domingo, outubro 20, 2013

Dois filmes - A Culpa é do Fidel(2006) e Serra Pelada(2013)

(1) Passei uma semana em casa. A escola onde trabalho deu uma semana de recesso. Consegui descansar um pouco da labuta asfixiante. Amanhã, voltarei ao trabalho, rumo ao final de mais um ano letivo. Aproveitei, assim, a semana para ver alguns filmes. Entre eles, pude ver o excelente A culpa é do Fidel (2006), de Julie Gavras, filha do mitológico diretor grego Costa Gavras. O filme retrata a história de Anna (Nina Kervel) que quer compreender todo o celeuma político em que sua família está envolvida. Ela não se contenta com explicações parciais. Quer entender como os adultos que a cercam tratam as questões políticas. Quer saber o que é aborto, comunismo, solidariedade; o porquê dos homens lutarem por determinadas causas; o porquê de ser proibido cultuar determinada religião. A história se passa em Paris, no início dos anos 70, mas o pano de fundo é a luta contra o general Franco e a eleição de Salvador Allende, no Chile. O nome da obra - A culpa é do Fidel - já nos insere nesse universo de conflito contra a ética do socialismo e o mundo infantil. Nesse sentido, após tê-lo visto, fiquei com a certeza de que ele deve ser colocado ao lado de dois outros excelentes filmes, que retratam crianças como sendo o eixo que estabelece uma crítica - Pequena Miss Sunshine (2006) e A Língua das Mariposas (1999).

(2) O cinema nacional desde o alvorecer do século XXI tem realizado em média setenta produções por ano. Algumas dessas produções são medíocres; outras, nem tanto. É curioso que se no passado investíamos no gênero pornochanchada, mudamos substancialmente para outro apelo estético. As produções que se efetivaram como sucesso de bilheteria, foram aquelas que se fixaram na violência com ramificações gângsteres. Cidade de Deus, Cidade dos homens ou Tropa de Elite são exemplos bem chamativos daquilo que pode ser conhecido como estética da favela ou estética da fome. É um tipo de realismo que foca a miséria e a violência nossa de cada dia. É como se essas produções preenchessem um fetiche de nosso inconsciente coletivo. Ou de nossos medos mais extremos. Aquilo que tememos que nos ocorra no espaço secular da rua, enche nossos os olhos quando assistimos a isso no cinema ou na redoma sagrada e inviolável do lar. 

Na sexta, 18, por exemplo, fui assistir à estreia de Serra Pelada, de Heitor Dhalia, que já havia feito o excelente O Cheiro do Ralo, em 2007. Em O Cheiro do Ralo, Dhalia havia fugido dos convencionalismos e se fiado pela boa criação da ficção que nos enche os olhos. Em Serra Pelada, Dhalia resgatou uma das páginas mais dramáticas da história recente do Brasil, o garimpo de Serra Pelada, no estado do Pará, coração da Floresta Amazônica. O munícipio de Curionopólis, sul do estado do Pará, protagonizou uma corrida ao ouro no início dos anos 80. Estima-se que 30 toneladas de ouro foram extraídos do maior garimpo a céu aberto do mundo. Muitos brasileiros de todas as regiões do país correram em busca do tão propalado ouro. Muitos enriqueceram, mas outros continuaram pobres e tiveram seus sonhos enterrados pelas dificuldades materiais.

É justamente a partir dessa temática que o bom elenco de Serra Pelada recria o cenário. Juliano (Juliano Cazarré) e Joaquim (Júlio de Andrade) são os protagonistas, contando ainda com atores como Sophie Charlote (Tereza), Wagner Moura (Lindo Rico) e Matheus Nachtergaele (Coronel Carvalho). A obra recria o cenário do garimpo e nos joga numa trama na qual ganância, poder e violência vão sendo desenrolados como a lã de um novelo. Juliano torna-se uma espécie de Don Corleone da selva. Vai criando tentáculos a partir da sede que é despertada pela vontade de mais poder. E nesse sentido a obra nos alerta para os elementos psicológicos que fazem parte do mundo humano. Ou seja, como lidamos com o poder e quais são os caminhos construídos para se chegar até ele. Outro aspecto importante é o mundo marginal que existe em torno do garimpo - prostituição, violência, tráfico de drogas, homossexualismo, hedonismo como resultado do ganho fácil do ouro. O filme ainda nos aponta o fato de que nos tornamos reféns de circunstâncias que estão para além do nosso controle.

Embora reproduza a estética da miséria e da violência, criando uma trama hollyoodiana, a obra é significativa por retratar um evento importante da história do Brasil recente e trabalhar com aspectos tão singulares do mundo humano.

sexta-feira, outubro 18, 2013

Qual romance você está lendo?

Excelente texto do italiano Contardo Calligaris. Eu sabia que os normais são os que leem literatura ficcional!

Sempre pensei que fosse sábio desconfiar de quem não lê literatura. Ler ou não ler romances é para mim um critério. Quer saber se tal político merece seu voto? Verifique se ele lê literatura. Quer escolher um psicanalista ou um psicoterapeuta? Mesma sugestão. E, cuidado, o hábito de ler, em geral, pode ser melhor do que o de não ler, mas não me basta: o critério que vale para mim é ler especificamente literatura --ficção literária. Você dirá que estou apenas exigindo dos outros que eles sejam parecidos comigo. E eu teria que concordar, salvo que acabo de aprender que minha confiança nos leitores de ficção literária é justificada. 

Algo que eu acreditava intuitivamente foi confirmado em pesquisa que acaba de ser publicada pela revista "Science" (migre.me/gkK9J), "Reading Literary Fiction Improves Theory of Mind" (ler ficção literária melhora a teoria da mente), de David C. Kidd e Emanuele Castano. Uma explicação. Na expressão "teoria da mente", "teoria" significa "visão" (esse é o sentido originário da palavra). Em psicologia, a "teoria da mente" é nossa capacidade de enxergar os outros e de lhes atribuir de maneira correta crenças, ideias, intenções, afetos e sentimentos. 

A teoria da mente emocional é a capacidade de reconhecer o que os outros sentem e, portanto, de experimentar empatia e compaixão por eles; a teoria da mente cognitiva é a capacidade de reconhecer o que os outros pensam e sabem e, portanto, de dialogar e de negociar soluções racionais. Obviamente, enxergar o que os outros sentem e pensam é uma condição para ter uma vida social ativa e interessante. 

Existem vários testes para medir nossa "teoria da mente" -- os mais conhecidos são o RMET ou o DANVA, testes de interpretação da mente do outro pelo seu olhar ou pela sua expressão facial. Em geral, esses testes são usados no diagnóstico de transtornos que vão desde o isolamento autista até a inquietante indiferença ao destino dos outros da qual dão prova psicopatas e sociopatas. Kidd e Castano aplicaram esses testes em diferentes grupos, criados a partir de uma amostra homogênea: 1) um grupo que acabava de ler trechos de ficção literária, 2) um grupo que acabava de ler trechos de não ficção, 3) um grupo que acabava de ler trechos de ficção popular, 4) um grupo que não lera nada. 

Conclusão: os leitores de ficção literária enxergam melhor a complexidade do outro e, com isso, podem aumentar sua empatia e seu respeito pela diferença de seus semelhantes. Com um pouco de otimismo, seria possível apostar que ler literatura seja um jeito de se precaver contra sociopatia e psicopatia. Mais duas observações. 

