terça-feira, janeiro 13, 2009

Quase diário II

Vês, olha para aquelas árvores em que
Penduras as tuas angústias.
Existe uma floresta onde escondes
As tuas dores de parto.
São dores lancinantes, cortantes, fumegantes.
É quase diariamente que tens que te sobressair
Por sobre a dor de ser diário.
A vida estaria dentro dessa selva?
Escondo apenas as minhas dores nesse
Ninho tecido pela minha imensa e necessária
Engenhosidade.
Eu quase que busco me encontrar por trás dos hortos.
Existe um desejo em mim de ser diário.
O fato é que eu sou.
Devo assumir a minha incrível necessidade de ser diário?
Sim!
Existo por que penso ou penso por que existo?
Tanto faz.
O fato é que tenho uma história para continuar
A escrever sobre mim?
Ou escrevem acerca de mim e eu não participo?
Eu sou um comercial, uma propaganda da divindade.
Loucura.
Não pode ser.
Não é assim que contam os textos sagrados.
Há funcionalidade no meu ser.
Existe autonomia detida, controlada.
Eu sou quase diário, porque nos outros dias em que não sou,
Tento entender o que sou – eu sou diário?

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 23/3/2004 09:14:23, terça-feira.

sábado, janeiro 03, 2009

O mito do herói na Grécia Antiga

A Antigüidade Clássica constitui um dos centros formadores dos arquétipos do Mundo Ocidental. A Grécia em específico, com sua filosofia, seu ideal de homem perfeito, de democracia, de civilização, de investigação das ciências naturais, de cidadania, forjou o modelo investigativo que segue o homem do Ocidente há quase 3 mil anos. Uma análise mais detida sobre o legado grego, faz enxergar o quanto os helenos foram responsáveis por constituir a gênese do pensamento analítico dos indivíduos ocidentais.
Tratando-se dessa civilização extraordinária, não é de se desprezar como os gregos interpretaram a realidade. Muitas das inquirições iniciadas ou sugeridas pelos filósofos gregos ainda continuam sendo pensadas. É o caso singular dos filósofos pré-socráticos, responsáveis por interpretarem a natureza filosófica e cientificamente. Há quem já disse que após Platão e Aristóteles não há mais o que se pensar. Que todo o pensamento que surge após estes filósofos não é original, mas uma derivação daquilo que eles pensaram. Os gregos souberam mais do que ninguém retratar filosoficamente os problemas atinentes ao ser humano. Construíram modelos singulares e complexos que ainda servem de base para o homem se entender e se interpretar.
Isso pode ser verificado no que diz respeito ao que eles pensaram sobre a figura do herói. O herói grego é um ente complexo. Carrega em si as potencialidades do trágico. O herói ao vir ao mundo, tem um destino inexpugnável, inescusável. Tal força determinada que o segue precisa ser preenchida, cumprida. O herói cumpre a sua missão quando tem contra ou a favor, as sentenças arbitrárias do destino. Trata-se de uma lei marcial, não separativa, vinculada àquilo que é. O herói é uma árvore solitária que atrai para si os fatídicos raios dos fatos. Assim como a gravidade constitui-se numa lei com regras objetivas e absolutas – e por isso se constitui numa lei – esse caráter incondicional segue a existência do herói e delineia aquilo que poderia ser chamado de “fado heróico”.
A personalidade complexa do herói é outra questão a ser considerada. O herói possui uma “liberdade” para ser/reunir em si o paradoxo – o bem e o mal. A luminosidade e a escuridade persegue-o. Suas ações, oriundas da psique, não são previsíveis, nem sugestionáveis. Hércules é o herói que mata os filhos e as esposas, e, para se redimir, necessita realizar 12 trabalhos ou tarefas. Aquiles é a máquina melindrosa e implacável da guerra. Possui uma força invencível, mas um ponto fraco esdrúxulo (o calcanhar) que sela o seu destino na hora do combate. Morre na peleja, pelas mãos de Páris, o mais covarde dos filhos de Príamo, rei de Tróia. O seu ponto fraco não é apenas um ponto fraco apenas. Constitui uma característica paradoxal na existência do herói. Aquiles é a força, a impetuosidade, mas a fragilidade também.
Os heróis em geral carregam em si os desejos inconscientes de determinada sociedade. Ou seja, o herói constitui um tipo de representação necessária. Seguindo essa lógica, pode se afirmar que em toda sociedade há a necessidade de heróis. Projeta-se no herói as necessidades dos indivíduos que compõem esta mesma sociedade. Assim, o herói é também produto dos anseios. Os gregos ao construírem esses modelos singulares, complexos, sabiam disso. A inevitabilidade da sina do herói constitui a própria busca de respostas aos dilemas do existir humano.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: Segunda-feira, 24 de novembro de 2008.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Ano Novo

