quinta-feira, julho 10, 2014

Um país de nomes e fatos contraditórios

"O povo-massa, sofrido e perplexo, vê a ordem social como um sistema sagrado que privilegia uma minoria contemplada por Deus, à qual tudo é consentido e concedido"
Darcy Ribeiro, in O povo brasileiro.

No início do ano, quando fui ao Nordeste, tive a oportunidade de atravessar o estado do Piauí. Foi algo premeditado e prazeroso. Queria ver o Brasil por dentro; enxergar as vísceras de um país esquecido e que está separado do outro do litoral por séculos - evocando Euclides da Cunha. O que me chamou a atenção foi como muitas cidades e monumentos públicos foram "batizados" com nomes de políticos ou antigos oligarcas que dominaram o estado e que passaram o cetro para familiares conservadores, que se beneficiam do amasiamento com a coisa pública, um caso de "fornicação" descarada.

Mas esse não é um problema unicamente do Piauí. Há no Brasil inteiro casos de como os figurões da política deixaram os seus nomes estampados em ruas, construções, cidades, escolas, etc. Em São Paulo, por exemplo, existe a Rua Dr. Sérgio Fleury, um dos delegados mais emperdenidos dos tempos da Ditadura e chefe do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), responsável por torturar e matar uma quantidade enorme de pessoas. Há ainda a Avenida Castelo Branco, um dos generais-presidentes da Ditadura e responsável por um dos momentos de maior repressão do governo militar. Ou ainda, a Escola Dr. Garrastazu Médici, no Rio de Janeiro. Em Brasília, existe a Ponte Costa e Silva. Fico a me perguntar como é admissível tais casos. Em meu simplismo, pergunto: "Por que não se faz uma lei a fim de modificar tais nomes ou então se proibir de colocar nomes de políticos em algo público?" Ainda mais quando tais pessoas estão ligadas ao crime, à tortura e ao genocídio.

Esses casos ilustram um dos grandes e gritantes problemas do Brasil, que é falta de conhecimento da sua própria história. Ontem, por exemplo, foi feriado em São Paulo, que comemorou a chamada Revolução Paulista ou Revolução Constitucionalista, de 1932. O que não se conta é que a data de 9 julho marca a tentativa das oligarquias paulistas da República Velha voltar ao poder, após a sua derrocada em 1930. O início da Era Vargas pôs fim a certo tipo de liberalismo conveniente, que dava a São Paulo e Minas Gerais o comando do país. Para isso, as elites mobilizaram a população, que iniciou um movimento contra o restante do país. Havia uma imagem criada e repetida, que dizia que São Paulo era uma locomotiva que puxava vinte trens vazios. Ou seja, os demais estados do país e muitos intelectuais conservadores como Monteiro Lobato também encabeçaram o movimento. Segundo Boris Fausto: "Muitas pessoas doaram joias e outros bens de família, atendendo ao apelo da campanha "Ouro para o bem de São Paulo"".

A finalidade do movimento orquestrado pelo grupo conservador paulista era retomar o poder e lançar, refundar, a hegemonia que tivera. Hoje, os nomes utilizados representam uma contradição de termos. E isso explica, talvez, o conservadorismo tão visível no estado mais rico do Brasil e como certos grupos políticos (vide o PSDB, o sucessor direto dessa burguesia ressentida) permanecem vivos e encabeçam um movimento pelo atraso. 


quarta-feira, julho 09, 2014

Futebol e rasteira - de ontem, hoje e sempre

"A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
 Graciliano Ramos

Não sou um especialista em futebol. Acompanho alguns jogos. Dou os meus pitacos. E costumo me entusiasmar quando o São Paulo ganha. Claro, nos últimos anos o time tem amargado uma série de insucessos desastrosos. Sou da opinião de que isto é resultado da má gestão que vem lá da presidência do clube. Um time bem acertado em campo é sinal de que possui uma boa administração interna; que há planejamento; a parte financeira traduz transparência, lisura e o resultado pode ser visto em campo. Resgato aquela máxima vulgar de Aristóteles: "O homem é um animal político". E como não poderia deixar de ter uma certa resplandecência nessa frase, o futebol por ser uma produção do engenho humano, também, passa pela política. 

Não entendo nada de esquema tático. Sou um crítico acintoso. Às vezes, dou minhas cabeçadas em opiniões desajustados. Todavia, vez ou outra, me pego vendo uma daquelas partidas de meio ou de final de semana. É assim. Mas, curiosamente, desde que havia começado a Copa, eu me vi metido em um ceticismo colossal. Não senti entusiasmo algum por tudo aquilo que foi desenhado com garranchos à guisa de se transformar em algo grandioso, valoroso, pelos homens sabidos de nossa terra.

O futebol é um esporte que contagia pela sua própria natureza. Ele contraria a lógica do corpo e da razão humana. É praticado com os pés. Sendo que os pés são utilizados para manter o equilíbrio corporal e, com o auxílio das pernas, nos levar aos mais variados lugares. Por que não o praticamos com as mãos? Elas são mais nobres. Sem elas, não teríamos chegado ao nível de civilização a que desfrutamos. Contudo, talvez, se o fizéssemos não teria a mesma graça. As mesmas pernas que somente "servem" para conduzir, para levar, são capazes de promover danças mágicas, bailes desnorteadores no adversário como fazia um Garrincha, por exemplo.

O futebol chegou por aqui no final do século XIX, trazido pelos engenheiros ingleses e durante as primeiras décadas do século XX foi esporte das elites. Dizia Graciliano Ramos em uma crônica de época, vociferando com sua pena irônica contra o esporte: "Não seria, porventura, melhor exercitar-se a mocidade em jogos nacionais, sem mescla de estrangeirismo, o murro, o cacete, a faca de ponta, por exemplo?" Lima Barreto por não ser branco foi um dos mais destacados detratores do novo esporte.

Com o passar do tempo, o futebol se tornou uma unanimidade nacional. Existe até uma sociologia do povo brasileiro a partir do futebol, como o fez Roberto da Matta. Há no brasileiro uma capacidade para o improviso, para a dança, para o gingado, herança vinda da África. Tais prerrogativas foram úteis ao novo esporte que por aqui chegou. É um esporte que se adaptou bem ao jeitinho do brasileiro. Acostumamo-nos a isso. Nosso sucesso reside nesta plasticidade do brasileiro e que também é parte inviolável do esporte.

O Brasil é uma das pátrias mais apaixonadas por este esporte. Todavia, uma fragilidade estrutural, que se relaciona com a política, colocou os apaixonados pelo esporte de sobreaviso. Ou seja, o futebol brasileiro enfrenta uma crise séria - da seleção, passando pelos clubes da série A, à última série. Ontem, foi um dos dias mais amargos para a história do futebol brasileiro. Não existe registro histórico de tão grande derrota. O Brasil havia perdido por 6X0 para o Uruguai, mas isso havia se dado ainda no início do século XX. Existem alguns fatores a serem colocados:

(1) aquele que diz respeito a um contexto mais imediato, ou seja, o do próprio jogo. A mídia, talvez, seja a responsável por um trabalho psicológico negativo, já que ela vende produtos e com isso se conecta ao interesse das grandes empresas. Vendeu-se desde o início da Copa a mensagem de que esta seria a competição do Neymar. Ela, nesse sentido, trabalhou contra o time criando especulações; fazendo um movimento negativo; gerando um entusiasmo que não deveria existir, pois o time era ruim. Os jogadores cantaram o hino nacional segurando a camisa de Neymar, como se ele estivesse morto ou fosse a taça da competição. Jogo é estratégia e concentração. E nesse sentido, o time brasileiro estava com os pensamentos em outro espaço. Ao tomar os gols, como se pôde ver, houve uma desestabilização, uma desarticulação psicológica. Questões psicológicas foram determinantes para a derrota brasileira e para a vitória alemã.

