segunda-feira, março 29, 2010

Renato Russo, trovador de uma legião

No último sábado, dia 27 de março, foram comemorados os 50 anos do nascimento de Renato Manfredini Júnior, mais conhecido como Renato Russo. Não gostaria de externar aqui apenas informações ou descrições de cunho generalizante – como tantos fizeram nessa data. Antes de tudo, é necessário afirmar que Renato Russo foi alguém que nutriu as esperanças juvenis de uma geração sonhadora. Durante grande parte de minha adolescência, eu me vi cercado pelas suas letras, que revelavam os melhores dos mundos – poesia de sonhos, amores juvenis, revolta contra a ingerência dos pais, de paixão e respeito ao próximo.
Renato embalou o sonho dos adolescentes e de uma geração de indivíduos conscienciosos de todas as idades. O que me atraía em Renato Russo era sua sensibilidade, sua inteligência. Tal capacidade fora construída por muitas leituras e pela relação apaixonada que nutria pelo o rock inglês (de bandas como Beatles, Sex Pistols, Rolling Stones, Joy Division, The Clash) ou pelo rock folk americano (Neil Young e Bob Dylan). Havia em Renato uma veio apuradíssimo de criticidade, resultado de suas leituras, que muitas vezes ficavam explícitas em suas letras. Música como “Tempo Perdido”, talvez uma referência clara ao livro do escritor alemão Thomas Mann “Em Busca do Tempo Perdido”; ou ainda o nome do álbum “A Tempestade”, quiça aqui, um apontamento para “A Tempestade” de William Shaskepeare; ou ainda, o nome do álbum “As Quatro Estações”, surja como uma referência indireta à famosa peça do compositor italiano Antonio Vivaldi.
Renato era um burguês culto. Apregoava que fazia parte de uma geração onde o que prevalecia era a condição da burguesia moralista sem religião. Que os signos da nova ideologia eram o desmantelamento do bom senso. Éramos filhos de uma geração Coca-Cola. E que fomos programados desde o nascimento para repetirmos fórmulas mecânicas. Uma geração que era alimentada pelo lixo industrial e comercial. Comedores de enlatados produzidos por fast-foods. E que passados 20 anos na escola não era difícil de aprender tais artimanhas. O resultado dessa digestão seria o vômito anárquico e cínico. Leis não obedecidas, alegorias picarescas, referências esdrúxulas. Tudo isso seria posto em cena por uma legião que querendo ou não é “o futuro da nação”. Ou em outras palavras, qual seria o futuro da nação, quando os construtores dessa possibilidade mataram os referencias e se alimentam pelo lixo industrial do capitalismo, quando são apenas uma “geração coca-cola”? É uma letra de gênio, de um poeta fino que faz política com arte. Outras letras como das músicas “Fábrica”, “Perfeição” ou “A Canção do senhor da Guerra”, também possuem traços de grande contundência política e social.
Uma vez ou outra volto às suas músicas, assim como a legião de fãs que ainda continua manter viva a memória de sua capacidade. Ouvi-lo é gestar em nós a possibilidade de sonhar com melhores dias. É voltar a ser adolescente e nutrir aqueles idealismos que preservam e sustentam o fato de acordarmos todas as manhãs e termos esperança. Renato Russo foi o trovador de uma geração que queria/quer se encontrar, mas não sabe onde estava/está. “E há tempos/ Nem os santos têm ao certo/ A medida da maldade/E há tempos são os jovens/ Que adoecem/ E há tempos/O encanto está ausente/ E há ferrugem nos sorrisos/ Só o acaso estende os braços/ A quem procura/
Abrigo e proteção”. Ele cantou para uma legião que tem o grito represado na garganta e o grito é equivalente à imensa dor que sente e, se esse grito vier/viesse à tona, poderia acordar o mundo inteiro.
Parabéns pelos 50 anos do nascimento desse poeta de grande expressão. Sua voz continua a gritar em nossos corações. Suas poesias continuam a serem embaladas pelo vento como grandes bandeiras que dão identidade a uma geração tão perdida em si mesma. E o certo é que o “o nosso dia vai chegar/ teremos nossa vez”. Grande sonho, esperança e utopia.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: segunda-feira, 29 de março de 2010, 11:12:47

sexta-feira, março 26, 2010

Pessimismo capitalista e Darwinismo social

Que fazer quando uma crise como a nossa se transforma em sistêmica, atingindo todas as áreas e mostra mais traços destrutivos que construtivos? É notório que o modelo social montado já nos primórdios da modernidade, assentado na magnificação do eu e em sua conquista do mundo em vista da acumulação privada de riqueza não pode mais ser levado avante. Apenas os deslumbrados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula, acreditam ainda neste projeto que é a racionalização do irracional. Hoje percebemos claramente que não podemos crescer indefinidamente porque a Terra não suporta mais nem há demanda suficiente. Este modelo não deu certo, pelas perversidades sociais e ambientais que produziu. Por isso, é intolerável que nos seja imposto como a única forma de produzir como ainda querem os membros do G-20 e do PAC.

