Aquelas verdades medonhas que provocam aturdimento; que são facas lacerantes, capazes de cortar tecidos e expor os nervos vivos e tremulantes de nossa história.
segunda-feira, julho 25, 2016
sábado, julho 23, 2016
Literatura e direitos humanos
Antonio Candido (atualmente com 97 anos) é um intelectual formidável. No texto abaixo, há uma pequena resenha sobre o seu artigo Direitos Humanos e Literatura. No texto comenta-se sobre a defesa da literatura. Nele, o sociólogo e crítico erudito explicita que a literatura é uma força humanizadora; que assim com existem os direitos sociais (moradia, transporte, saúde, vestuário, instrução etc), por quê a literatura não faz parte desse nicho?
Em seu texto Direitos humanos e Literatura, Antonio Candido
defende que a literatura é, ou ao menos deveria ser, um direito básico
do ser humano, pois a ficção/fabulação atua no caráter e na formação dos
sujeitos.
Primeiramente, ele destaca o que são os direitos humanos, aqueles
ligados a alimentação, moradia, vestuário, instrução, saúde, a liberdade
individual, o amparo da justiça pública, a resistência a opressão, bem
como o direito à crença, à opinião, ao lazer. Este são bens que
asseguram a sobrevivência física e também a integridade espiritual.
Neste gancho, Candido indaga: e por que não o direito à arte e à
literatura também?
Segundo o crítico, a literatura se manifesta universalmente através
do ser humano, e em todos os tempos, tem função e papel humanizador. Mas
como essa humanização se dá?
De início, A. Candido destaca que chama de literatura, nesse texto,
tudo aquilo que tem toque poético, ficcional ou dramático nos mais
distintos níveis de uma sociedade, em todas as culturas, desde o
folclore, a lenda, as anedotas e até as formas complexas de produção
escritas das grandes civilizações. E defende a ideia de que não há um
ser humano sequer que viva sem alguma espécie de fabulação/ficção, pois
ninguém é capaz de ficar as vinte quatro horas de um dia sem momentos de
entrega ao “universo fabulado”.
Se ninguém passa o dia todo sem mergulhar no universo da ficção e da
poesia, a literatura (no sentido amplo dado nesse texto) “parece
corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e
cuja satisfação constitui um direito” (CANDIDO, 1989, p. 112). A
literatura é, para ele, “o sonho acordado da civilização” (p. 112), e
assim como não é possível haver equilíbrio psíquico sem sonho durante o
sono, “talvez não haja equilíbrio social sem a literatura” (p. 112). É
por esta razão que a literatura é fator indispensável de humanização e
confirma o ser humano na sua humanidade, por atuar tanto no consciente
quanto no inconsciente.
A literatura tem importância equivalente às formas evidentes de
inculcamento intencional, como a educação familiar, grupal ou escolar.
Por isso, as sociedades criam suas manifestações literárias (ficcionais,
poéticas e dramáticas) em decorrência de suas crenças, seus sentimentos
e suas normas, e assim fortalecem a sua existência e atuação na
sociedade. Antonio Candido salienta ainda:
[…] a literatura tem sido um instrumento poderoso de instrução e educação, entrando nos currículos, sendo proposta a cada um como equipamento intelectual e afetivo. Os valores que a sociedade preconiza, ou os que considera prejudicais, estão presentes nas diversas manifestações da ficção, da poesia e da ação dramática. A literatura confirma e nega, propõe e denuncia, apoia e combate, fornecendo a possibilidade de vivermos dialeticamente os problemas. (p. 113).
O crítico ainda chama atenção para a questão do papel formador de
personalidade que a literatura tem. Não podemos vê-la como uma
experiência inofensiva, mas como uma aventura que pode causar problemas
psíquicos e morais, ou seja, a literatura tem papel formador de
personalidade, sim, mas não segundo as convenções tradicionalistas; ela
seria, na verdade, “a força indiscriminada e poderosa da própria
realidade” (p. 113).
A literatura, então, não corrompe e nem edifica, mas humaniza ao
trazer livremente em si o que denominamos de bem e de mal. E humaniza
porque nos faz vivenciar diferentes realidades e situações. Ela atua em
nós como uma espécie de conhecimento porque resulta de um aprendizado,
como se fosse uma espécie de instrução. A humanização, de acordo com A.
Candido, é:
“[…] o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade e ao semelhante” (p. 117).
Além disso, assevera que “[…] a
literatura corresponde a uma necessidade universal que deve ser
satisfeita sob a pena de mutilar a personalidade, porque pelo fato de
dar forma aos sentimentos e à visão do mundo ela nos organiza, nos
liberta do caos e portanto nos humaniza” (p. 122). E defende o fato de
que “a literatura pode ser um instrumento consciente de desmascaramento,
pelo fato de focalizar as situações de restrição dos direitos, ou de
negação deles, como a miséria, a servidão, a mutilação espiritual.” (p.
122), e por estas razões, a literatura está relacionada com a luta pelos
direitos humanos.
Em suma, o que o renomado sociólogo e crítico literário brasileiro
defende é que a luta por direitos humanos abrange um estado de coisas em
que todos possam ter acesso aos diferentes níveis de cultura. É por
isso, portanto, que uma sociedade que seja de fato justa “pressupõe o
respeito pelos direitos humanos, e a fruição da arte e da literatura em
todas modalidades e em todos os níveis é um direito inalienável” (p.
126).
