Não
há rigorosamente nada de novo nas últimas acusações contra Lula. As
denúncias de recebimento de dinheiro ilícito continuam sendo vagas,
baseadas em presunções e incapazes de apontar vantagens efetivas que ele
tenha obtido. Por outro lado, há fartas demonstrações de que o
ex-presidente tinha noção de que era a corrupção que garantia a
"governabilidade" - alguém ainda não sabia disso? E também fica claro
que Lula desenvolveu uma forte camaradagem com as grandes empresas, algo
que está longe de lustrar sua biografia de líder popular, mas que
também não constitui surpresa para ninguém. (E, pelo que se vê até o
momento, também não constitui crime, é sempre bom ressaltar.)
No
entanto, vejo muito gente acionando o modo "meu mundo caiu", como se
fulminados por uma súbita decepção com Lula. Alguns, por senso de
oportunidade, como parece ser o caso de Paulo Henrique Amorim. Outros,
sucumbindo diante da campanha incessante da mídia.
Gostaria de
poder dizer, como Millôr: "Heróis nunca me iludiram". Não seria verdade.
Tive, como todo mundo, minha cota de heróis pessoais. Ainda os tenho
hoje, mas cuido para que estejam mortos, de preferência há bastante
tempo, o que evita surpresas desagradáveis.
Lula nunca foi um
desses heróis. Comecei minha militância política no antigo PCB, no
finalzinho da ditadura. O PT, recém surgido, era visto por nós como um
instrumento para a divisão da oposição ao regime militar (leia-se:
PMDB). Lula, como um operário que não fora capaz de superar uma
mentalidade pequeno-burguesa.
A primeira crítica mostrava um
horizonte limitado. Sim, o multipartidarismo foi reinstaurado por
decreto, em 1979, com o intuito de dar uma sobrevida ao partido de
sustentação da ditadura, a Arena (transformada em PDS). Mas a opção por
manter os trabalhadores como retaguarda de uma oposição com liderança
burguesa inconteste era equivocada, como a história mostrou.
A
segunda crítica tem um ranço autoritário. Como se a "mentalidade"
correta fosse determinada de fora. Lula não rezava pela cartilha da
esquerda tradicional, é verdade, e foi crescendo politicamente quando já
era um líder conhecido, o que explica algumas barbaridades de suas
declarações iniciais. Mas cabe perguntar: um perfeito apparatchik teria a
capacidade que ele tinha e ainda tem de se comunicar com sua base?
Quando o PCB se desmontou e se transformou no PPS, eu encerrei minha
militância partidária. Tornei-me (em geral) eleitor do PT, mas nunca me
filiei. Votei em Lula, votei em Dilma, mas houve ocasião em que anulei o
voto para presidente. Nunca votei nos candidatos petistas ao governo do
Distrito Federal. Para o legislativo, costumo votar em candidatos de
partidos à esquerda do PT. Nunca elegi ninguém, então não me tive chance
de me decepcionar com minhas escolhas.
Tornei-me, como se vê, um
cientista político perfeitamente apartidário, quase apolítico,
certamente neutro e objetivo. Mas confesso que, às vezes, ao longo dos
anos 1990, senti a tentação de virar petista. Costumava brincar que eu
tinha uma conexão mística com Lula: cada vez que a tentação estava
grande demais, ele fazia alguma coisa que me levava a desistir. Lembro
que, em 1993 ou 1994, eu estava praticamente com a ficha de filiação na
mão quando Lula discursou no Nordeste e disse que "o vermelho da
bandeira do PT simboliza o sangue de Cristo". Era demais para mim, parei
de pensar em filiação na hora.
Conto tudo isto para dizer que
sempre nutri por Lula um misto de respeito, admiração e crítica, em
doses variáveis ao longo dos anos. Lula não tem que nos decepcionar,
porque ele nunca se propôs ser algo diferente. Ele nunca foi um
revolucionário, nunca foi um socialista, e só se decepciona ao descobrir
que ele não o é quem nele projetou suas próprias fantasias.
A
força de Lula e sua fraqueza provêm da mesma fonte: seu enorme
pragmatismo, sua capacidade de adaptação. Trata-se, na verdade, de um
traço produzido socialmente: os integrantes das classes populares,
sobretudo os submetidos às maiores privações, precisam disso para
garantir a própria sobrevivência. Lula ilustra aquilo que o historiador
Robert Darnton via no "homem da rua", que aplica sua inteligência e
engenho para “se virar” num ambiente complexo, em transformação e no
qual ele se encontra em posição de desvantagem.
O lulismo é a
tradução dessas disposições num programa político. Limitado, adaptativo,
mas marcado por um genuíno desejo de responder às premências mais
gritantes da população mais pobre.
Quem procura um santo, deve
procurar em outro lugar, não na política, muito menos na política
brasileira. Os santos, na política, ou são logo reduzidos à
insignificância ou, pior ainda, são santos fajutos, falsificados (não
estou me referindo especificamente a ninguém e da minha boca não sairão
as palavras "Marina" ou "Silva".)
Não é o momento de chorar
porque se descobriu tardiamente que Lula virou lobista de empreiteira. A
perseguição judicial e midiática contra ele continua sendo um grave
atentado às liberdades e ao Estado do direito. Reagir contra ela não
depende de gostar do ex-presidente ou de suas políticas. É uma questão
de defesa da democracia.
O outro ponto é saber quem será Lula em
2018. Se ele for capaz de liderar uma frente de enfrentamento dos
retrocessos e estiver disposto a estimular a reativação do movimento
popular, então estarei com ele, apesar de todas as críticas. Mas se ele
for simplesmente a saída para a normalização do golpe e mesmo a tábua de
salvação da elite política, como dão conta os boatos recentes, então
estarei contra, apesar de todo o respeito.
PS. Se é para alguém
se decepcionar com Lula, então, por favor, que não seja por causa do
depoimento de Emílio Odebrecht. Cada vez que leio trechos dele, tenho
que dominar meu asco. Ele fala sempre do alto de sua posição de
grão-burguês, revelando a cada frase sua condescendência e desprezo
pelos trabalhadores e seu desconforto, sua inconformidade com o fato de
que um trabalhador pôde chegar ao poder. É um monumento ao preconceito
de classe.
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