segunda-feira, abril 19, 2010

Terror brando

A partir de agora, quem quiser poderá colher com muita fartura alguns argumentos no arsenal de acusações e insinuações políticas de líderes do PSDB e do DEM para votar contra a candidata petista, Dilma Rousseff. Mas o eleitor, movido por isso, será vítima fácil de um procedimento usado para conslidar o preconceito na alma dos preconceituoso. O eixo desse discurso é resultado da índole política de alguns e da leviandade pessoal de outros. Entre esses últimos, alguns esquerdistas convertidos que trocaram a posição de contestadores, na ditadura, pelo papel de viga de sustentação do establishment.

Serra, no discurso da convenção tucana que consagrou o nome dele como candidato, semeou em campo preparado pela imprensa. E espera, em outubro, colher os frutos. Ele defendeu a democracia representativa: "Devemos respeitá-la, defendê-la, fortalecê-la. Jamais afrontá-la" - como se, do lado oposto houvesse um adversário disposto a destruí-la. Nada, porém, consolida mais as bases dos regimes democráticos do que a inclusão dos excluídos. O sistema não se sustenta somente na existência das liberdades politicas. É também resultado da distribuição de renda que diminui o fosso entre ricos e pobres.

Eis outras duas pérolas de insinuações sub-reptícias na tentativa de estimular o medo da classe média: "É deplorável que haja gente que queira dividir o nosso Brasil". E msid: "Um governo debe sempre procurar unir a nação. De mim, ninguém deve esperar que estimule disputas de pobres contra ricos, ou de ricos contra pobres". Antes de Serra tinha subio no palco o deputado Rodrigo Maia, presidente do DEM, que deu sequência ideológica ao discurso do pai, Cesar Maia, para que Dilma, se vencer, poderá se "aproximar do esquema bolivariano parecido com o do venezuelano Hugo Chávez". O filho não se desviou desse caminho. Afirmação de Maia júnior: "O que nos preocupa, acima de tudo, são os riscos que a natureza dos nossos adversários impõe aos princípios de liberdade que nos inspiram e às próprias insituições democráticas". A oposição está sem discurso, já foi dito e repetido. Pai e filho devem pensar que alguém, além de idiotas, acredita nas ameaças contidas nessas frases. Esse é o terror verbal, brando, que não consegue ficar acima das considerações ardilosasas e preconceituosas. A mesma melodia tocada no bumbo da velha "banda de música" do udenismo.

Não parece ser esse o caminho capaz de impulsionar a vitória da oposição contra a candidata de um governo que, além de aprovação hostórica, é apoiada por um presidente com popularidade nunca alcançada por seus antecessores. Há quem ofereça uma atenuante para essa caminhada equivocada di candidato tucano. O cientista político Wanderley Guilherme dos Santos é um desses. Acredita que esses desvios no discurso do candidato tucano se devem ao fato de, na essência, ele ser "um eleitor de Dilma". Se for assim, José Serra parece ser vítima dessa fatalidade que acomete biografias divididas entre o passado e o presente.

Por Mauricio Dias.
Carta Capital. Rosa dos Ventos. Terror brando. Ano XV. No. 592, 21 de abril de 2010. p. 14.

segunda-feira, abril 12, 2010

“Eis o homem”

Nietzsche é um dos pensadores que mais admiro. O filósofo pensou “o certo”, “o coerente”. O seu aforismo: “‘Toda verdade é simples’ – Não é isso uma dupla mentira?” evidencia o seu pensamento. Ele não montou sistemas, nem tão pouco desejou fazê-lo. “Desconfio de todos os sistematizadores e os evito. A vontade de sistema é uma falta de retidão”.
Pensador da cultura, Nietzsche possuía um tipo de sobriedade que não se encontra originariamente em outro pensador. Sua linguagem não é hermética, carregada de empolações sistemáticas, o que o torna convidativo desde a primeira página. Nietzsche não quis escrever para um clube seleto de especialistas guardados em torres de cristal, completamente afastados do mundo.
O filósofo queria encontrar verdadeiros pensadores, verdadeiros homens, mas não os encontrou. O mundo está repleto de mimetismo, de símios ideais. “Fala o desiludido: ‘Eu buscava grandes homens e sempre achei apenas os macacos’”.

O que me impressiona em Nietzsche é fato dele não ser apenas um filósofo, conforme as implicações da palavra. O pensador alemão é, também, um poeta. Seus livros são, antes de tudo, verdadeiras fontes de riqueza literária. Sua linguagem é curta e cortante. Ele não perde tempo. Ataca em todo tempo, mesmo nos momentos de imenso lirismo. Podemos ler os capítulos ou porções de capítulos separadamente sem que isso afete a compreensão daquilo que estamos lendo. Certamente isso é uma forma diferenciada de escrever sobre temas complexos, mas numa linguagem na qual não é difícil compreender. Afirmação interessante pode ser encontrada em “O Crepúsculo dos Ídolos”: “...minha ambição é dizer em dez frases o que qualquer outro diz em um livro – o que qualquer outro não diz em um livro”. Cultor do aforismo, Nietzsche se distingue ainda dos demais filósofos pela plasticidade literária que empregou a essas “estruturas textuais”. “...jamais fui modesto o bastante para exigir menos de mim. O aforismo, a sentença, nos quais sou o primeiro a ser mestre entre os alemães, são as formas da eternidade”.

