segunda-feira, julho 18, 2016

"A felicidade só é plena quando compartilhada" - Christopher McCandlles

Pintura do artista realista estadunidense Tom Sierak
Minha esposa viajou para Goiânia. Foi visitar os familiares. Fiquei sozinho, desfrutando minha semana sabática de recesso. Por isso, ontem, domingo à tarde, assisti ao filme Na natureza selvagem pela segunda vez. Não pude deixar de me emocionar como da primeira vez. Nas cenas finais do filme, o jovem Christopher McCandlles chega a uma conclusão bela e emblemática ao mesmo tempo: "A felicidade só é plena quando compartilhada". Ele que passara boa parte da vida em um conflito com os pais que desejavam domesticá-lo para as convenções do mundo capitalista, entendeu na solidão gelada do Extremo Norte, que é no encontro com o outro, que a vida se torna plena e existencialmente ensolarada. 

A felicidade não é determinada por aquilo que tenho em sentido financeiro. Ela está ligada ao encontro. Faz-se nova e satisfatória quando enxergo ao final dos meus passos a dádiva que é o outro. O mundo moderno espicaçou esse valor. Nossa sociedade assentada no individualismo esconde-se do outro. Queremos cada vez mais o individualismo, pois temos medo do encontro. O outro é sempre uma incógnita. Um mundo enorme de possibilidades. Exige diálogo, energia, desprendimento, um mergulho existencial para que eu possa desvelá-lo. 

Atomizados em nossos mundos. Encerrados em uma rede social. De cabeça baixa, flertando um espelho que reflete nós mesmos, as telas coloridas dos celulares ou computadores, somos narcisos sem faces. Não usamos mais a palavra falada, verbalizada. Ao emitirmos sons, balbuciamos um "kkkkkkk", que denuncia o lado primitivo e vazio de nossas conversas, de nossas relações. Se o assunto é sério, fazemos silêncio. Mas se é uma piada, uma imagem que existe no grotesco cotidiano, soltamos o gutural "kkkkkkk", a finalidade última de nossas "conversações epiteliais". 

Toda essa crise apenas revela o quanto estamos mais distantes de nós mesmos e dos outros. Nós "nunca nos comunicamos tanto" como ultimamente, mas nunca dissemos tão pouco. E é nesse fluxo paradoxal que assentamos o nosso individualismo meticuloso, casmurro, grávido de inalteridade. 

Escrevo essas coisas, pois a frase de McCandlles, fez-me pensar na relação que tive com o meu pai, morto há quinze anos; e no medo que tenho da paternidade. Sobre o primeiro fato é importante mencionar que minha relação com meu pai foi estranha e alicerçada em um receio que surgia da indiferença. Até hoje tenho a imagem dele como um sujeito irresponsável. Não me relacionei bem com ele. Geralmente cercado por amigos dissipadores, meu pai fazia o papel de um sujeito dado aos rompentes de alegrias gratuitas. Embriagava-se com frequência. Para mim, sua presença consistia em um fator negativo. Quando estávamos sozinhos e, ele não se encontrava enfronhado nas emanações etílicas, o silêncio era um sacerdote que sacramentava nossa relação. A fala embargava quando me dirigia a ele. Escorria como um fio fino e intermitente, equilibrando-se a custo no trilho delgado das emoções. Morreu cedo - aos 46 anos de idade. 

Muitas foram as vezes em que pensei: "Se um dia eu constituir uma família, não serei como meu pai". Essa relação kafkafiana (não escrevi nenhuma carta a ele), tornou-me um sujeito introspectivo. Tímido. Não afeito às relações. Talvez, tenha sido isso que me levou a procurar no mundo da leitura o apoio das palavras. Elas criavam estruturas sólidas. Nelas eu me sustentava. Agarrava-me. Protegia-me dos ventos fortes das instabilidades relacionais. Até hoje tenho dificuldades de conversar com pessoas com quais estabeleço relação pela primeira vez.

Necessariamente, isso afeta minha disposição para a paternidade. Eu minha esposa temos conversado bastante sobre isso. Ela que chega ao limite da idade fértil, preocupa-se - e preocupa-me. Eu, por meu lado, cercado por receios variados, isolo-me numa planície de pessimismo. Olho para trás e compreendo o significado de tudo. Há casais que optam por não terem filhos. Vivem bem com isso. Conseguem separar as coisas. Não existe um mandamento universal para a paternidade ou para maternidade. Nascemos e, ao virmos ao mundo, é dado o dispositivo biológico para a reprodução. É a cultura que constrói significados para isso. 

Todavia, pensando sob a perspectiva do filme, de quê é feita a vida senão de encontros? Tudo flui. Vai. Evola-se. Dissipa-se. Mas, a felicidade contida no encontro e no compartilhamento não se pode medir. Há uma outra cena muito bonita e significativa na obra de Sean Penn. O jovem McCandlles encontra um senhor chamado Ron Franz. A personagem vive sozinha. É um militar aposentado. Não constituiu família. Ele diz uma das frases mais bonitas do filme: "Quando você perdoa, você ama; e quando você ama, a luz divina brilha em você". No momento em que as duas personagens se despedem, Ron faz um pedido a McCandlles: queria adotar este como seu neto. Ele não tinha pai, mãe, nem filhos. Quando ele morresse, a história de sua família teria fim. McCandlles estava tão firme em seu propósito de chegar ao Alaska, que apenas diz: "Quando eu voltar, conversaremos sobre isso, Ron". 

O que é certo é que a vida, em alguns momentos, não espera pelas nossas decisões. O silêncio de suas ações se mostra maior do que nossas vaidades. Assim, há duas frentes: aquela que estabelecemos, como resultado da nossa vontade, e um devir convergente, que atua como fluxo. É justamente essa dialética que faz vida. Quem souber tirar proveito desse encontro ao lado das pessoas que ama, certamente encontrará a felicidade. É o outro que me revela. Nele encontro os meus limites. Em sua face está estampado o meu orgulho e minha capacidade de não amar. As pontes que me separaram do outro, também impedem que eu me conheça. Mas, no encontro, também, está capacidade de me tornar mais solidário, mais manso, mais sábio, desde que eu saiba compartilhar a minha existência.

domingo, julho 17, 2016

Breve catecismo

O caráter tão rico, tão contraditório e tão diverso da América Latina, esta terra desprezada, aparece nos aspectos não visíveis da realidade, longe do círculo no qual fechamos hoje a política e a economia. Mas esses aspectos invisíveis da experiência humana são a própria realidade... Quando empresto minha voz aos sem-voz, não me refugio fora do real. A realidade continua sendo minha fonte principal de inspiração, com suas alegrias e suas penas, suas tempestades e claridades.

Conto pequenas histórias que têm como vocação ajudar a ver a Grande História. Como em um mosaico, quadrados coloridos colocados lado a lado acabam compondo um quadro da realidade. Eu vejo o Universo inteiro através das histórias minúsculas, como olhamos um quarto através do buraco da fechadura. É um jeito de revelar aos meus leitores a possibilidade de viver a plenos pulmões, com toda a energia possível. As razões de chorar são infinitas. Mas as de rir também existem. É importante guardar ao mesmo tempo a capacidade de celebrar a realidade e a coragem de denunciá-la. 

(Eduardo Galeano)

sábado, julho 02, 2016

Mais um livro de Svetlana Aleksievitch


Há alguns dias atrás, eu recebi em meu e-mail uma daquelas publicidades do robô da Estante Virtual, que acaba "fisgando" pesquisas desinteressadas, namoros com aqueles títulos suculentos, mas que acabam ficando no mundo dos desejos reprimidos por uma questão monetária. Pois recebi a notícia de que havia um novo livro da nobelina Svetlana Aleksievitch. O título era dos mais convidativos - O fim do homem soviético - um tempo de desencanto. Apressei-me para olhar o preço. Estapafúrdios duzentos reais - se a memória não me trair neste momento.