(2) apesar de o Brasil ser uma país onde se joga o futebol mais bonito do mundo, a administração do esporte por aqui precisa passar por uma mudança. Ainda existe o mito de que se tem o herói, o messias redentor, capaz de decidir a partida a qualquer momento, como se trabalhou o tempo todo em torno de Neymar. A Alemanha provou que essa tese é ultrapassada. Já caducou. Hoje, quem manda no futebol joga coletivamente. É o espírito de equipe. A mídia precisa de heróis para criar marketing. O futebol brasileiro deve refletir a sua condição. Olhar para o desenvolvimento que as outras equipes conquistaram. Afinal, foi uma Copa em que o equilíbrio foi reinante em boa parte das partidas. Simplesmente, porque houve o entendimento de que "esquema tático também ganha jogo". 

(3)  em texto amplamente divulgado pela mídia pela internet, o ex-jogador Romário fez críticas contundentes ao modo como o futebol tem sido conduzido no Brasil nas últimas décadas. Ao ler o texto, fiquei com a impressão de que os gestores do futebol brasileiros são mafiosos, que vivem dos saldos gordos que o nome Seleção Brasileira gera. Imagino as centenas de milhões que são rolados com patrocínios e direitos. Trata-se, com certeza, de uma agremiação que precisa de toda a atenção por parte dos torcedores. Boa gestão repercute no campo; e má gestão, idem. 

Os brasileiros sentiram uma melancolia nunca antes imaginada. Amargaram no dia seguinte ao jogo uma verdadeira ressaca moral. A Copa pode ensinar uma lição: teremos um segundo semestre árduo. As eleições começam a avultar no horizonte. Em poucas semanas será o assunto do momento. Esqueceremos o fiasco futebolístico. Outras torcidas vão se armar. Alguém terá que pagar o resultado dos gastos. Vislumbro um resto de ano bastante enigmático. E daqui a dois anos as Olimpíadas serão por aqui. Ou seja, mais gastos e novas euforias. Somos um país estranho. Termino esse texto bambo com uma citação completa da epígrafe, que serve de metáfora para o momento atual: 

A rasteira! Este, sim, é o esporte nacional por excelência!"
Todos nós vivemos mais ou menos a atirar rasteira uns nos outros. Logo na aula primária habituamo-nos a apelar para as pernas quando nos falta a confiança no cérebro - e a rasteira nos salva. Na vida prática, é claro que aumenta a natural tendência que possuímos para utilizarmos eficientemente a canela. No comércio, na indústria, nas letras e nas artes, no jornalismo, no teatro, nas cavações, a rasteira triunfa.
Cultivem a rasteira, amigos!
E se algum de vocês tiver vocação para a política, então, sim, é a certeza plena de vencer com auxílio dela. É aí que ela culmina. Não há político que a não pratique. Desde S. Exa. o Senhor Presidente da República até o mais pançudo e béocio coronel da roça, desses que usam sapatos de trança, bochechas moles e espadagão da Guarda Ncional, todos os salvadores da pátria têm a habilidade de arrastar o pé no momento oportuno.
Muito útil, sim senhor.
Dediquem-se á rasteira, rapazes.

domingo, junho 29, 2014

Entrevista - Domenico De Masi (O Brasil como alternativa!)


Há alguns dias atrás estive em Gramado e Canela, cidades famosas e bem procuradas pelos turistas, na Serra Gaúcha. No Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, ganhei um exemplar da "ordinária" Revista Época, da Editora Globo. Não é preciso especular muito para perceber o viés ideológico desse veículo semanal que busca informar (sic.) o brasileiro médio. Ao folhear a revista, nas quase duas horas de viagem pela Serra, fui me impacientando com os colunistas da revista. Chega a níveis insuportáveis o mau-caratismo dos articulistas. Tudo aquilo que tenha o nome ou a resplandecência dos nomes da esquerda é "satanizado" e tratado com imensa verve irônica. Mas, em meio àquele lodoçal de más intenções, eu encontrei uma deliciosa e curiosa entrevista com o sociólogo Domenico de Masi, que conheci por algumas entrevistas que vi há algum tempo. A entrevista servia para divulgar e expor o conteúdo do seu novo livro denominado O futuro chegou, de De Masi, que acabei comprando na 18a. Feira do Livro de Gramado, que estava acontecendo quando cheguei à cidade. Grata surpresa! Curioso um sociólogo, pensador, enxergar no Brasil a possibilidade para a construção de uma nova sociedade - ou pelo menos que o mundo aprenda com o país. Abaixo, a entrevista!

Os brasileiros, de um tempo para cá, passaram a ver sociologia em tudo – até no rolezinho dos adolescentes. Talvez seja uma característica do país. “Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropológos”, diz o italiano Domenico De Masi, de 75 anos. “Tanto que vocês elegeram um sociólogo para presidente.” De Masi, que também é sociólogo, é um profundo conhecedor do Brasil. Mergulhou nas obras de autores fundamentais para a compreensão do país, como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro e Sérgio Buarque de Holanda. A admiração pelo Brasil está presente em seu novo livro, O futuro chegou – Modelos de vida para uma sociedade desorientada 

ÉPOCA – Entre os autores brasileiros que o senhor leu, qual deles mais o impressionou?
Domenico De Masi – O Brasil tem a sorte de ter tido no passado e ter no presente intelectuais de alto nível, que projetaram a identidade e enalteceram os valores brasileiros, ganhando respeito em todo o mundo. Enquanto na França prevaleceram os filósofos, na Inglaterra os economistas, na Espanha os escritores, na Alemanha os músicos, no Brasil prevaleceram os sociólogos e os antropólogos. O Brasil é o único país do mundo que teve um grande sociólogo na Presidência da República – e por duas vezes. Por isso, e por seu imenso patrimônio cultural, espero que sejam os intelectuais brasileiros a guiar a elaboração de um modelo de desenvolvimento mundial necessário para vencer a desorientação de nossa sociedade e dar uma dimensão unificada e global para as diversas regiões da Terra. Li e me apaixonei pelo pensamento de muitos intelectuais brasileiros, mas dois deles me enriqueceram de modo particular: Darcy Ribeiro, que não tive tempo de conhecer, mas de quem li toda a imensa obra; e Oscar Niemeyer, com quem tive uma profunda amizade. Ambos deram uma contribuição criativa inestimável para impor ao mundo a excelência original do modelo brasileiro.
 
ÉPOCA – O senhor afirma que o Brasil é rico materialmente e rico de esperança, por isso tem algo a ensinar ao mundo. E as sociedades que eliminaram a miséria, como o Japão, o Canadá e os países escandinavos? Não seriam eles os melhores exemplos?
 
De Masi – Japão, Canadá e os países escandinavos têm muito a ensinar nos aspectos econômicos e sociais para ajudar na construção do novo modelo que o mundo precisa. Mas não se vive só de pão e bem-estar não é sinônimo de consumo. A felicidade de um povo e a excelência de seu modelo de vida não dependem apenas da riqueza. Os japoneses têm um PIB per capita de US$ 46 mil, mas se suicidam com tamanha frequência que, em 2007, o governo japonês sentiu a necessidade de publicar um Livro Branco antissuicídio. O Butão tem um PIB per capita de apenas US$ 2.400. Mas adota o índice de Felicidade Interna Bruta (FIB), que contempla a qualidade do ar, a saúde dos cidadãos, o ecossistema, a educação, o desenvolvimento de comunidades locais e a riqueza das relações sociais. Com base no PIB, esse pequeno Estado é um dos mais pobres da Ásia. Se levarmos em conta o FIB, passa ao primeiro lugar no continente e oitavo no mundo.

