segunda-feira, outubro 31, 2011

Drummond, 109 anos!

Hoje, se estivesse vivo, Carlos Drummond de Andrade completaria 109 anos de idade. Sou um fã incondicional da poesia do mineiro. Queria ter mais tempo para lê-lo. Drummond é um cantor solitário, um observador desconfiado numa meio de uma multidão que caminha na treva. Suas poesias são gestos políticos, uma voz que busca entender, interrogar a si e os outros homens. Sua voz "desconfiada" (mineira) possuía um alinho de timidez, que vinha inscrito em seu corpo franzino. Abaixo, seguem quatro das poesias que mais gosto da obra monumental do poeta - Procura da poesia, Confidências de um itabirano, Infância e Poema de Sete Faces - este último, uma espécie de auto-biografia poética, uma confissão do "ser-assim-no-mundo". Parabéns, poeta!

Procura da poesia

Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.

O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.

Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.

Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?

Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.


Confidência do Itabirano

Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.

E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...

Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala – e nunca se esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minha mãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

Poema de sete faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Algumas poesias (AQUI) dos mais de 30 livros escritos pelo poeta.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Ele foi tudo o que eu quero ser - menos com as mulheres

O título parece estranho. A enunciação parece misteriosa. Intricada. Uma verdadeira charada. Explico. Penso isso todas as vezes que imagino o filósofo de Dionísio - Friedrich Nietzsche. Nietzsche foi mais que um filósofo. Foi uma águia que voou. Que ignorou as convenções religiosas e dogmáticas. Que se projetou para o céu e disse que o infinito acontece na existência de cada um de nós. Que a vida, apesar da feiúra, deve ser transformada numa obra de arte. Que é necessário inventar uma música que toque e, ao passo que toca, deve transformar nossa existência numa canção.

Nietzsche não tolerava os sentimentos fracos. As anemias do espírito. As fraquezas que aviltam. Segundo ele, era preciso caminhar, mesmo que em meio às trevas, transformando a vida num sol que ilumina. Para ele não existia nem bem nem mal. As dicotomias impedem que interpretemos corretamente a vida. Zaratustra não era criação. Era a própria voz profética (não em acepção religiosa) do filósofo falando. Falou. Criticou. Analisou sob diversos aspectos as sensaborias da sociedade em que viveu e para onde aquilo tudo conduziria. E de repente, - alguns julgam loucura - silenciou. Até mesmo a paralisia que o acometeu parece ser poética. Segundo ele, "quanto mais nos elevamos, mais pequenos pareceremos aos olhos daqueles que não sabem voar". Extraordinário. É preciso ser ousado para se alçar voos. Nem todos estão prontos ou possuem coragem para o ruflar de asas, que alcançam os céus celestiais da dúvida, do julgamento, da transvalorização dos valores. É preciso alcançar o que está "dalém do homem".

Li certa vez um artigo sobre o filósofo em que o autor dizia que a doença de Nietszche foi um castigo por ele ter se metido com Deus. Esse juízo apocalíptico (e citando Manuel Bandeira - "sifilítico", "raquítico"), não se sustenta pelos fatos. A vida do filósofo é trágica. Mas o trágico não o deteve. Como ele mesmo diz: "É preciso fecundar uma estrela bailariana de dentro do caos". E ele o fez. Sua obra atesta isso.

Agora o título "menos com as mulheres". Nieztsche não teve sucesso com as mulheres. Sua vida foi infelicitante nesse aspecto. Também nunca tive sucesso. O meu lance-acerto foi único. Mas colhi uma bela açucena, que brilha, cheira, reluz. Em tudo isso não me lamento. No mais, ignoro fatos adjacentes pelo peso da vida. Todavia, como desejo ser autêntico, ousado, destemido, amante da vida e da arte como ele foi.

Atualmente, estou lendo um livro sobre Nietzsche (SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche - biografia de uma tragédia: trad. Lya Luft - Geração Editorial: São Paulo. 2001. 364p.) - embora só leia nos intervalos e, na maioria das vezes, no metrô, a caminho do trabalho. Estou impressionado com a competência do Safranki, algo que eu já havia atestado na biografia sobre Heidegger. Pretendo ler ainda outra biografia importante escrita pelo mesmo autor sobre Schopenhauer, que possui uma ligação necessária com Nietzsche. O pensamento de Nietzsche possui ecos, um verbalizar, uma tonalidade, que nos faz distinguir o autor de O Mundo como Vontade e Representação. O que de fato tem me desagradado no livro de Safranki é o forte tom analítico e filosófico. Gostaria que o biográfo dialogasse mais com a vida do bigodudo. Com Nieztsche é assim: se não entedemos a vida, não entedemos a filosofia - em todos os sentidos.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 24 de outubro de 2011, segunda-feira.

sexta-feira, outubro 21, 2011

Memórias - os itinerários do tempo (I)

A treva se enchia de mistérios, as labaredas fumacentas do fogão viviam, acompanhavam a dança das bruxas. Ali, porém, na claridade forte do sol, os terrores se dissipavam.