A situação emerge mais grave ainda quando este sistema vem apontado como o principal causador da crise ambiental generalizada, culminando com o aquecimento global. A perpetuação deste paradigma de produção e de consumo pode, no limite, comprometer o futuro da biosfera e a existência da espécie humana sobre o planeta.

Como mudar de rumo? É tarefa complexíssima. Mas devemos começar. Antes de tudo, com a mudança de nosso olhar sobre a realidade, olhar este subjacente à atual sociedade de marcado: o pessimismo capitalista e o darwinismo social.
O pessimismo capitalista foi bem expresso pelo pai fundador da economia moderna Adam Smith (1723-1790), professor de ética em Glasgow. Observando a sociedade, dizia que ela é um conjunto de indivíduos egoístas, cada qual procurando para si o melhor. Pessimista, acreditava que esse dado é tão arraigado que não pode ser mudado. Só nos resta moderá-lo. A forma é criar o mercado no qual todos competem com seus produtos, equilibrando assim os impulsos egoístas.
O outro dado é o darwinismo social raso. Assume-se a tese de Darwin, hoje vastamente questionada, de que no processo da evolução das espécies sobrevive apenas o mais forte e o mais apto a adaptar-se. Por exemplo, no mercado, se diz, os fracos serão sempre engolidos pelos mais fortes. É bom que assim seja, dizem, senão a fluidez das trocas fica prejudicada. Há que se entender corretamente a teoria de Smith. Ele não a tirou das nuvens. Viu-a na prática selvagem do capitalismo inglês nascente. O que ele fez, foi traduzi-la teoricamente no seu famoso livro: "Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações"(1776) e assim justificá-la. Havia, na época, um processo perverso de acumulação individual e de exploração desumana da mão de obra.
Hoje não é diferente. Repito os dados já conhecidos: os três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 2,8 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade; o resultado é que mais de um bilhão passa fome e 2,5 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza; no Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados se não expressar um aterrador egoísmo? Smith, preocupado com esta barbárie e como professor de ética, acreditava que o mercado, qual mão invisível, poderia controlar os egoísmos e garantir o bem estar de todos. Pura ilusão, sempre desmentida pelos fatos.

Smith falhou porque foi reducionista: ficou só no egoísmo. Este existe, mas pode ser limitado, por aquilo que ele omitiu: a cooperação, essencial ao ser humano. Este é fruto da cooperação de seu país e comparece como um nó-de-relações sociais. Somente sobrevive dentro de relações de reciprocidade que limitam o egoísmo. É verdade que egoísmo e altruísmo convivem. Mas se o altruísmo não prevalecer, surgem perversões como se nota nas sociedades modernas assentadas na inflação do "eu" e no enfraquecimento da cooperação. Esse egoísmo coletivo faz todos serem inimigos uns dos outros. Mudar de rumo? Sim, na direção do "nós", da cooperação de todos com todos e na solidariedade universal e não do "eu" que exclui. Se tivermos altruísmo e compaixão não deixaremos que os fracos sejam vítimas da seleção natural. Interferiremos cuidando-os, criando-lhes condições para que vivam e continuem entre nós. Pois cada um é mais que um produtor e um consumidor. É único no universo, portador de uma mensagem a ser ouvida e é membro da grande família humana. Isso não é uma questão apenas de política, mas de ética humanitária, feita de solidariedade e de compaixão.

Por Leonardo Boff

Extraído DAQUI

sábado, março 20, 2010

Porquê Celebrar o Equinócio de Outono?

Dia 20 de Março é o Equinócio de Outono no hemisfério sul; dentro de dez dias entramos nas estações frias (ao menos aqueles que vivem mais longe do Equador). O outono, como a primavera, é uma estação de mudança; no entanto, enquanto a primavera tem cheiro de renovação e gosto de renascimento, o outono é uma época mais introspectiva, que nos chama a prepara-nos para o período mais escuro e frio do ano.

As celebrações já não são as mesmas de antigamente

Antigamente, a transição das estações era uma parte importante da vida. Os equinócios e solstícios eram celebrados, não só por motivos religiosos, mas porque a vida diária era diretamente afetada pela natureza, pelo clima. Hoje em dia, com o ar condicionado, a calefação, a urbanização e a produção industrial, essas celebrações se perderam. O passar das estações perdeu significado e importância. O que é uma pena. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Uma pena porque com isso uma parte de nós se perdeu – principalmente para as mulheres. Essas celebrações nos ajudavam a conhecer e compreender os ciclos da vida, da natureza, de nosso próprio corpo e espírito.

