quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Comunicação e cultura em Paulo Freire: 30 anos depois

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas, seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive no Brasil.

Visitando a trabalho o sul da Índia, estado de Tamilnadu, no início de 2010, o professor de física da Universidade de Brasília, Amílcar Rabelo de Queiroz, deparou-se com uma situação reveladora. Em viagem para a região de Thanjavur conheceu um vilarejo pobre – Pattukkotta – que vive basicamente da pequena agricultura. Lá visitou uma escola de educação fundamental. Para facilitar sua apresentação e criar um clima amistoso, os colegas do Institute of Mathematical Sciences (IMSC), que com ele viajavam, informam aos professores da escola que Amílcar era brasileiro, da terra de Pelé. “Brasil? Pelé?”. Repetem várias vezes. De repente, um deles sorri e exclama: “ah, ah, Brasil, claro, terra de Freire, Paulo Freire!” E alcança na estante vários livros de um dos nossos maiores educadores, traduzido, estudado e reconhecido em todo o mundo.

Paulo Freire faleceu há quase 14 anos, em maio de 1997. Se estivesse vivo, completaria noventa anos em setembro. Sua obra, seu pensamento e sua ação deixaram marcas profundas em vários campos do conhecimento. Seu único ensaio especificamente sobre comunicação – Extensão ou Comunicação? – foi escrito no exílio chileno, em 1968, e publicado pela Editora Paz e Terra, no Brasil, em 1971.

Tenho afirmado recorrentemente que as reflexões de Freire sobre comunicação nunca estiveram tão atuais. [cf. nesta Carta Maior “Paulo Freire, direito à comunicação e PNDH3”].

Direito à comunicação
A necessidade de construção e positivação de um direito à comunicação foi identificada há mais de 40 anos pelo francês Jean D’Arcy, quando diretor de serviços audiovisuais e de rádio do Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, em 1969. Naquela época ele afirmava:

Virá o tempo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos terá de abarcar um direito mais amplo que o direito humano à informação, estabelecido pela primeira vez 21 anos atrás no Artigo 19. Trata-se do direito do homem de se comunicar.

A proposta de D’Arcy, na verdade, assumia e consagrava uma perspectiva “dialógica” da comunicação que já havia sido elaborada, do ponto de vista conceitual, por Paulo Freire no ensaio "Extensão ou comunicação"?

Freire recorre à raiz semântica da palavra comunicação e nela inclui a dimensão política da igualdade, a ausência de dominação. Para ele, comunicação implica um diálogo entre sujeitos mediados pelo objeto de conhecimento que por sua vez decorre da experiência e do trabalho cotidiano. Ao restringir a comunicação a uma relação entre sujeitos, necessariamente iguais, toda “relação de poder” fica excluída. O próprio conhecimento gerado pelo diálogo comunicativo só será verdadeiro e autêntico quando comprometido com a justiça e a transformação social. A comunicação passa a ser, portanto, por definição, dialógica, vale dizer, de “mão dupla”, contemplando, ao mesmo tempo, o direito de ser informado e o direito de acesso aos meios necessários à plena liberdade de expressão.

Como se vê, Freire teoriza a comunicação interativa antes da revolução digital, vale dizer, antes da internet e de suas redes sociais. No nosso tempo, quando as novas tecnologias [TICs] rompem com a unidirecionalidade da comunicação “de massa” tradicional, o conceito de comunicação relacional e transformadora oferece uma referencia normativa revitalizada e desafiadora.

História das idéias
Ao reafirmar a atualidade do pensamento de Paulo Freire, especificamente para o campo da comunicação, tomo a liberdade de registrar os trinta anos de "Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire", publicado pela Paz e Terra, em março de 1981 (2ª. edição 1984). O livro é uma adaptação de tese de doutorado defendida em agosto de 1979.

Na verdade, o argumento central sobre a importância de Freire para o estudo da comunicação já havia aparecido em artigo anterior que publiquei, com Clifford Christians, na revista inglesa Communication (vol. 4, n. 1, 1979) sob o título “Paulo Freire: the political dimension of dialogic communication”, traduzido e publicado em português pela revista Síntese (vol. VI, n. 16, maio/agosto de 1979).

A história das idéias nos diferentes campos do conhecimento – inclusive na Comunicação – muitas vezes contém omissões, deliberadas ou não, ao deixar de registrar contribuições feitas por autores que, por diferentes razões, não se situam no seu “mainstream” ou não se alinham aos grupos dominantes na academia. Daí, às vezes, a necessidade de auto-registros isolados como esse.

Hoje, a contribuição de Paulo Freire para o campo da comunicação é fonte de inspiração e referência. A situação, certamente, não era a mesma no final da década de 70 do século passado. Embora reconhecido internacionalmente e estudado em várias disciplinas – filosofia, sociologia, serviço social, religião, história – seu pensamento era quase que totalmente ignorado nos estudos de comunicação, inclusive na sua terra, o Brasil.

A incrível história do prof. Amílcar na Índia, de que só agora tomei conhecimento, serviu de mote para que fizesse, então, esse duplo registro: a permanente atualidade do pensamento do educador brasileiro e os trinta anos do Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire.


Venício A. de Lima é professor titular de Ciência Política e Comunicação da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Liberdade de Expressão vs. Liberdade de Imprensa – Direito à Comunicação e Democracia, Publisher, 2010.

DAQUI

sábado, fevereiro 05, 2011

Comentário sobre o filme “Os narradores de Javé” – Diretora: Eliane Caffé

O filme “os Narradores de Javé” conta a História de um vilarejo afastado, surgido no meio de um vale e que está na iminência de sumir por causa do projeto de instalação de uma hidroelétrica. Pela descrição do lugar, conclui-se que se trata de um vilarejo localizado num sertão de pessoas humildes e que não podem barrar a ordem que vem de cima, imperativamente.

A única chance de brecar a vinda e instalação da hidroelétrica é provando que a cidade tem importância, tem uma história. O grande problema se dá quando a questão é proposta. Ninguém sabe escrever ou tem a capacidade de produzir um tratado histórico. A única figura letrada é um tal de Antônio Biá, um malandro, que para manter o seu emprego nos correios da cidade, como a Sherazade do conto árabe As mil e uma noite, passa a inventar histórias sem fim dos moradores. Assim, os correios continuou a funcionar e ele não perdeu o emprego. Antônio é recrutado pelos moradores para contar a “grande” história de Javé.

Para isso, ele precisa ouvir os mais velhos contarem as suas versões. Aqui temos a idéia dos velhos como os portadores da tradição, aqueles que têm autoridade para reavivar os fatos adormecidos na memória existencial. O interessante é que as histórias apresentam versões tendenciosas. Estas versões estão sempre a favor daquele que as conta. Ou seja, num dado sentido a diretora do filme, muito inteligentemente, quer passar a idéia que a História é sempre dominada por aquele que a conta. O portador do poder da construção da História sempre tenderá a contar a sua versão como a verdadeira para manter-se privilegiado.

