemente, tal como indicamos, conformando-se a costumes seculares... e é mesmo por intermédio dessa inconsciência, desse esquecimento, que
ele chega ao sentimento da verdade. Ao experimentar o sentimento de estar obrigado a designar uma coisa como vermelha, outra como fria, uma terceira como muda, ele é seduzido por um impulso moral que o orienta para a verdade e, em oposição ao mentiroso a que ninguém dá crédito e que todos excluem, o homem é persuadido da dignidade, da confiança e da utilidade da verdade. Enquanto ser racional, deve agora submeter seu comportamento ao poder das abstrações; não suporta mais ser levado pelas impressões súbitas e pelas intuições, mas generaliza em primeiro lugar todas as impressões em conceitos mais frios e mais exangües, a fim de atrelar neles a condução da sua vida e do seu agir. Tudo o que eleva o homem acima do animal depende dessa capacidade de fazer desaparecer as metáforas intuitivas num esquema ou, em outras palavras, dissolver uma imagem num conceito. Sob o domínio desses esquemas, é possível ser bem sucedido em relação àquilo que jamais se alcançaria submetido às primeiras impressões intuitivas: edificar uma pirâmide lógica ordenada segundo divisões e graus, instaurar um novo mundo de leis, privilégios, subordinações e delimitações, que se opõe desde logo ao ou tro mundo, o mundo intuitivo das primeiras impressões, como sendo aquele melhor estabelecido, mais geral, melhor conhecido, mais humano e, por esta razão, como uma instância reguladora e imperativa. Enquanto toda metáfora da intuição é particular e sem igual, escapando sempre portanto à qualquer classificação, o grande edifício dos conceitos apresenta a estrita regularidade de um columbário romano, edifício de onde emana aquele rigor e frieza da lógica que são próprios das matemáticas. Aquele que estivesse impregnado desta frieza hesitaria em crer que mesmo o conceito duro como o osso e cúbico como um dado e como ele intercambiável . acabasse por ser somente o resíduo de uma metáfora e que a ilusão própria a uma transposição estética de uma excitação nervosa em imagens, se não era a mãe, era entretanto a avó de tal conceito. Mas nesse jogo de dados dos conceitos, chama-se .verdade. o fato de se utilizar cada dado segundo a sua designação, de computar exatamente seus pontos, de formular rubricas corretas e de jamais pecar contra o ordenamento das divisões ou contra a série ordenada das classificações. Assim como os romanos e os etruscos dividiram o céu segundo linhas matemáticas estritas e destinaram este espaço assim delimitado para templum de um deus, assim também todo povo possui um céu conceitual semelhante a que está adstrito; a exigência da verdade significa então para ele que todo conceito, a exemplo de um deus, somente deve ser procurado na sua própria esfera. Bem poderíamos, a respeito disso, admirar o homem pelo fato de ser ele um poderoso gênio da arquitetura: ele conseguiu erigir uma catedral conceitual infinitamente complicada sobre fundações movediças, de qualquer maneira sobre água corrente. Na verdade, para encontrar um ponto de apoio em tais fundações, precisa-se de uma construção semelhante às teias de aranha, tão fina que possa seguir a corrente da onda que a empurra, tão resistente que não se deixe despedaçar à mercê dos ventos. Enquanto gênio da arquitetura, o homem supera em muito a abelha: esta constrói com a cera que recolhe da natureza, o homem o faz com a matéria bem mais frágil dos conceitos que é obrigado a fabricar com seus próprios meios. Nisso, o homem é bem digno de ser admirado . mas não por seu instinto de verdade ou pelo conhecimento puro das coisas. Se alguém esconde algo atrás de uma moita e depois a procura exatamente nesse lugar acabando por encontrá-la aí, não há nenhum motivo para a glorifica ção dessa procura e dessa descoberta. Mas é todavia isso o que ocorre com a procura e a descoberta da .verdade. no domínio que concerne à razão. Quando dou a definição de mamífero e quando, depois de ter examinado um camelo, declaro: eis aqui um mamífero, isto é certamente uma verdade que vem à luz, mas o seu valor é limitado; quero dizer com isso que ela é em tudo uma definição antropomórfica e que não contém qualquer coisa que seja .verdade em si., real e universal, independentemente do homem. Aquele que se põe à busca de tais verdades, no fundo procura somente a metamorfose do mundo no homem; luta para alcançar uma compreensão do mundo enquanto coisa humana e conquista no melhor dos casos o sentimento de uma assimilação. Semelhante a um astrólogo, aos olhos de quem as estrelas estão a serviço dos homens e relacionadas com sua felicidade ou infelicidade, um tal pesquisador considera o mundo inteiro como estando ligado aos homens, como o eco sempre deformado de uma voz primordial do homem, como a cópia multiplicada e diversificada de uma imagem primordial do homem. Seu método consiste no seguinte: considerar o homem como medida de todas as coisas; por ém, assim fazendo, parte do erro que consiste em acreditar que as coisas lhe seriam dadas imediatamente enquanto puros objetos. Ele esquece portanto que as metáforas originais da intuição são já metáforas, e as toma pelas coisas mesmas. Foi somente o esquecimento desse mundo primitivo das metáforas, foi apenas a cristalização e a esclerose de um mar de imagens que surgiu originariamente como uma torrente escaldante da capacidade original da imaginação humana, foi unicamente a crença invencível em que este sol, esta janela, esta mesa são verdades em si, em suma, foi exclusivamente pelo fato de que o homem esqueceu que ele próprio é um sujeito e certamente um sujeito atuante criador e artista, foi isto que lhe permitiu viver beneficiado com alguma paz, com alguma segurança e com alguma lógica. Se ele pudesse por um instante transpor os muros desta crença que o aprisiona, adquiriria imediatamente a .consciência de si.. Já lhe custa
bastante reconhecer até que ponto o inseto ou o pássaro percebem o mundo de uma maneira totalmente diferente do homem, e confessar que a questão de saber qual das duas percepções é a mais justa é completamente absurda, já que para respondê-la precisaria em primeiro lugar que se as medisse segundo o critério da percepção justa, quer dizer, segundo um critério do qual não se dispõe. Mas me parece sobretudo que a percepção justa . que significaria a expressão adequada de um objeto num sujeito . é um absurdo pleno de contradições: pois, entre duas esferas absolutamente distintas como são o sujeito e o objeto, não há qualquer laço de causalidade, qualquer exatidão, qualquer expressão possíveis, mas, antes de mais nada, uma relação estética, quer dizer, no sentido que dou, uma transposição aproximativa, uma tradução balbuciante numa língua totalmente estranha. Contudo, isto exigiria em todo caso uma esfera intermediária e uma força auxiliar onde a criação e a descoberta pudessem operar livremente. A palavra fenômeno esconde muitas seduções; eis porque eu evito empregá-la o mais que posso, pois não é verdade que a essência das coisas se manifeste no mundo empírico. Um pintor que fosse maneta e quisesse exprimir pelo canto o quadro que ele projeta pintar dirá sempre mais, passando de uma esfera a outra, do que revela o mundo empírico sobre a essência das coisas. A própria relação entre uma excitação nervosa e a imagem produzida não é em si nada de necessário; mas se precisamente esta mesma imagem for reproduzida milhões de vezes e se inúmeras gerações de homens deixam-na de herança, enfim, sobretudo se ela aparece ao conjunto da humanidade sempre nas mesmas circunstâncias, ela acaba por adquirir, para o homem, a mesma significação como se ela fosse a única imagem necessária e como se esta relação entre a excitação nervosa de origem e a imagem produzida fosse uma relação de estrita causalidade. Assim também, um sonho eternamente repetido seria experimentado e julgado como absolutamente real. Mas a cristalização e a esclerose de uma metáfora não daria nenhuma garantia quanto à necessidade e à legitimidade exclusiva desta metáfora. Todo homem familiarizado com tais considerações experimentou evidentemente uma desconfiança profunda a respeito de todo idealismo desse tipo, a cada vez que se mostrou claramente persuadido pela lógica, pela universalidade e pela infalibilidade eternas das leis da natureza, e disso tirou a seguinte conclusão: aí tudo é certo, elaborado, infinito, regrado, desprovido de falha até onde pode levar o nosso olhar . graças ao telescópio apontado para as alturas do mundo e graças ao microscópio dirigido para as suas profundezas. A ciência terá sempre material para explorar com êxito este poço e tudo quanto ela puder encontrar concordará sem se contradizer. Quão pouco se assemelha isto a um produto da imaginação, pois, se assim o fosse, seria todavia necessário que algo da ilusão e da irrealidade que lhe são próprias se revelasse. Ao contrário, é preciso dizer primeiramente o seguinte: se tivéssemos em cada parte nossa uma percepção sensível de natureza diferente, poderíamos perceber ora como um pássaro, ora como um verme de terra, ora como uma planta; ou, se um de nós percebesse uma excitação visual como vermelha, se outro a percebesse como azul ou se, para um terceiro, fosse uma excitação auditiva, ninguém diria que a natureza é regida por leis, mas contrariamente a conceber íamos somente como uma construção altamente subjetiva. Assim: o que é então para nós uma lei da natureza? Ela não nos é conhecida em si, mas apenas nos seus efeitos, ou seja, nas suas relações com outras leis da natureza que, por sua vez, somente são conhecidas enquanto relações. Portanto todas as relações nada fazem senão remeter-se umas às outras e nos são absolutamente incompreensíveis quanto à sua essência. Unicamente o que aí colocamos, o tempo e o espaço, quer dizer, as relações de sucessão e os números, nos é realmente conhecido. Mas tudo o que precisamente nos surpreende nas leis da natureza, que reclama nossa análise e que poderia nos levar à desconfiança do idealismo, reside de fato e unicamente no rigor matemático, unicamente na inviolabilidade das representa ções do tempo e do espaço, e não em outro lugar. Ora, produzimo-las em nós e projetamo-las fora de nós segundo a mesma necessidade que leva a abelha a tecer sua teia. Se somos obrigados a conceber todas as coisas apenas sob tais formas, então não há nada de admirável em captar sob estas mesmas formas o que verdadeiramente procuramos nas coisas. De fato, todas elas necessariamente se referem às leis do número, e o número é justamente o que há de mais surpreendente nas coisas. Toda presença das leis que se nos impõe sobre o curso dos astros e sobre os processos químicos coincide no fundo com aquelas propriedades que acrescentamos às coisas para assim darmo-nos respeito a nós mesmos. Disso resulta, sem dúvida nenhuma, que esta criação artística de metáforas que marca em nós a origem de toda percepção pressupõe já aquelas formas nas quais, por via de conseqüência, ela se efetua. É apenas a persistência invariável dessas formas originais que explica a possibilidade que permite assim construir um edifício conceitual apoiado novamente sobre as próprias metáforas. Este edifício é com efeito uma réplica das relações de tempo, espaço e número, reconstruído sobre a base das metáforas.


Friedrich Nietzsche. Disponível em http://portal.filosofia.pro.br/fotos/File/verdade.pdf