Graciliano Ramos, in
Infância, p.169


Cresci num ambiente profundamente rústico. Meus dias eram cheios. Dormia cedo e acordava com a alvorada. Parecia as aves do quintal. De manhã, cozinhava-se o cuscuz numa tigela de barro feita para esta finalidade. Um fumaceiro cobria a casa. A cozinha era um local negro. As paredes de barro estavam pintadas pelo pretume da fumaça fuliginosa. As panelas eram objetos bojudos feitos de barro completamente envernizados pela fumaça, resultado da combustão da madeira seca. A casa onde morava era uma tapera. Um local acanhado feito de madeira trazida da mata. Paus tortos que resultavam numa casa torta. Com o passar dos anos foram ruídos pelos cupins. Víamos pelos cantos das paredes o farelo da decomposição dos bichos miúdos que eram operários silenciosos. Na frente, uma porta mal dimensionada e uma janela escandalosamente mal projetada. Do lado direito, um oco ridículo. Dentro de casa, três cômodos estreitos e despidos de qualquer conforto. As paredes em alguns locais pareciam adquirir formas arredondadas. Quem teria sido o arquiteto daquela casinhola? Talvez matutos tivessem se ajuntado num final de semana, e, no meio da cachaça, e da conversa capenga, tivessem construído sem muitos cuidados, como era costume na região.

Dormia numa rede. A rede ficava na sala tosca. Durante o dia era enrolada e trepada na parede. Quando a noite chegava, a luz do candeeiro ajudava a nos desembaraçar do negrume. A luz mortiça do candeeiro balançava à brisa da noite. Uma fumaça escura se erguia da queima do pavio embebido no querosene. Tratava-se de uma lata com um bico feito para abrigar o pavio que, mergulhado no combustível contido no seu interior, proporcionava uma chama frouxa que alumiava a noite. Os vizinhos ficavam distantes: Mané Ivo, Zé Pequeno, João Severo, Seu Bastião, eram os mais próximos. Os mais afastados eram o meu avô Jeremias, que logo à frente contarei a importância dele para a minha educação, Bil Jorge, Vevé, Antônio Fragoso. Enxergava ao longe luzes anêmicas produzidas pelos candeeiros. Pequenos olhos acesos duelando contra o cobertor escuro da noite. As bananeiras que cercavam a minha casa produziam vozes na noite escura. Dentro de casa, criaturas – eu, minha mãe, meu pai e meu irmã. Geralmente, dormíamos cedo. Meu pai às vezes delongava-se na taverna do Seu Bastião em conversas e divertimentos com os amigos. À noite a rede era armada. Durante muitos anos dormi em redes. Quando estava na rede achava-me protegido dos entes fantasmagóricos que colhia nas conversas e que à noite trazia à minha imaginação. Cobria-me dos pés à cabeça e entedia que com este gesto estava totalmente isento de qualquer surpresa. Entedia que o pano que me cobria, proteger-me-ia do mundo, dos caiporas, das comadres fulosinhas e de todos os entes mal intencionados que surgissem. Arregalava os olhos tentava enxergar na treva medonha que me cercava.


Não me recordo bem da ocasião, mas certa vez minha mãe adquiriu um calendário com uma fotografia da Nossa Senhora Aparecida. O calendário foi afixado na parede da sala. A imagem da santa perturbava-me profundamente. A fisionomia negra da santa grudava-se na minha mente como matéria pegajosa. As vestes negras causavam-me pânico. O rosto duro, minúsculo, sumido no meio dos trajes quais plumagens de graúna, infundiam medo à noite quando os candeeiros se apagavam. Reclamava para a minha mãe.


- Deixa de se besta, menino! – dizia a minha querida mãe.


Não conseguia compreender como é que uma santa poderia provocar medo. A celestialidade dos santos estava coberta de luz, com ornamentos esbranquiçados, com faces angélicas; mas aquela santa era diferente. Era negra, de trajos negros, de fisionomia que me provocava sensações negras. Por causa disso, desde pequeno a cor preta está associada a fatos desagradáveis, a situações cavernosas na minha mente.