Antônio Biá envolve-se em várias aventuras. Dia a dia as pessoas do lugar passam a depositar confiança nos seus trabalhos, nas suas pesquisas de campo. Ele passa a ser respeitado como uma espécie de “salvador” – ele e o seu livro. Os moradores o seguem aonde quer que ele vá. Aqui percebe-se que o filme trata também sobre o poder da palavra. Biá por ser o único a ter condições de reunir os documentos e recontar a história da cidade, passa a ter um tratamento diferenciado: os comerciantes passam a reverenciá-lo. Sendo que este é um comportamento típico do povo para com aqueles que gozam de algum poder, de alguma autoridade ou mesmo influência. Ou seja, de que aquele que possui a prerrogativa pode beneficiar de alguma forma. Este é um aspecto típico da antropologia do povo brasileiro. Aquele que detém o poder da palavra, tem a seu favor condições de reivindicar, negociar ou manipular os fatos ao seu favor. Este paradoxo permite descrever que a conservação do poder tem como sua principal arma o domínio do saber, da educação formal. As revoluções não são feitas por canhões que atiram, mas por cabeças que pensam e transformam o pensamento numa iniciativa histórica.

Todavia, o que Biá menos faz é escrever sobre a História da cidade. Ele se envolve numa série de aventuras intrigantemente boêmias, em porres vadios e irresponsáveis e não sistematiza as informações, a fim de reunir as informações e escrever a saga da cidade. Biá é, na verdade, a personificação do malandro brasileiro: prosaico em seu comportamento, mas elegante, envolvente, assediador por natureza; irresponsável por obviedade, admirado pelas suas estroinices; desenvolto em suas ações, sempre escorregadio, liso, completamente capaz de ter uma resposta para cada situação que as circunstâncias exigirem.

Afinal, o povo descobre que Biá não levou a bom cabo o projeto a ele incumbido. Ele não redigiu uma única página do “livro da vida da cidade”. Por causa disso, ele foi execrado pelo povo do lugar que depositou confiança extremada em sua capacidade de organizar as narrações orais num verdadeiro discurso cientifico. A cidade foi condenada a “sumir do mapa” e existir somente na memória do povo. Aqui a diretora mostra que o povo é o verdadeiro portador da História. Não existe História sem uma memória que a abrigue. O povo muda do lugar e segue o seu caminho incerto, mas sem saber que esta ação está a serviço da História. A História vai aonde o povo está. O homem é quem constrói a História como um elemento vivo, dinâmico, caminhante num fluxo contínuo. A História está grávida dos feitos dos homens. A cidade afunda no coração das massas de águas represadas, mas existe com sentido verdadeiramente vivo no coração dos homens. Os homens dão partos contínuos à História, seja num vilarejo afastado ou numa grande cidade.

O filme possui clareza e lógica na sua abordagem. É um filme consistente. Não possui um aspecto vago, sem conteúdos. Possui informações que podem ser observadas e ampliadas como as que foram abordadas acima. Por ser um filme cômico, torna-se agradável assisti-lo e ver o desfecho da trama. Cada cena envolve aquele que vem a vê-lo.

Não consegui detectar nenhum ponto fraco no filme. Tenho apenas pontos fortes a retratar: (1) o filme é fiel em retratar o povo. Maioria do elenco é constituído por gente comum. As fisionomias cansadas, esquecidas, são mostradas com muita propriedade, o que é um ponto positivo e não artificial. (2) O ambiente, a disposição das casas do vilarejo, os movéis rústicos, reproduzem com fidedignidade a casa dos sertanejos. (2) A fala é típica do sertão esquecido, analfabeto. Fala esta que “fala” a própria condição humilde do povo. Fala plástica, desprovida de aparatos eruditos. Apenas fala do povo comum, da gente comum, que descreve a cultura peculiar do povo, que tem a sua própria história.


Escrito em 2006

quinta-feira, janeiro 27, 2011

Como estrelas na terra e a poética do humano

Talvez a meia dúzia de leitores-visitantes mensais desse blog me julguem sisudo. Sério demais. Com trejeitos alambicados. Com estilo textual afetado. Os sérios não são levados em conta. Não se trata de uma reclamação, um lamento. Mas apenas uma observação gratuita, momentânea. Geralmente escrevo aquilo que me vem à ideia, como resultado de experiências e observações que faço. E hoje à tarde, tive a oportunidade de assistir ao filme Como estrelas na Terra pela segunda vez. Impossível não fazer constatações sérias sobre a película.

É um dos filmes mais belos que já vi. Desde que o filme Quem quer ser um milionário ganhou oito Oscars, que o mundo direcionou o olhar com mais atenção para a Índia. Como estrelas da terra é uma dessas películas que suscitam constatações graves, porém, alegres, poéticas, catárticas. Faz-me lembrar Sociedades dos Poetas Mortos ou Língua das Mariposas. A obra aponta para aquilo que Paulo Freire verbaliza em Pedagogia do Oprimido: "ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo".

O papel do educador é fazer com que aprendente tenha uma emersão. E dessa emersão, a sua consciência (daquele que aprende) estabeleça vínculo com o mundo e ele saiba quem é enquanto sujeito histórico. É a partir desse encontro que os dramas, deficiências e dores existenciais são superados. Como estrelas na terra revela, sugere-nos, com muita poesia e beleza, o quanto a compreensão, o olhar terno e o calor do encontro pode fazer dos homens, verdadeiros seres humanos.

Uma das falas mais belas do filme é quando o professor Ram Shankar Nikumbh (Aamir Khan, diretor, produtor, escritor do filme) afirma que a arte existe para que enuncie o sentir humano. Acredito que esta afirmação seja uma metáfora-metaliguistica da obra, falando dela mesma. Ou seja, o filme é um daqueles trabalhos que fazem desvelar o sentir de cada um de nós. Vi ao filme duas vezes e (afirmo sem receios ) chorei as duas vezes. Todos têm a sua importância na terra. Todos os homens são seres distintos e o universo foi feito com cores variadas. Todos existem como estrelas na terra.

Leia AQUI uma pequena sinopse do filme

sexta-feira, janeiro 21, 2011

Sobre deuses, pássaros e gaiolas, por Rubem Alves

Esta semana, em meu local de trabalho, achei um livro do escritor Rubem Alves. Alves, mineiro de Boa Esperança, é um poeta de todas as horas. Seus textos são leves, suaves, sempre enfocando aspectos humanizantes; sempre nos convidando a brincar; a olhar para o mundo com olhos de criança. O livro chama-se O Mundo num grão de areia, baseado num poema de William Blake. Li as duas crônicas iniciais do livro. A primeira falava do filme O Feitiço de Aqüila, produzido em meados dos anos oitenta. A segunda falava sobre deuses, rituais, igreja e religião. Achei o texto delicioso e muito bem urdido. Uma reflexão profunda e poética sobre o sentido da religião e o quanto esta enfraquece o potencial de beleza da divindade. As religiões engaiolam a Deus; enfeiam a sua sacralidade. Diminuem as suas qualidades. Afirmam que Deus têm certos atributos e, que os outros que não andam de acordo com aquelas qualidades, estão em erro mortal. Deus para ser Deus não pode estar preso a nenhum nicho, em nenhuma gaiola. São por causa do engaiolamento da compreensão de quem é Deus que se fecundam os conflitos, as guerras e toda sorte de injustiçamento. Ao ler o texto, senti que deveria compartilhá-lo. Por isso, segue o belo texto abaixo.