1) A pesquisa mede o efeito imediato da leitura de trechos literários. Não sabemos se existem efeitos cumulativos da leitura passada (hoje não tenho tempo, mas "já li muito na adolescência"): o que importa não é se você leu, mas se está lendo. 

2) A pesquisa constata que a ficção popular não tem o mesmo efeito da literária. A diferença é explicada assim: a leitura de ficção literária nos mobiliza para entender a experiência das personagens. 

"Como na vida real, os mundos da ficção literária são povoados por indivíduos complexos cujas vidas interiores devem ser investigadas, pois são raramente de fácil acesso."
"Contrariamente à ficção literária, a ficção popular (...) tende a retratar o mundo e as personagens como internamente consistentes e previsíveis. Ela pode confirmar as expectativas do leitor em vez de promover o trabalho de sua teoria da mente." 

Em suma, o texto literário é aquele que pede esforços de interpretação por aquelas caraterísticas que foram notadas pelos melhores leitores do século 20: por ser ambíguo (William Empson), aberto (Umberto Eco) e repleto de significações secundárias (Roland Barthes). Na hora de fechar esta coluna, na terça-feira, encontro a mesma pesquisa comentada na seleção do "New York Times" oferecida semanalmente pela Folha. A jornalista do "Times" pensou que a leitura literária, ajudando-nos a enxergar e entender os outros, facilitaria nossas entrevistas de emprego ou nossos encontros românticos. 

Quanto a mim, imaginei que, na próxima vez em que eu for chamado a sabatinar um candidato, não esquecerei de perguntar: qual é o romance que você está lendo? E espero que o candidato mencione um livro que conheço, para verificar se está falando a verdade

Daqui

terça-feira, outubro 15, 2013

In Utero, do Nirvana, 20 anos do lançamento - algumas considerações


Motivos iniciais - a fecundação do caos

Este texto, resultado de uma pensata pouco convincente, deveria ter saído há um mês atrás. Devido a circunstâncias pouco favoráveis eu não pude escrever. Mas vamos lá: há um mês atrás a indústria fonográfica mundial - dia 13/09 - comemorou 20 anos do lançamento do álbum In Utero, último disco de estúdio da banda de Kurt Cobain, lendário líder do Nirvana. Falar do Nirvana é lembrar a minha adolescência. É voltar ao início dos anos de 1990, época da explosão do movimento grunge, época esta também em que descobri o rock.

Quando me analiso e tento encontrar explicações plausíveis que expliquem o fato de até hoje ouvir a banda de Kurt Cobain, entendo que se trata de um apelo das emoções. A banda musicalmente era ruim. A voz de Kurt era um grunhido gritado. Em muitos momentos ele desafinava. As suas performances eram irracionais. Mas o selo da rebeldia estava em tudo aquilo e, talvez, esse fato seja um combustível para as nossas necessidades mais primitivas. 

Alex Ross em seu excelente livro Escuta Só, diz que Cobain escolheu voluntariamente "um caminho para a morte". Ou seja, sua trajetória estava marcada e traçada por conta de uma vida de abandono e instabilidade emocional desde o início de sua carreira. Charles Cross, por sua vez, na biografia Mais pesado que o céu, livro este em que é pintada com cores bem vivas a conturbada e cinzenta vida do líder do Nirvana, deixa muito claro o sujeito complexo e emocionalmente instável que era Kurt Cobain. Para entendê-lo é necessário mergulhar em sua história familiar. Na separação dos pais. A mãe Wendy e seu pai Don, formaram um casal instável. Parecia haver uma condição psicológica perturbada na família da mãe de Cobain. Segundo Cross, Wendy separou-se de Don sem maiores explicações e a partir daí começa a desagregação existencial de Kurt.

Passou a viver de favores na casa de amigos. A receber salários ordinários em sub-empregos. Kurt não era muito disposto ao trabalho. Gostava mesmo era de rock. O movimento punk em alta no final dos anos 70 e início dos anos 80 era sua grande atração. Sua vida era "vagabundar" pelos bairros de Aberdeen, sua cidade natal, no estado de Washington, extremo oeste americano. 

Ao formar o sua primeira banda, a Fecal Matter ("Matéria Fecal"), em 1985, nota-se o tom de escracho e ao mesmo tempo, de insubordinação adolescente e que seria a sua marca. Tal alusão subjacente foi cantada inconscientemente em Smell like teen spirit ("Cheira a espírito adolescente"). A Fecal Matter não fez nenhum show. Foi uma proto-ideia daquilo que mais tarde seria o Nirvana. O certo é que Kurt sempre mostrou-se introspectivo. Mesmo antes de se tornar famoso, sempre mencionava a possibilidade do suicídio.

Bleach e Nervemind - organizando o caos

Em 1989, Cobain lançaria o disco que seria uma espécie de panfleto de sua estética. É um disco muito importante para o movimento grunge. Ele consolida aquilo que já vinha sendo feito por bandas como Melvins ou Mudhoney. O disco foi gravado pela famosa e marginal gravadora Sub-Pop, que logo em seguida despejaria para o mundo uma quantidade de bandas desconhecidas, acreditando que no meio desse caudal haveria "outros nirvanas". Bleach é um disco barulhento, de som sujo e gritado. As músicas possuem uma marca que seguiria a banda em sua trajetória efêmera: o som se amalgamava com a voz feita sob encomenda de Kurt Cobain. Os solos de guitarra são desarmônicos. Existe uma não-linearidade nesse sentido, como se a banda quisesse formar uma nova plástica musical. Outras duas músicas chamam a atenção pela "violência plástica": Paper Cuts e Negative Creep.

Era um bofete em bandas hegemônicas do mainstream como Guns n' Roses, Metallica ou Iron Maiden. Aquilo era cru e sujo ao extremo. Um exemplo disso (a música que escuto agora enquanto digito essas linhas) é Floyd the Barber, que trazia um som encorpado, pegajoso, untado pela voz desesperada de Kurt. A música nos transmite uma forte impressão de que se trata de uma algo feito por colegiais que resolvem se divertir na garagem para desespero dos pais. Àquela altura, Kurt já tinha 22 anos de idade. Começava a fazer shows em vários locais dos Estados Unidos. Foi à Europa. Tocou na Inglaterra. Kurt Cobain ao vivo impressionava. Era um tipo diferente fazendo rock. Suas performances chamavam atenção. Sua música possuía uma energia extraída dos subterrâneos, de cavernas escuras. Era levada ao mundo por meio de vagidos agônicos. Músicas como Love Buzz ou School apareciam em momentos altos dos shows para delírio dos fãs, que quando não entendiam o espetáculo, ficavam a olhar os desvarios artísticos do profeta da nova geração, uma espécie de Jim Morrison redivivo.

