terça-feira, junho 29, 2010

Paranóia, medo e fragilidade

O filme Crash – no limite, conforme foi traduzido no Brasil, é um trabalho produzido no ano de 2005, pelo diretor de origem canadense Paul Haggis. Ganhou o Oscar de melhor filme, edição e roteiro original do ano de 2006 e mais 6 prêmios internacionais, incluindo o Globo de Ouro (EUA) e o Bafta (Inglaterra). Até aí tudo bem! Afinal de contas até mesmo o filme Titanic (1997) ganhou 11 estatuetas do Oscar. Refiro-me aparentemente com negatividade ao filme de James Cameron, pois o longa é demasiado dramático, cheio de vôos sentimentais. A música da Celine Dion é sofrível (My Heart Will Go On).

Já a película de 2005, é em dimensão, muito mais inteligente do que Titanic. Crash é um filme para pensar, meditar, refletir; já por vez, no filme Titanic, a estratégia é fazer sentir, por isso o enorme sucesso de bilheteria. Fazer sentir é a melhor arma a favor do marketing. Quem quer vender, ser bem sucedido, deve acariciar as emoções do público. O produto pode não ser bom, mas se fala às emoções, as portas da conquista são abertas com maior facilidade.

Os personagens do filme de Paul Haggis são pessoas independentes. Há como que uma formação de astros separados orbitando em torno do mesmo eixo gravitacional. Diria que se trata de um fluxo não-linear de narrativa muito bem montada. Os personagens inicialmente parecem não ter nenhuma ligação uns com os outros. Mas de forma (casual?) cruzam-se num espaço de 36 horas e isso acaba modificando a existência de cada um deles. “U
ma histérica dona de casa (Sandra Bullock) e seu marido promotor público (Brandan Fraser); de um casal de detetives (Don Cheadle e Jennifer Esposito); de um diretor de televisão (Terrance Howard) e sua esposa (Thandie Newton); de um chaveiro mexicano (Michael Pena); de um comerciante persa (Shaun Toub); de dois ladrões negros (Larenz Tate e Chris Bridges); e de um policial novato (Ryan Phillippe) e outro racista (Matt Dillon)”. O filme se passa na cidade de Los Angeles, com direito a foto do prefeito da Califórnia Arnold Schwarzenegger e tudo mais. E mostra o drama do cotidiano numa grande cidade de forma realista. O caos fragmentário dos relacionamentos é explorado e exatifica a vida nos grandes centros.

O termo crash em inglês significa “barulho”, “estrondo”; “impacto”, “colisão”, “queda estrepitosa”; “despedaçar-se”. O filme não pode ser assistido uma única vez. Deve ser visto muitas vezes para que se possa captar as nuances, os detalhes ocultos. Logo no início há uma espécie de monólogo, um insignt, uma reflexão melancólica do detetive Graham:
'Em Los Angeles, ninguém toca um ao outro. Há sempre vidraças que separam as pessoas. Deve ser por isso que elas sempre se esbarram nas ruas. É o sentido do toque''. Ou seja, é nesse aspecto que o filme caminha. Busca retratar o turco, o policial racista, o migrante mexicano, o promotor, a dona de casa, o chinês, os ladrões, o trabalhador honesto e pai de família, o policial novo e cheio de humanismo como figuras de um mosaico complexo. Um quebra-cabeças no qual as peças não desejam se juntar (mas formam o tecido social), pois estão crivados pela intolerância, pela falta de amabilidade. Todos têm medo um do outro. O outro em sua literalidade é o inferno, como dizia Sartre.

O preconceito e a esperteza, a paranóia, o medo, a arrogância, o desrespeito são capas que escondem os aspectos profundos da fragilidade que habita as grandes cidades. Os homens não se tocam. Vêem o outro como potenciais inimigos. A solidariedade se ausentou e a solidão acampou nos corações. É como mostra a personagem de Sandra Bullock que ao caminhar na rua com o seu marido (Brandan Fraser), ao enxergar dois negros, arma no coração um desejo de segurança. Os negros, por sua vez, conscientemente sabem que há um comportamento defensivo da parte dela. Nessa cena percebe-se uma espécie de inamistosidade recíproca. Ela, branca, classe média alta; eles, negros, dos bairros pobres, dos guetos, parecem ter em suas identidades sociais um determinismo que os configura pela cor que possuem. Isso não é fruto apenas da paranóia dos americanos. É resultado de uma programação mental que habita as mentalidades, que julga e sentencia o outro pela cor, nível social, roupa que veste ou carro que possui.


O filme quer deixar a pergunta para que todos reflitam: até que ponto você se conhece? Até que ponto nos conhecemos? Esta pergunta é séria, pois ninguém está de certa forma imune aos incidentes que são derivados do medo; o medo que remete à paranóia; a paranóia que fragiliza as expectativas que temos sobre o outro. O gesto imprevidente que nos prepara para o contragolpe, invade-nos a cada vez que saímos à rua. Isso fica evidente na carona que o policial novato oferece a um dos dois negros. De certa forma, o policial julga-se indignado com o comportamento racista do policial (Matt Dillon) mais antigo que age movido pelo preconceito e pelo poder que o Estado confere a ele. É a arbitrariedade do homem que representa os interesses coletivos, a segurança pública. Abusa, molesta a esposa do negro parado sem necessidade, numa abordagem estúpida. O policial novo enche sua alma de certeza em favor da benevolência, quando aplaca uma revista, um incidente que possivelmente levaria a uma peça mal sucedida entre o diretor de televisão, antes abordado com injustiça e leviandade.

Ter conseguido aplacar a hostilidade entre outros dois policiais e o negro parece lhe encher de convicções humanitárias. Sua alma é aparentemente habitada por sentimentos nobres. Mas até que ponto o ser humano se conhece? Oferece carona e quando menos percebe mata um negro num gesto quase que autômato. Nisso fica patente dois fatos: (1) que todos os indivíduos vivendo em sociedade estão prontos para a disputa, para o triunfo contra o outro; que o outro não pode prevalecer contra mim. Afinal, numa guerra vence aquele que for mais ágil, mais rápido, mais esperto, mais perspicaz. (2) Mesmo imbuídos de convicções arraigadas ninguém é suficientemente bom. Num momento ou outro ficam claras as animosidades escondidas nos locais mais tenebrosos da alma. Essa abordagem quase que psicanalítica remete a um tipo de entendimento de que os homens por viverem diariamente num espaço habitado por medos e reveses alimentam em seus inconscientes gestos mecânicos de morte, de racismo, de incivilidade. Por mais que o indivíduo se sinta nobre, essa consciência é dispersada num momento inesperado, casos extremos se mostram em sua agudeza.


O preconceito, o individualismo, a hipocrisia e o auto-engano são realidades presentes em qualquer cidade grande. Nesse quesito, podemos afirmar que o filme apesar de retratar o drama de uma cidade americana e abordar apenas o microcosmo da vida daqueles personagens contigentes, em sua essência é universalista. Os homens são cada mais vulneráveis em todos os locais do mundo. O niilismo criado pela própria civilização adoeceu os homens. No fundo, como é mostrado nas cenas finais, todos possuem necessidades – querem ser amados, respeitados, acolhidos. A vida nos grandes centros prepara para a guerra, mas priva do preenchimento das necessidades existenciais. Restam apenas paranóia, medo, intolerância e o quebranto frágil.


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: sexta-feira, 1 de agosto de 2008, 11:56:14.

quarta-feira, junho 23, 2010

Mais Saramago: "Saramago ou simplesmente José".

A morte não foi intermitente com José Saramago. Ela, a indesejada das gentes, que em um dos romances do escritor decidiu parar de agir, resolveu agora nos levar o gênio. Como ele mesmo escreveu uma vez, “somos uma pequena e trémula chama que a cada instante ameaça apagar-se”. A chama, ou o lança-chamas, apagou-se. Já disseram que o mundo ficou mais burro nesta sexta-feira. A cegueira vai continuar, a lucidez vai diminuir, vamos continuar presos na caverna.

As mentes pequenas, que não aceitavam um contestador como Saramago, hoje se regozijam. Livraram-se do incômodo. Será? Creio que não. Seus livros estão aí, cada vez mais se multiplicando, como a cegueira do seu romance adaptado para o cinema. Continuarão chegando a todos os continentes, tal qual a jangada de pedra que se desprendeu do continente europeu. Ele continuará incomodando por muito tempo ainda.

Saramago, um “ser amargo” para alguns, que não esquecerão O evangelho segundo Jesus Cristo, censurado pela Igreja Católica e pelo governo português, por mexer com um mito inatacável. “Ser amargo” para os acreditam em um deus bondoso, na verdade um deus sanguinário, desmascarado no mais recente livro, Caim. “Ser amargo” para quem não sai de um shopping center, uma caverna platônica dos tempos modernos. “Ser amargo” é dizer um não para a história oficial. “Ser amargo” para os burocratas, “ser amargo” para os políticos, “ser amargo” para a Igreja, religiões, padres, pastores. “Ser amargo” para os capitalistas e para os banqueiros.