Celebrar é uma Necessidade

Apesar da modernidade, ainda sentimos necessidade de ter esse conhecimento e essa compreensão, embora estejamos imersas na massificação da sociedade industrial de consumo, onde todos os dias, meses e anos são iguais – desprovistos de significado. Um bom exemplo disso é o fim do ano – o excesso das festas, de compras, de comida e bebida, a fúria das resoluções de ano novo, que logo caem no esquecimento. Nos entregamos à esses excessos, porque já não sabemos como celebrar de forma adequada, de forma a encher-nos a alma (e não somente a barriga).Sentimos a necessidade de celebrar, de marcar a passagem do ano, de encerrar um ciclo – mas não sabemos como.

Ritos de Passagem são Terapêuticos

Celebrações são (ou deveriam ser) ritos de passagem. Assinalam o final de um ciclo e o começo de outro, nos situam no contexto do todo, inserem nosso micro-cosmo pessoal dentro do macro-cosmo Vida.Nos convidam a olhar para trás, para o ciclo que está finalizando, e descobrir o que aprendemos, quais foram nossos erros e nossos acertos; e nos dão informação sobre o próximo ciclo, sugerindo como deveremos agir, quais deverão ser nossos próximos passos. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Prestar atenção nos ciclos, entendê-los, honrá-los e celebrá-los é extremamente terapêutico. Essas práticas restabelecem a conexão com nós mesmas, nos dão alegria, paz e tranquilidade. Recuperar essas tradições de passagem, esses ritos e celebrações, essa forma de contar o tempo, só depende de nós. Você não precisa se fantasiar de bruxa e acender uma fogueira no meio do mato, para recuperar a magia e o significado dessas celebrações.

Extraído DAQUI.

quinta-feira, março 18, 2010

O retorno da razão?

Os Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) acabam de eleger Cezar Peluso presidente da casa no biênio 2010-2012. Baseado no modelo dos Estados Unidos, como desejava o imperador dom Pedro II, concretizado com a primeira Constituição republicana, de 1891, o STF anda a precisar de uma reformulação. Exemplo: estabelecer prazo de mandato para os ministros, sem direito à recondução, conforme o padrão europeu. Este, aliás, mais democrático e que melhor atende aos interesses dos cidadãos.
Em boa hora chega o independente, preparado e reservado ministro Peluso ao cargo, pois, como bem observou o colunista Wálter Maierovitch, o presidente Gilmar Mendes foi uma tragédia constitucional. Um ministro, principalmente à frente da corte, não pode prejulgar, quebrar o princípio da harmonia e independência dos Poderes, fazer denúncias sem provas (caso da escuta telefônica sem áudio), “chamar às falas o presidente da República”, exigir a cabeça de servidores (vide Paulo Lacerda) e opinar sobre matérias que não dizem respeito ao Judiciário.
Peluso, com formação de magistrado e atuação exemplar como juiz e desembargador, tem experiência e discernimento suficientes para lograr e restabelecer o prestigio do STF. Talvez volte a ser possível repetir uma frase do saudoso jurista Píero Calamandrei: “As qualidades dos magistrados excedem de modo notável os seus defeitos”.

A volta da razão? – Revista Carta Capital, edição no. 587, p. 20

sábado, março 13, 2010

200 anos do nascimento de Chopin

Dia primeiro de março, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento de Frédéric Chopin, um dos principais nomes da história da música. Há certa discussão em torno da data exata do nascimento do compositor. Alguns historiadores afirmam que Chopin teria nascido em 22 de fevereiro; outros, em primeiro de março. A grande questão é que Chopin é uma figura importante para a composição pianística. As caractétiscas esboças em sua música, torna-a em algo inconfudível. Suas composições estão cheias de melancolia, de tons e acetinações ocasuais; de leveza, frescor, dúvida, lembranças, tristeza e fúria.
Chopin nasceu na Polônia, país do leste europeu. Mais tarde abrigaria outros nomes importantes das artes. Franz Kafka, por exemplo. No século XX, temos o nome de Penderecki. Ainda muito novo (e isso antes do vinte anos de idade), Chopin compôs seus dois concertos para piano e orquestra. São dois concertos da mais alta distinção. Estão entre os principais que já foram compostos. São doces, introspectivos, tristes, liricamente impecáveis. O de número 1 foi composto por último e o número 2, primeiro. Essa alternância é meramente classificatória. Dono de uma personalidade sensível, de compleições e gestuais recatados, Chopin muda-se para a França. Lá faz sucesso. Seus trejeitos chamam a atenção dos franceses. Toca nos cafés e quando isso acontece, o público silencia para ouvir a sua música, emotiva, com cargas tocantes de grande beleza. À época não havia gravações como as de hoje. Para que o artista tornasse conhecida a sua arte, era necessário que ele tivesse pessoas que a apresentasse; ou que ele mesmo fizesse isso. Sua saúde era frágil. Dos trinta anos em diante, percebe-se um agravamento em sua condição. A tuberculose pouco a pouco o fulmina. Vive à procura de melhores ares para "estancar" o seu problema crônico. Teve um caso sentimental com George Sand. Morre aos 39 anos, ainda muito novo. O fato é que o mundo não poderia ficar privado da singularidade Chopin. Suas polanaises, mazurkas, noturnos, estudos, beceuses e outros, possuem tons identitários. É fácil ouvir e afirmar: "É Chopin!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Sábado, 13 de março de 2010.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Sou assim...