Abracemos Antonio Candido!
quarta-feira, julho 20, 2016
"As sinfonias da guerra" - documentário sobre Shostakovich
Shostakovich é uma das minhas paixões. Não tenho como negá-lo. Desde a primeira vez que eu o escutei, fiquei com uma sensação de que havia sido atropelado. Que um mecanismo de proporções colossais havia atravessado a minha corrente sanguínea. Era a Sinfonia No. 11, conhecida como "O ano de 1905", em referência ao evento que se deu em frente ao Palácio de Inverno do czar, o soberano com poderes divinos que governava a Rússia. Na ocasião, centenas de pessoas, a gente comum (soldados, camponeses, operários, mulheres, religiosos etc) havia ido lá para protestar. Todavia, os soldados que faziam a guarda e a segurança do Palácio abriram fogo contra a multidão a mando do soberano. Houve um embate. O motor bélico e combativo do povo russo fez com os trabalhadores resistissem.
Shostakovich colocou esses humores biliosos na obra. Há marchas. Recuos. Avanços. Tambores. Uma sensação de que foices revoluteiam no ar procurando o oponente. O drama é imenso. Os soldados armados fazem os corpos caírem ao chão. Ao final, Shostakovich ainda sugere que aquele embate havia sido o prenúncio para algo que aconteceria doze anos mais tarde, durante a Revolução Russa. O czar havia conseguido uma vitória temporária. Quando escutei o trabalho fiquei impressionado com essas características tão marcantes. Mais tarde, escutei a Sinfonia no. 5. Pronto! Estava firmada a paixão. Pesquisando na internet há muito tempo atrás eu encontrei esse documentário. Não havia legendas para ele. Mesmo assim, enfrentei-o até o final. Olhando alguns vídeos no Youtube acabei por achá-lo. Fora a mensagem anti-stalinista que surge no documentário, as informações são profícuas. Mostra como Shostakovich sofreu com a repressão stalinista, tendo alguns dos seus trabalhos censurados, como é o caso de sua ópera Lady Macbeth de Mtsenk. No documentário, Valery Gergiev rege as obras de Shosta. Vale conferir!
P.S. Após ter incorporado o vídeo, ele não pôde ser exibido. Segue o link.
P.S. Após ter incorporado o vídeo, ele não pôde ser exibido. Segue o link.
terça-feira, julho 19, 2016
Svetlana Aleksiévitch na Flip
Estava há alguns instantes ouvindo a palestra concedida pela nobelina Svetlana Aleksiévitch, na edição da FLIP de 2016. O pessoal que organiza a Feira disponibilizou apenas o áudio. Espero que coloquem o vídeo por inteiro. Pode-se ouvir a voz de Svetlana em bom russo. Uma vida de experiências singulares acumuladas durante 68 anos de idade. Uma vida dedicada a ouvir. A ser uma depositária do vagido agônico de milhares de pessoas e tatuar tudo isso no papel. Ontem terminei a leitura de Vozes de Tchernóbil. Amanhã pretendo escrever uma pequena crônica sobre o livro como uma exercício buliçoso da alma. Por enquanto fiquemos com própria Svetlana falando sobre a sua infância, sobre como se tornou escritora; o amor como experiência que pode redimir o homem, etc. A escritora bielorussa falou no dia 2 de julho para uma plateia de mais de 2 mil pessoas - entre aqueles que conseguiram o ingresso para vê-la no teatro e aqueles que a acompanharam pelo telão.
segunda-feira, julho 18, 2016
"A felicidade só é plena quando compartilhada" - Christopher McCandlles
![]() |
| Pintura do artista realista estadunidense Tom Sierak |
A
felicidade não é determinada por aquilo que tenho em sentido
financeiro. Ela está ligada ao encontro. Faz-se nova e satisfatória
quando enxergo ao final dos meus passos a dádiva que é o outro. O mundo
moderno espicaçou esse valor. Nossa sociedade assentada no
individualismo esconde-se do outro. Queremos cada vez mais o
individualismo, pois temos medo do encontro. O outro é sempre uma
incógnita. Um mundo enorme de possibilidades. Exige diálogo, energia,
desprendimento, um mergulho existencial para que eu possa desvelá-lo.
Atomizados
em nossos mundos. Encerrados em uma rede social. De cabeça baixa,
flertando um espelho que reflete nós mesmos, as telas coloridas dos
celulares ou computadores, somos narcisos sem faces. Não usamos mais a
palavra falada, verbalizada. Ao emitirmos sons, balbuciamos um
"kkkkkkk", que denuncia o lado primitivo e vazio de nossas conversas, de
nossas relações. Se o assunto é sério, fazemos silêncio. Mas se é uma
piada, uma imagem que existe no grotesco cotidiano, soltamos o gutural
"kkkkkkk", a finalidade última de nossas "conversações epiteliais".
Toda
essa crise apenas revela o quanto estamos mais distantes de nós mesmos e
dos outros. Nós "nunca nos comunicamos tanto" como ultimamente, mas
nunca dissemos tão pouco. E é nesse fluxo paradoxal que assentamos o
nosso individualismo meticuloso, casmurro, grávido de inalteridade.