ÉPOCA – Em que o Brasil pode contribuir?
 
De Masi – O Brasil tem um PIB que o coloca na sexta posição no mundo (segundo dados de 2012 do Banco Mundial, o Brasil tem o sétimo PIB mundial), e, com seus US$ 12,6 mil de PIB per capita, pode se orgulhar de ter preciosos recursos econômicos, cada vez mais escassos no resto do mundo e cada vez menos desprezíveis na construção do novo modo de vida. Penso na copiosa mistura de raças aliada ao baixo índice de racismo, no sincretismo cultural, no amor pelo corpo, na sensualidade, na cordialidade, na musicalidade, na propensão do brasileiro a assimilar as contribuições dos estrangeiros, na hospitalidade, na alegria, na espontaneidade, na abertura ao novo e ao diferente, na tendência a encarar a realidade com um pensamento positivo, na capacidade de considerar fluidas as fronteiras entre o sagrado e o profano, o formal e o informal, o público e o privado, o emocional e o racional. A todos esses elementos positivos já presentes, hoje devemos acrescentar dois: o aumento da consciência dos grandes desafios a ser enfrentados e superados dentro do país – corrupção, violência, desigualdade, deficits educacionais –, e a percepção, agora clara, de ser um país de ponta, diferente e positivo, capaz de propor, mesmo no exterior, com orgulho, sua própria maneira de ser.
 
"Quando o novo modelo surgir,
o brasileiro terá orgulho
de seus ancestrais índios"
 
ÉPOCA – Qual foi seu objetivo ao identificar 15 modelos de sociedade? Os modelos certamente nos ajudam a entender o passado. Compreendê-los ajuda a melhorar o futuro?
 
De Masi – Cada sociedade formou a base de um modelo existente. A Idade Média cristã foi estruturada na pregação de Cristo e na doutrina elaborada pelos padres da Igreja do Oriente e do Ocidente. A sociedade muçulmana nasceu e se desenvolveu seguindo o padrão ditado por Maomé e pelos califas que lhe sucederam. A sociedade dos Estados Unidos se fundou com base num modelo que gradualmente influenciaria todo o Ocidente e que se inspirou em ideias protestantes, iluministas e puritanas. O modelo liberal que triunfou no século XIX e que ainda afeta nossa economia e nossa política é derivado do pensamento de John Locke, Adam Smith, Alexis de Tocqueville e outros. A sociedade soviética tentou a construção do modelo concebido por Marx, Engels e Lenin. Nenhum modelo de vida passado ou presente é capaz de tornar felizes os homens que os adotaram. Mas temos o dever de abordar a plenitude da vida, melhorando os modelos que não nos satisfazem. Não estou convencido que o bem-estar econômico seja uma meta coletiva que deva ser encampada pelo Estado, enquanto a felicidade deva ser uma meta pessoal que cabe apenas ao indivíduo atingir. Creio, no entanto, que o indivíduo não possa se aproximar da felicidade plena se o contexto social em que ele vive é violento, injusto, anárquico, desnorteado, negativo, predatório. Assim, cabe ao Estado garantir as condições essenciais para todo cidadão cultivar a própria felicidade.
 
ÉPOCA – Entre os modelos em que o senhor dividiu a humanidade, alguns produzem muito mais pobreza. Outros produzem muito mais abundância. Isso já não indica uma clara superioridade de alguns modelos em relação a outros?
 
De Masi – Os modelos japonês e protestante produziram mais riqueza, mas os modelos clássico e católico produziram mais humanismo. O modelo dos Estados Unidos produziu mais guerras que o do Brasil, que por sua vez é mais dinâmico e positivo que o modelo de italianos e franceses. Os modelos politeístas são menos intransigentes que os monoteístas. Todos os 15 modelos analisados apresentam qualidades e defeitos. Nenhum sozinho basta para orientar o homem pós-industrial, portador de necessidades inéditas em relação àquelas das gerações que o precederam.

ÉPOCA – O senhor sugere que a humanidade deveria abraçar um novo modelo. Mas não seria mais simples copiar ou melhorar o que já existe?
 
De Masi – É necessário estabelecer o modelo capaz de assegurar a maior felicidade possível para a sociedade pós-industrial. Sem esse modelo, não sabemos qual meta buscar nem como aproveitar os recursos que nos permitam chegar lá. Uma vez elaborado o modelo ideal de futuro, caberá a cada comunidade melhorar o modelo defeituoso que adota atualmente, a fim de aproximá-lo do ideal. Cada modelo atual ou do passado, sendo o resultado de um longo projeto, uma longa reflexão e testes, tem algo bom que deve ser incorporado ao novo modelo. Até agora, um “poder forte”, como Roma, a Inglaterra ou os Estados Unidos, elaborava um modelo e todos os países colonizados eram obrigados a adotá-lo. Hoje, temos as condições tecnológicas e sociais que permitem a concepção do novo modelo, assim como ocorre com as informações nas redes sociais e na Wikipédia.
>> Daniel Goleman: "A tecnologia degrada nossa concentração"

ÉPOCA – O senhor diz que o novo modelo incorporará valores dos antigos índios brasileiros. Como é essa ideia?

De Masi – Na metade do século XIX, a cidade mais industrializada do mundo era Manchester (na Inglaterra), onde apenas 6% dos trabalhadores estavam empregados. Nas atuais fábricas pós-industriais, um terço dos trabalhadores desenvolve atividades criativas. Os outros dois terços estão engajados em atividades executivas do tipo física ou intelectual, destinadas a ser absorvidas por computadores e robôs. Num futuro bem próximo, como previu (o economista britânico John Maynard) Keynes no fim dos anos 1930, só haverá trabalho criativo, enquanto a maioria dos trabalhadores não terá de trabalhar mais que 15 horas por semana. Em grande parte do mundo, a relação entre tempo e vida será muito similar àquela dos índios, centrada em atividades rituais e estéticas. Quando o novo modo de vida for desenhado e incorporar também esses valores, os brasileiros ficarão orgulhosos dos ancestrais indígenas de que hoje se envergonham. E nada impedirá nossos netos de somar os benefícios do ócio criativo, do senso estético e da sabedoria indígena aos benefícios da ciência e da tecnologia pós-industrial.

terça-feira, junho 24, 2014

Ponto de vista!