Quando ia para a casa do meu avô e tinha que voltar sozinho, uma apreensão grossa, graúda, abraçava-me. Por todos os lados eu estava cercado por canaviais. Mangueiras de troncos grossos, de folhagens enormes como um cogumelo gigante, que se tornavam imperceptíveis na noite escura. Embaixo delas, nos troncos, almas pelintras poderiam confabular como atacariam os humanos. Corria. Faltava-me o fôlego. Eriçava-me todo. Sentia uma mão fria pousar nas minhas costas. Espantava-me. Não tinha ânimo em olhar para trás. Com certeza havia no meu encalço seres de outro mundo. Corpos feitos de fumaça que voejavam na noite escura. Apreensão. Coração aos pulos. Tonto, não distinguia muito bem o caminho. Era guiado pelo instinto. Quando deitava, embrulhava-me embaixo da rede e me punha a pensar o que as criaturas espectrais estariam com suas legiões a fomentar contra a vida dos humanos. Mas por que tais criaturas tinham que ter raiva dos seres humanos? Não conseguia compreender.


Quando sentávamos à roda da fogueira na noite escura – eu meus colegas - , via as nossas sombras se mexerem misteriosamente na ramagem das plantas. Imaginava confabulações sendo feitas ali próximo de nós. Invisibilidade camuflada, mostrada unicamente por meio de nossas próprias figuras deformadas. Ali estavam seres de olhos de brasas, de corporatura indistinta, que se arrastavam à semelhança de vermes gigantes na treva noturna. A agonia me paralisava.


Com isto quero dizer que este cenário fantástico construiu em mim a capacidade para interpretar o mundo de modo fantasioso. De modo que hoje, ainda guardo em mim o poder da contemplação e da fantasia. Aquelas experiências amendrontadoras não incutiram medo em mim, mas a crença involuntária de que existe um outro além deste mundo. Hoje, por exemplo, quando leio uma poesia ou uma história mitológica sou remetido diretamente, sem dificuldades, ao mundo descrito no texto. Imagino realidades fantásticas com muita facilidade. Acredito, assim, que isto seja resultado dos anos mais incríveis da minha infância quando fui iniciado na arte da imaginação.


*Escrito em 2006, para uma pequena biografia que comecei a tecer. Postarei outros capítulos da pequena análise feita por mim.

quinta-feira, outubro 13, 2011

A natureza e a sua voz silenciosa

Hoje pela manhã, enquanto caminhava para o trabalho, observei que uma mudança se perpetrou nos canteiros e jardins de Brasília. Uma mudança suave, branda, quase imperceptível, que aos poucos vai tomando conta de tudo - a revolução persistente da natureza. Há alguns dias atrás, Brasília era uma braseiro no Planalto Central do Brasil. As gramíneas estavam ressecadas. O calor era insurportável, asfixiante. Uma emanação morna e sufocante brotava do asfalto quente. A umidade do ar dava à Capital Federal características de um deserto.

As feições se contraíam. Reclamações engrossavam o caldo de descontentamento dos brasilienses. Tudo seco. A paisagem era feia. A vida havia se escondido. As árvores nuas, muniam-se com a estratégia que a evolução havia dado a elas - perder as folhas, como se estivessem dizendo: "É necessário polpar energia e água". Curioso.

Mas bastou que as primeiras chuvas surgissem para que uma transformação silenciosa acontecesse. De repente, o verde sai da alcova, tímido, sonolento, e se insinua gracioso. Isso me faz lembrar de uma frase de Victor Hugo: "É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a escuta". Assim, como Victor Hugo, eu acredito que a natureza possua uma voz delicada. É uma voz murmurante, quase inaudível, mas que pode ser percebida se prestarmos atenção. Os desastres ambientais e catástrofes naturais que têm se dado a nível mundial, são o resultado da incapacidade do homem de ouvir a natureza.

Não se trata de um pessimismo, mas penso que o erro fatal do homem será continuar com sua gana predadora, desconsiderando todos os gritos, gestos e avisos da natureza. Mas, enquanto ainda posso caminhar, vejo um parto natural sendo gestado e isso enche os meus olhos de alegria.


terça-feira, outubro 11, 2011

Religião – por quê? (parte I)

Percebo que os religiosos de nosso tempo enfrentam um dilema: como conciliar os valores antigos numa sociedade que prima pela pluralidade? Pela exigência da igualdade, seja ela ideológica, no nível das satisfações materiais ou sexuais? Essencialmente, a religião é monocromática. Possui um tom, um cacoete, um modo de dialogar, uma visão a qual o religioso julga o mundo. A partir desses óculos, as cores do mundo se adaptam.