Escrevo
essas coisas, pois a frase de McCandlles, fez-me pensar na relação que
tive com o meu pai, morto há quinze anos; e no medo que tenho da
paternidade. Sobre o primeiro fato é importante mencionar que minha
relação com meu pai foi estranha e alicerçada em um receio que surgia da
indiferença. Até hoje tenho a imagem dele como um sujeito
irresponsável. Não me relacionei bem com ele. Geralmente cercado por
amigos dissipadores, meu pai fazia o papel de um sujeito dado aos
rompentes de alegrias gratuitas. Embriagava-se com frequência. Para mim,
sua presença consistia em um fator negativo. Quando estávamos sozinhos
e, ele não se encontrava enfronhado nas emanações etílicas, o silêncio
era um sacerdote que sacramentava nossa relação. A fala embargava quando
me dirigia a ele. Escorria como um fio fino e intermitente,
equilibrando-se a custo no trilho delgado das emoções. Morreu cedo - aos
46 anos de idade.
Muitas
foram as vezes em que pensei: "Se um dia eu constituir uma família, não
serei como meu pai". Essa relação kafkafiana (não escrevi nenhuma carta
a ele), tornou-me um sujeito introspectivo. Tímido. Não afeito às
relações. Talvez, tenha sido isso que me levou a procurar no mundo da
leitura o apoio das palavras. Elas criavam estruturas sólidas. Nelas eu
me sustentava. Agarrava-me. Protegia-me dos ventos fortes das
instabilidades relacionais. Até hoje tenho dificuldades de conversar com
pessoas com quais estabeleço relação pela primeira vez.
Necessariamente,
isso afeta minha disposição para a paternidade. Eu minha esposa temos
conversado bastante sobre isso. Ela que chega ao limite da idade fértil,
preocupa-se - e preocupa-me. Eu, por meu lado, cercado por receios
variados, isolo-me numa planície de pessimismo. Olho para trás e
compreendo o significado de tudo. Há casais que optam por não terem
filhos. Vivem bem com isso. Conseguem separar as coisas. Não existe um
mandamento universal para a paternidade ou para maternidade. Nascemos e,
ao virmos ao mundo, é dado o dispositivo biológico para a reprodução. É
a cultura que constrói significados para isso.
Todavia,
pensando sob a perspectiva do filme, de quê é feita a vida senão de
encontros? Tudo flui. Vai. Evola-se. Dissipa-se. Mas, a felicidade
contida no encontro e no compartilhamento não se pode medir. Há uma
outra cena muito bonita e significativa na obra de Sean Penn. O jovem
McCandlles encontra um senhor chamado Ron Franz. A personagem vive
sozinha. É um militar aposentado. Não constituiu família. Ele diz uma
das frases mais bonitas do filme: "Quando você perdoa, você ama; e
quando você ama, a luz divina brilha em você". No momento em que as duas
personagens se despedem, Ron faz um pedido a McCandlles: queria adotar
este como seu neto. Ele não tinha pai, mãe, nem filhos. Quando ele
morresse, a história de sua família teria fim. McCandlles estava tão
firme em seu propósito de chegar ao Alaska, que apenas diz: "Quando eu
voltar, conversaremos sobre isso, Ron".
O
que é certo é que a vida, em alguns momentos, não espera pelas nossas
decisões. O silêncio de suas ações se mostra maior do que nossas
vaidades. Assim, há duas frentes: aquela que estabelecemos, como
resultado da nossa vontade, e um devir convergente, que atua como fluxo.
É justamente essa dialética que faz vida. Quem souber tirar proveito
desse encontro ao lado das pessoas que ama, certamente encontrará a
felicidade. É o outro que me revela. Nele encontro os meus limites. Em
sua face está estampado o meu orgulho e minha capacidade de não amar. As
pontes que me separaram do outro, também impedem que eu me conheça.
Mas, no encontro, também, está capacidade de me tornar mais solidário,
mais manso, mais sábio, desde que eu saiba compartilhar a minha
existência.
domingo, julho 17, 2016
Breve catecismo
O caráter tão rico, tão contraditório e tão diverso da América Latina, esta terra desprezada, aparece nos aspectos não visíveis da realidade, longe do círculo no qual fechamos hoje a política e a economia. Mas esses aspectos invisíveis da experiência humana são a própria realidade... Quando empresto minha voz aos sem-voz, não me refugio fora do real. A realidade continua sendo minha fonte principal de inspiração, com suas alegrias e suas penas, suas tempestades e claridades.
Conto pequenas histórias que têm como vocação ajudar a ver a Grande História. Como em um mosaico, quadrados coloridos colocados lado a lado acabam compondo um quadro da realidade. Eu vejo o Universo inteiro através das histórias minúsculas, como olhamos um quarto através do buraco da fechadura. É um jeito de revelar aos meus leitores a possibilidade de viver a plenos pulmões, com toda a energia possível. As razões de chorar são infinitas. Mas as de rir também existem. É importante guardar ao mesmo tempo a capacidade de celebrar a realidade e a coragem de denunciá-la.
(Eduardo Galeano)
sábado, julho 02, 2016
Mais um livro de Svetlana Aleksievitch
Há alguns dias atrás, eu recebi em meu e-mail uma daquelas publicidades do robô da Estante Virtual, que acaba "fisgando" pesquisas desinteressadas, namoros com aqueles títulos suculentos, mas que acabam ficando no mundo dos desejos reprimidos por uma questão monetária. Pois recebi a notícia de que havia um novo livro da nobelina Svetlana Aleksievitch. O título era dos mais convidativos - O fim do homem soviético - um tempo de desencanto. Apressei-me para olhar o preço. Estapafúrdios duzentos reais - se a memória não me trair neste momento.
