quinta-feira, maio 31, 2018

Dois comentários sobre Ciro Gomes e a candidatura do PT

De uma conversa que tive com o grande Charlles Adriano Campos:

(1)

Acabei de assistir à entrevista do Ciro no Roda Viva. Com todas as críticas que se possa fazer ao Ciro, vejo que ele é uma alternativa viável para que não caiamos de vez no abismo. Não digo que ele seja o salvador, o messias redivivo, capaz de nos levar a uma 'parousia. Todavia, Ciro demonstra sensatez, ideias que beneficiam os mais pobres; ideias capazes de tirar o Brasil da convivência com o absurdo das contradições histórico-sociais que nos fazem um país de otários enxugadores de gelo em um cenário de caos. Penso que o erro estratégico do PT é continuar insistindo em malhar o ferro frio. Dói dizer isso, mas Lula é um ponto fora da curva. As oligarquias do país utilizaram as instituições do Estado - principalmente PF, MPU e Judiciário - para aniquilar aquele que é a maior figura política do país, tendo a grande mídia como um centro propagador de narrativas. O PT precisa ser mais pragmático. Precisa pensar no país. Ter uma visão mais prudente, honesta, sobre a conjuntura política que nos envolve. O problema do PT é de pretensão hegemônica. Ele não quer permitir uma figura maior, capaz de obumbrar suas intenções eleitoreiras. Reunir todos os potenciais partidos de esquerda e montar uma ampla coalizão seria a solução. Ciro reúne as prerrogativas para encabeçar o movimento. Boulos, apesar de um sujeito inteligente, de boa índole, ainda não alcançou as credenciais para ocupar esse posto. Observando por viés altamente crítico de quem tem acompanhado o Partido- e com a mais repleta melancolia adstringente -, sou de acreditar que num eventual segundo turno em que o PT não estivesse, a presunção venceria. Imagine um segundo turno entre Ciro e Bolsonaro, seria bem possível que o PT ficasse neutro, um erro perigoso para quem tem apenas pretensões hegemônicas sem pensar no pacto social brasileiro que está se esfarelando desde o golpe de 2016.

(2) 

Charlles Adriano Campos, existem muitas questões que devem ser consideradas: (1) Lula é a própria alma do PT. É um membro em um organismo. O PT teria enormes dificuldades de viver sem ele. Ao longo dos anos o Partido não constuiu uma outra liderança com a sua densidade. (2) Vejo os principais líderes do Partido falando com uma crença inexpugnável de que Lula está no páreo. Eu não sei de onde vem essa fé. Não percebo qualquer movimento no Judiciário. O STF não votará nada que beneficie o Lula até a eleição. Ele ficará no ostracismo. Essa é a tática do jogo. (3) Lula sumiu dos noticiários dos jornalões. A intenção é fazer com que haja um esquecimento da sua pessoa. As próprias pesquisas realizadas pelo "mainstream" midiático não são comentadas ou anunciadas. A ideia é o esfacelamento da memória. (4) Ao não abrir mão da candidatura do Lula, a intenção do PT, talvez, seja mitificar o seu líder. Produzir um Mandela à brasileira. Criar um constrangimento internacional. (5) O Golpe de 2016 não foi dado para permitir o retorno do PT ao poder. Claro, com Lula haveria possibilidade de diálogo, da costura de alianças. Lula é habilidoso. Mas, os donos do poder sabiam que essa era uma possibilidade substantiva, por isso encamparam essa perseguição ao ex-presidente. (6) A suposta tentativa de gerar constrangimento internacional direcionado aos detratores de Lula, é um cálculo bastante ingênuo. Os algozes do PT não têm pudicícia, decoro; eles não ficam constrangidos. Não estamos lidando com donzelas de convento. Estamos lidando com uma plutocracia parasitária e que não gosta de pobre. (7) Ao ignorar a conjuntura, o PT, o partido com maior penetração social de nossa história, expõe a sociedade a uma ameaça terrível. Qual é o perigo? Que um fascistoide, apedeuta e mentecapto leve as eleições. O PT agarra-se a uma crença nas instituições viciadas, como se vivêssemos na Suécia ou no Canadá. (8) A resolução de criar de criar uma frente ampla para derrubar o Golpe de 2016, deveria ser uma questão de primeira ordem. O país vive uma crise social terrível. As candidaturas atomizadas de esquerda apenas fortalecem a marcha da direita e da extrema direita, que não se deixam levar por ingenuidades e por devaneios.

https://www.facebook.com/charllesadriano.campos/posts/465718127196141?comment_id=465771077190846&notif_id=1527803870301293&notif_t=feedback_reaction_generic
 

terça-feira, maio 29, 2018

A culpa pela crise

A situação de crise pela qual o Brasil passa exige mais que uma reflexão. É necessário fazer um balanço apurado, sensato, acurado dos atores e do contexto em que eles estão metidos. Um governo fraco, ilegítimo, aviltado pela própria condição intrínseca de que dispõe, não consegue sair do atoleiro. 

A greve dos caminhoneiros escancarou um problema sério do pacto social brasileiro. Vivemos em um país frágil, com uma população perdida no próprio transe da exploração. Nossa história prova o quanto somos alienados de todos os processos. O quanto que os mandatários do país foram responsáveis pela criação de determinadas narrativas, impedindo o acesso dos amplos setores de desfavorecidos à dignidade. 

Em momentos como este que vivemos, em que notamos o tensionamento de forças sociais, percebemos o quanto a política de espoliação da coisa pública é nociva para a sociedade. É praxe no Brasil a criminalização do Estado, um perigoso exercício que inverte a verdadeira responsabilidade pelos prejuízos sociais. Um Estado forte é um componente necessário para que a sociedade tenha condições de minimizar os seus principais problemas. 

Em sua jornada pelo senso-comum, o homem médio não questiona as forças atuantes do deus mercado. Este como sempre, é apontado como a solução para os nossos dilemas; que é só deixar nas mãos do mercado, que um milagre acontece. Verdadeiramente, um mercado forte, com toda a sua a potência predatória e um Estado sem freios como o nosso, provoca caos social e situações como a que enfrentamos no presente momento. 

Ao aplicar um golpe na presidenta eleita pela vontade popular (Dilma Rousseff), Temer e seus consortes desejavam a instalação de um projeto que fulminasse de vez com os direitos sociais dos trabalhadores brasileiros, além de precarizar a atuação dos órgãos, instituições e agências estatais. O objetivo era o beneficiamento do mercado. Congelar os gastos do Estado em áreas estratégicas. Fazer uma reforma trabalhista impopular, precarizando ainda mais a situação do trabalhador. Ou seja, criar uma espiral de reformas, cuja finalidade fosse exaurir, extorquir; tornar o trabalho e o trabalhador em meros objetos descartáveis. 