O professor da PUC-SP e da UNIRIO, Willis Santiago Guerra Filho, afirma de forma embelezante: “O aforismo sempre viveu na fronteira entre a poesia e a filosofia. Se a origem do aforismo no mais das vezes é espontânea como a da lírica, ele pensa o mundo com a consciência extrema, típica da Filosofia. Fragmentário e antissistemático, sentencioso no ato de lapidar uma sensação ou um pensamento e propício tanto para representar a realidade quanto para esboçar aquilo que ainda não é real, o aforismo pode alcançar o estatuto de obra em apenas em três linhas. É um estilhaço de pensamento, uma máxima espirituosa de fôlego curto e sabedoria imensa. É uma formulação arguta – ora combativa, ora contemplativa -, apta a desvelar o mundo na ligeireza de um espasmo”[2].

Por fim, Nietzsche não é um pensador que desfere golpes no vento. Suas investidas, “marretadas filosóficas”, são certeiras, quebram ídolos cristalizados nas consciências “in-conscientes”. A plaina filosófica de Nietzsche despedaça certezas, amolda, delata, desfaz, imprime formas coerentes às convicções brônzeas como se estas fossem pedaços de argila. Algumas fórmulas aforismáticas do filósofo:

(1) “Você quer ir junto? Ou ir à frente? Ou ir por si?.. É preciso saber o que se quer e que se quer”.

(2) “Esses foram degraus para mim, eu subi por eles – para isso tive que passar por eles. Mas eles pensavam que eu queria repousar em cima deles”.

(3) “A fórmula de minha felicidade: um sim, um não, uma linha reta, uma meta...”.

(4) “Não cometamos covardia em relação aos nossos atos! Não os abandonemos depois de fazê-los – é indecente o remorso”.

(5) “Da escola de guerra da vida: O que não me mata me fortalece”.

O filósofo foi um pregador incansável da afirmação da vida. Ele sabia como ninguém o valor da vida. Nietzsche é o filósofo daqueles que aprenderam a superar a si mesmos. O que afirmar de um filósofo que diz, entre outras coisas, ser “o primeiro a ter em mãos a medida para o que é a verdade?” É preciso considerar isso do ponto de vista da filosofia. Não pelo meio convencional, mas transvalorizando todos os valores; admitindo a vida.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: 12 de abril de 2010, 21:19.


[1] Impressões pessoais após a leitura de “O Crepúsculo dos Ídolos”. NIETZSCHE, Friedrich. O Crepúsculo dos Ídolos. São Paulo: Companhia das Letras. 2006. 154p.

[2] GUERRA FILHO, Willis Santiago. FILOSOFIA CIÊNCIA E VIDA. Ano IV. No. 43. In: “O Significado Filosófico da Matemática”. p. 35

quarta-feira, abril 07, 2010

Janela da Alma

Janela da Alma é um documentário brasileiro produzido no ano de 2002. É o resultado do trabalho dos diretores João Jardim e Walter Carvalho. O trabalho trata da questão do olhar, do mundo das imagens, a partir do depoimento de várias pessoas com deficiência visual; artistas (como Marieta Severo) e escritores da envergadura de José Saramago.

O documentário trata das possibilidades do olhar como veículo mediador entre o mundo e o ser de cada um. E como ele vai definir, a partir das nossas percepções estabelecidas entre o olhar e objeto que é identificado por quem olha, o diálogo que estabelecemos com o mundo. É dessa reciprocidade que encetamos a relação do ser com o real.

Além do que, outra problemática abordada pelo documentário, versa sobre o poder imagético da modernidade. Ou seja, como vivemos num mundo bombardeado pelas imagens, que de tão insinuantes e provocativas, na maioria das vezes, não dizem nada. O resultado dessa imposição da imagem é o esvaziamento dessa mesma imagem como algo positivo, potencializadora de mensagens saudáveis. As imagens da modernidade são grandes fetiches que trazem em seu conteúdo uma propaganda para vender e favorecer aquele que oferta alguma mercadoria.

O trabalho excelente dos diretores João Jardim e Walter Carvalho, ajuda-nos ainda a desmitificar o conceito de que a imagem é tudo como nos é transmitido pela realidade. As aparências são apenas um discurso que não revelam o ser, a identidade do sujeito. Ou seja, mais que enxergar o externo, é necessário se enxergar o que vemos e como vemos a realidade e como essa postura nos ajuda a enxergar a nós próprios enquanto sujeitos no mundo. Os vários depoimentos com pessoas com algum nível de deficiência visual enfatizam esse fato. Essas pessoas conseguiram desenvolver uma capacidade perceptiva que está para além dos fatores externos.

Assim, o documentário possui um caráter altamente relevante no que tange a lançar uma nova possibilidade de visão da realidade. Enfatiza que o mundo criado a partir do olhar da subjetividade é uma possibilidade que dá identidade ao sujeito.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

