domingo, outubro 14, 2018

Cristo denunciou a indiferença, a presunção ressentida e o ódio dos religiosos

Sempre fui um admirador dos grandes sujeitos que foram modelos para a humanidade. Que refletiram como podemos nos tornar humanos mais responsáveis e conhecedores daquilo que somos. Por isso, admiro Sócrates, Confúncio, Buda, Gandhi, Nietzsche, Martin Luther King, São Francisco de Assis, Rubem Alves, Jesus Cristo. 

Cristo, por exemplo, é para mim a quintessência desse mergulho, desse desafio, dessa jornada à procura de uma humanidade que considere o outro. Cristo estabelece uma nova justiça, uma nova ética, uma nova filosofia fundamentada no amor. Ao lermos os quatro evangelhos, não encontramos sistematização de uma doutrina; a dogmática encapsuladora e reducionista dos cristãos atuais. Cristo sempre fugiu dos modelos prontos, criminalizadores, presunçosos, que colocam a aparência acima da essência. Sua única preocupação era: o "eu" só pode está pacificado com o Deus, se ele levar em conta o "tu".

Há inúmeras passagens em que o encontramos ao lado de pessoas que eram tidas como proscritos sociais - prostitutas, cobradores de impostos, glutões, beberrões. Sua fala desmontava os ressentimentos, as compreensões estúpidas de uma religiosidade pouco produtiva, que pouco considerava o ser humano em sua integridade, em sua dignidade. O ódio é o alimento do arrogante, daquele que está cheio de si, que deposita no coração o preconceito separador, assassino.

As eleições deste ano têm me ajudado a consolidar um entendimento: mais Cristo e menos religiosidade. Em determinada passagem do livro de Mateus, Cristo diz algo que acende uma alerta em mim: a mesa de Cristo é mais ampla, larga e inclusiva do que a mesa proposta pela religiosidade obtusa e preconceituosa. Ao ouvir a confissão de fé de um centurião romano, um pária religioso, que não fazia parte da "igreja institucionalizada", conforme o entendimento dos judeus, encontramos uma preciosa lição. "Digo-vos que muitos virão Ocidente e do Oriente e do e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino dos céus". (Mateus. 8.11). Ele estava explicando o quanto a sua presença tirava dos religiosos judeus a primazia do monopólio da fé.

Sempre que encontramos Cristo em um embate nos evangelhos é por causa da religião que ajuda na reprodução do status quo. A fé oficial é cristalizadora, pouco dada ao questionamento, pouco dada à indignação. Não entende que "o homem não foi feito por causa do sábado, mas que o sábado foi feito por causa do homem" (Marcos 2.27). Que o homem e suas necessidades (sejam elas materiais ou existenciais) estão acima de quaisquer realidades.


Há um outro episódio curioso no livro de João, que mostra a impetuosidade de Pedro. Naquele episódio, o famoso apóstolo entedia que a violência, a truculência, a irracionalidade, resolveriam o problema. Os soldados se aproximavam para prender Jesus. Pedro, que representava o voluntarismo, usou a espada afoitamente e cortou a orelha de Malco, um dos auxiliares do sumo sacerdote. Jesus profere a seguinte frase, que encontramos em Mateus: "Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão". (Mt 26.47-56; Jo 18.1-11). Jesus é amoroso e sábio até mesmo nas situações extremas. Para Jesus, soldado romano bom, não era soldado romano morto. Jesus não era um belicista. Sua revolução acontecia/acontece primeiramente no coração. Os olhos são o espelho da alma.  Os que têm fome e sede de justiça serão saciados, pelo fato de o reino de Deus acontecer primeiro como uma força que modifica o olhar, o coração e a caminhada. 

 A violência está do lado do ressentido e este nunca foi o lugar de Cristo. No episódio em que Cristo fala que "o homem não foi feito por causa do sábado", vemos que os líderes religiosos mais ilustres da época, os fariseus, "conspiravam contra ele, sobre como lhe tirariam a vida". (Mateus 12.14). A justiça sempre será perseguida. A bondade, em alguns momentos, será tida como medida antiquada. O amor não é uma força sempre aquecida. Ele pode esfriar. Ser tido como um gesto desnecessário, piegas. 

Gandhi costumava dizer que se os homens lessem o Sermão do Monte, o mundo seria um lugar diferente. Pois é justamente nesses poucos capítulos do Novo Testamento, que encontramos o a contracultura, a práxis evangélica transformadora. Abaixo, seguem algumas excertos da "verdadeira" mensagem cristã. 

"E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos;
E, abrindo a sua boca, os ensinava, dizendo:
Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados;
Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra;
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos;
Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia;
Bem-aventurados os limpos de coração, porque eles verão a Deus;
Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus;
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus;
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós por minha causa".


Mateus 5:1-11


"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus".


Mateus 5:38-48

"A candeia do corpo são os olhos; de sorte que, se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo terá luz;
Se, porém, os teus olhos forem maus, o teu corpo será tenebroso. Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas!"


Mateus 6:22,23

"Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?
Assim, toda a árvore boa produz bons frutos, e toda a árvore má produz frutos maus.
Não pode a árvore boa dar maus frutos; nem a árvore má dar frutos bons.
Toda a árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo.
Portanto, pelos seus frutos os conhecereis".


Mateus 7:16-20
Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;
E, ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa;
E, se qualquer te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.
Dá a quem te pedir, e não te desvies daquele que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;
Porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos.
Pois, se amardes os que vos amam, que galardão tereis? Não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes unicamente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os publicanos também assim?
Sede vós pois perfeitos, como é perfeito o vosso Pai que está nos céus.