Fui até o site da Livraria Cultura e vi que estava sendo vendido pela metade do preço - noventa e nove reais. Não hesitei. Fiz a encomenda. Dois dias após, eles me passaram um e-mail e disseram que o exemplar havia chegado à loja. Na quarta-feira à tarde, fui lá buscar (e ainda sair de lá com o Todos os contos de Clarice Lispector, lançado recentemente, que estava uma pechincha). O bonito cartapácio (de Svetlana Aleksievitch) foi publicado pela Porto Editora (de Portugal). Tradução impecável. A capa é das mais emblemáticas: uma senhora vestida à rigor, conduzindo a bandeira vermelha da União Soviética, com a insígnia inconfundível - a foice e o martelo, símbolo do comunismo que, assim como outros signos (cruz, suástica, etc), carrega simbologias capazes de movimentar os homens. Ao fundo, notamos uma paisagem cinzenta que engole prédios e homens como se aquilo fosse um aviso pressago da bancarrota histórica.

Todavia, o que conta mesmo é o estilo de Svetlana Aleksievitch. A escritora ucraniana possui uma capacidade única de emocionar, de criar humanismos; é capaz de nos fazer repensar a nossa condição; de colocar-nos frente a frente com nossas vaidades, paixões e movimentos que impelem a atos impensados. Já em Vozes de Tchernóbil, a história oral do desastre nuclear, Svetlana cria a impressão de que todas as dores do mundo podem ser reunidas em único lugar. Ela comprime em único espaço os relatos pungentes das pessoas comuns que tiveram suas vidas afetadas de forma deletéria pela terrível tragédia. 

As quinze páginas iniciais de O fim do homem soviético transmitem a impressão de que estamos sentados em um banco de praça, solitários, em um final de tarde fria, com cintilações cinzentas no ocaso e se escuta o barulho distante de um sino a anunciar um outro tempo. A experiência do vivido nos coloca lado a lado com o passado. E ele possui o cheiro de nostalgia, mas acaba trazendo impressões dúbias. Svetlana Aleksievitch consegue reunir um misto de vozes e acaba criando um livro, pelo menos notei isso nas quinze páginas lidas, polifônico (algo que se dá também com Vozes de Tchernóbil

O meu reptiliano projeto de leitura provoca uma inadministrável ansiedade. Muito trabalho. Excesso de nacos de tempo roubados pela roda viva do cotidiano. O que me consola é que terei quinze dias de recesso na próxima semana e poderei saborear os dois livros da Svetlana.  


sexta-feira, junho 17, 2016

"Corpos Divinos", de Guillhermo Cabrera Infante - algumas parcas palavras

"Sempre há um lapso entre a literatura e a vida e, por mais que a gente queira fechá-lo, a vida acaba ganhando, já que ela é a melhor depositária de histórias", p. 456

Terminei a leitura do delicioso Corpos Divinos, de Guillhermo Cabrera Infante, o escritor cubano, que mais tarde recebeu cidadania britânica, após ter rompido com o regime do seu país de nascimento. O livro é volumoso. Possui próximo de 618 páginas. Todavia, sua leitura flui com grande sinuosidade. Cabrera Infante escreveu-o em uma atividade de mais de quarenta anos. Tendo iniciado a escrita na década de sessenta, veio concluí-lo próximo de sua morte em 2005.

A história se passa num lapso temporal de três anos aproximadamente. No que concerne a isso, impressiona o nível de detalhamento dos acontecimentos narrados. As pessoas são reais. Os nomes são reais. Os lugares são reais. O suor e o cheiro dos corpos são reais. Numa Cuba pré-revolucionária, Infante pinta um quadro com cores vivas. A obra  pode ser dividida basicamente em quatro seções, embora não haja essa separação no livro - os romances, vida familiar, acontecimentos variados e a parte política, como não deveria deixar de ser.

Acerca dos romances, que estão necessariamente vinculados à vida noturna de Havana - e sendo, portanto, a melhor do livro -, o texto ocupa a maior parte, sendo as 150 páginas as mais bem escritas do livro. São inúmeros os nomes das mulheres que surgem na vida de Infante. Ele se revela uma espécie de minotauro romântico, sempre à cata de uma nova emoção, ou simplesmente, à procura de "um corpo divino". A primeira que surge é Elena, uma ninfeta, uma lolita de dezesseis que, como li a respeito, inspirou a escrita do seu romance A ninfa inconstante (já está separado para ser lido). Há outros nomes como, por exemplo, Ella, que seria uma paixão para a vida toda. É curioso perceber como Infante se esgueira pelos cafés de Havana. Pelos bares. Sentimos a temperatura, os anseios de seu nomadismo licencioso. Com o seu instinto felino, notamos os seus esgueiramentos pelas ruas com luminosidade penumbrosa.

Cabrera Infante e sua babel literária
Por outro lado, sua esposa Mirta sofre as intempéries das aventuras extraconjugais do marido. No livro, ela é uma personagem obumbrada. Não se nota uma preocupação do romancista em descrever-lhe as qualidades, as virtudes. Um dos casos em que vemos Mirta sofrer se dá quando Infante vai morar com Elena em um motel.

O livro ainda é povoado pela presença de Ernest Hemingway. É picaresca a imagem que o autor de Três tigres tristes constrói sobre o Nobel de Literatura. Nas páginas que são dedicadas a falar de Hemingway, Cabrera Infante descreve um sujeito pachorrento e misantropo. Descrito com pincéis histriônicos é o evento de filmagem de O velho e o mar, um dos livros mais importantes de Hemingway, nas águas de cor turquesa do Caribe. 

Sua predileção pelo jazz é outro ponto que deve ser mencionado. Por ser apaixonado por este estilo, ficava atento aos novos lançamentos do mundo do jazz. Uma de suas frases mais enigmáticas do livro é sobre esse estilo imortal. É algo como: 'o jazz oferece uma continuação entre a tristeza e alegria de viver'. 

Na última parte do livro, Cabrera limita-se a falar sobre as mudanças políticas vividas em Cuba. A presença de Fidel Castro e do comandante Guevara. As notícias da Sierra Maestra. A presença despótica do odiado Fulgêncio Bastista, o ditador sanguinário. Após a fuga de Batista, Cabrera Infante assume posições no Governo Revolucionário. E foi como jornalista, nas páginas finais do livro, que ele narra a viagem feita para acompanhar Fidel aos Estados Unidos, Canadá, Trinidad e Tobago, Brasil, Argentina e Uruguai. Para o Brasil, são reservadas uma dezena de páginas. Infante narra a sua estadia em São Paulo e Rio Janeiro; e sua visita a recém criada Brasília de JK.

O livro é esplêndido. O estilo de Infante é enfeitiçador. É escrito com objetividade jornalística e com uma preocupação em contar de tal forma, que a história contada assuma cintilações anedóticas. É como se mais tarde, ele ao se lembrar dos fatos, se pusesse a ri, pois era sabedor que a vida é uma fiel depositária de histórias e, a literatura, uma extensão da própria vida. 

quinta-feira, maio 12, 2016

As primeiras horas da manhã...

Escutei há poucos instantes alguns fogos tímidos de sujeitos que comemoravam o afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Não deveria haver comemoração. Aqueles que assim fazem não dimensionam o que estão comemorando. É uma ignorância homérica, um gesto de completo desconhecimento do mundo duro que é a política; não percebem que é justamente a política que determina a qualidade de vida que teremos ou deixaremos de ter. 

O tensionamento político que se gestou no Brasil nos últimos meses, não era só contra o PT ou contra a Dilma. Esse bombardeio era contra os trabalhadores. O que está em jogo são direitos, avanços, conquistas sedimentadas no governo que ora sofre o golpe e outras que são o resultado da luta histórica dos trabalhadores.