O ser humano ao assumir uma religião, recusa-se a ser de fato aquilo que ele é. A religiosidade é um desvio. Um direcionar dos olhos para os silêncios, trevas e mistérios escondidos na bruma da eternidade. Camus disse certa vez que "o homem é a única criatura que se recusa a ser aquilo que de fato ele é". Ou seja, criar uma religião é desvencilhar-se de um medo. As religiões foram criadas por causa de temores ideais. Talvez medo dos elementos naturais – sol, chuva, ventos fortes, fogo; medo de lidar com a morte, com aquilo que surge (?) depois da vida, medo de supostos espíritos malignos. Ou quem sabe, como a expressão de um desejo – a religião lida necessariamente com um desejo. O crente é um depositário de desejos no “colo de sua divindade”. A divindade é uma espécie de banco, que guarda créditos e investimentos.

A afirmação de Camus trata de uma questão fundamental. Diviso dois entendimentos: (1) Ao não levar em conta
a questão crucial acerca da existência humana, poucas foram as pessoas que lidaram essencialmente consigo mesmas. Se a religião nos afasta daquilo que somos em essência, escusado é afirmar que poucas foram as pessoas que aceitaram ser aquilo que são – e viveram bem com isso. (2) Ao não aceitar ser aquilo que é o homem vive a tentar atingir o horizonte. A religião é uma espécie de caminhada rumo ao horizonte. É sempre um amanhã que nos afasta do hoje, do fundamental, do sólido, do histórico. A religião lida com símbolos ausentes. Com promessas que emulam comportamentos, que potencializam gestos autômatos.

A religião é uma espécie de teia invisível. Nela prendemos nossas aspirações. Vestimo-nos de uma linguagem excessivamente simbólica. O objeto a qual é a matéria abstrata é intangível. Domina-nos com mais eficácia aquilo que não vemos. Esse fato me faz lembrar Nietzsche: “O homem é o único ser capaz de criar e se tornar escravo de sua criação”. Assim, homem é o único ser que se deixa dominar passivamente por aquilo que ele mesmo cria.

A religião se instala na alma humana e atende a uma necessidade de segurança. Se o homem tivesse consciência de sua liberdade, de sua solidão em um universo inamistoso, resultado do acaso natural, possivelmente esse fato o levasse ao desespero. Mas a criação das religiões como um elemento cultural - somente os homens criam culturas e, portanto, religiões – aponta para uma necessidade d
e estabilidade. Cria-se o imaginário para estabilizar o real. A realidade está sedimentada no conflito e no trágico. A imaginação cria atmosferas ideais. É por isso, que a maioria das religiões promete um paraíso, que é a ausência do real, da realidade cortada por eventos contingentes. A religião não aceita aquela propositura de Nietzsche – o dionisíaco e apolíneo, como elementos essenciais da existência. Somos parte de um mundo no qual essas duas possibilidades existem como devir – e isso é o único absoluto.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: segunda-feira, 10 de outubro de 2011, 22:02:46.

sexta-feira, outubro 07, 2011

A genialidade de Fernando Gonsales

Aprendi a admirar o cartunista Fernando Gonsales por causa da criatividade desse artista de nossa terra. Suas tiras são sempre de muito bom gosto e graça. Seus trabalhos têm sido lançados em vários jornais nacionais e em alguns países como, por exemplo, Portugal e a Inglaterra. Dos vários personagens criados por Gonsales, Níquel e Náusea são os mais divertidos. Suas tiras são de um humor nonsense - e, por isso, maravilhosos. Mas é, justamente, em decorrência dessa habilidade, que repousa o valor do trabalho de Fernando Gonsales. Separei, a seguir, algumas tiras interessantes do cartunista.

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domingo, setembro 25, 2011

O homem do futuro e O Cheiro do Ralo – dois filmes em dois dias!

Apesar de andar bastante estafado nestes últimos dias, tive a ventura de assistir a dois filmes nos últimos dois dias. Primeiro, na sexta-feira, assisti à película morna O Homem do Futuro, que tem como protagonista o Wagner Moura. E, ontem, o intrigante O Cheiro do Ralo, que tem como personagem principal - numa atuação absurda de boa - Selton Mello.