Mateus 5:38-48


Diante de tantos discursos confusos, encharcados de indiferença, não consigo entender como uma pessoa que se diz cristã, comungue com um discurso de ódio e violência, leia as passagens acima e não faça uma leitura de sua fé. Fé não deve ser entendida como penduricalho eclesiástico, como mera participação em um grupo que pouco contribui para uma relevância social. É pouco frutífera essa disposição conservadora, cristalizada em costumes. A teologia de Cristo era viva, irradiava das necessidades diárias daqueles que se encontravam com Ele. 

A escolha pela realidade duvidosa, por aquilo que assume uma feição de duplicidade, não é cristã. Jesus disse que não se pode servir a dois senhores (Mateus 6.24). Paulo escrevendo aos cristãos em Tessalônica, aconselhou: "Fugi de toda aparência do mal". (1 Tessalonicenses 5.22). Por isso, é-me estranho alguém que se diga cristã, fazer a opção por um discurso destoante da mensagem de Cristo. O amar a Deus só faz sentido, quando se ama o próximo. Ou seja, alguém que olha o céu, necessariamente, precisa voltar o olhar para a terra e assumir uma posição ao lado da paz e da justiça. 

Os judeus esqueceram essa mensagem. Passaram a viver uma religiosidade inócua, que mira o vazio, sem prestar atenção no seu semelhante. Diante de muitos cristãos que se deixam seduzir por um discurso de ódio e indiferença, a minha observação é de que Cristo está correto, e eles, equivocados. 

A recusa ao debate - por Luis Felipe Miguel

Andando por Brasília, identificado como eleitor de Haddad, cruzo volta e meia com os defensores do Coiso. Seus olhares às vezes são de espanto, espanto por alguém ter a coragem de se manifestar à esquerda. Mas em geral são de desprezo e ódio.

Alguns andam com a camiseta verde e amarela com a inscrição "Meu partido é o Brasil". Eles provavelmente nem sabem, mas estão fazendo uma profissão de fé fascista. Se o partido deles é o Brasil, qualquer outro partido será contra o Brasil. A dissensão vira traição, a discordância fica interdita. Não há espaço para a democracia - cujo "gesto inaugural", de acordo com a bela fórmula de Claude Lefort, "é o reconhecimento da legitimidade do conflito".

Discursos políticos de vários matizes costumam evocar uma harmonia perdida, que seria preciso restaurar, mas a exacerbação desse traço no bolsonarismo é claramente uma opção autoritária. Descende das afirmações tão repetidas de que "o PT criou a luta de classe no Brasil" ou "o PT jogou negros contra brancos no Brasil" (assim como as feministas jogam mulheres contra homens etc.). O conflito não nasce da organização social e das formas de exploração e dominação que ela engendra, mas da ação deliberada de agentes nefastos.

Com isso, as estruturas de exploração e dominação são protegidas, já que a culpa da divisão social não é delas, mas de quem as denuncia. A camisa da seleção, que inspira a camiseta "Meu partido é o Brasil" e é adotada ela própria por muitos bolsonarianos, é um símbolo inconscientemente poderoso. Todos torcemos juntos. Mas quem ganha são os cartolas corruptos da CBF.

Quando não é a camiseta amarela, é a camiseta preta, cuja estética é inegavelmente fascista, muitas vezes adornada com desenhos de rifles. Uma delas, entre as que vi, trazia a caveira do Punisher, "herói" da Marvel dedicado a assassinar aqueles que ele julga que são bandidos. A intimidação e a violência são assumidas como soluções - sem disfarce, sem rodeios.

É claro que Bolsonaro não quer ir aos debates. Não é por recomendação médica. Não é nem mesmo por estratégia política, como ele disse outro dia. É por princípio. A posição que ele encarna tem como um de seus elementos básicos a recusa do debate político.

Via Facebook

quarta-feira, outubro 10, 2018

Uma quase carta

Boa noite, ...!

            Você perguntou pelo meu filho, o Bernardo, e eu não respondi. Ele está bem! No próximo sábado, dia 13, completará um mês. Este primeiro mês foi bastante difícil. Muitas adaptações – para ele e, principalmente, para mim e para a Liana. Mas, estamos indo. Acredito que o pior já passou. Ele chegou a ficar dez dias internado. Estava com uma dificuldade inicial em mamar. Aprendeu, entretanto, e agora o rapaz está crescendo e ganhando peso. 

            Foi colocado por você que não deseja “discutir política”. Entretanto, não há como tentar estabelecer um colóquio sem que o tema não venha à tona. Vou tentar colocar em tópicos para facilitar a compreensão. Claro, tudo aquilo que eu colocar aqui, é resultado de minha percepção – e, principalmente, de minhas limitações. Respeito o seu ponto de vista. O grande desafio da democracia é justamente o convívio, a relação na diversidade.

(1)  Por que o ódio PT?

O PT é um partido que surgiu dos movimentos populares. Possui uma história, pois. Nos quase quarenta anos de sua história, sempre foi alvo de muita polêmica. O partido conseguiu construir uma base bastante forte. Durante muito tempo, milhões de brasileiros desejaram que o PT chegasse ao poder máximo do país, a Presidência da República. A primeira tentativa se deu no ano de 1989. Na ocasião, Lula perdeu a eleição para Fernando Collor. Houve duas outras tentativas – 1994 e 1998 – com duas outras derrotas. Em 2002, após todo um período de desengano e melancolia política com o governo do PSDB, o PT chegou ao poder. Acontece uma repaginação do partido. Lula assumiu um discurso mais econômico e pacífico. Para governar, fez aliança com uma quantidade considerável de partidos. Formou um governo de coalizão. Distribuiu cargos aos aliados como uma contraprestação política. 

