sábado, junho 29, 2013

"O colosso", de Goya. Algumas impressões

Goya foi um pintor sensacional. Viveu no século XVIII em uma época de mudanças. Era sensível aos acontecimentos de sua época. Pintou quadros inquietantes e que, de alguma forma, imprimiram uma admiração profunda pela sua obra. O quadro acima se constitui em um desses momentos sensacionais. O quadro é uma antecipação àquilo que ficou conhecido em sua obra como "Os desastres da guerra" e as "Pinturas Negras".

"O colosso" é um óleo sobre tela (116x 105 cm). O que é curioso no quadro é a prevalência das cores escuras, de tonalidades sombrias e que transmitem uma ideia de pessimismo e apocalipse. As nuvens em tom cinzento escondem um musculoso e ameaçador gigante que passa por cima de montanhas e gera uma debandada de homens e animais que fogem sem direção. Aturdidos com tal cena, o caos se instala. Alguns vão para a esquerda; outros, para a direita. O que é curioso é que a ideia de desarticulação e anarquia da fuga, não pertuba um asno que permanece impassível com o acontecimento (no canto inferior esquerdo). 

Alguns historiadores e críticos sustentam que o quadro tinha uma intencionalidade clara: criticar as invasões napoleônicas em solo espanhol. O gigante seria Napoleão que, assim como na pintura tem o punho levantado com intentos agressivos, traria o caos e a guerra. A debandada desorganizada seria o estado em que ficaria o país. O asno imperturbável representaria Fernando VII e a nobreza que permaneceriam apáticos e inamovíveis em sua condição não resiliente. Simplesmente genial esta pintura!

terça-feira, junho 18, 2013

Para quem os protestos? O Brasil muda com o voto?

A bíblia, tida por sagrada pelos cristãos, é um livro notável. Gosto de sua profundidade espiritual. De sua profusão de temas literários. De seus conselhos altos. De suas sentenças proverbiais. Como em uma passagem da qual me lembrei hoje à noite. Recordei-me da passagem por está lendo algumas frases, amontadoados de sentenças, textos de opinião, jaculatórias insensatas de leigos, via Facebook, afirmando que o melhor protesto é saber votar em 2014. Rapidamente me veio à mente um texto bíblico. O texto está em um dos evangelhos. Jesus diz que é, simplesmente, impensado colocar vinho novo em odres velhos. Acho essa passagem fantástica. Aqui Jesus diz que o velho não comporta o processo novo. É inapropriado por causa da natureza daquilo que é velho e a natureza daquilo que é novo.

É bom ver a população brasileira saindo às ruas para exigir um país mais justo, menos corrupto, com lideranças comprometidas com justiça social, ética e honestidade. Todavia, penso que falte foco a essas manifestações. É  mais ou menos assim: chegamos até aqui. E agora, José? O que fazer? Seria interessante que se estudasse um texto de Vladimir Lênin - "Que fazer?" - que é bem oportuno ao momento. Fico receoso que após todas essas marchas o otimismo arrefeça e cada um volte para sua casa como naquela parábola de "Os gansos", de Kierkegaard, que outro dia aludi. E essas páginas belas que têm sido escritas não sejam apagadas pelo tempo.

Esses movimentos itinerantes que surgiram pelo Brasil indicam que o povo está cansando dos desmandos de um Estado, que nos últimos quinhentos anos, continua o mesmo. Quando analisamos a história brasileira notamos que não houve mudanças, rupturas significativas. O processo de Independência, de Proclamação da República, de Abolição da Escravatura, que teve uma participação popular bastante tímida, não afugentou o drama do rompimento com um estágio anterior. Ou seja, as mudanças mais importantes da história do nosso país foram realizadas por aqueles que estão no poder. O povo sempre viu tudo de longe. Quem foi "rei" continua como "rei"; e quem foi "vassalo" continua como "vassalo". Apesar de não vivermos na Índia, o nosso país possui um regime de castas. Talvez, seja por causa do povo não está envolvido nos processos, revoluções (se é que houve alguma!), que tenhamos um dos modelos de formação social mais árbitrários do mundo. 

O Estado brasileiro é violento. A chamada "democracia" existe só de fachada, pois as oligarquias dominaram no passado e continuam dominando no presente por meio dos diversos aparelhos do Estado. Essa mesma oligarquia está instalada nos vários escalões de poder e possui a seu favor o conservadorismo e o poder simbólico das mídias. Os grandes monopólios desse país estão construídos no campo das ideias. A televisão, infelizmente, ainda continua sendo a escola de muitos brasileiros. O que o William Bonner, esse grande ventríloquo global diz no "Jornal Nacional"(o jornal da ignorância nacional), ainda é tido como verdade irrefutável. Diante de um poder tão grande, essa entidade chamada Globo, aliançada com a Folha de São Paulo, Veja e todo a imprensa conservadora, constrói um muro de falsidades e reacionarismos, que busca crimizalizar os movimentos sociais e tudo aquilo que sugira a contradição.

É formidável ver o povo nas ruas, mas penso que as metas e objetivos dessas passeatas se tornem mais claros, transparentes e substantivos para que a mobilização não feneça. Está equivocado quem pensa que é votando que se melhora o país. Já tentamos de todas as formas fazer isso. Mas o que falta não é um candidato, mas um projeto que dê uma cara de Brasil ao Brasil. Erra quem acha que é determinado candidato que vai mudar o país. Esse messianismo é uma grande falácia. Esse ainda é o discurso da mídia que quer fazer todos acreditarem que determinada pessoa mudará o país. A história não feita por um homem, mas por homens que, juntos, constroem a história. 

Por isso, penso que a frase bíblica citada acima tenha tudo a ver com essa expectativa. O modelo novo que desejamos para o país não pode ser contido nessa estrutura arruinada que temos no presente. O cerne da alma brasileira está contaminado pela corrupção, pelo jeitinho, pelos desmandos e megalomanias vindos da casa-grande. Essas passeatas para terem um resultado profícuo precisam continuar pelos próximos anos, décadas. A monta de problemas é gigante. É preciso estabelecer uma agenda de atuação e lutar por isso - educação, saúde, transporte, transparência, salários de parlamentares pagos, fugindo da realidade do trabalhador assalariado, gastos com mancebias estranhas entre o público e o privado, etc. Ou seja, fazendo isso e realizando marchas reivindicatórias constantes, talvez mudemos esse país.

Euclides da Cunha diz algo fabuloso em "Os Sertões": "O que separa o litoral do interior não são quilômetros, são séculos". E essa frase é evocativa para que profiramos neste instante: "O que falta para transformar o Brasil em país decente não é uma marcha, duas marchas; são séculos de marchas. Pois não estamos atrasados cinquenta anos, mas talvez  trezentos". Continuemos a marchar com consciência.

domingo, junho 16, 2013

Comentário abrasivo sobre Brasília


Comentário sobre Brasília, extraído do site Viomundo. Sentença ácida e crítica de um dos visitantes do sítio. Apesar de ter alguns erros de digitação, creio, deixei como está no endereço eletrônico. O comentário foi feito em um post sobre as vaias dirigidas à presidenta Dilma. 

"Brasília é a invenção mais diabólica que o Brasil urdiu. É a Casa Grande estlizada, enfeitada, sonho desvairado de um lunático de que se travestiu de estadista, é o gueto da corrupção, da malandragem sofisticada, mas tão amestrada quanto o cão mais dócil, dos arranjos escatológicos e pornográficos, é um Brasil de brasileiros de outra raça, assentados em um planalto de onde se divisa todo o resto da Nação, que é olhado com desdém, escárnio, polo de atração de tudo quanto o Brasil tem de pior, de degradado, de degenerado, mas que quando se descobre, quando se revela, não passa de um charco imundo, cheio de podridão, pântano de atoleiros que consome toda e qualquer decência, boa intenção, todo e qualquer gesto de solidariedade, de respeito, de cidadania, de amor à Pátria. Coroando essa obra que enebria os menos avisados, qual Colosso de Rodes, maravilha das maravilhas, o estadista de araque faz o arremate final e tras para entre nós a indústria que é a “locomotiva do mundo”, a que constroi os monstros sorvedoros do óleo das entranhas da terra, definindo, de forma inexorável, o destino dos brasileiros: consagrar suas vidas, imolando-se qual Cristo na cruz, aos rebentos do monstro, o automóvel, os ônibos, os caminhões, bi-trens, tri-trens, seus novos e perenes guias, conduzindo-os ao longo das estradas, das avenidas, dos viadutos, dos túneis, dos becos, para um dia alcançar mais cedo o lugar do repouso eterno".

sábado, junho 15, 2013

Uma imagem que fala


Emblemática esta imagem. Fiquei refletindo depois que a vi. Faz alusão a uma passagem da bíblia (se não estou equivocado, Provérbios 22). Uma blague forte e certeira. Não me impressiona o fato de que se trata de uma criança lendo Nietzsche e desconstruindo a ideia que somente a religião judaico-cristã pode educar. Impressiona-me, na verdade, as significações filosóficas da frase e da imagem. Muito bom!

terça-feira, junho 04, 2013

Uma marcha conservadora e reacionária

Viver em sociedade leva à construção de determinados pactos. Thomas Hobbes diz que a construção do Estado foi uma necessidade para que os homens não se digladiassem. Assim, a finalidade do Estado é salvaguardar o direito de todos. Todavia, o meu direito não deve ultrapassar a esfera de direito do outro  - e vice e versa. Assim como é direito, em um Estado capitalista, eu ter o direito à propriedade privada, os outros cidadãos também o usufruem desse mesmo direito. Assim, as leis que existem têm por finalidade proteger o meu direito e o direito do outro para que não sejam violados. Quando o meu direito ou o direito do outro é colocado numa categoria que indica o prejuízo de uma das partes, aparece a figura do Estado para fazer com que os litigantes cheguem a um acordo e a ofensa seja reparada.

Essa minha explanação inicial, leva-me a ponderar sobre dois aspectos da Marcha da Liberdade de Expressão (sic), marcado para o dia 5 de junho, em Brasília. Conduzindo tal evento está o clérigo controverso e obscurantista Silas Malafaia, alguém que tem se destacado pelas posições conservadores e desassistidas de razão nos últimos tempos. Tal "marcha" me faz refletir sobre três coisas:

(1) A repetição da história. No dia 19 de março de 1964, militâncias conservadoras também marcharam em vários locais do Brasil, sob a alegação de que o estavam fazendo em nome da família e dos bons costumes. A marcha tentava alertar a sociedade para o "mal vermelho" do comunismo e do governo de Jango. Havia uma onda que descaracterizava "os movimentos sociais" e a condução do Brasil por João Goulart. Um religioso chegou a proferir: "Hoje é o dia de São José, padroeiro da família, o nosso padroeiro. Fidel Castro é o padroeiro de Brizola. É o padroeiro de Jango. É o padroeiro dos comunistas. Nós somos o povo" (sic) (daqui) Não se trata de mera coincidência, pois politicamente esses movimentos com "fachada democrática" são meramente revanchistas, preconceituosos, reacionários e afecciosos. Curiosamente, a chamada da "A marcha da família com Deus pela liberdade", redundou em um golpe militar, que levou o Brasil a mergulhar em um dos seus momentos mais nebulosos de sua história. Lamentável. Nada na história é coincidente.

(2) Hobbes diz algo curioso em O Leviatã e que serve de adendo: "Não há quase nenhum dogma referente ao serviço de Deus ou às ciências humanas de onde não nasçam divergências que se continuam em querelas, ultrajes e, pouco a pouco, não originem guerras; o que não sucede por falsidade dos dogmas, mas porque a natureza dos homens é tal que, vangloriando-se de seu suporto saber, querem que todos os demais julguem o mesmo". A fé religiosa é uma questão de perspectiva cultural. E os movimentos de cunho religioso sempre andam na contramão da história. Sempre tendem ao conservadorismo e a uma visão reducionista da realidade. Assim como eu não posso tornar a minha vontade uma tirania, o outro não deve tornar a sua vontade em uma tirania contra mim. Analisando os fatos friamente, quem atua como um tirano nessa história, os movimentos religiosos ou as minorias que estão sendo atacadas por essa onda conservadora? Todas as sociedades da terra são arranjadas segundo os ditames bíblicos ou o entendimento bíblico é o resultado da percepção de uma cultura, a saber, a judaica?

Sinceramente, eu entendo que a maior parte dos mandamentos morais defendidos pelos cristãos são aspectos da cultura judaica cristalizados no tempo. Os judeus conseguiram universalizar a sua cultura por meio do cristianismo. Será que a cosmovisão judaica é a única que existe no universo e deve "violentar" o direito dos diferentes? Creio que não. O maior erro desse movimento religioso que protesta contra a união homoafetiva é tentar tornar o seu entendimento religioso em uma regra para o mundo, em uma ditadura com fins universais. 

(3) Fico pensando que durante a história, vários foram os momentos em que algumas posturas foram tomadas de maneira irracional. Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, a Igreja realizou um Concílio para verificar se as mulheres possuíam alma. Este fato parece patético, quando analisado nos dias de hoje. Mas entendia-se, àquela época, que a mulher era um ser inferior. Atualmente, rimos desse fato e o achamos caricato. Da mesma forma, penso que a defesa dessa marcha famigerada esbarre em algo bem parecido. Talvez daqui a 50 anos, a próxima geração que surgirá ficará rindo da nossa geração e achará caricato o fato de debatermos com tanta fúria e parcialidade, hoje, essas coisas. Penso que seja uma questão está posta e que não possui volta. A religião com seus dogmas "empoeirados" pelo tempo continuará sua militância errática e barulhenta, mas não terá possibilidades de refrear o que já existe. A história é construída dialeticamente.


domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


quinta-feira, maio 30, 2013

Algumas impressões sobre o filme "Somos tão jovens", que conta os anos iniciais da carreira de Renato Russo

O filme "Somos tão jovens", do diretor Antonio Carlos Fontoura, deixou-me impressionado com a atuação do ator Thiago Mendonça. Ficou claro que o ator estudou com bastante atenção os trejeitos, os cacoetes e todo o mundo existencial de Renato Russo, vocalista e principal nome da Legião Urbana. O longa mostra a cena política e cultural de Brasília no final dos anos 70 e início da década de 80. 

O filme foca a atenção no espaço do Plano Piloto, região da Capital Federal onde mora a burguesia da cidade - servidores públicos do auto-escalão do Estado, políticos, diplomatas etc. Renato Russo, por exemplo, era filho de um economista do Banco do Brasil. O jovem Renato morara nos Estados Unidos e, na Capital Federal, estudou no Colégio Marista, uma das escolas mais tradicionais e influentes, ainda hoje, aqui em Brasília.

A obra não busca mostrar toda a vida do líder da Legião Urbana. Foca no curto espaço de 16 aos 22 anos. E é, por isso, que deixa a impressão de obra inacabada. Quando menos se espera, o filme acaba. Mas, a produção de Antonio Carlos Fontoura é convicente.

De 1964 a 1985, o Brasil experimentou um dos períodos mais escuros da sua história. Esse período que ficou conhecido como Ditadura Militar, trouxe repressão e censura. Vale mencionar que no final da década de 1970 e início dos anos de 1980, o capitalismo vivia um período de crise. O movimento punk surgira na Inglaterra nos bairros operários e se espalhara pelo mundo. Bandas como The Sex Pistols ou The Clash haviam surgido na Inglaterra com uma atitude panfletária e rebelde. Nos Estados Unidos bandas como The New York Dolls e Ramones também marcaram o compasso. As roupas rasgadas, a música distorcida e gritada com poucos acordes, o visual provocativo e a atitude rebelde eram as principais marcas do movimento punk. O protesto tinha uma direção: a sociedade capitalista moralista e religiosa, geradora de desigualdade e de um projeto burguês que visava docilizar as ações do homem comum.

Nessa mesma época, outra banda importante, o Joy Division, de duração efêmera, também possui a sua relevância. O Joy Division, apesar de ser citado em "Somos tão jovens" de forma superficial, imprimiu uma nova linguagem ao rock, que pode ser chamada de pós-punk, posto que trazia influências do punk, mas amalgamada às influências de uma melancolia intensa, que desembocaria na new age.  O genial vocalista do Joy Division, Ian Curtis, que se matou ainda muito jovem, creio, foi uma influência para o líder da Legião Urbana. Músicas como Ainda é cedo mostra a influência do pós-punk e uma textura muito similar à banda de Curtis. Um importante filme sobre a vida do problemático Curtis é Control (aqui também) de 2008, do diretor Anton Corbijn. Mas o Renato era a mistura de muitas coisas.


Após a digressão, vale afirmar que tais características serviram de inspiração para os filhos da burguesia - os rebeldes sem causa. A expectativa de estabilidade gerada pelo mundo burguês e uma sociedade que vivia a realidade da Ditadura, levou essa juventude a protestar, a construir ideais. Curiosa é uma das passagens da música Química escrita pelo Renato Russo: "Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão/ Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão /Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão".

É nesse contexto que aparece a figura de Renato Russo, que ainda no final dos anos 70, forma o Aborto Elétrico e o nome já um escracho ou uma tentativa de cooptar a atenção. A banda do ponto de vista sonoro era péssima, mas havia um sujeito habilidoso com as palavras. As letras eram de alto nível. Era como se colocasse um diamante em um recipiente de palha. A banda consegue, com apresentações tacanhas, se firmar no cenário cultural da Capital.

É dessa época também o surgimento de duas outras bandas - a Plebe Rude e o Capital Inicial (esta última dos escombros do Aborto Elétrico). Outro músico indiretamente surge do cenário musical de Brasília, Herbert Vianna, líder e fundador de Os Paralamas do Sucesso.

Todavia, o que me chamou a atenção no filme foi a tentativa acertada de reproduzir a personalidade complexa de Renato Russo, que acreditava em astrologia e possuía uma sensibilidade poética incomum. E o quanto gostava de literatura. O nome Russo é uma homenagem, como mostra o filme, a Bertrand Russel, filósofo inglês, e o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Pouca coisa já era suficiente para mover-lhe as emoções. Uma cena em que isso fica patente é quando da morte de John Lennon. O filme mostra o quanto aquilo que mexeu com o Renato Russo. 

Tais complexidades foram responsáveis pelo fim do Aborto Elétrico. Os dois outros músicos Fê Lemos (baterista) e Flávio Lemos (baixista) - ambos fundadores, com Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial - viviam às turras com o futuro líder da Legião. Após essa cisão, Renato muda a postura rebelde e investe num estilo mais folk. Deixa a barba crescer e faz apresentações solitários, auto-proclamando-se 'O trovador solitário'. E aos poucos essa expressividade vai crescendo até a formação da Legião Urbana, com os dois parceiros de toda a carreira - Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. O filme termina justamente nesse ponto, quando os músicos após terem feito um show em Patos de Minas, são convidados a irem ao Rio de Janeiro. Como afirmei acima, o filme é bom. O ponto mais forte da obra é a atuação de Thiago Mendonça, que travestiu-se de Renato Russo. Thiago conseguiu transmitir o jeito teatralizante e performático do líder da Legião. As músicas cantadas também mostram uma qualidade positiva. 

Um dos principais objetivos que me levou a assistir ao filme foi entender um pouco mais sobre o cenário político e cultural da Brasília da época da Ditadura. E penso que o filme conseguiu me passar uma impressão positivo sobre este fato. Muito bom!

terça-feira, maio 28, 2013

Para se conhecer 'o que é o Brasil" - por Antonio Candido

Há alguns dias atrás me chegou este maravilhoso artigo. A pessoa que me indicou foi bem feliz. Fazia bastante tempo que desejava uma bibliografia com nomes imprescindíveis para compreender o Brasil, o meu país - sua história, suas tragédias, seus agravos. Alguns dos livros que aparecem na lista eu já possuo. A recomendação faz um escrutínio sistemático e meticuloso pelos vários períodos da história brasileira. O texto é do inominável Antonio Candido, um dos nomes mais profícuos da produção de ideias aqui no Brasil no século XX. Ele sabe do que fala. Vale a pena correr atrás das dicas, como eu já começo a fazer com aquelas obras que ainda não possuo.

É importante conhecer nossa história para que nos entendamos; para que compreendamos nosso jeitinho; nossa propensão à canalhice; nossos impulsos carnavalescos; nossas mancadas nacionalistas; nossa tendência a não nos levarmos a sério; nossas desigualdades; para que não sejamos vítimas de uma ignorância que nos impulsiona a fazer afirmações preconceituosas, numa construção parti pris que serve para consolidar uma visão deformada de nós mesmos - como todos os dias vemos a grande mídia fazer. Boa leitura!

_______________________________________________

Quando nos pedem para indicar um número muito limitado de livros importantes para conhecer o Brasil, oscilamos entre dois extremos possíveis: de um lado, tentar uma lista dos melhores, os que no consenso geral se situam acima dos demais; de outro lado, indicar os que nos agradam e, por isso, dependem sobretudo do nosso arbítrio e das nossas limitações. Ficarei mais perto da segunda hipótese.
"Como sabemos, o efeito de um livro sobre nós, mesmo no que se refere à simples informação, depende de muita coisa além do valor que ele possa ter. Depende do momento da vida em que o lemos, do grau do nosso conhecimento, da finalidade que temos pela frente. Para quem pouco leu e pouco sabe, um compêndio de ginásio pode ser a fonte reveladora. Para quem sabe muito, um livro importante não passa de chuva no molhado. Além disso, há as afinidades profundas, que nos fazem afinar com certo autor (e portanto aproveitá-lo ao máximo) e não com outro, independente da valia de ambos.
Por isso, é sempre complicado propor listas reduzidas de leituras fundamentais. Na elaboração da que vou sugerir (a pedido) adotei um critério simples: já que é impossível enumerar todos os livros importantes no caso, e já que as avaliações variam muito, indicarei alguns que abordam pontos a meu ver fundamentais, segundo o meu limitado ângulo de visão. Imagino que esses pontos fundamentais correspondem à curiosidade de um jovem que pretende adquirir boa informação a fim de poder fazer reflexões pertinentes, mas sabendo que se trata de amostra e que, portanto, muita coisa boa fica de fora. 
São fundamentais tópicos como os seguintes: os europeus que fundaram o Brasil; os povos que encontraram aqui; os escravos importados sobre os quais recaiu o peso maior do trabalho; o tipo de sociedade que se organizou nos séculos de formação; a natureza da independência que nos separou da metrópole; o funcionamento do regime estabelecido pela independência; o isolamento de muitas populações, geralmente mestiças; o funcionamento da oligarquia republicana; a natureza da burguesia que domina o país. É claro que estes tópicos não esgotam a matéria, e basta enunciar um deles para ver surgirem ao seu lado muitos outros. Mas penso que, tomados no conjunto, servem para dar uma ideia básica.
Entre parênteses: desobedeço o limite de dez obras que me foi proposto para incluir de contrabando mais uma, porque acho indispensável uma introdução geral, que não se concentre em nenhum dos tópicos enumerados acima, mas abranja em síntese todos eles, ou quase. E como introdução geral não vejo nenhum melhor do que O povo brasileiro (1995), de Darcy Ribeiro, livro trepidante, cheio de ideias originais, que esclarece num estilo movimentado e atraente o objetivo expresso no subtítulo: “A formação e o sentido do Brasil”.
Quanto à caracterização do português, parece-me adequado o clássico Raízes do Brasil (1936), de Sérgio Buarque de Holanda, análise inspirada e profunda do que se poderia chamar a natureza do brasileiro e da sociedade brasileira a partir da herança portuguesa, indo desde o traçado das cidades e a atitude em face do trabalho até a organização política e o modo de ser. Nele, temos um estudo de transfusão social e cultural, mostrando como o colonizador esteve presente em nosso destino e não esquecendo a transformação que fez do Brasil contemporâneo uma realidade não mais luso-brasileira, mas, como diz ele, “americana”. 
Em relação às populações autóctones, ponho de lado qualquer clássico para indicar uma obra recente que me parece exemplar como concepção e execução:História dos índios do Brasil (1992), organizada por Manuela Carneiro da Cunha e redigida por numerosos especialistas, que nos iniciam no passado remoto por meio da arqueologia, discriminam os grupos linguísticos, mostram o índio ao longo da sua história e em nossos dias, resultando uma introdução sólida e abrangente.
Seria bom se houvesse obra semelhante sobre o negro, e espero que ela apareça quanto antes. Os estudos específicos sobre ele começaram pela etnografia e o folclore, o que é importante, mas limitado. Surgiram depois estudos de valor sobre a escravidão e seus vários aspectos, e só mais recentemente se vem destacando algo essencial: o estudo do negro como agente ativo do processo histórico, inclusive do ângulo da resistência e da rebeldia, ignorado quase sempre pela historiografia tradicional. Nesse tópico resisto à tentação de indicar o clássico O abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco, e deixo de lado alguns estudos contemporâneos, para ficar com a síntese penetrante e clara de Kátia de Queirós Mattoso, Ser escravo no Brasil (1982), publicado originariamente em francês. Feito para público estrangeiro, é uma excelente visão geral desprovida de aparato erudito, que começa pela raiz africana, passa à escravização e ao tráfico para terminar pelas reações do escravo, desde as tentativas de alforria até a fuga e a rebelião. Naturalmente valeria a pena acrescentar estudos mais especializados, como A escravidão africana no Brasil (1949), de Maurício Goulart ou A integração do negro na sociedade de classes (1964), de Florestan Fernandes, que estuda em profundidade a exclusão social e econômica do antigo escravo depois da Abolição, o que constitui um dos maiores dramas da história brasileira e um fator permanente de desequilíbrio em nossa sociedade.
Esses três elementos formadores (português, índio, negro) aparecem inter-relacionados em obras que abordam o tópico seguinte, isto é, quais foram as características da sociedade que eles constituíram no Brasil, sob a liderança absoluta do português. A primeira que indicarei é Casa grande e senzala (1933), de Gilberto Freyre. O tempo passou (quase setenta anos), as críticas se acumularam, as pesquisas se renovaram e este livro continua vivíssimo, com os seus golpes de gênio e a sua escrita admirável – livre, sem vínculos acadêmicos, inspirada como a de um romance de alto voo. Verdadeiro acontecimento na história da cultura brasileira, ele veio revolucionar a visão predominante, completando a noção de raça (que vinha norteando até então os estudos sobre a nossa sociedade) pela de cultura; mostrando o papel do negro no tecido mais íntimo da vida familiar e do caráter do brasileiro; dissecando o relacionamento das três raças e dando ao fato da mestiçagem uma significação inédita. Cheio de pontos de vista originais, sugeriu entre outras coisas que o Brasil é uma espécie de prefiguração do mundo futuro, que será marcado pela fusão inevitável de raças e culturas.
Sobre o mesmo tópico (a sociedade colonial fundadora) é preciso ler tambémFormação do Brasil contemporâneo, Colônia (1942), de Caio Prado Júnior, que focaliza a realidade de um ângulo mais econômico do que cultural. É admirável, neste outro clássico, o estudo da expansão demográfica que foi configurando o perfil do território – estudo feito com percepção de geógrafo, que serve de base física para a análise das atividades econômicas (regidas pelo fornecimento de gêneros requeridos pela Europa), sobre as quais Caio Prado Júnior engasta a organização política e social, com articulação muito coerente, que privilegia a dimensão material. 
Caracterizada a sociedade colonial, o tema imediato é a independência política, que leva a pensar em dois livros de Oliveira Lima: D. João VI no Brasil (1909) eO movimento da Independência (1922), sendo que o primeiro é das maiores obras da nossa historiografia. No entanto, prefiro indicar um outro, aparentemente fora do assunto: A América Latina, Males de origem (1905), de Manuel Bonfim. Nele a independência é de fato o eixo, porque, depois de analisar a brutalidade das classes dominantes, parasitas do trabalho escravo, mostra como elas promoveram a separação política para conservar as coisas como eram e prolongar o seu domínio. Daí (é a maior contribuição do livro) decorre o conservadorismo, marca da política e do pensamento brasileiro, que se multiplica insidiosamente de várias formas e impede a marcha da justiça social. Manuel Bonfim não tinha a envergadura de Oliveira Lima, monarquista e conservador, mas tinha pendores socialistas que lhe permitiram desmascarar o panorama da desigualdade e da opressão no Brasil (e em toda a América Latina).
Instalada a monarquia pelos conservadores, desdobra-se o período imperial, que faz pensar no grande clássico de Joaquim Nabuco: Um estadista do Império(1897). No entanto, este livro gira demais em torno de um só personagem, o pai do autor, de maneira que prefiro indicar outro que tem inclusive a vantagem de traçar o caminho que levou à mudança de regime: Do Império à República(1972), de Sérgio Buarque de Holanda, volume que faz parte da História geral da civilização brasileira, dirigida por ele. Abrangendo a fase 1868-1889, expõe o funcionamento da administração e da vida política, com os dilemas do poder e a natureza peculiar do parlamentarismo brasileiro, regido pela figura-chave de Pedro II. 
A seguir, abre-se ante o leitor o período republicano, que tem sido estudado sob diversos aspectos, tornando mais difícil a escolha restrita. Mas penso que três livros são importantes no caso, inclusive como ponto de partida para alargar as leituras. 
Um tópico de grande relevo é o isolamento geográfico e cultural que segregava boa parte das populações sertanejas, separando-as da civilização urbana ao ponto de se poder falar em “dois Brasis”, quase alheios um ao outro. As consequências podiam ser dramáticas, traduzindo-se em exclusão econômico-social, com agravamento da miséria, podendo gerar a violência e o conflito. O estudo dessa situação lamentável foi feito a propósito do extermínio do arraial de Canudos por Euclides da Cunha n’Os sertões (1902), livro que se impôs desde a publicação e revelou ao homem das cidades um Brasil desconhecido, que Euclides tornou presente à consciência do leitor graças à ênfase do seu estilo e à imaginação ardente com que acentuou os traços da realidade, lendo-a, por assim dizer, na craveira da tragédia. Misturando observação e indignação social, ele deu um exemplo duradouro de estudo que não evita as avaliações morais e abre caminho para as reivindicações políticas. 
Da Proclamação da República até 1930 nas zonas adiantadas, e praticamente até hoje em algumas mais distantes, reinou a oligarquia dos proprietários rurais, assentada sobre a manipulação da política municipal de acordo com as diretrizes de um governo feito para atender aos seus interesses. A velha hipertrofia da ordem privada, de origem colonial, pesava sobre a esfera do interesse coletivo, definindo uma sociedade de privilégio e favor que tinha expressão nítida na atuação dos chefes políticos locais, os “coronéis”. Um livro que se recomenda por estudar esse estado de coisas (inclusive analisando o lado positivo da atuação dos líderes municipais, à luz do que era possível no estado do país) éCoronelismo, enxada e voto (1949), de Vitor Nunes Leal, análise e interpretação muito segura dos mecanismos políticos da chamada República Velha (1889-1930). 
O último tópico é decisivo para nós, hoje em dia, porque se refere à modernização do Brasil, mediante a transferência de liderança da oligarquia de base rural para a burguesia de base industrial, o que corresponde à industrialização e tem como eixo a Revolução de 1930. A partir desta viu-se o operariado assumir a iniciativa política em ritmo cada vez mais intenso (embora tutelado em grande parte pelo governo) e o empresário vir a primeiro plano, mas de modo especial, porque a sua ação se misturou à mentalidade e às práticas da oligarquia. A bibliografia a respeito é vasta e engloba o problema do populismo como mecanismo de ajustamento entre arcaísmo e modernidade. Mas já que é preciso fazer uma escolha, opto pelo livro fundamental de Florestan Fernandes,A revolução burguesa no Brasil (1974). É uma obra de escrita densa e raciocínio cerrado, construída sobre o cruzamento da dimensão histórica com os tipos sociais, para caracterizar uma nova modalidade de liderança econômica e política. 
Chegando aqui, verifico que essas sugestões sofrem a limitação das minhas limitações. E verifico, sobretudo, a ausência grave de um tópico: o imigrante. De fato, dei atenção aos três elementos formadores (português, índio, negro), mas não mencionei esse grande elemento transformador, responsável em grande parte pela inflexão que Sérgio Buarque de Holanda denominou “americana” da nossa história contemporânea. Mas não conheço obra geral sobre o assunto, se é que existe, e não as há sobre todos os contingentes. Seria possível mencionar, quanto a dois deles, A aculturação dos alemães no Brasil (1946), de Emílio Willems; Italianos no Brasil (1959), de Franco Cenni, ou Do outro lado do Atlântico (1989), de Ângelo Trento – mas isso ultrapassaria o limite que me foi dado.
No fim de tudo, fica o remorso, não apenas por ter excluído entre os autores do passado Oliveira Viana, Alcântara Machado, Fernando de Azevedo, Nestor Duarte e outros, mas também por não ter podido mencionar gente mais nova, como Raimundo Faoro, Celso Furtado, Fernando Novais, José Murilo de Carvalho, Evaldo Cabral de Melo etc. etc. etc. etc". 
* Artigo publicado na edição 41 da revista Teoria e Debate – em 30/09/2000
Extraído DAQUI

domingo, maio 26, 2013

"O vento será sua herança" e o fanatismo contra a razão

Terminei de assistir ao filme O vento será sua herança ("Inherit the wind"), de 1960. O filme retrata um dos casos mais emblemáticos da história do judiciário americano. Trata-se da acusação contra o jovem professor, de 25 anos de idade, John T. Cates. Tal fato ficou conhecido como o Julgamento do Macaco ("Monkey Trial") e teve repercussão mundial. Na pequena cidade de Dayton, em 1925, no estado do Tennessee, as leis eram derivadas dos ensinamentos bíblicos. Nessa cidade (no filme, Hillsboro), o professor Bertran Cates (que no filme tem o nome mudado para John T. Cates) ensina em uma escola pública as concepções do darwinismo, sem que professe como convicção pessoal a conhecida teoria de Darwin. 

O professor é preso e são convidados para o caso os polemistas Henry Drummond - defesa - e Matthew H. Brady) - acusação. A acusação contra o professor se baseava no fato de ter desobedecido uma lei estadual que proibia os funcionários públicos de negarem os princípios do criacionismo. Nas sessões do tribunal, a população da cidade fica contra o professor. Na verdade, é compreensivo tal fato, pois as tradições da comunidade estavam sendo questionadas. As crenças geram um conforto psicológico. Quando determinada crença é questionada, há necessariamente uma desestabilização, gerando um conflito consequente.

Acontecem quatro sessões. A terceira é a mais dramática. É aquela em que é o advogado de defesa convida de forma irônica o promotor para ser interrogado. Na sessão número 2, o advogado de defesa tivera negada a possibilidade de entrevistar importantes cientistas e professores eminentes. Na terceira, de forma irônica, mune-se de uma bíblia para julgar o promotor, considerado um perito no conhecimento das escrituras. Aqui percebemos um gracejo feito pelo advogado de defesa, já que às autoridades científicas havia ocorrido uma negativa.

Henry Drummond utiliza como estratégia questionar alguns pontos bem sensíveis do texto bíblico como, por exemplo, a história da criação, o mito de Jonas e narrativa que conta que Josué fez o sol ficar inerte no céu. Tais argumentos foram elaborados de tal forma que fizeram o promotor caí em contradição. Ao final da sessão, ele estava bastante abalado, desorientado. O que o faz ir para casa e escrever uma extensa prédica a favor do criacionismo. 

Na quarta e última sessão, na qual teria o veredicto proferido, o professor é condenado. Sua condenação resume-se a pagar uma multa de cem dólares. Matthew H. Brady, responsável pela acusação, protesta veementemente. Quando a sentença é proferida, inicia o seu discurso tresloucado. E no calor da saraivada raivosa e conservadora acaba tendo um enfarte e morre seis dias depois. Sua morte simboliza a morte dos valores retrógrados e ensejando o surgimento de novas concepções.

O filme do diretor Stanley Kramer deixa-nos uma relevante reflexão, posto que nos alerta contra os dogmatismos, sejam eles religiosos ou "a-religiosos" - este último é aquele tipo de dogmatismo que tenta divergir da religião, mas acaba se tornando outra religião. Em todas as épocas da história a intolerância sempre esteve presente. O direito à liberdade de pensamento fizeram com que Sócrates, Giordano Bruno, Galileu Galilei ou Charles Darwin fossem perseguidos por desferirem golpes filosóficos nas ideias estabelecidas.

A religião, talvez, seja uma das dimensões do ser humano mais geradoras de conflitos. O religioso crente em seu dogma é preconceituoso, possui visão curta e não está aberto a qualquer debate. Se a linguagem diverge contra a sua, aquele que profere esta sentença é digno de um tribunal. 

Como fica bem claro no filme, o que distingue o homem dos outros seres da natureza é justamente a sua capacidade de pensar. Se deus fez o homem conforme está escrito nos "poemas sagrados" não lhe seria negada a possibilidade de ousar com a razão. Como fala do advogado de defesa: "Que outro mérito nós temos? O elefante é maior, o cavalo é mais veloz e mais forte... a borboleta é mais bonita, o mosquito é mais prolífico... até mesmo uma esponja é mais duradoura". 

P.S. O nome do filme é baseado no texto de Provérbios 11.29: "Aquele que perturba sua casa herdará o vento...". 

Excelente filme!

domingo, maio 19, 2013

Resposta a uma pergunta...

Texto escrito como resposta elaborada por mim a uma pergunta feita por um colega de seminário (hoje pastor presbiteriano). Fiz algumas modificações para que a impessoalidade pudesse prevalecer:



"Xxxxx, paz e bem para você!

Desculpe por não tê-lo respondido antes. Não ignorei sua mensagem. Apenas quis achar um momento oportuno para tal. Com relação à igreja, de fato, não estou vinculado a nenhuma comunidade - apesar de, acredito, ainda está inserido no rol de membros da Igreja Presbiteriana do Cruzeiro. Não quero passar a ideia de que me tornei mais esclarecido, mais evoluído, mais sofisticado; de que descobri a pólvora da consciência cósmica e espiritual, mas muito daquilo que é pregado pela igreja não preenche mais as minhas necessidades. Atualmente, penso que a Igreja pregue uma dogmática que é mais linguagem do que verdadeira espiritualidade. A Igreja é uma comunidade que prega uma moralidade castrante e reacionária. Suas expressões estão balizadas em um conservadorismo que é resultado do antigo judaísmo. Na verdade, penso que defendamos cegamente aquilo que nos contaram. Nunca fizemos uma investigação verdadeira. Repetimos a história de uma sociedade que conseguiu perpetuar suas crenças. A espiritualidade é uma dimensão inegável do ser humano, mas ela não é privativa de determinado entendimento cultural ou religioso. Continuo desejoso da verdadeira espiritualidade, mas a espiritualidade dos monges medievais - São Boaventura, Santa Tereza de Ávila, Santo Agostinho, São Jerônimo, São João da Cruz... que para mim são modelos de uma verdadeira espiritualidade. Sinto-me desconfortável quando vou à Igreja e escuto discursos "grávidos" de uma moralidade que reivindica exclusividade da verdade. A verdade não é algo que alguns homens tenham e, outros, não. Muito pelo contrário, acredito que exista uma diversidade de compreensões, pois todas as verdades são verdades do Uno. Reivindicar a exclusividade da verdade é uma violência contra as leis que regem a natureza. Na natureza, não encontramos "o um", encontramos "o muito". A verdadeira espiritualidade é aquela que  liberta para viver aquilo que é típico e característico do ser humano: a capacidade de ser humano plenamente. A espiritualidade deve impulsionar o sujeito a viver uma humanização verdadeira na história. Penso que a Igreja só está aberta a dialogar com aquele sujeito que verbalize a mesma linguagem. O diferente não entra na Igreja. É necessário que ele se "converta". Conversão (essa palavra!) quer dizer um "modus operandi" que se coaduna com a récita da comunidade.

Peço perdão se fui agressivo com as palavras e agradeço as suas orações. Isso demonstra o quanto praticas uma espiritualidade diferenciada. Alguns podem me criticar. Você, pelo contrário, tenta me entender.

Abraço forte!

P.S. Se quiseres conversar, é só chamar".



sexta-feira, maio 17, 2013

Jethro Tull no Programa do Jô - 1990 - vídeo raro

Dando uma zapeada pelo Youtube e vendo alguns vídeos do Jethro Tull, eu acabei encontrando esse registro fantástico. Trata-se de uma entrevista realizada pelo Jô Soares com o Ian Anderson em 1990. Anderson mostra-se, na entrevista, o grande artista que é e sempre foi - inteligente e com um grande senso de humor. No final, os caras ainda tocam duas músicas. Muito bom!

domingo, maio 12, 2013

O absurdo de existir - O estrangeiro, de Albert Camus

Terminei a leitura de O estrangeiro, de Albert Camus, escritor existencialista franco-argelino e fiquei pensando nas cenas do último capítulo. O livro é uma narrativa curta. Fácil. De leitura de fluência prazerosa. O que impressiona no livro é a carga densa de filosofia instilada da existência da personagem Meursault. O Estrangeiro talvez seja a obra mais conhecida de Camus, juntamente com A peste e o Mito de Sísifo

O livro, ao meu modo de ver, é dividido em três momentos: (1) a descrição inicial da vida e da morte materna da personagem principal,  Meursault; sua vida de trabalhador de um escritório e suas preocupações burocráticas; e a atividade sexual com Marie. (2) o assassinato cometido por  Meursault, seu julgamento e a sentença de morte. (3) a consciência adquirida por  Meursault na cadeia. O último capítulo, por exemplo, é aquele que mais me chamou a atenção. 

Após ter sido condenado à morte pelo tribunal, Meursault é recolhido à prisão e passa a ruminar a existência. Rejeita a visita do capelão da prisão por diversas vezes. Até que certo dia, este aparece e tenta estabelecer um diálogo com uma finalidade bem óbvia: o arrependimento e a conversão à fé, como fica claro no diálogo estabelecido pelos dois. Todavia, Meursault se nega a este artifício.  O padre tenta derrogar a obstinação de Meursault, mas em vão. 

É curiosa essa citação do livro: "Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos 30 anos ou aos 70 anos, pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos". (p. 114). Impressiona o niilismo dessa afirmação e aqui chegamos, talvez, a um dos fundamentos básicos da filosofia de Camus: o absurdo. O que é viver? Para quê serve a vida? Em que ela deve se sustentar? 

Para explicar isso, é conhecido a alegoria criada pelo escritor em um ensaio de 1941, conhecido como O mito de Sísifo, para exemplificar em que a vida está estribada. Segundo ele, Sísifo, personagem da mitologia grega, foi condenado pelos deuses a rolar uma pedra de peso e proporções enormes por um aclive. O trágico da existência de Sísifo é que, todas as vezes que ele chegasse ao cume da montanha, a pedra rolaria monte abaixo. E Sísifo empreenderia a ação infinitamente, sempre de maneira infausta e deprimente. O seu esforço redundaria sempre em insucesso. 

Para Camus, a existência é esse jogo com o absurdo. Outro exemplo tirado de uma outra alegoria criada por ele, é a de alguém enfrentando um exército armado com metralhadores e canhões, apenas com uma espada. Tamanho quixotismo é a encenação que se dá no teatro da vida. Por mais que se busque um subterfúgio (a religião, os prazeres, o consumismo etc) para tampar o realismo desse sol devorador, tal tentativa não minora essa coisa assombrosa que é existir. Existir é estar nu diante de si e da consciência do mundo. Vive-se em um universo imparcial, sem Deus

Como um bom existencialista, Camus sabia que a única possibilidade é, de enquanto rolamos a pedra montanha acima, nos ocuparmos com um projeto que abra janelas de sentidos. É assim que surge a frase como um lampejo de luz nessa atmosfera agônica e trágica em O estrangeiro: "Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Mesmo na prisão..." (p. 113). Ou seja, mesmo condenados a vivermos no absurdo podemos experimentar as cintilações de beleza do universo. Mas a pedra... ah! a pedra rolará, pois estamos condenados a isso...

P.S. Luchino Visconti, que adaptou belamente Morte em Veneza, de Thomas Mann, filmou em 1967 O Estrangeiro, de Camus. Vale a pena ver. Pode ser encontrado no Youtube.