Não é bom se enganar nesse sentido: os direitos não vêm pelo fato do capital ser bonzinho, pelo fato "patrão" se compadecer da condição do "operário". Os direitos são o resultado da cristalização da luta, do suor, do derramamento de sangue. Assusta-me a ignorância de quem não percebeu ainda - e ainda comemora a saída de um governo, que apesar dos erros, resguardou muitos desses direitos, para se fiar por uma aventura incerta, pelo devaneio neoliberal - que quebrou países com uma experiência democrática mais consolidada como Portugal, Itália, Islândia e, o caso mais extremo, a Grécia.

Quebrar um país significa colocá-lo no chão. Significa colocá-lo a mercê dos ditames dos organismos internacionais como FMI, Banco Mundial etc - o quanto teremos de saúde, de educação, de infraestrutura, de empregos, de autonomia.

Não vejo motivos para comemorações. O Brasil é um país que não se leva a sério e que possui uma classe média cega, ignorante, que é vassala;  que se acha dona da casa grande. Um país que em 66 anos, apenas três dos seus presidentes terminaram os mandatos integralmente. Não somos sérios. O que está em jogo é justamente isso. Não é simplesmente o fato de retirar um político com o qual eu não simpatizo. Perdemos a oportunidade de avançar. Caminhamos para trás. Talvez daqui a trinta anos, criemos verdadeiramente uma euforia autêntica, genuína, que aponte para avanços sérios.

domingo, maio 08, 2016

Cinco de maio, aniversário de Karl Marx e Kierkegaard

Kiekergaard (esq.) e Karl Marx (dir.)
"A nossa existência é vivida para frente, mas entendida quando olhada para trás". Esta frase sempre me serviu de bússola. Em vários momentos em que me vi incompreendido, sem saber que direção tomar ou, simplesmente, buscando entender um evento, um comportamento meio autômato, ela surgiu sorrateira como um luzeiro e me fez colocar os pés no chão e continuar a caminhada. A frase pertence ao filósofo dinamarquês Sorem Aabye Kierkegaard. Ora, por que me remeto a ele assim de forma gratuita? Quinta-feira, dia cinco de maio, o mundo comemorou 203 anos do seu nascimento. 

Coloco Kierkegaard entre as minhas preferências filosóficas, assim como outras criaturas preocupadas com a existência - Agostinho, Pascal e Nieztsche. Os dois primeiros inequivocamente cristãos e, o último, alguém que buscava o conhecimento de si, desvencilhando-se de tudo aquilo que cheirasse a niilismo, sendo que o cristianismo se constituía uma grande abertura que impelia a um mundo de farsa, de negação da vontade, de resignação a um moral de escravo. Enquanto estivermos ocupados com deuses e uma moral mesquinha, jamais nos auto-determinaremos como sujeitos.

Curiosamente, no dia cinco de maio, outro filósofo que aprendi a admirar também, completou aniversário - 198 anos do nascimento do filósofo alemão Karl Marx. Marx anda na direção contrária de Kierkegaard. Aquele não olhava para dentro de si para determinar o mundo, como este procurava fazer. O alemão entendia que as relações que constituem o sujeito são forjadas na história. A base abstrata do homem, algo tão caro para o pensamento kierkegaardiano, é para Marx forjada a partir de determinada forma social. Ou seja, aquilo que é sentido e criado, é "a consciência invertida do homem", conforme diz Marx. O único ponto em comum dos dois é Hegel. Os dois haviam sido hegelianos quando jovens.

O que explica a minha predileção por dois filósofos que são antípodas? É possível conciliar essa discrepância? Como suavizar por meio de uma uniformização frases como estas: "A verdade é a subjetividade" (Kierkegaard); e "Não é a consciência dos homens que determina seu ser, mas, pelo contrário, seu ser social é que determina sua consciência"? (Karl Marx). 

Não é minha pretensão amarrar as pontas desse lençol de costura intrincada. Todavia, tento conciliar uma explicação, romantizando o presente fato. Kierkegaard, assim como os filósofos que citei acima, preenche minha parte mais intuitiva, mais propensa às metáforas, ao sentir poético; às projeções idealistas. Embora Kierkegaard estivesse à procura de um sentido que determinasse a sua existência ("procuro uma verdade que seja verdadeira para mim"), a frase que inicia o texto possui de forma subjacente elementos do devir, que é tão necessário para fecundar o pensamento de Marx. Olhando para trás, percebendo as curvas silentes, os saltos por vales cerrados, por escarpas longínquas, a história me forjou tal qual sou. Se sinto, se poetizo a vida, se procuro sentir, se mesmo não acreditando na religião institucional, fio-me por "uma vida na fé", acercando-me da terceira etapa do pensamento de Kierkegaard (estética, moral e fé) - claro, guardando as devidas proporções. Fé aqui não deve ser entendido em sentido comum. Fé a possibilidade de destruir todas as finitudes e transformar a existência em algo que está acima das pequenas coisas da vida.

Já Karl Marx me ajuda a colocar os pés no chão da história. Ajuda-me a despistar as convenções sociais forjadas, construídas para amarrar e impedir que compreendamos que existe um movimento latente, capaz de mudar o curso do mundo material. São os homens que constroem a história. Interpretá-la apenas não a torna um palco favorável à minha condição. Marx afugenta as ilusões. Em Marx, sentimos que a realidade é dura, que ela tem um corpo afiado e inquieto. Na teríamos essa consciência, não sentiríamos como sentimos; não leríamos o mundo como lemos; não perceberíamos como percebemos; não seríamos iludidos como somos; as estruturas jurídicas, políticas, religiosas, educativas, artísticas, filosóficas, morais seriam outras, se outras fossem as determinantes econômicas, se outras fossem as estruturas que determinam o ser social. 

Kierkegaard me impele ao ser; Marx, à ação. Em mim não há antagonismos. Antagônicas são as ideias. O ser tenta acolhê-las. Agasalhá-las. Tendo a consciência de que o fluxo contínuo de movimento forja as ideias, cria pessimismos e alegrias; cria a dureza para suportar e a sensibilidade que nos leva ao choro; a melancolia incontida e o gozo pela expectativa de vitória, sou enquanto sigo; mas sou sabedor de que a caminhada me marca, risca-me com o seu cinzel. Se tenho a percepção que tenho, não foi de forma gratuita. Sou assim, porque não sou de outro modo; mas, sendo como sou, posso ser de outro modo, desde que lute para sê-lo. Em quando assim for, olharei para trás compreenderei o ser que levo e tenho.

Parabéns, Marx e Kierkegaard!

sexta-feira, maio 06, 2016

Algumas considerações sobre "O amor de Mítia", de Ivan Búnin

Em que medida ele fora então bom menino, inocente, de coração singelo, pobre nas suas modestas tristezas, alegrias e devaneios! O seu amor sem objeto, incorpóreo, de então tinha sido um sonho ou, melhor, a recordação de um sonho maravilhoso. Mas agora havia Kátia, havia uma alma que encarnara em si o mundo e que o dominava por inteiro. p. 46

A literatura é mundo de possibilidades infinitas; de incontáveis  belezas; de polifonias; de feições e linguagens variadas; de poesia em estado puro; de insinuações implícitas; de depuração. É por esse motivo que lemos literatura; que não conseguimos nos afastar dela. A boa literatura é remissora, humanizadora. Nela encontramos a exatificação daquilo que poderia ser o mundo. Aquilo que os homens não conseguem desenhar, materializar, a literatura possui o potencial de representar, de simular. As tintas da literatura são mais densas do que as cores do mundo real. Ela permite a transfiguração do mundo. 

Pois essas impressões se tornaram mais vivas após terminar a leitura do livro O amor de Mítia, de Ivan Búnin. Certamente, uma das prosas mais belas e elegantes que já tive a oportunidade de ler. Um estilo que beira a uma epifania poética. Boris Schnaiderman, o famoso tradutor de obras do russo afirma: "Enfim, bem poucas vezes, em minha tão extensa caminhada como tradutor, me defrontei com um texto vigoroso como o desta novela". Não é para menos.