Em 1991, o grupo gravava com a poderosa Geffen. Saía o disco comercial que consagraria a banda - Nevermind. Nevermind é um marco da indústria fonográfica. Impossível falar em rock sem mencioná-lo. Talvez esteja ao lado de discos como Sargent Peppers, dos Beatles, ou Led Zeppelin IV, do Led Zeppelin, em matéria de importância. Nevermind unia a semântica comercial ao som vocacionado para embalar uma geração. Era um disco feito sob recomendação. Os acordes iniciais de Smell like teen spirit, a música que abre o disco, era uma espécie de brincadeira. Mas a música era terrivelmente boa. A diferença de Nevermind em relação ao Bleach é gritante. A estética do grito foi substituída pelo uso convincente de letras fáceis e grudentas e uma harmonia que ficava presa na cabeça. Os sentidos pareciam exigir aquela música que trazia uma "fragrância nova", que "cheirava a liberdade". Parecia falar às necessidades dos jovens. Não percebíamos que tudo aquilo eram solilóquios, monólogos, de uma alma achacada. Kurt era um sujeito indefeso que encontrava nas drogas a sua válvula criadora. Ele parecia estar fazendo expiação às contradições do mundo burguês. A juventude que via nele o ícone de uma nova geração, não percebia que ali estava um sujeito que também pedia socorro. Os desencontros e as contradições geradas na sociedade de classe leva os homens a se automutilarem.


Com Nevermind, Kurt ganhou rios de dinheiro. Tornou-se herói. Mas tudo aquilo parecia ser insignificante para ele. Seu vício contumaz. Suas tentativas malogradas de largar as drogas. Sua personalidade introspectiva parecia dizer para o mundo que sua vida corria perigo. Ele era o seu pior inimigo.

In Utero - o paroxismo do caos

Em 1993, começava o projeto para gravar aquele que seria o terceiro disco de estúdio  - e último também. Kurt queria fugir dos clichês comerciais e propagandísticos do disco anterior. Queria regressar aos momentos iniciais da banda. Tanto é assim, que In Utero esteticamente está mais próximo de Bleach do que de Nevermind. A diferença é que In Utero está dentro de um invólucro de dor, de desespero, de ácidos sujos, de uma atmosfera doentia. Em quatro anos de sucesso constante e meteórico, a banda na pessoa de Kurt havia alcançado um "nirvana paradoxal". Não se tratava da quietude perpétua como apregoa a doutrina do budismo, mas o paroxismo do caos. Era a consagração do paradoxo. O disco nos coloca uma pergunta: "no útero de quê?" Talvez, tenhamos encontrado o enunciado mais verdadeiro e repleto de significados existenciais saído da garganta de Cobain.

In Utero começou a ser gravado em fevereiro de 1993. A banda escolheu Steve Albini, um mago do rock independente da cena americana. É curioso notar a mudança perpetrada no itinerário da banda. A sonoridade de In Utero é uma das coisas mais viscosas da história do rock. Um exemplo que pode ser contraposto é a On Plain, de Nevermind, e Milk It, do comentado disco. Enquanto aquela soa como uma lufada de vento "em uma planície", esta possui uma sonoridade sufocante, repleta de agonia e uma letra desconexa ("her milk is my shit/ My shit s her milk" ["O leite dela é minha droga/ Minha droga é o leite dela"].

Havia a desconfiança de que o disco não emplacaria. Mas aconteceu o contrário. A sua perspectiva lírica gira em torno de sexualidade, nascimento, morte, doença, vício. Era a agonia de Kurt. Sua alma, finalmente, mostrava-se. Vivera alguns anos querendo voar. O disco exatificava seus sentimentos. Dali para frente seria a derrocada. Tanto é assim que em 5 de abril (possivelmente) de 1994, ele atirou contra a própria cabeça com uma espingarda, pondo fim à sua curta história de fama e solidão existencial.

Os ecos do caos

O espectro de Kurt Cobain ainda assombra a muita gente. Sua voz ainda continua poderosa. Sua música encanta muitos jovens em torno do mundo. Ele derramou "o cheiro" de sua música por todos os cantos. O Nirvana ainda é uma banda comercialmente rentável. Estima-se que a banda tenha vendido mais de 50 milhões de discos em todo o mundo. Somente o In Utero já vendeu mais 10 milhões de cópias desde o lançamento. O disco está ao lado de discos dos Beatles, Bob Dylan, Rolling Stones, Queen, Led Zeppelin e Pink Floyd na lista dos cem discos mais importantes da história, segundo a revista americana Blender.

Curiosamente, continuo ouvindo Nirvana - especialmente o In Utero. Ao ouvi-lo, é como se eu voltasse no tempo. A primeira vez que o escutei foi em 1994. Comprei em uma loja de discos. Era um fita K-7. Não sei onde ela foi parar. Ouvi-a tanto... gritei tanto... Os ecos do caos continuam a produzir a sua música gritada e agônica - e o pior é que existe uma satisfação nisso tudo.

sábado, outubro 05, 2013

Pensata matinal de início de mês


Um gracejo matinal! 

Viver em uma sociedade capitalista é ser enredado em algumas armadilhas. Estamos presos à cotidianidade. Naturalizamos um determinado estilo de vida. É como se não existisse outro. Introjetamos a ideia de que quanto mais consumimos, mais realizados nós somos. Tornamo-nos susceptíveis a forças coercitivas - sejam elas reais ou simbólicas. Uma delas é o fetiche da mercadoria. Atualmente, o cartão de crédito é uma espécie de "passagem" para o mundo da possibilidade. O cartão possui um poder simbólico, pois quando o usamos, não temos uma noção imediata dos estragos a que estamos sujeitos. É como se adiássemos a prestação de contas e isso gera uma satisfação - pelo menos um apaziguamento na consciência. Todavia, lá no início do mês, os diques da realidade são rompidos e acabamos nos afogando em meio às exigências das instituições financistas. O salário exíguo vai embora. Escoa com a celeridade de um rio caudaloso. E aí, entramos mais uma vez, numa ciranda: consumimos e trabalhamos com o objetivo de quitar as obrigações criadas pela mercadoria. É o círculo nefasto, a roda-viva. E aí surge a pergunta: a vida é somente isso?

domingo, setembro 22, 2013

Hannah Arendt - Nós, o Brasil e a banalidade do mal - por Marcia Tilburi

Ando meio sem possibilidade de fazer minhas leituras queridas; sem possibilidade de escrever algumas garatujas. O tempo anda escasso. Faz um bom tempo que este espaço foi abandonado. As ideias até surgem, mas não tenho tempo para escrevê-las. Livros acumulados, revistas acumuladas, muitos artigos acumulados. Hoje, quebrei a regra. Fui a um salão cortar o cabelo e acabei levando a última edição (183) da Revista Cult, que compro todos os meses. Li o texto abaixo escrito pela Marcia Tilburi. A reflexão é contundente e toca em um aspecto relevante do pensamento de Hannah Arendt: a reflexão filosófica profunda de uma das mais importantes intelectuais do século XX. Tilburi comenta o filme de von Trotta, que tive a oportunidade de ver mês passado e até comentei por aqui.

Hannah Arendt, filósofa que dá nome ao filme de Margarethe von Trotta, é autora de uma das obras filósoficas mais importantes do século 20. A diretora opta por retrarar a filósofa como uma pessoa comum, a professora envolvida com seu trabalho acadêmico, suas aulas e pesquisas. Fixa o enredo do filme no período em que Hannah Arendt escreveu seu polêmico Eichmann em Jerusalém. Tenta mostrar o que se passava com a filósofa, o cenário que a motivou a escrever o livro cujo conteúdo foi tomado por muitos como um escândalo. O motivo era a análise desmistificatória de Adolf Eichmann, o carrasco nazista capturado na Argentina e julgado em Jerusalém em 1962. Esperava–se desse homem que fosse um monstro, um ser maligno, um louco, cruel e perverso. A percepção de Arendt acerca do caráter desse personagem histórico, de sua postura comum que o fazia igual à tanta gente, causou mal estar.