Fui até o site da Livraria Cultura e vi que estava sendo vendido pela metade do preço - noventa e nove reais. Não hesitei. Fiz a encomenda. Dois dias após, eles me passaram um e-mail e disseram que o exemplar havia chegado à loja. Na quarta-feira à tarde, fui lá buscar (e ainda sair de lá com o Todos os contos de Clarice Lispector, lançado recentemente, que estava uma pechincha). O bonito cartapácio (de Svetlana Aleksievitch) foi publicado pela Porto Editora (de Portugal). Tradução impecável. A capa é das mais emblemáticas: uma senhora vestida à rigor, conduzindo a bandeira vermelha da União Soviética, com a insígnia inconfundível - a foice e o martelo, símbolo do comunismo que, assim como outros signos (cruz, suástica, etc), carrega simbologias capazes de movimentar os homens. Ao fundo, notamos uma paisagem cinzenta que engole prédios e homens como se aquilo fosse um aviso pressago da bancarrota histórica.
Todavia, o que conta mesmo é o estilo de Svetlana Aleksievitch. A escritora ucraniana possui uma capacidade única de emocionar, de criar humanismos; é capaz de nos fazer repensar a nossa condição; de colocar-nos frente a frente com nossas vaidades, paixões e movimentos que impelem a atos impensados. Já em Vozes de Tchernóbil, a história oral do desastre nuclear, Svetlana cria a impressão de que todas as dores do mundo podem ser reunidas em único lugar. Ela comprime em único espaço os relatos pungentes das pessoas comuns que tiveram suas vidas afetadas de forma deletéria pela terrível tragédia.
As quinze páginas iniciais de O fim do homem soviético transmitem a impressão de que estamos sentados em um banco de praça, solitários, em um final de tarde fria, com cintilações cinzentas no ocaso e se escuta o barulho distante de um sino a anunciar um outro tempo. A experiência do vivido nos coloca lado a lado com o passado. E ele possui o cheiro de nostalgia, mas acaba trazendo impressões dúbias. Svetlana Aleksievitch consegue reunir um misto de vozes e acaba criando um livro, pelo menos notei isso nas quinze páginas lidas, polifônico (algo que se dá também com Vozes de Tchernóbil.
O meu reptiliano projeto de leitura provoca uma inadministrável ansiedade. Muito trabalho. Excesso de nacos de tempo roubados pela roda viva do cotidiano. O que me consola é que terei quinze dias de recesso na próxima semana e poderei saborear os dois livros da Svetlana.
sexta-feira, junho 17, 2016
"Corpos Divinos", de Guillhermo Cabrera Infante - algumas parcas palavras
"Sempre há um lapso entre a literatura e a vida e, por mais que a gente queira fechá-lo, a vida acaba ganhando, já que ela é a melhor depositária de histórias", p. 456
Terminei a leitura do delicioso Corpos Divinos, de Guillhermo Cabrera Infante, o escritor cubano, que mais tarde recebeu cidadania britânica, após ter rompido com o regime do seu país de nascimento. O livro é volumoso. Possui próximo de 618 páginas. Todavia, sua leitura flui com grande sinuosidade. Cabrera Infante escreveu-o em uma atividade de mais de quarenta anos. Tendo iniciado a escrita na década de sessenta, veio concluí-lo próximo de sua morte em 2005.
A história se passa num lapso temporal de três anos aproximadamente. No que concerne a isso, impressiona o nível de detalhamento dos acontecimentos narrados. As pessoas são reais. Os nomes são reais. Os lugares são reais. O suor e o cheiro dos corpos são reais. Numa Cuba pré-revolucionária, Infante pinta um quadro com cores vivas. A obra pode ser dividida basicamente em quatro seções, embora não haja essa separação no livro - os romances, vida familiar, acontecimentos variados e a parte política, como não deveria deixar de ser.
Acerca dos romances, que estão necessariamente vinculados à vida noturna de Havana - e sendo, portanto, a melhor do livro -, o texto ocupa a maior parte, sendo as 150 páginas as mais bem escritas do livro. São inúmeros os nomes das mulheres que surgem na vida de Infante. Ele se revela uma espécie de minotauro romântico, sempre à cata de uma nova emoção, ou simplesmente, à procura de "um corpo divino". A primeira que surge é Elena, uma ninfeta, uma lolita de dezesseis que, como li a respeito, inspirou a escrita do seu romance A ninfa inconstante (já está separado para ser lido). Há outros nomes como, por exemplo, Ella, que seria uma paixão para a vida toda. É curioso perceber como Infante se esgueira pelos cafés de Havana. Pelos bares. Sentimos a temperatura, os anseios de seu nomadismo licencioso. Com o seu instinto felino, notamos os seus esgueiramentos pelas ruas com luminosidade penumbrosa.
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| Cabrera Infante e sua babel literária |
Por outro lado, sua esposa Mirta sofre as intempéries das aventuras extraconjugais do marido. No livro, ela é uma personagem obumbrada. Não se nota uma preocupação do romancista em descrever-lhe as qualidades, as virtudes. Um dos casos em que vemos Mirta sofrer se dá quando Infante vai morar com Elena em um motel.
O livro ainda é povoado pela presença de Ernest Hemingway. É picaresca a imagem que o autor de Três tigres tristes constrói sobre o Nobel de Literatura. Nas páginas que são dedicadas a falar de Hemingway, Cabrera Infante descreve um sujeito pachorrento e misantropo. Descrito com pincéis histriônicos é o evento de filmagem de O velho e o mar, um dos livros mais importantes de Hemingway, nas águas de cor turquesa do Caribe.