sábado, abril 03, 2010

O julgamento dos Nardoni e a vontade do povo

Fato que me chamou a atenção foi o julgamento do casal Nardoni realizado na penúltima semana de março passado. Segundo a mídia nativa, que se aproveita das tragédias sociais e do caos para se vender e se promover, era um dos julgamentos mais importantes da História do Judiciário brasileiro. Houve um engradecimento do caso. Não escusamos aqui a fatalidade. Mas o que me deixou silencioso em meus pensamentos foi a reação da massa que cercou o fórum na cidade de São Paulo. Pessoas dos mais distintos lugares foram ao local para apreciar o caso num acesso de "justiçamento". Todos acompanhavam o caso com muita atenção. Não quero entrar em pormenores quanto a quem matou a menina de cinco anos, filha do casal Nardoni. Fato interessante é que antes do julgamento o casal já estava condenado. A mídia já havia condenado os dois. Nem o princípio constitucional de que a culpa só se efetiva com o trânsito em julgado da sentença - no juridiquês do Direito - foi levado em conta. Quando o juiz leu a sentença, resultado da apreciação do tribunal do júri, que tem competência para julgar os crimes contra a vida, houve "um salva de vivas". Havia uma lascísvia de contentamento nos olhos daqueles que estavam lá acompanhando o caso desde o primeiro dia. Era como se aqueles que acompanhavam o caso quisessem fazer justiça a toda força. Estranhos são os homens. Pensei que fosse uma final de campeonato. A psicologia do caso me aponta que havia um senso de raiva e ira represado no coração de cada um daqueles que estavam ali - e de tantos outros que estavam pelo Brasil afora. torcendo para que, se possível, o casal fosse estripado. A massa dispersa ganhou forma e a vontade individual tornou-se uma no que diz respeito ao desejo de solução pela força, nem que fosse pelo "esfolamento" ou pela morte. Fico a imaginar se os jurados tivessem absolvido das acusações de que era objeto o casal. O povo teria invadido o tribunal. Uma confusão generalizada poderia grassar. O Brasil é um país violento, que tem a sua guerrilha particular. A violência urbana mata mais do que a guerra histórica travada entre judeus e palestinos. A televisão "espetaculariza" todos os dias os casos de violência e isso faz brotar na paiquê da coletividade um medo mesclado de ódio e auto-justiçamento. Com relação a este fato (o julgamento dos Nardoni), achei uma extraordinário texto do filósofo Paulo Ghiraldelli sobre o caso.

Leia o texto na íntegra logo abaixo:

Isabela Nardoni enterra os seus mortos


Terminado o julgamento do casal Nardoni e passada a gritaria e rojões dos desocupados que ficaram em frente ao Fórum ou que, em suas casas, não faziam mais nada senão se alimentar do noticiário bestializado do caso, veio o inexorável silêncio. Mais uma vez a vida dessas pessoas que gritaram e comemoraram voltou a encher-se de nada. Todas elas caminharam para a mediocridade de onde saíram. Cada vida ali, cheia de nada, talvez tenha menos a fazer no mundo do que os Nardoni, que irão envelhecer na cadeia. Cada uma daquelas pessoas, até chegar ao ouvido delas a morte de mais uma Isabela qualquer, estará tão morta quanto a própria Isabella. Nada dentro de casa, nada no horizonte.

Uma vida cheia de nada.
As vidas dessas pessoas que se dispõem a se engajar em alguma causa que não é causa nenhuma, quando não há nenhum Hitler para recrutá-las para “fazer justiça”, é uma vida intermitente. Na falta de mais uma causa que não é causa nenhuma, tudo é um grande e eterno vazio. Nenhum emprego interessante, nenhum casamento gostoso, nenhum lar sadio, nenhum objetivo político; somente um horizonte social totalmente transparente – é tudo o que possuem. Quando William Bonner anunciará algo novo, possível de ser assimilado pelos cérebros simplórios, para que seus proprietários se levantem de seus túmulos? Essa é a pergunta que paira no ar na casa de cada um que soltou rojão ou que ficou no Fórum gritando “por Isabela”. “Uma vida cheia de nada” é o tema do ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro este ano, a belíssima película argentina “O segredo dos seus olhos” (José Campanella, 2009). Vale a pena ver. Há ali uma história. Mas “a vida cheia de nada” dos que gritaram por Isabela não dá um filme. Tudo ali é tão realmente cheio de nada que nem mesmo a narrativa sobre a pobreza de espírito é possível nesse caso. É o deserto avassalador que cresce dentro de cada alma que nem mesmo é uma alma, apenas uma cavidade encurtada capaz de fazer eco a um distante som metálico de noticiários de TV voltado para questões policiais. Hitler não vem. Mussolini não chega. Hiroíto não passa. Franco não dá bola. Pinochet não é ninguém. Castelo Branco é um desconhecido.

Todos os ditadores, dos maiores aos menores, capazes de poder fazer viver a turba que deseja vingança – vingança contra algo que a turba não sabe o que é e que, por conta da pouca educação social, diz que é “justiça” – não estão disponíveis. Resta então implorar por Datena. Talvez ele ponha alguma adrenalina em uma vida ressentida e cheio de nada. Mas Datena não vai adiante, ele é o Afanásio Jazadi dos novos tempos, da época “pós-politicamente correto”. Ele quase lança o ódio, mas recua. Ele não dá o que a turba pede. Por sua vez, Serra, que canaliza a direita hoje, é um candidato com um gosto tão entusiasmante quanto Alckmin. Picolé d xuxu era seu parceiro, ele próprio, Serra, é picolé de nabo. A turba almeja mesmo é por Hitler. Mas, eu garanto, ele não vem. Então, que Deus se apiede de todos e jogue alguma Isabela de outro edifício, caso contrário, cada uma dessas pessoas terá que ficar mais tempo no seu cemitério. Não poderá ganhar a luz do dia.
Uma vida cheio de nada. Quando uma vida é cheia de nada, nos cartazes dos manifestantes (como uma parte de nossa população está ficando igual aos setores conservadores americanos!) sempre aparece uma palavra suficiente mente vazia para dar razão ao vingadores: “Deus”. Deus não aparece para apaziguar, diminuir ódio ou promover a paz. Ele aparece para que exista vingança, não a respeito de Isabela, mas de qualquer outra coisa, talvez seja a vingança contra a própria vida cheio de nada. “Deus” surge para promover o ressentimento que ganha o nome , no caso, de “justiça”. Que sorte que Collor deu no que deu, pois, caso tivesse continuado, ele poderia aproveitar essa gente. Sendo ele agora apenas um senador marcado, tudo fica mesmo por conta de Bonner falar de outra desgraça. Enquanto as coisas ficarem só nisso, não há perigo.

Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

DAQUI

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Sábado, 03 de abril de 2010.

sexta-feira, abril 02, 2010

A Distopia em “A Máquina do Tempo” de Wells

Vi ao filme “A máquina do tempo” (2002), baseado no livro homônimo do escritor de ficção científica H.G. Wells. O inglês se imortalizou na elaboração de obras futuristas, mais conhecido por ficção científica. Outra obra importante escrita por ele foi “Guerra dos Mundos”, que também virou obra fílmica. Em “A máquina do tempo”, apesar de não ter lido ao livro, e, me deter apenas em elementos do filme, H.G. Wells fez uma crítica cortante ao modus operandi da História. A história do filme gira em torno de um professor amalucado, dinâmico, obstinado e curioso. Um retrato do homem empolgado com o futurismo que permeava o mundo ocidental no início do século XX. Era a sociedade das máquinas, da velocidade, das locomotivas. Sociedade do brilhantismo das invenções. Neste mundo de descobertas e crença na ciência vive o professor Alexander. Certo dia, ao se encontrar em um parque com a sua namorada e se destacar com ela dos presentes do lugar, são surpreendidos por um ladrão. Nesse episódio, aquela que seria esposa de Alexander é morta. Aquele fato “desequilibrou” o professor. Dali para frente ele trabalharia no projeto de uma máquina a fim de voltar no tempo e mudar o passado.

Tendo feito isso, o professor volta no tempo. Leva Emma, sua namorada, para longe do parque. É a sua tentativa de preservar aquela a quem ama. Todavia, ao deixar Emma para ir à uma floricultura, presencia uma carruagem atropelando mortalmente aquela a quem tanto amava. Ele entende que há certa premissa imperiosa que determinava aquele acontecimento: se ele voltasse no tempo mil vezes para evitar o fato, Emma morreria mil vezes. Alexander entendeu que não tendo respostas no passado, o melhor seria se fiar pelo futuro. Após algumas visualizações surpreendentes de como seria a sociedade do futuro, o professor viaja 800 mil anos no tempo. E neste aspecto notamos uma montagem belíssima: o trabalho lento e gradual da natureza. Um rio que se “dissolve”, “devora” pouco a pouco a terra; as florestas que crescem e que ao mesmo tempo desaparecem; desertos que se agigantam e são dissolvidos pelos agentes naturais; montanhas que são perfuradas pelo vento e pela chuva como se fossem meros pedaços de argila. Em tudo isso, verificamos o devir da natureza. O aspecto frugal do tempo. Que nada é eterno, tudo se dissolve, muda. Em 800 mil anos, a evolução criou seres antagônicos. Os humanos vivem assustados. São parasitados por seres bestializados, os morlockes. A evolução transformou estas criaturas em seres animalizados. Vivem nos subterrâneos. No interior das minas. Em cavernas. Destacam-se pela força. São controlados por seres superiores, que não podem ver a luz e aumentaram extraordinariamente a energia psíquica. O mundo futuro é dominado por essas criaturas que não podem ver o sol, mas são capazes de penetrar a mente de qualquer ser vivo, gerando pavor, medo, inoculando dominação. Segundo o filme, esses seres com elevado nível de atividade cerebral faziam parte das antigas oligarquias do passado. E, no futuro, continuaram a manifestar hegemonia.

Analisando por essa perspectiva, lembrei das palavras iniciais do “Manifesto do Partido Comunista”: “A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a história de lutas de classe”. O filme deixa a atordoadora mensagem de que há uma linha de poder que busca prevalecer na história, causando domínio, medo e crueldade. Outro aspecto a ser salientado na mensagem do filme é que há realidades que podem ser mudadas na vida e, outras, não. Aquilo que pode ser mudado é digno de esforço, suor e trabalho. A obra do diretor Simon Wells consegue ser bem convincente. A crítica mais convincente é dominação de um grupo sobre outro na História. A humanidade sempre esteve propensa a essa realidade infausta. Aqueles que dominam parecem nunca está satisfeitos. O poder atrai, gera o desejo de mais poder. Quem tem poder deseja ter mais controle. É uma síndrome fáustica. A obra constitui aquilo que se conhece “distopia”. É construção inversa da utopia. Enquanto a utopia se fixa numa possibilidade, numa perspectiva daquilo que pode ser alcançado, criando assim um aspecto ‘messiânico’ à esperança, a distopia atua inversamente. “Distopia ou Antiutopia é o pensamento, a filosofia ou o processo discursivo baseado numa ficção cujo valor representa a antítese da utópica ou promove a vivência em uma "utopia negativa". São geralmente caracterizadas pelo totalitarismo, autoritarismo bem como um opressivo controle da sociedade. Nelas, caem-se as cortinas, e a sociedade mostra-se corruptível; as normas criadas para o bem comum mostram-se flexíveis. Assim, a tecnologia é usada como ferramenta de controle, seja do Estado, de instituições ou mesmo de corporações[1]. Outras obras como “Admirável Mundo Novo” de Huxley, “1984” e “A Revolução dos Bichos” de Orwell ou “Fahrenheit” de Ray Bradbury são exemplos de obras distópicas.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 11 de novembro de 2009

[1] Extraído de http://pt.wikipedia.org/wiki/Distopia. Acessado em 02 de abril de 2010.