Lendo o texto abaixo eu pude perceber e refletir um pouco mais sobre o quanto não existe isenção naquilo que é trabalhado pelos figurões da publicidade e do jornalismo nativo mal intencionado. Olho de soslaio para a Copa. Fujo dessa histeria que foi construída em torno do mundial. Todavia, o brasileiro em geral oscila entre a euforia e uma visão depreciativa do seu país. Tal "complexo negativo" é uma consequência do nosso processo de formação. Se analisarmos a nossa constituição, perceberemos que a nossa identidade enquanto sociedade foi formada por uma lógica exploratória. A nossa colonização não aconteceu com o propósito de que formássemos uma coesão em torno de projetos, intenções, sonhos e esperanças. Fomos explorados, expropriados daquilo de que melhor possuíamos. Deve ser levando em conta ainda que uma elite patrimonialista e analfabeta sempre se utilizou do Estado para fins próprios. Essa elite sempre buscou viver "uma Idade Média", ou seja, sempre buscou "feudalizar" as relações históricas e tirar vantagens disso. E ela ainda está aí! Os barões da mídia vêm daquelas antigas famílias que sempre viram esse país como uma "ilha" atrasada para as suas maracutaias, como trabalha tão bem o cineasta Glauber Rocha no seu raivoso "Terra em Transe". Essa mesma elite tira proveitos do poder de alcance que as informações têm em nosso momento histórico, para inventar factoides e tirar vantagens políticas. Analise-se o nome das famílias que são detentoras do meios de comunicação e pode se perceber que elas se ligam aos antigos coronéis da Colônia. Ultimamente, a grande moda foi, desde julho do ano passado, quando começaram as manifestações, que "murcharam" justamente por não ter um projeto, uma pauta política, falar mal do país. Já se aprendeu historicamente que revolução não se faz sem um projeto de coesão, sem uma operação sistemática de ideias com uma finalidade explícita. Apenas um ajuntamento de pessoas atomizadas não gera mudanças, caindo consequentemente na anarquia como vimos. Pois, a mídia tem explorado ao máximo esse episódio, pois com isso ela alcança três objetivos: (1) enfraquecer o governo da Dilma Rousseff e do PT. Deve ser ressaltado que a esquerdopatia e o antipetismo atual são justamente resultado desse trabalho. (2) cria uma imagem negativa do Brasil para o mundo, confirmando sua tese histórica de que somos "um povinho incivilizado"; e que aqui só temos Carnaval e Futebol. (3) sua militância resulta em lucros e em uma sociedade que não toma consciência de si e, com isso, a hegemonia dela fica preservada. Nesses dias de Copa, já passei pelos aeroportos de Brasília, Congonhas, Porto Alegre e Guarulhos e não vi o caos propalado pelos "cavaleiros do apocalipse". Pelo contrário, vi muitos estrangeiros admirados - coreanos, argelinos, equatorianos, nicaraguenses, etc. É terrível quando não nos conhecemos. Isso acaba fazendo com que não nos valorizemos. Quando isso se dá, tornamo-nos alvos fáceis para sermos cooptados politicamente e filosoficamente. Um país capaz de desligar a TV e ligar sua atenção na programação da sua história, tem tudo para promover mudanças consideráveis. Afinal, como diz a música da Nação Zumbi: "A revolução não vai passar na TV". Isso não traria solução a todos os nossos problemas, mas nos daria paz para construirmos uma sociedade diferente. Abaixo, um belo texto"

"Parte do que dizem de nós não está sob nosso controle. Mas é possível trabalhar a imagem do país no nível da influência e da reputação. Como fazem pessoas e marcas. O Brasil é uma marca. Que nós, os donos dela, temos tratado muito mal. Imagine o dono de um produto que vibra mais quando falam mal do seu produto do que quando falam bem dele. Esses somos nós".


quinta-feira, junho 12, 2014

Opinião - uma pensata sobre o hoje


Certa vez, li um adágio do poeta inglês T.S. Eliot que dizia mais ou menos assim: "Numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária é que parece que está fugindo". Parece bobo, reativo, "do contra" afirmar isso, mas não simpatizo em nada com essa histeria a respeito da Copa do Mundo. Em muito, a minha visão pessimista, que acredito ser ciorânica (de Cioran, filósofo romeno), permite-me manter a prudência e lucidez necessárias, tirando os meus pés de convicções moles e agradáveis como algodão doce. 

A ostentação, o delírio enfronhado em desejos de triunfos epidérmicos, transforma o país em um ninho de ingenuidades. É bom que agreguemos à nossa rotina mais esta anestesia para que não façamos uma reflexão sobre nossa condição, sobre a nossa história. O Governo diz cinicamente que esta será "a Copa das Copas". O meu espírito marxista da contradição me conduz à seguinte pergunta: "Para quem?" Tenho convicção de que esta Copa trará satisfações, mas não será para mim, nem para tantos milhões de brasileiros. 

Ela trará satisfação para a FIFA, que sairá daqui com alguns milhões no bolso; será positivo para as empresas que compraram os direitos de transmissão; para as sociedades esportivas, que se locupletarão com cifras estratoféricas; para as corporações que se aproveitarão para inocular as suas presas sedentas na "carne suculenta" dos lucros por causa da quantidade de espectadores (consumidores passivos). 

O Brasil gastou mais de oito bilhões com a preparação da Copa. Vimos os estádios (os templos) sendo construídos do dia para noite. Tal fato me deixou com a impressão de que eu não estava no Brasil. Fomos rápidos. Céleres ao extremo. A coisa ganhou contornos ex nihilo. Mas quando causas mais nobres são debatidas, notamos uma exarcebante dificuldade para materialização dessa mesmas causas. Uma tenativa de debate para construção de escolas, casas populares, estradas, hospitais, infra-estrutura em cidades caóticas, a coisa se arrasta de forma langorosa. Uma lei com o objetivo de combater a corrupção; os vícios do Judiciário; não vêm à tona com tanta facilidade. Terrível. 

O Brasil é o país das incoerências. Dos mandos e desmandos. Dos patrimonialismos indecentes. Das sedimentações escandalosas. Por isso, e em decorrência disso, quero andar na direção contrária. Quero firmar um pacto com a indiferença. Essa é a minha postura política. Respeito aqueles que estão entusiasmados. Contudo, já vi e percebi muitas injustiças, desatinos, espertezas, vilezas, para continuar com um otimismo ingênuo, como se estivesse numa terra onde emana bom senso, justiça e honestidade. O futebol representa diante disso tudo uma injeção de morfina a fim de amenizar os arranhões provocados pela batalha que é viver em um país como o Brasil.


domingo, maio 25, 2014

Uma reflexão...



"Caminhante, não existem caminhos. Os caminhos se fazem ao caminhar". 
Rubem Alves

É curioso como o tempo nos leva a aceitar determinadas coisas - e a rechaçar outras. Torná-las menos palatáveis.   Eventos que mereçam atenção, projeção de perspectiva. Vivi por quase uma década metido com a religião. Converti-me à fé protestante no final de 1999. Conheci pessoas. Fui a cultos. Direcionei minhas preces ao céu para ter um melancólico silêncio. O cicio perdeu-se no espaço. Caiu da altura para a qual eu o direcionei. E o meu grito é apenas um eco represado dentro de mim.
                Estudei para ser clérigo. Li bastante. Debati com os meus iguais. Enchi-me de romantismo. Realizei prédicas. Instei a tantos quantos achei pelo meu caminho. Quis revelar o fantástico mundo ideal da religião. Descortinar a “salvação” – afinal, vivemos em um mundo de perdidos (aqueles que ainda não aceitaram “a salvação”) e os eleitos remidos (aqueles que foram visitados pela “salvação” e aceitaram-na). Tornei-me “chato” para com alguns que não quiseram dar ouvidos àquilo que eu dizia. Tentava empurrar o meu “entendimento” de garganta abaixo gerando, consequentemente, sequelas indesejáveis nos outros. Quando estamos convictos de algo, não respeitamos as singularidades. E por isso que Nietzsche disse certa vez que “existem determinados pressupostos, certas credulidades, que são demoníacas”. Ou seja, elas fazem mal, pois são mesquinhas, aviltadoras, inquisidoras, geradoras de vítimas por não conseguirem lidar com a diferença.
                Entendem que o mundo está cindido em duas cores: o verde e o roxo, hipoteticamente. Colocam óculos que determinam uma única visão; um víeis preconceituoso e reducionista.  Então se o bem é representado pelo verde, todas as demais cores são nocivas por não serem verdes. Se o roxo é a cor da virtude, tudo aquilo que não tenha essa semelhança, torna-se sem graça e é tratado sem deferência. É daí que brotam os conflitos religiosos.
                O tempo em que vivi em meio ao nicho religioso conheci pessoas de todos os calibres – mansos, eufóricos, fingidos, solidários, gananciosos, arrogantes etc. Toda fauna humana encontradiça em qualquer lugar do planeta.  Minhas leituras, minhas reflexões, fizeram-me refletir sobre determinados fenômenos:

(1) A fé é um fenômeno humano: inquestionavelmente a fé é um fenômeno pertencente apenas ao mundo humano. Se os cavalos tivessem uma fé, os deuses dessa fé teriam uma fisionomia equina. O ser humano criou a religião como uma tentativa de lidar com alguns medos, receios e eventos trágicos que estão longe do seu controle. Fico a pensar no homem da pré-história. Os fenômenos naturais eram eventos não controláveis. Não se pode mandar no sol; na água da chuva; nas estações dos anos. Esse mesmo homem quando sentia a necessidade de buscar aquilo que lhe era necessário para a subsistência, dependia necessariamente dos “humores” da natureza. Por não possuir a previsibilidade científica que atualmente nos é banal, esse mesmo homem precisava invocar um poder capaz de subjugar as forças da natureza.  Ao olhar para o céu numa noite escura, os nossos antepassados deveriam morrer de pavor por perceber um mistério intangível escondido atrás de cada sinal luminoso que brilhava no céu. Afinal, se tudo está aqui e eu não tenho controle sobre isso, existe alguém que possui. Como diz Marcelo Gleiser: “os céus eram vistos como manuscritos sagrados”. E nos “manuscritos” estão escritos os mistérios recônditos de sinais milenares, redigidos por forças inumanas que coordenam o destino de todos os seres. Avançamos enquanto civilização humana. Mudamos a forma como lidamos com a matéria. Subjugamos determinados fenômenos que no passado eram impensáveis. Mas trouxemos conosco, apesar de tudo, determinadas compreensões que são atemporais. E talvez nisso achemos a resposta na assertiva de Pascal: “Esses espaços infinitos nos apavoram”. De certo. O medo da morte, das tragédias, das doenças, da ausência de pessoas queridas, leva-nos a criar uma força que nos acalente, que nos erga de nossas dores, de nossos terrores que nos atormentam. Nesse sentido, a religião constrói um muro em torno de nós para nos trazer consolo. Como diz Rubem Alves: “A religião é um dique construído contra o caos”. Se ela fosse extirpada do planeta muitos indivíduos ficariam loucos, matariam a si mesmos, por se negarem a aceitar tal fato, pois a religião é um fenômeno unicamente dos seres humanos. Nossa existência Planeta Terra é algo imensamente recente. Não vivemos nem uma décima parte daquilo que os dinossauros, por exemplo, viveram no planeta. Mas temos a presunção de formular julgamentos e sistemas que ultimam todas as coisas; que torna toda a realidade explicável pela teoria da lacuna. Deus, por isso, torna-se a “causação” de todo evento; a resposta justificável a todo movimento, força ou circunstância do cosmos. Enquanto estivermos neste planeta, enquanto tivermos a consciência de que estamos conscientes seremos animados por tal diligência.

(2) A espiritualidade está em todo canto: Já que a religião é fenômeno intrínseco ao ser humano; adorno de sua existência, pois desde os tempos ancestrais carregamos tão grande intuição, não podemos negar a espiritualidade. Todavia, não podemos confundir espiritualidade com o fenômeno religioso. A espiritualidade é aroma colhida pela alma, resultante da estética da natureza. Existe, inegavelmente, uma estética na natureza e uma capacidade humana para criar. Agimos assim por sermos seres complexos e que trazemos à existência a beleza. Escrevemos poesias, livros; pintamos belos quadros; compomos músicas encharcadas de delicadeza; construímos determinados objetos que trazem satisfação aos olhos; ouvimos determinados sons que nos emulam o interior; ou simplesmente enxergamos determinados espaços, eventos ou situações produzidas que trazem efeitos incríveis sobre os nossos sentidos.  Assim, a espiritualidade independe de forças religiosas. Ser espiritual é poder fruir um poema; uma voz delicada que faz balançar o nosso coração; uma poesia que nos aquece o interior; a visão de uma planície ou colina que faz erguer a admiração, enchendo os nossos lábios de contentamento e um riso sempiterno. Sou daqueles que acreditam que a espiritualidade está em toda parte e, pode até mesmo, estar dentro do nicho religioso. Todavia, ela não está reservada apenas ao nicho; ela não é fruto privativo de determinadas pessoas. Espiritualidade é sensibilidade. É por isso que Alberto Caieiro, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, diz em seu lindo e espiritual O guardador de rebanhos:

(...) Não acredito em Deus porque nunca o vi
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta adentro

Dizendo-me, Aqui estou!
(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e o sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol

(...) Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos...
E não nos dará mais nada, porque dar-nos mais
Seria tirar-nos mais.

(3) Está em determinado igreja (seita) não me torna uma pessoa necessariamente melhor: Não sinto inveja ou qualquer manifestação de pesar por não estar em uma comunidade, assim como aqueles que estão presos e circunscritos em determinadas geografias religiosas. Em muitas situações as patologias de determinado grupo, ou seja, a psicologia social do grupo é instilada nos membros daquele grupo. Isso acontece com muitas agremiações políticas e outros ajuntamentos humanos. Num dado sentido, está no grupo legitima ou consolida as minhas crenças, pois ali estão pessoas que coadunam com a minha visão de mundo. Assim, dependendo do modo como eu me relaciono com os códigos expressos neste ajuntamento, a transposição desses códigos para o mundo material, para a vida real, pode me tornar em um sujeito limitado e encerrado em meus preconceitos.

(4) A psicologia da fé: a religião é um fenômeno lingüístico, que por sua vez se torna em consciência para aquele que crer. A linguagem é um instrumento de mediação entre o homem e o mundo. É por meio dos signos criados pelo homem ao longo de sua história que esse mesmo homem encontra sentido para as coisas que estão no mundo. Por não contemplarmos a realidade face a face, precisamos de algo que sirva de veículo simbólico que porte as intenções determinadas naquilo que criamos. Para isso utilizamos a linguagem que, também, é um fenômeno complexo no mundo humano. E nesse sentido, determinada linguagem nos conduz a determinadas interpretações. É justamente na interpretação que apreendemos o símbolo que ressignifica o mundo. Ou seja, o mundo e as minhas emoções se abraçam nessa interpretação. E a partir daí que crio minhas preferências e determinado ponto de vista sobre determinado fenômeno, pois interpreto o fenômeno e esse fenômeno ganha carne em minhas emoções, mas isso não se dá diretamente. Acontece por meio de uma interpretação que é inculcada em minha consciência, criando uma estruturação, uma segurança em meu mundo interior. Falar é sempre revelar algo o qual eu já experimentei pela interpretação daquilo que fui, senti, vivenciei. O mundo que defendo é aquele que gira em torno dos meus valores e crenças internalizados. Eu freqüento as coisas e as coisas me freqüentam. Reproduzo e sou reproduzido. Julio Cabrera, filósofo da Universidade de Brasília, em seu livro A ética e suas negações diz que “Se os deuses e demônios da nossa sobrevivência nos aparecem como independentes, é porque nós mesmos lhes demos independência”. Ou seja, a linguagem quando naturalizada tende a não ser questionada. É assim que se explica a psicologia da fé. Chama-se a isso de conversão. Converter-se é mudar o referencial interpretativo. É, por isso, que Paulo, o criador dos “esquemas dogmatizantes”, um dos sujeitos mais habilidosos da história da Igreja, vai dizer que o sujeito que se “converteu” se fez “nova criatura”; que tudo se fez novo e as coisas velhas já passaram.  Pois ele sabia que essa conversão é um processo de reestruturação e reconstrução dos esquemas interpretativos que sustentam determinados valores dos indivíduos. A conversão gera crise por revelar ao sujeito um conjunto terrível de axiomas que levam, quase sempre, o sujeito à crise. Após passar por uma catarse, o sujeito se apresenta a esse novo mundo com uma nova linguagem; com uma nova forma de portar-se; de se relacionar com o mundo, pois os seus referenciais mudaram também. Na verdade, o que muda é a linguagem e seus valores implícitos que acabam por se coadunarem com as emoções do converso. As mudanças ocorrem como fenômeno, primeiramente, emocional e psicológico. Logo em seguida, essa mudança ocorre no modo como articulamos a sociedade e a história. E por isso, que se mata em nome da religião – e que se morre também -, pois se mudou o modo de relação com o mundo. Explica-se ainda o porquê das orações. Quando o crédulo ora, não significa que sua prece está sendo ouvida; representa meramente o fato de que criamos a expectativa de que alguém está a nos ouvir. Essa consciência gera um conforto, um consolo capaz de nos fazer serenar todos os desmazelos existenciais. O que muda não é o mundo ou a história, mas a minha forma de me relacionar com o mundo e com a história. O sujeito crer pelo fato de ser apresentado a ele um panorama trágico e caótico. Após esse abalo, o sujeito “aceita” os novos códigos, a nova cosmovisão, os novos valores que devem servir de óculos para que ele veja o mundo. Paulo quando escreve aos romanos chama esse evento de metanoia (no grego), que significa “mudança de um determinado tipo de racionalidade ou forma de pensar”.  Assim, ao assumir o discurso da fé, estou “agasalhando” em minha interioridade um conjunto de lentes interpretativas que trabalharão em mim os seus efeitos, gerando um novo tipo de consciência sobre os eventos da materialidade. É com esse aparato que passo a julgar o que é bom e o que é mal; o que é pecado e o que é virtude.

