domingo, setembro 25, 2011

O homem do futuro e O Cheiro do Ralo – dois filmes em dois dias!

Apesar de andar bastante estafado nestes últimos dias, tive a ventura de assistir a dois filmes nos últimos dois dias. Primeiro, na sexta-feira, assisti à película morna O Homem do Futuro, que tem como protagonista o Wagner Moura. E, ontem, o intrigante O Cheiro do Ralo, que tem como personagem principal - numa atuação absurda de boa - Selton Mello.


(1) O Homem de Futuro - na verdade, a obra do diretor Cláudio Torres me deixou com um misto de sentimentos contraditórios - de aspectos elogiáveis e, outros, críticos. O cinema brasileiro progrediu consideravelmente nos últimos vinte anos. No passado, ia-se ao cinema para se ver a filmes de "sacanagem" e ouvir palavrões. Oscilávamos entre a pornochanchada e o riso nonsense dos filmes de Os Trapalhões; e outros de qualidade inferior. Esse quadro nos levou a ter uma péssima impressão do cinema nacional. O Homem do Futuro é uma obra bem elaborada. Os efeitos especiais não são tacanhos. Nada deixam a dever a Hollywood. A atuação de Wagner Moura é contunden
te. A trama é bem construída. Possui coerência. Possui vários momentos em que se pode dar boas risadas, mas não de piadas baixas, nem rasteiras. O personagem de Wagner Moura (Zero) é construído para gerar empatia com o espectador. Os paradoxos temporais são bem construídos, o que nos leva a constatar a melhora significativa do nosso cinema.


O filme é uma comédia romântica com enxertos de ficção. Enquanto assistia ao filme me lembrei da trilogia De volta para o Futuro, um ícone dos anos oitenta; ou Bill e Ted. Ou seja, da aventura que surge como resultado da teoria científica, do professor maluco e genial que constrói bugigangas capazes de viajar no tempo e mudar aspectos malquistos do passado. E é aí, talvez, que o filme m
ostre o seu lado artificial. Embora a história não seja previsível, eu senti algo quadrado, cheio de arestas, entrando em meu cérebro. Talvez, ainda, essa sensação seja resultado de uma má impressão que tenha adquirido do cinema nacional, algo que está instalado como uma espécie de inconsciente coletivo. Ou seja, de que não temos vocação para fazermos filmes com efeitos especiais; de ficção científica; com um tipo de história que nos leva a um desfecho incomum.


(2) O Cheiro do
Ralo - O filme é baseado no livro homônimo de Lourenço Mutarelli. Assisti ontem à noite e fiquei impressionado com a qualidade. Fiquei me questionando como esse filme ficou à margem, na obscuridade. A qualidade da história é notável. A fotografia de um mundo suburbano, decadente, foi bem arquitetada. Ela faz jus ao papel de Lourenço (Selton Mello), o dono de um armazém, uma espécie de antiquário com vocação para ferro velho. Nesse local, o personagem trava batalhas psicológicas com as pessoas necessitadas que lá vão vender objetos velhos ou usados. A sua condição faz com que o personagem oprima, controle, dite as regras daqueles que vão lá vender os seus objetos. Mas, o curioso é que, no local onde fica a maior parte do filme, Lourenço passa a ser incomodado pelo cheiro do ralo de um banheiro contíguo à sua sala. Aos indivíduos que lá vão vender os seus objetos a baixos preços, Lourencço diz: "Olhe, esse mau cheiro é do ralo. Estou com um problema no banheiro".


O ralo possui uma relação simbólica com a personagem. Em dado momento da obra um dos visitantes anônimos diz: "Não! Esse cheiro é seu!" E aquilo passa a perturbar a personagem. É curioso que a relação da personagem com o ralo passa a assumir contornos existenciais. A vida marginal, pouco expressiva e decadente de Lourenço possui a fragrância do ralo. Com o tempo, ele passa a necessitar do ralo. Passa a cheirar o ralo como se aquilo fosse uma complementação necessária à sua existência. É como se o cheiro nauseabundo saísse de sua personalidade tacanha e conturbada.


A mente da personagem é complexa. Sua compulsão pela bunda de uma garçonete é curiosa. As pessoas que ele julgava controlar, principalmente, uma dependente química esquelética, levam a história a um desfecho curioso, um fim paradoxal. A última palavra que exprimimos para descrever a experiência proporcionada pela obra é: "Caramba! Que merda!"

Por Carlos Antônio M. Albuquerque


terça-feira, setembro 20, 2011

Britten, um caso de Interlúdio


Tenho uma paixão toda especial por Britten. E estes Four Sea Interludes do compositor inglês é a magestificação de uma beleza diferente. Britten foi um dos maiores compositores de todos os tempos. Sua música soa sempre perfeita e exata. Na dança dos nomes, o inglês sempre fica preterido frente à Stravinsky, Bartok e outros, mas penso que ele se imiscua nesse panteão dos gênios da música de todos os tempos. Abaixo uma palhinha com o André Previne a Filarmônica de Viena.


domingo, setembro 11, 2011

Blade Runner, uma película mórbida, mas intrigante e Nietzsche

Na última semana, assisti ao filme Blade Runner, o caçador de andróides. Trata-se de um filme mórbido. Fazer filmes de ficção é um empreendimento complexo, ainda mais quando se trata de uma obra produzida no início da década de 1980. O filme de Ridley Scott, autor de O Gladiador, 1492 e Cruzada, é maçante. As cenas se passam à noite. A evolução da história é morosa. Na Los Angeles de 2019, nota-se uma fotografia dark, complexa, eivada de caos social. Chove a maior parte do filme. É uma chuva negra, constante, num cenário velho, nauseabundo. A trilha sonora foi realizada por Vangelis. E pode se dizer que a música foi bem pensada. Ela parece ter um gosto plástico, o que causa uma sensação de gastura e mal-estar. Carros voadores dividem o espaço com modelos velhos, ultrapassados. Os comerciantes são orientais - chineses. Talvez, o diretor quisesse apontar o problema, já presente na década de 80, da orientalização da América. Trata-se de um cenário decadentista. A paisagem é opressiva. As mensagens publicitárias garantem vida plena, saúde, prazer, numa atmosfera sufocante, que parece ser o resultado de uma deterioração atômica. E nisso repousa um paradoxo.

Pode-se perceber uma condução distópica na problemática abordada pelo filme. Há uma guerra existencial, de sobrevivência e de descoberta de si mesmo. Deckard (Harrison Ford), o protagonista do filme, trabalha num filão da polícia chamada de blade runners, que tem por finalidade exterminar os “replicantes”, clones ou réplicas “mais que humanas”. Os “replicantes” se revoltam e são tidos como proscritos. A função do policial Deckard é aniquilar estes insurgentes. A questão é que estes “replicantes” vivem, no máximo, 4 anos. Eles envelhecem rapidamente. Mas, querem buscar estender a vida. Buscam resolver essa imperfeição, mas encontram o policial Deckard, que se apaixona por uma “replicante”. De certa forma, ele vive um paradoxo. Busca destruir os “replicantes”, mas está emocionalmente envolvido com alguém de vida breve e que deve morrer.

Penso que o diretor tenha desejado fazer o papel inverso, numa espécie de odisseia, da problemática do humano. Talvez Ridley Scott - e aqui podem falar os entendidos – tenha desejado projetar nos “replicantes” aquilo que é inerente ao humano, ou seja, a busca pelo prolongamento da própria vida. O tempo é um carrasco que aniquila a vida humana. Construímos cenários, tecnologias; buscamos a extensão da vida e nos apegamos com mais força aos recursos que nos são próprios, mas a vida é fugidia. Vivemos numa busca complexa num mundo cada vez mais desfigurado e sufocante. O drama da efemeridade dos “replicantes” é o drama dos próprios humanos. Os “replicantes” são o arquétipo da tragédia humana. Nascemos e vivemos em meio à ruína, ao niilismo e somos conduzidos, mesmo em meio à técnica e às buscas da ciência, ao fatalismo iminente da decadência. Como afirma um dos “replicantes” não basta “pensar para existir”. A vida é mais do que uma lógica retilínea.

Enquanto assistia à obra questionava para qual direção o filme estava sendo conduzido, mas as cenas finais são cheia de significações filosóficas. A cena que mais me pertubou é aquela em que o “replicante” Roy (Rudger Hauer) mata Tyrel, o seu criador. Nessa cena, vemos a própria implosão da metafísica. A criatura matou o criador. Pode-se evocar aquela famosa citação de Nietzsche descrita em “A Gaia Ciência”: “Deus está morto!” Talvez aqui resida uma das principais críticas feitas pelo filme: A falta de sentido do existir humano. A morte da metafísica significa a morte dos valores que sedimentavam a segurança do homem, os valores que estribavam os idealismos.

A película de 1982 é altamente instigante. Para finalizar cito o aforismo # 125 de Nietzsche, que muito bem retrata uma das problemáticas do homem moderno encontradas no filme de Ridley Scott – a criação “matando” o criador:

“Não ouviram falar daquele homem louco que em plena manhã acendeu uma lanterna e correu ao mercado, e pôs-se a gritar incessantemente: “Procuro Deus! Procuro Deus!”? – E como lá se encontrassem muitos daqueles que não criam em Deus, ele despertou com isso uma grande gargalhada. Então ele está perdido? Perguntou um deles. Ele se perdeu como uma criança? Disse um outro. Está se escondendo? Ele tem medo de nós? Embarcou num navio? Emigrou? – gritavam e riam uns para os outros. O homem louco se lançou para o meio deles e trespassou-os com seu olhar. “Para onde foi Deus?”, gritou ele, “já lhes direi! Nós os matamos – vocês e eu. Somos todos seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos beber inteiramente o mar? Quem nos deu a esponja para apagar o horizonte? Que fizemos nós ao desatar a terra do seu sol? Para onde se move ela agora? Para onde nos movemos nós? Para longe de todos os sóis? Não caímos continuamente? Para trás, para os lados, para a frente, em todas as direções? Existem ainda ‘em cima’ e ‘embaixo’? Não vagamos como que através de um nada infinito? Não sentimos na pele o sopro do vácuo? Não se tornou ele mais frio? Não anoitece eternamente? Não temos que acender lanternas de manhã? Não ouvimos o barulho dos coveiros a enterrar Deus? Não sentimos o cheiro da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto! Deus continua morto! E nós o matamos! Como nos consolar, a nós, assassinos entre os assassinos? O mais forte e sagrado que o mundo até então possuíra sangrou inteiro sob os nossos punhais – quem nos limpará esse sangue? Com que água poderíamos nos lavar? Que ritos expiatórios, que jogos sagrados teremos de inventar? A grandeza desse ato não é demasiado grande para nós? Não deveríamos nós mesmos nos tornar deuses, para ao menos parecer dignos dele? Nunca houve ato maior – e quem vier depois de nós pertencerá , por causa desse ato, a uma história mais elevada que toda a história até então!” Nesse momento silenciou o homem louco, e novamente olhou para seus ouvintes: também eles ficaram em silêncio, olhando espantados para ele.“Eu venho cedo demais”, disse então, “não é ainda meu tempo. Esse acontecimento enorme está a caminho, ainda anda: não chegou ainda aos ouvidos dos homens. O corisco e o trovão precisam de tempo, a luz das estrelas precisa de tempo, os atos, mesmo depois de feitos, precisam de tempo para serem vistos e ouvidos. Esse ato ainda lhes é mais distante que a mais longínqua constelação – e no entanto eles cometeram! – Conta-se também no mesmo dia o homem louco irrompeu em várias igrejas , e em cada uma entoou o seu Réquiem aeternaum deo. Levado para fora e interrogado, limitava-se a responder: “O que são ainda essas igrejas, se não os mausoléus e túmulos de Deus?”.”

Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: Domingo, 11 de setembro de 2011, 23:07:37

segunda-feira, setembro 05, 2011

"A Flora Brasiliense", por Angeli

Apenas um pequeno adendo ao post anterior. Lembrei dessa brilhante charge do Angeli. É uma explicação mais que científica do "fenômeno brasileiro".

quinta-feira, setembro 01, 2011

Os políticos, Jaqueline Roriz e a "sifilização do Brasil"

Somos um país muito estranho. Penso isso após ter passado do momento de susto cético ao estoicismo resignado daquelas pessoas que aceitam o acontecido e se sente completamente incapaz de emular qualquer mudança. E assim a gente vai caminhando, cantando, aquela frase patética: "Sou brasileiro e não desisto nunca!", numa tentativa de motivar a nossa vontade, a nossa fé cega, que não apresenta direções. Caminhamos apalermados. Levamos "socos no estômago", "na face da nossa decência" e, mesmo assim, somos instados a cantar: "Sou brasileiro e não desisto nunca". Que país é esse? Por que não indagamos o porquê de recitarmos essa frase fatalista? Esses pensamentos divagadores são o resultado de minha sensação de idiotamento. Na última terça-feira, a Câmara dos Deputados arquivou o processo contra a senhora Jaqueline Roriz, que a essas horas está rindo de nosso atoleimamento. E será que agora afirmaremos "sou brasileiro e não desisto nunca?".

O Brasil é um país de ambiguidades interessantes. Alternamos os momentos de euforia com atarantamento inoperante; de alegria futebolística com o choro por personalidades que não acrescentam nada à nossa vida individual. Mas não somos capazes de sair às ruas, numa mobilização capaz de fecundar mudanças; Organizamo-nos para ir ao estádio, mas não somos capazes de nos organizarmos numa passeata nacional em prol da decência, da moral, da ética e dos bons costumes. Na quarta-feira pela manhã, quando se ficou sabendo do ocorrido na noite anterior (tudo feito às escuras, para não se deixar vestígios), ficamos com aquela "cara de paisagem", de "panaca", de quem "é brasileiro e não desiste nunca".

O Brasil é um país estranho que não se leva a sério. Somos o resultado da confusão, dos magotes de degredados, criminosos, bandidos, em suma, a ralé que foi trazida para cá por Portugal. Nosso país não nasceu de um sonho, de um planejamento. Somos o resultado da anarquia, do chafurdo, da orgia da sífilis. Gilberto Freyre diz que antes de sermos "civilizados fomos sifilizados". Talvez, não tenhamos passado pelo processo "civilizatório" citado por Freyre. Talvez ainda tenhamos em nosso sangue a doença, a endemia que açambarcou as nossas forças e nos inclinou para a invirtude, para o malandrismo, para a esperteza. Talvez tenha sido esse processo "sifilizatório" que nos deixou "a memória fraca", a demência da indisciplina, da ignorância, da falta de decoro, da licenciosidade, dos desrespeito.

Após o episódio da última terça-feira, eu me tornei mais cético. O que foi construído em 511 anos de existência não pode ser desfeito do dia para noite. Não é com gritos, com moralismos, com a religião, com sentimentalismos, que se extirpa esse estado de doença avançada. O mal que acomete esse país está depositado em suas próprias veias. A um câncer nós não o arrancamos com "benzeduras", mas com medidas duras, objetivas e clínicas. Não é a esquerda nem a direita que muda o Brasil. Isso já foi provado, pois o país continua a ser "uma espécie de acampamento" para vigaristas, para grileiros, para os licenciosos e promíscuos.

Os meus ideais e crenças num país justo se aniquilaram um pouco mais. Sinceramente, não nos levamos a sério. E, para essa doença, não sei se há rémedios.

Por Carlos A. M. Albuquerque
01/09/2011

sexta-feira, agosto 26, 2011

"Onde estamos quando pensamos?"

Mesmo após ter terminado de ler o livro de Rudolf Safranski, Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, fiquei a pensar numa retratação emblematicamente filósofica sobre Sócrates. Diz Safranski no capítulo 16 ("A saída da maquinação política"):

"Afinal, onde estamos quando pensamos?
Xenofonte nos transmite uma bela anedota sobre Sócrates. Este combatera valentemente como soldado na campanha do Peloponeso, mas em uma ocasao, quando as tropas estavam em marcha, ele de repente mergulhara em pensamentos e ficara parado, e ali ficou para do dia inteiro, esquecido de si, do lugar, esquecido da situação. Ocorrera-lhe, ou chamara a sua atenção, algo que o fazia pensar, e assim ele saíra da sua realidade. Entrara sob a coerção de um pensar que exigia dele um lugar-nenhum, mas onde estranhamente parecia sentir-se em casa. Esse lugar-nenhum do pensar é a grande interrupção no acontecimento cotidiano, e é um outro-lugar sedutor. Segundo tudo o que sabemos de Sócrates, a experiência desse outro-lugar do espírito é uma pressuposição de seu triunfo sobre o medo da morte. Sócrates arrebatado pelo pensar torna-se inatingível. Poderão matar seu corpo, mas seu espírito há de viver. Ele está livre do dasein. Nesse Sócrates, parado ali, imóvel e absorto, enquanto as coisas em torno dele seguem seu curso, pensava Aristóteles quando louvava a filosofia seu talento para todo lugar e lugar nenhum; ela não exigia "nem equipamento nem lugar especial para se exercitar... onde quer que na terra alguém se dedique a pensar, atingirá a verdade como se ela estivesse ali presente"".

SAFRANSKI, Rudolf. Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal. São Paulo. Geração Editorial. 2000. 518 p.

P.S. Comprei recentemente outro livro de Safranki (outra biografia). Dessa vez foi de Nietzsche. O nome é: "Nietszche - biografia de uma tragédia". Há ainda outro trabalho biográfico acerca de Schopenhauer. Mais informações AQUI.

segunda-feira, agosto 22, 2011

Os Contos Proibidos do Marquês de Sade, uma breve reflexão

Ontem à tarde, voltei a assistir ao filme "Os Contos proibidos do marquês de Sade". Havia visto à obra do diretor Philip Kaufman há dez anos atrás. Mas, ontem, vendo ao filme pela segunda vez, tentei entender a personalidade complexa dessa personagem intrigante do mundo ocidental, a saber, Donatien Alphonse François, mais conhecido como Marquês de Sade. A obra de Kaufman é magnífica. Os atores Geoffrey Rush, que faz uma interpretação excepcional do Marquês de Sade, encarna o personagem; Kate Winslet (Madeleine), bela como sempre, cria uma atmosfera de encantos. Joaquin Phoenix (Coulmier), que faz o papel do padre, que cuida do manicômio, com uma atuação impecável, mostra as suas qualidades de bom ator. A história se passa na França pós-revolucionária. Napoleão está no trono.

A fotografia do filme é belíssima. Vai do glamour ao grotesco das ideias do Marquês; da tara insana ao sublime. A cena de necrofilia do padre Coulmier com Madeleine é espantosa e fascinante ao mesmo tempo. A piromania de um dos loucos impressiona. As cenas que mostram o impedimento do marquês em não poder escrever são dramáticas. Impedido de escrever, o marquês se ver atormentando pelas histórias que habitam o seu mundo surreal. Mas não há lápis, pois estes foram tirados. Dois eventos que se seguem impressionam: (1) quando o marquês escreve com o próprio sangue em sua roupa; e (2) quando nu (pois a sua roupa fora confiscada), escreve os seus textos com fezes. Contos proibidos do marquês de Sade é baseado no roteiro da peça de Doug Wright. Enquanto assistia ao filme, recordei-me de uma afirmação do escritor cristão Francis A. Schaeffer em seu livro "A morte da razão": "Todos os escritores pornográficos do século 20 atribuem a sua origem ao Marquês de Sade (1740-1814). O século 20 o celebra agora como uma personalidade - ele já não é mais um escritor "imundo", apenas" (SCHAEFFER, 2002, p. 51). Talvez, olhar para Sade apenas sob este prisma reduza sua perspectiva filosófica. O que Sade defendia era um compreensão filosófica da existência sob o ponto de vista materialista e naturalista.

Sade não é sinônimo de sadismo. O sadismo é apenas uma semântica reducionista da largura do pensamento de Sade. Para o francês, o que está aí, é; e se é, certo é. Então para ele, a moralidade oculta as leis da natureza. Os homens ao forjarem moralidades apartam-se, por meio das aparências, daquilo que é vital e natural ao ser, fugindo daquilo que se é. A psicanálise não deixa de flertar com esse pensamento. Partindo dessa concepção, Sade não oculta o id, deixando-o vivo, "insolente", "desafiador". Ele seria o mais lúcido e feliz dos homens, pois vive aquilo para a qual nasceu para viver, enquanto os outros homens se escondem por trás de máscaras morais. Não deixei de pensar em tais aspectos. Assim, a filosofia de Sade é um despudor, é uma depravação para os moralistas, mas a exata expressão do homem para os naturalistas, pois aquilo que é, é.

Abaixo o trailer do belo filme de Kaufman, de 2000:

domingo, agosto 14, 2011

A beleza eterna que se mostra no efêmero

Escrito há mais de dois anos.

Nasci na zona rural. Isso é o suficiente para me deixar feliz. Acredito que hoje não há mais infâncias como a que tive no estado de Pernambuco. Cresci em meio a histórias e acontecimentos grandiosos. Estes foram responsáveis pela formação da camada existencial mais profunda da minha alma. Corri descalço, brinquei com a terra, nadei em riachos de águas cristalinas; deitei-me em gestos abandonados na gramínea seca a olhar para o céu. Ouvi o som da tempestade titânica nos canaviais impelidos pelo vento poderoso de uma tarde de inverno. Fui como o personagem de O Menino de Engenho, de José Lins do Rêgo. Subi em jaqueiras, mangueiras, ingazeiros, abacateiros e jenipapeiros; impressionei-me com novidades. Há expectativas fabulosas no meu mundo que não foram preenchidas e me levam uma vez ou outra a imaginar os meus dias de infância.Vez ou outra sou surpreendido por visões e acontecimentos daqueles dias.

Esperava com certa ânsia o período de floração das árvores frutíferas. O cheiro que recendia dos laranjais me fascinava. O cheiro das mangueiras floridas, dos ingazeiros, impingiam mistérios. Das mangueiras também. Vivia cercado por uma natureza enunciativa. Todavia, não devo deixar de mencionar que um dos fatos mais singulares era quando se dava a floração do pau d’arco. As matas distantes, que se mostravam ao longe com suas manchas amarelas, roxas e brancas, eram vizinhos amistosos que moravam na amplidão. Via-os longe. Manchas coloridas em meio à vegetação verde das matas. Os pau d’arcos sinalizavam poderes imateriais. A sua floração era acompanhada por toda uma transformação natural. Na época da floração, lagartos, pássaros e insetos tornam-se moradores de suas copas floridas – completamente floridas. Esta árvore é típica da Mata Atlântica. Ela pode ser encontrada na maioria dos estados litorâneos brasileiros.

Sem querer eu estava estabelecendo contato com o ipê, uma das árvores mais belas da vegetação nacional. O ipê é uma árvore simbolicamente poética. A sua floração silenciosa revela um ato superior. As suas flores surgem no inverno. Em Brasília, a floração se dá entre os meses de julho e agosto. Rubem Alves afirma que o surgimento das flores é um ato libidinoso: “As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está para chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio”. A vida apressada nos desarticula a percepção. Quando menos atentamos, lá está com toda superioridade a árvore completamente tomada pelas flores. As flores despojam-se rapidamente dos galhos. Passam o ano inteiro incógnitas como árvores normais, de repente se tornam em entes ornados por uma vestimenta nobre – flores amarelas, roxas, brancas, róseas.

Os ipês carregam consigo um enigma. Por que sua beleza é tão efêmera? Dispenso explicações científicas. Quero as poéticas, quero afirmações como a do poeta cearense Patativa do Assaré, que dizia: “Aquela árvore (...) qual rainha do campo, coroada”. As suas flores não duram mais que uma semana. É como se durante todo o ano ela reunisse as suas seivas e num único momento fizesse desabrochar a beleza oculta em sua matéria. É como se a eternidade passeasse pela terra em poucos instantes e nos fizesse enxergar os aspectos celestes embutidos na natureza. Olhar para um ipê florido antecipa a visão da glória etérea que habita na consciência religiosa da humanidade. A verdadeira religião lida necessariamente com o belo. O belo é o que é e isso define a existência. A realidade é bela. Nietzsche afirmava que a decadência do mundo grego iniciou-se no momento em que a realidade passou a ser analisada, investigada, em juízos de valor – bem e mal. O mal a representar as realidades ditas ruins, e, o bem, aqueles acontecimentos entendidos como positivos, a virtude. Daí para frente, passou-se a atribuir mais importância ao feio do que ao belo. O feio parece ter mais poderosos assombrosos sobre a mente dos homens. Os noticiários da televisão transmitem mais notícias ruins do que boas. Os jornalistas sabem que a matéria mais lida ou vista é aquela que fala de catástrofes e calamidades. Notícias boas não produzem tanto efeito.

É um espetáculo observar o ipê em pose majestática. O que dizer? Quais palavras poderiam classificar a sua beleza e postular: “ele é belo porque é assim e assim”? Não existe essa possibilidade. Os ipês são vocacionados para a beleza. Em meio à selva de pedra os indivíduos passam apressados e não se dão conta da sinfonia colorida que desabrochou em ornamentou a paisagem artificial. A única atitude que podemos de fato empreender é parar, observar, refletir e contemplar. Rubem Alves ainda diz que aqueles que param para contemplar a beleza dos ipês podem ser considerados como loucos: “Lembro-me disso todas as manhãs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ipê rosa florido. A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem”.

Para se apropriar da beleza eterna que se mostra no efêmero é necessário silêncio e solidão. É preciso desprender-se do concreto e do asfalto. Trata-se do mesmo ritual sugerido por Gilberto Gil na música “Se eu quiser falar com Deus”. Dizia Gil que era necessário tirar os sapatos, ficar sozinho, entrar no quarto, ficar em silêncio. Para ouvir o belo sugerido nos ipês é preciso esse mesmo ritual. Em nossos dias essa tarefa torna-se cada vez mais complexa. Todavia, os ipês ainda enchem-se para nos advertir que na frugalidade da sua floração, o eterno passeia pela terra nas cores alegres que brotam da beleza natural. Termino com as palavras de Rubem Alves: “Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina...”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 27 e 29 de agosto de 2008, quarta e sexta-feira.

terça-feira, agosto 09, 2011

Reflexões natalícias II - quando se olha para trás e se aprende que viver é agora

O filósofo dinarmarquês Soren Kierkegaard disse certa vez que "vivemos a nossa vida para frente, mas a entendemos quando olhamos para trás". Por outro lado, temos aquela metáfora bíblica sobre a mulher de Ló. Diz a Bíblia que a cidade de Sodoma e Gomorra seria destruída por Deus por causa da maldade dos seus moradores. Deus pediu que Ló e sua família (que eram os únicos justos da cidade) saíssem do lugar, pois ela seria subtraída, deixaria de existir. Seria queimada com pedras inflamadas que cairiam do céu. Ló e sua família receberam a ordem para que não olhassem para trás. No dia em que aquilo que foi avisado que aconteceria começou a se dar, Ló e sua família iniciaram a fuga da cidade. A mulher de Ló cheia de curiosidade resolveu olhar para trás, talvez, para verificar o que estava acontecendo. Mas, de repente, ela se tornou numa estátua de sal. Quiça esta metáfora tenha por finalidade deixar claro que enquanto o homem caminha não lhe é lícito ou permitido olhar para trás. Quem olha para trás esquece as promessas do presente e as possibilidades de construção do futuro.

Os romanos eram mais criativos. Para lidar com imagem do tempo, eles criaram a pessoa de Janus, o porteiro celestial. Ele era retratado com duas cabeças, representando os términos e os começos, ou seja, passado e futuro. Inlusive, o nome janeiro, primeiro mês ou mês inaugural de cada ano, foi dado em homenagem a esse deus. Mas a frase de Kierkegarrd, filósofo de palavras sábias, introduz em mim uma possibilidade reflexiva. Vivemos para frente, pois o tempo é como uma locomotiva feroz que corre em sua fúria, sem parar, sem se compadecer dos passageiros que leva.

Quando olho para trás, o que vejo? Às vezes, faces de acontecimentos indistintos; em outros momentos, faces de acontecimentos distintos. Os indistintos são aqueles que passaram e que com o tempo vão se apagando. Mas há os distintos, aqueles que tatuaram as suas marcas em mim. Que não tive como escapar de suas influências em meu ser. Outro dia eu estava pensando enquanto caminhava como a cada dia que passa vamos nos tornando num espaço habitado pela saudade. Viver é um constante sentir saudade. Sentir saudade daquilo que foi; das pessoas que já passaram por nós; das experiências que tivemos; do beijo que damos; dos caminhos que cruzamos; daquele vento povoado por fragrâncias. Eu, por exemplo, todos as vezes que sinto cheiro da terra molhada pela chuva, naqueles primeiros instantes em que tudo começa, sou reportado à minha infância.

Eu sou um baú de estético de sensações. Dentro de mim moram as memórias daquilo que o meu corpo já viveu. Sou uma imensa esponja que vai guardando fatos, acontecimentos, eventos. Por isso, enquanto eu viver serei aquilo que aprendi a ser sendo. Heidegger disse certa vez que "o ser humano é aquele não-poder-ficar e também não-poder-sair do lugar". Ou seja, somos aquela indecisão. Aquela expectativa que gera insatisfação com o agora, mas ao mesmo tempo estamos sujeitos à facticidade do nosso tempo que acontece nesse exato momento. Sofre aquele que não consegue celebrar o presente. Certa vez li uma frase curiosa do Rubem Alves: "Cheguei onde estou por caminhos que não planejei". Esta afirmação é uma afirmação de respeito para com a vida. Primeiro, porque leva em conta o aspecto dialético da vida. A vida vai nos tornando aquilo que somos em cada momento do nosso existir. Não nascemos programados e isso é extraordinário. Não caminhamos pela mesma estrada duas vezes. Caminho uma vez, mas quando volto a caminhar a estrada terá mudado e, eu, também. Esse devir dá à vida uma mecânica poética. Segundo, pois é uma afirmação que mostra alguém maduro, que aprendeu a fazer as peguntas certas à vida.

Sofre muito pela vida a fora que faz os questionamentos errados, aprende a sibilar, a produzir garatujas verbais, a balbuciar em demasia, reclamar que nada é. E o Rubem arremata: "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha vida, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou". O lamento é sempre uma força que enfraquece, que debilita, que nos torna murmuradores ressentidos, que não consegue enxergar nada de bom naquilo que já viveu. Nietzsche costumava dizer que feliz é o sujeito que possui memória fraca, pois ele pode viver as mesmas eexperiências como se estas fossem a primeira vez.

Portanto, é preciso aprender a olhar para trás. Não ter medo de olhar para trás como faziam os judeus. Mas saber olhar para trás e enxergar uma vasta planície pedagógica, uma campo de possibilidades que explicam o meu presente e que me conduz a um caminho certo, plano.