Dizer que sou assim e assim é arriscado.
Estaria vendendo a você apenas uma porção
Limitada de mim mesmo – ou uma versão falsa.
Sou mais que as palavras.
Sou mais que teus conceitos.
Sou mais que as definições e as tendências
Dos arrimos do decoro.
Sou mais que as habilidades e pretensos carismas.
Quer saber quem eu sou?
Descubra-me todos os dias.
Faço-me a cada manhã e a tarde já não sou
O mesmo; meto-me na escuridão quando
A noite chega.
Dentro de mim flui o tempo, esse mistério
Imaterial que acrescenta dores, emoções,
Saudades, irritações, conclusões, que faz
Maturar os pedaços de opiniões que vou
Cozinhando no engenho do meu espírito.
As palavras são muito poucas para me definir,
Para definir você também, pois o modo como me vejo
Difere de como você me vê.
Encontrei em Jorge Luís Borges, o fantástico escritor
Argentino algumas palavras indicativas daquilo que sou,
Daquilo que nós somos no poema “Heráclito”
do livro Elogio da Sombra.
Não poderia deixar de citar aturdidamente tais palavras,
Eivado pelo intransigente mistério dos processos universas que me habita,
Que nos habita, que nos promove, que nos demove.
Fala, Borges:
“Que trama é esta
do será, do é e do foi?
Que rio é este
pelo qual flui o Ganges?
Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra,
fatais e ilusórios, surjam os dias”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: segunda-feira, 21 de julho de 2008, 19:22:39.

sábado, fevereiro 13, 2010

Qual a essência do Carnaval?

No Brasil, a primeira coisa que vem à mente quando se fala em carnaval são os desfiles das escolas de samba. Em algumas regiões do país, são os trios-elétricos ou o frevo. Mas seria o carnaval uma festa brasileira? Quantas pessoas não estranham quando ouvem falar do carnaval de outros países? Mas essa festa existe há muitos anos, em muitas partes do mundo e com significados diferentes.Como todos os festejos que comemoramos durante o ano, o Natal é um exemplo, o carnaval tem origem pagã, mas a Igreja o instituiu no seu calendário como uma festa cristã. Moderada, claro. Era chamada de “carnem levare”, a despedida da carne, já que a partir da quarta-feira de cinzas deve-se, segundo os preceitos religiosos, fazer jejum e penitências, período chamado de Quaresma e que antecede a Páscoa (outra festa não cristã que foi “sequestrada” pela Igreja). Antes, porém, os festejos eram realizados para comemorar a proximidade da chegada da primavera no hemisfério norte e cultuar diferentes deuses, dependendo da cultura. Na Grécia antiga, o deus cultuado era Dionísio. Dionísio era o deus do vinho, dos festejos e da fertilidade. Daí a relacioná-lo com o carnaval é um passo. Afinal, nessa festa as pessoas bebem muito, se divertem e, claro, se deixam levar pelos prazeres da carne, resultando, muitas vezes, em gravidez indesejada. Costuma-se dizer que no Brasil o mês de novembro é o que computa o maior número de nascimentos. Na mitologia romana, Dionísio é relacionado a Baco, e as festas em sua honra eram chamadas de bacanais. Preciso entrar em maiores detalhes? Quando a festa partiu para esse lado, o carnaval passou a ser condenado pelos religiosos. Com o passar dos anos, a festa foi agregando novos significados e novas formas de comemoração. Em Veneza, por exemplo, um dos carnavais mais conhecidos no mundo, surgiu quando a nobreza começou a usar máscaras para se misturar ao povo e se divertir. O carnaval, portanto, não é uma festa genuinamente nossa e não pode ser considerada como representativa do povo brasileiro, até porque muitos preferem realizar outras atividades nesse período. É uma festa importada (assim como está acontecendo com o Dia das Bruxas, muito criticado por ser uma festa americana) e adaptada ao nosso jeito. A diversão seria a palavra que mais tem a ver com o carnaval. É uma festa popular e, como em toda a festa, o que se quer não é esquecer um pouco os problemas, cair na folia, ter liberdade para extravasar? Como escreveu o filósofo Nietzsche, contrário à moral religiosa que sufoca nossos instintos, devemos deixar aflorar o lado dionisíaco que temos, pois “felicidade é sinônimo de instinto”. Então pode ser qualquer tipo de música, não só o samba, marchinha, axé ou frevo. Até o rock serve. Pois justamente os desfiles de escola de samba, da maneira como estão sendo realizados atualmente, perderam muito dessa essência que é a diversão. A disputa por títulos é a grande culpada por isso (como no futebol, em que uma taça vale mais do que um jogo bonito). As escolas, ao seguir à risca o cumprimento de quesitos para obter boas notas, engessaram suas apresentações. E carnaval com regras, sem liberdade, não é carnaval.