Você pode ler o texto de Rubem Alves AQUI

domingo, janeiro 16, 2011

O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman

Terminei de assisti, hoje pela manhã, ao filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. E que filme! Deter-me-ei em uma outra ocasião numa reflexão mais consistente. Talvez nesse momento, minhas palavras soem hiperbólico-poéticas em demasia para fazer jus à película. Terei que sair daqui a pouco. Bergman narra a saga de Antonius Block, em meados do século XIV, numa Europa devastada pela peste negra. A morte espreita Block. As cenas foram filmadas em preto e branco, evidenciando a aridez do ambiente condenado pela ignorância, pela fome, doença, supertições, ceticismo, loucura generalizada. Talvez seja esse o aspecto que impele mais beleza à obra. Nem por isso, o filme deixa de ser absurdamente poético. As paisagens nos impulsionam à imaginação. Campos enormes. Pedaços de planícies vazias. Praias imensas.

A discussão em torno da morte, dão à temática da obra um profundo debate sobre a existência, o silêncio de Deus, a morte e o sentido da vida. Antonius Block ao jogar com morte, deixa a mensagem de que a vida é um grande duelo. A nossa existência é feita de jogadas e num dado momento nós vamos perder. Não há como ganhar da morte. Ludibriar os seus intentos é vão. No filme não ouvimos a voz divina. As preces são direcionadas a ouvidos ocultos. Como numa das reflexões de Block. Diz ele que Deus é como uma criatura que se esconde no escuro e nunca responde. Ou: é difícil conceber a Deus, pois ele se esconde por trás de uma neblina de vagas promessas.

Abaixo, um pequeno trecho, um dos diálogos mais belos e atordoadores do filme. Antonius Block dialoga com a morte sobre o sentido da vida, Deus e a própria morte:

quarta-feira, janeiro 12, 2011

Caso Cesare Battisti (III)

No site Cesare Livre! é possível assinar uma petição eletrônica a fim de que Cesare Battisti, acusado de assassinatos e indigestos atos políticos pelo Estado Italiano, possa alcançar as benesses necessárias da parte do Supremo Tribunal Federal brasileiro. O destino de Battisti está nas mãos de Gilmar Mendes e Cezar Peluso, eminentes e doutos senhores do direito, ministros da "egrégia" Suprema Corte brasileira.

Não bastou que Lula resolvesse não extraditar o italiano. Foi necessário da parte da direita fascista brasileira, desenterrar o caso, fazer emendas políticas e duvidosas manobras jurídicas a fim de que o Cesare seja entregue ao aprendiz de Mussolini, Silvio Berlusconi. Como, por exemplo, a notícia veiculada pelo Sul 21 de que o Democratas (DEM, leia-se "demo"), recorrerá ao STF contra a decisão do ex-presidente Lula, que no último dia 31 de dezembro resolveu não extraditar Battisti, acatando o parecer da Advocacia Geral da União (AGU).

Visite o site Cesare Livre! e deixe a sua assinatura. Todo movimento será importante para livrar Cesare da boca dos leões de Roma e dos capachos neofascistas do STF brasileiro (leia-se Gilmar Mendes e Cezar Peluso).

Cesare Livre! AQUI

terça-feira, janeiro 11, 2011

Sobre reality shows

Escrito há quase três anos, numa ocasião como esta.

No dia 10 de janeiro de 2008, eu cheguei cansado em casa à noite. Deitei no sofá. O desejo veemente de descansar após um dia estafante de aborrecimentos, de profunda insalubridade. Acordara cedo aquele dia como de praxe. Não sou muito dado a assistir programas de televisão. Mas naquele dia estava sozinho em casa. Peguei o controle e pensei comigo. “Vamos ver o que está passando nessa caixa maluca”. Busquei ser razoável, consciencioso. Tenho pensamentos negativos sobre a televisão. Imagino aquelas pessoas que ficam expostas de 20 a 30 horas da semana diante das imagens. Julgo que isso é um exercício absurdo. Afirmo num acesso de deslocamento que a televisão brasileira precisa passar por um processo de reforma moral e educativa. Os programas em sua maioria são de péssima qualidade e de uma pobreza intelectual bastante indesejável.

Naquela noite eu busquei ser solidário, mas a minha aquiescência não sobreviveu às investidas dos fatos. Deti-me no Big Brother Brasil. Simulei uma experiência. Limitei-me. Arquitetei mentalmente que ficaria exposto àquelas imagens por uns 20 minutos. Todavia não suportei mais que dez. Vi um Pedro Bial tentando ser simpático. Esforçando-se para ser agradável. Expunha sua indigência intelectual. Justificava-se. No dia anterior insistira numa opinião equivocada. Errara sobre o similar de Dionísio na mitologia romana – Baco. Aproveitava o momento para fazer conexões despropositadas e vexatórias com os participantes do programa. A uma chamava de musa a outro de um dos personagens da mitologia greco-romana. Estava nítido que o sujeito desgraçadamente não levava jeito para ser animador de circo. Moços de corpanzil atlético; de jeito e maneiras saudáveis; com aparente autonomia intelectual. Por sua vez, moças de corpos sensuais, de seios fartos. Ou seja, em minha análise vejo que o que está em jogo é a corporeidade atlética dos participantes, a saúde física, pois o que se busca é o caos, o nascimento da mediocridade que se insinua por meio das imagens recepcionadas pelos telespectadores.

Vi às imagens de uma festa que acontecera um dia antes. Uma espécie de evento “com objetivo para potencial de orgia”. As investidas dos moços que, seminus, insinuavam os corpos na tentativa de requestar as moças participantes para um “programa” dês-compromissado. O álcool destrancava os sentimentos mais escondidos. Lançava fora os pudores. No fundo o que se buscava era justamente que essas tentativas se tornassem substanciais, pois há milhões de brasileiros assistindo àquelas imagens. O público está sedento por luxúria, leviandades e voyeurismo. O desejo dos telespectadores é que “aquele mundo” – o da dita casa – se torne no pior dos mundos. Isso alimentará com lixo as suas almas. A falência da moral é desejada; a penúria espiritual é o que o público deseja em sua veleidade atomizada.