            Em 2005, ocorre o primeiro escândalo, o do Mensalão, como ficou conhecido. O governo foi colocado contra a parede. Todavia, Lula foi reeleito em 2006. No segundo mandato, o governo petista conseguiu seu melhor momento.  O país cresceu. A economia decolou. Os trabalhadores passaram a perceber um cenário positivo. Lula saiu do governo em 2010, com mais de 80% de aprovação, um feito realmente extraordinário. Tanto é assim, que ele conseguiu colocar a Dilma no seu lugar. Ela começou bem. Até 2012, tinha índices de aprovação acima dos 60%. A partir de 2013, as coisas começaram a perder o compasso. Com as manifestações de julho daquela ano, o governo passou para o campo defensivo. 

            A mídia passou a veicular sistematicamente reportagens que associavam o governo à corrupção. Todos os problemas do país foram direcionados ao PT. Em 2012, surge a Operação Lava Jato, que, segundo seus capituladores, é uma operação apartidária. Mas, notou-se um objetivo: as figuras do PT, tendo no seu principal nome, Lula, a seta direcionada. Observe-se que o partido que tinha/tem o maior número de nomes implicados na operação é o PP, mas ficou a noção de que era o PT. Associaram o nome do PT como de um partido corrupto, de ladrões. 

            Ora, a repetição de uma sentença e a aplicação do significado dessa sentença como sendo a verdade, passa a ter efeitos extraordinários. Isso já aconteceu em alguns momentos da história. O exemplo mais claro é o que Hitler fez com os judeus durante a Segunda Guerra. Naquele contexto, a Alemanha estava esfacelada por causa da Primeira Guerra e o Tratado de Versalhes. Havia crise, fome, desemprego; caos econômico, incertezas, medo. O astuto Hitler entendeu que nesses momentos você precisa criar uma narrativa e direcioná-la para um alvo. Hitler direcionou o seu discurso para as minorias - ciganos, comunistas, judeus, homossexuais, etc. É a lógica do “nós”, os injustiçados e sofredores e, “eles, os algozes, os autores de nossa crise. 

            Em 2014, a reeleição agravou a crise, pois, a partir dali, houve uma militância severa contra o PT. A destituição de Dilma, em 2016, foi outro momento complexo. Vale lembrar que 2016 foi o ano dos panelaços. Havia uma mesma fala que ia das crianças de colo aos anciãos: de que o PT era um partido de corruptos e ladrões. O Jornal Nacional, por exemplo, colocava reportagens de uma hora contra o partido, conectando a imagem do partido à corrupção. Era como se não houvesse nada de bom no PT. Nesse ínterim, chega ao poder Michel Temer, uma figura que não conseguiu nenhuma legitimidade: (1) por ter o seu governo associado a um impeachment duvidoso. Ficou claro que se tratou de um golpe, apesar de ter seguido o fluxo constitucional. A Constituição foi apenas um objeto que vestiu o feito de legalidade. Observe que os cristãos queimaram pessoas na Idade Média usando a Bíblia; ou que a mesma Bíblia foi usada para legitimar a superioridade de brancos sobre negros nos Estados Unidos. E, nem por isso, esses acontecimentos podem se dizer cristãos. Da mesma forma, o impeachment seguiu o rito constitucional, mas não havia base constitucional por não haver crime de responsabilidade. (2) destituíram a Dilma com a alegação de que era preciso acabar com a corrupção, todavia, os escândalos de corrupção continuaram a existir. Havia indícios claros de que o governo Temer era bem pior do que aquele suposto governo corrupto do PT. A mídia foi até complacente com Temer. Não houve um bombardeio como houve com o PT. Vemos, assim, a seletividade da mídia brasileira. 

            Vale mencionar que o trabalho da mídia serviu para esvaziar o debate político. Tanto a mídia como as figuras do Judiciário trabalharam para criminalizar a política. O cidadão comum não via mais motivos para acreditar na política e nos políticos. A boa política, aquela que estabelece o debate, que discute ideias, foi varrida do mapa. A sociedade não conseguiu mais dinamizá-la. O cenário era de completa feiura. De repente, passamos a enfrentar a crise econômica que agravou ainda mais o cenário. A política foi contaminada. Jogou-se toda a culpa no colo do PT.  Ora, raciocinemos, se o governo do país estava nas mãos do PT e todos os escândalos estavam associados ao PT, é natural que o ódio tenha um direcionamento. Atualmente, as pessoas não querem nem ouvir falar no nome do partido. Associam-no ao que de mais deplorável há no país; que estamos nessa situação de crise econômica, política e moral por causa do partido. 

(2) A quem interessava a saída do PT?

Some-se a isso que o PT foi tolerado pelas elites do poder, enquanto foi conveniente. A sociedade brasileira sempre foi adepta de teorias conspiratórias. Sempre houve “a crendice” de que há uma iminente ameaça de invasão comunista. Essa foi uma das desculpas utilizadas para sustentar a Ditadura Militar. De tempos em tempos isso acontece. Em momentos de crises, quando o medo, a insegurança, passam a funcionar como motores, esse fantasma aparece.  

Para princípio de conversa, o PT não é um partido socialista ou comunista. Ele é, no máximo, um partido com ideias que assentam numa preocupação com causas sociais por causa de sua origem. Isso é verdade pelo fato de o partido ter ficado treze anos no poder, sem que o Brasil tenha se transformado numa Coreia do Norte. Muito pelo contrário, foi um período de forte lucro para os capitalistas. A saída do PT foi desejada pelos grupos que mandam no país. Não se aceitou o resultado das urnas em 2014. O povo escolheu, mas o que é um povo, em um país em que o regime democrático é apenas um detalhe? Queriam apenas continuar lucrando facilmente sem que houvesse qualquer empecilho, qualquer muro, obstáculo.