Foi justamente a postura de Eichmann que permitiu a Arendt cunhar a ideia tão curiosa quanto crítica relativa à “banalidade do mal”. Por banalidade do mal, ela se referia ao mal praticado no cotidiano como um ato qualquer. Muitas pessoas interpretaram a visão de Arendt como uma afronta à desgraça judaica, enquanto ela – filósofa descomprometida com qualquer tipo de facção, religião, partido ou ideologia – tentava entender o que
realmente se passava com a subjetividade de um homem como Eichmann.

Arendt não tomava sua condição de judia como superior à sua posição como pensadora comprometida com a compreensão de seu tempo. A condição judaica era, para ela, condição humana. Não menos, não mais. O problema da subjetividade, das escolhas éticas que implicam liberdade e responsabilidade, era a questão central no momento em que se tratava de pensar e realizar a política.

A performatividade da tese

No filme, fica claro que aqueles que se manifestaram furiosos ou ofendidos contra a tese de Arendt de fato não a compreenderam. Isso porque a tese da banalidade do mal é uma tese difícil, não por sua lógica, mas por seu caráter performativo. Aquele que é confrontado com ela precisa fazer um exame de sua consciência particular em relação ao geral e, portanto, de seus atos enquanto participante da condição humana. A banalidade do mal significa que o mal não é praticado como atitude deliberadamente maligna.  O praticante do mal banal é o ser humano comum, aquele que ao receber ordens não se responsabiliza pelo que faz, não reflete, não pensa. Eichmann foi caracterizado por Arendt como uma pessoa tomada pelo “vazio do pensamento”, como um imbecil que não pensava, que repetia clichês e era incapaz de um exame de consciência. Heidegger, o filósofo nazista que diz ter se arrependido de aderir ao regime, era, no entanto, um gênio da filosofia e, contudo, não era diferente de Eichmann.

Aterrador, no entanto, é que entre Eichmann, o imbecil, e Heidegger, o gênio, esteja o ser humano comum. Eichmann não era diferente de qualquer pessoa, era um simples burocrata que recebia ordens e que punha em funcionamento a “máquina” do sistema, do mesmo modo que cada um de nós pode fazê-lo a cada momento em que, liberado da reflexão que une, em nossa capacidade de discernimento e julgamento, a teoria e a prática, seguimos as “tendências dominantes” como escravos livres, contudo, de si mesmos.  Sair da banalidade do mal é fazer a opção ética e responsável na contramão da tendência à destruição que convida constantemente cada um a aderir.

A banalidade do mal é, portanto, uma característica de uma cultura carente de pensamento crítico, em que qualquer um – seja judeu, cristão, alemão, brasileiro, mulher, homem, não importa – pode exercer a negação do outro e de si mesmo.

Em um país como o Brasil, em que a banalidade do mal realiza-se na corrupção autorizada, na homofobia, no consumismo e no assassinato de todos aqueles que não têm poder, seja Amarildo de Souza, seja Celso Rodrigues Guarani–Kaiowá, uma parada para pensar pode significar o bom começo de um crime a menos na sociedade e no Estado transformados em máquina mortífera.

Disponível aqui

domingo, setembro 01, 2013

Algumas considerações sobre Paulo e um livro de Alain Badiou

Paulo, o apóstolo Paulo, é uma das figuras mais controversas da história. Sou intrigado com essa personagem por tudo aquilo que possivelmente foi e por tudo aquilo que ele representa. Paulo de Tarso é uma das figuras mais emblemáticas da Antiguidade. Esse desejo de conhecê-lo mais profundamente me fez ler o livro "São Paulo - a fundação do universalismo", de Alain Badiou, filósofo e historiador marxista francês. Quis sair do nicho traditivo e que defende de forma cega o dogma, para entrar em uma "arena" crítica.

Fico pensando se não houvesse os escritos de Paulo como seria o cristianismo como religião institucionalizada? Como seriam os dogmas? Os escritos de Paulo são pontos basilares que sustentam a catedral dourinária dos cristãos. Muitos pensadores já perceberam o quanto o texto paulino é inflexivo dentro do Novo Testamento. O apóstolo quebra completamente o aspecto biográfico e taumatológico dos evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João; e do livro de Atos dos Apóstolos). Existem inúmeras versões para essa discrepância. 

Segundo certa parte dos estudiosos, os textos paulinos constituem os primeiros documentos da história do cristianismo. Das treze cartas sugeridas como escritas por Paulo, seis pelo menos são tidas como verdadeiramente paulinas (Romanos, 1° e 2° Coríntios, Gálatas, Filipenses e 1° Tessalonicenses). As demais (Efésios, Colossenses, 2° Tessalonicenses, Tito, Filêmon, 1° e 2° Timóteo) são de autoria questionável por conta dos extratos estilísticos e, segundo os estudiosos, foram agregadas ao corpus canônico posteriormente. 

Mas o que torna o texto paulino algo a ser investigado? As cartas de Paulo são narrativas pragmáticas. Elas foram escritas em contextos bastante específicos. É estranho que Paulo não insira quase nada em seus escritos sobre discursos de Cristo. O tema mais preponderante em seus escritos resvalam em alguns temas comuns aos evangelhos. Um exemplo é a eucaristia (a santa ceia). Enquanto os evangelhos estão assentados sobre milagres, eventos extraordinários, discursos e ensinamentos por meio de parábolas, eventos climáticos anômalos, ressurreições, os textos paulinos estão fundados em aspectos jurídicos, ou seja, arraigadamente teológicos em sua natureza. Paulo vai falar de justificação, redenção, glorificação, fé como força restauradora, predestinação, eleição, graça, ao contrário do que, por exemplo, defende a Carta de Tiago. Este defende as obras, aquele, a graça e a fé. Ou o Evangelho segundo Marcos que mostra um Jesus imensamente ativo e dinâmico em sua atuação.

Paulo talvez tenha escrito os seus textos nas décadas de 50 e 60 do primeiro século. Os evangelhos, quiçá, sejam escritos mais recentes do Novo Testamento. Suspeita-se que havia uma tradição oral transmissora dos eventos sobre a vida de Jesus, pois se os evangelhos fossem escritas concomitantes ao momento da vida de Paulo, é possível que ele tivesse inserido em seus textos alguns elementos conforme aventado acima. Cria-se assim uma dissociação entre o Jesus histórico dos evangelhos e o arcabouço doutrinário do apóstolo. 

Paulo possui um dogma antifilósofico: Cristo morreu e ressuscitou, por isso invistamos a nossa fé e expectativa nesse episódio. Em sua metafísica cabem potestades e principados. A luta entre o bem e o mal. Ele fia o seu discurso em outra realidade, estabelecendo assim, de forma paradoxal, um platonismo. Sua escatologia diverge daquilo que Jesus escreve nos capítulos finais do Evangelho de Mateus. Paulo fala do "homem da iniquidade" (o imperador romano?). Paulo deve ter atuado como cristão sob o regime de três marcantes imperadores: o terrível Calígula, o conformado Cláudio e o sanguinário Nero. Inclusive, ele foi morto sob a ordem de Nero, conforme a tradição da Igreja defende. 