George Orwell escreveu o livro 1984. Neste livro, o escritor insinua um controle do Estado através da televisão, instalada em cada residência, ligada a um maquinismo central controlador. Dessa base coordenadora seria possível controlar a vida dos cidadãos. O Estado “assistiria às ações dos seus súditos”. Esse ente controlador é chamado de “Grande Irmão” (Big Brother) por Orwell. Já no programa da Rede Globo há uma inversão. O "estado" é representado pelos telespectadores que espionam as ações dos participantes confinados naquela jaula cercada de câmeras. Todavia, no dizer de Muniz Sodré em seu excelente ensaio O Monopólio da Fala – Função e Linguagem da Televisão no Brasil, “a eficiência da dominação, portanto, consiste em ocultar, do melhor modo possível, o controle totalitário dos pensamentos, dos gestos, da palavra, enfim do desejo”[1]. Assim, com relação ao livro 1984 há paradoxalmente uma inversão, pois enquanto este mostra um estado de controle, no programa em questão as pessoas pensam que assistem, mas na verdade estão presas pelo feitiço do controle. Por intermédio do poder com potencial lúbrico e de simulacro da realidade que a imagem possui. De alguma forma o sistema controla os desejos individuais do consumidor final, aquele que ab-sorve as imagens. O telespectador representa um mundo de desejos e aspirações que precisa ser preenchido pelo poder controlador de um centro que estabelece o que é e não é em termos de riqueza cultural e estética. Ou seja, o telespectador é um viajante passivo, pois apenas recepciona sem interagir com as imagens. Trata-se de um pacote pronto que é lançado a ele. Cabe aceitar ou reprovar.

O poder encatátório das imagens penetra no mais íntimo da privacidade do indivíduo. Aonde ninguém chega a imagem chega, pois a individualidade supõe “separação”, “ruptura” com o outro. A imagem pré-estabelecida por uma equipe técnica com as ânsias do mercado, promove um desfecho para a trama, que necessita ser a pior possível, pois os consumidores do produto precisam de intrigas triviais e relações banalizadas. Desse desenlace brota o lucro e o controle. O controle ideológico não é estereotipado. Não aparece aprioristicamente. Os verdadeiros ladrões não roubam fazendo escarcéu. Eles buscam o silêncio discreto – o mais que possam. Da mesma forma, o controle ideológico da mass-media busca eliminar com ‘uma aparência’(e aí está o nó-górdio da pós-modernidade) a questão de sua verdadeira finalidade, insinuando como ‘natural’ a necessidade geral de uma informação centralizada e abstrata[2].

Abaixo segue um texto escrito por Frei Betto. Em 2002 ele escreveu estas palavras publicada no sítio ADITAL. O texto é poético em sua essência e denuncia o abandono daquele que se devota diante do programa.

Reality Show
Frei Betto

Sim, quero ver a tua vida em detalhes, minuto a minuto, e ouvir as palavras que jorram de tua boca, rir o teu riso e enraivecer-me com o teu rancor, assistir à tua paquera, ao teu namoro, ao teu gesto de carinho, à tua transa, espelhando tua beleza em minha indigência.
Quero deixar de lado amizades, trabalhos, livros e lazer e, de olhos pregados em tua magia, absorver a tua arte de movimentar-se no labirinto da quimera, livre de dores e afazeres, mergulhado na fama e na fortuna.
Venerarei o teu ócio na vitrine, exibindo-te sem pudor a milhões de olhos, despido por infinitas imaginações, liberto das grades odiosas dessa existência de penúria anônima, escrava da rotina atroz de quem jamais aprendeu a voar, nem foi aquinhoado pela sorte. Abrirei em meu monitor a porta da tua casa mágica e, sob o peso de minhas carências, ingressarei virtualmente em tua liberdade, no teu gozo, no teu charme, no teu riso, na tua sensualidade, como quem toca com os olhos os veneráveis ícones que nos fazem transcender da mediocridade cotidiana.
Minha fidelidade ao teu exibicionismo será a chancela que sacramentará a tua vida como real e, do lado de cá, buscarei a alforria de minha indigência em tuas loucuras, em teus jogos e em tuas danças. Quero decifrar em ti a minha própria intimidade, rasgar a minha alma em tuas mãos e deixar a minha mente impregnar-se dessa ilusão que faz de mim teu pequeno irmão.
Recobrirei a minha realidade com a tua fantasia e farei de teu espetáculo o brilho de meus olhos vazados, nessa permuta hipnótica de quem busca a complacência com seus próprios limites para tentar encobrir a mesquinhez que me corrói. Ficarei atento ao teu banho, ao teu sexo, à tua ira e às tuas refeições, fiel à exposição perene deste teu ser desprovido de preocupações e conteúdos, entregue a esta liberdade que faz de ti o que não sou, e me permite projetar em teu vigor as minhas fraquezas e em teu esplendor o sabor amargo de meu anonimato.
Verei em tua janela, que se abre para a minha casa, a subversão de todos os valores, como se nos cômodos que te abrigam findassem todos os princípios, escorrendo pelo ralo tudo aquilo que num lar soava como sinônimo de família. Ampliados pela eletrônica, meus olhos contemplarão as tuas intimidades mais ousadas. Sentirei os teus odores e beberei o teu suor.
Esticarei o meu olhar até os limites proibitivos do escárnio e, quem sabe, verei o teu rancor extirpar toda a inveja que jaz em meu peito e a tua voracidade explodir em taras que haverão de suprir os meus desejos mais ignóbeis e saciar as minhas pulsões mais abjetas. Deste lado da tela, sentirei os teus sentimentos e comungarei as tuas emoções, vendo-te virar pelo avesso nesse zoológico de luxo, exposto à multidão como carne no açougue, a engordar no balcão do voyeurismo a gorda soma dos teus patrocinadores.
Em ti livrar-me-ei de todo ideal que não seja fazer da vida um jogo de entretenimentos, a sedução epidérmica como sucedâneo de quem não atinge as profundezas do amor, vendo-te representar a ti mesmo sob os aplausos invejosos de meu olhar sequioso, preso ao teu desempenho huit-clos.
Aprisionarei a tua vida em meu olhar, tornar-me-ei teu carcereiro eletrônico, decidindo o teu presente e o teu futuro, absolvendo-te ou condenando-te, juiz supremo que se ignora refém do próprio equívoco.
Inebriado com as tuas loucuras, te elegerei objeto supremo de minha admiração, deixando-me devorar pelo teu sucesso, do qual farei tema de todas as minhas conversas.
À espera de que os corvos venham devorar o meu coração, e agora que a nossa história foi para os quintos dos infernos, quero ser consumido e consumado por ti, arrancando de meus olhos todas as escamas, até que eu possa ver também ao vivo, na busca desenfreada de audiência, o marido espancar a mulher; o filho estuprar a mãe; o pai assassinar a filha; enfim, o horror, pois sei que o show não pode parar e que o seu limite é não ter limites.

31 de janeiro de 2002
Fonte: ADITAL

[1] SODRÉ, Muniz, O monopólio da Fala – função e linguagem da televisão no Brasil, Editora Vozes, Petrópolis – RJ, 1978, p. 45.
[2] Idem, p. 49


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

quinta-feira, janeiro 06, 2011

Mais que sentidos

Escrito há mais de 2 anos.

Os sentidos nos permitem apreender o mundo. Com o paladar podemos experimentar sabores vários – o prato suculento, o beijo. O tato nos revela a superfície, a temperatura das coisas. A visão nos permite ver, contemplar o mundo com suas cores variadas. O olfato nos faz sentir as fragrâncias e odores mais variados e complexos. A audição é uma porta por onde permitimos que os sons entrem em nossa dimensão interior. À medida que os ciclos evolutivos foram se dando, essas habilidades foram sendo desenvolvidas.