As pernas passam apressadas lá fora.
Muitos sonhos e expectativas
Também são alimentados esta noite.
Conversas, viagens, confraternizações,
A gola aberta para a solidariedade.
O resto do ano é murro, é força,
É suor, é choro.
Rojões, fogos-de-artificio, estrondos;
Alaridos, gritos, sussurros.
O momento extremo.
É como se um dia, horas,
Tivesse o poder para nos fazer novos.
Somos os mesmos.
Mudam as disposições mentais.
Enquanto isso, esperanças são cosidas,
Tecidas, alinhavadas, costuradas, esta noite.
O mundo é um grande templo de sonhos.
Os olhos se levantam para o céu.
Brotam desejos do asfalto, da praia, do mar.
Promessas emuladas, cantadas.
Augúrios surgem em propulsão.
Os homens sonham.
A matéria invisível do tempo
Insere novas possibilidades.
É como se os minutos, as horas, os dias,
Fizesse caducar um ano inteiro de frustrações
E descontentamentos acumulados.
Esses rituais são necessários para
Deixarem os homens vivos.
Amanhã uma nova estação surgirá
Para que pensemos no ponderável.
Começa a novidade, a possibilidade virgem.
Essa página branca será borrada pelo uso:
Luta, murro, suor, lágrimas.
E tempo trará os minutos, as horas,
Os dias, os meses, o ano novo.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: quarta-feira, 31 de dezembro de 2008, 11:22:01.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Panegírico a um cativamento

Há muito tempo que reunia motivos para escrever algo para cada um dos senhores. Mas, motivos tenho em demasia, por isso, antes de botar o que tenciono no papel, quero dizer que sinto existir um livro abstrato aqui comigo desejando se tornar matéria, substância. Não se trata de motivos. Talvez, disciplina , organização.
Hoje à tarde enquanto manuseava um livro de poemas da Cecília Meireles, a lembrança dos senhores se avivou em minha saudade. Rebentou inevitavelmente como uma bolha de sabão. Cobrou de mim a sua existência. Declarei-me vencido. Não há o que contestar contra esse imperativo. Diz a Cecília: “Minha canção vai comigo/ Vai doce/ Tão sereno é o seu compasso/ que penso em ti, meu amigo/. – Se fosse, em vez de canção, teu abraço”[1]. Singelamente, ao fundo toca uma canção, uma música com poderes evocadores. A música, porém, poderia ser substituído pela companhia dos senhores.
Outro texto que me veio à lembrança foi uma passagem belíssima do livro “O Pequeno Príncipe” de Saint-Exupérry. O trecho aborda o problema da saudade cativada, da presença que um dia foi e que se tornou memória. A memória revive o desejo por intermédio do símbolo, que faz a mediação entre o evento que foi e aquilo que ficou aprisionada como memória no espaço interior de nossa necessidade.

XXI

E foi então que apareceu a raposa:
- Boa dia, disse a raposa.
- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho, que se voltou, mas não viu nada.
- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa, disse a raposa.
- Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.
- Ah! desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acrescentou:
- Que quer dizer "cativar"?
- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens, disse o principezinho. Que quer dizer "cativar"?
- Os homens, disse a raposa, têm fuzis e caçam. É bem incômodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?
- Não, disse o principezinho. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços..."
- Criar laços?
- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender, disse o principezinho. Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível, disse a raposa. Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! não foi na Terra, disse o principezinho. A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito, suspirou a raposa.
Mas a raposa voltou à sua idéia.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra.
O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e considerou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! disse ela.
- Bem quisera, disse o principezinho, mas eu não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer alguma coisa. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me! - Que é preciso fazer? perguntou o principezinho.
- É preciso ser paciente, respondeu a raposa. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás mais perto...
No dia seguinte o principezinho voltou.
- Teria sido melhor voltares à mesma hora, disse a raposa. Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade! Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar o coração... É preciso ritos.
- Que é um rito? perguntou o principezinho.
- É uma coisa muito esquecida também, disse a raposa. É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, possuem um rito. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira então é o dia maravilhoso! Vou passear até a vinha. Se os caçadores dançassem qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu não teria férias!
Assim o principezinho cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua, disse o principezinho, eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis, disse a raposa.
- Mas tu vais chorar! disse o principezinho.
- Vou, disse a raposa.
- Então, não sais lucrando nada!
- Eu lucro, disse a raposa, por causa da cor do trigo
[2].