Sua predileção pelo jazz é outro ponto que deve ser mencionado. Por ser apaixonado por este estilo, ficava atento aos novos lançamentos do mundo do jazz. Uma de suas frases mais enigmáticas do livro é sobre esse estilo imortal. É algo como: 'o jazz oferece uma continuação entre a tristeza e alegria de viver'.
Na última parte do livro, Cabrera limita-se a falar sobre as mudanças políticas vividas em Cuba. A presença de Fidel Castro e do comandante Guevara. As notícias da Sierra Maestra. A presença despótica do odiado Fulgêncio Bastista, o ditador sanguinário. Após a fuga de Batista, Cabrera Infante assume posições no Governo Revolucionário. E foi como jornalista, nas páginas finais do livro, que ele narra a viagem feita para acompanhar Fidel aos Estados Unidos, Canadá, Trinidad e Tobago, Brasil, Argentina e Uruguai. Para o Brasil, são reservadas uma dezena de páginas. Infante narra a sua estadia em São Paulo e Rio Janeiro; e sua visita a recém criada Brasília de JK.
O livro é esplêndido. O estilo de Infante é enfeitiçador. É escrito com objetividade jornalística e com uma preocupação em contar de tal forma, que a história contada assuma cintilações anedóticas. É como se mais tarde, ele ao se lembrar dos fatos, se pusesse a ri, pois era sabedor que a vida é uma fiel depositária de histórias e, a literatura, uma extensão da própria vida.
quinta-feira, maio 12, 2016
As primeiras horas da manhã...
Escutei há poucos instantes alguns fogos tímidos de sujeitos que
comemoravam o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Não deveria
haver comemoração. Aqueles que assim fazem não dimensionam o que estão
comemorando. É uma ignorância homérica, um gesto de completo
desconhecimento do mundo duro que é a política; não percebem que é justamente a
política que determina a qualidade de vida que teremos ou deixaremos de
ter.
O tensionamento político que se gestou no Brasil nos últimos meses, não
era só contra o PT ou contra a Dilma. Esse bombardeio era contra os
trabalhadores. O que está em jogo são direitos, avanços, conquistas
sedimentadas no governo que ora sofre o golpe e outras que são o
resultado da luta histórica dos trabalhadores.
Não é bom se enganar nesse sentido: os direitos não vêm pelo fato do
capital ser bonzinho, pelo fato "patrão" se compadecer da condição do "operário". Os direitos são o resultado da cristalização da
luta, do suor, do derramamento de sangue. Assusta-me a ignorância de
quem não percebeu ainda - e ainda comemora a saída de um governo, que
apesar dos erros, resguardou muitos desses direitos, para se fiar por
uma aventura incerta, pelo devaneio neoliberal - que quebrou países com
uma experiência democrática mais consolidada como Portugal, Itália,
Islândia e, o caso mais extremo, a Grécia.
Quebrar um país significa colocá-lo no chão. Significa colocá-lo a mercê dos ditames dos organismos internacionais como FMI, Banco Mundial etc - o quanto teremos de saúde, de educação, de infraestrutura, de empregos, de autonomia.
Não vejo motivos para comemorações. O Brasil é um país que não se leva a sério e que possui uma classe média cega, ignorante, que é vassala; que se acha dona da casa grande. Um país que em 66 anos, apenas três dos seus presidentes terminaram os mandatos integralmente. Não somos sérios. O que está em jogo é justamente isso. Não é simplesmente o fato de retirar um político com o qual eu não simpatizo. Perdemos a oportunidade de avançar. Caminhamos para trás. Talvez daqui a trinta anos, criemos verdadeiramente uma euforia autêntica, genuína, que aponte para avanços sérios.
Quebrar um país significa colocá-lo no chão. Significa colocá-lo a mercê dos ditames dos organismos internacionais como FMI, Banco Mundial etc - o quanto teremos de saúde, de educação, de infraestrutura, de empregos, de autonomia.
Não vejo motivos para comemorações. O Brasil é um país que não se leva a sério e que possui uma classe média cega, ignorante, que é vassala; que se acha dona da casa grande. Um país que em 66 anos, apenas três dos seus presidentes terminaram os mandatos integralmente. Não somos sérios. O que está em jogo é justamente isso. Não é simplesmente o fato de retirar um político com o qual eu não simpatizo. Perdemos a oportunidade de avançar. Caminhamos para trás. Talvez daqui a trinta anos, criemos verdadeiramente uma euforia autêntica, genuína, que aponte para avanços sérios.
domingo, maio 08, 2016
Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard
![]() |
| Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.) |
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento.
Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.
Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.
O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx).
Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.
Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social.
Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.
Parabéns, Marx e Kierkegaard!
sexta-feira, maio 06, 2016
Algumas considerações sobre "O amor de Mítia", de Ivan Búnin
Em que medida ele fora então bom menino, inocente, de coração singelo, pobre nas suas modestas tristezas, alegrias e devaneios! O seu amor sem objeto, incorpóreo, de então tinha sido um sonho ou, melhor, a recordação de um sonho maravilhoso. Mas agora havia Kátia, havia uma alma que encarnara em si o mundo e que o dominava por inteiro. p. 46
A literatura é mundo de possibilidades infinitas; de incontáveis belezas; de polifonias; de feições e linguagens variadas; de poesia em estado puro; de insinuações implícitas; de depuração. É por esse motivo que lemos literatura; que não conseguimos nos afastar dela. A boa literatura é remissora, humanizadora. Nela encontramos a exatificação daquilo que poderia ser o mundo. Aquilo que os homens não conseguem desenhar, materializar, a literatura possui o potencial de representar, de simular. As tintas da literatura são mais densas do que as cores do mundo real. Ela permite a transfiguração do mundo.