Esse fato é tão marcante que, na natureza, há animais que possuem um sentido mais aguçado que o outro. Um exemplo claro são os cães. Esses animais possuem uma audição e um olfato densamente desenvolvidos. As águias enxergam uma presa a quilômetros de altura. Isso permite a elas, mesmo estando voando muito alto, capturarem os animais que lhes servirão de refeição. Os tubarões percebem a presença de sangue a muitos metros de distância. As serpentes percebem a presença de outros seres pela língua bifurcada. As baratas, pelas antenas. Isso me faz lembrar um conto extraordinário de Guy de Maupassant. O escritor cria a figura de um personagem que escreve para o seu médico contado como os sentidos são a única ponte que liga o homem ao mundo. “Nossos órgãos seriam os únicos intermediários entre o mundo exterior e nós”. Esse exterior nos escaparia por suas proporções, suas propriedades infinitas e impenetráveis, suas origens, seu porvir ou seus fins, suas formas longínquas e suas manifestações infinitas. Nossos sentidos e órgãos determinam e limitam as propriedades aparentes da matéria. Por possuirmos apenas cinco sentidos, a nossa capacidade de apreensão do mundo é profundamente restrita.

O personagem do conto de Maupassant diz ainda que o que o fez acordar foram as palavras de Montesquieu: “Uma órgão a mais ou a menos em nossa máquina teria feito de nós uma outra inteligência”. E em outra parte é dito assim: “Se tivéssemos, portanto, alguns órgãos a menos ignoraríamos coisas admiráveis e singulares, mas, se tivéssemos alguns órgãos a mais, descobriríamos em torno de nos uma infinidade de outras coisas de que suspeitaremos por falta de meios de constatá-las”. O que gosto nesse conto de Maupassant é justamente a exatificação científica com uma carga fictícia da importância dos sentidos para a apropriação do mundo.

Percebe-se com muita clareza que os sentidos humanos são a porta que estabelece relação entre o homem e o mundo exterior. Se enxergássemos mais do que enxergamos possivelmente nossa relação com a matéria seria diferente. Se ouvíssemos mais do que ouvimos atualmente possivelmente arrumaríamos mais encrencas. Ouviríamos aquilo que não podemos ouvir e isso aumentaria o nível de desarranjos nos relacionamentos. Em compensação também desenvolveríamos a prudência e aprenderíamos a falar de forma mais sábia.

Todavia, no que diz respeito aos sentidos humanos, fiquei pensando naquelas pessoas que perderam a funcionalidade de um ou alguns deles. Essa reflexão me veio na noite de ontem quando fui à aula de libras – minha primeira aula. Meu professor é surdo e mudo. Contando por meio de sinais que perdera a audição e a capacidade de falar, disse em certa momento que agradecia a Deus por ter perdido a audição. Aquela afirmação me aturdiu. Fiquei pensando nessa afirmação paradoxal. Numa época como a nossa em que se preza pela perfeição, pelas formas, o não ouvir não é desejado por ninguém. Em outras sociedades, ele simplesmente teria sido morto. Os gregos espartanos o teriam lançado de um precipício. Para eles não eram toleradas deficiências congênitas. Havia uma valorização exacerbada da perfeição aparente.

Fiquei pensando como deve ser viver sem ouvir. Conta-nos a história que as melhores composições de Beethoven surgiram quando da perda da audição. A Nona Sinfonia, estrondosa, estrepitosa, um hino composto à alegria foi um projeto realizado na surdez do maestro. Parece uma contradição que alguém tenha composta uma peça da magnitude da Nona Sinfonia com um poema intitulado Ode a alegria; e o coral no quarto movimento da obra retumbe poderosamente elevando a voz a um quase inalcançável esforço. No dia em que a peça foi apresentada pela primeira vez, Beethoven por está de costas, nem ouviu os aplausos do público entusiasmado. Beethoven ouvia a sinfonia interiormente. As peças mais complexas do compositor alemão – os quartetos de cordas – também foram compostos nesse período. A capacidade perdida fez desenvolver outras percepções e habilidades.

No filme Ray Charles de 2004, do diretor Taylor Hackford, há um cena fantástica em que Ray conversava num restaurante com uma moça - aquela que viria a ser sua esposa. De repente, ele, que era completamente cego, pergunta a ela mais ou menos assim: “Você está ouvindo o som do beija-flor lá fora batendo as asas?”. Ouvir o som de um beija flor batendo as asas parece ser uma atividade extraordinária para pessoas comuns, acostumados a ignorar as percepções sensíveis. Não para alguém como Ray Charles. O fato é que uma capacidade perdida nos possibilita o desenvolvimento de outras habilidades incomuns. É mais ou menos aquilo que conta Herman Hesse no livro Sidarta. É dito que Sidarta tendo a capacidade de ouvir, havia começado a ouvir diferentemente dos outros homens. Ele podia ouvir o som rumoroso do rio, das garças que voavam alto, dos bambus que brotavam nos campos. Uma espécie de sensibilidade que somente é apreendida quando somos capazes de valorizar aquilo que sabemos perder. É como conta ainda o escritor cristão Philip Yancey que uma certa amiga estava perdendo a visão e em pouco tempo não enxergaria mais nada. Ela resolveu, antes que as trevas completas chegassem, visitar os vales e bosques do Colorado nos Estados Unidos, a fim de que aquelas paisagens se apaziguassem, fossem encaixadas e vivessem em sua memória.

Fico pensando como seria viver sem poder ouvir uma sonata de Brahms, uma sinfonia de Mahler ou um concerto de Mozart – da música que segundo Maupassant é “vaga como um sonho e exata como a álgebra”; o rumorejar das águas de um ribeiro; o som dos pássaros cantarolando; o som do vento envergando um canavial ou um bambuzal; o som afastado de um final de tarde; a voz daqueles ou daquela (e) a quem amamos. Assenta em mim a impressão que devo valorizar mais os meus sentidos, valorizar as potencialidades comunicativas e relacionais que eles me conferem. Saber sentir além dos sentidos é uma habilidade a ser desenvolvida. Ouvir com a quietude de monge é algo a ser buscado.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Quinta-feira, 7 de agosto de 2008, 10:49:12.

quarta-feira, janeiro 05, 2011

Capitalismo: o que é isso?

Texto extremamente elucidativo extraído do blog do Emir Sader.

As duas referências mais importantes para a compreensão do mundo contemporâneo são o capitalismo e o imperialismo.

A natureza das sociedades contemporâneas é capitalista. Estão assentadas na separação entre o capital e a força de trabalho, com aquela explorando a esta, para a acumulação de capital. Isto é, os trabalhadores dispõem apenas de sua capacidade de trabalho, produzir riqueza, sem os meios para poder materializa-la. Tem assim que se submeter a vender sua força de trabalho aos que possuem esses meios – os capitalistas -, que podem viver explorando o trabalho alheio e enriquecendo-se com essa exploração.