segunda-feira, março 29, 2010

Renato Russo, trovador de uma legião

No último sábado, dia 27 de março, foram comemorados os 50 anos do nascimento de Renato Manfredini Júnior, mais conhecido como Renato Russo. Não gostaria de externar aqui apenas informações ou descrições de cunho generalizante – como tantos fizeram nessa data. Antes de tudo, é necessário afirmar que Renato Russo foi alguém que nutriu as esperanças juvenis de uma geração sonhadora. Durante grande parte de minha adolescência, eu me vi cercado pelas suas letras, que revelavam os melhores dos mundos – poesia de sonhos, amores juvenis, revolta contra a ingerência dos pais, de paixão e respeito ao próximo.
Renato embalou o sonho dos adolescentes e de uma geração de indivíduos conscienciosos de todas as idades. O que me atraía em Renato Russo era sua sensibilidade, sua inteligência. Tal capacidade fora construída por muitas leituras e pela relação apaixonada que nutria pelo o rock inglês (de bandas como Beatles, Sex Pistols, Rolling Stones, Joy Division, The Clash) ou pelo rock folk americano (Neil Young e Bob Dylan). Havia em Renato uma veio apuradíssimo de criticidade, resultado de suas leituras, que muitas vezes ficavam explícitas em suas letras. Música como “Tempo Perdido”, talvez uma referência clara ao livro do escritor alemão Thomas Mann “Em Busca do Tempo Perdido”; ou ainda o nome do álbum “A Tempestade”, quiça aqui, um apontamento para “A Tempestade” de William Shaskepeare; ou ainda, o nome do álbum “As Quatro Estações”, surja como uma referência indireta à famosa peça do compositor italiano Antonio Vivaldi.
Renato era um burguês culto. Apregoava que fazia parte de uma geração onde o que prevalecia era a condição da burguesia moralista sem religião. Que os signos da nova ideologia eram o desmantelamento do bom senso. Éramos filhos de uma geração Coca-Cola. E que fomos programados desde o nascimento para repetirmos fórmulas mecânicas. Uma geração que era alimentada pelo lixo industrial e comercial. Comedores de enlatados produzidos por fast-foods. E que passados 20 anos na escola não era difícil de aprender tais artimanhas. O resultado dessa digestão seria o vômito anárquico e cínico. Leis não obedecidas, alegorias picarescas, referências esdrúxulas. Tudo isso seria posto em cena por uma legião que querendo ou não é “o futuro da nação”. Ou em outras palavras, qual seria o futuro da nação, quando os construtores dessa possibilidade mataram os referencias e se alimentam pelo lixo industrial do capitalismo, quando são apenas uma “geração coca-cola”? É uma letra de gênio, de um poeta fino que faz política com arte. Outras letras como das músicas “Fábrica”, “Perfeição” ou “A Canção do senhor da Guerra”, também possuem traços de grande contundência política e social.
Uma vez ou outra volto às suas músicas, assim como a legião de fãs que ainda continua manter viva a memória de sua capacidade. Ouvi-lo é gestar em nós a possibilidade de sonhar com melhores dias. É voltar a ser adolescente e nutrir aqueles idealismos que preservam e sustentam o fato de acordarmos todas as manhãs e termos esperança. Renato Russo foi o trovador de uma geração que queria/quer se encontrar, mas não sabe onde estava/está. “E há tempos/ Nem os santos têm ao certo/ A medida da maldade/E há tempos são os jovens/ Que adoecem/ E há tempos/O encanto está ausente/ E há ferrugem nos sorrisos/ Só o acaso estende os braços/ A quem procura/
Abrigo e proteção”. Ele cantou para uma legião que tem o grito represado na garganta e o grito é equivalente à imensa dor que sente e, se esse grito vier/viesse à tona, poderia acordar o mundo inteiro.
Parabéns pelos 50 anos do nascimento desse poeta de grande expressão. Sua voz continua a gritar em nossos corações. Suas poesias continuam a serem embaladas pelo vento como grandes bandeiras que dão identidade a uma geração tão perdida em si mesma. E o certo é que o “o nosso dia vai chegar/ teremos nossa vez”. Grande sonho, esperança e utopia.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: segunda-feira, 29 de março de 2010, 11:12:47

sexta-feira, março 26, 2010

Pessimismo capitalista e Darwinismo social

Que fazer quando uma crise como a nossa se transforma em sistêmica, atingindo todas as áreas e mostra mais traços destrutivos que construtivos? É notório que o modelo social montado já nos primórdios da modernidade, assentado na magnificação do eu e em sua conquista do mundo em vista da acumulação privada de riqueza não pode mais ser levado avante. Apenas os deslumbrados do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo Lula, acreditam ainda neste projeto que é a racionalização do irracional. Hoje percebemos claramente que não podemos crescer indefinidamente porque a Terra não suporta mais nem há demanda suficiente. Este modelo não deu certo, pelas perversidades sociais e ambientais que produziu. Por isso, é intolerável que nos seja imposto como a única forma de produzir como ainda querem os membros do G-20 e do PAC.

A situação emerge mais grave ainda quando este sistema vem apontado como o principal causador da crise ambiental generalizada, culminando com o aquecimento global. A perpetuação deste paradigma de produção e de consumo pode, no limite, comprometer o futuro da biosfera e a existência da espécie humana sobre o planeta.