Mas “ser amargo” não é um defeito. Um ser doce não vê nossas idiossincrasias, não põe o dedo na ferida, aceita que tudo aconteça sem contestar e deixa os poderosos se perpetuarem. Um “ser amargo” nos deixa de olhos bem abertos, rói a cadeira do rei até ela quebrar.

Ser amargo, sal amargo, Saramago. Ou simplesmente José. Que seus livros continuem jogando pimenta nos nossos olhos e nos guiando para sair da escuridão dessa caverna chamada mundo.

Por Cassionei Niches Petry

Extraído DAQUI

segunda-feira, junho 21, 2010

Morre o escritor e comunista português José Saramago

Na manhã deste 18 de junho, faleceu em sua residência, aos 87 anos, o escritor e comunista português José Saramago. Ele vivia, desde 1993, com sua esposa e tradutora Pilar del Río na ilha de Lanzarote, arquipélago das Canárias, Espanha. Saramago lutava há anos contra leucemia crônica e veio a óbito por falência múltipla dos órgãos. Filho e neto de camponeses sem terra, iletrados, José Saramago nasceu na aldeia de Azinhaga, província do Ribatejo, no dia 16 de novembro de 1922. Seus pais emigraram para Lisboa quando ele ainda tinha dois anos de idade. Passou a maior parte de sua vida na capital portuguesa. Fez estudos secundários, mas, por dificuldades econômicas, não pôde concluí-los. Seu primeiro emprego foi como serralheiro mecânico, tendo exercido depois diversas outras profissões: desenhista, funcionário da saúde e da previdência social, tradutor, editor, jornalista.

Publicou o seu primeiro livro, o romance Terra do Pecado, em 1947, ficando até 1966 sem publicar. Em 1969, filia-se ao Partido Comunista Português (PCP) e enfrentou a repressão do regime fascista de Antônio Salazar. Pertenceu à primeira direção da Associação Portuguesa de Escritores e foi, de 1985 a 1994, presidente da Assembleia Geral da Sociedade Portuguesa de Autores.

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura em 1998 e de um prêmio Camões, a mais importante condecoração da língua portuguesa, o autor é considerado o criador de um dos universos literários mais pessoais e sólidos do século 20.De volta à prosa, seu estilo característico começa a ser definido em Levantado do Chão (1980) e em Memorial do Convento (1982). Em 1991, lança sua obra mais polêmica, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, a qual foi considerada uma afronte pela Igreja Católica de Portugal e o levou a deixar o país pouco tempo depois. Seu último romance editado foi Caim, publicado em 2009.

O escritor e crítico literário Hildeberto Barbosa Filho considera que as literaturas portuguesas perdem sua referência com a morte de Saramago. “Além de um grande escritor no campo da narrativa ficcional, Saramago foi o primeiro de língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, dando a ela um caráter mais universal e sintetizando-a historicamente”. Entre os romances de Saramago, Hildeberto aponta O Ano da Morte de Ricardo Reis como o melhor. “É nesta obra que ele revela um olhar crítico sobre a ditadura de Salazar e a história do escritor Fernando Pessoa. Também faz uma profunda reflexão sobre o papel da arte e da estética na história”.

Extraído DAQUI

terça-feira, junho 15, 2010

A face oculta do futebol

A TV Brasil e a TV Câmara mostraram alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Está no ar o maior espetáculo de televisão. Em audiência nada bate a Copa do Mundo. Na Alemanha, em 2006, os 64 jogos foram vistos por 26 bilhões de telespectadores, número que neste ano pode alcançar os 30 bilhões.

São 60 bilhões de olhos vendidos pela FIFA para as emissoras de TV comercializarem com os seus anunciantes. As cifras envolvidas em dinheiro são estratosféricas. Ganham a Federação internacional, as empresas de televisão e os anunciantes reforçando marcas e alavancando a venda de produtos e serviços.

Um ciclo perfeito, onde nada pode ser criticado. Normalmente, a TV no Brasil não critica os jogos transmitidos já que, dentro da lógica empresarial, seria um contrasenso mostrar defeitos do próprio produto. E o futebol, para a TV, nada mais é do que um dos seus produtos, assim como as novelas e os programas de auditório.

Dessa forma se todos ganham e não há criticas, o grande espetáculo do futebol, em sua dimensão máxima que é a Copa do Mundo, chegaria as raias da perfeição. Pelo menos é que mostra a TV.

Mas, e ainda bem que há um mas nessa história, a TV Brasil e a TV Câmara mostraram no programa VerTV alguns aspectos da face do futebol que é ocultada pela TV comercial. Sócrates, o capitão da seleção brasileira de 1982 e o jornalista José Cruz, levantaram algumas pontas do véu que cobre, não apenas o futebol, mas grande parte de toda a estrutura esportiva existente no Brasil.

Para começar não é verdade que todos ganham. Há quem perca, e são muitos. Por exemplo, os jovens que por força da TV associam desde cedo o sucesso esportivo com o consumo de cerveja. Ou desprezam o estudo, uma vez que seus ídolos não precisaram dele para alcançar a glória e a fama.

No programa, Sócrates foi enfático: “A TV vende o sonho do consumo. Vende atitude, aparência, comportamento, moda. Mas, é incapaz de vender educação. E vender esporte sem educação é um crime. Mostram ídolos do futebol que não estudam e são um péssimo exemplo para a sociedade. E não por culpa deles apenas. O sistema estimula que saiam da escola”.

Afirmação que desperta uma curiosidade. A mídia revela diariamente minúcias da vida dos jogadores. Onde vivem, que carros possuem, como são suas casas e suas famílias. Só não dizem até que ano estudaram, em quais escolas, como eram enquanto alunos. Por que será? Sócrates responde: “a ignorância dos jogadores é estimulada pelo sistema. A ele não interessam profissionais com possibilidade de critica”.

O jornalista José Cruz mostra outras perdas. De toda a sociedade. Por exemplo, com a irresponsabilidade dos dirigentes esportivos nos clubes, federações e confederações. Embora privadas, essas entidades recebem dinheiro público e, por isso, deveriam prestar contas publicamente. “As loterias esportivas repassam dinheiro para o futebol. A Timemania está hoje tapando o buraco das dívidas fiscais dos clubes produzidas por dirigentes irresponsáveis”.

E mostra outras perdas sociais. A do dinheiro público desperdiçado, por exemplo, nos Jogos Panamericanos do Rio, em 2007. Dá dois exemplos retirados do relatório do Tribunal de Contas da União: “a compra de 5 mil tochas para serem acesas no evento, das quais só chegaram 500 e, ainda assim apenas 380 foram aproveitadas e a descoberta, depois dos Jogos, pelos auditores do TCU, de 880 caixas contendo aparelhos de ar condicionado que sequer foram abertas. E tudo isso segue impune”.

Tanto Sócrates, como José Cruz, alertam para o fato da seleção nacional e dos seus jogos serem eventos públicos que, no entanto, estão totalmente privatizados. “A seleção brasileira – que usa as cores, o hino e a bandeira do nosso pais – deveria ter parte de suas receitas revertidas para o futebol brasileiro, muito pobre em várias regiões do Brasil”, diz o jornalista.

Sócrates lamenta o volume de recursos jogados fora pela falta de uma política esportiva de Estado. Para ele “o esporte deveria ser um braço da saúde e da educação. Se não ele fica solto” e aponta a deficiência dos cursos de Educação Física: “não há um que trate o esporte com viés comunitário. É tudo individualista”.

E há mais. Quem quiser saber basta entrar no site da TV Câmara, clicar em “conhecer os programas” e depois no VerTV. Lá revela-se um pouco do que a TV comercial teima em ocultar.

Carta Maior - terça-Feira, 15 de Junho de 2010

Por Laurindo Lalo Leal Filho

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial).

Extraído DAQUI

sexta-feira, junho 11, 2010

Qual África a televisão mostrará

Hoje pela manhã ao assistir ao noticiário, ouvi uma frase de uma apresentadora global que me chamou atenção pela carga ideológica. Referindo-se aos eventos festivos dos sul-africanos para a abertura da Copa do Mundo, que tem início no dia de hoje, ela afirmou: “É uma celebração semelhante ao nosso carnaval”. Essa verbalização da jornalista, fez-me lembrar de uma sentença de Roberto DaMata escrita no seu livro Carnavais, Malandros e Heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro[1]: “O carnaval está, portanto, junto daquelas instituições perpétuas que nos permitem sentir (mais do que abstratamente conceber) nossa própria continuidade como grupo. Tal como ocorre com um jogo da seleção brasileira, em que vemos, sentimos, gritamos e falamos com o Brasil no imenso ardil reificador que é jogo de futebol” [grifo do autor]. Segundo DaMata esse fato se constitui num “ritual”, sendo que os rituais nos “permite tomar consciência de certas cristalizações sociais mais profundas que a própria sociedade deseja situar como parte dos seus ideais “eternos””.