Para que fosse possível, o capitalismo precisou que os meios de produção –na sua origem, basicamente a terra – e a força de trabalho, pudessem sem compradas e vendidas. Daí a luta inicial pela transformação da terra em mercadoria, livrando-a do tipo de propriedade feudal. E o fim da escravidão, para que a força de trabalho pudesse ser comprada. Foram essas condições iniciais – junto com a exploração das colônias – que constituíram o chamado processo de acumulação originaria do capitalismo, que gerou as condições que tornaram possível sua existência e sua multiplicação a partir do processo de acumulação de capital.

O capitalismo busca a produção e a comercialização de riquezas orientada pelo lucro e não pela necessidade das pessoas. Isto é, o capitalista dirige seus investimentos não conforme o que as pessoas precisam, o que falta na sociedade, mas pela busca do que dá mais lucro.

O capitalista remunera o trabalhador pelo que ele precisa para sobreviver – o mínimo indispensável à sobrevivência -, mas retira da sua força de trabalho o que ele consegue, isto é, conforme sua produtividade, que não está relacionada com o salário pago, que atende àquele critério da reprodução simples da força de trabalho, para que o trabalhador continue em condições de produzir riqueza para o capitalista. Vai se acumulando assim um montante de riquezas não remuneradas pelo capitalista ao trabalhador – que Marx chama de mais valia ou mais valor – e que vai permitindo ao capitalista acumular riquezas – sob a forma de dinheiro ou de terras ou de fábricas ou sob outra forma que lhe permite acumular cada vez mais capital -, enquanto o trabalhador – que produz todas as riquezas que existem – apenas sobrevive.

O capitalista acumula riqueza pelo que o trabalhador produz e não é remunerado. Ela vem por tanto do gasto no pagamento de salários, que traz embutida a mais valia. Mas o capitalista, para produzir riquezas, tem que investir também em outros itens, como fábricas, máquinas, tecnologia entre outros. Este gasto tende a aumentar cada vez mais proporcionalmente ao que ele gasta em salários, pelo peso que as máquinas e tecnologias vão adquirindo cada vez mais, até para poder produzir em escala cada vez mais ampla e diminuir relativamente o custo de cada produto. Assim, o capitalista ganha na massa de produtos, porque em cada mercadoria produzida há sempre proporcionalmente menos peso da força de trabalho e, por tanto, da mais valia - que é o que lhe permite acumular capital.

Por isso o capitalista está sempre buscando ampliar sua produção, para ganhar na competição, pela escala de produção e porque ganha na massa de mercadorias produzidas. Dai vem o caráter sempre expansivo do capitalismo, seu dinamismo, mobilizado pela busca incessante de lucros.

Mas essa tendência expansiva do capitalismo não é linear, porque o que é produzido precisa ser consumido para que o capitalista receba mais dinheiro e possa reinvestir uma parte, consumir outra, e dar sequencia ao processo de acumulação de capital. Porém, como remunera os trabalhadores pelo mínimo indispensável à sobrevivência, a produção tende a expandir-se mais do que a capacidade de consumo da sociedade – concentrada nas camadas mais ricas, insuficiente para dar conta do ritmo de expansão da produção.

Por isso o capitalismo tem nas crises – de superprodução ou de subconsumo, como se queira chamá-las – um mecanismo essencial. O desequilíbrio entre a oferta e a procura é a expressão, na superfície, das contradições profundas do capitalismo, da sua incapacidade de gerar demanda correspondente à expansão da oferta.

As crises revelam a essência da irracionalidade do capitalismo: porque há excesso de produção ou falta de consumo, se destroem mercadorias e empregos, se fecham empresas, agudizando os problemas. Até que o mercado “se depura”, derrotando os que competiam em piores condições – tanto empresas, como trabalhadores – e se retoma o ciclo expansivo, mesmo se de um patamar mais baixo, até que se reproduzam as contradições e se chegue a uma nova crise.

Esses mecanismos ajudam a entender o outro fenômeno central de referência no mundo contemporâneo – o imperialismo – que abordaremos em um próximo texto.

Por Emir Sader

terça-feira, janeiro 04, 2011

Caso Cesare Battisti (II)

Achei o texto abaixo graças a um colega que postou o link no Facebook. Ao ler o texto, percebi que ali estava escrito tudo o que eu intuía sobre o caso Cesare Battisti. O revanchismo da direita neofascista representado, por uma pequena parcela dos ministros STF, certamente está a jogar maquiavelicamente contra a decisão dos ex-presidente Lula. A decisão empreendida com bastante habilidade por Lula foi a correta, a acertada, a humana. Tirou Battisti da boca dos leões italianos. A mídia esconde verdadeiramente os fatos, pulverizando meias verdades. A opinião pública fica confusa e desconhece o que está por trás, verdadeiramente, dos eventos que envolvem a extradição do italiano Battisti. Chamar Cesare Battisti de terrorista, criminoso, assassino de pai de família, psicopata, é incorrer num argumento falacioso, baseado na ausência de provas concretas.














Segue o texto. Acesse AQUI

sábado, janeiro 01, 2011

Caso Cesare Battisti (I) - ao fechar a porta, Lula...

A História é curiosa. Parece ser até irônico. Mas, isso é substantivo. Ontem, no último dia de 2010, ouvi pelo rádio que Lula havia acatado o parecer da Advocacia Geral da União (AGU), resolvendo não extraditar o italiano Cesare Battisti. Battisti foi alvo de querelas durante muito tempo em nosso país. Os jornalões fizeram uma campanha sórdida contra a presença do italiano aqui no Brasil. Chamaram-no de criminoso, assassino, psicopata e outros vocábulos incriminadores. Ou seja, Battisti foi julgado previamente sem direito a qualquer defesa. Curiosamente, se perguntarmos o que acham sobre o caso Vargas x Olga Benário, reprovarão Getúlio. Acusarão Vargas de criminoso por ter entregado Olga Benários Prestes a Hitler, mas não veem problemas em fomentar teses contra o italiano Cesare Battisti, antes mesmo que os italianos o fizessem. O STF resolveu enviá-lo, sendo Gilmar Mendes o principal condutor da tese. Vasculharam porões. Resgataram acordos internacionais. Fizeram exegeses. Utilizaram as mais controversas hermêuticas jurídicas. Ao final, afimaram que a posição do STF era pela extradição, mas cabia a Lula a última palavra.

Lula soube como ninguém conduzir o problema. Esperou que a poeira dos fatos e o clamor da mídia fascista fossem arrefecidos. No último dia no cargo, Lula, presidente que ao final do mandato gozou de 80% de aprovação, deu a canetada que permitiu a Battisti continuar no Brasil. Foi o último ato oficial de Lula. O documento último de quem se portou da mesma forma desde o princípio do governo. Do metalúrgico que não se dobrou à força da mídia e à sede voraz do Estado italiano. Lá fora eles continuarão a salivar. Berlusconi deve está verbalizando os piores palavrões contra o metalúrgico ousado, infamando um "paisinho" chamado Brasil - os macacos dos trópicos, que só têm futebol, carnaval e mulatas no cio.