Ainda era intenção da gana neoliberal de Temer, realizar a famigerada reforma previdenciária, que lançaria, por vez, o Brasil numa ambiência medieval. Uma vez realizada nos moldes propostos pelo governo, certamente seria a condenação de boa parte dos brasileiros - principalmente os mais pobres - a uma condição análoga à escravidão. 

Um golpe não é um acontecimento isolado, sem ramificações e implicações políticas e sociais sérias. O arrocho sempre faz com que aquele que está sendo agredido, reclame, reaja de alguma forma. Sem base popular, Temer se ver numa encruzilhada, gerada como consequência do seu modus operandis. Sabe-se que o movimento de criminalização da política gerou efeitos deletérios. O governo não consegue dialogar. Patina em sua própria fraqueza. Sofre de inanição por causa de sua pequenez. No desejo de se ver livre do que afirmam ser "corrupção", determinados grupos "acenam" para os militares. Solicitam uma intervenção militar, o que resultaria numa crise mais séria do que o golpe na democracia acontecido em 2016. 

O pedido por intervenção é um gesto de ignorância dos mais profundos. Em um país como o Brasil, onde o Estado Democrático de Direito é uma miragem, a saída nunca pode ser pela via medonha do militarismo. Existe no imaginário do homem médio a ideia de que os problemas do país devem ser resolvidos pela força, pelo simples fato de nunca ter visto uma solução plausível para os dilemas do país. Como já afirmado, sempre houve a flagrante criminalização da política e do Estado. Nunca há o questionamento: "Qual é a parcela de culpa do deus mercado nisso tudo?" Boa parte dos agentes do mercado atuam com interesses mesquinhos na relação com o Estado. O Estado, como ente que aglutina os interesses da sociedade, é que é a vítima, pois a função dos agentes do mercado é a expropriação do fundo público, resultado dos impostos daqueles que produzem riqueza no país. 

Trata-se assim de uma crise que possui enraizamento sistêmico. Não se trata apenas de uma greve com feições pontuais. Não é evento desgarrado de outros acontecimentos. O simples fato de o governo insistir em manter a política de preços da Petrobras, sacrificando impostos necessários à manutenção financeira de áreas estratégicas, para, simplesmente, não contrariar os interesses dos acionistas da empresa é uma comprovação do quanto o mercado precede os interesses da sociedade. 


sexta-feira, maio 25, 2018

Uma resposta


Escrevi isso em um grupo de WhatsApp:

Markim, a Petrobrás é uma sociedade de economia mista. O que isso significa? Que é uma empresa de capital bipartido. Ou seja, você pode comprar ações da Petrobrás; qualquer pessoa pode se tornar um acionista. Todavia, o governo é o acionista majoritário. É diferente, por exemplo, de uma Caixa Econômica que possui capital 100% público. A política adotada nos anos do PT, desatrelava a Petrobrás da flutuação do dólar. O governo ditava as regras do jogo. Com isso, a Petrobrás não tinha os lucros que os acionistas exigiam. Era uma forma de o governo segurar os preços do mercado interno. 

Só que existe um problema: isso é uma ofensa para os adeptos do neoliberalismo. O estado, segundo eles, não deve interferir na economia. Uma empresa do porte da Petrobrás, com o potencial que possui, não pode ficar refém das decisões governamentais. Esquecem os pulhas - ou pelo menos não consideram por má-fé - o artigo 173 da CF: "Ressalvados os casos previstos nesta Constituição, a exploração direta de atividade econômica pelo Estado só será permitida quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo, conforme definidos em lei". A empresa é pública, logo ela possui uma relevante função social. Se você for se inteirar sobre o que o governo Temer está fazendo a Petrobrás, gera uma profunda indignação. 

O governo está vendendo refinarias e as empresas satélites da Petrobrás. Adivinha quem compra? As gigantes europeias ou estadunidenses. Peguemos, por exemplo, a Statoil, uma petroleira estatal norueguesa. Jamais que o governo norueguês permitirá que seja feito com a Statoil o que o governo brasileiro faz com a Petrobrás. A Statoil comprou parte dos campos do pré-sal. Por que esse interesse? Porque para se fazer um país forte como a Noruega, as estatais são essenciais. Estado norueguês regula boa parte da sua economia. Aqui, queremos colocar em prática modelos que faliram a Grécia, a Islândia e tudo mais.  Boa parte dos prejuízos da Petrobrás são resultado da desconfiança dos investidores por causa da devassa irresponsável da Operação Lava Jato, e não do modelo anteriormente aplicado nos governos petistas.

 A Petrobrás é a maior empresa pública do país. Foi criada por Getúlio Vargas para ter uma função estratégica na economia, hoje ela está sendo fatiada; preocupa-se em ser apenas mais uma empresa para satisfazer a lascívia dos neoliberaloides. Outra: o brasileiro no geral não sabe das coisas. Alimenta-se diariamente do que a mídia corporativa com suas informações viciadas noticia. 44% dos brasileiros não leem; a leitura dos brasileiros, quando realizada, oscila da autoajuda aos temas pouco problematizadores. O brasileiro faz piada com tudo e pouco politiza qualquer debate. Entende que política é um tema desnecessário. Afinal, foi vendida a ideia de que político não presta e herdamos de Sérgio Buarque de Holanda e Raimundo Faoro, como diz Jessé de Souza, que tudo que se refere ao estado é ruim. Quando o brasileiro toma partido, aproxima-se dos extremos, dos radicalismos, vide os defensores do Bolsonaro. É claro que num cenário desses, o senso-comum vai prevalecer.

terça-feira, maio 22, 2018

Sobre uma classe média marrenta e burra

Hoje é comum encontrar um médico com pressa de chegar em casa para assistir ao Big Brother Brasil, um engenheiro prostrado em sua sala vendo programas de auditório de domingo, ou advogados e professores ansiosos para o lançamento do próximo Vingadores, filme de maior bilheteria da indústria cultural.

Uma pesquisa divulgada em 2016 mostra que 44% dos brasileiros não leem, e que 30% nunca compraram um livro. Portugueses já estão criticando a enxurrada de brasileiros que estão desembarcando em terras lusitanas, dizendo que os recém-chegados, em muitas situações, se “acham melhores do que as outras pessoas, ‘apesar de terem baixíssima cultura e civilidade’”, segundo o jornalista Sidney Rezende.

Curiosamente foi o PT que criou essa “nova classe média”, um grupo que saiu da classe D para a classe C devido ao aumento, exclusivo, do poder de compra. Lógico que o poder de compra leva a um acesso maior aos bens culturais produzidos e herdados historicamente. O número de brasileiros que frequenta a faculdade aumentou consideravelmente nos anos 2000. Mas por que o brasileiro continua inculto?