Pois essas impressões se tornaram mais vivas após terminar a leitura do livro O amor de Mítia, de Ivan Búnin. Certamente, uma das prosas mais belas e elegantes que já tive a oportunidade de ler. Um estilo que beira a uma epifania poética. Boris Schnaiderman, o famoso tradutor de obras do russo afirma: "Enfim, bem poucas vezes, em minha tão extensa caminhada como tradutor, me defrontei com um texto vigoroso como o desta novela". Não é para menos.
A vida de Búnin é dividida em dois momentos: a vida na Rússia pré-revolucionária e a vida pós-revolucionária, fora da Rússia. Nascido em 1870, o ganhador do Prêmio Nobel de 1933, sempre buscou forjar um estilo que o colocasse entre a prosa e a poesia. Tornou-se amigo dos mestres Tchekov e Tóltoi. Aquele viu nele um futuro brilhante. Este o estimava com grande carinho. Búnin se utilizou dessas amizades profícuas para aprender. A maturidade foi sendo desvelada de forma gradual. Com a eclosão da Revolução de 1917, Búnin não quis continuar na Rússia. Resolveu deixar o país. Desconfiava dos destinos transigidos. Não esperou para ver. Fugiu com a mulher. Radicou-se na França. E foi lá, como emigrado, que os seus belos textos foram surgindo um a um.
O amor de Mítia, uma novela curta, foi escrita no auto-exílio. O Estado Soviético repeliu firmemente a sua fuga. Nos anos mais duros de repressão, quem mencionasse ou citasse o escritor, poderia amargar a prisão. Ficou como exemplo negativo. Todavia, apesar da distância, Búnin não abandonou espiritualmente a sua terra. Sua paixão pela literatura do seu país, principalmente por Tólstoi, que era alçado ao nível supremo de beleza literária; a relação panteísta que nutria com as belezas da cultura e da natureza, pode ser observado em seu texto. Fazendo uma pequena digressão: Búnin não gostava de Dostoiévski. Achava-o espalhafatoso em excesso.
O amor de Mítia é uma história simples. O mote é o amor, o ciúme e o sofrimento, um tema bastante comum na literatura. Após Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, este tema assumiu paroxismos de grande dramaticidade. Goethe havia transido a existência de Werther, impingido dores contumazes, revolvido sua alma, revelado o seu espírito, suas aflições, seu martírio. Há nesse sentido um paralelismo entre Mítia e Werther. A diferença ao meu modo de ver fica por conta do estilo de Búnin. Trata-se de obra de rigor; de um controle absurdo da narrativa; e, como diz Schnaiderman, de grande "vigor". Havia sentido isso certa vez ao ler Quincas Borba, de Machado de Assis.
| Ivan Búnin (1870-1953) |
Mítia é um apaixonado que se alimenta apenas de um pensamento: a sua amada Kátia. Foge para tentar separar-se de sua presença. Mas a sua ausência é presença. Ele é preenchido justamente por aquilo que lhe falta. Busca a solidão do campo. Foge da Moscou barulhenta, agitada e se refugia em meio à natureza. E é nesse ponto que penso que esteja o ponto alto do livro. Búnin consegue de forma singela, descrever com uma beleza única, a vida pastoril. A natureza com sua presença luxuriosa, a exalar vida; e os seus rigores imparciais. A natureza se assume como a sua amada Kátia: bela, lúbrica, fértil, a espargir fragrâncias virginais, mas, ao mesmo tempo, sendo grave, imparcial, seguindo o seu curso implacável, pouco obsequiosa para com Mítia.
Como mencionei acima, as descrições são de uma beleza assustadora, de um realismo colorido que sinestesicamente coloca-nos diante do cenário. Apenas alguns exemplos:
Capítulo IX
Vieram depois as neblinas tépidas, as chuvas, a neve foi derretida e devorada em poucos dias, o gelo do rio se pôs em movimento e a terra começou a negrejar alegre, renovada, a desnudar-se no jardim e no quintal...
Capítulo XIV
A floração das pereiras era particularmente densa e vigorosa, e a mistura dessa branquidão e do azul vivo do céu dava um reflexo violáceo. [...] Sentia-se no ar tépido o seu cheiro suave, adocicado, juntamente com o cheiro do estrume aquecido, em fermentação no curral. p. 59
Capítulo XXVIII
Fazia frio, havia umidade penetrante, as nuvens escureciam o dia; sobre aquele fundo negro, o verde compacto do jardim molhado destacava-se com particular densidade, frescor e nitidez. p. 113
Fica implícito no texto de Búnin uma inquietação com relação aos sentimentos fortes e que estabelecem sentido para a existência. Amor e morte são forças antagônicas, mas complementares. Elas se jungem em determinados momentos; sedimentam-se; tornam-se numa massa informe e se instalam como forças gravitacionais no coração do ser humano. Amamos, mas os ciclos e o devir universais seguem indiferentes, apesar de sermos parte deles.
domingo, maio 01, 2016
O arrivismo midático nosso de cada dia
Hoje cedo fui à uma banca de jornal aqui perto de casa comprar um dos exemplares da Coleção Folha. Analisei os 28 livros constantes da promoção e resolvi comprar dezessete deles. Alguns dos livros eu já tenho, mas mesmo assim comprarei (sic). A edição é elegante e a tradução é melhor trabalhada. É o caso, por exemplo, dos dois exemplares que adquiri hoje - A morte de Ivan Ilitch (Tolstói) e Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector).