Bem vindo ao nosso meio, Cesare Battisti. Somos país um contradizente. Apregoamos os direitos humanos acima de qualquer coisa em nossa Constituição. Mas quando o que está em jogo é a submissão aos figurões do grande capital, grandes chusmas fascistas, indivíduos que no dizer de Mário de Andrade são

"O homem-curva!/ O homem-nádegas!/O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,/é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!/

(...) Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!/ Que vivem dentro de muros sem pulos, / e gemem sangue de alguns mil-réis fracos /

para dizerem que as filhas da senhora falam o francês /e tocam os "Printemps" com as unhas!"

Não hesitamos em desdizer o que escrevemos em nossa carta máxima.

Bem-vindo, Cesare.

Goiânia, 01 de janeiro de 2011.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

C.S. Lewis, a alegria e Nárnia

Escrito há 2 anos.

Descobri o mundo de C.S. Lewis em 2003. Estudava à essa época num seminário teológico. Foi um encontro formidável. Ouvia falar dele – de seus encantos literários, de seus textos simples e profundos. A curiosidade me levou a descobri-lo. O primeiro livro que li foi Surpreendido pela Alegria. No ano de 2003 li este livro três vezes. Li cada página com senso de devoção. Lewis conseguiu me fisgar com o seu estilo sóbrio, mas rico em fantasias. Inoculou em mim o desejo pelo saber. O livro conta as experiências pessoais de Lewis rumo à conversação à fé cristã. O que causou profunda alegria em mim foi justamente o amor de Clive Stamples, significado para as duas letras inicias, pelos livros.

Lewis perdeu a mãe aos 9 anos. Ficou somente com o pai e o irmão. Daí começam as suas investidas ao mundo silencioso e eloqüente da literatura. Leu os clássicos. Inteirou-se das mitologias grega, celta, nórdica. Descobriu o Anel do Nibelungo de Richard Wagner. Criou mundos imaginários. Leu os filósofos. Questionou os posicionamentos dos pensadores. Solidificou seu próprio pensamento.

A casa de Lewis era um recanto amplo, enorme, com muitos livros. Conta Lewis que haviam livros por todos os cantos naquele espaço. A casa era uma grande biblioteca. Isso me faz lembrar de um conto de Jorge Luis Borges – Biblioteca de Babel. Borges cria no texto a imagem do mundo como se esse fosse uma grande biblioteca. Há nesse mundo escadarias com livros por todos os lados. Uma arquitetura bibliográfica. Lewis nos dá a entender que a casa dele era um mundo de livros assim como no conto de Borges. Os livros estavam em toda parte – nos armários, embaixo das escadas, no sótão, nos quartos de hóspedes. Os livros possibilitaram a Lewis fugir da solidão. No filme de 1993, Mundo de Sombras[1], que conta a história do Lewis já como professor em Oxford e como um escritor bem sucedido, dizer: “Lemos para saber que não estamos sozinhos”. Essa afirmativa resume justamente a infância e grande parte da vida Lewis.

O livro me fascinou ainda por reproduzir os aspectos mais vivos do mundo inglês: O frio inglês, a disciplina, a formalidade. O zelo pelo saber. A descrição das escolas tradicionais da Inglaterra. Os conflitos nos colégios internos. Percebemos no livro o crescimento do intelectual, o surgimento da sede pelo saber. Lewis transformou-se num dos mais notáveis intelectuais no século XX na Inglaterra. A alegria surpreendeu Lewis. A alegria a que ele se refere é a fé cristã. Ou seja, a sua conversão à fé cristão mudou completamente o itinerário de sua existência. De agnóstico cínico e despreocupado, Lewis passa a ser uma das vozes mais importantes durante a Segunda Grande Guerra. Suas conferências públicas lotavam os auditórios. Seus programas de rádio eram ouvidos por milhares de pessoas na Inglaterra e nos Estados Unidos.

Lewis não se notabilizou apenas escrevendo livros e artigos cristãos. Ele era um extraordinário catedrático em literatura medieval. Conhecia profundamente o mundo dos saberes. Era ainda um profundo conhecedor da filosofia antiga e o mundo dos mitos. Ou seja, essa base forneceu a Lewis um importante ferramental para colocar em seus livros.

O escritor dedicou boa parte dos seus 38 livros, a falar do sofrimento. No filme Terra de Sombras, em meio a uma conferência, ouvida com atenção pelos presentes, Lewis diz: “A dor é o cinzel de Deus”. Esta frase resume muitas das preocupações do pensador. Percebemos aqui a figura do teólogo. Ao se converter ao cristianismo no início da década de 30, esta experiência rendeu a Lewis um tipo de influência que transformaria o seu pensamento. Tornou-se uma espécie de teólogo livre da Igreja Anglicana. Essa foi uma das alegrias de Lewis. A outra foi a poetisa Joy Gresham, mulher que conheceu e com quem viveu um terno romance, que lhe rendeu uma experiência de agrura. O romance de Lewis com Joy foi interrompido por um câncer. Joy morreu poucos anos após ter conhecido o inglês. Isso ampliou as experiências de Lewis com a dor.

Todavia, o grande feito de Lewis como escritor, acredito, tenha sido o ato de criação do mundo de Nárnia. As Crônicas de Nárnia são uma sucessão de sete livros escritos de forma aleatória. Tais crônicas narram os acontecimentos que se dão em Nárnia, uma espécie de mundo paralelo onde as experiências constituem-se em grande metáforas de temas bíblicos. Lewis conseguiu desenvolver com habilidade imaginativa um dos mundos fictícios mais belos do século XX.

A primeira crônica foi escrita em 1950 (O leão, a feiticeira e o guarda-roupa). Esta com certeza, deve ser o livro mais conhecido da série. O último foi escrito em 1956 (A última batalha). As demais crônicas, são: Príncipe Caspian (1951); A viagem do peregrino da alvorada (1952); A Cadeira de Prata (1953); O cavalo e o seu menino (1954); e O sobrinho do mago (1955). A figura mais expressiva do mundo de Nárnia é Aslam, o grande leão. Fica explícito, que esse leão personifica a figura de Jesus Cristo. Ele aparece nas sete crônicas. Nunca li nada a respeito, mas acredito que o número de sete crônicas não seja fortuito. Na tradição cristã, o número sete representa a perfeição. O escritor deve ter partido desse pressuposto para escrever as sete crônicas.

O que mais impressiona na série de Nárnia é a capacidade que Lewis tem para criar e fantasiar. Os contos de fadas são contados com outros valores. Os livros foram escritos com uma linguagem simples – para criança. O caráter literário das crônicas não oferece grande complicação na interpretação. Mesmo que se conheça a Bíblia superficialmente, não é difícil identificar as metáforas escritas com tanta beleza. Todavia, a quantidade de adultos que têm lido a obra é bastante considerável. Muitas teses e livros têm sido escritos sobre as crônicas, o que apenas revela o caráter literário insuperável.