Por Cassionei Niches Petry

Extraído DAQUI.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Metafísica abolida – materialismo radicado.

Se algum homem de uma civilização

Passada viesse a nos visitar ficaria assustado.

Constataria que geramos os mais

Estranhos e bizarros empreendimentos.

Criamos um estilo de vida de

Ebriedades e vícios fetichistas.

A divindade constituída é a matéria.

Esta deidade impele, molda os desejos.

Os homens nunca se saciam.

Os encantos constituídos criaram

Uma dependência e muitas necessidades.

Tem-se uma síndrome fáustica.

A inocência foi perdida.

Todos os regalos, todas as orgias,

Lubricidade e sofreguidões

Não saciam as intenções individuais.

Afastados um dos outros,

Somos galáxias solitárias.

Desaprendemos a falar.

O ouvir já não é mais uma virtude.

Quando se caminha pelas largas avenidas

De pedra, nota-se a opacidade de cadáveres vazios.

Conectados à grande teia.

Um nó nos amarra.

Um universo frio, programado,

Feito por processamento media as nossas relações.

O frio leitoso, imparcial.

Temos um novo tipo de sacerdote.

Uma esquizofrenia se apoderou de cada um de nós.

O que somos?

Em que nos tornamos?

A esfinge perguntaria ao homem de hoje:

“Qual é o ser que jamais se sente saciado,

Mesmo estando farto com todos os manjares do mundo?”

Tal pergunta seria muito óbvia.

A nossa gula é a doença que nos molesta.

Criamos fórmulas para a felicidade.

Ela é manipulável, desde que condicionada

A determinados parâmetros.

Vive-se uma tirania da felicidade.

E esta tornou-se cada dia mais rara.

Muitos não conseguem desembaralhar a fórmula

E acabam padecendo.

Esse viajor pensaria está entre habitantes de outro mundo.

A velocidade de nossas avenidas é uma

Metáfora de como conduzimos a própria vida.

Se o homem voltasse ao passado, escreveria em tábuas,

Em letras garrafais sobre tal endemia.

Enunciar-se-ia uma profecia para advertir os homens.

Esta permitiria criar novos rumos, novas rotas,

Uma nova vida, uma nova História.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: 17 de outubro de 2008.

sábado, janeiro 23, 2010

Amores Brutos ou Perros

A primeira vez que ouvi falar no filme Amores Brutos (2000) foi na primeira metade do ano de 2007. Nas aulas de sociologia da educação, estudei com um professor cinéfilo. Chama-se Clerton. À medida que expandia as suas explicações, citava numerosos filmes. Todos de altíssimo nível – “Como era Verde o meu vale”, “Machuca”, “Amores Brutos”, “Nós que aqui estamos por vós esperamos”, “A língua das mariposas”, “A maçã”, entre outros. Alguns eu já consegui; com relação aos outros, ainda estou a esperar. O que é mais formidável nisso era a versatilidade do professor Clerton para fazer associações e aplicações contundentes àquilo que ensinava e o conteúdo dos filmes. Em parte devo afirmar que muito do amor pelos filmes que adquiri são resultado daquelas aulas que assisti.

Num dia que não me lembro deste ano (2008), visitei descompromissadamente as Lojas Americanas – como faço em algumas ocasiões. Observava a pilha de filmes amontoados. Visualizava os títulos quando acabei achando o filme do cineasta mexicano Alexandro González Iñarritu. Fiquei excitadíssimo com aquele achado. Não titubeei. Corri para o caixa a fim de pagar R$ 12,99 pelo mesmo. Trouxe-o para casa, mas demorei a vê-lo. Até que esta semana eu consegui assisti-lo e me impressionei com as suas cenas densas e eletrizantes. Por que não dizer ainda, atordoantes e caóticas?

Fiquei por um longo tempo com as cenas na cabeça. O filme não permite qualquer respiração. São duas horas e meia de uma rede fragmentada de cenas. De idas e vindas; de digressões e supressões; de fatos que não são explicados e terminam sem uma resposta óbvia, deixando-nos pensar o que terá sucedido. Ficamos sem fôlego do início ao fim. O filme já inicia com Octávio (Gael Garcia Bernal) e seu amigo fugindo em alta velocidade pelas ruas movimentadas da Cidade do México. O seu cachorro Cofi baleado está no banco traseiro, perde muito sangue. No encalço de Octávio seguem dois indivíduos armados numa camionete. Esse artifício induz àquele que está vendo as cenas a se sentir dentro do automóvel com Octávio em plena fuga. Esta cena trará implicativos sérios para o desenlace da vida de três personagens distintos: Octávio, que fugia por ter esfaqueado um indivíduo numa rinha; Valeria (Goya Toledo), modelo espanhola famosa que tem a sua perna amputada em conseqüência da colisão; e Chivo (Emílio Echevárria), ex-guerrilheiro, que ganha a vida como matador de aluguel e é um espécie de mendigo nauseabundo que vive envolto pelos cachorros.