Como mudar de rumo? É tarefa complexíssima. Mas devemos começar. Antes de tudo, com a mudança de nosso olhar sobre a realidade, olhar este subjacente à atual sociedade de marcado: o pessimismo capitalista e o darwinismo social.
O pessimismo capitalista foi bem expresso pelo pai fundador da economia moderna Adam Smith (1723-1790), professor de ética em Glasgow. Observando a sociedade, dizia que ela é um conjunto de indivíduos egoístas, cada qual procurando para si o melhor. Pessimista, acreditava que esse dado é tão arraigado que não pode ser mudado. Só nos resta moderá-lo. A forma é criar o mercado no qual todos competem com seus produtos, equilibrando assim os impulsos egoístas.
O outro dado é o darwinismo social raso. Assume-se a tese de Darwin, hoje vastamente questionada, de que no processo da evolução das espécies sobrevive apenas o mais forte e o mais apto a adaptar-se. Por exemplo, no mercado, se diz, os fracos serão sempre engolidos pelos mais fortes. É bom que assim seja, dizem, senão a fluidez das trocas fica prejudicada. Há que se entender corretamente a teoria de Smith. Ele não a tirou das nuvens. Viu-a na prática selvagem do capitalismo inglês nascente. O que ele fez, foi traduzi-la teoricamente no seu famoso livro: "Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações"(1776) e assim justificá-la. Havia, na época, um processo perverso de acumulação individual e de exploração desumana da mão de obra.
Hoje não é diferente. Repito os dados já conhecidos: os três pessoas mais ricas do mundo possuem ativos superiores à toda riqueza de 48 países mais pobres onde vivem 600 milhões de pessoas; 257 pessoas sozinhas acumulam mais riqueza que 2,8 bilhões de pessoas o que equivale a 45% da humanidade; o resultado é que mais de um bilhão passa fome e 2,5 bilhões vivem abaixo da linha da pobreza; no Brasil 5 mil famílias possuem 46% da riqueza nacional. Que dizem esses dados se não expressar um aterrador egoísmo? Smith, preocupado com esta barbárie e como professor de ética, acreditava que o mercado, qual mão invisível, poderia controlar os egoísmos e garantir o bem estar de todos. Pura ilusão, sempre desmentida pelos fatos.

Smith falhou porque foi reducionista: ficou só no egoísmo. Este existe, mas pode ser limitado, por aquilo que ele omitiu: a cooperação, essencial ao ser humano. Este é fruto da cooperação de seu país e comparece como um nó-de-relações sociais. Somente sobrevive dentro de relações de reciprocidade que limitam o egoísmo. É verdade que egoísmo e altruísmo convivem. Mas se o altruísmo não prevalecer, surgem perversões como se nota nas sociedades modernas assentadas na inflação do "eu" e no enfraquecimento da cooperação. Esse egoísmo coletivo faz todos serem inimigos uns dos outros. Mudar de rumo? Sim, na direção do "nós", da cooperação de todos com todos e na solidariedade universal e não do "eu" que exclui. Se tivermos altruísmo e compaixão não deixaremos que os fracos sejam vítimas da seleção natural. Interferiremos cuidando-os, criando-lhes condições para que vivam e continuem entre nós. Pois cada um é mais que um produtor e um consumidor. É único no universo, portador de uma mensagem a ser ouvida e é membro da grande família humana. Isso não é uma questão apenas de política, mas de ética humanitária, feita de solidariedade e de compaixão.

Por Leonardo Boff

Extraído DAQUI

sábado, março 20, 2010

Porquê Celebrar o Equinócio de Outono?

Dia 20 de Março é o Equinócio de Outono no hemisfério sul; dentro de dez dias entramos nas estações frias (ao menos aqueles que vivem mais longe do Equador). O outono, como a primavera, é uma estação de mudança; no entanto, enquanto a primavera tem cheiro de renovação e gosto de renascimento, o outono é uma época mais introspectiva, que nos chama a prepara-nos para o período mais escuro e frio do ano.

As celebrações já não são as mesmas de antigamente

Antigamente, a transição das estações era uma parte importante da vida. Os equinócios e solstícios eram celebrados, não só por motivos religiosos, mas porque a vida diária era diretamente afetada pela natureza, pelo clima. Hoje em dia, com o ar condicionado, a calefação, a urbanização e a produção industrial, essas celebrações se perderam. O passar das estações perdeu significado e importância. O que é uma pena. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Uma pena porque com isso uma parte de nós se perdeu – principalmente para as mulheres. Essas celebrações nos ajudavam a conhecer e compreender os ciclos da vida, da natureza, de nosso próprio corpo e espírito.

Celebrar é uma Necessidade

Apesar da modernidade, ainda sentimos necessidade de ter esse conhecimento e essa compreensão, embora estejamos imersas na massificação da sociedade industrial de consumo, onde todos os dias, meses e anos são iguais – desprovistos de significado. Um bom exemplo disso é o fim do ano – o excesso das festas, de compras, de comida e bebida, a fúria das resoluções de ano novo, que logo caem no esquecimento. Nos entregamos à esses excessos, porque já não sabemos como celebrar de forma adequada, de forma a encher-nos a alma (e não somente a barriga).Sentimos a necessidade de celebrar, de marcar a passagem do ano, de encerrar um ciclo – mas não sabemos como.

Ritos de Passagem são Terapêuticos

Celebrações são (ou deveriam ser) ritos de passagem. Assinalam o final de um ciclo e o começo de outro, nos situam no contexto do todo, inserem nosso micro-cosmo pessoal dentro do macro-cosmo Vida.Nos convidam a olhar para trás, para o ciclo que está finalizando, e descobrir o que aprendemos, quais foram nossos erros e nossos acertos; e nos dão informação sobre o próximo ciclo, sugerindo como deveremos agir, quais deverão ser nossos próximos passos. Porquê Celebrar o Equinócio de Outono? Prestar atenção nos ciclos, entendê-los, honrá-los e celebrá-los é extremamente terapêutico. Essas práticas restabelecem a conexão com nós mesmas, nos dão alegria, paz e tranquilidade. Recuperar essas tradições de passagem, esses ritos e celebrações, essa forma de contar o tempo, só depende de nós. Você não precisa se fantasiar de bruxa e acender uma fogueira no meio do mato, para recuperar a magia e o significado dessas celebrações.