O pensamento estruturalista de Clifford Geertz e Raymond Williams entende “cultura” como redes de significações nas quais está suspensa a humanidade, ou como um sistema significante do qual uma ordem social é comunicada, reproduzida, experienciada e explorada. Mas, e aqui concordo com Terry Eagleton, “a cultura não é alguma vaga fantasia de satisfação, mas um conjunto de potenciais produzidos pela história e que trabalham subversivamente dentro dela”.[1] A neófita classe média parece desprezar o contato com esses sinais herdados historicamente.

Sim! Ao sair da classe D, faz questão de negar o que acha inferior, mas não consegue absorver os elementos mais “sofisticados”. Vê o pobre como inculto, ignorante, mas será que é tão diferente assim? Talvez o poder de compra a tenha contaminado, espiritualmente falando. Contudo, não podemos negar que ela corre atrás de cultura, pois busca estudar, se especializar, viajar etc., mas é uma cultura para ter trabalho e lazer, que jamais permitirá a inversão desse processo: o trabalho e o lazer para se ter cultura.

Adquire o conhecimento útil, apenas o que serve para o trabalho e, assim, obter poder de compra. Estuda, faz faculdade para ter um bom emprego e só. Cultura para trabalho e não trabalho para cultura. Essa classe média enche suas redes sociais com fotos de viagens, geralmente com legendas ligadas a diversão e ao lazer. Não pretende apreender a cultura dos lugares que visita, o “conjunto de potenciais produzidos pela história”, como disse Eagleton. É uma cultura que está para o lazer e a diversão e que jamais conceberá o lazer e a diversão para a cultura.

É uma classe que avilta tanto a cultura que coloca o dinheiro acima de qualquer manifestação interpretativa do real. Talvez por isso os professores são tão menosprezados atualmente, pois com o salário que recebem, não podem ser tão confiáveis assim. Confiam mais em comediantes, atletas e youtubers endinheirados que na fala de um especialista assalariado.

Não estou dizendo que a pessoa não pode ir ao cinema ou consumir o que quiser apenas para se divertir, mas que os instrumentos disponíveis por ela, em muitos casos, para interpretar o que vê, não estão tão distante dos das crianças que só têm “como atração o bar e o candomblé pra se tomar a bênção”.

O mercado se aproveitou dessa “cultura” de classe média e intensificou uma indústria cultural que vende o que a mantém mentalmente na posição que está (enojando a produção cultural dos debaixo, e invejando a vida material dos de cima). Na produção excessiva de séries e filmes, uma ideologia que foca na liberdade de consumo é venerada, provocando risos, lágrimas e catarse. Além de cultuar a tecnologia, um dos principais alvos do seu exagero consumista.

A classe média critica o modo de vida da “ralé” (termo usado pelo sociólogo Jessé Souza), sua religião, sua música, a humilha na atividade laboriosa, esbanja sua soberba e superioridade, mas é inculta, não lê, e se contenta com análises superficiais da política, da economia e da sociedade que vive.

Como disse Terry Eagleton, a cultura produz elementos que podem ser usados contra ela mesma, isto é, subversivos. No entanto, essa classe que está mais preocupada em gastar em objetos que não passam de símbolos que esnobam uma superioridade alienada e alienante, não é capaz de criticar o que consome, apenas reproduz uma condição social e mental que seja supostamente útil para diferenciá-la das classes desprivilegiadas.

A partir da década de 1960, cultura passou a significar a afirmação de uma identidade, seja ela nacional, sexual, regional etc. A comercialização dessas identidades pela indústria cultural trouxe uma tolerância de fachada, consumidora apenas, que na prática, na troca simbólica do dia a dia, não mudou muita coisa. Essa classe média, principal consumidora dessa indústria, representa muito bem isso. Além disso, essa “cultura das identidades”, representada e apropriada pelas séries da Netflix e pelos filmes de Hollywood, desprezou as contradições da classe trabalhadora, ajudando a construir, na mentalidade dessa classe média, um ódio ao pobre maior que ao gay, ao negro, à mulher etc.

Contudo, quando esse grupo pensa em mudança, não almeja ir para frente, mas voltar a um passado de quando não era classe média, quando o que chama de “ordem” vigorava, quando aqueles que veneram (ricos empresários e poderosos “dignos”, como militares e alguns políticos entreguistas) eram “justos”, quando era menos arriscado consumir, embora a cultura fosse reprimida…

A ascensão social gerada pelo governo Lula produziu uma classe acéfala que presa mais pela condição de consumidor que a de cidadão. Que adquire cultura o suficiente para o trabalho, mas que não trabalha para adquirir cultura. Que gasta em cultura para adquirir prazer e não em prazer para adquirir cultura. Desta maneira, a arrogância encontra diversos hospedeiros que vomitam soberba e proliferam o ódio de classe.


*Raphael Silva Fagundes é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

sábado, maio 19, 2018

Algumas palavras sobre "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", de Luiz Inácio Lula da Silva

Acabei a leitura do livro "A verdade vencerá - o povo sabe por que me condenam", editado pela Boitempo. O livro é resultado de horas de entrevistas de quatro pessoas (Ivana Jinkings, Gilberto Maringoni, Juca Kfouri e Maria Inês Nassif) que dialogam francamente com Luiz Inácio Lula da Silva, uma das figuras mais importantes da história política brasileira. 

Vale mencionar os quatro textos escritos na parte inicial do livro, com destaque para a crônica política de Luis Fernando Veríssimo e o artigo preciso escrito pelo habilidoso Luis Felipe Miguel, professor da Universidade de Brasília. 

Após a leitura do livro, restou-me a impressão (ainda mais forte) de que Lula é uma figura sui generis. Seus inimigos podem não gostar de sua pessoa, mas, devem, no mínimo, respeitar a sua trajetória política e histórica. A entrevista se mostra uma verdadeira aula de como acontece o jogo político. Não há um esquematismo sistemático típico dos intelectuais herméticos. Lula discorre com simplicidade o mundo grande, graúdo, das negociações políticas; dos conchavos, das traições; de como se deve respeitar o seu mais terrível algoz. 

Demonstra uma finesse no tratamento com os adversários. "O conselho que eu dou é não entrar na política. Porque a arte da política é você conversar com os contrários". Talvez, esse respeito não seja dispensado a ele. Afinal, seus algozes são implacáveis. Lula é um exímio construtor de frases. Suas verbalizações conseguem gerar empatia. Isso é um dos seus trunfos, o que o torna popular, querido por boa parcela da população mais pobre, gerando medo nos seus adversários. 