(5) Antropologia da fé: para a fé (aqui me refiro à cristã), o homem possui uma antropologia, que é a antropologia da queda. O homem é um ser imperfeito desde o evento do jardim do éden. A maldade que existe no homem não está condicionada a priori por eventos históricos ou sociais. O mal no homem não é um fenômeno que passa a morar nele em decorrência da materialidade como apregoa, por exemplo, Karl Marx. O mal no homem está ligado a um problema ontológico.  Em decorrência disso, só existe uma forma de “reformar” o mundo, aceitando ao Cristo da fé, ao dogma da conversão, que é uma docilização, um funcionalismo operante. Os homens conversos não pertencem a esse mundo. São de outro plano. Como diz Agostinho em suas Confissões: “Criaste-nos para ti e nossa alma vive inquieta enquanto não repousa em ti” (não sei se está correta a frase, já que estou citando de cabeça). Em sentido kieekergaardiano, existir perante Deus é estar destinado à culpa, pois a nossa ontologicidade é maculada. Deus é o sempre santo; e, nós, os seres partidos e finitos. O único remédio é a conversão, ou seja, a mudança matricial da forma de ler e enxergar o mundo. É na vida que se decide a morte, pois aquilo que escolhemos ser, será – peremptoriamente.
                Escolhi escrever essas palavras, pelo fato de hoje ouvir que determinada pessoa mudou o seu comportamento para comigo por eu ter feito algumas afirmações que feriu a sua fé. O sujeito freqüenta uma determinada igreja evangélica – portanto, portadora de determinada linguagem. Segundo ele, eu por ter estudado teologia e ter um conhecimento relativo sobre os fenômenos ditos “sacros” , serei cobrado com contundência no dia do juízo, corroborando com aquilo que está escrito em uma das cartas bíblicas – se não me engano, a carta de Tiago. Eu poderia escrever – algo que talvez eu faça qualquer dia desses – sobre o significado “sagrado” da bíblia, que para mim é um livro humano que narra os eventos religiosos e a compreensão de um povo sobre determinados pressupostos de sua experiência de fé.
                Quero deixar bem claro que sou uma pessoa religiosa – não no sentido ordinário o qual estamos acostumados. Para mim a espiritualidade é um fenômeno capaz de me tornar livre, mais compreensivo, compassivo, sendo entendedor que o outro para ser bom, não precisa aceitar a minha fé. Crença é um fenômeno pessoal. Não devo cindir com as pessoas somente pelo fato delas não crerem naquilo que creio. Não devo ser tão presunçoso a esse ponto. Como diz Rubem Alves, “o Deus dos protestantes é o Deus da causalidade inflexível”. E quando notamos tais coisas, apenas achega-se a nós certeza de que somos seres curiosos. E como dizia Nietzsche mais ou menos com essas palavras: “Criamos o in-criado e acabamos sendo dominados pela nossa própria criação”.  

sábado, maio 24, 2014

Um comentário...

Existem alguns apontamentos que poderiam ser feitos sobre esse fato: (1) "o assunto Petrobrás" é controverso e paradoxal. Veio à baila pelo fato de o PSDB ter "cavado" uma CPI tentando sujar a imagem da Dilma. Ou seja, a jogada é marqueteira, trambiqueira e eleitoreira. Pousar de paladino defensor das empresas públicas brasileiras nunca esteve na agenda da oposição. É só lembrar a "dilapidação pública" realizada pelo FHC. O assunto do lucro da Petrobrás é de longe o problema. Uma pergunta surge: quem lucra, de fato? Os acionistas, ora, pois! Muitos deles, com certeza, ligados à própria oposição. (2) Uma análise macro-estrutural da sociedade brasileira nos leva a entender que vivemos um momento perigoso. Os tempos são nebulosos. Vivemos uma imensa onda conservadora, talvez, gerada pela inabilidade do PT - ou simplesmente, pelo fato de o sistema capitalista viver de ondas cíclicas de crises. Quando Lula estava no poder, a maior parte dos brasileiros experimentou um crescimento significativo nos salários e no acesso aos bens de consumo. Todavia, como dizia o velho Marx esse "caminho virtuoso" não é eterno dentro do capitalismo. O mundo inteiro passa por uma crise. 

A crise não ficou em 2008 - apenas. O envidamento de forças em 2008, aconteceu unicamente para salvar os bancos e as grandes corporações do descalabro. Salvaram os bancos à custa de alguém. E no Brasil não é/foi diferente. O problema não é a Dilma. É o momento em que vivemos. A onda conservadora é resultado justamente de um conjunto de fatores: estrangulamento financeiro, serviços públicos precários, alta no custo de vida e a "visibilização" de gastos vultosos para sediar uma Copa do Mundo, um silêncio crônico do governo que parece ser conivente com esse estado de coisas. Tachar o PT como partido de corruptos, de trambiqueiros, de petralhas, como tenho visto por aí não é atacar o problema. É olhar apenas para as causas aparentes. A onda antipetista se sustenta em "nacos" de fatos epidérmicos. A propaganda do Governo (eu não vi), talvez tenha por finalidade dirimir o estrago na imagem da Dilma, provocada pelo bombardeio da mídia. É mais que natural esse tipo de reação. Todavia, existe um fato que é maior do que simplesmente aquilo que vemos: o PT é um partido relevante para a história nacional. Ele é uma das materializações de forças antagônicas que conseguimos produzir contra o colonialismo da metrópole. O PT é uma das forças que deu um rumo dialético diferente à história do Brasil. E contra a dialética da história não existem moralismos.

domingo, abril 27, 2014

“A beleza salvará o mundo”: Dostoiewski nos ensina como - de Leonardo Boff

Belo texto de Leonardo Boff - mais um!

Dos gregos aprendemos e isso atravessou  os séculos, que todo ser, por diferente que seja, possui três características transcendentais (estão sempre presentes pouco importa a situação, o lugar e o tempo): ele é o unum, o verum e o bonum, quer dizer ele goza de uma unidade interna que o mantem na existência, ele é verdadeiro, porque se mostra assim como de fato é e é bom porque desempenha bem o seu lugar junto aos demais ajundando-os a existirem e coexistirem.