É impossível ler as crônicas e não se apaixonar pela beleza, pelo jogo narrativo, pelas lições, pela condução proverbial de cada fato. O público brasileiro ainda não conhece completamente os encantos do mundo de Nárnia, infelizmente. Conhece de forma razoável, talvez, os filmes da série que têm sido lançados pela Disney. Todavia, o filme não se compara com a beleza do texto da literatura lewisiana. Apesar dos efeitos computadorizados do cinema, o que serve par criar um aspecto mais fiel aos fatos descritos em Nárnia, a imaginação, o retrato imagético que se arma na mente não é comparável no processo de descoberta, de penetração no mundo de Aslam, do que quando se ler as crônicas.

Impressiono-me com as crônicas mais pelo aspecto literário do que pelas alegorias religiosas. O aspecto mais extraordinário e fabuloso é imaginar como alguém foi capaz de escrever algo tão belo, tão rico de significados. Assim como Tolkien, Lewis foi capaz de misturar elementos mitológicos com os aspectos mais encantáveis dos contos de fadas e transformou tudo isso numa literatura do mais alto e requintado valor para todas as eras da humanidade.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Segunda-feira, 1 de dezembro de 2008, 10:00:40.

[1] O filme conta com Anthony Hopkins no papel principal, ou seja, como C.S. Lewis.

sábado, dezembro 18, 2010

Cobain, um romântico

O Nirvana, o grupo musical do lendário vocalista e guitarrista Kurt Cobain, foi uma das bandas que mais ouvi em minha adolescência. Constituía uma necessidade. Alimentava-me com o som sujo, distorcido e contagiante do grupo. Admirava a imagem rebelde do vocalista. Sua voz gritada era atraente, necessária. Formava uma unidade poderosa com o som ruidoso que a banda produzia. Embalei-me por muito tempo ao som do grupo de Seattle, a mítica cidade do movimento grunge, que viu surgir bandas como Pearl Jam, Alice in Chains, Mudhoney, Soundgarden e uma quantidade considerável de outros grupos menores. Recordo-me como se fosse hoje da fragrância da música de Seattle, principalmente do Nirvana, banda para a qual não havia competidores.

Estou escrevendo estas palavras, pois ontem assisti a um documentário sobre a vida de Kurt Cobain. E confesso que todas às vezes que penso no jovem Kurt, bate-me uma profunda consternação. Fico a inquirir: “Como pode? Um jovem talentoso como ele...”. Vem-me a ideia de que Cobain foi uma vítima da desagregação familiar. Sua vida, desde a separação dos pais, foi um contínuo gesto irregular. A criança doce e alegre da infância, transformou-se numa criatura de humor variável, instável. Quando o fausto e o dinheiro vieram, o moço taciturno não teve estruturas para suportar.

Pesa contra Kurt o uso exacerbado de drogas. Desde a adolescência, Kurt experimentara todo tipo de entorpecente. A heroína surgiu como uma rainha, uma musa poderosa. Supriu os delírios do vocalista. Sua sede pelo irracional era voraz. Muitas de suas apresentações foram realizadas sob o efeito da droga devastadora. Tornou-se um escravo da substância. Uma espécie de molambo humano sem vontade. Loucuras. Excessos. Depressão. Angústias. Solidão. Uma dor imaginária que lhe corroia as entranhas. Cobain foi devorado pela irracionalidade.

Vejo-o com uma sensação de melancolia. Comisero-me com a sua situação. O jovem talentoso, exímio desenhista, com uma extraordinária vocação para a arte, transformou-se num esquizóide. Absorveu o niilismo de uma geração. Transformou-se em arquétipo. Foi tudo aquilo que milhões de jovens desejam ser. O mal-do-século fez anoitecer a sua mocidade com possibilidades ensolaradas.

Dos álbuns gravados pelo Nirvana, consigo fazer algumas leituras:

(1) Bleach (1989), o famoso álbum cru e sujo, gravado pela Sub Pop, é um manifesto grunge. Cada faixa é gritada; a guitarra de Kurt; os solos são secos, quase inexistentes. Prevalece a distorção. Os momentos mais líricos e comportados ficam por conta da faixa About a Girl;

(2) Nevermind (1991), é a explosão, a consagração. O álbum que mostra o acerto, a guinada para o céu; o disco dos milhões, da projeção. Percebemos um Kurt acertado. A fama o atinge em cheio. De um mês para o outro, o garoto com pouco mais de vinte anos, torna-se um milionário. Antes, não possuía moradia certa e, de repente, dezenas de milhões de dólares jorram na conta da banda. As músicas são excelentes. A sonoridade é variada. Possui momentos ensolarados (On a Plain); de um pop sujo e cantante (Come as you are); refrãos melados e pegajosos que não se viam desde os Beatles (Lithium, In blom); nervosos e bons para sacudi a cabeça, agredir a garganta (Stay Away, Territorial Pissings);

(3) Incesticide (1992), é um álbum que segue uma temática semelhante ao Bleach. Possui músicas sujas e gritadas. É uma compilação de músicas da banda - b-sides. Os bons momentos ficam com as faixas Dive, Sliver, Been a Son, Downer, e Aneurysm;

(4) In Utero (1993), este é o disco do desespero, do pedido de socorro. In Utero é um disco de audição nervosa. O som é denso, sufocante. Uma força magnética provoca ruídos, leva-nos a uma atmosfera de letras que falam de “esperma”, “cogumelos”, “antiácidos”, “loucuras”, “tranqüilizantes”. Certamente Kobain estava no útero da dor, do descompasso, da desagregação. Algumas overdoses aconteceriam. Tentativas de suicídio. O comportamento bipolar. O corpo novo transformou-se num escravo do vício. A apresentação que o grupo fez no Brasil em 1993, expõe o estado de penúria do músico. Cena deprimente é aquela em que ele caminha de quatro no palco, porque não conseguia se manter de pé. O estado de abstinência degradava o corpo magro. O organismo exigia o passaporte para o nada.

(5) Unpluggedd em New York (1994), é o álbum em que ele diz: “Adeus! Estou indo embora!”. Naquele ano o vocalista se suicidaria. Compraria um espingarda de caça e daria um tiro em si mesmo. Deixaria uma carta na qual explicava que estava cansado. Era um impostor. Enganara a todos. Penso que o maior de todos os enganos de Kurt foi aquele aplicado a si mesmo. O jovem músico cavou a sua própria ruína. A sua arte o matou. Os excessos. O flerte demorado com a irracionalidade. A heroína que anemizou a sua potência de vida, tudo isso se constituiu numa viagem fatal.

Ainda ontem escutei três ou quatro álbuns da banda – seguidamente. Ouvi Bleach e Incesticide, algumas faixas de Nevermind; não suportei o In Utero. Achei-o ácido em demasia, com muitas esporas e excrescências ruidosas. Ao final, fiquei com um banzo estranho. Um enorme vazio. Como se me tivessem tirado o direito de sorrir. A música de Kurt está cheia de Cobain. Talvez tenha sido isso que vitimou o compositor. Kurt passou muito tempo olhando para a sua arte e não suportou. Os aspectos noturnos de sua produção transformaram-se numa força labiríntica que o enfermou até a morte.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: sexta-feira, 17 de dezembro de 2010.