(1) O Homem de Futuro - na verdade, a obra do diretor Cláudio Torres me deixou com um misto de sentimentos contraditórios - de aspectos elogiáveis e, outros, críticos. O cinema brasileiro progrediu consideravelmente nos últimos vinte anos. No passado, ia-se ao cinema para se ver a filmes de "sacanagem" e ouvir palavrões. Oscilávamos entre a pornochanchada e o riso nonsense dos filmes de Os Trapalhões; e outros de qualidade inferior. Esse quadro nos levou a ter uma péssima impressão do cinema nacional. O Homem do Futuro é uma obra bem elaborada. Os efeitos especiais não são tacanhos. Nada deixam a dever a Hollywood. A atuação de Wagner Moura é contunden
te. A trama é bem construída. Possui coerência. Possui vários momentos em que se pode dar boas risadas, mas não de piadas baixas, nem rasteiras. O personagem de Wagner Moura (Zero) é construído para gerar empatia com o espectador. Os paradoxos temporais são bem construídos, o que nos leva a constatar a melhora significativa do nosso cinema.


O filme é uma comédia romântica com enxertos de ficção. Enquanto assistia ao filme me lembrei da trilogia De volta para o Futuro, um ícone dos anos oitenta; ou Bill e Ted. Ou seja, da aventura que surge como resultado da teoria científica, do professor maluco e genial que constrói bugigangas capazes de viajar no tempo e mudar aspectos malquistos do passado. E é aí, talvez, que o filme m
ostre o seu lado artificial. Embora a história não seja previsível, eu senti algo quadrado, cheio de arestas, entrando em meu cérebro. Talvez, ainda, essa sensação seja resultado de uma má impressão que tenha adquirido do cinema nacional, algo que está instalado como uma espécie de inconsciente coletivo. Ou seja, de que não temos vocação para fazermos filmes com efeitos especiais; de ficção científica; com um tipo de história que nos leva a um desfecho incomum.


(2) O Cheiro do
Ralo - O filme é baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. Assisti ontem à noite e fiquei impressionado com a qualidade. Fiquei me questionando como esse filme ficou à margem, na obscuridade. A qualidade da história é notável. A fotografia de um mundo suburbano, decadente, foi bem arquitetada. Ela faz jus ao papel de Lourenço (Selton Mello), o dono de um armazém, uma espécie de antiquário com vocação para ferro velho. Nesse local, o personagem trava batalhas psicológicas com as pessoas necessitadas que lá vão vender objetos velhos ou usados. A sua condição faz com que o personagem oprima, controle, dite as regras daqueles que vão lá vender os seus objetos. Mas, o curioso é que, no local onde fica a maior parte do filme, Lourenço passa a ser incomodado pelo cheiro do ralo de um banheiro contíguo à sua sala. Aos indivíduos que lá vão vender os seus objetos a baixos preços, Lourencço diz: "Olhe, esse mau cheiro é do ralo. Estou com um problema no banheiro".


O ralo possui uma relação simbólica com a personagem. Em dado momento da obra um dos visitantes anônimos diz: "Não! Esse cheiro é seu!" E aquilo passa a perturbar a personagem. É curioso que a relação da personagem com o ralo passa a assumir contornos existenciais. A vida marginal, pouco expressiva e decadente de Lourenço possui a fragrância do ralo. Com o tempo, ele passa a necessitar do ralo. Passa a cheirar o ralo como se aquilo fosse uma complementação necessária à sua existência. É como se o cheiro nauseabundo saísse de sua personalidade tacanha e conturbada.


A mente da personagem é complexa. Sua compulsão pela bunda de uma garçonete é curiosa. As pessoas que ele julgava controlar, principalmente, uma dependente química esquelética, levam a história a um desfecho curioso, um fim paradoxal. A última palavra que exprimimos para descrever a experiência proporcionada pela obra é: "Caramba! Que merda!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque


terça-feira, setembro 20, 2011

Britten, um caso de Interlúdio


Tenho uma paixão toda especial por Britten. E estes Four Sea Interludes do compositor inglês é a magestificação de uma beleza diferente. Britten foi um dos maiores compositores de todos os tempos. Sua música soa sempre perfeita e exata. Na dança dos nomes, o inglês sempre fica preterido frente à Stravinsky, Bartok e outros, mas penso que ele se imiscua nesse panteão dos gênios da música de todos os tempos. Abaixo uma palhinha com o André Previne a Filarmônica de Viena.