Pensando nesse fato ouço com certa desconfiança o discurso midiático, sempre disposto a enredar os menos atentos. Em tempos de Copa do Mundo há uma abertura para a irreflexão e para a tolerância exacerbada. O Brasil veste-se de um nacionalismo piegas, manco e anêmico. A Copa gera um senso de pertencimento nacional. É um fenômeno unicizante que somente conseguimos constatar de quatro em quatro anos. Nem mesmo em tempos de eleições, criam-se tantas expectativas. Quando presenciamos um evento que não gera privilégios políticos ou educativos ganhar tamanho alarde, é preciso que desconfiemos. Quem lucrará com a Copa do Mundo? As grandes empresas de comunicação, que aumentarão o preço de suas imagens; as multinacionais que patrocinam os times de futebol e por aí se vai a lógica do lucro.

A África é um dos continentes mais esquecidos do mundo. É o continente no qual os seus países conseguiram suas “independências” político-administrativas no século passado. Ou seja, enquanto a maioria dos países americanos conseguiu emancipação do domínio europeu nos séculos XVII e XVIII, os países africanos em pleno século XX, ainda estavam submetidos às metrópoles espoliadoras, Europa e aos Estados Unidos.

O continente africano sempre serviu de nicho para exploração. Durante mais de 300 anos, os negros africanos eram trazidos para o Novo Mundo para trabalharem como bichos e morrerem aos trinta anos – quando isso se dava com exceção. Ao colonizarem o continente, no qual a ciência acredita que é de onde se brotou a vida, os europeus e americanos, não respeitaram os marcos milenares estabelecidos pelas tribos que já habitavam a terra. O interesse era simplesmente fatiar o imenso continente de, aproximadamente, 44 milhões de metros quadros (equivalente a seis vezes o tamanho do Brasil), entre os vários países para explorar. Com isso não respeitou-se as demarcações já estabelecidas pelos vários povos e etnias. De modo que hoje, no continente africano, há um número horripilante de conflitos, de guerras sangrentas, doenças, infanticídio, exploração infame, fome generalizante e miséria em todos os níveis. Estima-se que aproximadamente vinte e cinco por cento dos habitantes do continente sejam portadores do vírus HIV (AIDS).

A mídia não está preocupada em mostrar as mazelas do continente. Deseja acima de tudo vender imagens, pois é isso que favorece o lucro. Quando alguém vende algo se preocupa em passar a melhor das imagens. Um comerciante ao vender uma mercadoria não coloca à mostra aquilo que está quebrado ou transmitindo um aspecto desagradável. Pelo contrário, lava, escova, lustra, para que chame a atenção. Assim se dá com as imagens que são vendidas. Como pude observar numa propaganda da Coca-Cola. Mostrava uma criança pobre, descalça, jogando futebol. Ao fundo aparecia uma montanha de lixo ao mesmo tempo em que essa criança fazia acrobacia e bebia Coca-Cola. A cena endeusava, deificava, transformava a pobreza em algo sofisticado e tolerado. Gerava um encantamento, uma suavização para que os olhos vissem e ficassem fascinados com aquela cena de um menino pobre que se refestelava jogando futebol e bebendo um líquido negro capaz de trascendentizá-lo. Tirá-lo da miséria. Abafar o porquê de está ali no meio do lixo. Essa é a intenção. Misturar as misérias africanas ao futebol e fazer com que aquele que assiste às imagens maquiadas esqueça as penúrias do continente.

Os privilégios serão mínimos para acabar com as desigualdades do continente. Os verdadeiros “vencedores” serão as grandes empresas que vendem imagens e artigos esportivos. A liberdade existente na África, principalmente, propalada de que é real na África Sul, é liberdade unicamente para consumir. A televisão mostrará a África das propagandas de marketing e esquecerá a outra que agoniza e chora.

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: sexta-feira, 11 de junho de 2010, 10:48:27 AM

[1] DAMATA, Roberto. Carnavais, Malandros e Heróis – para uma sociologia do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Editora Rocco. 1997. 350p.

segunda-feira, junho 07, 2010

Jesus falava palavrão

“Os publicanos e as prostitutas vos precederão no reino de Deus.” (Mt, 21, 31) Quem pode garantir que Jesus não disse putas em vez da palavra consagrada pelas traduções correntes, tipicamente afetadas pelo moralismo da ideologia em que acabou (aqui, no sentido que você quiser) o cristianismo?Justificar

Na Rede Vida passa uma “missa da cura” em que o tal frei Rinaldo nitidamente imita um locutor de rádio, e dos mais enjoados, tipo quase narrador de rodeio. É ajudado por outro frade que nitidamente puxa seu saco, enquanto ele se faz de humilde apontando para uma cruz, como que dizendo: “Não sou eu quem faz tudo isso, é Jesus”. A platéia está cheia de gente que bate palmas, canta e faz as caretas supostas como adequadas ao momento. Um cantor horrivelmente desafinado puxa canções da liturgia dos anos 1970 agora transformadas em roquinhos ou numa pasta sonora aparentada com o dito “axé”.

A triste constatação é que a Igreja Católica, responsável por boa parte do que chamamos cultura ocidental, rendeu-se ao inimigo. Descaradamente, agora, imita os evangélicos que lhe tomam cada dia mais fiéis. Ao contrário da época da Contra-Reforma, quando os papas ainda dispunham de grande força política e até militar, hoje a Santa Sé tem consciência de quão inerme está frente à marcha da História. Mas isso não a leva à conclusão que seria a mais lógica, ou seja, à idéia de que o catolicismo é inapelavelmente medieval e, como um peixe que não pode respirar fora de seu elemento, só conseguiria sobreviver se:

a) pudesse novamente levar à fogueira todos os hereges, caso em que o virtual churrasco que vos escreve não seria louco de redigir este artigo;

b) coerentemente se refugiasse num radicalismo que excluiria os fiéis (só sobrariam os verdadeiros) do mundo moderno – uma volta às catacumbas, enfim.

Ah, não podemos esquecer: na plateia de frei Rinaldo estão vários prefeitos e vereadores, aos quais ele agradece calorosamente a ajuda a sua obra missionária. Católicos antigos, talvez algo incomodados com a conspícua manipulação política de sua fé, mesmo assim não chegam a suspeitar que o dito frei talvez logo saia candidato a deputado, integrando um movimento encabeçado por Gabriel Chalita (leia-se, Opus Dei), o gênio da “pedagogia do amor”, fiel escudeiro de Geraldo Alckmin (leia-se, Opus Dei) no incansável trabalho dos Inimigos da Escola (leia-se, PSDB) para esculhambar ainda mais a educação paulista. Tudo isso num Estado que se pretende a vanguarda intelectual do Brasil.

Mas direis: tresloucado amigo, onde entra Jesus nessa história?

É que Jesus, como todo produto ideológico, presta-se a qualquer objetivo de quem estiver mais aparelhado para usar os meios de informação. Ou contra-informação. Ou mistificação. Da mensagem original do profeta galileu, não nos chegam mais que boatos, assim como da Bíblia inteira, um conjunto de livros baldeado ao longo de vários idiomas e vertido às línguas modernas conforme os interesses dos tradutores e de seus patrões. Assim é que as igrejas evangélicas preferem a versão de João Ferreira de Almeida, mais próxima da pobreza estética que são seus próprios cultos, com um vocabulário nivelado onde mulher é sempre “esposa” e doença é sempre “enfermidade”.

Por que essas igrejas (incluindo as neopentecostais, muitas das quais voltadas para o comércio puro e simples) tomam cada dia mais fiéis do catolicismo? Ora, porque souberam fazer sua opção mais cedo. Enquanto os católicos (por serem outrora mais profundos do ponto de vista filosófico) não se decidiam entre negar o mundo moderno e submeter-se a ele, faz tempo que o protestantismo em geral – as exceções são justamente as igrejas mais parecidas ao laxismo católico – resolveu de que lado está. Do lado de Jesus, claro. Mas de qual Jesus? O adocicado cordeirinho que aparece no evangelho de João ou o iracundo profeta retratado por Mateus? Os fatos históricos depõem a favor do segundo, pois o profeta galileu foi julgado como criminoso político, subversivo muito mais perigoso que Barrabás, este um simples meliante.

Os evangélicos e carismáticos em geral preferem o primeiro Jesus. O segundo se parece muito, por exemplo, com a antiga esquerda, e a bancada evangélica sempre foi uma das mais retrógradas e assiduamente venais do Congresso. De qualquer modo, em algumas igrejas desse naipe Jesus não passa de um nome na fachada, pois o filho de Maria não tem qualquer prestígio, sendo significativamente mais badalados Javé e a multidão de seus porta-vozes veterotestamentários, ou mesmo Paulo de Tarso, aquele espião do Império Romano que acabou sendo o primeiro publicitário.

Para não desviar o assunto: há igrejas que pastoreiam seus fiéis como se ainda estivéssemos na Idade Média. Fazem uma interpretação literal de sua tradução empobrecida do Antigo Testamento, o que as leva proibir as mulheres de depilar as pernas e todos os crentes de ver televisão (o que, aliás, nem é tão mau…) Outras obtiveram o aggiornamento, embora não aquele tentado pela igreja de Roma com João XXIII e Paulo VI: foram capazes de (ou descaradas o suficiente para) abraçar o espírito do tempo e assumir-se como supermercados espirituais onde se pode praticar uma religiosidade à la carte.