Do ponto de vista político ele é conformista. Já que em sua pregação existe uma metafísica platônica, ou seja, separando o mundo real do mundo ideal, Paulo prega a submissão dos cristãos às autoridades como aparece explícito em sua carta aos Romanos. Ele não considera a autoridade sob o aspecto crítico. Sua intenção é sempre apontar para a "nova Jerusalém", para a outra vida. "Se a nossa vida se resume apenas àquilo que vivemos neste mundo, somos os mais miseráveis dos seres" (1 Coríntios 15). 

Segundo Badiou, Paulo é o fundador do universalismo da subjetividade da fé, já que a fé não é uma categoria quantificável. O apóstolo não coaduna a ideia de totalidade dos gregos ou de uma eleição judaica que diverge da lógica grega, obrigando tudo que existe a se harmonizar com aquilo que é. Paulo caminha na direção contrária disso. Ele coloca as suas sentenças acima dos condicionamentos da filosofia grega ou da lei judaica, apesar de possuir em sua práxis um profundo background judaico. Ver, por exemplo, a sua explicação para as prerrogativas do homem e "o silêncio da mulher". 

O livro de Badiou contribui com o debate em torno da figura de Paulo. Todavia, existem pelo menos quatro autores estudiosos da vida de Paulo que preciso ler: Adolf von Harnack, Ferdinand Christian Baur, Albert Schweitzer e Ernest Renan, apesar de toda a crítica negativa contra esse último.


domingo, agosto 25, 2013

Uma reflexão preocupada


Vi essa imagem sendo veiculada no Facebook e fiquei imensamente preocupado. Ela aponta para um aspecto terrível e cínico da sociedade civil brasileira, que é a ausência de consciência crítica. Tal fato, revela apenas o quanto o reacionarismo conservador é um jogo infame que busca fazer chacota com as iniciativas da esquerda. É um tipo melindre tripudiante pouco esclarecido, revelador de ignorância. Não, senhores, a Dilma não vai trazer as ambulâncias de Cuba. Não há necessidade. Tais ambulâncias (se forem de Cuba, pois imagem pode ser a de um carro de algum país da África, que foi arruinada pelo imperialismo e pelo colonialismo branco da América e da Europa) são o resultado da prepotência política dos EUA. A fúria covarde da burguesia consegue fazer com que argumentos fascistas como esse sejam transmitidos e que boa parte de incautos se locupletem canhestramente com a ideia sem saber que este é criminoso. (1) porque nega a história do século XX, pois se existem ambulâncias como estas em Cuba, tal fato se deve unicamente àquilo que os EUA fizeram com o país em mais de 50 anos; (2) porque nega a assistência imediata às populações brasileiras que estão esquecidas em boa parte do nosso vasto país; nega que ainda há mortes e doenças que poderiam ser facilmente tratadas caso existisse um médico; um exemplo disso são as comunidades ribeirinhas da Região Norte do país, fazendo lembrar uma frase do grande Milton Santos: “Nunca houve cidadania no Brasil. Os pobres desse país nunca tiveram os seus direitos respeitos. A classe média brasileira nunca quis direitos, quis, sim, privilégio”. ; (3) porque mostra como vivemos uma espécie de pós-modernismo que não consegue conectar os fatos da história; e acredito que aqui esteja um dos grandes problemas filosóficos que tomou conta do homem comum. Vivemos “tempos gelatinosos” ou um “tempo líquido”, que é a negação de uma forma ou de uma razão hegemônica, inviabilizando a possibilidade de um debate em torno de qualquer ideia. Mas, o que se estabelece hegemônica e paradoxalmente é a lei do capital em sua vertente mais aterradora, que é a neoliberal. Enfim: é preciso que não olhemos para o mundo com os óculos que nos dão para enxergar. É preciso que “descolonizemos o nosso olhar”, aprendendo a olhar com as ferramentas corretas; enxergando as causas e não os resultados mal explicados. Uma opção política é sempre uma opção de classe.

quinta-feira, agosto 22, 2013

"Hannah de Arendt", de Von Trotta

 Ontem, resolvi, a despeito do vendaval de trabalho que ultimamente perenizou-se em minha existência, ir ao cinema - e de lambuja ainda fui à Livraria Cultura e comprei dois livros: A maçã envenenada (Michel Laub) e "A crônica de Wapshot" (John Cheever). Queria assistir ao filme de Von Trota, Hannah Arendt. Por aqui está quase saindo de cartaz. Não é minha intenção fazer uma análise profunda do filme ou realizar um colóquio com a obra da ilustre pensadora alemã. Falar de Hannah Arendt é complexo, é difícil, pois ela não pode se "enquadrada" em uma escola de pensamento. Marxista? Existencialista? Ontologista? Acredito que ela seja tudo isso. Hannah é uma pluralista. Fugia aos epítetos academicistas. Preferia fazer um papel de debatedora lúcida dos problemas políticos contemporâneos e as implicações das políticas totalitárias perpetradas na psicologia do mundo. Diria que Hannah faz o papel de "uma Sócrates moderna", pelos questionamentos e reflexões suscitadas.

O filme de Trotta como todo filme biográfico é problemático. Acaba extirpando determinados aspectos da vida ou da personalidade da pessoa retratada, o que causa um prejuízo crítico. Hannah é maior e mais complexa do que a obra tentou mostrar. Sua perspicácia filosófica era aguda. Um exemplo disso é a visão que ela tem no filme sobre o julgamento do burocrata Adolf Eichmann cuja visão, para Hannah, destoava da crítica majoritária. Para ela, que cunhou o termo "banalidade do mal", o mal é uma força sedutora capaz de solapar o bom senso. A ideia de banalidade do mal surgiu no julgamento de Eichmann. Segundo o filme, ela se candidatou para fazer a cobertura jornalística do julgamento do arrivista alemão do partido de Hitler à revista The New Yorker

Barbara Sukowa no papel de Hannah
As autoridades secretas do estado judaico haviam prendido Eichmann em Buenos Aires e o transportado para Jerusalém. Uma corte foi montada para julgar os atos de Eichmann. O nazi era acusado de ser co-responsável pelo mortícinío de cerca de 6 milhões de judeus e crimes contra a humanidade; e por ser um dos mentores daquilo que ficou conhecido como "a solução final", que poria fim aos judeus. O primeiro impacto causado foi terem colocado Eichmann em uma jaula de vidro, como se este fosse um "animal peçonhento e repulsivo". Aquela imagem impactou Hannah. Após o início do julgamento, ficou claro para a filosófa que o réu não passava de um ventríloquo do partido nazista. Ele havia se desperonalizado. O voto que  havia feito ao partido nazista anulara a sua consciência. Suas ações eram maquinais. Ou seja, com isso Hannah entendeu que Eichmann era um idiota a serviço do mal; um burocrata; um fantasma teleguiado por uma força invisível que o admosteava para ações condenáveis. 