A entrevista toca em temas políticos sensíveis como, por exemplo, a traição de companheiros de partido, como é o caso de Antônio Pallocci. Busca problematizar o que gerou o impedimento de Dilma. A dificuldade que Dilma possuía para dialogar; o fiasco das decisões tomadas por Dilma logo após a vitória eleitoral em 2014. Aquilo que foi possível realizar quando era presidente e os sonhos que alimenta em relação ao país.

Lula se afirma inocente em todas as perguntas e direciona à Lava Jato, a responsabilidade pela criação de provas forjadas para incriminá-lo. Há uma noção muita clara de quem são os responsáveis pela perseguição orquestrada contra a sua pessoa. Lula fala ainda sobre a imagem que o país passou a ter internacionalmente após o seu governo. Os principais líderes do mundo passaram a respeitar o Brasil pela capacidade que Lula tinha de negociar. Senti falta de temas relativos à América Latina. Todavia, torna-se compreensível a ausência desses temas pelo fato de, no momento da entrevista, fevereiro de 2018, a condenação pelo TRF4 e a iminência de sua prisão, serem os temas do momento.

Fui ler na Amazon alguns comentários, tentando entender a percepção de algumas pessoas sobre o livro. Assustei-me com as afirmações. Certamente, o ódio leva as pessoas a perderem a o bom-senso. Aqueles que se dizem liberais no Brasil - entre estes estão os principais perseguidores de Lula - não sabem o que é liberalismo. Lula se mostra mais liberal do que aqueles que assim se autointitulam. Aquela máxima: "Posso não concordar com o que você diz, mas devo defender até a morte o direito de você dizer" não é consdierada. Há xingamentos. Falta de trato. Ausência de respeito à trajetória política. Insinuações de que Lula é ladrão - este um dos argumentos mais baixos e rasteiros que se possa imaginar. 

Aqueles que isso insinuam, não entenderam o livro, não entenderam a aula dada por Lula. Pelo menos cinquenta anos de história política é despejada em sua entrevista, reforçada pelas mais de duzentas referências a personagens e a acontecimentos.

Se Lula fosse uma personagem do mainstream político como os tantos que existem no Brasil, ele não sofreria a perseguição diuturna de que é alvo. Essa perseguição é resultado de um preconceito por tudo aquilo que ele representa - pela sua origem, pela sua militância, pelo fato de ser uma das personagens mais respeitadas no mundo inteiro, por ter realizado um realizado um governo de que os mais pobres têm saudades, por possuir 33 títulos de doutor honoris causa; por ter fundado um partido que possui densidade política e penetração social. 

As elites brasileiras, com os seus braços de poder na mídia, no judiciário, no sistema financeiro e nos vários setores de decisões do estado, sempre se utilizaram de manobras para impedir qualquer tipo de mudança. A condenação de Lula passa por isso. Lula foi condenado e está sendo perseguido pelo fato de ser Lula. Se não tivesse essa capacidade política de mobilização que possui, seu processo prescreveria e ela ainda concorreria cinicamente às eleições com a certeza de que venceria. Não seria molestado pela opinião pública. Não haveria essa estrutura de ódio construída contra a sua pessoa. 

A crítica que percebemos nas falas do ex-presidente se assentam na credulidade exacerbada que possui nas instituições do Estado. Uma crença de que a própria sociedade que incrimina é aquela que vai inocentá-lo. Lula se esquece de dois fatos: (1) O estado moderno é uma instância do poder da burguesia, das elites que comandam o estrato social. Ela se mune construindo um muro por meio das leis e interpretações que as personagens que possuem poder de mando orquestram. Os poderes constituídos (Executivo, Judiciário e Legislativo) são instâncias que tomam decisões políticas, que criam realidades jurídicas incompatíveis com o ideal daquilo que é democracia. A expectativa de democracia no estado burguês vive de conveniências. Os golpes e a capacidade de manipulação das decisões conduzem o processo político, incriminando determinados movimentos ou permitindo a sua existência enquanto esse não oferecer resistência às estruturas de classe da sociedade capitalista. (2) Lula se esquece de que o povo, essa entidade cooptável, manipulável, precisa de uma preparação, de educação política para entender determinados processos. E foi justamente isso que o seu governo não fez. O PT não foi capaz de mobilizar os vários movimentos da sociedade civil para debater determinados temas, que são fundamentais para gerar mudanças nesse país. Se esse fato tivesse acontecido, talvez, a Dilma estivesse terminando o seu segundo mandato e Lula assumisse a presidência, pela terceira vez, permitindo ao Partido a quinta vitória. O PT permitiu que a astúcia de seus opositores fosse maior do que a capacidade de mobilização de sua militância. 

No geral, o livro é muito bom! Vale a leitura. É preciso ler com tranquilidade para perceber a sensibilidade de cada palavra enunciada por Lula. É essa sensibilidade intrínseca que torna o livro valioso. Talvez a verdade triunfe daqui a cinquenta ou cem anos, como hoje se olha pra trás e se entende as dificuldades enfrentadas por Getúlio Vargas, JK ou João Goulart. Daqui a algumas décadas, os livros mostrarão o quanto o Brasil perdeu a chance de avançar socialmente por ter "criminalizado" a figura que tinha condições de realizar isso. 

domingo, abril 15, 2018

Ian Curtis, um gênio morto precocemente

Cartaz para o filme Control
O rock sempre foi um movimento dinâmico, uma fábrica de mitos; de sujeitos geniais, perturbados, incompreendidos e com fortes propensões para a autodestruição. Foi assim com Jimmy Hendrix, com Jim Morrison, com Bon Scott ou Kurt Cobain. Aqueles que não morreram ainda como, por exemplo, Ozzy Osbourne ou Iggy Pop, causam grande espanto pelas loucuras e imprudências provocadas contra a própria saúde.

Há alguns dias, assisti pela segunda vez ao filme Control (2007), do holandês Anton Corbijn. A obra é uma homenagem ao lendário vocalista do Joy Division, Ian Curtis. O músico, à semelhança de outros icônicos artistas, também esteve na esteira da autodestruição e acabou por cometer suicídio aos vinte três anos. O filme tem como intérprete de Curtis Sam Riley, que está muito bem no filme. Outro ponto forte é a semelhança física com Curtis. Riley mais tarde encenaria a adaptação da famosa obra On the Road, de Jack Keroauc. Na atuação do filme sobre o livro de Kerouac, Riley também está muito bem, embora o filme deixe a desejar. Tentar imitar as sutilezas febris, a velocidade; a agilidade das cenas; a movimentação frenética dos personagens de Kerouac; as experiências com drogas e sexo é, simplesmente, impossível. 