Independentemente das diferenças, a maioria delas fala a mesma língua quando se trata de desqualificar o catolicismo. Este, emparedado por sua própria incapacidade de optar – afinal, ainda tem interesses genuinamente espirituais –, ficou ao longo do papado de João Paulo II, o que nunca morria, convencendo-se de que precisava defenestrar sua inteligência e privilegiar os “simples”. Se a estes está reservado o reino de Deus, fica a vontade de perguntar: em tal reino caberiam os nada bobos Edir Macedo e Marcelo Rossi?

O reino de Deus, ao que parece, fica muito longe. Na vida concreta dos indivíduos, o que conta é o triste fato de sermos matéria fadada à decomposição. “Monstro de escuridão e rutilância”, como disse o poeta, podemos às vezes fazer de nossa precariedade algo de bom. E por isso existiram e existem pessoas que bem mereceriam ser chamadas de santos, gênios ou heróis. Em todas as épocas e em todos os países. Elas às vezes interferiram na vida coletiva e ajudaram a reduzir o sofrimento e a falta de sentido que caracterizam a existência dos degredados filhos de Eva.

O reino das mercadorias e dos interesses em jogo é que de fato importa. Do contrário, os religiosos passariam a maioria das horas de sua semana orando, e não comprando e vendendo suas posses (sendo o corpo a primeira delas, e quase sempre a única). Uma semana tem 168 horas, das quais dificilmente o fiel, por mais fanático que seja, passa mais do que umas vinte envolvido com práticas religiosas.

Nesse reino tão terrestre, é cada vez mais evidente o crescimento do número de fanáticos, agora também dentro do catolicismo. É preocupante a hipótese de que eles um dia se tornem a maioria dos consumidores e eleitores do Brasil e, apesar das divergências entre a cornucópia de denominações, todas devidamente portadoras exclusivas da Verdade, o cristianismo evangélico-pentecostal acabe por impor-se como padrão ideológico dominante. Sendo mais claro, alguém já imaginou o país do futuro como uma teocracia? Melhor seria ter Sílvio Santos e Faustão de aiatolás.

Até poucos anos atrás, era bastante rara a frequência de alunos evangélicos em cursos superiores e até mesmo em colégios. A proporção dessas denominações religiosas era insignificante na população brasileira. Os católicos de medievalismo assumido, por sua vez, eram até mais raros: tendo como única obrigação assistir a uma missa de 40 minutos por semana, decididamente poucos levavam a sério sua fé a ponto de por ela expor-se ao ridículo.

Ultimamente, tem sido muito comum a presença tanto de evangélicos como de membros da Renovação Carismática em sala de aula. Muitos deles se comportam como estudantes normais, no máximo deixando – no caso das pentecostais – notar sua condição por meio da vestimenta. Mas há os que pensam ter o direito de impor suas convicções religiosas à coletividade, incorporando um profetismo descabido em relação à natureza laica da instituição escolar. Existe por aí professor que já foi acusado de maníaco sexual porque sua disciplina (História) torna inevitável falar de sexo e religião; e aquele que, lecionando literatura, foi alvo de reclamação por falar palavrões em classe quando apenas lia poemas de Gregório de Matos ou Bocage. Eu mesmo já tive que me explicar a um diretor de escola por “difamar Nossa Senhora”, seja lá o que isso for.

Há pessoas cujas convicções lhes tornam intolerável qualquer menção a assuntos incômodos. Não importa se tais assuntos são parte da natureza humana. É-lhes necessário proteger a própria fé, já que ela é muito frágil. Freud esclareceu há muito tempo, num livrinho intitulado O futuro de uma ilusão, como a recusa do real leva muitas pessoas a criar mitos para ajustar o mundo ao que querem que ele seja. Quanto aos que de fato creem, os “absurdos” lingüísticos e conceituais lhes entram por um ouvido e pelo outro saem. Sua fé não necessita de proteção.

Aquela mentalidade neo-inquisitorial ainda se acha, o mais das vezes, encriptada no que Oscar Wilde talvez chamasse “o cristianismo que tem vergonha de dizer o próprio nome”. Mas, à medida que o fanatismo ganha visibilidade, mais e mais adeptos criam coragem para arvorar-se em policiais da linguagem. O engraçado é que isso ocorre na escola, cuja capacidade formadora encolhe a cada dia de maneira acabrunhante, frente ao poder que a indústria cultural tem de formatar mentes. Nas emissoras de rádio e TV, nos jornais e revistas e na Internet se veicula um volume crescente de pornografia e idiotice. Ninguém mais pode segurar isso, e a razão é simples: dá muito lucro. Eis o preço que pagamos pela separação entre religião e Estado, que fez rolar tantas cabeças na Revolução Francesa. Todo esse sangue derramado é um patrimônio da espécie humana, ou deveria ser assim considerado pelas pessoas civilizadas. No Islã, a história continua se repetindo como farsa.

Corta para os arredores de Cafarnaum, há quase dois milênios. Jesus, ao que parece, tinha um xodó com essa cidadezinha. Não deviam existir lá uns inferninhos maneiros. Tampouco em Jerusalém, pois ainda no final do século XIX o protagonista da novela A relíquia, de Eça de Queirós, reclamava da escassa oferta de sexo na Palestina: “Caramba, eu vim aos lugares santos para me refocilar!”. Mas certamente lá em Cafarnaum havia meretrizes arrumadinhas, ainda que nem tanto como a Maria Madalena do filme A última tentação de Cristo, por sinal uma das obras mais profundamente cristãs que já foram produzidas – e cuja exibição no Brasil a Igreja tentou proibir.

Os evangelhos deixam claro que Jesus andava com certa frequência na companhia de ladrões e prostitutas. Em episódios bastante significativos, absolveu dos pecados um exemplar de cada categoria. Os evangelhos também deixam claro que Jesus não odiava nada mais do que a hipocrisia. Nem com Satanás ele foi tão severo como com os hipócritas.

Agora, imagine Jesus expulsando os mercadores do templo. Ele ficou puto da vida, não? Nenhuma expressão seria hoje, em português brasileiro, mais adequada para descrever o acesso de fúria do galileu. Por que deveríamos hipocritamente supor que ele mediria as palavras naquela ocasião? Ele era um homem do povo, certamente usava vocabulário popular. E a língua do povo sempre teve, em todos os tempos e lugares, palavras chulas que acabaram transitando para o vocabulário do dia-a-dia a ponto de perder sua conotação ofensiva.

Uma crônica de Luís Fernando Veríssimo lembra como o palavrão é insubstituível em alguns casos. Por exemplo, como explicar para uma pessoa simples o tamanho do universo, medido em bilhões de anos-luz? Será que mesmo a maioria de nossos estudantes universitários é capaz de conceber tais dimensões? Mas quando se diz que o universo é “grande pra caralho”, o que se perde em precisão se ganha em concretude.

Jesus não só freqüentava os marginais, mas também acusava os membros da classe alta de praticarem todos os matizes no arco-íris da hipocrisia. Sepulcros caiados, filhos de uma geração adúltera (filhos da puta?). Quem é cristão e tem consciência deve sentir-se mais ofendido ao ser chamado de sepulcro caiado do que de corno ou bicha. Ou, então, não compreendeu nada sobre aquele Jesus que os judeus penduraram no madeiro.

Se o filho de Maria andava com os marginais, é certo que falava a linguagem deles. Tente entrar numa favela falando classemediês. Todo mundo sabe que ninguém entra nesse tipo de comunidade usando língua de gente “normal”. Os marginais desconfiam, e com razão, de quem não se parece com eles. E qual é a classe social que mais fala palavrão? Fica difícil imaginar que Jesus discursasse tão cultamente como apresentam os evangelhos – de resto, vertidos do grego para o latim e transformados em obra-prima da literatura universal por São Jerônimo (que por sinal terá feito suas adequações ao texto original) e posteriormente do latim para as línguas vernáculas, graças à campanha de Lutero, mesmo tendo sido este, ao que tudo indica, um péssimo caráter.

Quando um autodenominado cristão se arvora em policial da linguagem, passa por cima de alguns problemas importantes. Primeiro, quem na verdade pode dizer-se cristão, se é impossível conhecer a doutrina de Cristo em sua origem? O que temos é uma versão da versão da versão, sendo a própria Bíblia um amontoado de livros dispares e contraditórios que resulta de complicadas negociações dentro da Igreja num determinado momento de sua história, e não da iluminação dos bispos pelo Espírito Santo. Se deixassem a decisão aos dois últimos papas, a Bíblia (no grego, plural de “biblion”: “livros”) talvez fosse expurgada de episódios pouquíssimo edificantes como a sedução de Ló por suas filhas e os comportamentos desprezíveis de Judite e do rei Davi.

(Cá entre nós, se me encarregassem da nova edição, eu tiraria dois itens: primeiro, o livro de Jó, pois nele Javé aparece como um papudo insuportável, altamente necessitado de auto-afirmação, e isso não fica bem para uma divindade; segundo, aquela tentativa de assassinato de Isac por Abraão, péssimo exemplo para os pais. Aquilo era um povinho bárbaro, ignorante e paranóico. Soa bastante irônico que hoje Israel seja o país com a maior proporção de ateus em sua população; confiam mais em seu poderio bélico financiado pelos Estados Unidos que no Deus dos Exércitos.)