(3) O PT é inocente?

            Certamente, que essa resposta é “não”. Ao fazer um governo de coalizão, o partido se abriu para as negociatas. Nomeou gente de todo tipo. Essas alianças fugiram ao controle do partido. Fazer política não é um negócio fácil. Exige exposição. Conversa. Diálogo. Exige que se sente com adversários pouco lisonjeáveis. Com figuras interesseiras. Com pessoas que não possuem compromisso ético; que desejam apenas benefício, sem qualquer preocupação ética. Enquanto era oposição, partido possuía um discurso. Com a ida para a situação, teve que refrear o discurso. 

             Vale mencionar, que em nome da governabilidade, o partido se expôs de maneira não detida. Não mediu consequências. Associou-se com o que há de pior na política brasileira e foram essas alianças que contaminaram o partido. É preciso que ele faça uma mea culpa, uma espécie de exame de consciência. 

(4) Por que não voto em Bolsonaro ou por que ele seria “um mau presidente”? 

            Primeiro é importante dizer que, com relação ao futuro, nós precisamos resgatar os fatos do passado. É nesse paradoxo que podemos conjecturar ou fazer análises.
            Bolsonaro já mostrou ao longo de sua história que é uma figura uma tanto quanto duvidosa. É um “politiqueiro” de carteirinha, daqueles que fazem carreira na política, sem qualquer compromisso com o país. Ao longo dos seus 28 anos no Congresso, possui um péssimo repertório de contribuições ao povo que paga o seu salário. Sempre que a imagem dele vem à minha mente, comparo-o ao Golum, aquele personagem do Senhor dos Anéis, uma criatura medíocre que foi enfeitiçada pelo poder e se tornou um ser digno de pena, completamente desumanizado. Ao longo de gerações, a triste e bizarra criatura viveu escondida no ventre de cavernas afastadas, alimentando-se de comida crua, vivendo única e exclusivamente para o anel que o enfeitiçava e transformava a sua personalidade cada vez mais despersonalizada. Penso que há uma relação muito curiosa entre essa imagem e a do candidato do PSL. Ele ficou durante muito tempo escondido, alimentando-se do poder. Colocou os seus filhos na política. De modo que aqueles que o comparam a um exemplo na política, talvez se esqueçam de que ele se assemelha a qualquer dessas oligarquias familiares – Sarneys, Barbalhos, Maias, Magalhães, Calheiros etc. E outra: Bolsonaro não seria ninguém se o país passasse por um momento de tranquilidade democrática. Ele se alimenta da crise e sabe isso.

            Saindo do campo da literatura e entrando no chão da história, é preciso afirmar que Bolsonaro é uma figura que construiu a sua carreira na política colecionando bravatas. Ele representa o valentão. Aquele que não tem medo de nada. O machão. Aquele sujeito destemido, masculinizado, e que ajuda a criar um imaginário beligerante na cabeça do brasileiro médio que convive com a ineficácia da justiça e com os escancarados escândalos de corrupção. Há no brasileiro médio um desejo de fazer justiça com as próprias mãos pelo fato de a justiça do Estado não fazê-lo. Afinal, ele grita muito porque não tem ideias. Literalmente, ele ganha no grito. Sempre colecionou polêmicas, pelo fato de ter uma inteligência (quando me refiro a inteligência, faço-o em sentido lato – emocional, política etc) questionável. Nota-se o seu completo despreparo. 

            Mas por que ele faz tanto sucesso, por que ele é uma unanimidade? (a) como falei acima, estamos em um momento de desalento, de completa descrença na política ou “na velha política”. As pessoas enxergam nele, a solução amarga para um crise que parece que não tem fim. (b) A crise econômica levou muitos brasileiros a desejarem uma mudança. Aquele modelo, entendem, defendido pelos governos anteriores não serve mais. Deseja-se que haja privatizações; que o Estado “diminua” (uma palavra que encerra alguns sentidos velados); o mercado assuma a dianteira do país. (c) os escândalos de corrupção revelaram uma face intolerável. Sendo assim, é preciso que surja alguém para colocar ordem “na casa”. Como Bolsonaro sempre vocalizou um discurso radical, histriônico, direto, viram nele a possibilidade de ele ser essa mudança. Se há violência, ele diz que o “cidadão de bem” não deve ficar na defensiva, mas partir para cima do ladrão. Que é preciso colocar armas na mão da população para que ela se defenda, confundido de maneira perigosa o que é segurança pública. É preciso diferenciar o que é a microviolência e a macroviolência. 

Sendo assim, é preciso chamar a atenção para algumas questões:

(a) Ao se escolher Bolsonaro, escolhe-se um candidato que já sinalizou ter pouca preocupação com o estado democrático de direitos. Um dos fundamentos do estado democrático são garantias dirigidas ao cidadão, radicadas no conceito de direitos humanos. É preciso considerar que todo ser humano é dotado de direitos e de garantias básicas – direito a vida, respeito à sua condição etc. Em um estado democrático, o fundamento que sustenta essa delicada teia é o respeito à singularidade do outro. Temos visto que algumas pessoas têm se sentido legitimadas, por causa do discurso ódio, a fazerem a coisas mais perigosas para o nosso equilíbrio social. Eu não voto em um candidato que diz que “bandido bom é bandido morto”. O bandido deve ser punido pela lei e não por mim. O Estado é a entidade que possui legitimidade para encabeçar juridicamente esse pleito.  Eu não voto em um candidato que vai ao estado do Acre e diz em um comício de forma irresponsável que era preciso “metralhar toda a petralhada do país”. Numa democracia, há limites para a minha fala. Nenhum direito é absoluto. O maior perigo é o efeito que isso causa nas massas. Isso pode ser visto, por exemplo, no filme “A onda”. Se não viu, veja-o e perceba o quanto determinados movimentos possuem um poder de coerção sobre as individualidades. Eu não voto em um candidato que afirma “que não estupra” determinada mulher, pelo fato de ele não merecer ser estuprada. Então há mulheres que merecem ser estupradas? Eu não voto em um candidato que afirma que teve “quatro filhos”, mas deu uma fraquejada e acabou vindo “uma mulher”. Eu não voto em um candidato que, quando perguntado sobre o que diria caso um dos seus filhos namorasse uma mulher negra e ele responde sem perturbações: “Eu eduquei muito bem os meus filhos”. 