domingo, setembro 11, 2011

Blade Runner, uma película mórbida, mas intrigante e Nietzsche

Na última semana, assisti ao filme Blade Runner, o caçador de andróides. Trata-se de um filme mórbido. Fazer filmes de ficção é um empreendimento complexo, ainda mais quando se trata de uma obra produzida no início da década de 1980. O filme de Ridley Scott, autor de O Gladiador, 1492 e Cruzada, é maçante. As cenas se passam à noite. A evolução da história é morosa. Na Los Angeles de 2019, nota-se uma fotografia dark, complexa, eivada de caos social. Chove a maior parte do filme. É uma chuva negra, constante, num cenário velho, nauseabundo. A trilha sonora foi realizada por Vangelis. E pode se dizer que a música foi bem pensada. Ela parece ter um gosto plástico, o que causa uma sensação de gastura e mal-estar. Carros voadores dividem o espaço com modelos velhos, ultrapassados. Os comerciantes são orientais - chineses. Talvez, o diretor quisesse apontar o problema, já presente na década de 80, da orientalização da América. Trata-se de um cenário decadentista. A paisagem é opressiva. As mensagens publicitárias garantem vida plena, saúde, prazer, numa atmosfera sufocante, que parece ser o resultado de uma deterioração atômica. E nisso repousa um paradoxo.

Pode-se perceber uma condução distópica na problemática abordada pelo filme. Há uma guerra existencial, de sobrevivência e de descoberta de si mesmo. Deckard (Harrison Ford), o protagonista do filme, trabalha num filão da polícia chamada de blade runners, que tem por finalidade exterminar os “replicantes”, clones ou réplicas “mais que humanas”. Os “replicantes” se revoltam e são tidos como proscritos. A função do policial Deckard é aniquilar estes insurgentes. A questão é que estes “replicantes” vivem, no máximo, 4 anos. Eles envelhecem rapidamente. Mas, querem buscar estender a vida. Buscam resolver essa imperfeição, mas encontram o policial Deckard, que se apaixona por uma “replicante”. De certa forma, ele vive um paradoxo. Busca destruir os “replicantes”, mas está emocionalmente envolvido com alguém de vida breve e que deve morrer.

Penso que o diretor tenha desejado fazer o papel inverso, numa espécie de odisseia, da problemática do humano. Talvez Ridley Scott - e aqui podem falar os entendidos – tenha desejado projetar nos “replicantes” aquilo que é inerente ao humano, ou seja, a busca pelo prolongamento da própria vida. O tempo é um carrasco que aniquila a vida humana. Construímos cenários, tecnologias; buscamos a extensão da vida e nos apegamos com mais força aos recursos que nos são próprios, mas a vida é fugidia. Vivemos numa busca complexa num mundo cada vez mais desfigurado e sufocante. O drama da efemeridade dos “replicantes” é o drama dos próprios humanos. Os “replicantes” são o arquétipo da tragédia humana. Nascemos e vivemos em meio à ruína, ao niilismo e somos conduzidos, mesmo em meio à técnica e às buscas da ciência, ao fatalismo iminente da decadência. Como afirma um dos “replicantes” não basta “pensar para existir”. A vida é mais do que uma lógica retilínea.

Enquanto assistia à obra questionava para qual direção o filme estava sendo conduzido, mas as cenas finais são cheia de significações filosóficas. A cena que mais me pertubou é aquela em que o “replicante” Roy (Rudger Hauer) mata Tyrel, o seu criador. Nessa cena, vemos a própria implosão da metafísica. A criatura matou o criador. Pode-se evocar aquela famosa citação de Nietzsche descrita em “A Gaia Ciência”: “Deus está morto!” Talvez aqui resida uma das principais críticas feitas pelo filme: A falta de sentido do existir humano. A morte da metafísica significa a morte dos valores que sedimentavam a segurança do homem, os valores que estribavam os idealismos.

A película de 1982 é altamente instigante. Para finalizar cito o aforismo # 125 de Nietzsche, que muito bem retrata uma das problemáticas do homem moderno encontradas no filme de Ridley Scott – a criação “matando” o criador:

“Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá , por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele.“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.”