Após ter comprado os livros, pus-me a ler as reportagens dos jornais e revistas. Uma indisposição, um asco foi sendo fermentado à medida que lia o mau-caratismo discursivo da mídia hegemônica. A Veja trazia palavras fortes como "plano radical para zerar déficit público"; "Meireles e Serra, o time de atacantes da política externa" etc. Eram palavras e expressões afirmativas, que ensaiavam projeções otimistas, bem diferentes daqueles que vimos nas últimas semanas acerca do ainda sobrevivente e agonizante governo Dilma. A única nota negativa era uma uma denúncia contra Lula, acusado de receber "mensalão da OAS desde a década de 80", mas nesse ponto temos "mais do mesmo".
A Isto É avançava em um discurso babão e mais canino. Um fundo vermelho com as fotografias de Lula, Dilma e João Pedro Stédile, líder do MST, expunha uma atmosfera de raiva e ódio. A reportagem trazia em letras garrafais: "Os sabotadores do Brasil". Duas outras reportagens encimavam o veículo ordinário (não chamo aquilo de jornalismo). Jornalismo pressupõe responsabilidade com a construção da notícia e a entrega abnegada do fato (não devemos falar em imparcialidade, pois ela não existe), algo impossível no Brasil. A primeira buscava enlamear a figura de Lula; a segunda, trazia o título "Meireles na Fazenda - o nome que entusiasma o mercado e a sociedade". É interessante notar a busca desavergonhada de fecundar, por meio da generalização, uma uniformidade possível, um clima de leveza, de consenso. Essa tônica "imparcial" era seguida por todos os demais veículos jornalísticos. Não havia um "discurso destoante", que se contrapusesse a esse jornalismo marrom, viciado, inimigo da verdade e da isenção.
Todos eles ficam à porta da banca, em lugar visível. As outras revistas que possuem um discurso contra-hegemônico (Caros Amigos, Revista Piauí, Le Monde Diplomátique etc) ficam em lugar escuso, como se fossem aquele material encalhado, procurado por seres estranhos, de outro planeta. Trata-se de quinquilharia, certamente. É como se alguém chegasse procurando algo exótico e o dono do estabelecimento dissesse: "Olha, eu tenho o que está aí! Mas espera aí! Há um negócio por ali, que quase num sai. Tá meio empoeirado! Mas dá uma olhada!" E colocasse sobre o balcão papiros fossilizados. Material para arqueologista. Arquivos seletos para entes secretos.
Desse fato surgem duas questões: (1) Quando terá fim esse massacre, esse bombardeio dessa mídia marrom, arrivista, conservadora, inimiga do povo e acumpliciada com o grande capital? E nesse sentido é necessário fazer uma crítica sólida ao PT, que em quatro mandatos, não moveu um centímetro a legislação da política de meios no Brasil. Os grandes grupos, leia-se cinco famílias, continuam "a formar opinião" no Brasil, criando consensos e estabelecendo "o olhar", "a plataforma política" e "as crenças da sociedade brasileira". Com o novo cenário político que se desenha, torna-se mais distante a possibilidade de qualquer movimento nesse sentido. (2) A consequência dessa blitzkrieg midiática é o envenenamento da opinião pública. Qual é a saída? O meio alternativo que projeta para a sociedade uma outra forma de enxergar os acontecimentos políticos do país de forma responsável? Gostaria, nesse sentido, de apontar uma crítica: por que o PT não fundou uma TV pública, com uma programação capaz de fazer frente ao que aí está posto? O sujeito médio, "educado" pela Veja, Revista Época, Isto É; pelo conglomerado dos jornais estaduais, pertencentes aos clãs que representam as oligarquias, inimigas do povo, seja do Goiás, Alagoas, Piauí, Rondônia ou Rio Grande do Sul; pelos jornais televisivos, pelas emissoras de rádio, ouvirá apenas uma versão "da realidade", a saber, aquela que é de interesse das elites desse país e isso "modelará" inexoravelmente o seu olhar. O ódio instalado contra o governo atualmente é o resultado desse trabalho, como se o PT tivesse inaugurado a corrupção no país; como se antes do PT, o Brasil fosse um Éden, onde as pessoas 'viviam felizes' e 'se alimentavam da árvore da vida, que está no centro do jardim'.
Às vezes, bate-me uma vontade de que aquele dispositivo que existe no filme Homens de Preto, capaz de bloquear a memória e impedir que o sujeito tenha acesso ao que aconteceu com ele, existisse de verdade. Poderíamos utilizá-lo para esquecer tudo isso e começarmos do zero. Como isso não é possível, ficamos imersos nesse imenso mar de desânimo. Olhamos em volta e vislumbramos horizontes turvos. Ignorância e alienação por todos os lados. E como diz a música Vícios de Linguagens do Engenheiro do Hawaí:
Tudo se resume a uma briga de torcidas
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada
Ficamos ali, sem jeito, sem escapatória, sem possibilidade de fuga, vendo aonde tudo vai dar, enquanto as revistas, jornais e a TV, alimentam com seus discursos de cobiça, a indigência alheia.
sexta-feira, abril 22, 2016
Algumas impressões sobre "Madame Bovary", de Flaubert
Ler Madame Bovary era um projeto existente desde o final do ensino médio. Recordo-me das aulas de literatura. Das onipresentes citações sobre a importância da obra monumental de Flaubert. Cheguei a comprar uma edição ordinária em um sebo. Esqueci-a no fundo da estante. Via o projeto como algo distante. Até que no mês de fevereiro deste ano fui à Livraria Cultura e comprei a excelente edição da Penguin/Companhia das Letras. Pensei comigo em tom profético e peremptório: 'Agora você não me escapa!"