Hannah Arendt
Tal tese foi rechaçada pelos sionistas. A pensadora paga um alto preço por tal tese. Afinal, havia dois problemas estabelecidos: (1) até que ponto o sujeito histórico deve ser responsabilizado pelas suas ações. O entendimento dos judeus e de boa parte do mundo era de que Eichmann deveria ser julgado e penalizado pela participação infame no genocídio. (2) a tese de Hannah era, por sua vez, a de que o alemão era um zeloso e escrupuloso operador, um tecnocrata a serviço do Reich; não havia nele um desejo personalizado para o mal ou para o bem; suas iniciativas brotavam do desejo de ascensão; ele cedera ao mal, à banalidade, à infâmia, à mediocridade e esse era um perigo que qualquer sujeito poderia incorrer. O mal que despersonaliza, que idiotiza, que extrai a solidariedade, é o mal elevado ao grau máximo; e que quando essas pessoas são expostas à possibilidade de cometer qualquer ato contra outros seres humanos, não se atemorizam, nem sentem qualquer remorso. Foi assim que Hannah viu aquele homem de fala mansa, ponderada, certa e equilibrada naquela caixa, quando do outro lado, as autoridades judaicas buscavam jogar sobre ele o peso da culpa. Hannah entendia que até mesmo o tribunal, se não avaliasse as intenções do julgamento, poderia incorrer na prática do mal.

Estou com o livro "Eichmann em Jerusalém", de 1963, e que deu origem ao filme, há uns vinte dias. Infelizmente ainda não pude lê-lo. Consegui-o em uma biblioteca pública. Gostei do filme. Um dos pontos negativos é a visão que se dá à figura de Heidegger. O ilustre filósofo, um dos nomes mais importantes do século XX, que é mostrado como um velho tolo e capacho. Um senhor apaixonado e que não possui remorsos das escolhas que faz. Um grande inescrupuloso. Fazer filmes não é algo fácil. 


terça-feira, agosto 13, 2013

Um comentário sobre (D)(d)eus...

 Comentário escrito no blog do Charlles

"Bonita a sua confissão sobre (D)deus, Charlles. Aproxima-se bastante daquilo que creio, também, sobre espiritualidade. Há muito frequentei uma igreja presbiteriana. Contaram-me a história de um deus institucional, zangado, cheio de caprichos e caricaturado à imagem e semelhança dos judeus. Deixei de lado, ri sardonicamente na cara desse deus. Disse que ele era uma mentira. Uma fraude cosmológica. Alguém recalcado. Disse ainda que a mitologia grega era mais bonita do que tudo aquilo que me falaram sobre ele.

Solidarizo-me com as suas palavras. Existe no ser humano uma voz lancinante que clama por espiritualidade. Uma espécie de necessidade do belo. E aí encontro a ideia de deus. É, por isso, que passei a me relacionar com a ideia de deus melhor quando dessacralizei a bíblia e passei a lê-la como um livro de literatura, evocando um grande teólogo alemão chamado Rudolf Bulltmann de espistemologia kierkegaardiana e heideggeriana. Um personagem como Jesus certamente se assemelha a um Dom Quixote em sua sede pela verdade; ou um príncipe Michkin com sua necessidade de justiça. E aí encontro um apaziguamento necessário às minhas necessidades. Existem hinos mais bonitos que as sonatas de Beethoven ou de Mozart; ou a obra espiritual de Bach?

Ser espiritual é encontrar poesia em cada átomo da existência, em cada centelha da vida. Nesse sentido, encontro a espiritualidade da afirmação da vida, sempre - como diria Nietzsche. Julgo o movimento ateísta essencialmente radical. É um fundamentalismo sem deus. Ou seja, uma religião radical que prega a ausência de algo, mas que torna essa mesma ausência em uma entidade que se sobrepõe a tudo.

Abraços cordiais, Charlles!"

domingo, agosto 11, 2013

"Fogo Morto", obra prima de José Lins do Rego. Algumas impressões

José Lins do Rego
A leitura de Fogo Morto, romance de José Lins do Rego, publicado em 1943, deixou-me a impressão de que ali estava um dos livros mais bonitos e reveladores da prosa brasileira do século XX. Fogo Morto é, sem sombras de dúvida, a maior obra do escritor paraibano. Após ter concluído "O ciclo da cana-de-açucar" com "Usina", no ano de 1936, José Lins escreveu romances de valores e expressões variadas: Pedra Bonita (1938) , que deve ser colocado na esteira de suas grandes produções por tratar da religiosidade nordestina; depois vieram Riacho Doce (1939) e Água mãe (1941); e dois anos depois nascia Fogo Morto, que retoma a temática dos cabras eito, dos barões dos engenhos, latifundiários da terra e que estendiam sua influência arbitrariamente. 

Minha paixão por Zé Lins é resultado de um fascínio pela sua prosa. Dentre os escritores regionalistas nordestinos, o mais expressivo - sei - é Graciliano Ramos, que devoto como um dos maiores escritores de todos os tempos. Livros como São Bernardo, Angústia, Vidas Secas ou Infância já são suficientes para colocá-lo ao lado daquilo de mais nobre já foi produzido pela literatura mundial. 

Todavia, a prosa ligeira e expressiva de Zé Lins é viciante. A matéria de trabalho do escritor é descrição, resultado de suas memórias. José Lins do Rego é um "Balzac rural". Alguém capaz de produzir freneticamente, fazendo análises do cenário; narrando o mesmo fato por vários ângulos, alargando o mesmo campo de observação. Talvez isso demonstre certa "deficiência" em sua produção. Ele não é um criador. É um reprodutor de experiências. Um contador escrupuloso de percepções apreendidas. E, assim, reconstitui as estruturas da sociedade patriarcal e erguida sobre a relação de poder do Nordeste. 

Ao terminar Usina, José Lins deu a certeza ao leitor de que terminaria o seu "ciclo da cana-de-açucar". Ora, uma vez que aquilo tenha acontecido, o escritor não poderia retomar a mesma temática, sob o risco de repetir-se. Mas não foi isso que se deu. Como já mencionado acima, em 1943 sai Fogo Morto e ali estava o que de mais  curioso ele havia produzido em sua carreira. Alguns entendem que Bangüe (terceiro livro do ciclo da cana-de-açucar), seja outra de suas obras destacadas. Em Fogo Morto, José Lins fez uma análise mais global da sociedade açucareira, centrando a história em três personagens emblemáticos - Lula de Hollanda Chacon, Capitão Vitorino Papa-Rabo e no mestre Zé Amaro. 

 O livro possui três partes costuradas por um liame, o capitão Vitorino. A personagem é a expressão mais lata do desejo de justiça, de escrúpulo político, de defesa dos mais fracos, da incansável vontade de fazer triunfar a equidade. Vitorino torna-se assim um espécie de Dom Quixote. Um anacrônico que verbaliza contra tudo aquilo que abala a causa do oprimido. Ele aparece em toda parte. É onipresente em sua luta. É a comicidade materializada. E é aqui que conseguimos vislumbrar seu aspecto quixotesco.

O curioso nisso tudo é a mensagem política que a personagem alavanca, posto que a ordem descrita pelo narrador é a ordem oligárquica. Vitorino em sua luta é aquele que defende "o clarear" das relações; que prega a assunção de uma ordem democrática, o fim dos "potentados da terra", dos desmandos, tirando o Brasil da ditadura dos grandes latifúndios, tão comum à Primeira República, já que a história se passa no início do século XX, época em que os engenhos começam a agonizar no Nordeste e que se consolidará durante o Governo Vargas com a onda nacionalista e industrializante.