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: Domingo, 11 de setembro de 2011, 23:07:37

segunda-feira, setembro 05, 2011

"A Flora Brasiliense", por Angeli

Apenas um pequeno adendo ao post anterior. Lembrei dessa brilhante charge do Angeli. É uma explicação mais que científica do "fenômeno brasileiro".

quinta-feira, setembro 01, 2011

Os políticos, Jaqueline Roriz e a "sifilização do Brasil"

Somos um país muito estranho. Penso isso após ter passado do momento de susto cético ao estoicismo resignado daquelas pessoas que aceitam o acontecido e se sente completamente incapaz de emular qualquer mudança. E assim a gente vai caminhando, cantando, aquela frase patética: "Sou brasileiro e não desisto nunca!", numa tentativa de motivar a nossa vontade, a nossa fé cega, que não apresenta direções. Caminhamos apalermados. Levamos "socos no estômago", "na face da nossa decência" e, mesmo assim, somos instados a cantar: "Sou brasileiro e não desisto nunca". Que país é esse? Por que não indagamos o porquê de recitarmos essa frase fatalista? Esses pensamentos divagadores são o resultado de minha sensação de idiotamento. Na última terça-feira, a Câmara dos Deputados arquivou o processo contra a senhora Jaqueline Roriz, que a essas horas está rindo de nosso atoleimamento. E será que agora afirmaremos "sou brasileiro e não desisto nunca?".

O Brasil é um país de ambiguidades interessantes. Alternamos os momentos de euforia com atarantamento inoperante; de alegria futebolística com o choro por personalidades que não acrescentam nada à nossa vida individual. Mas não somos capazes de sair às ruas, numa mobilização capaz de fecundar mudanças; Organizamo-nos para ir ao estádio, mas não somos capazes de nos organizarmos numa passeata nacional em prol da decência, da moral, da ética e dos bons costumes. Na quarta-feira pela manhã, quando se ficou sabendo do ocorrido na noite anterior (tudo feito às escuras, para não se deixar vestígios), ficamos com aquela "cara de paisagem", de "panaca", de quem "é brasileiro e não desiste nunca".

O Brasil é um país estranho que não se leva a sério. Somos o resultado da confusão, dos magotes de degredados, criminosos, bandidos, em suma, a ralé que foi trazida para cá por Portugal. Nosso país não nasceu de um sonho, de um planejamento. Somos o resultado da anarquia, do chafurdo, da orgia da sífilis. Gilberto Freyre diz que antes de sermos "civilizados fomos sifilizados". Talvez, não tenhamos passado pelo processo "civilizatório" citado por Freyre. Talvez ainda tenhamos em nosso sangue a doença, a endemia que açambarcou as nossas forças e nos inclinou para a invirtude, para o malandrismo, para a esperteza. Talvez tenha sido esse processo "sifilizatório" que nos deixou "a memória fraca", a demência da indisciplina, da ignorância, da falta de decoro, da licenciosidade, dos desrespeito.

Após o episódio da última terça-feira, eu me tornei mais cético. O que foi construído em 511 anos de existência não pode ser desfeito do dia para noite. Não é com gritos, com moralismos, com a religião, com sentimentalismos, que se extirpa esse estado de doença avançada. O mal que acomete esse país está depositado em suas próprias veias. A um câncer nós não o arrancamos com "benzeduras", mas com medidas duras, objetivas e clínicas. Não é a esquerda nem a direita que muda o Brasil. Isso já foi provado, pois o país continua a ser "uma espécie de acampamento" para vigaristas, para grileiros, para os licenciosos e promíscuos.

Os meus ideais e crenças num país justo se aniquilaram um pouco mais. Sinceramente, não nos levamos a sério. E, para essa doença, não sei se há rémedios.

Por Carlos A. M. Albuquerque
01/09/2011

sexta-feira, agosto 26, 2011

"Onde estamos quando pensamos?"

Mesmo após ter terminado de ler o livro de Rudolf Safranski, Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, fiquei a pensar numa retratação emblematicamente filósofica sobre Sócrates. Diz Safranski no capítulo 16 ("A saída da maquinação política"):

