"As condições de vida na cidade grande e moderna criam condições que e necessidades específicas de sensibilidade e comportamento". Georg Simmel
Esta semana aconteceu um fato que me deixou perplexo. Viver em uma grande cidade como Brasília ou outra capital brasileira, com tantos problemas sociais, vai nos insensibilizando. Lamento isso todos os dias. Tanto é assim que tenho conversado com a minha esposa sobre a possibilidade de mudarmos da cidade projetada para ser a Capital do Brasil. Trata-se de uma possibilidade que pode vir a grassar com o tempo. As grandes cidades tornaram-se em espaços geradores de apartação do outro. De desconhecimento daquilo que nos faz humanos. É um processo em que os indivíduos, que partilham da mesma sociedade com outros indivíduos, ignoram os direitos de seus semelhantes. Nessa sociedade causadora de patologias e, que vive sob o signo da violência, o outro, se necessário, não deve ser considerado enquanto sujeito. O que vale é a truculência. Assistimos a tudo isso no trânsito, quando caminhamos pela rua ou quando estamos no metrô, como testemunhei outro dia.
Pego o metrô todos os dias para ir trabalhar e voltar para casa. A qualidade do metrô aqui em Brasília é bem incipiente e amadora. Às seis da tarde, tentar entrar em um dos vagões da composição é uma luta, dependendo da estação em que se estiver. Pois aconteceu que o vagão em que eu estava, se encontrava com a lotação máxima. Era praticamente impossível entrar ali. Um brutamontes retesou os músculos e tentou abrir caminho a força para tentar entrar. Quando fez isso, ele acabou pisando no pé de um rapazote, que admoestou o "pitiboy". Imediatamente este disse, não medindo as palavras nem levando em conta as pessoas que estavam ali: senhoras, mulheres, crianças. "Vai tomar no c*! Tá maluco, filho da p*!" Os demais passageiros ficaram a olhar, estapafúrdios. O interlocutor do esquizóide antropófobo murchou no mesmo instante. Recolheu-se. Entrou em si. Talvez tenha até se sentido culpado por ter feito uma reclamação branda. Ao ouvir e ver aquilo fiquei a mirar o troglodita com cara de lutador de MMA. Rapidamente, larguei o Chesterton que estava lendo e fiquei pensando como a vida em sociedade é capaz de gerar cenas medonhas como aquela. Como os homens estão bestializados. Não se trata apenas de falta de educação. É mais que isso. É fenômeno que está para além da escola. Trata-se de uma força pujante e invisível que gera esse processo de animalização xenófoba, como se fosse um gás venenoso e embriagador.
E esta semana (para voltar àquilo que deu início a esta reflexão apressada), outra cena de barbárie - e esta com resultados mais trágicos - aconteceu por aqui. Em certo shopping de Brasília, dois sujeitos com comportamento canino decidiram urinar em uma parede externa do estabelecimento. Foram admoestados por um professor de educação física, de 27 anos de idade, que acabou sendo espancado covardemente pelos dois desleais calhordas - um com 20 e outro com 21 anos de idade. Segundo informações, o professor está em estado grave em um hospital da cidade, com um dos lados do corpo paralisado. Esse fato não me deixou de fazer pensar sobre como vivemos um processo avançado de selvageria e barbárie. De fato, já experimentamos um processo profundo e preocupante de desumanização. Ser homem não implica, consequentemente, ser humanizado. A grande missão do nosso tempo é buscar a humanização. E ser humanizado é levar em conta, necessariamente, os direitos e a condição do outro como ser humano.
Leandro Konder fazendo referência a Walter Benjamin, diz que "os habitantes das grandes cidades vivem bombardeados por 'choques', sob o impacto de experiências mais ou menos violentas, e acabam ficando um tanto 'anestesiados' ou 'insensíveis'(...)". É justamente contra essa insensibilidade que temos que lutar todos os dias. Existe um descarte agressivo contra a vida humana. Contra o direito do outro. Contra a possibilidade de solidariedade e respeito àquilo que é do outro.Mantenhamo-nos humanizados - ou pelo menos, busquemos nos humanizar.
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