Segundo, como podem garantir que passarão a vida toda prometendo o que não podem cumprir? Porque o programa moral do cristianismo, mostra-o todo o conhecimento que adquirimos da natureza humana nos últimos séculos, não se reduz a uma educação dos instintos, mas é uma negação completa do que de fato somos, quase-macacos cuja barbárie é apenas contida (e nem sempre) pelo verniz civilizatório.

Terceiro, sua visão de mundo será realmente cristã? Ou seria mais cristão preocupar-se com o sofrimento do próximo, com a injustiça social, com o açambarcamento do poder político, econômico e cultural pelos sacripantas mais abjetos, os quais sempre aparecem ao povo como exemplos de sucesso na vida? Não estava brincando o profeta galileu quando disse que primeiro vão entrar no Céu os cobradores de impostos (ladrões, corruptos) e as putas. De fato, eles costumam ser mais sinceros que os pregadores moralistas. Destes, tenhamos principalmente piedade, pois deve ser muito doloroso passar a vinda fingindo ser o que não se é.

Por Eloésio Paulo - professor da Universidade Federal de Alfenas (MG) e autor do livro Os 10 pecados de Paulo Coelho (Editora Horizonte).

Extraído da Revista Espaço Acadêmico - AQUI

quinta-feira, junho 03, 2010

Consolo na Praia, por Carlos Drummond de Andrade

Ah! Drummond, como você é exato, preciso, absurdamente frio, com técnica de perito para narrar a linguagem da alma. Suas palavras são como uma lamparina a iluminar a nudez do coração achacado pelas pisaduras da vida. Existir é um fenômeno repleto de reveses. Na travessia, choro e lágrimas serão a matéria que molharão os passos na caminhada. Enquanto existir fôlego, existirá vida; enquanto existir vida, haverá perspectivas, alento, possibilidades. Quando a vida cessa, extingue-se a possibilidade de realizações, do preenchimento existencial. Enquanto os olhos não fecharem, enquanto a noite plena não se fizer, vivamos.

Consolo na praia

Vamos, não chores..
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

Análise do poema AQUI

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 03 de junho de 2010, 09:44:51

segunda-feira, maio 31, 2010

Irã: quem atira a primeira pedra?

O presidente Lula empreendeu uma delicada operação diplomática para evitar que o Irã utilize a energia nuclear para fins bélicos. As nações mais poderosas do mundo, capitaneadas pelos EUA, logo expressaram sua indignação e discordância: como um "paiseco" como o Brasil ousa querer ditar regras na política internacional?

Marx, Reich e Erich Fromm já nos haviam prevenido que preconceito de classe costuma ser um tabu arraigado. Como alguém que nasceu na cozinha tem o direito de ocupar a sala de jantar?

Pelo critério de George Bush, lamentavelmente preservado por Obama, o Irã faz parte das nações que integram o "eixo do mal". Não morro de amores pela terra dos aiatolás, considero o governo iraniano uma autocracia fundamentalista e discordo do modo patriarcal que o Irã trata as suas mulheres, como seres de segunda classe. Diga-se de passagem, assim também faz o Vaticano, razão pela qual as mulheres são impedidas de acesso ao sacerdócio.

Mas não custa questionar o cinismo dos senhores do mundo com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU: por que Israel tem o direito de possuir arsenal nuclear e o Irã não? Ele jogaria uma bomba nuclear sobre outras nações? Ora, isso os EUA já fez, em 1945, sacrificando milhares de vidas inocentes em Hiroshima e Nagasaki.

O Irã desencadearia uma guerra mundial? Ora, o Ocidente civilizado já promoveu duas, a segunda vitimando 50 milhões de pessoas. O nazismo e o fascismo surgiram no Oriente? Todos sabemos: foram criações diabólicas de dois países considerados altamente civilizados, Alemanha e Itália.

Os árabes, ao longo de 800 anos, ocuparam a Península Ibérica. Deixaram um lastro de cultura e arte. A Europa ocupou e saqueou a África e a Ásia, e o lastro é de miséria, mortandade e extorsão. O Irã é uma ditadura? Quantas não foram implantadas na América Latina pela Casa Branca? Inclusive a do Brasil, que durou 21 anos (1964-1985). Há pouco, a Casa Branca apoiou o golpe militar que derrubou o governo democrático de Honduras.

Fortalecido belicamente o Irã poderia ocupar países vizinhos? E o que dizer da ocupação usamericana de Porto Rico, desde 1898, e agora do Iraque e do Afeganistão? E com que direito os EUA mantêm uma base naval, transformada em cárcere clandestino de supostos terroristas, em Guantánamo, território cubano?

Respaldado em que lei internacional os EUA implantaram 700 bases militares em países estrangeiros? Só na Itália existem 14. Na Colômbia, 5. E quantas bases militares estrangeiras há nos EUA?

Há que admitir: o Irã não está preparado para se integrar no seio das nações civilizadas... Nações que financiam, pelo consumo, os cartéis das drogas, tratam imigrantes estrangeiros como escória da humanidade; fazem do consumismo o ideal de vida.

E convém lembrar: fundamentalismo não é apenas uma síndrome religiosa. É, sobretudo, uma enfermidade ideológica, que nos induz a acreditar que o capitalismo é eterno, fora do mercado não há salvação e a desigualdade social é tão natural quanto o inverno e o verão.

Lula candidato era discriminado pelo elitismo brasileiro por não dominar idiomas estrangeiros. Surpreendeu a todos por falar a linguagem dos pobres e revelar-se exímio negociador em questões internacionais.

Sem o apoio do Brasil não avançaria essa primavera democrática que, hoje, semeia esperança de tempos melhores em toda a América Latina. Os eleitores dão as costas às velhas oligarquias políticas e escolhem governantes progressistas.

Essa nova geopolítica latino-americana, que oficializará em 2011 a União das Nações Latino-Americanas e Caribenhas, certamente preocupa Washington. A crise financeira bate as portas das nações mais poderosas do mundo e a Europa entra num período de recessão. O livre mercado, o Estado mínimo, a moeda única (euro), a ciranda especulativa, mergulham numa crise sem precedentes.

Tudo indica que, daqui pra frente, o mundo será diferente. Se melhor ou pior, depende do resultado do embate entre duas forças contrárias: os que pensam a partir do próprio umbigo, interessados apenas em obter fortunas, e os que buscam um projeto alternativo de sociedade, menos desigual e mais humano. É a antiética em confronto com a ética.

Por Frei Betto

[Autor de "Calendário do Poder" (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org

Extraído DAQUI

quinta-feira, maio 27, 2010

Powaqqatsi, a vida enfeitiçada

Tomei conhecimento da trilogia Qatsi (Koyaanisqatsi, Powaqqatsi e Naqoyqatsi) numa aula de sociologia da educação. O professor explicava o que significava micro-sociologias. Para ilustrar a explicação que dava, resolveu mostrar para os alunos cenas do primeiro filme da série Qatsi, Koyaanisqatsi. Quando vi as imagens mescladas, coladas àquela música arrebatadora, senti um frêmito diferente. Fiquei extasiado. Um silêncio admirativo se apoderou de mim. Pura estupefação. Daquele momento em diante resolvi que deveria ter aquela obra enfeitiçada, repleta de poderes mágicos.

Empreendi uma busca. Procurei em vários sites da internet. Até que achei. Mas infelizmente o achado estava incompleto. Somente os dois primeiro estavam disponíveis, a saber, Koyaanisqatsi e Powaqqatsi. Comprei-os sem qualquer titubeio. Assisti por diversas vezes ao primeiro. Passados três anos, somente agora me dediquei a ver o segundo, filmado no ano de 1988. A experiência foi positiva. Não chegou a me impressionar tanto quanto primeiro, mas fiquei com aquela impressão aural, de magicidade, após ver ao filme. Falta-me apenas assistir ao terceiro – Naqoyqatsi – que consegui no final de 2009.

O interessante na temática de Powaqqatsi é o objeto de análise. Godfrey Reggio, o diretor da obra, colocou em foco o Hemisfério Sul. Enquanto o primeiro filme, Koyanisqatsi, focou o Hemisfério Norte dito “civilizado” e o seu modo de vida contradizente, o segundo buscou realçar como está organizado o chamado terceiro mundo. Assim, o filme mostra com bastante realismo como o mundo subdesenvolvido, formado por culturas orais, que produzem instrumentos manuais herdados por transmissões ancestrais, está estruturado. Como a desigualdade avassaladora é resultado de uma causa.

O vocábulo Powaqqatsi é uma junção de termos do idioma Hopi. A tradução aportuguesada ficaria assim: powaqq – “feiticeiro”, “bruxo”; qatsi – “vida”. No ajuste dos termos, fica assim: “uma espécie de entidade que se utiliza de um modo de viver para prolongar sua própria vida”. Powaqqatsi é um filme que trata de “sedução”. Ou seja, de um modo de vida que tem sofrido os efeitos mais violentos do progresso. A obra mostra como essas “culturas sulinas”, têm sido “parasitadas” por um estilo de vida ludibriador. A sedução não se dá com força, com violência, não usa imperativos belicistas. O estilo de vida criado por culturas “civilizadas” é o próprio “bruxo” capaz de tornar os indivíduos em seus escravos. Segundo o próprio Reggio, “o hemisfério sul está sendo consumido pela ordem criada pelo hemisfério norte”.