(b) Bolsonaro é fruto de um momento. Assim foi também com Collor. Em 1989, aconteceu da mesma forma. Apareceu um jovem com uma linguagem sedutora, descolando-se “da velha política”. Dizia ele que acabaria com a corrupção, que caçaria “os marajás”. Que era preciso sumir com a bandeira “vermelha” do PT. Que a bandeira do país era “verde”, “amarela”, “branca” e “azul”. Seu partido inexpressivo, o PRN, elegeu mais de quarenta deputados o PSL elegeu 52, no último domino, um partido que elegera apenas um deputado em 2014. Collor foi um sucesso completo. Tratava-se de um jovem visionário, esportista, bonito, que falava bem, que possuía um discurso que sequestrou o coração da classe média. Todavia, suas medidas desastradas trouxeram grandes prejuízos para o país. A primeira medida econômica, quando assumiu, foi o confisco das poupanças. As pessoas não acreditaram. Na campanha, prometeu acabar com a inflação, mas, ao deixar o país, a inflação estava em mais de 1.200% ao ano. E o mais estarrecedor: o seu governo era alimentado com propinas, como ficou constatado naquilo que ficou conhecido como “Esquema PC”. Ou seja, esses eventos com figuras messiânicas e caricatas sempre redundam em desengano. 

(c) Do ponto de vista econômico, penso que mergulharemos o país numa crise medonha, trazendo consequências danosas para os mais pobres. Temos como “posto Ipiranga” no seu governo a figura de um banqueiro chamado Paulo Guedes, uma figura bastante controversa – assim como tivemos Zélia Cardoso de Melo durante o governo Collor. Muitas pessoas pensam que gerir um país é a mesma coisa que gerir uma empresa. Um país é diverso. Possui demandas mais complexas. Há pessoas necessitadas, pobres, que precisam de políticas públicas do Estado para terem uma dignidade mínima. Por exemplo, a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para pagar saúde privada. A solução não é a privatização da saúde. Como se resolve a demanda da saúde? Investindo em saúde pública de qualidade. Como se resolve o problema da educação? Oferecendo uma educação de qualidade, com professores bem preparados e motivados. O grande problema desses economistas de mercado, como Paulo Guedes é que, para eles, os pobres, os desvalidos, aqueles que estão abaixo da linha de pobreza, não aparecem no orçamento. Eles se erguerão sozinhos, entendem. Bolsonaro e Paulo Guedes afirmaram que vão privatizar e fazer reformas que, certamente, vão acentuar as desigualdades nesse país. Eu, por exemplo, venho de uma família de pessoas humildes. Fiz o curso de Letras graças ao Prouni, criado pelo governo do PT. Estou empregado e exercendo a profissão de professor. E foi assim com milhões de pessoas que tiveram as suas vidas melhoradas. Graciliano Ramos diz “Memórias do Cárcere” que “quem dormiu no chão jamais deve esquecer essa experiência”. Eu já “dormi no chão” – tanto em sentido denotativo quanto em sentido conotativo – e não esqueço essa experiência. Sei de onde venho e entendo que é com políticas sociais sérias que a vida das pessoas passa por uma transformação. 

            É só raciocinar: se o sujeito já deixou claro que não tem nenhum compromisso com as palavras, que a sua personalidade é autoritária, que não possui nenhum autocontrole, quem prova que ele não jogará o país em um caos? 

Não peço para que você vote no PT, mas para que faça uma consideração profunda. O que está em jogo é o futuro da democracia no Brasil. Ela foi conquistada com muito esforço. Pessoas morreram, foram torturadas. A Constituição que temos trouxe uma série de avanços para o nosso país. É preciso respeitá-la. Defendê-la. Aqueles que amam o país precisam resistir. Não se muda um país com bravatas e falas autoritárias. É preciso que haja diálogo. Concessões. Esse é o grande desafio da democracia. É preciso respeitar o diferente e não impor a sua vontade à força.

terça-feira, outubro 09, 2018

Mangabeira Unger explica Bolsonaro

Perfeita a reflexão de Mangabeira Unger sobre Bolsonaro. Não gosto dessas propalações bobas, típicas de quem se curva a um culto bobo e subserviente. Mas, vale citar que Mangabeira é professor em Harvard e chegou a dar aulas para Obama. Mangabeira fala ainda sobre a importância do Estado, um dos alvos a serem completamente desmontados pela equipe do candidato do PSL, via Paulo Guedes.


domingo, outubro 07, 2018

De uma conversa via WhatApp


..., sua explicação faz sentido! Grande parte da esquerda pensa assim. Mas é preciso apontar  algumas coisas:

(1) Não sou cirista. Mas foi a primeira vez que votei para presidente em um candidato que não é do PT. Fiz com a faca entre os dentes e um peso enorme na consciência. Parece que eu estava cometendo um crime (risos!). Deve ser a consciência de classe! A minha relação com a história. Pensando por viés de coerência ideológica, todos deveríamos votar no Boulos, que apresenta uma pauta mais à esquerda e mais próxima das demandas dos trabalhadores. Mas, infelizmente, o PSOL ainda não é um partido de penetração popular. O PT é aquilo mais próximo do povo que conseguimos construir no campo progressista em 500 anos.  