Coube aos mestres franciscanos medievais, como Alexandre de Hales e especialmente São Boaventura que, prolongando uma tradição vinda de Dionísio Aeropagita e de Santo Agostinho, acrescentarem ao ser mais uma característica transcendental: o pulchrum vale dizer, o belo. Baseados, seguramente na experiência pessoal de São Francisco que era um poeta e um esteta de excepcional qualidade, que “no belo das criaturas via o Belíssimo,” enriqueceram nossa compreensão do ser com a dimensão da beleza. Todos os seres, mesmo aqueles que nos parecem hediondos, se os olharmos com afeição, nos detalhes e no todo, apresentam, cada um a seu modo, uma beleza singular na maneira como neles tudo vem articulado com um equilíbrio e harmonia surpreendentes.

Um dos grandes apreciadores da beleza foi Fiodor Dostoiewski. A beleza era tão central em sua vida, conta-nos Anselm Grün, monge beneditino e grande espiritualista, em seu último livro “Beleza: uma nova espiritualidade da alegria de viver”(Vier Türme Verlag 2014) que o grande romancista russo desolocava-se pelo menos uma vez ao ano até Dresde, na Alemanha, só para contemplar na capela a formosa Madona Sixtina de Rafael. Permanecia longo tempo em contemplação diante daquela esplêndida figura. Tal fato é surpreendente, pois seus romances penetraram nas zonas mais obscuras e até perversas da alma humana. Mas o que o movia, na verdade, era a busca da beleza pois nos legou a famosa frase:”A beleza salvará o mundo”dita no livro O Idiota.

No romance Os irmãos Karamazov aprofunda a questão. Um ateu Ipolit pergunta ao príncipe Mynski como “a beleza salvaria o mundo”? O príncipe nada diz mas vai junto a um jovem de 18 anos que agonizava. Aí fica cheio de compaixão e amor até ele morrer. Com isso nos quis dizer: beleza é o que nos leva ao amor condividido com a dor; o mundo será salvo hoje e sempre enquanto houver essa atitude.

Para Dostoiewski a contemplação da Madona de Rafael era a sua terapia pessoal, pois sem ela desesperaria dos homens e de si mesmo, diante de tantos problemas que vivia. Em seus escritos descreveu pessoas más e destrutivas e outras que mergulhavam nos abismos do desespero. Mas seu olhar, que rimava amor com dor compartida, conseguia ver beleza na alma dos mais perversos personagens. Para ele, o contrário do belo não era o feio mas o espírito utilitarista e o uso dos outros, roubando-lhe assim a dignidade.

“Seguramente não podemos viver sem pão,mas também é impossível existir sem beleza”repetia. Beleza é mais que estética; possui uma dimensão ética e religiosa. Ele via em Jesus um semeador de beleza. “Ele foi um exemplo de beleza e a implantou na alma das pessoas para que através da beleza todos se fizessem irmãos entre si”. Ele não se refere ao amor ao próximo; a contrário: é a beleza que suscita o amor e nos faz ver no outro um próximo a amar.

A nossa cultura dominada pelo marketing vê a beleza como uma construção do corpo e não da totalidade da pessoa. Então surgem métodos e mais métodos de plásticas e botoxs para tornarem as pessoas mais “belas”. Por ser construída, é uma beleza sem alma. E se repararmos bem, nesta estética fabricada, emergem pessoas com uma beleza fria e com uma aura de artificialidade, incapaz de irradiar. Daí irrompe a vaidade, não o amor, pois a beleza tem a ver com amor e a comunicação. Dostoiewski observa, nos Irmãos Karamazov, que um rosto é belo quando você percebe que nele litigam Deus e o Diabo entorno do bem e do mal. Quando percebe que o bem venceu, irrompe a beleza expressiva, suave, natural e irradiante. Qual beleza é maior? A do rosto frio de uma top-model ou a do rosto enrugado e cheio de irradiação da Irmã Dulce de Salvador, Bahia, ou a da Madre Tereza de Calcutá? A beleza, característica transcendental, se revela como irradiação do ser. Nas duas Irmãs, a irradiação é manifesta, na top-model existe mas é esmaecida.

O Papa Francisco conferiu especial importância na transmissão da fé cristã à via pulchritudinis (a via da beleza). Não basta que a mensagem seja boa e justa. Ela tem que ser bela, pois só assim chega ao coração das pessoas e suscita o amor que atrái ( Exortação A alegria do Evangelho, n 167). A Igreja não visa o proselitismo mas a atração que vem do amor e da beleza da mensagem que causa fascínio e produz esplendor.

A beleza é um valor em si mesmo. É gratuita e sem interesse. É como a flor que floresce por florescer pouco importa se a olham ou não, como diz o místico Angelus Silesius. Quem não se deixa fascinar por uma flor que sorri gratuitamente ao universo? Assim devemos viver a beleza no meio de um mundo de interesses, trocas e mercadorias. Então ela realiza sua origem sânscrita Bet-El-Za que quer dizer:”o lugar onde Deus brilha”. Brilha por tudo e nos faz também brilhar pelo belo que se irradia de nós.

Leonardo Boff escreveu A força da ternura, Editora Mar de Idéias, Rio 2011.


segunda-feira, abril 21, 2014

Quando se é estreito...

Não tinha a intenção de escrever esta reflexão, mas após ler dois textos vindos de fontes bem distintas, abordando o mesmo assunto, percebi como idiossincrasias religiosas podem levar a uma miopia; ou a uma sensibilidade além do comum.  O segundo caso é mais raro, todavia pode ser encontrado. O primeiro está vestido pela arrogância e por uma "teimosa" perspectiva de medir todas as coisas pelos valores que se cristalizaram no tempo e não acompanharam evolução da história.

Refiro-me à reflexão feita por Ricardo Gondim sobre Gabriel García Márquez, que faz aumentar o respeito que tenho por ele, um dos religiosos mais veneráveis deste país. Lúcido. Simpático. De bem com a vida. Cheio de poesia. E o outro texto pode ser lido aqui, escrito por Solano Portela, pretenso arauto da doutrina, defensor ardoroso da causa reformada. Solano também pretende falar sobre García Márquez. Mas decide estender sua análise para dois outros nomes importantes da literatura latino-americano - Mario Vargas-Llosa e Jorge Amado. Faz a pergunta: "O que Gabriel Garcia Marquez, Mario Vargas Llosa e Jorge Amado têm em comum?" Critica García Márquez e Jorge por serem de esquerda. Defenestra o primeiro por que era amigo de Fidel e aguilhoa o outro por ter sido militante comunista. Os intelectuais têm direito a ser aquilo que bem entendem. Afinal, impossível falar em intelectual, ainda mais no século XX, sem que este estivesse comprometido com uma causa política. Elogia Llosa por ser de direita, mas decide em seguida apupá-lo, também, por este ter enaltecido o presidente do Uruguai pelas medidas progressistas que não temos condições de debater dada a nossa menoridade intelectual. 

A exiguidade do pensamento de Solano fica claro quando comparamos com o texto de Gondim - mais largo, arejado, sem espinhos inquisidores. Sem sentenças judiciosas a favor de um dogma. Como se pode ver no texto de Gondim o seu dogma é a vida. A busca por compreender a sua própria condição de sujeito humano. 