Extraído DAQUI.

quinta-feira, março 18, 2010

O retorno da razão?

Os Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) acabam de eleger Cezar Peluso presidente da casa no biênio 2010-2012. Baseado no modelo dos Estados Unidos, como desejava o imperador dom Pedro II, concretizado com a primeira Constituição republicana, de 1891, o STF anda a precisar de uma reformulação. Exemplo: estabelecer prazo de mandato para os ministros, sem direito à recondução, conforme o padrão europeu. Este, aliás, mais democrático e que melhor atende aos interesses dos cidadãos.
Em boa hora chega o independente, preparado e reservado ministro Peluso ao cargo, pois, como bem observou o colunista Wálter Maierovitch, o presidente Gilmar Mendes foi uma tragédia constitucional. Um ministro, principalmente à frente da corte, não pode prejulgar, quebrar o princípio da harmonia e independência dos Poderes, fazer denúncias sem provas (caso da escuta telefônica sem áudio), “chamar às falas o presidente da República”, exigir a cabeça de servidores (vide Paulo Lacerda) e opinar sobre matérias que não dizem respeito ao Judiciário.
Peluso, com formação de magistrado e atuação exemplar como juiz e desembargador, tem experiência e discernimento suficientes para lograr e restabelecer o prestigio do STF. Talvez volte a ser possível repetir uma frase do saudoso jurista Píero Calamandrei: “As qualidades dos magistrados excedem de modo notável os seus defeitos”.

A volta da razão? – Revista Carta Capital, edição no. 587, p. 20

sábado, março 13, 2010

200 anos do nascimento de Chopin

Dia primeiro de março, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento de Frédéric Chopin, um dos principais nomes da história da música. Há certa discussão em torno da data exata do nascimento do compositor. Alguns historiadores afirmam que Chopin teria nascido em 22 de fevereiro; outros, em primeiro de março. A grande questão é que Chopin é uma figura importante para a composição pianística. As caractétiscas esboças em sua música, torna-a em algo inconfudível. Suas composições estão cheias de melancolia, de tons e acetinações ocasuais; de leveza, frescor, dúvida, lembranças, tristeza e fúria.
Chopin nasceu na Polônia, país do leste europeu. Mais tarde abrigaria outros nomes importantes das artes. Franz Kafka, por exemplo. No século XX, temos o nome de Penderecki. Ainda muito novo (e isso antes do vinte anos de idade), Chopin compôs seus dois concertos para piano e orquestra. São dois concertos da mais alta distinção. Estão entre os principais que já foram compostos. São doces, introspectivos, tristes, liricamente impecáveis. O de número 1 foi composto por último e o número 2, primeiro. Essa alternância é meramente classificatória. Dono de uma personalidade sensível, de compleições e gestuais recatados, Chopin muda-se para a França. Lá faz sucesso. Seus trejeitos chamam a atenção dos franceses. Toca nos cafés e quando isso acontece, o público silencia para ouvir a sua música, emotiva, com cargas tocantes de grande beleza. À época não havia gravações como as de hoje. Para que o artista tornasse conhecida a sua arte, era necessário que ele tivesse pessoas que a apresentasse; ou que ele mesmo fizesse isso. Sua saúde era frágil. Dos trinta anos em diante, percebe-se um agravamento em sua condição. A tuberculose pouco a pouco o fulmina. Vive à procura de melhores ares para "estancar" o seu problema crônico. Teve um caso sentimental com George Sand. Morre aos 39 anos, ainda muito novo. O fato é que o mundo não poderia ficar privado da singularidade Chopin. Suas polanaises, mazurkas, noturnos, estudos, beceuses e outros, possuem tons identitários. É fácil ouvir e afirmar: "É Chopin!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Sábado, 13 de março de 2010.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Sou assim...

Dizer que sou assim e assim é arriscado.
Estaria vendendo a você apenas uma porção
Limitada de mim mesmo – ou uma versão falsa.
Sou mais que as palavras.
Sou mais que teus conceitos.
Sou mais que as definições e as tendências
Dos arrimos do decoro.
Sou mais que as habilidades e pretensos carismas.
Quer saber quem eu sou?
Descubra-me todos os dias.
Faço-me a cada manhã e a tarde já não sou
O mesmo; meto-me na escuridão quando
A noite chega.
Dentro de mim flui o tempo, esse mistério
Imaterial que acrescenta dores, emoções,
Saudades, irritações, conclusões, que faz
Maturar os pedaços de opiniões que vou
Cozinhando no engenho do meu espírito.
As palavras são muito poucas para me definir,
Para definir você também, pois o modo como me vejo
Difere de como você me vê.
Encontrei em Jorge Luís Borges, o fantástico escritor
Argentino algumas palavras indicativas daquilo que sou,
Daquilo que nós somos no poema “Heráclito”
do livro Elogio da Sombra.
Não poderia deixar de citar aturdidamente tais palavras,
Eivado pelo intransigente mistério dos processos universas que me habita,
Que nos habita, que nos promove, que nos demove.
Fala, Borges:
“Que trama é esta
do será, do é e do foi?
Que rio é este
pelo qual flui o Ganges?
Que rio é este cuja fonte é inconcebível?
Que rio é este
que arrasta mitologias e espadas?
É inútil que durma.
Corre no sonho, no deserto, num porão.
O rio me arrebata e sou esse rio.
De matéria perecível fui feito, de misterioso tempo.
Talvez o manancial esteja em mim.
Talvez de minha sombra,
fatais e ilusórios, surjam os dias”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: segunda-feira, 21 de julho de 2008, 19:22:39.

sábado, fevereiro 13, 2010

Qual a essência do Carnaval?