A vida de Búnin é dividida em dois momentos: a vida na Rússia pré-revolucionária e a vida pós-revolucionária, fora da Rússia. Nascido em 1870, o ganhador do Prêmio Nobel de 1933, sempre buscou forjar um estilo que o colocasse entre a prosa e a poesia. Tornou-se amigo dos mestres Tchekov e Tóltoi. Aquele viu nele um futuro brilhante. Este o estimava com grande carinho. Búnin se utilizou dessas amizades profícuas para aprender. A maturidade foi sendo desvelada de forma gradual. Com a eclosão da Revolução de 1917, Búnin não quis continuar na Rússia. Resolveu deixar o país. Desconfiava dos destinos transigidos. Não esperou para ver. Fugiu com a mulher. Radicou-se na França. E foi lá, como emigrado, que os seus belos textos foram surgindo um a um. 

O amor de Mítia, uma novela curta, foi escrita no auto-exílio. O Estado Soviético repeliu firmemente a sua fuga. Nos anos mais duros de repressão, quem mencionasse ou citasse o escritor, poderia amargar a prisão. Ficou como exemplo negativo. Todavia, apesar da distância, Búnin não abandonou espiritualmente a sua terra. Sua paixão pela literatura do seu país, principalmente por Tólstoi, que era alçado ao nível supremo de beleza literária; a relação panteísta que nutria com as belezas da cultura e da natureza, pode ser observado em seu texto. Fazendo uma pequena digressão: Búnin não gostava de Dostoiévski. Achava-o espalhafatoso em excesso.

O amor de Mítia é uma história simples. O mote é o amor, o ciúme e o sofrimento, um tema bastante comum na literatura. Após Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe, este tema assumiu paroxismos de grande dramaticidade. Goethe havia transido a existência de Werther, impingido dores contumazes, revolvido sua alma, revelado o seu espírito, suas aflições, seu martírio. Há nesse sentido um paralelismo entre Mítia e Werther. A diferença ao meu modo de ver fica por conta do estilo de Búnin. Trata-se de obra de rigor; de um controle absurdo da narrativa; e, como diz Schnaiderman, de grande "vigor". Havia sentido isso certa vez ao ler Quincas Borba, de Machado de Assis.

Ivan Búnin (1870-1953)
Mítia é um apaixonado que se alimenta apenas de um pensamento: a sua amada Kátia. Foge para tentar separar-se de sua presença. Mas a sua ausência é presença. Ele é preenchido justamente por aquilo que lhe falta. Busca a solidão do campo. Foge da Moscou barulhenta, agitada e se refugia em meio à natureza. E é nesse ponto que penso que esteja o ponto alto do livro. Búnin consegue de forma singela, descrever com uma beleza única, a vida pastoril. A natureza com sua presença luxuriosa, a exalar vida; e os seus rigores imparciais. A natureza se assume como a sua amada Kátia: bela, lúbrica, fértil, a espargir fragrâncias virginais, mas, ao mesmo tempo, sendo grave, imparcial, seguindo o seu curso implacável, pouco obsequiosa para com Mítia.

Como mencionei acima, as descrições são de uma beleza assustadora, de um realismo colorido que sinestesicamente coloca-nos diante do cenário. Apenas alguns exemplos: 

Capítulo IX

Vieram depois as neblinas tépidas, as chuvas, a neve foi derretida e devorada em poucos dias, o gelo do rio se pôs em movimento e a terra começou a negrejar alegre, renovada, a desnudar-se no jardim e no quintal...

Capítulo XIV

A floração das pereiras era particularmente densa e vigorosa, e a mistura dessa branquidão e do azul vivo do céu dava um reflexo violáceo. [...] Sentia-se no ar tépido o seu cheiro suave, adocicado, juntamente com o cheiro do estrume aquecido, em fermentação no curral. p. 59

Capítulo XXVIII

Fazia frio, havia umidade penetrante, as nuvens escureciam o dia; sobre aquele fundo negro, o verde compacto do jardim molhado destacava-se com particular densidade, frescor e nitidez. p. 113

Fica implícito no texto de Búnin uma inquietação com relação aos sentimentos fortes e que estabelecem sentido para a existência. Amor e morte são forças antagônicas, mas complementares. Elas se jungem em determinados momentos; sedimentam-se; tornam-se numa massa informe e se instalam como forças gravitacionais no coração do ser humano. Amamos, mas os ciclos e o devir universais seguem  indiferentes, apesar de sermos parte deles. 


domingo, maio 01, 2016

O arrivismo midático nosso de cada dia

Hoje cedo fui à uma banca de jornal aqui perto de casa comprar um dos exemplares da Coleção Folha. Analisei os 28 livros constantes da promoção e resolvi comprar dezessete deles. Alguns dos livros eu já tenho, mas mesmo assim comprarei (sic). A edição é elegante e a tradução é melhor trabalhada. É o caso, por exemplo, dos dois exemplares que adquiri hoje - A morte de Ivan Ilitch (Tolstói) e Um aprendizado ou o livro dos prazeres (Clarice Lispector). 

Após ter comprado os livros, pus-me a ler as reportagens dos jornais e revistas. Uma indisposição, um asco foi sendo fermentado à medida que lia o mau-caratismo discursivo da mídia hegemônica. A Veja trazia palavras fortes como "plano radical para zerar déficit público"; "Meireles e Serra, o time de atacantes da política externa" etc. Eram palavras e expressões afirmativas, que ensaiavam projeções otimistas, bem diferentes daqueles que vimos nas últimas semanas acerca do ainda sobrevivente e agonizante governo Dilma. A única nota negativa era uma uma denúncia contra Lula, acusado de receber "mensalão da OAS desde a década de 80", mas nesse ponto temos "mais do mesmo". 

A Isto É avançava em um discurso babão e mais canino. Um fundo vermelho com as fotografias de Lula, Dilma e João Pedro Stédile, líder do MST, expunha uma atmosfera de raiva e ódio. A reportagem trazia em letras garrafais: "Os sabotadores do Brasil". Duas outras reportagens encimavam o veículo ordinário (não chamo aquilo de jornalismo). Jornalismo pressupõe responsabilidade com a construção da notícia e a entrega abnegada do fato (não devemos falar em imparcialidade, pois ela não existe), algo impossível no Brasil. A primeira buscava enlamear a figura de Lula; a segunda, trazia o título "Meireles na Fazenda - o nome que entusiasma o mercado e a sociedade". É interessante notar a busca desavergonhada de fecundar, por meio da generalização, uma uniformidade possível, um clima de leveza, de consenso. Essa tônica "imparcial" era seguida por todos os demais veículos jornalísticos. Não havia um "discurso  destoante", que se contrapusesse a esse jornalismo marrom, viciado, inimigo da verdade e da isenção. 

Todos eles ficam à porta da banca, em lugar visível. As outras revistas que possuem um discurso contra-hegemônico (Caros Amigos, Revista Piauí, Le Monde Diplomátique etc) ficam em lugar escuso, como se fossem aquele material encalhado, procurado por seres estranhos, de outro planeta. Trata-se de quinquilharia, certamente. É como se alguém chegasse procurando algo exótico e o dono do estabelecimento dissesse: "Olha, eu tenho o que está aí! Mas espera aí! Há um negócio por ali, que quase num sai. Tá meio empoeirado! Mas dá uma olhada!" E colocasse sobre o balcão papiros fossilizados. Material para arqueologista. Arquivos seletos para entes secretos.