O fato é Riley consegue representar muito bem a personalidade do misterioso Ian Curtis. O vocalista chamava atenção nas apresentações ao vivo pelos movimentos enérgicos; pelas performances que imitavam os ataques de epilepsia que o acometia sempre. Os ataques eram constantes. Às vezes, as convulsões surgiam em meio a uma apresentação. O público não distinguia se era a performance arrebatada, frenética ou se era mais um ataque.
Ian Curtis em alta performance
Curtis foi um poeta soturno. Desde a adolescência, sempre prestara atenção na cena musical britânica. O punk estava em alta, mas ao mesmo tempo havia monstros sagrados espargindo cintilações lisérgicas como, por exemplo, Lou Reed ou David Bowie. Estes dois nomes foram caros para ele. Sua banda, o Joy Division, pode ser classificada como do cenário pós-punk. Mas as letras estão mergulhadas numa atmosfera que muito diverge do movimento punk. O efeito discordante começa pela voz lúgubre de barítono de Curits. Músicas como Atmosphere ou Love Will Tear Us Apart, que estão entre as suas principais gravações, criam um cenário sombrio, de volumosas nuvens cinzentas. Sua voz nos arrasta para uma melancolia leve e atordoante. Curtis como todo sujeito sensível parecia antever determinadas realidades. Era excêntrico por natureza como todo o gênio. 

Até que viu na morte a possibilidade de libertação para os males que o oprimia. Ficamos questionando quais razões teriam levado um garoto tão talentoso como ele a fazer isso. A letra de Love Will Tear Us Apart (que escuto agora) é soberba - "O amor vai nos separar". É um daqueles paradoxos que comprimem a nossa inteligência, que nos empurram a fazer um malabarismo com a razão. Como o amor pode separar? Certamente, trata-se de uma inusitada provocação; de um escracho para as sentimentalidades. Talvez, Curtis tenha se baseado em sua relação conturbada com a sua esposa Deborah Curtis. Mas, o fato é que a letra transcende a sua relação. Ela evola-se. Ganha contornos delicados, a liberdade singela de uma delgada pena.  

A música transmite esse sentimento de ruptura. As batidas ritmadas, o baixo a marcar a viagem e a sua voz grave dizendo que a rotina corrói as ambições e aponta para caminhos separados e, assim, o amor pode dilacerar, fazer mal, asfixiar, tornar-se tóxico. E para isso não há controle. Com a sua morte, houve a dissolução do Joy Division. Os músicos acabaram por formar o New Order.

Por esses dias, separei para ler a biografia escrita por Deborah Curtis, a mulher de Ian, cujo título é: "Tocando a Distância. Ian Curtis e Joy Division".

segunda-feira, abril 09, 2018

A transcendência política de Lula

Extraído da página do Facebook do professor da Universidade de Brasília Luiz Felipe Miguel

O homem que foi preso anteontem é o maior líder popular da história do Brasil. As duas informações, claro, estão ligadas: o homem foi preso por ser o maior líder popular da história do Brasil. E por ter, no governo, com todos os limites e ambiguidades que lhe podem ser imputados, demonstrado, de forma inédita, que o Estado pode ser mobilizado para responder às necessidades prementes dos mais pobres.

É importante ter claro que, ao contrário do que a imprensa se esforça em dizer, a prisão não significa o fim da liderança de Lula. A arbitrariedade e a injustiça de seu encarceramento são patentes. Lula preso não é a derrocada do líder político, mas o emblema do arbítrio.

De todo modo, o encarceramento e o veto judicial à presença nas eleições daquele que foi seu porta-voz principal durante décadas colocam com urgência, para a esquerda brasileira, a questão do seu futuro. Que passa, como outro dia bem lembrou Frederico de Almeida, por duas discussões simultâneas: a superação de Lula e os termos da manutenção de seu legado. Afinal, não se pode jogar fora uma base social tão importante, mas também não se pode permanecer na dependência de uma única pessoa e de um projeto político cujas condições de viabilidade estão cada vez mais estreitas. E essa discussão precisa ocorrer sem que esmoreça a luta pela libertação do ex-presidente, pela restituição de seus direitos políticos e pelo fim da perseguição contra ele. Lula é tanto a vítima de uma injustiça, que reclama por nossa solidariedade ativa, quanto o símbolo da exceção que avança no país, e é nessa dupla condição que a defesa de sua liberdade é prioritária.

A meu ver, há dois elementos em Lula e no lulismo que a esquerda brasileira precisa reter – mas cada um deles inclui também sua própria armadilha. Um é a capacidade de comunicação com as massas populares. O outro é o sentido de urgência no enfrentamento das carências dos mais pobres.

A capacidade de comunicação de Lula tem a ver com sua trajetória, invulgar mesmo para lideranças da esquerda, e com uma competência oratória, uma sensibilidade para compreender as audiências e um talento para gerar empatia que parecem inatos e não estão dando sopa por aí. Mas nasce também de uma recusa consciente a fazer política para seitas. Lula se comunica com a massa porque quer fazer política com a massa, quer ampliar o alcance do discurso, quer romper o círculo da própria esquerda. Sem essa virtude, ele seria talvez um nome com importância na história do sindicalismo brasileiro, mas não o fenômeno político que é.

O problema é que, por vezes, a busca por uma comunicação ampliada imediata leva a evitar enfrentamentos com o senso comum e a ideologia dominante – e isso dificulta avanços além de certo limite. Julgo que, nos melhores momentos de sua carreira política, Lula soube evitar essa armadilha. Sem jamais recair nos chavões da esquerda, fez do diálogo com a massa um momento de educação política real. Mas não quando reduziu seu programa ao ideal liberal da “igualdade de oportunidades” e passou a minimizar o conflito social adotando a persona “paz e amor”.

O sentido de urgência também nasce da vinculação direta com as classes populares, cujas carências não permitem esperar os nossos sonhos. Reconecta a esquerda com o melhor entendimento da política como prática baseada na verdade efetiva das coisas e instrumento para transformação do mundo. E permite a obtenção de uma base social alargada.

Por outro lado, é muito comum que o realismo resvale no possibilismo – o esquecimento de que a vontade de mudar o mundo também é parte da realidade do mundo, a aceitação dos limites à transformação do mundo como inamovíveis, a secundarização da parte da luta política que consiste em alterar as condições da própria luta. Com isso, o enfrentamento das necessidades urgentes acaba por se tornar o horizonte final do projeto político e a transformação social radical é deixada de lado.