Estas são uma das páginas mais belas e ternas da literatura universal, escritas pelo grande escritor francês Saint-Exupérry. Trata-se de um diálogo simples, quase infantil e que celebra a amizade, a saudade. Escolhi este texto, pois sei que traduz com bastante significância “o cativamento” que criamos mutuamente. Começamos todos ali na 602 Sul. Éramos todos estranhos. Olhamo-nos inicialmente com certo espanto no respeito. Mas aos poucos, enquanto surgiam as necessidades (os trabalhos, apresentações, leituras), fomos nos cativando uns aos outros. Isso se deu de tal modo que um espírito crescente de amizade se fez presente, criou uma espécie de cola que nos uniu.
Passaram-se três anos e encontramos algumas referências, nomes inesquecíveis – professores e alunos: tivemos num único semestre a presença do inesquecível Francisco Agrimar, figura fabulosa. Professores como Dioney Gomes, Veruska Machado, Carlos Mota, Maria das Graças, Cátia Martins, Mário Bispo, Ricardo. Creio que fomos cativados por esses mestres. Figuras que se inscreveram de forma completa em nossa existência. Fomos para a 609 Norte e lá conhecemos o Clerton, a Sarom e outros mestres. Tivemos dificuldades com a distância e com a estrutura capenga da nova faculdade. Fomos vítimas de uma instabilidade. Seguiram-se dias de rumores. Estudamos num “subsolo executivo”, em salas ordinárias, num espaço deficitário. Aquilo aturdiu-nos.
Até que fomos encaminhados para a 702 Norte. Em três anos, mudamos três vezes – uma a cada ano. Nossa graduação foi marcado pelo nomadismo. Mudamos de marca três vezes – primeiro Imesb, depois Unireal e, por último, Fortium. Todavia, sei que se tornou consenso a cada um de que sempre levaremos em nossos corações o Imesb como nosso espaço de celebração, de amizade, de “cativamento”.
Não poderia deixar a oportunidade de cumprimentá-los. De desejar-lhes uma humilde nota de elogio. Quero afirmar que foi enriquecedor está com cada um dos senhores nestes quase três anos de caminhada. Importante mesmo! Os “campos de trigo” do meu espaço interior permanecerão sempre vivos, assim como esteve para a raposa. A amizade deve ser celebrada, também, porque aconteceu. Quero dizer que fui cativado pelos senhores. Não saio perdendo, sem lucro, fica em mim marcada a lembrança daquilo que foi. Trata-se de uma força sempre viva, que possui auto-causação. No futuro, desejo que o “meu campo de trigo”, permaneça vivo. Para isso, regarei com as lágrimas da minha saudade.
Rubem Alves falando dessa mesma passagem diz que a imagem do campo de trigo é um símbolo evocador de uma ausência. “O Pequeno Príncipe retrucou: “ Não é culpa minha. Eu não queria te cativar. Agora você vai chorar. Qual foi a vantagem?” Respondeu a raposa: “ A vantagem? Os campos de trigo. Eu sou uma raposa. Como galinhas. O trigo me é indiferente. Mas você me cativou. Seu cabelo é louro. Os campos de trigo são dourados. Porque você me cativou sempre que o vento balançar as espigas douradas de trigo eu me lembrarei de você. E sorrirei...” É isso que é um sacramento: uma imagem carregada de emoções. O sacramentos são símbolos que têm o poder de invocar ausências”[3]. A minha saudade regará o meu sacramento. Conhecemo-nos e nos separamos, pois a vida implica nisso. Chegamos e partimos com bastante rapidez.
Diz Rubem Alves em outro texto denominado “A chegada e a despedida” que as chegadas e as despedidas fazem parte da vida, assim como o dia que se despede com a chegada da noite ou a noite com a chegada do dia: “A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe. A madrugada é alegre, luzes e cores que chegam. O sol que se põe é triste, orgasmo de luzes e cores que se vão. Madrugada e crepúsculo, alegria e tristeza, chegada e despedida: tudo é parte da vida, tudo precisa ser cuidado. A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada quem a gente ama. É preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama”[4].
Um abraço a cada um dos senhores, trigos de minha inspiração. Boas festas, bons sonhos!
P.S. A ilustração acima faz parte do livro "O Pequeno Príncipe".