(2) A campanha eleitoral de 2018 teve início logo após a de 2014. A vitória de Dilma foi tiro de misericórdia para a elite econômica e política do país. Eles sabiam que era preciso parar o PT. Neutralizar o governo Dilma e aniquilar o seu principal líder, Lula. Pelo transcorrer natural da história, Dilma sairia e Lula ganharia em 2018. Os donos do poder sabiam que isso aconteceria. Seria um processo para o qual não haveria freios. O golpe foi pensado com esse objetivo. Lula mesmo preso, tentou manter o PT na luta. Isso é legítimo, embora entenda que devesse haver apenas um candidato de esquerda em torno de uma coalizão. Lula deu um xeque-mate em Ciro, sem deixá-lo com muitas alternativas. Capturou as principais alianças. Recordo-me que Ciro recorreu até mesmo ao Centrão. Ainda bem que não deu certo. Ele pensava pragmaticamente,  mesmo sabendo o preço que pagaria caso fosse eleito. Não tendo muitas alternativas, formou uma chapa puro-sangue com a Kátia Abreu (um nome que causa arrepios nos eleitores da esquerda). Lembre-se de que, sendo do MDB de Temer, foi uma das mais aguerridas defensoras de Dilma durante o golpe. Isso a isenta das sinalizações políticas do passado? Não.  Todavia, é preciso olhar para ela com o pouco mais de parcimônia. 

(3) Ciro é um candidato para o qual muito esquerdista vira o rosto, mas, é uma alternativa no campo popular. Isso não pode ser negado. Não podemos dizer que Ciro está do lado de lá. Um dos graves erros do PT é entender que ele, somente ele, vocaliza as demandas da esquerda; que ele é a esquerda legítima. Essa estratégia apenas fortalece o lado oposto. Nesta eleição, por exemplo, a estratégia colocou o país em perigo, deixando-nos à mercê de um hitlerzinho medíocre dos trópicos chamado Jair Bolsonaro. 

(4) Ciro já foi ministro de Lula e já foi ministro de FHC. Atualmente, está no PDT de Brizolla, um dos sujeitos que mais entenderam as elites entreguistas do país. O PDT é um partido nacionalista. Possui incoerências como qualquer partido, mas possui um lastro histórico bastante respeitável. Se o discurso de Ciro não é arraigado no chão semântico daquilo que converge centralmente para a esquerda, o seu nacionalismo é autêntico. É preciso pensar numa liderança que consiga discernir a conjuntura sem paixões exacerbadas.

(5) Votei em Ciro, mas sei que o segundo turno será entre o Bozo e o Haddad. As chances do PT são imprecisas, mas a militância (e todos os democratas) precisa construir uma estratégia de luta para reverter a narrativa em torno da figura do candidato do PSL. É preciso apontar as incoerências, os blefes; o lodo que existe em torno de sua personalidade; o quanto um candidato como ele é pernicioso para os trabalhadores, para as mulheres, para os negros, quilombolas, para os gays etc. Bolsonaro é um fenômeno, e como todo fenômeno, há doses fortíssimas de psicologia em torno de dele. O fato dele não ter ido aos debates, ajudo-o a se fortalecer. No segundo turno, ele terá que comparecer aos debates e, acreditamos, que a sua mediocridade ficará exposta. Ele não poderá se esconder. Seja Ciro ou Haddad, vai ser preciso desconstruir a casca imantada que existe em torno dele; deixá-lo nu para que seja percebido o quanto é estúpido, boçal e um grande atraso civilizatório. 

quarta-feira, outubro 03, 2018

O perigoso flerte com o abismo, a conjuntura, a ignorância histórica e a suposta vitória de Bolsonaro

"A história se repete a primeira vez como tragédia e, a segunda, como farsa". Karl Marx. 

A eleição de 2018 aponta para um cenário dramático. Certamente, o que resultar das urnas, configurará uma situação de bastante dificuldade: (1) se ganhar Haddad ou Ciro, o cenário será de afirmação política, de luta; de enfrentamento do golpe de 2016 e seus reais resultados. (2) se ganha o candidato que representa o campo conservador, do atraso, o país será colocado num ambiente de retrocesso para os trabalhadores; de mergulho em um fosso profundo. Portanto, o momento que vivemos é de flerte com o abismo.

Muito se tem pensado e refletido sobre o fenômeno Bolsonaro. Primeiro é preciso entender que o fenômeno conservador acontece em nível internacional. Enxerga-se esse movimento em vários países europeus e, se afirmou ainda mais, com a eleição de Donald Trump, nos Estados Unidos. Trata-se de uma crise central do capital, que, por sua vez, arrasta-se desde 2008. Não se deve ignorar que o contexto de crises acaba por levar a cenários de forte retração social. Esse tensionamento acaba por acirrar o que poderíamos chamar de "bloqueio ao diferente". Os supostos nacionalismos possuem uma pátina fortemente fascista.