Preservar as virtudes do lulismo escapando de suas armadilhas não é um projeto fácil, mas é necessário. A meu ver, a esquerda pós-lulista deve reter um lulismo interpretado à esquerda. Não é um programa popular: alguns rejeitam o prefixo “pós”, julgando que o lulismo deve ser preservado in totum, enquanto outros têm alergia ao lulismo e acham que ele deve ser eliminado até não deixar rastros. Mas para quer uma prática política que seja radical sem ser onírica e que incida na realidade sem deixar de recusá-la, esse me parece ser o caminho possível.


https://www.facebook.com/luisfelipemiguel.unb/posts/10211728057817850


sábado, abril 07, 2018

Brasil: cada vez menor

Hoje é um dia bastante triste. A tristeza sempre nos acomete quando algo traumático nos acerta; ou quando algo importante é arrancado de nós, deixando um espaço enorme. É assim que me sinto neste momento. É inglório viver em país que não decola, que não permite avanços democráticos, que não admite mudanças sociais; um país em que aqueles que ousam enunciar um discurso heterodoxo acabam por amargar o ostracismo político; um país cuja mesquinhez de sua burguesia impede qualquer avanço no campo democrático.

A prisão de Lula no dia de hoje possui um significado simbólico. Lula é o maior líder popular que as forças populares desse país já produziram. Não existe outro nome. Nordestino pobre. Retirante como tantos outros "severinos" (como afirma João Cabral de Melo Neto) que saem daquela região  à procura de novas oportunidades. De família enorme, começa a trabalhar muito jovem. Ingressa num curso técnico. Faz-se na atividade sindical. Passa a ser respeitado. Organiza uma greve geral. É preso em plena Ditadura Militar. Percebia-se que ele não era um mero "joão-ninguém". Com as forças populares e setores amplos da classe trabalhadora, fundo o Partido dos Trabalhadores (PT). O Partido tornou-se grande. Ocupou um espaço importante da vida política nacional. Engajou uma militância aguerrida. Na verdade, o PT é o que de mais sólido a esquerda produziu em quinhentos anos de história.

A partir de 1989, Lula começa a participar das campanhas presidenciais. Essa participação se efetiva de maneira inglória até 2002, ano em que o PT ganha. Antes disso, ele perdera para Collor (uma vez) e Fernando Henrique (duas vezes). O Governo é marcado por uma coalizão com partidos de esquerda e de centro; por partidos abutres e oportunistas. Lula foi crédulo demais. O grande líder ganhou um grande condomínio para presidir, sob uma condição: que alguns andares não fossem desfeitos, ou seja, que a velha burguesia nacional não perdesse os seus privilégios. O governo do PT foi um governo resignado a algumas condições. As tímidas políticas sociais do governo Lula causaram uma impressão negativa nos donos do condomínio. Talvez, essa seja uma das principais causas do ódio que existe ao PT. Viveram-se dias de um forte otimismo. Achávamos que dessa vez o país decolaria. Todavia, por causa de sua burguesia ranzinza, invejosa, predatória e insensível, o país foi obrigado a ser o que sempre foi: um campo fértil de desigualdade e privilégios mesquinhos.

Com o fim do governo Lula, Dilma Rousseff assume a condução do país. Era a terceira vitória do Partido dos Trabalhadores. Esse fato já demonstrava uma contrariedade de determinados setores do capital. Em 2013, as manifestações que aconteceram em julho foram decisivas para influenciar as eleições de 2014. Mesmo com a campanha sórdida da mídia contra a reeleição da presidenta Dilma, ela ganhou, mas não conseguiu governar um único dia até o seu escandaloso impeachment, em 2016. 

A deposição de Dilma foi só o início. Foi apenas um aspecto do golpe. Era necessário mais do que isso. Era necessário impedir a maior ameaça aos grandes oligopólios. O maior medo é de ter um governo que possui resplandecências populares como foi o governo do PT, mesmo que o lulismo tenha promovido uma política de não agressão aos interesses do grande capital.

A mídia, um dos braços dos poderosos desse país, orquestrou uma campanha sórdida contra o PT. Desde 2014, não há um único dia que a mídia não tornem o PT e o seu líder Lula em notícia negativa nos seus jornalões. Setores inteiros da classe média - que não se reconhece trabalhadora - "consolidou" um movimento urdido pelo grande capital. As instâncias políticas fizeram um pacto agressivo contra o Partido dos Trabalhadores. O ódio se acirrou. Doses enormes de fascismo tomou o país.

Afirmar que o PT é um partido vendido à corrupção é uma das maiores baboseiras que existem. É lugar-comum rasteiro; argumento de sarjeta. É uma tentativa de criminalizar a esquerda. Os próprios agentes do estado (vide Ministério Público) criaram epítetos perigosos como, por exemplo, "organizações criminosas". Chamar um partido de "organização criminosa" é colocar em aberto ataque a democracia do próprio estado burguês. Já haviam feito isso com o Partidão (PCB) no passado.

O problema do PT foi aceitar, de maneira crédula, a relação de compadrio com as forças antipopulares. A corrupção é a tática utilizada pelas oligarquias que sempre buscaram se apropriar da condução política do país - custe o que custar. E, nesse sentido, é importante que fique claro que, a crítica ao lulismo deve ser feita. Mas, não se deve olvidar o homem Lula. Aqueles que aplaudem a prisão do Lula não entendem a força simbólica daquilo que ele representa para as camadas populares do Brasil. Lula é a maior liderança popular que esse país já produziu. Zumbi, Antônio Conselheiro, Getúlio Vargas, João Goulart e, agora, Lula são nomes que foram imolados pelas arbitrariedades da burguesia brasileira. Ou seja, todos aqueles que se levantam oferecendo um grito contrário aos desmandos das velhas oligarquias do estado burguês, acabam sendo abafados pela violência das instituições do estado brasileiro. 

Triste saber que um homem como ele - septuagenário - , ficará impedido de participar das lutas do povo. A conjuntura indicava que assim como, deu-se em 1950, com Getúlio Vargas, Lula seria um forte candidato a ganhar a eleição de outubro de 2018. Triste! Viver em um país como o Brasil ter a certeza da instabilidade - de que não é possível alimentar esperanças nem ter sonhos. Somos o país da rasteira, do tapete puxado de maneira absurda; país dos voos de galinha; um país que se torna cada dia menor - e mais difícil de se viver.


quarta-feira, abril 04, 2018

Um excerto sobre Graciliano

Durval Muniz de Albuquerque Jr
"O burguês é, para Graciliano, o homem que desperdiça a vida sem saber por quê, que não tem ideias. É um simples explorador feroz, egoísta e cruel, desconfiado de todos. Um homem submetido a uma miséria existencial. Um homem que só concebe as relações sociais como relações de apropriação, apossando-se de terras, homens e mulheres. O ciúme de Paulo Honório é apenas um modo de manifestação do sentimento de propriedade, que procura transformar Madalena numa coisa, num objeto, ao que ela recusa, afirmando sua condição humana. A luta entre a ética da coisificação burguesa e a ética humanista se revela pela própria incompreensão de Paulo Honório em relação à sua esposa. Ele não consegue compreendê-la, também não consegue entender o humanismo, porque este é a sua própria negação. Sua amabilidade com as pessoas é apenas de casca, visto que ele é também a negação do sertanejo pobre; enquanto este é pura autenticidade, ele é tração. Se adquire a "docilidade" do antigo coronel, é apenas para melhor explorar, não está verdadeiramente preocupado em proteger ninguém. Era um novo senhor de escravos, que não oferece aos seus trabalhadores sequer o que se dava antigamente aos negros das senzalas.