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: segunda-feira, 22 de dezembro de 2008, 13:46:08.
[1] MEIRELES, Cecília. Flor de Poemas. Rio de Janeiro e São Paulo. Ed. Record. 1983, p.83.
[2] Disponível em http://br.geocities.com/lidijunior/principe.
[3] Quarto de Badulaques XXXVIII.
[4] ALVES, Rubem. Concerto para corpo e alma, 13ª. Edição. Campinas- SP: Papirus, 2007, p. 130-131.

sábado, dezembro 20, 2008

A feira

O mundo é um grande mercado.
Vendem-se todas as coisas.
Há compradores para todos os artefatos.
As mercadorias são de variados gêneros:
Há casas à venda;
Móveis em liquidação;
Obras de arte em empórios;
Panelas e badulaques em armazéns;
Carros em concessionárias.
Armas em lojas especializadas;
O corpo (sexo) nas esquinas escuras
Ou à luz, em pleno dia;
Órgãos humanos no mercado negro;
Drogas pelo tráfico;
Curas pelos sacerdotes;
Esperanças em seminários;
Saúde em academias e hospitais;
Educação nas escolas e faculdades;
Pílulas que aliviam e acalmam
Nas farmácias;
Terras públicas por especuladores;
Salvação eterna em nichos religiosos;
Aprovação em concurso público;
Desintoxicação em clínicas especiais;
Roupas em lojas de departamento;
Companhia e cuidado em asilos;
Ações na bolsa de valores;
Relíquias antigas em leilões;
Serviços em licitações;
Felicidade em livros de auto-ajuda;
Viagens em pacotes turísticos;
Imóveis em consórcios;
Fama em agências de publicidade;
Pedaços do Muro de Berlim pela internet;
Fugas vazias em balcões de bares;
Cursos por correspondência;
Conselhos em empresas de consultoria;
Safarias nas savanas africanas;
Animais em espaços clandestinos;
Dinheiro em instituições financeiras.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 05 de dezembro de 2008.

terça-feira, dezembro 16, 2008

Cantos

As cigarras cantam plangentemente
Nos galhos tortos das árvores.
São cantos vaticinadores:
A chuva vem.
Vem com seus encantos.
Com o seu tamborilar imperioso.
Os mosquitos brincam no ar.
O verde vomita fragrâncias
E exibe-se – a natureza.
Tantos choros,
Tantos lamentos.
A natureza comemora
Os seus encantos.
Grasnados canoros.
A hora infinda escorre com vagar.
O tempo dentro de mim
Move-se como uma serpente.
A diferença:
Fora, vagar e comemoração;
Dentro, apenas o silêncio
E a eternidade.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: sexta-feira, 27 de outubro de 2006, 18:27.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

Impertubabilidade

A vida que se gasta como
A linha de um carretel.
O problema que acontece do
Outro lado da esquina não é
Sentido do lado de cá.
Impressionamo-nos com o baque
Surdo da queda.
Alvoroçamo-nos porque habitua-se
Fácil aos fatos fantásticos.
Acontece a correria como motivo para
Satisfação da curiosidade.
Após está satisfeito,
A vida pode sar continuidade ao
Seu fluxo imperturbável.
Todos os dias há quedas.
Mas o outro, também, está
Imperturbável.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 25/12/2005, domingo, Goiânia-GO, 10:04:20 AM

terça-feira, dezembro 09, 2008

Coisas IX

Ser-me-ia interessante aprender sobre as coisas
Do céu, da terra e do ar.
Nesta tarde chuvosa na minha alma.
Parece que tudo está impregnado de umidade.
A vida está úmida, sensível, romantizada.
As desolações dos homens são sonhos desfeitos,
Mal apalpados, mal fecundados pelo ventre
Grávido da vida.
O que é você? Já parou para perguntar.
Seja claro com você e talvez não tenha
Uma resposta satisfatória e de confiança.
O meu mundo não é o teu mundo, por isso
Não chove com tanta freqüência e intensidade.
As brochuras que nos dão para estudar não tem
Todas as coisas necessárias para se viver bem.
É aí que temos que achar sozinhos as respostas satisfatórias
E que nos conduza por esta vida tão inopinada.
A vida é sonho! Acredite.
A diferença entre o pesadelo e o encanto está na forma
Que você ver as coisas.
Eu vejo castelos de areia que são roídos pelo
Vento implacável da tempestade que sai do mar da vida.
Apenas entendo que enxergar tempestade é ser fiel
À vocação a que somos chamados.
Mas também vejo um jardim com borboletas que
Voam e levam o pólen que fecundará outras flores
De alegria que brotam neste solo fértil que está
Sob nós.
A diferença está apenas no olhar as coisas.
E, agora, o que você está vendo?

Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 24/10/2003 11:57:56, sexta-feira.

sábado, novembro 29, 2008

Quase diário I

É quase distante o som das vozes que ouço.
O que dizem?
Não dizem. Não falam da excelência da vida.
É o centro das expectativas e o retorno do terno que
Me emociona.
O fato é que existem dias nesta vida que o estranho é quase diário.
É quase diário o meu lema.
É distante. É completo. É vago.
É uma imensa distância inamovível que tenho de percorrer.
O dilema é que têm dias em que as regiões assumidamente
Serenas transformam-se em centros ciclonais.
É uma nova manhã que come e vomita os teus desejos.
É o lapso friorento do desânimo.
Eu já nem sei quem sou, vida.
É quase diário as horas nuas e incompreensivas da vida, vida.
É o teu melífluo , transparente enigma, que me arrebate.
Tu me chamas a ti.
Vou.
É o não-revelado que me abisma.
O revelado é apenas fachada.
Não é o que de fato conclui-se como verdade inescusável.
Estou cansado desta farsa,
Destes hábitos mal-cosidos, mal-cozinhados.
O que me dizes?
Tenho todos os sentidos ao passo que sou pobre.
É quase diariamente que tenho que aprender a ser comigo mesmo.
O que entendes disso?
Não entendes.
Não atentastes para essas palavras carregadas, acendradas.
Ouça, ouves?
Eu estou tentado te dizer que sou diário, sou quase diário,
Porque nos outros dias eu cismo em negar o que sou.
Mas em outros eu tenho que assumir o que vivo,
Porque sou histórico.
Sou homem, sou animal, sou diário.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque
Data: 18/3/2004 09:03:56, quinta-feira.

terça-feira, novembro 25, 2008

Coisas V

Estou tremendamente abalado nas bases

Que sustentam o mundo do meu ser.

Alguém disse que temos que

Está atentos para o brotar do novo na vida.

Mas o vazio, a tristeza e agonia circulam na órbita

Desarmônica do meu coração.

São entes satélites.

Eu só queria está mais atento para prestar atenção

A esses reveses desordenados.

São convulsões trépidas.

São descontínuos nervosismos que germinam

Em sinal de ânsia e solidão.

Talvez seja aquele rosto anêmico que está se

Escondendo por trás daqueles móveis velhos

Lá naquela sala isolado num canto da minha alma.

São apenas coisas sem brilho ou sem graça,

Talvez a ponta deste istmo continental, sem barreiras,

Sem fronteiras ou sem qualquer delimitação aparente.

Eu apenas me seguro nos fiapos de alegria que são

Tão tênues, tão incipientes.

Pareço estar na ante-sala que me leva a algum lugar.

Talvez este lugar não tenha fundo, não tenha paredes

Separatórias ou termo.

São apenas palavras que evocam algumas coisas.

Apenas coisas que não sei dá nome ou classificar

Com termos humanos e científicos.

Apenas os sinto, apenas o vivo, apenas sou eu,

Por isso, sinto coisas.

Meu momento é especial porque não sei

Identifico-me entre as infinitas e ínfimas

Criaturas do cosmo.

Eu sou apenas mais uma criatura neste mundo.

Insignificante e desprezível em relação ao

Universo de tamanho impensável.

Mas tenho sentidos e ouço um noturno

De Chopin e por isso sinto coisas.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque

Data: 30/7/2003 09:00:33, quarta-feira.

sexta-feira, novembro 21, 2008

Coisas III

Existe uma ponte sobre um vasto rio de águas escuras.

Não consigo ver minha imagem refletida sobre estas águas.

Quem dera todas as dores que surgem em nós,

proferissem em tom audível para quê vieram.

Quem dera estas vozes ininteligíveis, se tornassem claras

E audíveis.