O filme é rico em temáticas para reflexão – aborda a marginalização nos centros urbanos, o drama dos lapsos familiares, a contraposição entre os proletários das periferias e a nababesca e despreocupada vida da burguesia ambiciosa, a violência contra a mulher, o mercado negro do desmanche de carros e das rinhas, dando a entender que a clandestinidade do crime está ao lado, a juventude transviada que encontra na violência e na extorsão o seu ganho fácil.

Encontrei na internet uma resenha muito boa sobre o filme e resolvi colocá-la logo abaixo.

Por Ricardo Carreiro[1]

Poucos cineastas estreantes têm estofo para lançar, como primeiro trabalho, um filme denso, pesado e profundamente ambicioso. Em Hollywood, sequer imaginar algo do gênero seria surreal. Por sorte, Alejandro Gonzáles Iñárritu nasceu no México. Trabalhando com atores desconhecidos e orçamentos apertados, ele teve a liberdade criativa para levar em frente o projeto de “Amores Brutos” (Amores Perros, México, 2000). O longa-metragem fez e continua a fazer enorme sucesso no meio dos cinéfilos jovens, por conta de alguns ingredientes que compõem a sua receita: violência, narrativa fragmentada, montagem acelerada e personagens jovens fascinantes.

”Amores Brutos” entrelaça as trajetórias de três pessoas a partir de um acidente automobilístico. Na primeira história, o protagonista é o jovem Octávio (Gael Garcia Bernal, antes da fama). Ele tem uma queda pela esposa do irmão mais velho, Susana (Vanessa Bauche). Octávio dá a ela o carinho que o primogênito da família lhe nega – o cara, um delinqüente envolvido com drogas, é bastante agressivo com a menina – e decide fugir de casa com Susana. Para levantar a grana necessária, ele usa o cachorro Cofi em brigas ilegais.

A segunda história narra a história de uma modelo famosa, Valeria (Goya Toledo). Ela vive um momento especial: acaba de assinar contrato com uma marca de perfumes, está de mudança para um flat luxuoso e o amante, Daniel (Álvaro Guerrero), finalmente decidiu largar a esposa e as duas filhas para ir viver com ela. A vida parece um paraíso, bem ao contrário do que é para Chivo (Emilio Echevarría), um ex-guerrilheiro que foi criado longe da filha, agora adulta, e sobrevive praticando assassinatos de aluguel.

O acidente de carro realiza a conexão entre esses três personagens, provocando mudanças radicais (e muitas vezes imprevisíveis) nas três vidas. Iñárritu dispara, a partir dessa narrativa fragmentada, reflexões sobre uma grande quantidade de temas. O principal deles é a vida na cidade grande. O cineasta contrapõe a vida dura e sem perspectivas no subúrbio de uma supermetrópole, como a Cidade do México, e o dia-a-dia dos burgueses do mesmo lugar. Os problemas de Octávio e Valeria não poderiam ser mais diferentes. Mesmo assim, a certa altura do filme, ambos se encontram sufocados pelas respectivas enrascadas em que se meteram, involuntariamente. Descontando a perspectiva, os dois sofrem da mesma maneira.

Talvez seja essa a principal mensagem do filme vigoroso de Alejandro Iñárritu. Mas o diretor novato não pára aqui. Sua ambição é muito maior. Cada um dos protagonistas vive uma complexa gama de emoções: paixão, arrependimento, desespero, saudade, ciúmes. O roteiro de Guillermo Arriaga é brilhante em dois extremos, tanto na criação de personagens multifacetados e profundamente ancorados na realidade (Octávio, Valeria e Chivo poderiam ser pessoas de carne e osso) quanto no desenvolvimento correto da ação dramática. Os diálogos ágeis, que equilibram humor e dor em proporções iguais, completam o cardápio. A fotografia nervosa, de câmera na mão e cores saturadas, ajuda a dar o clima de urgência que o enredo pede.

A rigor, “Amores Brutos” não tem falhas aparentes. Por isso, se mantém desde o lançamento na lista dos 150 melhores filmes de todos os tempos, segundo a prestigiosa lista do maior banco de dados de cinema da Internet, o Imdb. O único senão do filme de Iñárritu é, talvez, o excesso de pessimismo que sua visão juvenil ainda possui. As histórias que ele conta estão, todas, embebidas em um alto grau de desesperança diante da vida que se descortina para o futuro. Até mesmo na conclusão da terceira trama, que ensaia uma tentativa de redenção, Chivo recorre à violência e ao cinismo para conseguir a sua redenção. Não existe um personagem positivo, e a perspectiva do filme é inteiramente sombria. Mas isso não tira o brilho de uma estréia promissora e talentosa.

Em DVD, “Amores Brutos” está disponível em um pacote básico, que inclui apenas o filme (com imagens em formato widescreen original e trilha de áudio Dolby Digital 5.1), sem material extra.

