quinta-feira, fevereiro 28, 2013

Uma audição de final de mês


Trabalho em demasia. Sem tempo para ler. Sem tempo para escrever. Final de fevereiro. Para descontrair, resolvi ouvir um disco espetacular. Fazia um bom tempo que eu não o escutava. Disco de 1972, do genial Lou Reed, uma figura icônica da história do rock. Transformer é um dos seus melhores discos. 

domingo, fevereiro 17, 2013

O ser brasileiro e a música de Elomar Figueira Mello

O fato de ser brasileiro gera um misto de descontentamento e alegria. O descontentamento  fica por conta dos tantos absurdos que acontecem todos os dias em nosso país. O Poderes da República completamente apodrecidos. O jeitinho que é um modo de navegação social. As desigualdades sociais que nos passam a ideia de uma sociedade estamental. A tributação pesada que pagamos e não temos os serviços essenciais - segurança, educação, saúde - a contento. As mentiras que são contadas pela mídia. Os programas crassos que são veiculados e que brutaliza a maior parte dos brasileiros. O fisiologismo partidário. A impressão de impunidade. De que trabalhamos para alimentar uma máquina que nos corta, que nos pune, que nos vilipendia.

A mídia trabalha com a ideia de que somos brasileiros em ano de Copa do Mundo. Naqueles momentos em que um esportista ganha alguma medalha nesses campeonatos internacionais. Ou que aumentará o nosso orgulho quando ganharmos um daqueles incipientes Orcars. Ou ainda seremos melhores quando sediarmos as Olímpiadas. Para isso criaram um bordão decadente: "Sou brasileiro; não desisto nunca". Ser brasileiro é mais do quê essas baboseiras construídas pelo discurso da mídia. 

Somos um país bonito. De natureza privilegiada. De praias belíssimas. De ricas florestas. De rios belíssimos. De chapadões largos, imensos. De cerrado vistoso. Dos alagados do Pantanal. Da imensa e prodigiosa Amazônia. No que tange ao mundo artístico, também não é para menos. Fiz essa digressão inicial, pois tenho ouvido com bastante intensidade as músicas de Elomar, um baiano que se mostra como um dos maiores poetas de nossa terra. Tantos brasileiros não o conhecem. Não sabem quem é esse sujeito de uma simplicidade incomum e com um forte senso de profundidade estética. 

Elomar Figueira
Elomar nos prova que para fazer o belo, que para construir uma obra de arte, não é necessário ler intricados manuais. Abeberar-se de fórmulas acadêmicas. A beleza é como o sopro do vento. É preciso ficar quieto e em silêncio para percebê-la. Hoje, pela manhã, ouvi o disco "Xangai canta Elomar" e algo de uma leveza, de uma sublimidade, invadiu o meu coração. Um riso bobo e uma frase ecoou inevitável: "Meu Deus, que coisa mais linda!" 

O compositor baiano Elomar segue a tradição das cantigas medievais. Seu cancioneiro está repleto da tradição dos reis, que saíam pela Idade Média cantando as belezas do mundo. É tradição das canções de amigo. Elomar apropriou-se dessa linguagem e inseriu nela o calor, os modos populares, a fala, a natureza sinuosa do sertão, eivada por uma espiritualidade que nos faz chorar. Após ouvir Xangai cantar Elomar, fico com a firme convicção de que a obra de Elomar é o espírito da obra de João Guimarães Rosa sendo cantado. 

Um riso abobalhado brota no canto dos lábios após ouvir a música "As curvas do rio" (abaixo); e isso me faz me apegar ainda mais àquilo que de mais belo existe em nossa terra. 










quarta-feira, fevereiro 13, 2013

A recordação inevitável da casa dos mortos

"O homem que não tiver um anseio ou uma esperança acaba, no desespero, virando um monstro...".

Terminei há alguns dias a leitura de Recordação da Casa dos Mortos, de Dostoiévski. Certamente esse livro se inscreveu como uma das coisas mais fantásticas que já li. O livro retrata o período em que o escritor ficou preso na fortaleza de Omsk, Sibéria, de 1849 a 1854. O escritor teve a sua pena comutada após ter sido condenado à morte por causa de atividades políticas suspeitas. No momento da execução, as forças imperiais mudaram os intentos. Mandaram-no para a distante e inóspita Sibéria, uma das regiões mais terríveis para se sobreviver no planeta. Curiosa são as palavras das páginas iniciais proferidas pelo escritor: "A melhor definição que posso dar de um homem é a de que se trata de um ser que se habitua a tudo".

É partindo da observação, dessa adaptabilidade ao funesto, que Dostoiévski faz a sua análise quase clínica. Ele cria uma narrativa que funde realismo e ficção. Esculpe uma personagem estranha chamada Alieksandr Pietróvitch. Descreve com enorme imparcialidade a rotina da cadeia. Fala sobre os animais. Dos oficiais. De como os presos eram dados a extravagâncias, mesmo vivendo em um ambiente de privações e severidades. De como aconteciam as punições, ou seja, as penas de até 4 mil chibatadas. As humilhações a que os prisioneiros eram submetidas. A comida terrível, coalhada de barata. A vocação artística de muito dos prisioneiros. A maldade de um certo major que acaba na bancarrota. O trabalho forçado. As planícies imensas da Sibéria. O frio fulminante. O banho na sauna coletiva. As palavras de Dostoiévski no que tange a esse evento são fantásticas:

"Ao transpormos a entrada, puxando a porta que dava para o banheiro, até pensei que estava entrando nas caldeiras do inferno. Imagine-se uma sala com doze metros de largura e outros tantos de comprimento onde se acham no mínimo oitenta pessoas reunidas, pois ali estava pouco menos da metade do presídio, que contava com duzentos detentos. Um vapor espesso, gafeira, lama, e um tal aperto que uma pessoa nem arranjava lugar para pôr o pé" (p. 134).

E é justamente nesse cenário de "caldeiras do inferno" que estão aglutinados os "mortos". Quem era condenado a viver naquele espaço experimentava a não-vida; a inapetência completa pelas coisas do existir. Os prisioneiros eram levados para aquele lugar para serem humilhados. A menor falta de estabilidade psicológica, destroçava o indivíduo. Voltava-se dali com a impressão de que se esteve Hades. 

Dostoiévski tece a partir desse quadro melancólico uma das mais belas narrativas de todos os tempos. Ele traceja os perfis psicológicos de certos sujeitos que lhe chamaram a atenção de forma destacada. Costura ações. Descreve aquilo que a cadeia fez com cada um daqueles homens. É ali que ele encontra um combustível denso para a literatura. Suas personagens são tipos escuros, que ora vivem nas sombras, ora querem vir à luz. Talvez tenha sido ali que ele tenha encontrado uma matéria densa para os seus romances posteriores.
Sibéria. O que tem de linda, tem de terrível

Isso me faz lembrar do filme Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos, livro este tão brilhante e genial quanto o do Dostoiévski - também revelador da experiência infausta da masmorra do presídio. Nas cenas finais do filme, Carlos Vereza, que fazia o papel diz Graciliano, diz quando estava para sair da cadeia: "Obrigado! Os senhores me deram uma matéria formidável para um livro!" O burocrata da Casa de Correção, aturdido, diz em desespero: "A culpa é desses cavalos que mandam gente que sabe ler para cá!"

Dostoiévski fez anotações escrupulosas e em 1861, publicou esse livro que é um divisor de águas em sua obra. Recordação da Casa dos mortos do ponto onde estar é uma fundamental para se entender os livros da fase madura do escritor russo - O idiota, Os demônios, Crime e Castigo e Os irmãos Karamazovi. O livro possui um estilo leve, corrediço, mas de uma densidade provocante, com a montagem de quadros psicológicos grandiosos. Na prisão de Omsk, estava um substrato, uma representação, um quadro amostral da escória da Rússia. E  daí surge a frase inicial que coloquei como epígrafe desses devaneios: em meio à selvageria e à barbárie é preciso ter esperança, ter uma planície luminosa de esperança dentro de si para não submergir ante o caos contingente. Dostoiévski esteve na casa dos mortos e saiu de lá com uma matéria humana formidável para escrever grandes livros. 



terça-feira, fevereiro 12, 2013

Uma pensata... um devaneio... uma constatação

Assisti a este documentário há pouco. Uma verdadeira aula sobre o mistério inextricável do surgimento do universo, da vida e o destino de todas as coisas. Ao final do documentário, resta-nos uma sensação de humildade. Uma percepção de que somos aquilo que Carl Sagan afirmou: "A consciência do cosmos". Pois a nossa condição de seres pensantes, dá-nos o privilégio para que entendamos que as mesmas moléculas que estavam nos milésimos iniciais do surgimento do universo, estão em nosso corpo e, quando dia um desaparecermos desse lindo planeta, por conta dos processos entrópicos subjacentes ao cosmos, restará o universo, que poderá também chegar ao fim. Isso é belo. É lindo! E nos dá uma missão fantástica. É preciso olhar para cima e nos espantarmos com esse halo tênue e terrível que nos envolve nesse grande mistério que é o nosso destino. O nosso destino depende do universo. Não somos maiores do que ele. Somos a poeira das estrelas. O resultado inevitável da dialética do caos primordial. Ou como dizia Pascal: "Caniços pensantes!" 

Esse é um tema que sempre suscitou em mim uma sensação maravilhosa de espanto e curiosidade. Talvez, estes devam ser os efeitos causados por aquilo que é grande, maior do que a gente. Pascal tem uma outra célebre frase que explica esse pasmo: "O silêncio desses espaços infinitos me apavora". Existimos contingentemente.  Somos matéria, mas também somos uma consciência que pensa; que sabe que está consciente. Um ser complexo e ao mesmo tempo frágil em sua constituição material. O espírito de vida que habita em nós murcha com o tempo e voltamos a nos integrar aos elementos orgânicos da matéria. Os poemas sagrados dos judeus afirmam: "Tu és [homem] pó; e ao pó voltarás". Essa percepção nos torna suscetíveis a pensamentos errantes e devaneios enormes. Emula fascínio e pessimismo. Esse fato direcionará as minhas próximas leituras: A teia da vida (Fritjof Kapra); Do sentimento trágico da vida (Miguel Unamuno); Pensamentos (Pascal). 

Abaixo, o maravilhoso documentário do History Channel:




sexta-feira, fevereiro 08, 2013

Um conto de Clarice e um vídeo sobre um conto de Clarice

Clarice Lispector, uma das maiores escritoras da literatura brasileira, escreveu um conto chamado Felicidade Clandestina, retratando a paixão de uma menina por uma livro de Monteiro Lobato. É um textos mais belos de sua produção literária. Um dos trechos mais marcantes do conto reside na parte final. Clarice desvela com belas palavras a paixão da menina pelo livro conseguido. Li este conto no dia de hoje com os meus alunos. A Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife fez um belo curta-metragem sobre o conto de Clarice. O vídeo é muito bonito. A atriz que faz o papel da Clarice (uma interpretação livre do conto) é muito bonita. Uma criança que enche os olhos de delicadeza. Abaixo, o conto da Clarice e o vídeo:

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

Clarice Lispector
O Primeiro Beijo
São Paulo, Ed. Ática, 1996

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como "data natalícia" e "saudade".

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do "dia seguinte" com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: "E você fica com o livro por quanto tempo quiser." Entendem? Valia mais do que me dar o livro: "pelo tempo que eu quisesse" é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


sábado, fevereiro 02, 2013

Devaneios, Jim Morrison e o navio de cristal

"Os dias são luminosos e cheios de dor". Jim Morrison

O The Doors foi um banda que representou uma época. Jim Morrison, essa figura icônica, foi o profeta de uma geração; aquele que percorreu pelas estradas dos sentidos. Uma personalidade maldita; um poeta rebelde que renunciou às convenções e experimentou uma espécie de romantismo byroniano. Viveu a maldição de flertar com o infinito e ser tragado pelo abismo. É como se ele dissesse: "Alguns nascem para mergulharem na massa; já, outros, nascem para se esconderem na noite imensa da existência".

É no simbolismo de sua poesia repleta de sentidos abismais que me perco. Já ouvi esta música Crystal Ship muitas vezes no dia de hoje. A voz bela, erótica, veludosa, melancólica, de Jim Morrison, embala-me como se eu estivesse caminhando numa auto-estrada e minhas pernas tivessem controle sobre o meu corpo. 

Ou como diz Fernando Pessoa em versos que deveriam ser musicados:

Ó naus felizes, que do mar vago
Volveis enfim ao silêncio do porto
Depois de tanto noturno mal - 
Meu coração é um morto lago,
E à margem triste do lago morto
Sonha um castelo medieval...




Abaixo, alguém falando (eu mesmo, quando estive na casa da minha avó - Pernambuco - 13/01/2013) saudosisticamente... uma espécie de devaneio inevitável. O meu corpo não aparece. Apenas a voz.


sábado, janeiro 26, 2013

Conceitos científicos x conceitos míticos




"Todos os termos usados nos livros de ciência, "lei", "necessidade", "ordem" e assim por diante, são realmente não intelectuais, porque pressupõem uma síntese interior, que nós não possuímos. As únicas palavras que sempre me satisfizeram como descrições da natureza são os termos usados nos contos de fada, "sortilégio", "feitiço", "encantamento". Eles expressam a arbitrariedade do fato e do mistério. Uma árvore dá frutos porque é uma árvore MÁGICA. A água corre morro abaixo porque está enfeitiçada. O sol brilha porque está enfeitiçado".

G.K. Chesterton, in Ortodoxia, p. 54

quarta-feira, janeiro 23, 2013

Reflexões sobre a sociedade do espetáculo


"A servidão moderna é uma escravidão voluntária, consentida pela multidão de escravos que se arrastam pela face da terra. Eles mesmos compram as mercadorias que os escravizam cada vez mais. Eles mesmos procuram um trabalho cada vez mais alienante que se lhes outorga se demonstram estar suficientemente domados. Eles mesmos escolhem os mestres a quem deverão servir".


"Neste estreito e escuro espaço onde vive, o escravo acumula as mercadorias, que, segundo as mensagens publicitárias onipresentes, deverão lhe trazer a felicidade e a plenitude. Mas quanto mais acumula mercadorias, mais se afasta dele, a possibilidade de ter acesso, um dia, à felicidade".

"A mercadoria, ideológica na essência, priva do seu trabalho quem a produz, e despoja de sua vida, que a consome".

"Todas estas mercadorias, destruídas massivamente num curto lapso de tempo, modifica profundamente as relações humanas. Se serve por um lado para isolar o homem um pouco mais dos seu semelhantes, por outro para difundir as mensagens dominantes do sistema. As coisas que possuímos, acabam nos possuindo".

A pilhagem dos recursos do planeta. A Abundante produção de energia ou de mercadorias. Os resíduos e os despejos do consumo ostentoso hipotecam as possibilidades de sobrevivência da nossa terra e das espécies que a povoam. Mas para dar passagem ao capitalismo selvagem, o crescimento não deverá parar jamais. Há que se produzir, produzir e voltar a produzir cada vez mais".

"Para entrar na ciranda do consumo frenético, tem que ter dinheiro. E para tê-lo, tem que trabalhar. Quer dizer, "vender-se". O sistema dominante fez do trabalho seu principal valor. E os escravos devem trabalhar
cada vez mais para pagar a crédito sua vida miserável".

"Se esgotam no trabalho, perdem com ele a maior parte de sua força vital e tem que suportar as piores humilhações. Passam toda sua vida fazendo uma atividade extenuante e monótona para benefício de poucos.  A tensão do desemprego moderno tem como propósito assustá-los e fazê-los agradecer sem parar à generosidade do poder. Que fariam sem essa tortura, que é o trabalho? São estas atividades alienantes, as que nos apresentam como um liberação. Que mesquinhez e que desprezo. Sempre pressionados pelo cronômetro ou pela campainha, cada gesto dos escravos está calculado para aumentar a produtividade. A organização científica do trabalho constitui a essência da disposição dos trabalhadores. Do fruto de seu trabalho, e do tempo que passam na produção automática das mercadorias e dos serviços. A atividade do trabalhador confunde-se com a de uma máquina nas fábricas, ou com de um computador nos escritórios. O tempo pago não se recupera jamais. Desta maneira cada empregado está ligado a um trabalho repetitivo, seja intelectual ou físico. É um especialista em sua área de produção. Esta especialização se reproduz em escala planetária no marco da divisão internacional do trabalho. Se concebe no ocidente, se produz na Ásia, e se morre na África".

À medida que o sistema de produção coloniza todos os setores da vida, o escravo moderno, não satisfeito
com sua servidão no trabalho, segue desperdiçando seu tempo nas atividades de dispersão e férias planejadas. Nenhum momento de sua vida escapa da influência do sistema. Cada instante de sua vida foi invadido. É um escravo do tempo completo".

"O melhor de sua vida escorre pelos seus dedos, mas ele continua porque tem o costume de obedecer sempre. A obediência se converteu na sua segunda natureza. Obedece sem saber porquê, simplesmente porque sabe que deve obedecer. Obedecer, produzir e consumir. Aí está a tríade que domina a sua vida. Obedece a seus pais, seus professores, seus patrões, seus proprietários e seus negociantes. Obedece a lei e as forças de ordem. Obedece todos os poderes, porque não sabe fazer outra coisa. Não há nada que o assuste mais que a desobediência. Porque a desobediência é o risco, a aventura, a mudança. Assim como uma criança que entra em pânico quando perde de vista seus pais, o escravo moderno sente-se desorientado sem o poder que o criou.".

"O escravo moderno está convencido de que não existe alternativa para a organização do mundo presente. Se resignou a esta vida porque pensa que não pode haver outra. É aí onde reside a força da dominação presente. Fazer crer que este sistema, que colonizou toda a superfície da Terra, é o final da história. Convenceu a classe dominada que adaptar-se à sua ideologia equivale a adaptar-se ao mundo tal como é e tal como sempre foi. Sonhar com outro mundo converteu-se num crime condenando unissonamente pela mídia e por todos os poderes". 

Frente à devastação do mundo real, é necessário para o sistema colonizar a consciência dos escravos. É por isso que o sistema dominante decidiu se focar na dissuasão que desde a idade mais nova, cumpre o papel
preponderante na formação dos escravos. Eles devem esquecer sua condição servil, sua pressão e sua vida miserável. Basta conter essa multidão hipnótica conectadas as telas que acompanham sua vida cotidiana. Eles disfarçam sua insatisfação permanente com o reflexo manipulado de uma vida sonhada, cheia de dinheiro, de glória e de aventura". 

"Há imagens para tudo e para todos. Essas imagens levam em si a mensagem ideológica da sociedade moderna e servem de instrumento de unificação e de propaganda. Multiplicam-se à medida que o homem é
tirado de seu mundo e de sua vida".

"Há imagens para todas as idades e para todas as classes sociais. Os escravos modernos confundem essas imagens com a cultura e, às vezes, com a arte". 

"A imagem segue sendo a forma de comunicação mais direta e mais eficaz. Constrói modelos, embrutece as massas, mente, cria frustrações e infunde a ideologia mercantil. Trata-se, pois, uma vez mais e como sempre
do mesmo objetivo: vender, modelos de vida ou produtos, comportamentos ou mercadorias". 

"Enquanto os imperadores da Roma Antiga compravam a submissão do povo com pão e circo, atualmente é com diversões e um consumo cego com que se compra o silêncio dos escravos".

"O sistema dominante se define então pela onipresença de sua ideologia mercantil. Ocupa de vez todos os espaços e todos os setores da vida. Não declaram mais do que a necessidade de produzir, vender, consumir, acumular. Reduziu todas as relações humanas a medíocres relações mercantis. E considera que nosso planeta é uma simples mercadoria".

Do documentário francês A Servidão Voluntária, de 2009. 

terça-feira, janeiro 22, 2013

Algumas considerações sobre Usina, romance de José Lins do Rego


O romance Usina, de José Lins do Rego, finaliza de forma brilhante o Ciclo da cana-de-açucar, como ficaram conhecidos os cinco primeiros livros do paraibano - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo e Usina. É um livro repleto de polifonias e ressonâncias. Zé Lins conduz a história do livro com um arrojo e com uma capacidade elétrica que torna a leitura dessa obra do regionalismo em algo prazeroso.

Não pretendo recontar todos os detalhes da história, mas especular sobre alguns pontos relevantes observados por mim. A história se passa no antigo Engenho Santa Rosa do coronel José Paulino, com a volta de Ricardo ao engenho de onde saíra no quarto romance do Ciclo ("O moleque Ricardo"). Dessa vez, o engenho sai de cena e entra a usina Bom Jesus do Dr. Juca, filho do ex-senhor de engenho José Paulino. Juca monta a usina graças à cooperação dos parentes que ajudam com o capital para financiar o empreendimento. Nos primeiros anos, a Bom Jesus não conhece dificuldades. O tino administrativo e o entusiasmo de Juca torna o negócio rentável. O açucar é vendido a um preço alto - 60 contos a saca. Mais tarde, no tempo de dificuldades, cai para um terço do valor. 

Tal sucesso permite ao Dr. Juca viver como um dândi em Pernambuco e na Paraíba. Ignora a prudência; ignora a esposa - Dona Dondom; ignora os filhos. Financia a vida das amantes. Compra carros caríssimos. Esbanja. A derrocada da Bom Jesus se deu quando Juca tenta reformar, tecnologizando-a, colocando-a na esteira do tempo. Assume, assim, um grande número de dívidas, que somado ao baixo preço do açucar, faz com que tudo vá por água abaixo. 

A vida torna-se impossível na Bom Jesus. Dr. Luis, o inimigo de Juca e da Bom Jesus, é dono da usina São Félix. É rico, bem-sucedido. Possui a prudência e a ardilosidade das serpentes. É ele quem vai fazer a Bom Jesus desfalecer nos momentos finais, quando percebe que o inimigo não tem mais como resistir. 

Diferente dos demais livros, Usina não foca em um personagem como se dá com os três primeiros livros, que centra sua atenção em Carlos de Melo; e o quarto, que torna o centro da narrativa, o personagem Ricardo como operário no Recife. Usina possui vários focos narrativos, todos alinhavados por uma ideia de grandeza. Todas as personagens estão ligadas pelo poder conferido pelo dinheiro. A propriedade se torna no romance a única coisa que se projeta. E a ganância que alimenta os sonhos dos poderosos, em contraposição à bondade dos simples, personificado por dona Dondom e pelo povo humildade. 

A propriedade e ânsia pelo ganho se tornam o desejo daqueles que possuem o capital. Já aqueles que não possuem os meios de produção são "amansados" pela superstição religiosa e pela impotência conferida pela miséria. Usina nos põe diante da decadência da ideia de patriarcado oligárquico, na qual a força que sustentava essa estrutura social é solapada no simbolismo da derrocada da Bom Jesus. Curiosa é a ideia de "dilúvio" no final da obra. Não sei qual era a finalidade - talvez isso desse matéria para uma boa discussão - de José Lins ao terminar o Ciclo com uma enchente do Rio Paraíba. Não há como negar que Zé Lins estabelece uma relação com o Guarani, de José de Alencar, e a enchente que funciona neste livro como um mito de fundação da população brasileira. Em Usina, ao contrário, o dilúvio do rio Paraíba funciona como um agente causador de ruína, fomentando inevitavelmente um processo dialético, a mudança que dá início a um novo tempo.  

Usina não é o melhor dos cinco romances do Ciclo. Em minha opinião, penso que o melhor dos cinco romances seja Bangüe. Todavia, Usina é uma obra fundamental para consulta. Talvez, o que faça a obra perder em energia seja o descritivismo insistente do leitor. Os lapsos incompreensíveis. A narrativa inicial  trata sobre a vida de Ricardo em Fernando de Noronha. Mais tarde descobrimos que toda aquela descrição não possui relação direta com o restante do livro. A personagem Ricardo apaga-se completamente e acaba sendo assassinado. Zé Lins permeia o romance com muitos eventos, embora seu estilo não torne a história enfadonha. Sua habilidade para narrar era incomum e é justamente esse trunfo que torna José Lins do Rego um escritor relevante para quem quer ler uma boa história, assim como o é, também, Erico Veríssimo, por exemplo. 

Poucos escritores possuem essa capacidade. Ainda tenho 5 romances do escritor paraibano em minha biblioteca para serem lidos - Pureza, Pedra Bonita, Fogo Morto, Eurídice e Cangaceiros. Sigamos!

segunda-feira, janeiro 21, 2013

Meditações sobre Pascal - Luís Felipe Pondé

Havia postado esta entrevista em um outro blog que eu possuía. Encerrei-o por indisposição. Tratava de temas religiosos. Percebi a inutilidade dele. Achei por bem colocar os posts eventuais que por lá escrevia em O SER CARLINO. Hoje, dando uma olhada nos posts que por lá disponibilizei, encontrei esta entrevista com o filósofo Luís Fernando Pondé, uma autoridade em Pascal - pensador muito querido por mim! A entrevista é bastante eclarecedora. Blaise Pascal tinha como referência epistemológica teológica a condição do homem perante o Infinito. Boa leitura!

 

(...) Ao contrário do que se propaga o senso comum, que distingue Pascal como um cientista que larga a razão para se dedicar à religião, a espiritualidade sempre esteve presente na vida de Pascal. Mas dói a partir de sua conversão ao jansenismo que a religião se tornou ainda mais evidente em sua obra.
O contato mais intenso de Pascal com a religião se dá por influência de sua irmã, que se tornara freira na abadia de Port-Royal. Além disso, algun fatos marcaram definitivamente o direcionamento espiritual na vida de Pascal, como a morte de seu pai e a “milagrosa” cura de sua sobrinha, que sofria de uma fístula lacrimal maligna. Essa recuperação ocorreu quando ela, desenganada pelos médicos, tocou o Santo Espinho que existia em Port-Royal. Entretanto, essa fase da vida de Pascal é rica em especulações. Para alguns, a sua conversação aconteceu quando escapou ileso de um acidente com uma charrete; para outros, o cientista abraçou a vocação religiosa após ter visões.
O fato é que a partir daí, em 1653, Pascal abandona seus trabalhos e estudos matemáticos para se voltar à teologia. Nesse período, seus textos apologéticos se direcionam para críticas aos jesuítas e a Descartes. Pascal achava que os jesuítas reduziam a religião a ritos e dogmas, sem se preocuparem com a reflexão metafísica. Estes escritos estão em Cartas Provinciais, um conjunto de dezoito cartas em defesa do jansenismo. Sobre Descartes, registrou: “Não posso perdoar Descartes; bem quisera ele, em toda a sua filosofia, passar sem Deus, mas não pode evitar de fazê-lo dar um piparote para pôr o mundo em movimento; depois do que, não precisa mais de Deus”.
Para discutir a questão da influência do jansenismo na obra de Pascal e de como seu trabalho se opôs e se opõe ao pensamento cartesiano, a CULT conversou com Luís Felipe Pondé, filósofo e professor do Programa de Estudos Pós-graduados e Ciência da Religião da PUC-SP e de comunicação da Faap. Ele é o autor de O Homem insuficiente: comentários de antropologia pascaliana (2001), Conhecimento na Desgraça: ensaio de epistemologia pascaliana (2004), ambos pela Edusp, e de Crítica e Profecia: Filosofia da religião em Dostoievski (2003), pela Editora 34.

 

CULT – De que maneira a religião está presente na obra de Pascal antes de sua aproximação do pensamento jansenista?
 

Luís Felipe Pondé – É difícil falar em obra antes da aproximação com o jansenismo, porque mesmo em momentos iniciais, como sua perseguição ao clérigo Saint Ange (Jacques Forton, senhor de Saint-Ange-Montcard, com quem Pascal teve suas primeiras discussões teológicas), já há uma tendência agostiniana; se o jansenismo venceu em parte da comunidade intelectual cristã francesa do século 17, é porque já havia – inclusive por conta da sensibilidade calvinista forte na França, e o jansenismo é muito próximo do calvinismo em termos de espiritualidade – uma predisposição espiritual para tal. O Pascal importante é já jansenista, mesmo que o cientista e matemático já “brincasse” há muito tempo.

CULT – Talvez alguns dos conceitos mais “populares” de Pascal sejam os matemáticos. O senhor acha que esse lado do trabalho dele seja menor de o compararmos com sua herança para a filosofia?
 

L.F.P – Quero dizer que ele era tão bom em matemática que mesmo criança brincava com isso e assustava seu pai e seus amigos matemáticos e filósofos. De modo algum o Pascal matemático é menor, ele é fundamental em probabilidades, nas bases do cálculo infinitesimal, matrizes, geometria etc. Outra coisa: para ele isso era “brincadeira” porque tudo era divertissement (divertimento) para ele, mesmo a filosofia ou qualquer atividade intelectual. Lembre-se, segunda concupiscência, Agostinho, curiosidade vã do intelecto. Conta-se que quando ainda era criança seu pai o pegou deduzindo tudo o que se sabia da geometria euclidiana, e que ficou e, pânico com medo que o menino pirasse e proibiu seus amigos de falarem com ele para não piorar sua situação mental.

CULT – Como foi possível a ele promover uma conciliação entre sua obra antes e depois de sua conversão ao jansenismo?
 

L.F.P – Sua obra “posterior”, ou sua obra tout court, é um desdobramento que põe em diálogo a sensibilidade teológica jansenista com sua cultura filosófica e de ciências naturais e matemáticas; não acho um problema essa “conciliação”, porque não é a rigor uma “conciliação”, mas uma efetivação de uma obra que encontra na espiritualidade jansenista um campo para a crítica ao humanismo antropocêntrico. Quando ele escreve, ele já escreve como jansenista.

CULT – Como essas mudanças na vida e na obra de Pascal foram vistas por cientistas de seu tempo?

L.F.P – Muitos cientistas a sua volta partilhavam de atitudes religiosas semelhantes ou contrárias, mas ainda assim dentro do escopo religioso. É importante lembrar que controvérsias teológicas eram dadas dentro de ambientes filosóficos e científicos, muitos eram padres e não leigos como Pascal – na obra dele mesmo temos cartas e padres cientistas; o foco maior de disputa era a base teológica. Pascal era um cientista de sucesso em sua época, com sua pouca idade. Contudo, e isso é uma questão complexa para pouco tempo e espaço, é que sua teoria da ciência – ou sua epistemologia – é bastante avançada para sua época e aí está parte de sua crítica à lógica, geometria e físicas de cepa “fundacionalistas” ou essencialista de viés cartesiano. Sua lógica é muito mais formal e bem menos conteúdista, e muito mais de nomes do que de entes; a raiz disso é sua teologia agostiniana da insuficiência do homem em fazer algo além do que conhecimento local. Também entra aí sua crítica à linguagem, que é muito próximo às críticas neopragmáticas e wittgensteinianas. Mas no caso de Pascal, toda essa inconsistência cognitiva é fruto da desgraça teológica; sua ciência está dentro de sua teologia.

CULT – A questão da religião em Pascal o tornou uma espécie de “caso” na história da filosofia, por oposição a Descartes?
 

L.F.P – Não, Pascal não é quem é porque se opôs a Descartes. Inclusive para ele, este era “incerto e inútil”. A idéia nietzschiana de que Pascal era um grande moralista ( no sentido de um anatomista da alma e da moral), mas infelizmente atormentado pela religião, é típica dos reducionismos errados de Nietzsche e de autores similares ao que poderíamos chamar de um intelecto religioso como o do Pascal. A religião em Pascal é o centro de sua preocupação, e daí que parte sua antropologia, sua moral, sua política e sua espistemologia. Sua oposição teológica é ao humanismo de cepa renascentista do tipo “Pico de La Mirândola”. Descartes representa pouco nesse cenário. Para Pascal, Descartes era apenas um filósofo-cientista, que não sabia ao certo qual era o problema do ser humano, alguém que se divertia com objetos pouco produtivos em termos de salvação humana, leia-se, em termos de um aumento da consciência filosófica da condição humana. Pascal é uma ancestral do existencialismo e do pensamento da angústia. Para ele, Descartes era um ilustre e inteligente equivocado.

CULT – Foi ele o primeiro crítico da razão?

L.F.P – O termos “razão” é variável na história da filosofia. Pascal não é o primeiro crítico da “razão”, mas é o primeiro no período mais próximo a Descartes e, por ser matemático e cientista prático, sua crítica pesa muito.

CULT – O pensamento de Pascal consegue manter um diálogo com as questões contemporâneas?
 

L.F.P – Sim, muitas, não dá para falar delas aqui, mas seguramente com a lógica formal e axiomática, com o neopragmatismo, com o ceticismo, com descrença no ser humano, com o ceticismo político – críticas da democracia -, com a psicologia profunda de cepa freudiana – seu pessimismo com relação à estrutura psíquica humana e não à coisa sexual -, com crítica ao hedonismo materialista, à cultura da auto-estima – essa coisa brega que está virando objeto da academia – etc.

CULT – O senhor considera que a obra de Pascal é devidamente reconhecida nos dias de hoje?
 

L.F.P – Ela está em processo de reconhecimento. É uma obra difícil e pouco trabalhada no Brasil. Sua teologia dura e “anti-humanista”, pouco simpática ao humanismo hedonista de nossa época, tende a assustar as pessoas. Todavia, qualquer pessoa que gosta de pensar a condição humana a sério em Pascal tende a trabalhá-lo.

CULT – E em outros países, como é esse cenário?
 

L.F.P – Na França, evidentemente, é muito trabalhado. Fora de lá, Inglaterra um tanto. No Japão, há um scholar pascaliano. Não há nenhum trabalho que eu conheça importante publicado sobre Pascal fora da França. Seu pessimismo antropológico é que afasta muita gente dele e não sua matemática.

CURI, Fabiano (jornalista). Meditações. REVISTA CULT. Número 88, Ano VII, pp. 58-60.

sábado, janeiro 19, 2013

Uma afirmação de Todorov sobre a beleza da Literatura

Ontem à noite, li uma entrevista que saiu na Revista de História da Biblioteca Nacional (edição no. 88, janeiro de 2013) do literato, filósofo, crítico de arte e historiador búlgaro Tzvetan Todorov. Estudou com Roland Barthes e Gerard Genette entre outros trunfos. Todorov já escreveu uns 20 livros em sua bem sucedida carreira de intelectual. Seu forte mesmo é a crítica literária, sendo que Introdução à literatura fantástica, tornou-se um livro de referência nos cursos de Letras aqui no Brasil. O ano passado li A beleza salvará o mundo de sua autoria e pude perceber o seu método de trabalho - belo livro, belo ensaio, belo texto. 

O intelectual fala com a mansidão e com a beleza de quem tem intimidade com o seu objeto de análise. Transcrevo aqui apenas uma parte da entrevista. Sua afirmação sobre a função da literatura como uma poderosa ferramenta humana capaz de dar significado e recriar a existência humana encheu os meus olhos de beleza. 

Tzvetan Todorov: "Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesia. Todas as populações do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos acontece, observamos tudo o que está à nossa volta, eo que resta disso é sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a função narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita. Apesar dos muitos interesses que tenho, ela continua especial". 

Maceió-AL.

quinta-feira, janeiro 17, 2013

Impressões sobre as 100 primeiras páginas de Usina, de José Lins do Rego


Uma afirmação inicial deve ser feita: sou um fã incondicional daquilo que se convencionou chamar de Modernismo Regionalista, na literatura brasileira. Escritores como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, entre outros fizeram um neorrealismo literário preocupado com as tensões e realidades do Nordeste brasileiro. Utilizaram-se da via aberta pelos modernistas. Compuseram, assim, por meio de uma prosa fluídica, rica, preocupada com as realidades do homem da terra, denunciando as relações de poder, o mando dos coronéis; o processo de submissão, a devoção exagerada, a superstição, o triunfo e a derrocada de alguns processos. Pode-se afirmar, assim, que estes escritores são telúricos. 

Hoje, aqui em Maceió, li aproximadamente 100 páginas do romance Usina, de José Lins do Rêgo, obra escrita em 1936. O livro é conhecido por dar cabo àquilo que o escritor paraibano chamou de Ciclo da cana-de-açucar. O texto é o quinto de uma sequência bem-sucedida de romances escritos por um José Lins completamente inspirado - Menino de Engenho, Doidinho, Bangüe, O moleque Ricardo, respectivamente. É curioso notar que até Usina, os textos de José Lins saíam com uma facilidade, com uma fluência, com uma dinamicidade únicos. Após o último romance de o Ciclo da cana-de-açucar, para muitos críticos e estudiosos da obra de José Lins, há como que um esgotamento na inspiração do escritor. Mais tarde vão surgir outras obras significativas. As principais são Fogo Morto, Riacho Doce, Pedra Bonita e Cangaceiros

Com a leitura de Usina, estou terminando todo o Ciclo. A linguagem de José Lins é simples. Em alguns momentos é perceptível o descuido, quiçá, voluntário das regras gramaticais e outras obviedades da norma crítica. Mas é dessa forma que ele constrói com fidelidade as falas e enseja o regional. O ponto forte de José Lins é a força de sua prosa; a energia que flui; a capacidade de contar uma boa história. O paraibano do Engenho do Pilar não era um escritor genial. Sua prosa não é esculpida artisticamente como a de Graciliano Ramos ou como o mundo de personagens de Jorge Amado, mas, em José Lins, encontramos a verve para uma boa narrativa. Seu texto pode ser comparado a um rio caudaloso, que não se detem em obstáculos. Seguimos o seu curso. Mergulhamos em suas águas, uma maviosidade e uma sensação de embalo nos leva pelo mundo mágico dos canaviais, dos antros do Recife, de Goiana (PE), Itabaiana (PB), Santa Rita (PB), do Engenho Santa Rosa etc. 

O que é relevante apontar nisso tudo é que antes dos regionalistas, o Nordeste não possuía voz. Não era descrito. José de Alencar andou escrevendo alguns romances piegas, numa tentativa de consolidar a literatura "com uma voz verdadeiramente brasileira". O livro que me é lembrado de Alencar é Guerra dos Mascates. Mais tarde, surge o Mulato, de Aluísio Azevedo. A história se passa no Maranhão. Os Sertões, de Euclides da Cunha, é uma das vozes mais fortes na tentativa de deslindar essa omissão. A ótica clínica e jornalística de Euclides da Cunha fez uma análise das mais brilhantes. Mas, foi somente com o movimento literário inaugurado por A Bagaceira (1928), de José Américo de Almeida, que o Nordeste ganhou notoriedade. A denúncia ganhou corpo, se avivou. O restante do Brasil passou a conhecer essa região esquecida. Uma lugar de omissões e desigualdades aberrantes. O Nordeste dos contrários. Dos homens-bichos. O Nordeste dos "homens fortes", como já advertira Euclides da Cunha.

Após a leitura de Usina, farei uma pequena análise do livro. 

Maceió-AL.