Desse fato surgem duas questões: (1) Quando terá fim esse massacre, esse bombardeio dessa mídia marrom, arrivista, conservadora, inimiga do povo e acumpliciada com o grande capital? E nesse sentido é necessário fazer uma crítica sólida ao PT, que em quatro mandatos, não moveu um centímetro a legislação da política de meios no Brasil. Os grandes grupos, leia-se cinco famílias, continuam "a formar opinião" no Brasil, criando consensos e estabelecendo "o olhar", "a plataforma política" e "as crenças da sociedade brasileira". Com o novo cenário político que se desenha, torna-se mais distante a possibilidade de qualquer movimento nesse sentido. (2) A consequência dessa blitzkrieg midiática é o envenenamento da opinião pública. Qual é a saída? O meio alternativo que projeta para a sociedade uma outra forma de enxergar os acontecimentos políticos do país de forma responsável? Gostaria, nesse sentido, de apontar uma crítica: por que o PT não fundou uma TV pública, com uma programação capaz de fazer frente ao que aí está posto? O sujeito médio, "educado" pela Veja, Revista Época, Isto É; pelo conglomerado dos jornais estaduais, pertencentes aos clãs que representam as oligarquias, inimigas do povo, seja do Goiás, Alagoas, Piauí, Rondônia ou Rio Grande do Sul; pelos jornais televisivos, pelas emissoras de rádio, ouvirá apenas uma versão "da realidade", a saber, aquela que é de interesse das elites desse país e isso "modelará" inexoravelmente o seu olhar. O ódio instalado contra o governo atualmente é o resultado desse trabalho, como se o PT tivesse inaugurado a corrupção no país; como se antes do PT, o Brasil fosse um Éden, onde as pessoas 'viviam felizes' e 'se alimentavam da árvore da vida, que está no centro do jardim'.

Às vezes, bate-me uma vontade de que aquele dispositivo que existe no filme Homens de Preto, capaz de bloquear a memória e impedir que o sujeito tenha acesso ao que aconteceu com ele, existisse de verdade. Poderíamos utilizá-lo para esquecer tudo isso e começarmos do zero. Como isso não é possível, ficamos imersos nesse imenso mar de desânimo. Olhamos em volta e vislumbramos horizontes turvos. Ignorância e alienação por todos os lados. E como diz a música Vícios de Linguagens do Engenheiro do Hawaí: 

Tudo se resume a uma briga de torcidas
E a gente ali no meio, no meio das bandeiras
O jogo não importa, ninguém tá assistindo
E a gente ali no meio, no meio da cegueira
Tudo se reduz a um campo de batalha
E a gente ali no meio
Tudo se resume a disputa entre partidos
Lama na imprensa, sangue nas bandeiras
A verdade passa ao largo, como se não existisse
E a gente ali no meio, como se não existisse
Tudo se reduz, a uma cruz e uma espada

Ficamos ali, sem jeito, sem escapatória, sem possibilidade de fuga, vendo aonde tudo vai dar, enquanto as revistas, jornais e a TV, alimentam com seus discursos de cobiça, a indigência alheia. 

sexta-feira, abril 22, 2016

Algumas impressões sobre "Madame Bovary", de Flaubert

Ler Madame Bovary era um projeto existente desde o final do ensino médio. Recordo-me das aulas de literatura. Das onipresentes citações sobre a importância da obra monumental de Flaubert. Cheguei a comprar uma edição ordinária em um sebo. Esqueci-a no fundo da estante. Via o projeto como algo distante. Até que no mês de fevereiro deste ano fui à Livraria Cultura e comprei a excelente edição da Penguin/Companhia das Letras. Pensei comigo em tom profético e peremptório: 'Agora você não me escapa!"

Iniciei a leitura com um senso de reverência indescritível. Precisava me conectar a um mundo de idealismos. Era uma ação nobre aquela que estava a executar. As quase quinhentas páginas com tradução primorosa. O papel macio e resguardar em suas entranhas um cheiro lascivo. A grande expectativa em torno do que acharia pela frente. Emma Bovary era uma espécie de fada. Tentava erguer a curiosidade e construir, por meio de conjecturas, os caminhos determinantes da narrativa. Cheguei a assistir a um filme tentando entender os desdobramentos da história. O filme serviu apenas para recriar o cenário, a fotografia e o espaço romanesco. Foi ineficiente. A prosa de Flaubert é grande demais para caber em uma película. 

De fato, o romance é tudo aquilo que esperava que fosse: grandioso em todos os aspectos. Não poderia ser diferente. Flaubert é um minucioso estudioso dos costumes da sociedade do seu tempo. Difere de Balzac, por exemplo, que também era um cronista poderoso. Este parece ser mais caudaloso e recriador de consensos; aquele, por sua vez, é insubmisso, cortante, engenheiro habilidoso de uma prosa jornalística, que mais insinua do que afirma certezas. As frivolidades e fatuidades da burguesia são trabalhadas com hiperbólica ironia. A avareza de alguns personagens denuncia a transformação social por que passa a alma do homem sob a dinâmica sociedade capitalista. A crença profunda no cientificismo e no progresso da técnica são resultado da visão otimista de que o homem estava transformando a natureza naquele presente histórico, como fica expresso pelo personagem Homais. O diletantismo de alguns personagens como, por exemplo, Léon, um dos amantes de Ema Bovary. Ou ainda, o mundanismo de um Byron, o comportamento selvagem e inconsequente de um dândi como Rodolphe.

Gustave Flaubert (1821-1880)
A heroína Ema Bovary, casada com Charles Bovary, um modelo de sujeito passivo, mas de coração bondoso, construído para provocar no leitor uma fina e sensível compaixão, é estraçalhado pelos desejos incontidos e calculistas de Emma. A personagem Ema instila no leitor (pelo menos em mim foi assim) uma dupla sensação: (1) ela é culpada pela desgraça que acomete o destino de sua casa e o destino do seu marido Charles. É isso que Flaubert quer nos fazer crer em um primeiro momento. Ema é uma personagem complexa. Espera-se dela como mulher, pelo menos, um ordeiro respeito à figura do seu bom marido; o papel da boa mãe. (2) Emma é culpada. Parece-me que neste ponto, Flaubert constrói a tese de que reside no mundo feminino a susceptibilidade que impele à fantasia, ao desvario, à irracionalidade. Em suma, Emma é culpada. É traidora. É destruidora de si e da vida de seu marido. Como naquela passagem bíblica sexista de Provérbios: "Mulher virtuosa, quem a achará?" (31.10). A personagem destoa do modelo perfeito. Não é "virtuosa". É traidora. Alimenta-se de cálculos, de perfídias, de enganos; deixa-se levar por uma franqueza: busca encontrar nos amantes a segurança de que necessita. É forte por trair, mas, ao mesmo tempo, é fraca por ser romântica em excesso e deixar aflorar o sentimentalismo feminino.

A heroína soçobra ante o seus desejos. Fica cega. Ignora a presença de Charles. Fascina-se com a expectativa de uma vida de prazeres e luxos. Arruína-se no plano espiritual e no plano material. Contrai dívidas. Entendia-se da vida aldeã. Procura formas de ocultar a sua realidade e projeta o dinamismo da vida citadina. Mora em um vilarejo, mas é como se vivesse em Paris. Há uma insatisfação em sua existência. Ela busca fugir da sensação claustrofóbica em que havia se transformado o seu casamento. Emma anuncia a mulher insubmissa, não dada às convenções sociais. Suplanta o determinismo social que encurralava as mulheres, colocando-as numa posição servil. 

A prosa de Flaubert, nesse sentido, é revolucionária. Quando escreveu o livro ainda não era o gigante, o sujeito respeitado que se tornou depois. Possuía pouco mais de trinta anos. Morava com a mãe em um subúrbio. Era um sujeito de poucas posses. Não gozava de nenhum prestígio. Escrevia textos de valor incerto. Seu método de trabalho era de um estoicismo impressionante. Trabalhava um número exato de horas. Escrevia um número exato de páginas diariamente. Demorou mais de cinco anos para escrever a obra monumental. Flaubert anunciava o moderno. Emma personifica o descontentamento; o drama metafórico que anuncia uma sociedade veloz - a linha férrea, o jornal, a eletricidade. E Emma é esse ponto de inflexão que gera "desconforto", a visão do novo, de um novo que possui uma força atordoadora.




segunda-feira, abril 18, 2016

Quando andamos para trás...