No Brasil, desde 2013, nota-se o fortalecimento de uma narrativa que busca criminalizar a política, os direitos sociais e, principalmente, os movimentos à esquerda. No fundo, sempre existiu no Brasil uma espécie de "macartismo tupiniquim". Isso ficou velado durante os dois mandatos de Lula por conta do cenário econômico. Dilma não conseguiu dar continuidade ao lulismo. A bolha da tolerância estourou em 2013. Os movimentos iniciados com pretextos aparentemente difusos, acabaram por ganhar contundência e objetividade política. Foram direcionados ao governo. Vale lembrar que nesse período, tem início a Operação Lava Jato, que foi um dos principais planos para diluir o PT. Se o Mensalão não deu conta, a Lava Jato teve uma sistematicidade sincrônica. Ela mirou os principais quadros do Partido dos Trabalhadores. O alvo era Lula, o líder carismático e atemporal do Partido. 

Com a eleição de 2014, ficou mais evidente que, caso o PT ganhasse, não concluiria o governo. Havia uma conjuntura deletéria. Os representantes da elite (a mídia, o braço político, o judiciário, o financismo, o agronegócio etc) brasileira estavam a postos. Isso ficou claro com o golpe jurídico-parlamentar de 2016. Ali estava aparentemente consolidada uma estratégia dos poderosos do Brasil, que era tirar das mãos do PT o governo, nem que para isso passassem por cima da Constituição e liquidassem com as estruturas do estado democrático de direiro. 54 milhões de votos não representam nada para o grande capital. O objetivo foi consolidado com a subida de Temer ao poder. Todavia, Temer se mostrou fraco, inexpressivo. O seu governo foi constituído por vampiros e parasitas; por dilapidadores da coisa pública e do direito dos trabalhadores. Vale lembrar que o acordo para que o golpe se consolidasse era justamente implantar reformas que retirassem direitos. Temer tinha na manga algumas reformas - política, trabalhista, previdenciária; privatização das principais empresas públicas, entregando-as a preço de banana para o grande capital; entrega do pré-sal etc. Muitas dessas reformas não se confirmaram.

Temer não logrou sucesso completo. Os sucessivos escândalos do seu governo, não permitiram que ele tivesse o apoio popular devido. Observa-se aqui que ele tinha chances de consolidar um consenso, pois a orquestração do golpe teve visibilidade. Milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo Dilma. Houve um acanhamento, uma retração dos movimentos sociais. O governo Dilma se tornou indefensável pelo quadro montado. O velho antipetismo, que já existia no Brasil, fruto de questões históricas, passou a ganhar vida. 

O discurso da antipolítica passou a ganhar contornos. Desejava-se um herói novo. Alguém que não representasse a figura do político; alguém de fora do sistema; ou que estivesse no sistema e não tivesse passado por um processo corruptor. Esses cenários são típicos. A corrupção sempre esteve na esteira dos momentos críticos da história do país. Sempre foi utilizado como discurso político para convencer. Em tempo, vale mencionar que o problema principal do país não é a corrupção. É um enorme senso-comum tachar determinada pessoa de corrupta. Se for feita uma pergunta para determinada pessoa sobre o que ela mais abomina na política, ela proferirá a palavra "corrupção". Se perguntar algo sobre determinada figura política, haverá da mesma forma a verbalização de que "ele é corrupto". Ou: "Político não presta!" "Tudo corrupto!" "Ladrão!" Ou seja, o dado corrupção é uma informação usada mais para confundir do que para revelar as coisas. Essa noção equívoca surge do trabalho da mídia conservadora e dos seus principais jornalistas que não focam em ideias, mas sim, em acusações perigosas e deletérias. Corrupção é consequência e não causa.

Some-se a isso o baixo nível cultural do brasileiro, que desconhece completamente os rudimentos mais básicos da política. A incapacidade de fazer análises ou de pensar com elementos contrastantes. A objetividade baseada na aparência sempre aponta para juízos equivocados. Quando surge um quadro assim, geralmente, as pessoas são induzidas a acreditarem em determinadas narrativas e atuarem baseadas em emoções. O brasileiro médio é um misto de "tara" e conservadorismo contradizente e esquizofrênico, fruto de uma educação péssima e de pouco incentivo para entender as grandes produções que engrandecem o espírito humano. Ele é incapaz entender qual o lugar dos temas das grandes realizações humanas - a música, a literatura, a arte, a cultura, a história e outras manifestações - na vida cotidiana. 

O desconhecimento da história leva o brasileiro a não olhar para trás e entender a própria condição do presente. Relacionar o passado ao presente é um exercício impensável para o brasileiro médio. Um exemplo é o que se deu em 1989 com eleição de Fernando Collor. Naquele momento histórico, não havia eleições diretas desde 1960, quando Jânio Quadros fora eleito. Fernando Collor era a consolidação da juventude e da mudança. Era um político que representava a o momento novo. Possuía um discurso de ruptura. Seu moralismo tinha um alvo - a corrupção (assim como se dera com Jânio Quadros). Ficou conhecido pela sua fala intransigente como "o caçador de marajás" - sendo que ele mesmo, um membro das famílias mais tradicionais de Alagoas, também era um marajá. Acabou ganhando de Luís Inácio Lula da Silva. Collor levou a eleição com forte movimento que acreditava na construção de um momento novo na história do país. Seu partido pequeno e sem coligações chamava a atenção. Possuía supostas qualidades que o tornavam imbatível - era dono de uma oratória espetacular, era bonito, rico. Sua imagem foi trabalhada de tal forma que a vitória foi arrebatadora. Todavia, quando Zélia Cardoso de Melo, a chefa da equipe econômica, orquestrou o confisco das poupanças, notou-se claramente o quanto a eleição do caçador de marajás era temerária. Outras trapalhadas de sua equipe econômica foram minando a credibilidade do governo. Finalmente, "os esquemas" passaram a fazer parte do seu governo. O homem infalível possuía pernas de barro. Em 1992, o governo que fora guindado à posição de "salvador da Pátria", foi impeachtmado. Caía ali "o messias", o incensado político que traria resultados extraordinários para o país.