O romance lida com a decadência de uma ordem antiga, representado por Lula de Hollanda, o coronel "Lula". Lula casa com Amélia, filha do Capitão Tomás, e sua inabilidade administrativa leva-o ao longo dos anos a perder o império erguido pelo sogro. De modo que o visível declínio do engenho Santa Fé e a visão enfermiça, religiosa e delirante do coronel Lula é o próprio aspecto agônico que representa metaforicamente a morte de toda uma ordem. É notório dentro da história, a decadência política dos coronéis, na pessoa de Lula de Hollanda, e a expectativa utópica da igualdade, representado pelo capitão Vitorino.

Cena do filme Fogo Morto (1976), de Marcos Farias
O romance ainda nos apresenta a figura do cangaço e das forças legitimadoras da ordem, representada pelo tenente Maurício. Nota-se aqui um ligação do romance com os conflitos políticos surgidos na República Velha. Antônio Silvino e o tenente Maurício são forças oponentes. Silvino é a ordem anárquica que brota fora, mas que ameaça a ordem com sua liberdade que faz tremer os poderosos da terra. Já o tenente Maurício é o outro braço do poder tentando segurar a ordem arbitrariamente. É energia fria que faz dobrar a todos. Eric Hobsbawn em seu livro Bandidos, cuja leitura estou na iminência de realizar, em sua tese sobre a origem do banditismo, diz que: "o bandistismo desafia simultaneamente a ordem econômica, a social e a política, ao desafiar os que têm ou aspiram ter o poder, a lei e o controle dos recursos". José Lins do Rego vai explorar essa temática em Cangaceiros, livro que escreveria em 1953.

O que é mais saliente em Fogo Morto é a explícita descrição da agonia política por que passava o Nordeste e as posições ideológicas do autor sendo reveladas. Enquanto nos outros livros Zé Lins se portava como um contador de histórias estático, em Fogo Morto ele deixa bem claro em sua prosa regionalista o realismo histórico da dialética dos tempos. Nesse sentido, como diz Nelson Werneck Sodré em História da Literatura Brasileira, o regionalismo surgido no século XX, difere do regionalismo de José de Alencar ou de Bernardo Guimarães (escritores românticos do século XIX), pelo alto grau de veracidade da forma. E nisso Fogo Morto acentua sua importância.

Próximas leituras do mestre Zé Lins: Cangaceiros e Pedra Bonita.

O filme Fogo Morto pode ser visto no Youtube. Vi  e gostei da adaptação.

sexta-feira, agosto 09, 2013

"Solto o meu bárbaro YAWP sobre os telhados do mundo". Um grande presente de aniversário


O que faz as coisas pararem no tempo é a saudade
Mario Quintana

O cimento que alicerça o mundo humano é a palavra. A palavra é um dos elementos identificadores da minha humanidade. Se eu não verbalizasse, estaria privado dessa dimensão tão intrinsecamente necessária à minha humanização. Paulo Freire diz que o sujeito humanizado é aquele capaz de praticar a "emersão", que é a existencialização de sua subjetividade, o externar de seu próprio mundo humano. Sujeitos humanizados exprimem o que sentem num gesto de liberdade plena. Quem não aprendeu "a dizer" o que sente, ainda não está plenamente emancipado. 

Proibir a fala é proibir a própria capacidade de ser do outro, pois o outro está naquilo que a sua fala diz. A fala é uma dimensão existencial da vivência social. Com ela, eu aprendi a dizer "mãe", "não", "obrigado", "vou", "não vou", "gosto" e "não gosto". O sujeito que verbaliza a palavra projeta o seu próprio ser. O indivíduo proibido de dizer a palavra está proibido, na verdade, de ser. Falar é colorir o mundo com as cores que acumulamos na história. É colocar minhas impressões sobre determinado assunto, sobre determinado aspecto da realidade. É não sentir em sua privacidade, mas compartilhar com o outro um pouco daquilo que somos. 

É, por isso, que que a raposa vai dizer para o Pequeno Príncipe: "A gente só conhece bem as coisas que cativou (...) Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas". Os homens são cativados pelo poder da palavra. E mesmo que haja silêncio no intervalo das falas, isso se constitui em "um dizer". Há silêncios que estão povoados de palavras. 

Divago com as palavras, porque a boca se enche de sorrisos quando o coração é cativado. Hoje é o dia de meu aniversário. Fui trabalhar pela manhã e recebi durante o dia vários gestos de afeto. Dois em especial me tocaram bastante. (1) primeiro do 9° ano A. Deram a mim um livro do Mário Quintana. Presente excelente. Quintana é um gênio. Um burilador de palavras. O pastor de palavras, como o Alberto Caieiro. (2) segundo foi um gesto de carinho do 8° C. Fizeram uma festinha. Todavia, o que mais me comoveu foram as palavras escritas pela turma e lidas pela Lorena Weil. Demonstra um alto nível de perspicácia ao dizer a palavra. Transcrevo-as abaixo:

"Quando me pediram para escrever esta carta, fiquei pensando em como começá-la, em como desenvolvê-la e em como terminar. Pois é. Não tinha ideia de como escrever algo para o cara que corrige nossas provas, mesmo com todas as caligrafias borradas e estranhas, mesmo com os erros ortográficos, ele consegue entender. Nossa caminhada vai se tornando cada vez mais longa, se olharmos para trás, e cada vez mais curta, se olharmos para frente. É estranho - eu sei. Mas pare para pensar nas crianças que éramos no 6° ano e olhe para nós agora, mesmo ainda não sabendo quase nada da vida. Estamos crescendo e evoluindo. 

Toda aula uma palavra carlina entra no nosso dicionário, aquelas aulas que te deixam com os cabelos, mesmo poucos, brancos. O sexto horário da segunda-feira em que já estamos exaustos, mas você está ali, de pé, passando o seu conhecimento para frente. Como não lembrar dos seus pulos de alegria quando acertamos alguma questão ou quando não sabemos a matéria? Aquele seu jeito desengonçado de andar, como você mesmo disse: "como boneco de Olinda". Esse jeito Carlos de ser nos deixa curiosos, afinal como alguém pode falar tão bonito de coisas tão bonitas? Ter sabedoria que você tem, não é para qualquer um. Pode não parecer, mas a admiração que temos por você é muito grande. E quem diria, ainda com essa vida agitada ainda sobre espaço para ler um livro? Um não: uns 10, 20, 30 quem sabe... É. Meu professor de Português também é uma biblioteca ambulante. E também uma discoteca dos mais variados rocks, dos mais diferentes clássicos. 

Como ele consegue é um grande mistério. Daqui a pouco tempo essa turma vai embora. Vamos enfrentar o temido Ensino Médio e cada um aqui vai lembrar daquela professor de Português do Santa Rosa. "Lembro-me de quando ele falou desse escritor". "Acho que li esse livro". Tudo isso vai deixar saudades. Parabéns, Carlos. Continue sendo esse homem de grande coração que você é. Obrigado por cada aula. Esperamos que você realize seus sonhos e conquiste seus objetivos".