"Afinal, onde estamos quando pensamos?
Xenofonte nos transmite uma bela anedota sobre Sócrates. Este combatera valentemente como soldado na campanha do Peloponeso, mas em uma ocasao, quando as tropas estavam em marcha, ele de repente mergulhara em pensamentos e ficara parado, e ali ficou para do dia inteiro, esquecido de si, do lugar, esquecido da situação. Ocorrera-lhe, ou chamara a sua atenção, algo que o fazia pensar, e assim ele saíra da sua realidade. Entrara sob a coerção de um pensar que exigia dele um lugar-nenhum, mas onde estranhamente parecia sentir-se em casa. Esse lugar-nenhum do pensar é a grande interrupção no acontecimento cotidiano, e é um outro-lugar sedutor. Segundo tudo o que sabemos de Sócrates, a experiência desse outro-lugar do espírito é uma pressuposição de seu triunfo sobre o medo da morte. Sócrates arrebatado pelo pensar torna-se inatingível. Poderão matar seu corpo, mas seu espírito há de viver. Ele está livre do dasein. Nesse Sócrates, parado ali, imóvel e absorto, enquanto as coisas em torno dele seguem seu curso, pensava Aristóteles quando louvava a filosofia seu talento para todo lugar e lugar nenhum; ela não exigia "nem equipamento nem lugar especial para se exercitar... onde quer que na terra alguém se dedique a pensar, atingirá a verdade como se ela estivesse ali presente"".

SAFRANSKI, Rudolf. Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo. Geração Editorial. 2000. 518 p.

P.S. Comprei recentemente outro livro de Safranki (outra biografia). Dessa vez foi de Nietzsche. O nome é: "Nietszche - biografia de uma tragédia". Há ainda outro trabalho biográfico acerca de Schopenhauer. Mais informações AQUI.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Os Contos Proibidos do Marquês de Sade, uma breve reflexão

Ontem à tarde, voltei a assistir ao filme "Os Contos proibidos do marquês de Sade". Havia visto à obra do diretor Philip Kaufman há dez anos atrás. Mas, ontem, vendo ao filme pela segunda vez, tentei entender a personalidade complexa dessa personagem intrigante do mundo ocidental, a saber, Donatien Alphonse François, mais conhecido como Marquês de Sade. A obra de Kaufman é magnífica. Os atores Geoffrey Rush, que faz uma interpretação excepcional do Marquês de Sade, encarna o personagem; Kate Winslet (Madeleine), bela como sempre, cria uma atmosfera de encantos. Joaquin Phoenix (Coulmier), que faz o papel do padre, que cuida do manicômio, com uma atuação impecável, mostra as suas qualidades de bom ator. A história se passa na França pós-revolucionária. Napoleão está no trono.

A fotografia do filme é belíssima. Vai do glamour ao grotesco das ideias do Marquês; da tara insana ao sublime. A cena de necrofilia do padre Coulmier com Madeleine é espantosa e fascinante ao mesmo tempo. A piromania de um dos loucos impressiona. As cenas que mostram o impedimento do marquês em não poder escrever são dramáticas. Impedido de escrever, o marquês se ver atormentando pelas histórias que habitam o seu mundo surreal. Mas não há lápis, pois estes foram tirados. Dois eventos que se seguem impressionam: (1) quando o marquês escreve com o próprio sangue em sua roupa; e (2) quando nu (pois a sua roupa fora confiscada), escreve os seus textos com fezes. Contos proibidos do marquês de Sade é baseado no roteiro da peça de Doug Wright. Enquanto assistia ao filme, recordei-me de uma afirmação do escritor cristão Francis A. Schaeffer em seu livro "A morte da razão": "Todos os escritores pornográficos do século 20 atribuem a sua origem ao Marquês de Sade (1740-1814). O século 20 o celebra agora como uma personalidade - ele já não é mais um escritor "imundo", apenas" (SCHAEFFER, 2002, p. 51). Talvez, olhar para Sade apenas sob este prisma reduza sua perspectiva filosófica. O que Sade defendia era um compreensão filosófica da existência sob o ponto de vista materialista e naturalista.

Sade não é sinônimo de sadismo. O sadismo é apenas uma semântica reducionista da largura do pensamento de Sade. Para o francês, o que está aí, é; e se é, certo é. Então para ele, a moralidade oculta as leis da natureza. Os homens ao forjarem moralidades apartam-se, por meio das aparências, daquilo que é vital e natural ao ser, fugindo daquilo que se é. A psicanálise não deixa de flertar com esse pensamento. Partindo dessa concepção, Sade não oculta o id, deixando-o vivo, "insolente", "desafiador". Ele seria o mais lúcido e feliz dos homens, pois vive aquilo para a qual nasceu para viver, enquanto os outros homens se escondem por trás de máscaras morais. Não deixei de pensar em tais aspectos. Assim, a filosofia de Sade é um despudor, é uma depravação para os moralistas, mas a exata expressão do homem para os naturalistas, pois aquilo que é, é.

Abaixo o trailer do belo filme de Kaufman, de 2000: