domingo, novembro 09, 2008

Vieira – o riso da beleza e as lágrimas da arte

Terminei de ler uma seleção de seis sermões do Padre Antônio Vieira. Vieira é um jardim fecundo de aromas e estilos. Uma enciclopédia que abriga em si a ciência do cultismo, mas da simplicidade também. Ele falava aos catedráticos, aos reis e rainhas, ao escol de tudo o que mais distinto havia, mas se pronunciava também aos índios e à gente simples da terra. Falar de Vieira é afirmar a cristalização, a materialização de um gênio poderoso, que com a sua palavra arrebatava a platéia e dizia: “que o ouvinte não deveria sair contente com o pregador, mas triste consigo mesmo, pois se aconteceu isso é porque algo poderoso aconteceu àquele coração”. Em Vieira é tão possível sair feliz quanto triste do sermão: triste pelos confrontos sugeridos em sua oratória imaculada; feliz pelas sentenças refinadas, brilhantes. Como ele mesmo atesta no Sermão da Sexagésima “cada palavra era um trovão, cada cláusula um raio, cada razão um triunfo”[1]. Assim era Vieira – um trovão do Céu, que assombrava e fazia tremer o mundo de sua época.
A sua vida volumosa, cheia de acontecimentos significativos já é um grande livro. Nasceu em Portugal. Veio para o Brasil ainda muito jovem. Decide estudar para ser padre. O pai não concordava com as intenções de Vieira. Tinha outras missões para o filho. Quando no seminário, os padres começaram a perceber-lhe os prodígios, as habilidades, as larvas da inteligência que fervilhavam em seu potente cérebro. Isso é tão significativo, que ainda não havia completado 18 anos, mas já era responsável por escrever em latim as cartas que seriam enviadas à Sé. Foi enviado a Olinda como eminentíssimo professor de oratória. Vieira parecia compreender que a palavra era uma grande arma, que ela poderia ser usada a favor da justiça. Ele usou a palavra para apaziguar os calores no Maranhão. Os ânimos dos colonos estavam eriçados, por causa do edito real a fim de que se libertasse todos os índios. O padre prega dois sermões impetuosos: O Sermão das Tentações – “Que vós, que vossas mulheres, que vossos filhos, e que todos nós nos sustentássemos dos nossos braços; porque melhor é sustentar do suor próprio, que do sangue alheio”[2]; e o Sermão de Santo Antônio (ou dos Peixes) – “A primeira coisa que me desedifica de vós – peixes – é que vós comeis uns aos outros. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comessem os grandes, bastaria um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande e para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos que vós vos comeis no mar...”[3]. O que é impressionante em Vieira é saber como alguém consegue ser tão prolífico, tão erudito, tão intenso, tão profundo. A sua inteligência era versátil. Passa-nos a impressão que tudo aquilo que lia conseguia assimilar sem qualquer titubeio.
Vieira visitou os salões reais. Viajou pelos locais mais afastados do Brasil. Instalou-se no Maranhão. Estendeu a missão jesuíta. Aprofundou a sua relação com os índios. Era conhecido pelos índios como Paiaçu (grande padre). Constituiu-se numa espécie de apóstolo da palavra. O termo apóstolus do grego significa “mensageiro”, “enviado”, “embaixador”, “ministro”, “caminhante”. Foi o próprio Cristo quem chamou os seus discípulos de apóstolos. Eles seriam os pregoeiros das boas novas. Vieira é o eminente “embaixador” da Palavra, que leva em seus lábios a certeza da equidade. Para ele: Subir ao púpito e não dizer a verdade era contra o ofício[4]. Por isso, todas as vezes que se colocava de pé com a missão de proferir o Evangelho, era invadido pelo calor do Espírito Divino. Pregava com tamanha beleza, erudição; com uma inspiração tão irradiada que os salões das igrejas ficavam pequenos para a quantidade de pessoas que viam ouvi-lo. Esse poder de Vieira levou o poeta Fernando Pessoa a dizer que ‘se não houvesse mais ninguém para falar a língua portuguesa, mas se em compensação ficassem os sermões de Vieira, a língua lusa jamais morreria’. Em suma: Vieira consegue reunir em seus sermões o que de mais belo há na língua portuguesa. Ele soube utilizá-la como ninguém. Extraiu dela todo o encanto; os vernáculos harmônicos e dissonantes; a versatilidade e a flexibilidade dos termos necessários. Proferiu com tamanha graça a língua de Camões que ler os seus sermões após tanto tempo, causa-nos uma impressão singular.
Neste ano de 2008 são completados quatro séculos do seu nascimento. Ouvi poucos falarem desse acontecimento. Até mesmo os estudantes de Letras não atentaram para o fato de que no dia 6 de fevereiro de 1608, nascia em Lisboa, Antônio Vieira, estadista, teólogo, missionário, padre – e por que não dizer filósofo? A homenagem que vi aconteceu na Câmara dos Deputados da República. Ouvi José Sarney solitariamente proferi um discurso com rasgos de uma erudição afetada, tentar lançar luzes sobre as trevas da memória opaca da nação. A pouca memória do país para com os seus ilustres personagens históricos não permitiu que rendesse a ele, Vieira, homenagens dignas, do mais alto jaez. Lamentavelmente a memória é suprimida, a História é apagada e os grandes homens de espíritos livres borrados e negligenciados.
Viveu 91 anos (morreu no dia 18 de julho de 1697). Muito tempo para a expectativa de vida da época. Todavia, todo este tempo foi dedicado em sua integralidade à justiça e à defesa dos direitos humanos – especialmente dos índios. Não poderia deixar de finalizar sem que mencionar Vieira num dos sermões mais belos e altivos que já foram pregados – O Pranto e o Riso ou as Lágrimas de Heráclito defendidas em Roma pelo padre Antônio Vieira contra o Riso de Demócrito. Este sermão foi proferido no Palácio da rainha Cristina da Suécia, no ano de 1674: “Quem verdadeiramente conhece o mundo, precisamente há de chorar; e quem ri, ou não chora, não o conhece”[5]. É pertinente dizer que a vida de Vieira foi bela por que riso; e foi arte por que lágrimas. Ele conhecia o mundo e a alma humana como ninguém.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sexta-feira, 25 de julho de 2008, 21:28:13.

[1] VIEIRA, Padre Antônio. Sermões Escolhidos. São Paulo. Editora Martin Claret. 2003. p. 99
[2] Idem, p. 19.
[3] Idem, pp. 19-20.
[4] Idem, p. 32.
[5] Idem, p. 190.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Sobre os flamboyants - parte II

Sempre fui fascinado pela beleza silenciosa das árvores. Trata-se de uma beleza para ser escutada com os olhos. Encontrei o texto de Rubem Alves sobre os flamboyants, mas não encontrei muitas informações sobre a árvore em si. Perto da Administração de Ceilândia – DF, cidade onde moro, há uma alameda dessas árvores fantásticas de origem africana. Passar próximo a essas árvores é um estímulo para o espírito. O flamboyant é uma visão que excita os olhos é o ânimo. Li certa vez o romance o romance O Prisioneiro de Érico Veríssimo, refere-se aos flamboyants como “tachas escarlates e estáticas”. O romance passa-se numa cidadezinha do sudeste asiático. História muito bem urdida, com profundidade psicológica, os flamboyants são um personagem do livro. Recordo que quando li o livro há alguns anos atrás não sabia exatamente o que eram os tais flamboyants, embora já tivesse visto um. Conhecia a árvore, mas não sabia o seu nome.
Como nessa época do ano aqui em Brasília, os flamboyants vicejam, surgem com suas cabeleiras inflamadas e nos enche os olhos, não podem passar despercebidos. Impossível. Mesmo os mais desatentos de uma forma ou outra detêm a sua atenção. O jornal Correio Braziliense trouxe uma pequena reportagem sobre essas árvores de nome afrancesado.
Não transcreverei o texto integralmente. Deterei atenção apenas na parte que trata da origem da árvore:
“O nome com o qual a árvore ficou conhecido é francês. Significa flamejante, ardente – referência à cor mais comum das flores que caem em cascata. A procedência da espécie é da costa da África, de Madagascar e de ilhas do Oceano Índico. ‘É uma espécie exótica, mas se adaptou muito bem ao clima brasileiro’, conta Ozanan Coelho. As primeiras mudas foram trazidas para o Brasil ainda no século XIX, na época de D. João VI e, desde então, os flamboyants são usados intensamente para o ajardinamento das cidades.
Apesar da beleza, a espécie têm duas desvantagens. O fato de ser exótica, portanto, não adequada para a alimentação da fauna local. E a característica das raízes serem superficiais, o que pode destruir as calçadas próximas aos locais onde estão plantadas. No Distrito Federal, o plantio de novos flamboyants tem sido evitado nos últimos anos. ‘Estamos dando preferência a espécies nativas porque elas são importantes para a vida da fauna local’, explica Ozanan Coelho, do DPJ.
As floradas dos flamboyants acontecem entre outubro e dezembro. Com o tempo, as pétalas vão caindo e aí o terreno próximo às plantas é que ficam pintados de vermelho, laranja ou amarelo. As árvores atingem até 15 metros de altura, mas as que estão em Brasília chegam, em média, a 10 metros por conta das características do solo. A copa das árvores se espalha até por 10 metros de diâmetro, tornando o impacto visual da planta maior à distância. Já as flores são delicadas, têm apenas sete centímetros de comprimento. Nos cachos, uma ou outra flor aparece com uma das pétalas salpicada de branco, mas esse detalhe só é percebido quando se observa a planta bem de perto.
Profundo conhecedor das árvores brasilienses, Ozanan Coelho garante que ainda hoje se emociona quando vê um flamboyant amarelo florir. ‘Todos eles são lindos, mas o amarelo é especial por ser mais raro’, comenta. Segundo Ozanan Coelho, o tom amarelo é alcançado quando a planta apresenta uma variação de genes recessivos”[1].

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Quinta-feira, 6 de novembro de 2008, 09:31:16.

[1] Edição número 16.608. Brasília, quinta-feira, 6 de novembro de 2008, p. 40.

domingo, novembro 02, 2008

Os flamboyants

A manhã estava linda: céu azul, ventinho fresco. Infelizmente, muitas obrigações me aguardavam. Coisas que eu tinha de fazer. Aí, lembrei-me do menino-filósofo chamado Nietzsche que dizia que ficar em casa estudando, quando tudo é lindo lá fora, é uma evidência de estupidez. Mandei as obrigações às favas e fui caminhar na lagoa do Taquaral.


Bem, não fui mesmo caminhar. Meu desejo não era médico, caminhar para combater o colesterol. Caminhar, para mim, é uma desculpa para ver, para cheirar, para ouvir... Caminho para levar meus sentidos a dar um passeio. Tanta coisa: os patos, os gansos, os eucaliptos, as libélulas, a brisa acarinhando a pele — os pensamentos esquecidos dos deveres. Sem pensar, porque, como disse Caeiro, "pensar é estar doente dos olhos". Aí, quando já me preparava para ir embora, já no carro, vejo um amigo. Paramos. Papeamos. Ele, com uma máquina fotográfica. Andava por lá, fotografando. Não tenho autorização para dizer o nome dele. Vou chamá-lo de Romeu, aquele que amava a Julieta. Me confidenciou: "Vou fazer uma surpresa para a Julieta. Ela adora os flamboyants. E eles estão maravilhosos. Vou fazer um álbum de fotografias de flamboyants para ela... Você não quer vir até a nossa casa para tomar um cafezinho?"

Fui. Mas ele me advertiu: "Não diga nada para ela. É surpresa..." Esta história tem sua continuação um pouco abaixo. Recomeço em outro lugar.

As crianças da 3ª série do Parthenon, escola linda, me convidaram para uma visita. Elas tinham estado fazendo um trabalho sobre um livrinho que escrevi, O Gambá Que Não Sabia Sorrir. Queriam me mostrar. Foi uma gostosura. É uma felicidade sentir-se amado pelas crianças. Eu me senti feliz. Aí aconteceu uma coisa que não estava no programa. Uma menininha, na hora das perguntas, disse que ela havia lido a minha crônica Se Eu Tiver Apenas Um Ano a Mais de Vida...

Espantei-me ao saber que uma menina de nove anos lia minhas crônicas. Lia e gostava. Lia e entendia. Aí ela acrescentou: "Recortei a crônica e trouxe para a professora..." Confirmou-se aquilo de que eu sempre suspeitara: as crianças são mais sábias que os adultos. Porque o fato é que muitos adultos ficaram espantados e não quiseram brincar de fazer de contas que eles tinham apenas um ano a mais para viver. Ficaram com medo. Acharam mórbido.

As crianças, inconscientemente, sabem que a vida é coisa muito frágil, feito uma bolha de sabão. Minha filha Raquel tinha apenas dois anos. Eram seis horas da manhã. Eu estava dormindo. Ela saiu da caminha dela e veio me acordar. Veio me acordar porque ela estava lutando com uma idéia que a fazia sofrer. Sacudiu-me, eu acordei, sorri para ela, e ela me disse: "Papai, quando você morrer você vai sentir saudades?" Eu fiquei pasmo, sem saber o que dizer. Mas aí ela me salvou: "Não chore porque eu vou abraçar você..."

As crianças sabem que a vida é marcada por perdas. As pessoas morrem, partem. Partindo, devem sentir saudades — porque a vida é tão boa! Por isso, o que nos resta fazer é abraçar o que amamos enquanto a bolha não estoura.

Os adultos não sabem disso porque foram educados. Um dos objetivos da educação é fazer-nos esquecer da morte. Você conhece alguma escola em que se fale sobre a morte com os alunos? É preciso esquecer da morte para levar a sério os deveres. Esquecidos da morte, a bolha de sabão vira esfera de aço. Inconscientes da morte aceitamos como naturais as cargas de repressão, sofrimento e frustração que a realidade social nos impõe. Quem sabe que a vida é bolha de sabão passa a desconfiar dos deveres... E, como disse Walt Whitmann, "quem anda duzentos metros sem vontade, anda seguindo o próprio funeral, vestindo a própria mortalha".

O pessoal da poesia está levando a sério a brincadeira. Eu mesmo já fiz vários cortes drásticos em compromissos que assumi. Eram esferas de aço. Transformei-os em bolhas de sabão e os estourei. Pois o pessoal da poesia decidiu que, no programa de um ano de vida apenas, num dos nossos encontros não haveria leitura de poesia: haveria brinquedos e brincadeiras. Cada um trataria de desenterrar os brinquedos que os deveres haviam enterrado.

Obedeci. Abri o meu baú de brinquedos. Piões, corrupios, bilboquês, iô-iôs e uma infinidade de outros brinquedos que não têm nome. Seria indigno que eu levasse piões e não soubesse rodá-los. Peguei um pião e uma fieira e fui praticar. Estava rodando o pião no meu jardim quando um cliente chegou. Olhou-me espantado. Ele não imaginava que psicanalistas rodassem piões. Psicanalista é pessoa séria, ser do dever. Pião é coisa de criança, ser do prazer.

Acho que meus colegas psicanalistas concordariam com meu paciente. A teoria diz que um cliente nada deve saber da vida do psicanalista. O psicanalista deve ser apenas um espaço vazio, tela onde o paciente projeta suas identificações. Mas a minha vocação é a heresia. Ando na direção contrária. "Você sabe rodar piões?", eu perguntei. Ele não sabia. Acho que ficou com inveja. A sessão de terapia foi sobre isso. E ele me disse que um dos seus maiores problemas era o medo do ridículo. Crianças são ridículas. Adultos não são ridículos. Aí conversamos sobre uma coisa sobre a qual eu nunca havia pensado: que, talvez, uma das funções da terapia seja fazer com que as pessoas não tenham medo das coisas que os "outros" definem como ridículo. Quem não tem medo do ridículo está livre do olhar dos outros.

Preparei o encontro de poesia de um jeito diferente. Nada de sopas sofisticadas. Fui procurar macarrão de letrinha, coisa de criança. Não encontrei. Encontrei estrelinhas. Fiz sopa de estrelinhas. E toda festa de criança tem de ter cachorro-quente. Fiz molho de cachorro-quente. E nada de vinho. Criança não gosta de vinho. Gosta é de guaraná.

Foi uma alegria, todo mundo brincando: iô-iôs, piões, corrupios, bilboquês, quebra-cabeças, pererecas (aquelas bolas coloridas na ponta de um elástico)... Rimos a mais não poder. Todo mundo ficou leve. Aí tive uma idéia que muito me divertiu: que na sala de visitas das casas houvesse um baú de brinquedos. Quando a conversa fica chata, a gente abre o baú de brinquedos e faz o convite: "Não gostaria de brincar com corrupio?" E a gente começa a brincar com o corrupio e a rir. A visita fica pasma. Não entende. "Quem sabe, ao invés do corrupio, um bilboquê?" E a gente brinca com o bilboquê. Aí a gente estende o brinquedo para a visita e diz: "Por favor, nada de acanhamentos! Experimente. Você vai gostar..." São duas as possibilidades. Primeira: a visita brinca e gosta e dá risadas. Segunda: ela acha que somos ridículos e trata de se despedir para nunca mais voltar...

Pois a Julieta — aquela do Romeu — me trouxe uma pipa de presente. Vou empinar a pipa em algum gramado da Unicamp. E aí ela nos contou da surpresa que lhe fizera o Romeu. Fotografias de flamboyants vermelhos — que coisa mais romântica! Árvores em chamas, incendiadas! Cada apaixonado é um flamboyant vermelho! E nos contou das coisas que o Romeu tivera que fazer para que ela não descobrisse o que ele estava preparando.

Mas o mais bonito foi o que ele lhe disse, na entrega do presente. Não sei se foi isso mesmo que ele disse. Sei que foi mais ou menos assim: "Sabe, Julieta, aquela história de ter um ano apenas a mais para viver... Pensei que você gostava de flamboyants e que você ficaria feliz com um álbum de flamboyants. E concluí que, se eu tiver um ano apenas a mais para viver, o que quero é fazer as coisas que farão você feliz..."

Um ano apenas a mais para viver: aí os sentimentos se tornam puros. As palavras que devem ser ditas, devem ser ditas agora. Os atos que devem ser feitos, devem ser feitos agora. Quem acha que vai viver muito tempo fica deixando tudo para depois. A vida ainda não começou. Vai começar depois da construção da casa, depois da educação dos filhos, depois da segurança financeira, depois da aposentadoria...

As flores dos flamboyants, dentro de poucos dias, terão caído. Assim é a vida. É preciso viver enquanto a chama do amor está queimando...

Rubem Alves

O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantém coluna bissemanal.

Extraído: www.releituras.com/rubemalves_flamb.asp


quarta-feira, outubro 29, 2008

Impressões solares

Uma luz incandescente doura o horizonte.
Cria um ponto referencial alaranjado.
Um réquiem.
A beleza mesclada à morte.
Nuvens como gases ensangüentadas giram,
Enfeitam, tentam por ataduras no
Astro magnificente.
Os momentos são decisivos.
Uma laranja avermelhado, ourífero,
Habitado pela dor encarnada do silêncio.
As formas “deformadas” pela luz carmesim.
O horizonte com os montículos
Distantes completamente tomados
Pela fumaça rala, acinzentado,
Com uma coroa vermelha a lhe vestir
Toda a extensão.
A luz desapareceu e ficaram os fragmentos,
Os pedaços tênues
Das cinzas escarlates.
É o prelúdio da morte.
O ritual da vida natural,
Dos processos naturais;
Em outra parte, em outro lugar,
Os vívidos raios encherão de vida
Os seres, as coisas, para morrer outra vez –
Seria o eterno retorno da natureza?
Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 01 de julho de 2008.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Melancolia

Uma corrente fria de vento

Atravessa a minha alma.

Sinto-me triste.

É uma tristeza tristemente delicada.

Tristeza sem recatos.

Sensação recatada.

O peso de mil toneladas comprime

O meu peito.

Asfixia-me com sua presença tórrida.

Desabo qual monstro ao chão.

Estou triste.

A tristeza ri de mim.

Solta impropérios sufocantes.

Amarra-me.

Lança-me sobre estacas de medo

E desengano.

A manhã está fria.

Não quero contatos.

Palavras não me serão receptivas.

O que sinto me é escusado.

De uma coisa eu sei:

Dói, como dói!


Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: terça-feira, 24 de junho de 2008, 08:57:16.

sexta-feira, outubro 17, 2008

Altares domésticos

Em princípio, isto é uma simples crônica. Mas pode ser transformada numa densa tese universitária. Estou lhes falando de altares – coisa meio arcaica, mas estou falando também de nossa alucinada cultura eletrônica. Vou me referir ao rádio e à televisão, que foram durante muito tempo o altar em torno do qual a família se congregava. O altar é uma exigência simbólica dos humanos. Estão dentro e fora das igrejas. Remetem para uma idéia de dentro e para cima. As pirâmides são uma espécie de altar. O altar é um diálogo com o imponderável. As pirâmides são enormes altares ao ar livre. No México, nos dias de finados, num dos cômodos da casa, ergue-se um altar coberto de frutas e comidas para os mortos familiares.
Quando era menino, as casas de classe média e burguesas tinham uma sala de visitas. Esse ambiente ficava fechado, só era aberto quando vinham tios e conhecidos especiais. Receber uma visita era um ritual. E nas paredes haviam retratos de parentes mortos, com aqueles bigodes, chapéus, aquelas poses e olhares nos espiando da eternidade. Os mais ricos tinham retratos solenemente pintados a óleo. Aquela sala especial era o recinto sagrado da família. Havia silêncio ali até os móveis ritualizavam reverência.
Com o amesquinhamento moderno do espaço doméstico, as salas de visitas foram se extinguindo. De repente, apareceu um visitante que veio para ficar: o rádio. Ele também falava conosco, trazia notícias de longe. Mas com seu surgimento, houve um deslocamento simbólico. O rádio foi posto na sala de jantar, no meio da vida, entronizado num móvel especial. A família unida em torno da mesa, numa santa ceia profana, assistia piamente às lagrimosas novelas na hora do almoço e do jantar. Embora cada membro da família pudesse ter também seu programa preferido, o rádio estava ali com sua força cêntrica, era um altar em torno do qual até vizinhos vinham se reunir.
Com o surgimento da televisão, houve apenas uma substituição de objeto. Uma troca metonímica. Mas altar continua congregando. Dizia-se, no entanto, que a família já não mais conversava, não mais externava seus conflitos na terapia de grupo que era o almoço e o jantar. Ficavam todos ajoelhados diante dessa deusa terrível. Deu-se, então, que com o crescimento econômico e com a fragmentação crescente da família, o altar se moveu. Cada membro da família passou a ter uma tevê em seu quarto, um altar próprio para os seus ritos. Dizem que isto incrementou a desagregação familiar.
Aí surgiu o computador. Pensava-se que fosse simplesmente competir com a máquina de escrever e com as canetas mata-borrões. Mas, surpreendentemente, surgiu a internet e a questão do altar tornou-se bem complexa. Poder-se-ia dizer também que a internet virou uma espécie de janela, de plano de fuga, de túnel por onde se escapa e se viaja, rompendo os muros do próprio lar. Mas, essencialmente, o computador e a internet são um novo altar. Muito mais pessoal do que os anteriores e instalado em diversos cômodos da casa. Teria ocorrido, então, uma descentralização do rito. Não mais a sala de visitas que só se abria em ocasiões especiais, não o mais a família (e vizinhos) na sala em torno do rádio ou da tevê. Agora, cada um na sua (ou seu altar).
Mas a coisa, semiologicamente, radicalizou-se ainda mais. O computador e a televisão se fundiram, se casaram. E mais: apareceu um terceiro elemento inovador: o celular que é o mesmo tempo telefone, computador, MP3 (antigo toca-disco) e televisão. Com a vantagem de ser móvel, que se leva para o avião, para o piquenique, para a praia, enfim, um “duplo” indispensável, a segunda natureza do ser humano.
Nesta perplexidade de crentes-descreventes estamos. Redes invisíveis nos unem planetariamente. A igreja está em nossas mãos, é portátil, está em todas as partes e em lugar nenhum. Pensamos freqüentá-la, mas ela é que nos freqüenta, já que o “o meio é a mensagem”.
Há uns 40 anos, Drummond fez um estranho e premonitório poema, Ao Deus Kom Unik Assão, que lembro no final dessa crônica, mas que deveria ter epígrafe na tese sobre os “altares da pós-modernidade”, que algum leitor escreverá. No final, vendo o paradoxo em que a sociedade da comunicação se metera, ele indagava que nos salvaria da “inkomunikhassão”.

Por Affonso Romano Sant'Anna

SANT’ANNA, Affonso Romano de, Altares Domésticos, Correio Braziliense, Brasília, 23 Mar. 2008. Caderno C. p. 8.


Data: segunda-feira, 7 de abril de 2008.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A minha alma está cheia de poesia

Quero me lançar em direção ao vazio espiral

No deserto que formou-se em mim.

“As velhas palavras mortas sujaram a minha alma,

por isso quero lavá-la com as águas do silêncio.

Eu desconfio do sentido e das vozes dos homens

Ditos normais – são normais demais!

Deixemos a normalidade tão fingida deles e corramos

Na direção do outonal extremo da nossa alma.

Lá não se fala palavras normais, porque a normalidade

Cristaliza os movimentos que formamos com a poesia.

Poesia é movimento silencioso.

Movimento e combinação de sentidos

Inauditos.

Desconfio das poesias paradas.

As poesias não são verões parados e abafados.

São primaveras coloridas e cheia de musicalidade.

Gosto do que não dizem justamente por ser algo que busco

Compreender com a minha liberdade poética.

Eu sou mais que sou. Sou a outra metade afastada de mim.

Porque é justamente diante do insondável que buscamos

Compreensão para o não-entendido.

A minha história é mais que voz. Ela é o filtro indicador

Das horas nuas da vida.

Palavras desencontradas brotam de dentro de mim neste

Momento.

Parece saírem de uma cascata caudalosa que se precipita

Nas pedras da vida.

É como o magma que emerge do ventre da terra

Terrificantemente pastoso, mas que vira pedra quando enfrenta

A realidade climática externa.

O viajor da história me faz ter espasmos diante dessa

incógnita chamada vida.

Apenas reflexão... nada mais.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: 27/12/2003 14:59:15, sábado.

sábado, outubro 04, 2008

Na noite fria.

Em fuga na noite fria.
Céu de negras nuvens,
De estranhos tormentos.
O que és ò grande ser, imagem misteriosa,
Figura vaporosa, de crista formosa?
Valha-me a interrogação.
Recusem-se a me atender.
O enigma me trará alimento.
Ensaio algumas falas que talvez ouses responder.
Deixemos a vida escrever estes versos níveos.
Brancos porque são feitos pela esperança.
A lua vai alta no céu taciturno.
As árvores balouçam lá fora, como bandeiras em lanças.
O recital de tragédias e contentos.
A firmeza que reverte o placar adverso.
A fímbria que colore os hortos das montanhas.
A inocência que me faz ri de saudade
Dos teus sorrisos-versos.
Um muro se ergue entre nós, `o figura perene.
No leito de lágrimas tento exprimir e lembrar
O que de ti descende.
O muro é alto, ingalgável, mas quero transpô-lo.
Porque quero revesti nosso amor d’ouro.
Choupos com flores alvíssimas.
Noite com cantochões,
Certeza perene e, talvez, fremente em dois corações.


Por Carlos Antonio M. Albuqueque.
Data: 12/06/2003 19:39:25, quinta-feira.

sábado, setembro 27, 2008

Chegou a Primavera

No dia 23 de setembro teve início a primavera. O seu término se dará no dia 21 de dezembro. Poucos perceberam as mudanças que se fizeram sentir na natureza. A sinfonia das cores se multiplica em tons, nuances. Sinto-me mais feliz quando chega a primavera. A sua chegada recende à vida. Antonio Vivaldi na obra programática As Quatro Estações descreve de forma musical as estações naturais. A primavera representa os três primeiros movimentos da obra. O primeiro movimento é um Allegro. Percebe-se o canto alegre dos pássaros. O vôo da liberdade. Há a seguinte menção textual: “Chegou a primavera e alegremente a saúdam os pássaros com cantos felizes; e as fontes, com o soprar dos zéfiros, correm com doce murmúrio; no entanto, vêm, cobrindo o ar com um manto negro, os raios e trovões, anunciando tempestade. Enquanto isto, sem se importar, ficam os passarinhos, retornando ao seu encanto canoro”.
No segundo movimento anuncia-se: “E sobre os prados floridos e amenos, ao som doce do murmúrio de árvores e folhas, dorme o camponês, enquanto, ao lado, ladra o seu cão fiel”. É notório pelo Largo e pianíssimo um doce vento que atravessa os bosques floridos. No terceiro movimento, lê-se: “Ao som festivo das gaitas camponesas, dançam as ninfas e os pastores, sob o ansiado céu de Primavera, a surgir, brilhante”. Trata-se de uma Danza PastoraleAllegro. A alegria reverente e reflexiva da música faz perceber a comemoração dos camponeses que celebram a chegada da primavera. A música de Vivaldi nos permite, pelo seu encanto, alegria e leveza, tatear o espírito da época. O compositor argentino Astor Piazzolla também compôs uma peça chamada As Quatro Estações. Não possui as mesmas características da de Vivaldi. Piazzolla a revestiu da tristeza e a da tragicidade própria do tango.
Diz Cecília Meireles numa efusão lírica na crônica denominada “Primavera”: “Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol (...) com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz”. A beleza, a simplicidade, alegria, a docilidade de como Cecília retrata chegada desta estação tão eivada de vida, enche-nos de calma e silêncio – de um espírito contemplativo. E de fato a primavera nos passa a impressão de que começou um novo ciclo na natureza e no coração dos homens.
Esta é a época em que a maioria das árvores florescem, todas se preparando para liberar a semente da vida. É a época do amor, da procriação. Muitos animais se reproduzem nesta época. As chuvas surgem pelo final da tarde, por causa do calor e da umidade alta. Isso propicia um reverdecimento da vegetação queimada por conta das condições severas da estiagem – que o diga o Centro-Oeste.
Duas estações bem definidas no hemisfério norte permitiu que o antigos dividissem o ano em duas fases: (1) a veris que era o “tempo bom”, ensolarado; e (2) hiems, conhecido “como mau” tempo. Por conta da alegria que surge neste período, a estação foi chamada de primo vere, que significava “início da boa estação” e mais tarde passou a ser denominada “primavera”. As estações do ano constituem as personalidades da natureza. Temos o inverno que simboliza a rigidez, a gravidade; o outono que é a metáfora da tranqüilidade, da reflexão; o verão que é lúbrico, cheio de força luminosa; e a primavera que é a alegria, a leveza, a vida no cio.
Vou ao texto de Cecília e eis que leio: “Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação”. E assim fico com a certeza de que “as festas da perpetuação” se apresentam com viço. Nada enche mais meus olhos do que isso.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sábado, 27 de setembro de 2008, 00:42:13.

Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 366.

* A Tela acima chama-se "Primavera", de Claude Monet, pintada no ano de 1886.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Ode ao Burguês nº 2


Encontrei esta fantástica releitura do texto de Mário de Andrade "Ode ao Burguês". Trata-se de uma versão feliz, atualizada do poema. Mário mostra no poema "Ode ao Burguês" que a burguesia é uma das classes mais famigeradas da História. Uma classe "adiposa de valores estéreis"; prostituída pelo egoísmo, com a alma neurotizada pelas conveniências; incapaz de satisfazer-se. Vive de aparências. Persegue as trivialidades do mundo. Julga que todas as coisas pertencem a ela - as florestas, os animais, as riquezas, os outros seres, o planeta, a alma do universo. A burguesia é uma classe pernóstica por natureza. A saga fáustica da burguesia mostra os valores e tormentos que habitam suas disposições. Burguesia funesta. Logo após a releitura está o poema original de Mário de Andrade. O poema tem um significado relevante para os jovens intelectuais paulistas que deram início a um novo ciclo nas produções artísticas no século XX aqui no Brasil, que se fazem sentir até hoje. A tela ao lado retrata o intelectual paulista Mário de Andrade e foi pintada por Tarsila do Amaral. A anarquia vanguardista dos modernistas furou o umbigo do conservadores. Boa leitura. Poemas disponivéis em: http://www.culturabrasil.pro.br/burgues.htm

******************************************************

Eu odeio burguês!

Burguês-centavos-contados.

Indigesto burguês brasileiro.

Classe nédia, adiposa, delicada,

Classe sem classe, burguesia medrosa.

Eu odeio burguês!

Burguês-medo, burguês-cautela.

Burguês fáustico, pomposo e circunstante.

Bela aparência, completamente oca.

Burguês é sepulcro caiado.

Burguês chora ao ver naufragar o Titanic

E manda à polícia o pedinte à porta do cinema.

Porque no Titanic morreram burgueses.

Poucos, mas todos burgueses.

E mendigo não compreende essas coisas...

Eu odeio burguês!

Burguês cheio de regras,

Cheio de nove-horas,

Burguês que "trabalha por amor"

Depois apresenta a conta:

"_ É que estou de saída para a Europa..."

"_ É que tenho de trocar os fru-frus da cortina da sala..."

"_ É que vou a Miami comprar orelhas de Mickey Mouse para minha filha..."

Vai, burguês idiota!

Vai botar orelha de rato imperialista no teu rebento!

Burguês fútil, burguês frágil, burguês covarde, burguês de nada!

"Ouviram do Ipiranga às margens poluídas,

Do herói cobrado – coitado - o brado retumbante:

_ O sol da liberdade em raios fugidios

Brilhou em outra pátria muito distante!"

E assim a burguesia (de lá) tomou conta do pedaço (daqui)

Eu odeio burguês!

Burguês Celular, burguês Pentium, burguês FMI...

Burguês tecnologia, burguês veloz,

Que viaja de Omega mas não sabe soletrar a palavra

V-O-L-A-N-T-E...

Burguês filhinho-de-papai,

Passa de carro com o som estourando.

E a batida do som revela sua fragilidade burguesa:

"_ Quero parecer moderno e perigoso, mas aqui dentro, protegido,

Lembro fetal as batidas do coração materno: tum-tum, tum-tum..."

Insulto e ódio! Insulto e ofensa! Insulto e mais insulto!

Morte cruel ao burguês ateu!

Deus existe burguês estúpido!

E como Deus existe o povo o suprimirá a golpes de foice e de martelo.

Desaparece, burguês!

Viva o povo brasileiro!


Por Lázaro Curvêlo Chaves

*********************************************************************************

Aqui está o poema de Mário no original.


Ode ao Burguês


Mário de Andrade


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel

O burguês-burguês!

A digestão bem-feita de São Paulo!

O homem-curva! O homem-nádegas!

O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,

é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!

Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!

Que vivem dentro de muros sem pulos,

e gemem sangue de alguns mil-réis fracos

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês

e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!

O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!

Fora os que algarismam os amanhãs!

Olha a vida dos nossos setembros!

Fará Sol? Choverá? Arlequinal!

Mas à chuva dos rosais

o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!

Morte às adiposidades cerebrais!

Morte ao burguês-mensal!

Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!

Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!

"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?

— Um colar... — Conto e quinhentos!!!

Más nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!

Oh! purée de batatas morais!

Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!

Ódio aos temperamentos regulares!

Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!

Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados

Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,

sempiternamente as mesmices convencionais!

De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!

Dois a dois! Primeira posição! Marcha!

Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!

Morte ao burguês de giolhos,

cheirando religião e que não crê em Deus!

Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!

Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...



terça-feira, setembro 23, 2008

Algumas palavras sobre Nietzsche

Dentre os clássicos da filosofia moderna, Nietzsche talvez seja o pensador mais incômodo e provocativo. Sua vocação crítica cortante o levou ao submundo de nossa civilização, sua inflexível honestidade intelectual denunciou a mesquinhez e a trapaça ocultas em nossos valores mais elevados, dissimuladas em nossas convicções mais firmes, renegadas em nossas mais sublimes esperanças. Essa atitude deriva do que Nietzsche entendia por filosofia.

Para ele, filosofar é um ato que se enraíza na vida e um exercício de liberdade. O compromisso com a autenticidade da reflexão exige vigilância crítica permanente, que denuncia como impostura qualquer forma de mistificação intelectual. Por isso, Nietzsche não poupou de exame nenhum de nossos mais acalentados artigos de fé. O destino da cultura, o futuro do ser humano na história, sempre foi sua obsessiva preocupação. Por causa dela, submeteu à crítica todos os domínios vitais de nossa civilização ocidental: científicos, éticos, religiosos e políticos.


Nietzsche é um dos grandes mestres da suspeita, que denuncia a moralidade e a política moderna como transformação vulgarizada de antigos valores metafísicos e religiosos, numa conjuração subterrânea que conduz ao amesquinhamento das condições nas quais se desenvolve a vida social. Nesse sentido, ele é um dos mais intransigentes críticos do nivelamento e da massificação da humanidade. Para ele, isso era uma conseqüência funesta da extensão global da sociedade civil burguesa, tal como esta se configurou a partir da Revolução Industrial.


Nietzsche se opõe a supressão das diferenças, a padronização de valores que, sob o pretexto de universalidade, encobre, de fato, a imposição totalitária de interesses particulares; por isso, ele é também um opositor da igualdade entendida como uniformidade. Assim, denunciou a transformação de pessoas em peças anônimas da engrenagem global de interesses e a manipulação de corações e mentes pelos grandes dispositivos formadores de opinião.
O esforço filosófico de Nietzsche o levou a se confrontar com as grandes correntes históricas responsáveis pela formação do Ocidente: a tradição paga greco-romana e a judaico-cristã; e o que resultou da fusão entre as duas.

Ao longo desse seu confronto com o conjunto da herança cultural de nossa tradição, Nietzsche forjou conceitos e figuras do pensamento que até hoje impregnam nosso vocabulário e povoam nosso imaginário político e artístico. Tais são, por exemplo, as noções de Apoio e Dionísio, transformadas em categorias estéticas, os conceitos de vontade de poder, além-do-homem (Übermensch), eterno retomo e niilismo e a figura da morte de Deus.
É impossível se colocar à altura dos principais temas e questões de nosso tempo sem entender o pensamento de Nietzsche. Ateísta radical, ele atribui ao homem a tarefa de se reapropriar de sua essência e definir as metas de seu destino. Dele afirma o filósofo Martin Heidegger: "Nietzsche é o primeiro pensador que, perante a história universal pela primeira vez aflorada em seu conjunto, coloca a pergunta decisiva e a reflete internamente em toda a sua extensão metafísica. Essa pergunta reza: como homem, em sua essência até aqui, está o homem preparado para assumir o domínio da terra?"[1]

Nesse sentido, Nietzsche é o pensador de nossas angústias, que não poupou nenhuma certeza estabelecida — sobretudo as suas próprias convicções — e desvendou os mais sinistros labirintos da alma moderna. Com a paixão que liga a vida ao pensamento, Nietzsche refletiu sobre todos os problemas cruciais da cultura moderna, sobre as perplexidades, os desafios, as vertigens no fim do século 19. Dessa sua condição, postado entre o final e o início de duas eras, Nietzsche esboçou um quadro que, em todos os seus matizes, nos concerne ainda, na passagem a um novo milênio, em direção a um destino que ainda não se pode discernir.
A despeito de sua visão sombria, Nietzsche tentou ser, ao mesmo tempo, um arauto de novas esperanças. Sua mensagem definitiva — a criação de novos valores, a instituição de novas metas para a aventura humana na história — é também um cântico de alegria. Essa é uma das razões pelas quais o estilo de Nietzsche resulta da combinação paradoxal de elementos antagônicos: sombra e luz, agonia e êxtase, gravidade e leveza.

Isso explica por que, para ele, o riso e a paródia são operadores filosóficos inigualáveis: eles permitem reverter perspectivas fossilizadas. Nietzsche, o impiedoso crítico das crenças canônicas, é também um mestre da ironia. Sua ambição consiste em tomar superfície o que é profundidade, restituir a graça ao peso da seriedade filosófica.
Opositor ferrenho da dialética socrática, Nietzsche reedita, no mundo moderno, o gesto irônico do pai fundador da filosofia ocidental. Decisivo adversário de Platão, sua filosofia talvez possa ser caracterizada como uma inversão paródica do platonismo. Definindo-se como o mais intransigente anticristão, dá, no entanto, á sua autobiografia intelectual, escrita no final de sua vida, o título Ecce Homo ("Eis o Homem") — expressão empregada por Pilatos ao apresentar Jesus a seus algozes, pouco antes da Paixão.

Nietzsche, o filósofo-artista, um poeta que só acreditava numa filosofia que fosse expressão das vivências genuínas e pessoais, vendo na experiência estética uma espécie de êxtase e redenção, é, por isso mesmo, um precursor da crítica a um tipo de racionalidade meramente técnica, fria e planificadora. A despeito da profundidade e da gravidade das questões com que se ocupa, sempre as tratou em estilo artístico, poeticamente sugestivo; só acreditava na autenticidade de um pensamento que nos motivasse a dançar. Ele mesmo imagina sobre sua porta a inscrição:


Moro em minha própria casa

Nada imitei de ninguém

E ainda ri de todo mestre

Que não riu de si também.[2]


Sem extravasar os limites dos livros desta série, Folha Explica Nietzsche se propõe a ser uma apresentação geral do homem e do filósofo Friedrich Nietzsche. Seu objetivo é fazer com que o leitor se familiarize com os conceitos, as figuras e o estilo de Nietzsche — não para depois encerrá-los em qualquer câmara da memória, mas sim para despertar seu interesse e estimulá-lo a seguir adiante. Aceitar o desafio de Nietzsche implica, sobretudo, pensar independentemente; e por isso, ás vezes, também contra Nietzsche.


[1] Heidegger. "Wer ist Nietzsches Zarathustra?"; em: Vorträge und Aufsätze. Pfullingen: Neske Verlag, 1954; p. 102.

[2] Epígrafe de A Gaia Ciência; em Nietzsche. Obra Incompleta. Trad. Rubem Rodrigues Torres Filho. Col. Os Pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1974: p 195.

Extraído do livro: GIACÓIA JÚNIOR, Oswaldo. Nietzsche - São Paulo: PUBLIFOLHA, 2000, p. 6-8. (Folha Explica).



sábado, setembro 20, 2008

Quando...


Quando a incrível certeza virar incerteza.

Quando todos os rios da vida correrem para o mar

Das mais genuínas e lamentáveis dores e lágrimas.

Quando todas as palavras do mundo não te compreenderem.

Quando vida tornar-se incrivelmente indecifrável.

Quando as tuas mais fulgurantes expectativas apodrecerem.

Quando nas manhãs tenebrosas da vida sentires ânsias de

Vomitar a vida que te fez mal.

Quando sentires a cabeça zonza por causa dessa ressaca e desse

Porre do nada.

Quando deitares na cama mais escura da dor e da angústia.

Quando as palavras e os sentimentos já não existirem.

Quando a fé for apenas uma mancha na parede da existência.

Quando os vários caminhos que tiveres à tua frente não te

Levarem a lugar nenhum.

Quando os livros passarem a ter apenas letras mortas e

Sem expressão de conhecimento.

Quando conselhos e filosofias mofarem e enrugarem.

Quando perversões saquearem as boas virtudes

E promoverem um completo pós-modernismo de valores e conceitos

Dentro da ti.

Quando já não souberes quem és.

Quando os bufões e palhaços contratados para divertirem as realezas

Que existem em ti já não forem mais engraçados.

Quando existir um pântano mal-cheiroso por trás daquele jardinzinho

Plantado e cultivado por ti.

Quando existir um Vietnã de batalhas dentro de ti.

Quando a África das inanições e privações não estiver fora, mas dentro de ti.

Quando a loucura e a fome já não forem realidades completamente distantes,

Mas passarem a ser as tuas companheiras mais achegadas.

Quando todos os dias do ano for inverno dentro de ti.

Quando pivetes, meninos de rua, morarem na praça mal administrada

Do teu coração.

Quando as flores do teu jardim não cheirarem a vida.

Quando fores traído pelas convicções falidas e pela fome da verdade.

Existe uma solução quando te achares assim:

Lava-te com as águas dos silêncios.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: 6/4/2004 09:19:08, quarta-feira.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Amores brutos

Amores brutos, ternamente intensos.

Relações melífluas, sanguinárias.

Encontros que antecipam com densidade

O desencontro.

Apertos lestos, insanos, fugazes.

Idas e vindas que se sucedem

Com regularidades desafiadoras.

A malha fina do desejo que não

Consegue penetrar no território

Guarnecido de sentinelas do orgulho,

O desejo que não avança.

Perdido na incontinenti questão de

Não ir e se deixar levar.

Na distância mais próxima está a

Possibilidade aguda do conserto.

Mil outros concertos tocam aqui

Dentro e dizem: “Vai”.

Os pés não obedecem o desejo

Ralo, que se dissipa, torna-se

Fumaça, vai ganhando o vazio

Numa ascensão gasosa.

As palavras selvagens que defloram

O silêncio.

OS lábios convulsos, trêmulos

Que não acertam ou concatenam

Um sentido sequer no gesto vocabular.

O cansaço espraia-se, derrama-se

Pelos territórios inteiros do ser possível.

O desejo continua suas investidas esperançosas.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: 30 de junho de 2008.