-Amores Brutos (Amores Perros, México, 2000).

Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu.

Elenco: Gael Garcia Bernal, Emilio Echevarría, Goya Toledo, Álvaro Guerrero
Duração: 153 minutos


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: sexta-feira, 26 de dezembro de 2008, 10:28:37.


quarta-feira, dezembro 30, 2009

A arquitetura do medo


Há alguns dias fiz alguns comentários sobre a cidade. A paisagem das cidades foi tomada por uma gama complexa de eventos. Os espaços urbanos modernos tornaram-se em abrigos de caoticidade, medo, violência e toda sorte de especulação. Diferente do passado, a maioria da população mundial vive nos grandes centros ou em torno desses mesmos centros. Isso permite o surgimento de fenômenos físicos e psicológicos que podem ser confirmados cada vez que saímos à rua ou ligamos a televisão, lemos um jornal ou acessamos a rede.

O espaço urbano é uma selva hostil. Essa geografia de pedra, cimento e vigas de aço é lugar de fomentação da insegurança. No inconsciente dos homens urbanos mora a paranóia e a sensação de perecimento. Isso explica o alastramento da mania de segurança que tomou tanto pobres como ricos. Segundo, o excelente texto do escritor Marcelo Rezende[1], a indústria da segurança somente no ano de 2007 teve lucro de aproximadamente 15 bilhões de reais. A isso forma-se um exército impressionante de mais de 600 mil seguranças privados (regularmente cadastrados) – sem mencionar os clandestinos. Mas uma pergunta nos surge: O que tem fomentado esse medo crescente? E outra: medo de quem ou do quê?

Analisando estes espaços não se deve deixar de refletir o que habita a alma do homem citadino. Está, por exemplo, num shopping confere segurança. Estes espaços foram feitos para produzirem uma sensação hedonista de bem-estar e sofisticação. Tanto é assim que a classe média possuidora de dinheiro, não deixa seus veículos automotores nos estacionamentos externos desses espaços pós-modernos. Os seguranças, as câmeras, a parafernália eletrônica transmite à burguesia egocêntrica a sensação de proteção, resguardo. O mundo de fora é hostil. Habitado por mendigos, crianças de ruas, pedintes. Todas essas criaturas são nocivas, perigosas. Os vidros dos carros são blindados. A película escura impede a visualização de quem está do lado de dentro. A rua tornou-se um espaço para o medo. A aproximação de alguém que não conhecemos confere medo, desconfiança e taquicardia.

A mídia é responsável pelo agravamento dessa sensação de medo. O poder do imagético na pós-modernidade cria uma confusão nas mentes. Geralmente, somos treinados para acreditar que as imagens virtualmente manipuladas são o real. Os filmes, novelas, seriados, noticiários são conduzidos de tal modo que já não sabe o que é real e não é. No fundo se se perguntasse a alguém que saiu de um cinema se aquilo que ele assistiu é real ou fictício, obviamente que ele responderia com objetividade que se trata de uma idéia criada, que faz parte do faz de que conta, porque real é o mundo onde ele vive. Mas no fundo, analisando com mais profundidade as implicações do estreitamento do real e do irreal, o que a indústria da imagem fez foi criar a idéia de que real e irreal são a mesma coisa. Júlio Arbex e Cláudio J. Tognoli, no livro Mundo Pós-Moderno escreve algo que elucida bem essa relação estreita entre o real e o virtual: “As novas tecnologias de realidade virtual já permitem que as pessoas, literalmente, entrem no computador para interagir com os atores colocados em cena. Assim, usando um capacete criador de realidade virtual, eu entro no filme. Luto com ‘o bandido’, transo com alguém ou visito um museu, percorrendo todos os seus corredores, visitando todas as suas galerias. Se, além do capacete, eu usar luvas táteis que transmitam impulsos ao cérebro através dos terminais nervosos de meus dedos, poderei então tocar e, provavelmente, até sentir o cheiro das coisas que estiver vendo. Fica abolida qualquer distinção entre realidade e fantasia, qualquer separação entre um mundo ficticiamente criado e o mundo empírico que experimento no meu cotidiano”[2]. Assim, as imagens virtualmente produzidas passam a preponderar sobre a realidade. O homem moderno já não identifica involuntariamente esses efeitos. A fronteira que delimita é tênue, quase inexistente.

A imagem seduz. Produz efeitos extraordinários. Direciona os sentidos. Congela sentenças. E forma opiniões. É possível manipular o público pelo modo como se posiciona uma câmera de televisão. Esse episódio se deu recentemente na História da Venezuela. Em A Revolução Não Será Televisionada, os irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain filmaram como se manipula por meio da imagem. Já não refletimos sobre o que é transmitido. Na maior parte do tempo assimilamos as “as verdades das imagens” sem julgá-las, exercermos um confrontamento direto. Arbex e Tognoli afirmam que “tudo pode ser transmitido pela televisão. Em princípio qualquer assunto é matéria televisiva. Da Guerra do Golfo ao jovem que matou a família com requintes de crueldade, do jogo de futebol a um programa de auditório que promove encontro entre pessoas interessadas em namorar. Não há assunto proibido, não há restrições que resistam à programação diária. Todos os âmbitos da vida são ‘cobertos’ pela televisão, qualquer espaço tornou-se um espaço de representação diante das câmaras. Todas as chagas são expostas, todos os dramas são explorados, tudo é devorado pela curiosidade voraz dos telespectadores”[3].