Os homens criaram uma utopia e essa utopia é a imortalidade virtual. Até então, esses poderes eram somente atribuídos às divindades. Os poderes de conservação e transmissão da imortalidade pertenciam somente aos deuses tidos por soberanos e eternos. Agora, outros deuses foram criados. Um novo panteão de seres e objetos magicizados. O computador está no centro de tudo. Todas as teias comunicativas que geram encantamento se ligam a ele. Os homens para se enxergarem, para se encontrarem, para se medirem, para serem saciados em suas necessidades espirituais vão à teia invisível da virtualidade. O computador tornou-se assim numa espécie de oráculo, o instrumento mais poderoso do mundo. O computador potencializa a criação de avatares, de transfiguração dos desejos e dos seres que se ligam a esses próprios desejos. Nesse sentido, é a maior mágica do mundo. É algo pelo qual todos têm adoração.

Assim, como em Koyaanisqatsi, Powaqqatsi tem a trilha sonora composta por Philip Glass, mestre do minimalismo musical. Sua música produz efeitos impressionantes enquanto vemos às imagens. É impossível “desvencilhar” a sucessão das imagens com a música. A música está encaixada às imagens e, as imagens, à música. O filme é uma forte experiência espiritual e de despertar da consciência.

Amostra de um dos capítulos do filme:



Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: Quinta-feira, 27 de maio de 2010, 19:28:17

sábado, maio 22, 2010

Aceita uma laranja?

Alguém já disse: se torcêssemos um jornal como se faz com uma toalha, pingaria muito sangue. Claro, isso serve para a TV, nesse caso não apenas nos noticiários, como também nos filmes, séries e novelas, que estão se especializando na “estética do tiro”. Muitos afirmam que é a sociedade que está cada vez mais violenta. Isso é uma verdade em partes, pois a violência cresce proporcionalmente ao aumento da população. O homem sempre foi um animal violento. A diferença é que uns controlam esses instintos, enquanto outros não seguram a fera dentro de si.

O que acontecerá no futuro? Os otimistas acreditam que tudo pode melhorar, sonham com um mundo de paz para seus filhos, são utópicos. Os pessimistas, por seu turno, pintam um mundo sombrio, onde cada vez mais as casas terão cercas eletrificadas e proliferarão os condomínios fechados. Quem não tiver dinheiro (a “tia pecúnia”) estará à mercê de gangues, com delinquentes cada vez mais jovens, que praticarão a “ultraviolência”. Esse cenário distópico aparece em muitos livros de ficção científica. Entre eles, Laranja mecânica, de Anthony Burgess (editora Aleph, 224 páginas).

Utopia é um termo que designa, literalmente, um lugar que não existe (do grego, “ou”, negação e “topos”, lugar”). A palavra foi usada pela primeira vez no livro homônimo de Thomas More para nomear uma ilha onde tudo era perfeito, do sistema de governo às atitudes dos cidadãos. Por extensão, passou a significar o sonho de um mundo ideal, o qual muitas vezes seguimos, mesmo sabendo que ele pode nunca acontecer. Miramos o horizonte e nos guiamos por ele, apesar de nunca o alcançarmos. Já a distopia é o contrário. Seriam distópicas as sociedades do futuro em que prevalecessem os regimes totalitários que controlassem os passos e o pensamento do indivíduo (como no livro 1984, de George Orwell, onde surgiu a expressão Big Brother), que manipulassem geneticamente os embriões dos seres humanos para condicioná-los a agirem conforme o sistema (Admirável mundo novo, de Aldous Huxley) ou destruíssem obras intelectuais para que as pessoas não aprendessem a questionar a realidade (Fahreinheit 451, de Ray Bradbury).

No livro de Burgess, publicado em 1962, vemos uma Inglaterra, num futuro não muito distante, tomada por gangues juvenis que praticam a ultraviolência. Quem nos narra a história é um membro de uma dessas gangues, Alex, com uma algaravia de gírias chamada de linguagem “nadsat” (há um glossário no final do livro para compreender as expressões). Seus companheiros são “druguis”, que moram em “flatblocos”, adoram beber “moloko” para depois “itiar” pelas ruas, espancar “vekios”, estuprar “devotchka”, roubar “tia pecúnia, fazer muitas coisas “horrorshow” e depois fugir dos “miliquinhas”. Burgess, estudioso da obra de James Joyce, criou as gírias baseado em línguas do leste europeu. Causa estranhamento em um primeiro momento, mas com o decorrer da leitura acabamos nos acostumando com ela, sem contar que, nessa nova edição no Brasil, a tradução de Fábio Fernandes faz fluir bem mais fácil o texto do que a antiga, feita nos anos 70.

Após todas as atrocidades cometidas, Alex acaba preso e passa por um processo de reabilitação inovador chamado processo Ludovico. Amarrado a uma cadeira e com grampos prendendo suas pálpebras, ele assiste a filmes que mostram as ações cruéis de que o ser humano é capaz de fazer contra seu semelhante, com destaque para o Holocausto. Ao ser obrigado a assistir as cenas que seguem numa sucessão frenética, sem poder fechar os seus olhos, Alex é condicionado a ter repulsa por qualquer situação de violência e, consequentemente, é considerado curado. Na terceira parte, ocorre a tentativa de voltar, a conviver pacificamente dentro da sociedade e com sua família, mas percebe a dificuldade de aceitação de um ex-delinquente, ainda mais por reencontrar aqueles que antes foram suas vítimas.

Laranja mecânica se tornou mais conhecido depois da adaptação cinematográfica feita por Stanley Kubrick, com cenas que entraram para o inconsciente coletivo dos amantes da sétima arte. No filme, porém, os “druguis” são adultos, ao contrário do romance, em que são adolescentes. Recentemente, a adaptação de Alice no país da maravilhas também opta por uma personagem adulta em vez da criança da obra de Lewis Carroll. Será tudo culpa do “politicamente correto”? De qualquer forma, o romance nos instiga a refletir sobre o caráter do ser humano que se forma já na infância e sobre como estamos cada vez mais perdendo o controle dos nossos filhos. Mas também faz uma crítica ao Estado, que faz muito pouco para curar esse mal da sociedade e, quando tenta, utiliza métodos errados ao manipular a mente das pessoas. Como escreveu uma das vítimas dos “druguis”, um escritor, em seu livro que foi rasgado por Alex, e cujo título é o mesmo do romance de Burgess: “A tentativa de impor ao homem (...) leis e condições que são apropriadas a uma criação mecânica, contra isto eu levanto minha caneta-espada”.

Por Cassionei Niches Petry

Extraído DAQUI

quarta-feira, maio 19, 2010

Olho quem me olha

Imagine uma prisão redonda como o estádio do Maracanã. Há vários andares de celas. Nenhuma possui porta, de modo que um único carcereiro, situado na guarita no centro da construção circular, controla sozinho o movimento de centenas de prisioneiros. Este o modelo panótico de Bentham, descrito por Michel Foucault em Vigiar e Punir. Muitas penitenciárias o adotaram. Tive oportunidade de visitar uma delas, na Ilha da Juventude, em Cuba, construída antes de Revolução e, hoje, desativada.

Vivemos agora numa sociedade panótica. Em qualquer lugar que nos encontramos, um olho nos vê. Somos vistos; quase nunca vemos quem nos vê. Não me refiro apenas às câmeras discretas ou ocultas em ruas e prédios, elevadores e lojas. O mais poderoso olho é a TV, exatamente esse aparelho que julgamos decidir quando e o que veremos. Ligamos a TV motivados por seu olho invisível; ele suscita em nós essa atitude. Antes de a emissora colocar no ar uma peça publicitária ou um programa, vários testes são realizados, de modo a assegurar ao anunciante ou patrocinador o êxito de audiência. Conhece-se o olhar alheio através de exaustivas pesquisas de opinião. Isso influi inclusive na (des)qualidade da arte. Agora, o artista não cria a partir de sua subjetividade e imaginação. Antes, procura satisfazer o olhar do público. Ele se olha pelo olho do consumidor de sua obra. Sua fonte de inspiração não reside na ousadia de romper e ultrapassar a linguagem estética que o precede, de expressar os anjos e demônios que lhe povoam a alma, e sim na vontade de agradar o público, criar um mercado de consumo para a sua obra, ainda que à custa de banalizar o próprio talento. O olho promissor do mercado configura seu olhar no ato criativo.