Nesse sentido, é importante voltar a falar de Bolsonaro, o candidato que aglutina as qualidades da mudança para milhões de brasileiros. Bolsonaro em dado sentido é uma espécie de Fernando Collor. Possui um forte apelo à sua imagem. Posa como a antítese ao PT. Seu discurso pró-ruptura também se assemelha a Collor. Outro ponto que o aproxima do candidato alagoano é a imagem de alguém novo na política e que, supostamente, não é contaminado pelo sistema. Há a crença ainda de que ele venha restaurar os valores perdidos. Que combaterá a violência e, principalmente, a corrupção.

O que acontece é que o brasileiro médio adora flertar com o abismo. Mal sabe ele que Bolsonaro é um agente parasitário da velha política. De que seu discurso truculento e bravateiro ganha visibilidade pela identificação pró-violência que o brasileiro médio possui. Para o sujeito médio, acostumado a conviver com a pregação do signo da violência, nada melhor do que alguém que apareça e afirme o justiçamento que sempre se intentou realizar. O candidato do PSL não é a mudança. Ele é mais do mesmo. Sempre foi um político tacanho, medíocre e inexpressivo que só ganhou projeção por que soube se utilizar de sua retórica do ódio, vocalizada em momento de grande fragilidade em torno do pacto democrático. Se o Brasil estivesse passando por um momento de tranquilidade institucional, Bolsonaro seria um mero coadjuvante, alguém sem qualquer atrativo, Seria reprochado socialmente. Não haveria qualquer referência à sua pessoa, a não ser como modelo de tudo o que existe de mais pernicioso e abjeto em matéria de empobrecimento democrático. 

É justamente a armação em torno do golpe que criou um monstro chamado Bolsonaro. A mídia e os principais quadros que criam consenso que o criaram. Nesse sentido, ele é um resíduo do ódio, da violência, do preconceito que nossa sociedade doente é capaz de criar e cultura. Seu aspecto inculto, sua falta de polidez; seu despreparo em vários assuntos é evidente; sua misoginia, sua crença em tudo aquilo que não dignifica o ser humano é a sua principal força. Para agradar os donos do capital, Bolsonaro fala em privatizações. O principal mentor de sua equipe econômica, Paulo Guedes, é um "Chicago boy", um daqueles defensores do "Estado mínimo" - claro, mínimo para os trabalhadores e máximo para o grande capital. Vale ressaltar que o capital adora inverter discursos para confundir. 

Em suma, o antipetismo pode eleger Bolsonaro e aquilo que era tragédia, vai se transformar em farsa, levando o país, mais uma vez, para o abismo, assim como sempre acontece quando há endeusamentos a determinadas figuras. No Brasil, como disse certa pessoa, o fundo do poço não é o final da queda, é apenas uma etapa do processo. 


segunda-feira, outubro 01, 2018

Uma resposta...

Tudo é possível... O cenário é bem complexo, mas podemos conjecturar algumas coisas - principalmente, quando se trata das elites brasileiras. Os generais, os velhos reaças de sempre, têm feito política. Isso é notório! As ameaças constantes à nossa combalida democracia acontecem sem qualquer pudor. Caso o Haddad ganhe, será absurdamente difícil para ele governar. Ainda podemos sentir o calor do golpe no ar. 

A classe média pró-Bolsonaro certamente sairá à rua com suas camisas da CBF, para coreografar as dancinhas constrangedoras. O ódio ao PT encontrou no discurso pró-violência do Bozo, uma identificação certeira. Bolsonaro é a materialização do fantasma do ódio, do autoritarismo, do preconceito, do medo e da ignorância que habita no interior de grande parcela da classe média brasileira. No fundo, são vítimas do processo profundo de despolitização por que passamos. Nota-se com isso tudo, o triunfo galopante do capital, que sempre se nutre do fascismo para estabelecer falsas rupturas que, no fundo, encaminham para a perda de direitos. 

É possível que um golpe seja perpetrado. Será difícil para a turma da casa-grande perder pela quinta vez seguida para o PT. Gostaria que no lugar do Haddad estivesse o Ciro. Acredito que ele, num suposto governo, teria mais força política para estabelecer um pacto democrático e conduzir um governo mais voltado para o campo popular. Uma vez que fosse assim, talvez, daqui a quatro anos, o PT estivesse pronto para voltar. Todavia, o PT não aceita ser coadjuvante. Vejo nisso uma perspectiva negativa. Se for eleito, o candidato do PT precisará ter pulso forte e fortalecer os movimentos sociais. E é justamente nesse ponto que repousam as minhas dúvidas. A Dilma não fez isso em 2014 e o resultado todos nós conhecemos. 

Apesar de ser um simpatizante histórico do PT (sempre votei em candidatos do PT e o farei novamente agora), gostaria de votar no Ciro. O meu voto será estrategicamente medido e escovado para vencer o candidato do fascismo, o Boçalnato, que representa o atraso, o autoritarismo, a falta de razoabilidade; sujeito que alimenta as pessoas com o lodo de sua personalidade. Ele é uma espécie de caixa-de-gordura da antipolítica. E milhões de brasileiros, sem saber o porquê, alimentam-se do material liberado por ele. Há probabilidades graúdas dele ganhar. Se isso acontecer, resta-me apenas o silêncio para ver a tragédia social e o colapso civilizatório que encobrirão como um lençol cinzento o Brasil. O candidato do PSL é uma espécie de "revival" de um Jânio Quadros ou de um Fernando Collor, figuras moralistas, que posaram de salvadores da pátria, mas que, no fundo, realizaram governos trágicos e inexpressivos.