Ou seja, um dos principais responsáveis pela propagação da idéia de insegurança á a própria mídia com suas imagens que ocultam, sinalizam uma espécie de “violência ideal”. As informações veiculadas pela mídia com relação ao surto de violência que toma os grandes centros gera consequentemente um sensacionalismo sobre a insegurança. De modo que a presença de uma câmera de segurança produz uma sensação de conforto. O fato de estarmos diante da polícia gera uma impressão de proteção – mesmo que não estejamos em perigo. A mídia institucionalizou uma espécie de propaganda da violência. Hélio Bicudo aborda essa problemática da mídia em torno do tema violência e diz que “na tevê, as encenações usam os sentimentos daqueles que tiveram violados os seus interesses, abusando das lágrimas de crianças oprimidas; ou então, recorrem aos debates ao vivo, sempre oportunisticamente montados. Nada visa esclarecer ou conscientizar. Tudo procura, com sensacionalismo , propagandear a violência e enfatizar a necessidade de soluções duras, como a inserção na legislação penal de novos tipos criminais, reclusões perpétuas ou mesmo a pena de morte”[4]. O que se verifica com isso é que a própria mídia promove uma insegurança na população dos grandes centros e faz aumentar o delírio persecutório.

Essa condição fez aumentar o número de condomínios. Os condomínios são uma versão moderna dos feudos medievais. Cercados por muros altos, com cercas eletrificadas, fossos. Câmeras que filmam diuturnamente; a guarita com o segurança, transporta o espetáculo medieval dos castelos para a modernidade. A violência, o combate físico, era a forma como os enfrentamentos se davam na Idade Média. Espreita-se, assim, um inimigo invisível, que parece que já estamos preparados para ele. Ou seja, inseriu-se na mente moderna a idéia da agressão cotidiana constante. Resguarda-se das inconveniências – dos pedintes, dos menores abandonados, dos vendedores ambulantes, dos propagandistas. Todos eles são elementos inoportunos à burguesia. Tanto os mais ricos como os mais pobres preocupam-se com a violência. “Há muito de tecnologia e organização (as grades nas janelas com um floreio, um enfeite, se parecem com objetos de decoração), mas também a mais assumida gambiarra. Você pode comprar uma câmera de segurança vazia, sem nada dentro, apenas a casca, e instalar em sua casa”, diz Marcelo Rezende.

Segundo o mesmo Marcelo, 110 famílias já construíram bunkers que permitem viver por aproximadamente 30 dias sem qualquer contato com o mundo. Já estão preparados para uma possível guerra nuclear ou a terceira guerra mundial. O preço desses locais subterrâneos varia de R$ 100 mil reais a R$ 2 milhões.

O que de fato deve ser considerado em torno dessa problemática urbana é o medo do medo da violência. O medo, a expectativa da violência tornou-se tão séria como a própria violência. Por isso, falei anteriormente em um tipo de violência ideal. Na verdade, esse fenômeno da sensação da violência, denuncia outros medos; fobias no que diz respeito a mudanças econômicas, sociais. É uma blindagem contra o mundo. Contra a possibilidade concreta de mudança. É um processo de estranhamento do outro. Um medo constante do que outro pode fazer, promover, é uma tendência negativa do homem moderno. Vê-se o outro como um potencial perigo. Há uma tentativa de fuga da relação. Nuca se foi tão sozinho como dentro da arquitetura de pedra das cidades. Os homens estão sós e assustados, porque cada um está consigo mesmo numa atomização sem fim.

A arquitetura das cidades revela a doença que mora na alma dos homens. As gaiolas de pedra e de ferro paralisaram o mundo e o vestiu de medo, de imagens feias, assustadoras; promotoras de pânico e pesadelos. Andar pelas cidades pode atiçar suspeições em torno de conspirações invisíveis. É preciso ter cuidado e diligência. Já não somos os mesmos homens.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: Domingo, 20 de julho de 2008, 20:31:48.


[1] Texto Disponível no sítio http://revistatrip.uol.com.br/168/arquitetura/home.htm. Acessado em 19 de jun de 2008.

[2] ARBEX, José; TOGNOLI, Cláudio Júlio. Mundo Pós-Moderno. São Paulo: Scipione, 1996. p. 10.

[3] Idem, p. 12

[4] BICUDO, Hélio. Violência – O Brasil Cruel e Sem Maquiagem. São Paulo: Moderna, 1994. p. 44