Nesta sociedade, o homem pobre continuava sendo uma coisa, quase um animal, tendo de meter a cabeça para dentro do corpo, como cágado, ao ouvir as ordens do patrão. Era como animais tristes, bichos domésticos, que só eram capazes de fúrias boçais, só eram capazes de destilar veneno aprendido na senzala, indo da subserviência à brutalidade. Graciliano parece, continuamente, estar dividido entre a beleza da teoria de mudança do mundo e a feiúra dos homens concretos que teriam de colocá-lo em prática. Esse certo desprezo pelos homens concretos parece só ser aplacado quando estes são levados para o papel, quando são transformados em estética; então ele demonstra a sua vontade de participar dos sofrimentos alheios, de tornar vísivel um mundo de desigualdades que aprendeu a perceber desde a infância, quando uns sentavam nas redes e outros permaneciam de cócoras no alpendre, solidarizando-se com as pessoas, como ele, vítimas de violência e da prepotência dos mais poderosos. (...)"

A invenção do Nordeste. Durval Muniz de Albuquerque Jr., pp. 268 e 269


segunda-feira, abril 02, 2018

Felicidades cotidianas...

Eu já contei isso aqui para os leitores inexistentes deste espaço: a Amazon me impressiona pela capacidade - eficiência, profissionalismo, competência e as múltiplas qualidades que meu parco vocabulário não consegue qualificar. Comprei doze livros na quarta-feira. Houve o aviso de que os livros seriam entregues até o dia 3 de abril. Eles encaminharam a mercadoria na quinta-feira. Sexta-feira foi feriado. No sábado eu viajei para Goiânia tranquilo. Sabia que era possível a entrega, mas como o feriado acontecera na sexta-feira, eles tinham um belo álibi para que a entrega não se efetivasse no sábado.

À noite, no sábado, para a minha surpresa, recebi, enquanto estava em Goiânia, o aviso de que haviam entregado diligentemente a encomenda. Ao receber o comunicado pelo aplicativo do celular, movimentei o lábio em um riso displicente, daqueles que confirmam uma crença: de fato, os caras são muito bons.

E eis que chegaram... seguem alguns:
















































































quinta-feira, março 29, 2018

"A Guerra do fim do mundo", de Mário Vargas Llosa

Ruína da antiga cidade de Canudos-BA
Uma das primeiras coisas que li em português foi Os Sertões, de Euclides da Cunha. Para mim, foi uma das grandes experiências da minha vida de leitor. Foi como ter lido, quando garoto, Os Três Mosqueteiros, ou, já adulto, Guerra e Paz, Madame Bovary ou Moby Dick. Foi realmente o encontro com um livro muito importante, uma experiência fundamental. Um deslumbramento, realmente, um dos grandes livros que já se escreveram na América Latina. Mario Vargas Llosa

Canudos é um dos pontos mais controvertidos da história do Brasil. Até hoje, o debate em torno da ação do Estado em relação ao genocídio promovido pelas forças armadas no nordeste da Bahia é um fato pouco explorado ou refletido, como tantos outros no Brasil. Acertar contas com a história é uma questão essencial para um país que deseja corrigir injustiças promovidas para que elas não se repitam. 

Muitos já escreveram sobre Canudos. O relato mais conhecido é o de Euclides da Cunha, o jornalista de formação militar e positivista que esteve na região cobrindo os combates sangrentos e que mais tarde levaria ao papel as suas afiadas memórias. O relato de Euclides é tão fascinante que, para além de história, ganhou conotações de grandiosidade literária. 

Já separei Os Sertões para realizar a leitura. Acredito que todo brasileiro possui, obrigatoriamente, o dever de ler a obra de Euclides da Cunha. Ela revela um pouco da violência com que as oligarquias do país tratam os pobres. Um pretenso orgulho republicano, de uma das sociedades mais atrasadas da América Latina à época, vitimou quase trinta mil vidas. Eram sertanejos que fugiam da miséria. Ancoravam-se na fé. Esperavam uma espécie de redenção histórica. Acreditavam que Antônio Conselheiro era um enviado de Deus; um profeta poderoso. Um mensageiro de Dom Sebastião. Canudos constituía-se em um grande oásis. Ela possuía suas próprias regras. Conselheiro um propalado republicano era um inimigo da República. Possuía posições obscurantistas.

Pois essa história extraordinária fascinou Mario Vargas Llosa. Após ter lido Os Sertões (imagino que não deve ter sido fácil para ele, já que o texto de Euclides oferece bastantes obstáculos. Seja por sua formação militar do escritor, seja pelas habilidades técnicas como engenheiro, o texto de Euclides é denso, repleto de uma linguagem provocadora), o escritor peruano ficou enfeitiçado pela narrativa euclideana. Aquilo enche-o de otimismo. Isso eram os idos dos anos 70. Resolveu, pois, visitar a região onde ficava situada a cidade. Sentiu as emanações quentes do clima agreste. Visualizou as elevações, o terreno, as pedras, aspectos estes pormenorizados na primeira parte do livro de Euclides da Cunha; esteve ainda nas cidades circunvizinhas a Canudos. Estas cidades são fartamente citadas no romance A guerra do fim do mundo.  

A tarefa de campo demandou alguns meses. Foi necessário colher as informações. Ouvir depoimentos. Deixar-se inundar pelos aspectos humanos da região. Ouvir a voz do povo. O fato é que Vargas Llosa, como ele mesmo disse, teve muito trabalho para escrever a obra. É a obra que demandou mais trabalho em sua longa jornada como escritor. O resultado é fascinante. Diferentemente de Euclides, Vargas Llosa insere elementos fictícios com caricaturas grotescas. Ao lado do combate que se desenrola em longas páginas, nota-se também a presença de personagens histriônicos e quase carnavalizados como é o caso do Leão de Natuba. 