Obrigado!

domingo, agosto 04, 2013

Silas Malafaia e o seu discurso carregado de significados

Assisti ao programa Na Moral que foi ao ar na última quinta-feira, dia primeiro de agosto,  pela Rede Globo de televisão. O tema era religião e estado laico. Foram convidados quatro participantes: O líder da ATEA (Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos), um clérigo católico, um babalaô, representando as religiões de matriz africana e o pastor Silas Malafaia, falando em nome dos evangélicos. Quem mais me chamou me chamou a atenção no programa foi o Silas Malafaia - não pela inteligência ou bom senso, mas pela ignorância. Sua fala descontextualziada e não problematizadora da realidade brasileira, diferente, por exemplo, do líder babalaô, criou em mim um misto de asco e riso sardônico. Ele mostrou-se com extrema falta de educação ao dizer que o líder da ATEA estava falando "asneira", quando este trouxe um dado factível. Mas não é apenas sobre isso que gostaria de refletir. 

Primeiramente, deve ser explicado  que o mundo evangélico é bastante complexo. Existem, pelo menos, três divisões dentro desse segmento: (1) os protestantes históricos de linhagem reformada. Nesse caso incluem-se as igrejas batistas, metodistas, luteranas e presbiterianas históricas; (2) as igrejas pentecostais, que surgiram no início do século XX, como resultado de eventos ocorridos nos Estados Unidos. Um desses casos é a Assembleia de Deus; (3) e o terceiro caso são as chamadas igrejas neopentecostais, que são resultado, também, de um fluxo teológico oriundo dos Estados Unidos e que carregam como principal mensagem a teologia da prosperidade, uma espécie de "teologia de shopping center".

Deve ser salientado ainda, que as igrejas pentecostais fixaram sua atuação nos dons espirituais ou "carismas", enquanto as chamadas igrejas neopentecostais se estribaram na filosofia neoliberal do ter. Ou seja, ter posses, "mudar de vida", como é dito pelo seguimento, passou a ser uma persecução para igrejas como a Igreja Universal, Sara Nossa Terra, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer e tantos outros segmentos sedimentados no poder de convencer do seu líder. 

A teologia da prosperidade pode ser analisada filosoficamente e sociologicamente como um movimento que supre as necessidades criadas pelos postulados neoliberais do capitalismo. O neoliberalismo criou um mundo no qual o individualismo e a particularização da percepção do mundo se tornou uma regra. Ou seja, o valor essencial que emana desse princípio é de que o espaço privado foi alargado. A ética do capitalismo consumista e individualista passou a ser o modo de navegação da teologia da prosperidade. Essa teologia se coaduna com as expectativas criadas pelo modelo neoliberal que surgiu na Inglaterra e nos Estados Unidos no final da década 70 do século XX.

O crescimento extraordinário dos evangélicos é resultado dessa lógica. Não é que o protestantismo tenha uma mensagem espiritual, baseada apenas na ética como dado que labora sobre valores invisíveis. O crescimento dos evangélicos se explica pela mensagem da teologia da prosperidade. As igrejas evangélicas nas últimas três décadas - logo após o bum do neopentecostalismo - foram para o ataque. Compraram canais de TV, emissoras de rádio. Investiram no marketing. E os seus líderes se transformaram em homens de negócio. Enriqueceram. Criaram uma lógica baseada no "ter" para "ser". E se tornaram em seres incensados pelos fieis.

Todavia, o resultado dessa atuação militante do mundo evangélico, quando se transforma numa imperiosa vontade de se colocar acima dos direitos civis e democráticos, torna-se uma violência simbólica. Os evangélicos têm o direito de professarem aquilo que desejam professar desde que não se tornem sujeitos antiquados e que estão em descompasso com as garantias individuais defendidas constitucionalmente.

Assistindo ao programa do Pedro Bial, fiquei imensamente preocupado com a sanidade do Silas Malafaia. Mas, depois compreendi que a intransigência defendida por ele, é resultado do dogmatismo encontrado no próprio seio do protestantismo. Enquanto a Igreja Católica se preocupa com questões estruturais e conjunturais da sua tradição, o Protestantismo, como diz Rubem Alves em "Protestantismo e Repressão", "é o espírito de revolta contra todas as ordens institucionalizadas". Rubem Alves ainda diz que "A Reforma sacralizou a consciência e dessacralizou o mundo". Com isso, "a reverência frente à ordem civilizatória é substituída por uma atitude de orgulhosa rebelião contra a mesma. A grande conquista protestante, de sacralizar a personalidade, tem como o seu reverso a secularização do mundo, que agora não mais pode ser gozado misticamente como o ventre divino". 

Assim, o mundo deixa de ser sagrado e passa a ser resultado de um utilitarismo. Ou seja, essa análise é resultado desse paradoxo. Enquanto defende o sagrado, o protestante solidifica o individual, o personalismo e possibilidade da anomia. Isso pode ser constatado, por exemplo, na militância da bancada evangélica. Ela atua em descompasso com os debates e avanços da sociedade. Nisso, percebe-se um influxo medieval e uma posição de "rebeldia" contra os interesses da sociedade. Segundo informações do IBGE, é possível que, em 2020, os evangélicos se igualem ao número de católicos no Brasil. Com isso, cresce a possibilidade dessa lógica arbitrária.

No programa do Bial, notei que o discurso do Silas Malafaia possuía essa força aludida acima. Silas defendeu em certo momento a democracia, afirmando em linhas garrafais que não era homofóbico e preconceituoso. Todavia, quando convidado para fazer uma marcha com líderes das religiões de origem africana, numa espécie de ecumenismo, desconversou em tom bravateiro. 

O protestantismo é um movimento religioso surgido na Europa e transformado nos Estados Unidos. As seitas que aqui chegaram no início do século XIX vieram missionariamente da América do Norte. Trouxeram de lá muitos dos valores europeus e americanos. Muitas dessas seitas se "adaptaram" ao Brasil. Todavia, nunca aceitaram determinados fenômenos da cultura brasileira como, por exemplo, o nosso sincretismo religioso que sempre foi visto como resultado de um paganismo demonizante. O catolicismo ao contrário, está aqui desde o início da formação do Brasil e muitos dos elementos culturais colocam a própria Igreja de Roma como personagem que não pode ser deslindado. 

O Protestantismo, ao contrário, chegou trezentos anos depois, e é marcado pelo aspecto não relatizável com a cultura brasileira. Tudo aquilo que fuja ao seu dogmatismo, é visto como um elemento estranho que deve ser "catequizado" à sua imagem e semelhança. Surge daí, a dificuldade para entender muitos dos aspectos da cultura brasileira. Um exemplo claro disso é a não "legitimação" das religiões sincretizadas e de matriz africana. 

Silas é apenas uma face do mundo protestante. Seu discurso é repleto de significados e que podem ser entendidos à luz da história.

Programa pode ser visto AQUI.

Uma pensata a partir de um post da ATEA

Kierkegaard já dizia isso. É que a fé não lida com categorias materializáveis, mas com o invisível, com o intangível. Lembrando aquele velho princípio agostiniano: "Creio para depois pensar". Além do que o dogmatismo da fé é uma categoria não relatizável. O crente sente sua "existência" abalada quando essa suposta "verdade" é colocada em xeque. Daí, ou se aceita a fé como verdade incondicional ou se põe abaixo toda aquela epistemologia capaz de explicar todos os fenômenos universais. Se ele relativiza, aquilo que ele crer deixa de ser "verdade" e passa a ser apenas mais uma narrativa como as tantas que já existem. Para o crente, deixar de dialogar com essa "verdade" é "perder a fé" e correr um sério risco. Admirável a fala de Carl Sagan.