Iniciei a leitura com um senso de reverência indescritível. Precisava me conectar a um mundo de idealismos. Era uma ação nobre aquela que estava a executar. As quase quinhentas páginas com tradução primorosa. O papel macio e resguardar em suas entranhas um cheiro lascivo. A grande expectativa em torno do que acharia pela frente. Emma Bovary era uma espécie de fada. Tentava erguer a curiosidade e construir, por meio de conjecturas, os caminhos determinantes da narrativa. Cheguei a assistir a um filme tentando entender os desdobramentos da história. O filme serviu apenas para recriar o cenário, a fotografia e o espaço romanesco. Foi ineficiente. A prosa de Flaubert é grande demais para caber em uma película.
De fato, o romance é tudo aquilo que esperava que fosse: grandioso em todos os aspectos. Não poderia ser diferente. Flaubert é um minucioso estudioso dos costumes da sociedade do seu tempo. Difere de Balzac, por exemplo, que também era um cronista poderoso. Este parece ser mais caudaloso e recriador de consensos; aquele, por sua vez, é insubmisso, cortante, engenheiro habilidoso de uma prosa jornalística, que mais insinua do que afirma certezas. As frivolidades e fatuidades da burguesia são trabalhadas com hiperbólica ironia. A avareza de alguns personagens denuncia a transformação social por que passa a alma do homem sob a dinâmica sociedade capitalista. A crença profunda no cientificismo e no progresso da técnica são resultado da visão otimista de que o homem estava transformando a natureza naquele presente histórico, como fica expresso pelo personagem Homais. O diletantismo de alguns personagens como, por exemplo, Léon, um dos amantes de Ema Bovary. Ou ainda, o mundanismo de um Byron, o comportamento selvagem e inconsequente de um dândi como Rodolphe.
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| Gustave Flaubert (1821-1880) |
A heroína Ema Bovary, casada com Charles Bovary, um modelo de sujeito passivo, mas de coração bondoso, construído para provocar no leitor uma fina e sensível compaixão, é estraçalhado pelos desejos incontidos e calculistas de Emma. A personagem Ema instila no leitor (pelo menos em mim foi assim) uma dupla sensação: (1) ela é culpada pela desgraça que acomete o destino de sua casa e o destino do seu marido Charles. É isso que Flaubert quer nos fazer crer em um primeiro momento. Ema é uma personagem complexa. Espera-se dela como mulher, pelo menos, um ordeiro respeito à figura do seu bom marido; o papel da boa mãe. (2) Emma é culpada. Parece-me que neste ponto, Flaubert constrói a tese de que reside no mundo feminino a susceptibilidade que impele à fantasia, ao desvario, à irracionalidade. Em suma, Emma é culpada. É traidora. É destruidora de si e da vida de seu marido. Como naquela passagem bíblica sexista de Provérbios: "Mulher virtuosa, quem a achará?" (31.10). A personagem destoa do modelo perfeito. Não é "virtuosa". É traidora. Alimenta-se de cálculos, de perfídias, de enganos; deixa-se levar por uma franqueza: busca encontrar nos amantes a segurança de que necessita. É forte por trair, mas, ao mesmo tempo, é fraca por ser romântica em excesso e deixar aflorar o sentimentalismo feminino.
A heroína soçobra ante o seus desejos. Fica cega. Ignora a presença de Charles. Fascina-se com a expectativa de uma vida de prazeres e luxos. Arruína-se no plano espiritual e no plano material. Contrai dívidas. Entendia-se da vida aldeã. Procura formas de ocultar a sua realidade e projeta o dinamismo da vida citadina. Mora em um vilarejo, mas é como se vivesse em Paris. Há uma insatisfação em sua existência. Ela busca fugir da sensação claustrofóbica em que havia se transformado o seu casamento. Emma anuncia a mulher insubmissa, não dada às convenções sociais. Suplanta o determinismo social que encurralava as mulheres, colocando-as numa posição servil.
A prosa de Flaubert, nesse sentido, é revolucionária. Quando escreveu o livro ainda não era o gigante, o sujeito respeitado que se tornou depois. Possuía pouco mais de trinta anos. Morava com a mãe em um subúrbio. Era um sujeito de poucas posses. Não gozava de nenhum prestígio. Escrevia textos de valor incerto. Seu método de trabalho era de um estoicismo impressionante. Trabalhava um número exato de horas. Escrevia um número exato de páginas diariamente. Demorou mais de cinco anos para escrever a obra monumental. Flaubert anunciava o moderno. Emma personifica o descontentamento; o drama metafórico que anuncia uma sociedade veloz - a linha férrea, o jornal, a eletricidade. E Emma é esse ponto de inflexão que gera "desconforto", a visão do novo, de um novo que possui uma força atordoadora.
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