Existem muitos elementos na obra que devem ser ressaltados. Um livro de quase oitocentas páginas não deve ser caricaturado em tão magras linhas como as minhas. Mas acredito que um dos principais aspectos que saltam do livro é o fanatismo. Há um fé inabalável; uma crença que fortalece os miseráveis sertanejos que moravam no arraial. Uma vez que passavam a morar no arraial, uma força irresistível brotava do espírito coletivo e da fé. Se não fosse isso, eles teriam sucumbido na primeira campanha armada que se levantou contra eles. Não teriam matado o arrogante oficial Moreira César, um dos algozes mais temidos no Exército durante a República Velha. César era um homem impiedoso. Ele lutara no Sul do país na Revolta Federalista. Fizera fama por lá. Chegou a Canudos com respeito e com a alcunha de grande matador. 

A Guerra do fim do mundo é um livro épico. É fascinante. Não deve ser comparado ao livro de Euclides da Cunha por possuírem abordagens completamente diferentes para um mesmo evento. Vargas Llosa sabia isso. Ele tinha consciência de que seria um tarefa perigosa escrever sobre Canudos. Como estrangeiro, falante de uma outra língua, seria complicado fazer algo que se equiparasse ao livro Os Sertões. Mas o fato é que estamos nos referindo a um dos maiores escritores americanos de todos os tempos; estamos nos referindo a um ganhador de Prêmio Nobel. Vargas Llosa é um conservador esclarecido. Desses com os quais discordamos, mas damos a ele o direito de resposta por sabermos que há um sólido embasamento naquilo que está dizendo. 

Como um homem da literatura, Mario Vargas Llosa é imbatível. Certamente, para mim, foi uma das mais ricas e agraciadoras experiências  da minha vida ler A Guerra do fim do mundo.

sábado, março 10, 2018

Ainda José Lins do Rego - "Banguê"

Apesar de ter terminado a leitura de Banguê há bastante tempo, o terceiro romance de José Lins do Rêgo, somente agora me decidi por realizar alguns comentários. Do ponto de vista da escrita, Banguê é o que possui a melhor redação dos três primeiros romances. Como foi comentado anteriormente, Menino de Engenho, o primeiro, é uma narrativa centrada na nostalgia. Não há dramas psicológicos. É a infância verbalizando suas impressões. Carlos de Melo é uma criança órfã que decide contar alguns fatos sob uma perspectiva altamente saudosista. 

Apesar da ficção, ouvimos a partir dele, quiçá, a própria voz do romancista José Lins do Rego, que experimentou a sua infância também em um engenho. Ele empresta a sua história a Carlos de Melo. No segundo livro, Doidinho, percebe-se que "o ciclo" começa a ganhar contornos sólidos. A narrativa se avoluma. José Lins continua a sua incansável saga memorialística. Carlos de Melo ainda está no centro. Enquanto em Menino de Engenho, temos-lo criança, em Doidinho ele é o adolescente que vai para escola e experimenta os rigores da disciplina. 

Carlos tem o futuro à frente, mas insiste em olhar para o Santa Rosa. Os acontecimentos são quase inexistentes no engenho Santa Rosa na narrativa. O engenho é visto como o Éden; como o espaço privilegiado da pureza inconteste; da felicidade inquebrantável; dos acontecimentos grávidos de liberdade. Há uma polarização entre o Liceu em Itabaiana e o Engenho Santa Rosa - aquele, o espaço claustrofóbico, do confinamento, do medo, do susto, da violência repressora; já este é o jardim das delícias; da fauna e da flora privilegiadas; em suma, de um mundo sem porteiras nem muros.

Banguê, por sua vez, escrito em 1934, é o mais denso livro da trilogia de Carlos de Melo. Fica-nos a impressão de que José Lins tenha desenvolvido a técnica que o conduziria a Fogo Morto, sua obra máxima. O livro foca a atenção em um Carlos de Melo já adulto, formado e herdeiro do espólio do Santa Rosa. O avô José Paulino, figura emblemática do patriarca, aquele que ergueu o grande feudo, morrera. Ela era o inexpugnável dono de terras, animais e "gentes". Carlos de Melo, bacharel em Direito, formado no Recife - assim como José Lins, um herdeiro das famílias tradicionais do Nordeste - após a formatura, volta para o Engenho. Sua indolência para com as coisas do Santa Rosa colocam-no em crise. Percebe-se claramente a sua falta de habilidade para gerir, para tocar as terras antigas do avô. 

As safras não são as mesmas. Um medo profundo de ser morto o abate. Desconfia dos parentes. Nota que há moradores mais habilidosos do que ele na condução das lavouras. Por fim, percebe que está na iminência de perder o Engenho para uma usina. Não consegue pagar uma carta de crédito. Se isso acontecer, ele liquidará a história do imortal Engenho Santa Rosa, que é uma extensão da memória do avô José Paulino.

Minhas palavras soam meio inexpressivas na tentativa de fermentar o interesse pela história, mas o fato é que o ritmo da prosa de José Lins deixa a impressão de um escritor que ia escrevendo à medida que memória fazia o seu trabalho. A narrativa pode ser comparada a uma mina que brota incessante. É delicioso ler José Lins do Rego! Percebe-se que ele não se preocupa com as grandes construções gramaticais. O fluxo de sua narrativa parece ser resultado de uma conversa, uma confissão privilegiada à imaginação dos leitores. 

Estou terminando dois livros atualmente - A guerra do fim do mundo (Mario Vargas-Llosa) e A invenção do Nordeste e outras artes (Durval Muniz de Albuquerque Junior). Assim que concluí-los, emplacarei a leitura de O moleque Ricardo. Quero perfazer toda a obra do escritor paraibano este ano. Sigamos. 

domingo, fevereiro 25, 2018

A guerra do fim do mundo

O ano passado, comecei a leitura de A guerra do fim do mundo, livro fundamental para se compreender o Brasil atual à luz dos eventos históricos ocorridos durante a Primeira República, também chamada de República Velha. Mario Vargas Llosa, escritor peruano e um dos poucos escritores latino-americanos a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, passou alguns meses no sertão baiano, colhendo informações; observando a paisagem; assinalando as características dos moradores do lugar; catalogando documentos históricos a fim de entender a épica história de Antonio Conselheiro e do arraial de Canudos. 

Estou na metade do livro. Devo confessar que se trata de uma obra extraordinária em todos os sentidos. Em outro momento farei uma breve reflexão sobre ela. Por enquanto, fica um vídeo do programa Direito e Literatura. Vale a pena assistir ao vídeo que possui pouco mais de 25 minutos.

Direito e Literatura - A Guerra do Fim do Mundo from Unisinos on Vimeo.