Condenar a literatura de três nomes extremamente relevantes para a história do continente latino-americano pelo simples fato de a literatura fazer menção a temas repudiados pelo mundinho religioso de A ou B é um ato de ignorância. O dia em que esses indivíduos de mentes estreitas, fechadas, conseguirem escrever um romance como Jubiabá, Pastores da Noite, Tenda dos Milagres (Jorge Amado); Conversa na Catedral, A festa do bode, A guerra do fim do mundo, que é a retratação da Guerra de Canudos, sendo que para escrever o livro Vargas-Llosa morou por cinco anos no interior da Bahia; ou Cem anos de solidão, O amor nos tempos do cólera, Ninguém escreve ao coronel (Gabriel García Márquez), eu farei um silêncio e admitirei seus ideais congelados.

A literatura não está preocupada com os moralismos. E podemos contar o número de escritores com inclinações religiosas que produziram literatura de alto nível. São exceções Chesterton, C.S. Lewis ou Tolkien. A literatura é, simplesmente, a transfiguração do mundo. O que os homens não conseguem expressar por meio de teorias, criam por meio da ficção. A literatura melhora o mundo. Desconstrói para poder construí-lo. Não podemos falar em moralidade ou amoralidade nesse sentido.


Qual Brasília faz 54 anos?

Brasília é uma miragem no meio do cerrado. Ainda possui lendas a seu respeito. Boa parte do Brasil ainda conserva a opinião de que, quem mora na Capital, dialoga com o Presidente da República quando quiser. É só acenar com um piparote que a coisa acontece. Depois de 25 anos morando em Brasília cheguei a algumas conclusões - talvez inamistosas - sobre a cidade. Como eu disse certa vez, as melhores palavras que expressam o que é Brasília foram pronunciadas por Marshall Bergmann, na introdução do seu livro Tudo o que é sólido desmancha no ar.

Ainda recordo as primeiras visões que tive da cidade, quando cheguei à Brasília em 1989. Ainda dentro do ônibus da Viação Itapemirim, com direção à antiga Rodoferroviária, avistei o Eixo Monumental. Vi a Torre de TV, suposto cartão postal da cidade. A impressão que tive foi de um descampado enorme com uma vegetação pródiga cobrindo todas as coisas. Os ônibus amarelos da Viação Pioneira passavam apressados. Tudo se consumia em meio à poeira do mês de agosto. A secura abria sucos nos lábios. Enfeiava a pele. Eu, animal acanhado, vindo da Zona da Mata de Pernambuco, pouco afeito a esses rebuliços citadinos, fiquei "bestificado" com a cidade. Cresci na cidade satélite de Ceilândia e poucas foram as vezes que visitei o Plano Piloto. O Plano Piloto se constituía apenas naquilo que via no itinerário dos ônibus.

Mesmo tendo morado por muito tempo, somente alguns anos depois fui visitar a Esplanada dos Ministérios, lugar do orgulho e da jactância modernista do ufanismo brasileiro. É ali que se espraia, que se derrama, que o poder semeia os seus ovos valiosos no coração Brasil. 

Há dois anos atrás, quando visitei João Pessoa, capital da Paraíba, tive a oportunidade de conhecer um mosteiro construído em 1589. Fiquei impressionado com o que vi. Era, simplesmente, o monumento mais antigo que eu havia visitado. Minhas referências eram pequenas. Quando olhei aquelas pedras; o altar da igreja; os bancos que já abrigaram tanta gente; o chão impregnado pela poeira do tempo, não deixei de pensar na exiguidade temporal que é Brasília. Ela não passa de uma senhora concebida do desvario "modernista" do entreguismo brasileiro. Juscelino, Niemayer e Lúcio Costa calcularam mal. Fundaram uma cidade sobre um sonho, sobre uma aspiração incipiente. Hoje Brasília é uma senhora manca. 

E não se deve deixar de mencionar que existem várias Brasílias. Consigo divisar duas pelo menos. A Brasília "resplandecente", orgulho dos "civilizados" moradores do Plano Piloto e dos Lagos Sul e Norte; do Sudoeste e Noroeste; do Park Way e dos medievais condomínios que escondem o medo e o individualismo burguês. A Brasília daqueles que vão de carro e que transformam as ruas da Capital em um inferno de buzinas e holofotes vermelhos quais olhos satânicos. E quando olhamos, avistamos apenas o condutor dentro de sua armadura, de sua máquina, que lhe protege das intempéries, do outro, da necessidade, do pedinte do semáforo. 

O sonho chamado Brasília é vendido para aqueles que consomem arte. Que têm a possibilidade de estudar na Universidade de Brasília, que fica afastada do povo, distante das cidades satélites. Desfrutada pelos filhos dos trabalhadores, que ficam no caminho da competição: (1) por estudarem em escolas públicas e serem apartados na refrega do vestibular; (2) por estarem distante fisicamente do campus; (3) pelas condições socio-econômicas que impedem o sujeito morador das cidades satélites gastarem além das possibilidades para chegarem até lá.

A outra Brasília que diviso é Brasília das cidades-satélites - atualmente, quase quarenta. Elas foram criadas como alternativas para aqueles que vieram construir Brasília. Muitas delas conseguiram se estabelecer economicamente. Elas não são municípios propriamente ditos. São descentralizações burocráticas ou administrativas. Existem para tornar mais fácil a governabilidade. Todavia, ganharam vida própria. Possuem personalidade. Gravitam em torno de Brasília. Assistem à distância o espetáculo da Casa-Grande, que é Brasília, sendo apenas Senzala. Possuem uma vida cultural apagada. A população precisa trabalhar, a maior parte, no Plano Piloto. As opções de lazer são escassas. Os jovens, geralmente filhos de trabalhadores, ficam sozinhos e expostos à marginalidade. Refiro-me aqui a cidades como Ceilândia, Samambaia, Planaltina, Santa Maria, Recanto das Emas, Paranoá, São Sebastião, Sobradinho II etc. É Brasília mostrada por Vladimir de Carvalho e seu fantástico documentário Conterrâneos Velhos de Guerra.

Brasília não me apetece. Do mármore não brota graça. Não nasce a vida. Apenas o sonho bambo e febril de que nos alinhamos com o progresso por termos construído uma cidade ex-nihilo. É uma cidade fria. Seus monumentos são desvetidos de sensibilidade. Leva-nos a uma escadaria íngreme de convencimentos instáveis. Faz brotar um sorriso molesto no canto dos lábios como se os nossos trilhos levassem a um futuro promissor, no qual a esperança, cantada no seu hino, fizesse nascer uma terra onde mana leite e mel. Brasília é a capital dos amadorismos. Mas, também, das especulações gananciosas que alimentam o ventre de plutocratas senis e insaciáveis.

Os filhos de Brasília, como são chamados aqueles que nasceram após a fundação da cidade, aprenderam a se inebriar, pois o nosso cérebro tem uma facilidade para se adaptar com aquilo que vivenciamos rotineiramente. Platão provou isso de forma genial na alegoria do Mito da Caverna, dizendo que aqueles que convivem com as sombras, acostumam-se com as mesmas sombras. 

Minhas palavras talvez revelem um amargor e uma falta de docilidade profunda. Mas é o que penso. São as impressões que fui colhendo nesses vinte cinco anos de convívio com a cidade. E corroboro com Marshall Bergmann: "Vista do ar, Brasília parecia dinâmica e fascinante de fato, a cidade foi feita de modo a assemelhar-se a um avião a jato tal como aquele do qual eu (e quase todas as outras pessoas que lá vão) a vemos pela primeira vez. Vista do nível do chão, porém, do lugar onde as pessoas moram e trabalham, é uma das cidades mais inóspitas do mundo". Ou seja, vê-la de longe, como os brasileiros a veem parece interessante, estimulante, todavia, está com ela é outra história. Por isso, a tese inicial de que Brasília é uma miragem.