Todo esse processo foi expressivamente tratado em obras como 1984, de George Orwell (1949), e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (1953), filmado em 1966 por François Truffaut. O fenômeno atual mais expressivo é o Big Brother, que promove arrebanhamento dos telespectadores, faz todos se sentirem irmãos, igualizados pela imbecilidade voyeurista de observar o ritual canibalizador que ocorre no interior da casa. Induzidos por esse sentimento egogregário, perdemos a singularidade. O olho do Grande Irmão nos olha peremptoriamente e nos exige um comportamento de rebanho humano. Outrora havia uma economia de bens materiais institucionalmente separada de uma economia de bens espirituais. Desses últimos cuidavam padres e pastores, intelectuais e professores, artistas e escritores.

Agora, a indústria de entretenimento se encarrega da produção de bens espirituais, integrando-nos na família televisual. O avatar nos chega pela janela eletrônica. Os novos bens espirituais já não imprimem sentido altruísta às nossas vidas, e sim motivações egóticas de acesso ao mercado de produtos supérfluos, fama, beleza e riqueza. Somos impelidos a consumir, não a refletir. Sempre mais acríticos, nos tornamos ventríloquos manipulados pela ideologia midiática que repudia a solidariedade e exalta a competitividade. Em A doce vida, filme de Fellini, a última cena mostra o fim da noite boêmia de gente da alta burguesia. Caminham todos, tropegamente, por um bosque em direção ao mar. Ao chegar à praia, a ébria alegria se choca com o imenso olho inerte de um monstro marinho (uma imensa água-viva) que os pescadores arrastam rumo à areia. O olho olha aquela gente e gera angústia e medo, como se a despisse de sua falsa alegria e a interpelasse no fundo da alma.

É este olho crítico que tanto tememos. E quando ele emerge, os oráculos do sistema neoliberal tratam de tentar cegá-lo e afundá-lo. Ele ameaça porque funciona como espelho no qual o nosso olhar reverbera e olha a mediocridade na qual estamos atolados, movidos como rebanho pelo Grande Imã - o entretenimento televisivo centrado do estímulo ao consumismo.


Por Frei Betto

Extraído do sítio ADITAL.

* A imagem foi extraída do filme 1984, baseado no livro de George Orwell

segunda-feira, maio 17, 2010

O Vermelho e o Negro, de Stendhal

Terminei a leitura de o Vermelho e o Negro de Stendhal, obra escrita em 1830. Negligenciei a leitura em dado momento, já que me encontrava ocupado com outras questões, mas nas últimas duas semanas li com bastante avidez até concluir a obra. É um livro de leitura fascinante. O realismo de Stendhal é sóbrio, repleto de imparcialidade. Percebe-se no romance um grau bastante elevado de embates, diálogos e reflexões psicológicas em Julien Sorel, o principal personagem de O Vermelho e o Negro. A princípio a leitura da obra de Stendhal me pareceu enfadonha, mas aos poucos ganhou uma grandiloquência, uma altura e profundidades somente vistos em grandes e imortais obras da literatura universal. Sorel é um homem à frente de seu tempo. É um progressista (admirador de Napoleão Bonaparte), visionário, que está acima da mesquinhez busguesa tão grassante em no período em que vive. O Vermelho e o Negro é uma crítica às aparências, à hiprocrisia burguesa. Julien prefere morrer a apelar para a justiça caprichosa. Abaixo segue um excelente e breve texto sobre a importância do personagem Julien Sorel.

Julien Sorel e a castração coletiva

Julien Sorel (herói de “O vermelho e o negro”, de Stendhal) é o símbolo do grande homem desperdiçado graças ao caráter mofino de sua época. Ambicioso, orgulhoso, determinado, sonha com o tempo no qual, sob o comando de Napoleão – seu modelo de força e saúde – teria feito fortuna, vivido paixões, enfim, gastado todos os excessos de sua energia vital. É homem de constituição escura e antiga, mas que nasceu na década errada: Napoleão foi traído, definha em Santa Helena, os burgueses corruptos foram cooptados, os nobres vivem entre a afeminação e o temor de novas guilhotinas, e Sorel, pobre de nascença, não vê alternativa de ascensão além do seminário, jardim dos animais castrados, entre os quais segue alimentando secretamente desejos de grandeza. Todo o romance conta a saga desse desperdício, e a mestria de Stendhal está em justamente fazer a própria época soar anacrônica em relação ao herói, e não o contrário. Mas sabemos o preço final que Sorel terá de pagar pelo “pecado” de sua força. A tragédia purga o ressentimento dos medíocres mediante o sacrifício da milagrosa exceção. Nesse ponto, digamos assim, higiênico, Stendhal não conseguiu se desvencilhar do modelo clássico. A teoria da evolução afirma que órgãos animais sem uso tendem a atrofiar. Nossos caninos, por exemplo, que hoje só servem para doer. Pode-se dizer que a segura civilização produz cada vez mais atrofias: nossos órgãos de defesa e ataque secam progressivamente, somos cada vez mais dóceis citadinos aparados nas arestas afiadas – nossa cauda transformada em espírito. Somos cultivados de modo que nossa periculosidade definhe: com ela nossa energia vital. Julien Sorel é um monstro diante dos capados poodles do seu tempo. Tem que usar de hipocrisia para viver, o que fere seu orgulho, fazendo-o duvidar de si, desprezar-se. Eis o nascimento da má consciência, a qual não passa de falta de clareza sobre si mesmo. Tal má consciência deve ser reconhecida publicamente, só então o indivíduo pode ser aceito de novo no seio da comunidade. De arestas aparadas, obviamente, e todos os órgãos atrofiados. Se não me engano, Aristóteles disse certa vez que escolher entre suas habilidades aquelas necessárias à sua época é o caráter da vocação. Creio no contrário, e às vezes uma época desperdiça seus melhores espécimes em prol de um declarado programa de castração. Assim sendo, fecho com Nietzsche, que afirmou ser a empatia um tipo de mimetismo atrofiado – herança instintiva da época na qual o animal homem queria se misturar ao ambiente, repetindo em si de modo maquinal o gesto do outro, na tentativa de intuir se este representava ou não perigo. Com a domesticação, colocou-se um felpudo penhoar de dormir sobre esse instinto: que passa a ser visto através da máscara metonímica da piedosa capacidade de “se colocar no lugar do outro”. Porém, a base vital dessa fatuidade permanece sendo a conservação de si mesmo, o que em termos da boa sociedade significa egoísmo – conceito que contradiz o fundamento moderno da própria empatia. Logo, temos uma contradição em termos. Toda a civilização é uma contradição em termos.

Extraído DAQUI

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 17 de maio de 2010, 18:37

quarta-feira, maio 12, 2010

‘Eletrônicos duram 10 anos; livros, 5 séculos’, diz Umberto Eco

Ensaísta e escritor italiano fala em entrevista exclusiva de seu novo trabalho, ‘Não Contem com o Fim do Livro’

MILÃO – O bom humor parece ser a principal característica do semiólogo, ensaísta e escritor italiano Umberto Eco. Se não, é a mais evidente. Ao pasmado visitante, boquiaberto diante de sua coleção de 30 mil volumes guardados em seu escritório/residência em Milão, ele tem duas respostas prontas quando é indagado se leu toda aquela vastidão de papel. “Não. Esses livros são apenas os que devo ler na semana que vem. Os que já li estão na universidade” – é a sua preferida. “Não li nenhum”, começa a segunda. “Se não, por que os guardaria?”

Na verdade, a coleção é maior, beira os 50 mil volumes, pois os demais estão em outra casa, no interior da Itália. E é justamente tal paixão pela obra em papel que convenceu Eco a aceitar o convite de um colega francês, Jean-Phillippe de Tonac, para, ao lado de outro incorrigível bibliófilo, o escritor e roteirista Jean-Claude Carrière, discutir a perenidade do livro tradicional. Foram esses encontros (“muito informais, à beira da piscina e regados com bons uísques”, informa Umberto Eco) que resultaram em Não Contem Com o Fim do Livro, que a editora Record lança na segunda quinzena de abril.

A conclusão é óbvia: tal qual a roda, o livro é uma invenção consolidada, a ponto de as revoluções tecnológicas, anunciadas ou temidas, não terem como detê-lo. Qualquer dúvida é sanada ao se visitar o recanto milanês de Eco, como fez o Estado na última quarta-feira. Localizado diante do Castelo Sforzesco, o apartamento – naquele dia soprado por temperaturas baixíssimas, a neve pesada insistindo em embranquecer a formidável paisagem que se avista de sua sacada – encontra-se em um andar onde antes fora um pequeno hotel. “Se eram pouco funcionais para os hóspedes, os longos corredores são ótimos para mim pois estendo aí minhas estantes”, comenta o escritor, com indisfarçável prazer, ao apontar uma linha reta de prateleiras repletas que não parecem ter fim. Os antigos quartos? Transformaram-se em escritórios, dormitórios, sala de jantar, etc. O mais desejado, no entanto, é fechado a chave, climatizado e com uma janela que veda a luz solar: lá estão as raridades, obras produzidas há séculos, verdadeiros tesouros. Isso mesmo: tesouros de papel.