É inadmissível que trabalhadores, pessoas que acordam cedo, pagam seus impostos, lutam por um país mais justo, admitam esse palco farsesco que se presenciou na noite de domingo. Chegamos ao fundo do poço de nossa infâmia, de nossa inanição moral e intelectual. Como bem enfatizou Jean Willys: "Uma Casa formada por analfabetos políticos"; uma Casa liderada por um mafioso, capaz de arregimentar como feiticeiro o baixo clero e prometer-lhes o vil metal que quebranta toda possibilidade ética, e  julgar e decidir o destino de um país com mais de duzentos milhões de pessoas. Ou como disse outro deputado do Psol: "Uma Casa presidida por um gângster". Não existe pior melancolia, pior ressaca existencial do que esta. A nossa fauna rupestre de mentes tacanhas, inflamados pela violência; legalistas que invocam deus, torturadores, assassinos, cafetões, oportunistas, párias ideológicos, infames, esquisoides, mandriões farsescos, finórios de carteirinha; que homenageiam "corretores de imóveis", "o filho", "o cachorro", "os médicos", mas que não embasam o voto de acordo com as finalidades do debate; esse exercício seria impossível para alguns, pois o baixíssimo capital cultural não permitiria. Como bem afirmou o jornal argentino Página 12, um parlamento formado por "escravocratas", filhos e herdeiros da casa grande. Uma aliança corrupta, firmada na luxúria ménage à trois entre a mídia golpista, setores atrasados da política nacional e das elites nacionais e admitida pela servil e ignorante classe média.

Os deputados que votaram pelo "sim" sabem o querem: fazer parte da composição do novo governo que será montado de forma ilegítima. O bolo já foi fatiado. Os ministérios e secretarias já foram fracionados. Eles foram para o plenário com os conchavos já montados. Aproveitaram a noite para aparecer no telão, talvez, numa das poucas oportunidades que terão na vida política. Nos dias normais, essas figuras se escondem no submundo da Câmara. Fazem migrações e engendram negócios espúrios contra o povo.

O que não é aceitável é vê trabalhadores coadunando com esse "show" de horrores. Quem está sendo violado, estuprado, é o Estado Democrático de Direito; os direitos trabalhistas; a nossa rala e inconsistente democracia; as conquistas sociais para os grupos olvidados deste país; a dignidade dos negros, índios, mulheres humildes, analfabetos, crianças e adolescentes; a comunidade LGBT, os quilombolas, os deserdados e desesperançados; aqueles que dependem do SUS. Aqueles que disseram "sim" não votaram pelo povo, pela justiça. Votaram pelas suas famílias bem assistidas, que comem todos os dias, que quando passam mal vão a um hospital particular; que estudam nas boas escolas privadas do país. Como diria o velho Marx "a história se repete como farsa".

Chegará o dia que muitos trabalhadores, que firmaram posição contra o governo, ludibriados pela mídia, arrepender-se-ão da esparrela em que se meteram, do projeto criminoso que apoiaram. Se eles soubessem os conchavos que estão sendo costurados nas masmorras do Congresso Nacional contra os trabalhadores, sairiam às ruas para que mais da metade da Câmara e do Senado acertasse contas com a justiça, para que Dilma não fosse vítima dessa encenação burlesca. 

Uma digressão

Historicamente, o Brasil sempre foi um país dividido. As imagens que alimentamos da política e das relações sociais servem para mostrar o quanto a nossa sociedade se pauta pela violência em todos os sentidos. E essa violência é usada para estabelecer conexões com a vida social. O Brasil ainda não rompeu com os efeitos da casa grande e da senzala. Então, muitos setores da sociedade, principalmente, a classe média, principal agente de reificação do “status” das elites, é a cimentadora dessas contradições. Existem dois problemas nesse sentido: 

(1) ela é vítima de sua própria ignorância. Suas pretensas vantagens não a tornam em uma entidade autônoma dentro da sociedade de classes. Ela também é explorada. Vende a sua força de trabalho. Ocupa determinados cargos do alto funcionalismo público; algumas profissões liberais como a de advogados, médicos, dentistas etc. Acham-se “livres”, todavia, esses indivíduos não fazem parte da dança do grande capital, necessariamente fator de relação nas grandes corporações.

(2) Alguns setores, arrimados na violência, fazem escolhas alienadas, ou seja, se tornam algozes. Esses grupos ostentam signos de “status”. Gostam de exibir determinados privilégios. Usam a violência como mecanismo de orientação social – por isso, o apoio à redução da maioridade penal, desejo que o país adote a pena de morte, o apoio a pilantras nazistas como o Bolsonaro etc e todo tipo de ação que leve ao não empoderamento dos mais necessitados. Têm raiva da diversidade social, do diferente. Criminalizam as políticas sociais. Chamam os programas sociais de assistencialismo, por entenderem que “a força vem do trabalho”, todavia, não sabem que o “trabalho” de que falam é o trabalho alienado. Chamam governos progressistas de populistas, um discurso que faz parte do ideário das elites da América Latina. Têm raiva dos índios, dos negros, das mulheres humildes, da comunidade LGBT, dos sem-terra, dos sem-teto, dos necessitados plurais do nosso país. A classe média paulista, por exemplo, entregou o que tinha de ouro em 1932 e 1964, para que o país enfrentasse “a ameaça vermelha”. Todavia, quando olho para isso, não consigo deixar de enxergar o duplo caráter de que falei acima – a ignorância, fruto da alienação, leva, necessariamente, ao chancelamento da violência e do obscurantismo.

Estou triste e decepcionado, mas sereno. Sou sabedor de que a história é resultado da luta de classes; que não existem lances fáceis e gratuitos. A dialética da história não nega os seus movimentos.

"A solidão da América Latina", discurso de Gabriel García Márquez na Academia Sueca - texto atualíssimo. Faz-nos refletir sobre a farsa de ontem.

Após o episódio patético promovido pelos deputados federais no dia de ontem, que se tornou piada nas principais mídias do mundo, lembrei o discurso de Gabriel García Márquez, ganhador do prêmio Nobel em 1982. Seu inspirado discurso para a Academia Sueca é uma revelação urbi et orbi da realidade mágica do mundo latino-americano, de suas lutas, dos estupros sofridos e pela riqueza fascinante da região. Recordo que a primeira vez que o li, fiquei boquiaberto dada a beleza e a eloquência. Vale ler! É um texto com valor sagrado. Sua beleza emula sentimentos acerca da esperança, das utopias que podem ser fecundadas. O escritor colombiano, autor de Cem anos de Solidão e o Amor nos tempos do cólera, (dois dos livros mais importantes que já li), foi uma das figuras mais importantes da história do continente - e certamente continuará a ser. Leiamos:

Antonio Pigafetta, navegador florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem em volta do mundo, escreveu, na ocasião de sua passagem pelas terras do sul de nossa América, um relato minuciosamente apurado, mas que na verdade parece mais um delírio fantasioso.

Nessa viagem, ele diz que viu porcos com umbigos nas ancas, pássaros sem garras cujas fêmeas botavam os ovos nas costas de seus parceiros, e ainda outros, lembrando pelicanos deslinguados, com bicos feito colheres.

Ele disse ter visto uma criatura desengonçada, com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo e pernas de veado, que relinchava como cavalo. Descreveu como o primeiro nativo encontrado na Patagônia se olhou no espelho, e em seguida, o impassível gigante, perdeu a razão, aterrorizado com sua própria imagem.

Este curto e fascinante livro, que já naquela época continha as sementes de nossos atuais romances, é sem dúvida o mais pungente relato da realidade nossa daquele tempo.

Os cronistas das Índias nos deixou outros incontáveis relatos. Eldorado, nossa terra ilusória e tão avidamente procurada, apareceu em numerosos mapas durante anos, deslocando-se de lugar e de forma de acordo com a fantasia dos cartógrafos.

Em sua procura pela fonte da eterna juventude, o mítico Alvar Núñez Cabeza de Vaca explorou o norte do México por oito anos, numa iludida expedição cujos membros devoraram uns aos outros e, dos seiscentos que foram, apenas cinco voltaram.