No Brasil, a primeira coisa que vem à mente quando se fala em carnaval são os desfiles das escolas de samba. Em algumas regiões do país, são os trios-elétricos ou o frevo. Mas seria o carnaval uma festa brasileira? Quantas pessoas não estranham quando ouvem falar do carnaval de outros países? Mas essa festa existe há muitos anos, em muitas partes do mundo e com significados diferentes.Como todos os festejos que comemoramos durante o ano, o Natal é um exemplo, o carnaval tem origem pagã, mas a Igreja o instituiu no seu calendário como uma festa cristã. Moderada, claro. Era chamada de “carnem levare”, a despedida da carne, já que a partir da quarta-feira de cinzas deve-se, segundo os preceitos religiosos, fazer jejum e penitências, período chamado de Quaresma e que antecede a Páscoa (outra festa não cristã que foi “sequestrada” pela Igreja). Antes, porém, os festejos eram realizados para comemorar a proximidade da chegada da primavera no hemisfério norte e cultuar diferentes deuses, dependendo da cultura. Na Grécia antiga, o deus cultuado era Dionísio. Dionísio era o deus do vinho, dos festejos e da fertilidade. Daí a relacioná-lo com o carnaval é um passo. Afinal, nessa festa as pessoas bebem muito, se divertem e, claro, se deixam levar pelos prazeres da carne, resultando, muitas vezes, em gravidez indesejada. Costuma-se dizer que no Brasil o mês de novembro é o que computa o maior número de nascimentos. Na mitologia romana, Dionísio é relacionado a Baco, e as festas em sua honra eram chamadas de bacanais. Preciso entrar em maiores detalhes? Quando a festa partiu para esse lado, o carnaval passou a ser condenado pelos religiosos. Com o passar dos anos, a festa foi agregando novos significados e novas formas de comemoração. Em Veneza, por exemplo, um dos carnavais mais conhecidos no mundo, surgiu quando a nobreza começou a usar máscaras para se misturar ao povo e se divertir. O carnaval, portanto, não é uma festa genuinamente nossa e não pode ser considerada como representativa do povo brasileiro, até porque muitos preferem realizar outras atividades nesse período. É uma festa importada (assim como está acontecendo com o Dia das Bruxas, muito criticado por ser uma festa americana) e adaptada ao nosso jeito. A diversão seria a palavra que mais tem a ver com o carnaval. É uma festa popular e, como em toda a festa, o que se quer não é esquecer um pouco os problemas, cair na folia, ter liberdade para extravasar? Como escreveu o filósofo Nietzsche, contrário à moral religiosa que sufoca nossos instintos, devemos deixar aflorar o lado dionisíaco que temos, pois “felicidade é sinônimo de instinto”. Então pode ser qualquer tipo de música, não só o samba, marchinha, axé ou frevo. Até o rock serve. Pois justamente os desfiles de escola de samba, da maneira como estão sendo realizados atualmente, perderam muito dessa essência que é a diversão. A disputa por títulos é a grande culpada por isso (como no futebol, em que uma taça vale mais do que um jogo bonito). As escolas, ao seguir à risca o cumprimento de quesitos para obter boas notas, engessaram suas apresentações. E carnaval com regras, sem liberdade, não é carnaval.

Por Cassionei Niches Petry

Extraído DAQUI.

terça-feira, fevereiro 09, 2010

Metafísica abolida – materialismo radicado.

Se algum homem de uma civilização

Passada viesse a nos visitar ficaria assustado.

Constataria que geramos os mais

Estranhos e bizarros empreendimentos.

Criamos um estilo de vida de

Ebriedades e vícios fetichistas.

A divindade constituída é a matéria.

Esta deidade impele, molda os desejos.

Os homens nunca se saciam.

Os encantos constituídos criaram

Uma dependência e muitas necessidades.

Tem-se uma síndrome fáustica.

A inocência foi perdida.

Todos os regalos, todas as orgias,

Lubricidade e sofreguidões

Não saciam as intenções individuais.

Afastados um dos outros,

Somos galáxias solitárias.

Desaprendemos a falar.

O ouvir já não é mais uma virtude.

Quando se caminha pelas largas avenidas

De pedra, nota-se a opacidade de cadáveres vazios.

Conectados à grande teia.

Um nó nos amarra.

Um universo frio, programado,

Feito por processamento media as nossas relações.

O frio leitoso, imparcial.

Temos um novo tipo de sacerdote.

Uma esquizofrenia se apoderou de cada um de nós.

O que somos?

Em que nos tornamos?

A esfinge perguntaria ao homem de hoje:

“Qual é o ser que jamais se sente saciado,

Mesmo estando farto com todos os manjares do mundo?”

Tal pergunta seria muito óbvia.

A nossa gula é a doença que nos molesta.

Criamos fórmulas para a felicidade.

Ela é manipulável, desde que condicionada

A determinados parâmetros.

Vive-se uma tirania da felicidade.

E esta tornou-se cada dia mais rara.

Muitos não conseguem desembaralhar a fórmula

E acabam padecendo.

Esse viajor pensaria está entre habitantes de outro mundo.

A velocidade de nossas avenidas é uma

Metáfora de como conduzimos a própria vida.

Se o homem voltasse ao passado, escreveria em tábuas,

Em letras garrafais sobre tal endemia.

Enunciar-se-ia uma profecia para advertir os homens.

Esta permitiria criar novos rumos, novas rotas,

Uma nova vida, uma nova História.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: 17 de outubro de 2008.