Conhecido tanto pela obra acadêmica (é professor aposentado de semiótica, mas ainda permanece na ativa na Faculdade de Bolonha) como pelos romances (O Nome da Rosa, publicado em 1980, tornou-se um best-seller mundial), Eco é um colecionador nato; além de livros, gosta também de selos, cartões-postais, rolhas de champanhe. Na sala de seu apartamento, estantes de vidro expõem tantos os livros raros – que, no momento, lideram sua preferência – como conchas, pedras, pedaços de madeira. As paredes expõem quadros que Eco arrematou nas visitas que fez a vários países ou que simplesmente ganhou de amigos – caso de Mário Schenberg (1914-1990), físico, político e crítico de arte brasileiro, de quem o escritor guarda as melhores recordações.

Aos 78 anos, Eco – que tem relançado no País Arte e Beleza na Estética Medieval (Record, 368 págs., R$ 47,90, tradução de Mario Sabino) – exibe uma impressionante vitalidade. Diverte-se com todo tipo de cinema (ao lado de seu aparelho de DVD repousa uma cópia da animação Ratatouille), mantém contato com seus alunos em Bolonha, escreve artigos para jornais e revistas e aceita convites para organizar exposições, como a que o transformou, no ano passado, em curador, no Museu do Louvre, em Paris. Lá, o autor teve o privilégio de passear sozinho pelos corredores do antigo palácio real francês nos dias em que o museu está fechado. E, como um moleque levado, aproveitou para alisar o bumbum da Vênus de Milo. Foi com esse mesmo espírito bem-humorado que Eco – envergando um elegante terno azul-marinho, que uma revolta gravata da mesma cor tratava de desalinhar; o rosto sem a característica barba grisalha (raspada religiosamente a cada 20 anos e, da última vez, em 2009, também porque o resistente bigode preto o fazia parecer Gengis Khan nas fotos) – conversou com a reportagem do Sabático.

O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias?
O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de segurança.

Qual a diferença entre o conteúdo disponível na internet e o de uma enorme biblioteca?

A diferença básica é que uma biblioteca é como a memória humana, cuja função não é apenas a de conservar, mas também a de filtrar – muito embora Jorge Luis Borges, em seu livro Ficções, tenha criado um personagem, Funes, cuja capacidade de memória era infinita. Já a internet é como esse personagem do escritor argentino, incapaz de selecionar o que interessa – é possível encontrar lá tanto a Bíblia como Mein Kampf, de Hitler. Esse é o problema básico da internet: depende da capacidade de quem a consulta. Sou capaz de distinguir os sites confiáveis de filosofia, mas não os de física. Imagine então um estudante fazendo uma pesquisa sobre a 2.ª Guerra Mundial: será ele capaz de escolher o site correto? É trágico, um problema para o futuro, pois não existe ainda uma ciência para resolver isso. Depende apenas da vivência pessoal. Esse será o problema crucial da educação nos próximos anos.

Não é possível prever o futuro da internet?

Não para mim. Quando comecei a usá-la, nos anos 1980, eu era obrigado a colocar disquetes, rodar programas. Hoje, basta apertar um botão. Eu não imaginava isso naquela época. Talvez, no futuro, o homem não precise escrever no computador, apenas falar e seu comando de voz será reconhecido. Ou seja, trocará o teclado pela voz. Mas realmente não sei.

Como a crescente velocidade de processar dados de um computador poderá influenciar a forma como absorvemos informação?

O cérebro humano é adaptável às necessidades. Eu me sinto bem em um carro em alta velocidade, mas meu avô ficava apavorado. Já meu neto consegue informações com mais facilidade no computador do que eu. Não podemos prever até que ponto nosso cérebro terá capacidade para entender e absorver novas informações. Até porque uma evolução física também é necessária. Atualmente, poucos conseguem viajar longas distâncias – de Paris a Nova York, por exemplo – sem sentir o desconforto do jet lag. Mas quem sabe meu neto não poderá fazer esse trajeto no futuro em meia hora e se sentir bem?

É possível existir contracultura na internet?

Sim, com certeza, e ela pode se manifestar tanto de forma revolucionária como conservadora. Veja o que acontece na China, onde a internet é um meio pelo qual é possível se manifestar e reagir contra a censura política. Enquanto aqui as pessoas gastam horas batendo papo, na China é a única forma de se manter contato com o restante do mundo.

Em um determinado trecho de ‘Não Contem Com o Fim do Livro’, o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória – que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar.

De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco outra, como a memória. Lembro-me de uma maravilhosa história de ficção científica escrita por Isaac Asimov, nos anos 1950. É sobre uma civilização do futuro em que as máquinas fazem tudo, inclusive as mais simples contas de multiplicar. De repente, o mundo entra em guerra, acontece um tremendo blecaute e nenhuma máquina funciona mais. Instala-se o caos até que se descobre um homem do Tennessee que ainda sabe fazer contas de cabeça. Mas, em vez de representar uma salvação, ele se torna uma arma poderosa e é disputado por todos os governos – até ser capturado pelo Pentágono por causa do perigo que representa (risos). Não é maravilhoso?

No livro, o senhor e Carrière comentam sobre como a falta de leitura de alguns líderes influenciou suas errôneas decisões.

Sim, escrevi muito sobre informação cultural, algo que vem marcando a atual cultura americana que parece questionar a validade de se conhecer o passado. Veja um exemplo: se você ler a história sobre as guerras da Rússia contra o Afeganistão no século 19, vai descobrir que já era difícil combater uma civilização que conhece todos os segredos de se esconder nas montanhas. Bem, o presidente George Bush, o pai, provavelmente não leu nenhuma obra dessa natureza antes de iniciar a guerra nos anos 1990. Da mesma forma que Hitler devia desconhecer os relatos de Napoleão sobre a impossibilidade de se viajar para Moscou por terra, vindo da Europa Ocidental, antes da chegada do inverno. Por outro lado, o também presidente americano Roosevelt, durante a 2.ª Guerra, encomendou um detalhado estudo sobre o comportamento dos japoneses para Ruth Benedict, que escreveu um brilhante livro de antropologia cultural, O Crisântemo e a Espada. De uma certa forma, esse livro ajudou os americanos a evitar erros imperdoáveis de conduta com os japoneses, antes e depois da guerra. Conhecer o passado é importante para traçar o futuro.

Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma?

Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto – o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto.

Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes?

Sim, de uma forma geral. Nesse apartamento em Milão, estão apenas 30 mil – o restante está no interior da Itália, onde tenho outra casa. Mas sempre me desfaço de algumas centenas, pois, como disse antes, é preciso fazer uma filtragem.

Por que o senhor impediu sua secretária de catalogá-los?

Porque a forma como você organiza seus livros depende da sua necessidade atual. Tenho um amigo que mantém os seus em ordem alfabética de autores, o que é absolutamente estúpido, pois a obra de um historiador francês vai estar em uma estante e a de outro em um lugar diferente. Eu tenho aqui literatura contemporânea separada por ordem alfabética de países. Já a não contemporânea está dividida por séculos e pelo tipo de arte. Mas, às vezes, um determinado livro pode tanto ser considerado por mim como filosófico ou de estética da arte; depende do motivo da minha pesquisa. Assim, reorganizo minha biblioteca segundo meus critérios e somente eu, e não uma secretária, pode fazer isso. Claro que, com um acervo desse tamanho, não é fácil saber onde está cada livro. Meu método facilita, eu tenho boa memória, mas, se algum idiota da família retira alguma obra de um lugar e a coloca em outro, esse livro está perdido para sempre. É melhor comprar outro exemplar (risos).

Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica.

E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas – por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault, fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito.

Por falar em ‘O Pêndulo de Foucault’, comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown.

Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e tenta convencer os leitores de que realmente é um assunto a ser considerado. Ou seja, fez uma bela maquiagem. Fomos apresentados neste ano em uma première do Teatro Scala e ele assim se apresentou: “O senhor não me admira, mas eu gosto de seus livros.” Respondi: Não é que eu não goste de você – afinal, eu criei você (risos).

Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa, há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus?

De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade.

Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado?

Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. “Por quê?”, perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances – até pensei em escrever um ensaio sobre esse hábito. Bem, quando se fala em listas na cultura, normalmente se pensa em literatura. Mas, como se trata de um museu, decidi elaborar uma lista visual e musical, essa sugerida pela direção do Louvre. Assim, tive o privilégio (que não foi oferecido a Dan Brown) de visitar o museu vazio, às terças-feiras, quando está fechado. E pude tocar a bunda da Vênus de Milo (risos) e admirar a Mona Lisa a apenas 20 centímetros de distância.

O senhor esteve duas vezes no Brasil, em 1966 e 1979. Que recordações guarda dessas visitas?

Muitas. A primeira, em São Paulo, onde dei algumas aulas na Faculdade de Arquitetura (da USP), que originaram o livro A Estrutura Ausente. Já na segunda fui acompanhado da família e viajamos de Manaus a Curitiba. Foi maravilhoso. Lembro-me de meu editor na época pedindo para eu ficar para o carnaval e assistir ao desfile das escolas de samba de camarote, o que não pude atender. E também me recordo de imagens fortes, como a da moça que cai em transe em um terreiro (para o qual fui levado por Mario Schenberg) e que reproduzo em O Pêndulo de Foucault.

Ubiratan Brasil, para o Caderno 2 do Estadão. Extraído de DigitalManuscripts