Ao completar mais uma ano de vida, sou grato por tudo aquilo que vivi. Pelas pessoas maravilhosas que conheço. Pelas dificuldades que sempre me forçam a aprender a ser mais, querer sempre partir, no dizer de Heidegger. Sou grato pela esposa que tenho. Não fiz planejamentos para muito daquilo que sou e tenho. Agradeço pela minha infância. Pelos dias em que celebrei o barulho e o perfume da chuva; quando pisei descalço no chão pernambucano. Sinto mudanças em meu corpo físico. Está tudo escrito no pergaminho do meu rosto - eu sou a soma de tudo aquilo que vivi - sorrisos de pessoas, abraços, livros que li, músicas que ouvi, conversas que guardei, despedidas, lágrimas que derramei, escolhas que a vida me permitiu fazer. Preciso ser como Janus - olhar para o passado porque ele me forjou, viver o presente como uma dádiva e apostar no futuro, pois é para lá que a vida nos leva.

Que venha a próxima primavera!

segunda-feira, agosto 08, 2011

"O socialismo é uma doutrina triunfante", entrevista com Antonio Candido

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. "O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele", afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

Brasil de Fato – O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Antonio CandidoAntonio Candido – Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado "Literatura e sociedade" que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como "O cortiço" [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Brasil de Fato – Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Antonio CandidoAntonio Candido – Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

Brasil de Fato – O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Antonio Candido – Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

Brasil de Fato – É o que senhor mais gosta?

Antonio Candido – Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

Brasil de Fato – E de qual o senhor mais gosta?

Antonio CandidoAntonio Candido – Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li "São Bernardo" umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: "a tradução matou a obra", então a obra era boa, mas não era grande.

Brasil de Fato – Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

Antonio Candido – É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. "A divina comédia" é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

Brasil de Fato – O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Antonio CandidoAntonio Candido – Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

Brasil de Fato – O senhor acha que vai?

Antonio Candido – Não sei. Eu não tenho nem computador... as pessoas me perguntam: qual é o seu... como chama?

Brasil de Fato – E-mail?

Anyonio CandidoAntonio Candido – Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas... Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos... que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

Brasil de Fato – E o que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio CandidoAntonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: "o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana". O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na "Ideologia Alemã": as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Brasil de Fato – Por quê?

Antonio CandidoAntonio Candido – Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Brasil de Fato – O socialismo como luta dos trabalhadores?

Antonio Candido – O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Brasil de Fato – Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?ntonio Candido

Antonio Candido – Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

Brasil de Fato – O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?Antonio Candido

Antonio Candido – O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

Brasil de Fato – A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Antonio Candido – Conheci em Poços de Caldas... essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: "é melhor ser fascista do que não ter ideologia". Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

Brasil de Fato – E o dever da atual geração?

Antonio Candido – Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

Brasil de Fato – No seu livro "Os parceiros do Rio Bonito" o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Antonio CandidoAntonio Candido – Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia... Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: "ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?". Eu disse pra ele: "não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra". Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria... Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: "mas é claro que não vende, o carro não acaba". O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro "Os Parceiros do Rio Bonito", em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

[Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.]

DAQUI

sexta-feira, agosto 05, 2011

Dawkins e a Religião,(" a raiz de todo mal")

Há alguns dias atrás assistir ao documentário instigante A Raiz de todo mal do cientista inglês Richad Dawkins. Certamente, Dawkins é um dos nomes mais controvertidos do nossos dias. Figura polêmica, é odiado por religiosos do mundo inteiro. O inglês estriba suas concepções na ciência. É uma neodarwinista. A Raiz de todo mal é um documentário que tem a finalidade de polemizar acerca de Deus e da fé. Por que as pessoas creem? Em qual fundamento elas assentam as suas convicções? E, de fato, crer é uma aventura. Impera o silêncio cosmos. A facticidade da história não nos dá certezas. À nossa frente, apenas as leis naturais e os seus dogmas incontestáveis. Então o crente coloca-se à frente dos silêncios infinitos e diz ouvir ruídos divinos ininteligíveis. Crer é posicionar-se à frente dos silêncios e apostar que existe uma voz que verbaliza na eternidade.

Dawkins na tentativa de entender esse mistério, viaja por comunidades católicas, evengélicas, judaicas e islâmicas em busca de respostas. Sua posição é de observador e questionador. O ponto alto dessas visitas se dá em dois momentos: (1) quando Dawkins tenta conversar com um bem-sucedido ministro evangélico americano. A conversa assume posições conflitantes. (2) Quando Dawkins tenta dialogar com um fundamentalista islâmico. O discurso virulento do crente islâmico enxota o professor Dawkins. A seguir, duas citações Dawkins acerca da ciência e da religião:

"Ciência é uma disciplina de investigação e de dúvida construtiva, que busca com lógica, evidências e razão para elaborar conclusões. Fé, ao contrário, exige uma real suspensão da nossa capacidade crítica".

"A ciência funciona através do estabelecimento de hipóteses, ideias ou modelos e aí tenta-se desmenti-las. Então o cientista está sempre fazendo perguntas, sendo cético. A religião se resume em tornar uma crença não testada em uma verdade imutável, através do poder de algumas instituições e o passar dos tempos".