Quem dera esta ponte pênsil me levasse ao outro lado

Do rio.

Não leva.

“Quem dera que as coisas simples fossem vistas como as

Mais importantes”.

Não compreendo.

Para quê entender?!

As águas seguem marulhosas, silenciosas, constantes.

Agitam-se, mas não dizem nada.

Há um céu azul sobre a minha cabeça.

Lá existem vozes que não são ouvidas,

Mas são compreendidas.

É para lá que devo ir.

Se viver é angustiar-se, quero viver para alegrar-me.

É para o céu que recorrerei.

As vozes do rio não são ouvidas

E ainda são como grandes arrancadoras de controle

Do que eu sou e do que pretendo ser.

O rio que vejo é turvo, negro e silencioso,

mas o céu que espero é cheio de surpresas

e eternidade.


Por Carlos Antônio M. Albuquerque.

Data: 26/6/2003 08:31:19, quinta-feira.

terça-feira, novembro 18, 2008

O efeito das palavras

Palavras, apenas palavras

Passionalidade

Honestidade

Tentativa de acerto

Grandes atropelos.

Palavras pungentes.

Da força de um raio.

Brilho revoluteante.

Assensos.

Dissensos...

Tento mostrar-me...

Expor-me com toda

A minha feiúra.

Assusto-te...

Não cedes...

Tuas palavras...

Apenas palavras.

Já tentei outras vezes

Desaturdir-me.

Renitência...

As horas que passam.

Inocência?

Há alguma?

Tudo um show de cruezas

Paciência como elemento

Das horas nuas.

Angústia e tristeza surgidas

Com potência infinita.

Palavras, apenas as tuas palavras.

Aposto nas melhores intenções.

Crueza nos fatos,

Danação nos gestos dos sentidos.

Pareço-me incompreendido.

Mas pareço, também, não compreender.

Às vezes acho-te tão dura,

Parece-me que enxergas a

Vida apenas com os teus olhos,

Apenas com as tuas intenções.

Já se faz tarde!

As palavras brotam,

Apenas palavras.

O desejo de estar perto de ti,

Confundido com tuas

Palavras acerbas, azedas,

doces, agridoces.

Apenas palavras!


Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque

Data: domingo, 18 de novembro de 2007, 17:18:03.

quinta-feira, novembro 13, 2008

Uma Oração

Minha boca pronunciou e pronunciará, milhares de vezes e nos dois idiomas que me são íntimos, o pai-nosso, mas só em parte o entendo. Hoje de manhã, dia primeiro de julho de 1969, quero tentar uma oração que seja pessoal, não herdada. Sei que se trata de uma tarefa que exige uma sinceridade mais que humana. É evidente, em primeiro lugar, que me está vedado pedir. Pedir que não anoiteçam meus olhos seria loucura; sei de milhares de pessoas que vêem e que não são particularmente felizes, justas ou sábias. O processo do tempo é uma trama de efeitos e causas, de sorte que pedir qualquer mercê, por ínfima que seja, é pedir que se rompa um elo dessa trama de ferro, é pedir que já se tenha rompido. Ninguém merece tal milagre. Não posso suplicar que meus erros me sejam perdoados; o perdão é um ato alheio e só eu posso salvar-me. O perdão purifica o ofendido, não o ofensor, a quem quase não afeta. A liberdade de meu arbítrio é talvez ilusória, mas posso dar ou sonhar que dou. Posso dar a coragem, que não tenho; posso dar a esperança, que não está em mim; posso ensinar a vontade de aprender o que pouco sei ou entrevejo. Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia-noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu de meus lábios. O restante não me importa; espero que o esquecimento não demore. Desconhecemos os desígnios do universo, mas sabemos que raciocinar com lucidez e agir com justiça é ajudar esses desígnios, que não nos serão revelados.

Quero morrer completamente; quero morrer com este companheiro, meu corpo.

Por Jorge Luis Borges



Borges nasceu em 1899 na cidade de Buenos Aires, capital da Argentina e faleceu em Genebra, no ano de 1986. É considerado o maior poeta argentino de todos os tempos e é, sem dúvida, um dos mais importantes escritores da literatura mundial.

O poema acima foi extraído do livro "Elogio da Sombra", Editora Globo - Porto Alegre, 2001, pág. 75 (tradução: Carlos Nejar e Alfredo Jacques; revisão da tradução: Maria Carolina de Araújo e Jorge Schwartz).