Um dos muitos mistérios inimagináveis daquela época é o das onze mil mulas, cada uma carregando cinqüenta quilos de ouro, que um dia deixaram Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram ao seu destino. Depois disso, no tempo das colônias, galinhas vendidas em Cartagena de Índias eram criadas em terrenos de aluviões e em suas moelas eram encontradas pequenas pepitas de ouro.

A cobiça de ouro de nossos fundadores nos perseguiu até recentemente. No fim do último século [XIX], uma missão alemã, indicada para estudar a construção de uma ferrovia inter-oceânica, através do istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com uma condição: que os trilhos não fossem feitos com aço, que era raro na região, mas com ouro.

Nossa independência da dominação dos espanhóis não nos pôs fora do alcance da loucura. O general Antonio López de Santana, três vezes ditador do México, providenciou um magnífico funeral para a perna direita que ele perdera na chamada Guerra dos Pastéis. O general Gabriel García Moreno governou o Equador por 16 anos como um monarca absoluto; em seu velório, o corpo ficou sentado na cadeira presidencial, vestido com o uniforme completo e decorado com uma camada protetora de medalhas.

O general Maximiliano Hernández Martínez, o déspota teosófico de El Salvador, que teve 30 mil camponeses aniquilados num massacre selvagem, inventou um pêndulo para detectar veneno em sua comida, e mantinha as lâmpadas das ruas envolvidas em papel vermelho para vencer uma epidemia de escarlatina. A estátua do general Francisco Morazán, na praça principal de Tegucigalpa, é na verdade do marechal Ney, comprada num depósito de esculturas de segunda mão em Paris.

Onze anos atrás [1971], o chileno Pablo Neruda, um dos brilhantes poetas de nosso tempo, iluminou este público com suas palavras. Desde então, os europeus de boa vontade – e às vezes aqueles de má vontade também – têm sido arrebatados, com cada vez mais força, pelas novidades fantásticas da América Latina, esse reino sem fronteiras de homens alucinados e mulheres históricas, cuja infinita obstinação se confunde com a lenda.

Não temos tido sequer um minuto de sossego. Um prometéico presidente, entrincheirado em seu palácio em chamas, morreu lutando contra um exército inteiro, sozinho; e dois suspeitos acidentes de avião, ainda por explicar, abreviaram a vida de um grande presidente e a de um militar democrata que tinha ressuscitado a dignidade de seu povo.

Já ocorreram cinco guerras e dezessete golpes militares; surgiu um diabólico ditador que está realizando em nome de Deus o primeiro etnocídio da América Latina de nosso tempo. Nesse ínterim, 20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de completar um ano de vida – mais do que as que nasceram na Europa desde 1970.

Os desaparecidos pela repressão chegam a quase 220 mil. É como se ninguém soubesse onde foi parar a população inteira de Uppsala. Várias mulheres presas grávidas deram à luz nas prisões argentinas, e ainda ninguém sabe do paradeiro e da identidade de seus filhos, que foram furtivamente adotados ou enviados para orfanatos por ordem das autoridades militares.

Porque tentaram mudar esta situação, quase 200 mil homens e mulheres morreram em todo o continente, e mais de cem mil perderam suas vidas em três pequenos e malfadados países da América Central: Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se fosse nos Estados Unidos, seria o equivalente a um milhão e seiscentos mil mortes violentas em quatro anos.

Um milhão de pessoas abandonaram o Chile, um país com tradição de hospitalidade – ou seja, doze por cento da população. O Uruguai, pequenina nação de dois milhões e meio de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do continente, perdeu para o exílio um em cada cinco de seus cidadãos.

Desde 1979, a guerra civil de El Salvador vem produzindo quase um refugiado a cada vinte minutos. O país que se poderia criar com todos os exilados e emigrantes forçados da América Latina teria uma população maior que a da Noruega.

Ouso dizer que é esta desproporcional realidade, e não apenas sua expressão literária, que mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade não de papel, mas que vive dentro de nós e determina cada instante de nossas incontáveis mortes de todos os dias, e que nutre uma fonte de criatividade insaciável, cheia de tristeza e beleza, da qual este errante e nostálgico colombiano não passa de mais um, escolhido pelo acaso.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e canalhas, todas as criaturas desta indomável realidade, temos pedido muito pouco da imaginação, porque nosso problema crucial tem sido a falta de meios concretos para tornar nossas vidas mais reais. Este, meus amigos, é o cerne da nossa solidão.

E se estas dificuldades, cuja essência compartilhamos, nos atrasa, é compreensível que os talentos racionais desta parte do mundo, exaltados na contemplação de sua própria cultura, se encontrem sem meios apropriados de nos interpretar.

É simplesmente natural que eles insistam em nos medir com o mesmo bastão que medem a si mesmos, se esquecendo de que as intempéries da vida não são as mesmas para todos, e que a busca pela nossa própria identidade é tão árdua e sangrenta para nós quanto foi para eles.

A interpretação de nossa realidade em cima de padrões que não são os nossos serve apenas para nos tornar ainda mais desconhecidos, ainda menos livres, ainda mais solitários.

A venerável Europa talvez pudesse ser mais perceptiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se ela recordasse simplesmente que Londres levou 300 anos para construir seu primeiro muro, e mais 300 para ter um bispo; que Roma labutou numa penumbra de incertezas por 20 séculos, até que um rei etrusco a fizesse entrar para a história; e que a pacífica Suíça de hoje, que nos deleita com seus leves queijos e simpáticos relógios, derramou o sangue da Europa como soldados mercenários, no final do século XVI. Mesmo no alto da Renascença, 12 mil lansquenetes pagos pelo exército imperial saqueou e devastou Roma e trespassou oito mil de seus habitantes na espada.

Não quero incorporar as ilusões de Tonio Kröger, cujos sonhos de unir um casto norte a um sul apaixonado foram exaltados aqui, há 53 anos, por Thomas Mann. Mas realmente acredito que aqueles europeus esclarecidos que lutaram, inclusive aqui, por um lar mais justo e humano, pudesse nos ajudar muito melhor se reconsiderassem sua maneira der nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos não vai nos fazer menos solitários, enquanto isso não for traduzido em atos concretos de apoio legítimo às pessoas que aceitam a ilusão de ter uma vida própria na divisão do mundo.

A América Latina não quer, nem tem qualquer razão para querer, ser massa de manobra sem vontade própria; nem é meramente um pensamento desejoso que sua busca por independência e originalidade deva se tornar uma aspiração do Ocidente. No entanto, a expansão marítima que estreitou essa distância entre nossas Américas e a Europa parece, ao contrário, ter acentuado nosso distanciamento cultural.

Por que a originalidade nos foi agraciada tão prontamente na literatura e tão desconfiadamente nos foi negada em nossas difíceis tentativas de mudanças sociais? Por que pensar que a justiça social perseguida pelos europeus progressistas aos seus próprios países não pode ser um objetivo da América Latina, com métodos diferentes em condições desiguais?

Não: as incomensuráveis violência e dor de nossa história são o resultado de antigas iniqüidades e amarguras caladas, e não uma conspiração tramada a três mil léguas de nossa casa.

Mas muitos líderes e intelectuais europeus têm pensado assim, com a infantilidade de seus antepassados que se esqueceram do proveitoso excesso de sua juventude, como se fosse impossível chegar a outro destino que não o de viver entre a cruz e a espada. Isto, meus amigos, é o tamanho exato de nossa solidão.

Apesar disso, à opressão, ao saque e abandono, respondemos com vida. Nem enchentes nem pragas, nem fome nem cataclismos, nem mesmo as eternas guerras, séculos após séculos, foram capazes de subjugar a persistente vantagem que a vida tem sobre a morte. Uma vantagem que cresce e acelera: todo ano, há 74 milhões de nascimentos a mais do que mortes, número o suficiente de novas vidas para multiplicar, a cada ano, a população de Nova York sete vezes.