Dawkins dialogando com o pastor evangelico Ted Haggard, conselheiro do ex-presidente Bush:



Dawkins conversando com o islâmico Yousef Al-Khattab:

quinta-feira, julho 28, 2011

Morre aos 90 anos o teólogo inglês John Stott

Fiquei sabendo, no dia de ontem, que o teólogo inglês John Stott, um dos grandes nomes da teologia ortodoxa do século XX, faleceu aos 90 anos. Senti-me despertado a escrever algumas magras linhas em homenagem ao ilustre capelão da rainha da Inglaterra. Recordo-me que nos anos do meu "sono dogmático" - para lembrar Kant -, a saber os anos em que estudei teologia num seminário evangélico de confissão reformada e calvinista, Stott foi um dos nomes que mais li. E tal lembrança me instiga a trazer à memória os bons momentos em que estive com ele. Apesar de atualmente as minhas inclinações com relação a teologia passar por um revisionismo de cunho filósofico do entedimento da fé, ainda possuo em minha biblioteca alguns livros do teólogo anglicano - por exemplo, A Cruz de Cristo, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, Crer é também pensar, Batismo e Plenitude no Espírito Santo; comentários sobre as cartas de Paulo aos Romanos, aos Galátas e as cartas de Paulo a Timóteo.

Enquanto estive no seminário alguns livros de Stott exerceram uma profunda influência nas minhas atitudes e no modo como eu passei a enteder a Bíblia. Recordo-me que a leitura de Contracultura - Estudos no Sermão do Monte trouxe uma espécie de idílio de caridade. Outras obras como Crer é também pensar(um despertar ao bom senso); A Cruz de Cristo (de um denso conteúdo teológico); Eu creio na Pregação (um livro para fazer queimar o coração); Cristianismo Básico (de um idealismo cristão impressionante e desafiante); Ouça o Espírito, Ouça o Mundo (uma reflexão sobre os pressupostos básicos da fé cristã à frente de um mundo que perdeu o referenciais de "verdade", segundo o autor); e outros foram livros que exerceram uma forte influência em mim.

Eu sabia que ler Stott era ser remetido a uma perspectiva de coerência e objetividade. Foi isso que me atraiu ao seu estilo. Dos vários teólogos que já li, Sott era um daqueles que sabia ser convincente pela didática que utilizava. Seu estilo não era afetado. Unia objetividade, clareza e erudição. Achava curioso como ele conseguia escrever com tanto balisamento e tanta profundidade de uma forma completamente simples. Até hoje quando estou lendo, resumindo ou desenvolvendo ideias, procuro estruturar os meus argumentos com aquele senso didático tão peculiar ao teólogo inglês.

John Stott lia e estuda muito. Para saber o que sabia e conhecer o que conhecia, era necessário que tivesse uma vida repleta do exercício intelectual. Certa vez li em um dos seus livros (A Verdade do Evangelho?) que o teólogo lia mais de 50 livros por ano. Aquilo ficou em minha memória. Passou a ser um desafio. Como alguém como ele, com tantos compromissos conseguia ler e eu não conseguia? Desde então, todas as vezes que vou ler algum livro lembro dessa matémática de Stott. Buscamos aprender para sermos simplíces, humildes e objetivos como John Stott.

Descanse em paz, professor!

domingo, julho 24, 2011

Afirmar a vida - sempre!

Estou lendo um livro que tem me surpreendido desde a primeira página pelo nível de abrangência - Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, de Rüdiger Safranki. Dizem os entendidos que este é um dos grandes livros que já foram escritos sobre o filósofo alemão. No capítulo 3 (A intuição leva ao coração do mundo), Safranki constrói um belo cenário sobre a "filosofia da vida" que se impunha desde Nietszche e que encontra em Bergson e Dilthey ressonâncias respeitáveis. A filosofia de afirmação da vida não foi abraçada por Heidegger desde a sua juventude. No início, o jovem estudante simpatizara com os escolásticos por mera convenção ao momento em que vivia. Husserl o libertou do "sono dogmático". O realismo filósofico era um desafio àqueles que buscavam extrair do ser as paisagens que chamam à vida. Achei sensacional a citação que Safranki faz de Scheler. Transcrevo um dos parágrafos da página 84:

"Com Heidegger ainda não se sente nada daquela sensação de irrupção que Max Scheler expressa em sua Tentativa de uma Filosofia da Vida[Max Scheler] escrita naquela época. Uma 'transformação da concepção do mundo', escreve Scheler, ocorre diante de nosso olhos: 'Ela será como o primeiro passo de alguém que anos a fio esteve numa prisão escura, para um jardim florido. E essa prisão será o nosso ambiente humano com sua civilização, cercado pela razão meramente mecânica e mecanizável. E aquele jardim há de ser o mundo colorido de Deus, que nós - mesmo que ainda longe - vemos abrir-se para nós e nos saudar, luminoso. E aquele prisioneiro será o homem europeu de hoje e ontem, que caminha gemendo e suspirando sob a carga de seus próprios mecanismos, e que, tendo na visão só a terra e peso no corpo, equeceu o seu Deus e o seu mundo".

P. S. Acima de tudo poética esta descrição de Max Scheler.

Goiânia - GO.