A maioria desses nascimentos ocorre em países de menos recursos – incluindo, claro, os da América Latina. Contraditoriamente, os países mais prósperos se realizaram acumulando poderes de destruição, com força o bastante para aniquilar, num total de cem vezes, não apenas todos os seres humanos que já existiram até hoje, mas também todos os seres vivos que um dia respiraram neste planeta infeliz.

Um dia como hoje, meu mestre William Faulkner disse: “Eu me recuso a aceitar o fim da humanidade”. Não seria digno de mim estar num lugar em que ele esteve se eu não tivesse plena consciência de que a tragédia colossal que ele se recusou a reconhecer, 32 anos atrás, é agora, pela primeira vez desde o começo da humanidade, nada além de uma simples possibilidade científica.

Cara a cara com esta realidade horrenda que pode ter parecido uma mera utopia em toda a existência humana, nós, os inventores das fábulas, que acreditamos em qualquer coisa, nos sentimos inclinados a acreditar que ainda não é tarde demais para nos engajarmos na criação da utopia oposta.

Uma nova e avassaladora utopia da vida, onde ninguém será capaz de decidir como os outros morrerão, onde o amor provará que a verdade e a felicidade serão possíveis, e onde as raças condenadas a cem anos de solidão terão, finalmente e para sempre, uma segunda oportunidade sobre a terra.

sábado, abril 16, 2016

O fabuloso discurso de José Eduardo Cardozo - 15/04/2016

Assisti ao discurso de José Eduardo Cardozo, então Advogado-Geral da União, e não deixei de me impressionar. Cardozo equilibrou-se com imensa habilidade por 25 minutos em cima de argumentos construídos com rigor, peso e método, tanto do ponto de vista jurídico quanto político. É uma verdadeira aula de retórica de alguém que domina com perícia aquilo que fala. O eloquente advogado amargou críticas pesadas de setores do Governo enquanto esteve à frente do Ministério da Justiça. Afinal, ele era o chefe da Polícia Federal. Para os sujeitos que firmavam as críticas, a Polícia atuou de forma política e viciada, sem que o ministro interviesse. Escutemos. Daqui a alguns anos, a arquitetura de seu discurso será estudada.

sexta-feira, abril 15, 2016

O momento político atual e uma frase de Lima Barreto

Lima Barreto no início do século XX, verbalizava por meio de seu imortal personagem Policarpo Quaresma: "Ou o Brasil acaba com as formigas; ou as formigas vão acabar com o Brasil". Darcy Ribeiro quando foi ao programa Roda Viva, disse que o Brasil é uma potência; é um país bonito, cheia de energia criadora, mas a sua elite 'ranzinza', 'mesquinha', finória', impede que o país avance. Pensado pela perspectiva policarpeana, as formigas continuam acabando com o Brasil. Alimentam-se de sua seiva, de suas riquezas, de seu viço; impedem avanços, refreiam otimismos. É difícil aceitar que passados mais de cem anos da escrita do livro de Lima Barreto, o Brasil continue a amargar um quadro político regressivo. 

Do início do século XX até hoje, o país passou pelo menos por três golpes. Todos eles apresentaram o desejo sanguinário das elites, conectadas aos desejos do grande capital internacional, de manter o Brasil como um país pequeno e insignificante. Golpes são dados todas as vezes que os interesses das elites são contrariados. O simulacro de democracia que temos, atesta um modelo para se chegar ao poder: no Brasil, para se alcançar o mandato eletivo, é necessário consegui-lo por meio do voto. Mas, essa garantia é relativa em um país de grande violência perpetrada pelas elites. 

Para isso, arranja-se, constrói-se o consenso em torno de determinadas máximas falíveis aos olhos da razão. O poderes República não são esferas harmônicas, capazes de fazer funcionar o Estado Democrático de Direito. O Judiciário não é "última trincheira da cidadania", como afirma o ministro do STF, Marco Aurélio de Melo; trata-se de um espaço para que alguns juízes façam política e distorçam o direito. O Legislativo não é a casa do povo; é o espaço para que os parlamentares trabalhem para os empresários que financiaram as suas campanhas. A palavra "povo" é um termo conveniente para o Legislativo. Pensar no trabalhador, nas crianças de rua, na políticas públicas necessárias, na dignidade, é uma miragem impossível. E o Executivo é o centro que coordena "a gerência da casa". Ou seja, é de lá que saem projetos que dinamizam a vida social e econômica. Dependendo de quem coordene, presida "a casa", abre-se espaço para as políticas que podem ou não beneficiar os trabalhadores - ou ainda determinados grupos da sociedade.

Pois é justamente o Executivo o centro de interesse da burguesia brasileira. O impedimento de Dilma Rousseff está assentado em uma grande farsa, por isso é um golpe. A burguesia aliançada ao capital usa os mais diferentes métodos para aplicar golpes: firma aliança com os militares como aconteceu no Brasil em 1964; judicializa os resultados eleitorais como atualmente está acontecendo; desgasta o governo opositor e popular por meio de determinadas pautas sensacionalistas, estabelecendo conexões explícitas com o aparelho midiático. Para se destruir alguém, nada melhor do que o jogo de especulações e sensacionalismos; nada melhor do que criminalizar, enxovalhar a imagem pública, "depredar" a credibilidade política  por meio do alardeamento de escândalos selecionados e potencializados. Corrupção não é uma prática privativa do governo do PT. Os erros políticos de Dilma não são suficientes para impedi-la politicamente, fazendo romper o seu mandato.

Um golpe a essa altura, colocar-nos-ia na mesma posição de Paraguai e Honduras, que foram os primeiros países latino-americanos a experimentarem rupturas democráticas em pleno século XXI. Essa condição vulnerabiliza conquistas. Coloca-nos numa posição de bagunça; de ausência de seriedade; cria retrocessos graves; abocanha direitos como se visualiza no horizonte que se desenha: a aliança PMDB-PSDB será um massacre contra os trabalhadores e contra os mais pobres. Para que a burguesia continue a ter seus lucros, é necessário fazer mudanças constitucionais e construir garantias de que não haverá resistências ao longo dos próximos anos. Por isso, são necessários pelo menos duas certezas imediatas: (1) retirar Dilma do poder e implantar um agenda conservadora para fazer acontecer aquilo que não aconteceu nos quatorze anos de governo do PT; (2) destruir a credibilidade política do PT e do seu principal líder - Luis Inácio Lula da Silva. Para isso, é importante colocá-lo como o grande bode expiatório da Lava a Jato. Hoje, li uma notícia que informava que há intenções no juiz Moro de encerrar a Operação ainda este ano. Por quê? Por que nos dois anos de Operação nenhum parlamentar do PSDB foi investigado, por exemplo, e tantas figuras ligadas ao PT amargaram a implosão pública de suas imagens? Por que Moro se nega a investigar os duzentos nomes da lista da Odebrecht e não quis a delação do empresário famoso? 

Há quem defenda o golpe sabendo daquilo que deseja com essa ruptura. Todavia, é inadmissível perceber trabalhadores defendendo esse artifício. É como se o algoz convencesse o condenado a comprar a própria corda que matará este. Um dos meios mais eficazes das elites conseguirem seus intentos, convencendo a opinião pública, é por meio de seu aparato de informações. No Brasil, desde o Império e início da República, que os jornais hegemônicos pertencem às famílias mais ricas do país. Com o advento da TV e do rádio, a força retórica do convencimento se tornou maior. Ou seja, não há escapatória para o homem médio - se ele não ler, ele escuta no rádio; se ele não ler nem escutar no rádio, a televisão cria o consenso por meio das edições de imagem. 

Diz Lima Barreto que o quixotismo de Policarpo Quaresma, levou-o à morte. Suas ideias não surtiram nenhum efeito. O seu desejo de "reformar" o Brasil foi suplantado pelos choques com o mundo dos interesses e das conveniências dos grupos que mandam no país. Infelizmente, o que já está desenhado e, que, neste momento está sendo colorido, é a certeza manifesta de que continuamos sendo devorados "pelas formigas"; e que as nossas elites desejam que vivamos acorrentados na escuridão, sem possibilidades de sonharmos com o futuro.