domingo, agosto 14, 2011

A beleza eterna que se mostra no efêmero

Escrito há mais de dois anos.

Nasci na zona rural. Isso é o suficiente para me deixar feliz. Acredito que hoje não há mais infâncias como a que tive no estado de Pernambuco. Cresci em meio a histórias e acontecimentos grandiosos. Estes foram responsáveis pela formação da camada existencial mais profunda da minha alma. Corri descalço, brinquei com a terra, nadei em riachos de águas cristalinas; deitei-me em gestos abandonados na gramínea seca a olhar para o céu. Ouvi o som da tempestade titânica nos canaviais impelidos pelo vento poderoso de uma tarde de inverno. Fui como o personagem de O Menino de Engenho, de José Lins do Rêgo. Subi em jaqueiras, mangueiras, ingazeiros, abacateiros e jenipapeiros; impressionei-me com novidades. Há expectativas fabulosas no meu mundo que não foram preenchidas e me levam uma vez ou outra a imaginar os meus dias de infância.Vez ou outra sou surpreendido por visões e acontecimentos daqueles dias.

Esperava com certa ânsia o período de floração das árvores frutíferas. O cheiro que recendia dos laranjais me fascinava. O cheiro das mangueiras floridas, dos ingazeiros, impingiam mistérios. Das mangueiras também. Vivia cercado por uma natureza enunciativa. Todavia, não devo deixar de mencionar que um dos fatos mais singulares era quando se dava a floração do pau d’arco. As matas distantes, que se mostravam ao longe com suas manchas amarelas, roxas e brancas, eram vizinhos amistosos que moravam na amplidão. Via-os longe. Manchas coloridas em meio à vegetação verde das matas. Os pau d’arcos sinalizavam poderes imateriais. A sua floração era acompanhada por toda uma transformação natural. Na época da floração, lagartos, pássaros e insetos tornam-se moradores de suas copas floridas – completamente floridas. Esta árvore é típica da Mata Atlântica. Ela pode ser encontrada na maioria dos estados litorâneos brasileiros.

Sem querer eu estava estabelecendo contato com o ipê, uma das árvores mais belas da vegetação nacional. O ipê é uma árvore simbolicamente poética. A sua floração silenciosa revela um ato superior. As suas flores surgem no inverno. Em Brasília, a floração se dá entre os meses de julho e agosto. Rubem Alves afirma que o surgimento das flores é um ato libidinoso: “As outras árvores fazem o que é normal - abrem-se para o amor na primavera, quando o clima é ameno e o verão está para chegar, com seu calor e chuvas. O ipê faz amor justo quando o inverno chega, e a sua copa florida é uma despudorada e triunfante exaltação do cio”. A vida apressada nos desarticula a percepção. Quando menos atentamos, lá está com toda superioridade a árvore completamente tomada pelas flores. As flores despojam-se rapidamente dos galhos. Passam o ano inteiro incógnitas como árvores normais, de repente se tornam em entes ornados por uma vestimenta nobre – flores amarelas, roxas, brancas, róseas.

Os ipês carregam consigo um enigma. Por que sua beleza é tão efêmera? Dispenso explicações científicas. Quero as poéticas, quero afirmações como a do poeta cearense Patativa do Assaré, que dizia: “Aquela árvore (...) qual rainha do campo, coroada”. As suas flores não duram mais que uma semana. É como se durante todo o ano ela reunisse as suas seivas e num único momento fizesse desabrochar a beleza oculta em sua matéria. É como se a eternidade passeasse pela terra em poucos instantes e nos fizesse enxergar os aspectos celestes embutidos na natureza. Olhar para um ipê florido antecipa a visão da glória etérea que habita na consciência religiosa da humanidade. A verdadeira religião lida necessariamente com o belo. O belo é o que é e isso define a existência. A realidade é bela. Nietzsche afirmava que a decadência do mundo grego iniciou-se no momento em que a realidade passou a ser analisada, investigada, em juízos de valor – bem e mal. O mal a representar as realidades ditas ruins, e, o bem, aqueles acontecimentos entendidos como positivos, a virtude. Daí para frente, passou-se a atribuir mais importância ao feio do que ao belo. O feio parece ter mais poderosos assombrosos sobre a mente dos homens. Os noticiários da televisão transmitem mais notícias ruins do que boas. Os jornalistas sabem que a matéria mais lida ou vista é aquela que fala de catástrofes e calamidades. Notícias boas não produzem tanto efeito.

É um espetáculo observar o ipê em pose majestática. O que dizer? Quais palavras poderiam classificar a sua beleza e postular: “ele é belo porque é assim e assim”? Não existe essa possibilidade. Os ipês são vocacionados para a beleza. Em meio à selva de pedra os indivíduos passam apressados e não se dão conta da sinfonia colorida que desabrochou em ornamentou a paisagem artificial. A única atitude que podemos de fato empreender é parar, observar, refletir e contemplar. Rubem Alves ainda diz que aqueles que param para contemplar a beleza dos ipês podem ser considerados como loucos: “Lembro-me disso todas as manhãs, pois na minha caminhada para o trabalho passo por um ipê rosa florido. A beleza é tão grande que fico ali parado, olhando sua copa contra o céu azul. E imagino que os outros, encerrados em suas pequenas bolhas metálicas rodantes, em busca de um destino, devem imaginar que não funciono bem”.

Para se apropriar da beleza eterna que se mostra no efêmero é necessário silêncio e solidão. É preciso desprender-se do concreto e do asfalto. Trata-se do mesmo ritual sugerido por Gilberto Gil na música “Se eu quiser falar com Deus”. Dizia Gil que era necessário tirar os sapatos, ficar sozinho, entrar no quarto, ficar em silêncio. Para ouvir o belo sugerido nos ipês é preciso esse mesmo ritual. Em nossos dias essa tarefa torna-se cada vez mais complexa. Todavia, os ipês ainda enchem-se para nos advertir que na frugalidade da sua floração, o eterno passeia pela terra nas cores alegres que brotam da beleza natural. Termino com as palavras de Rubem Alves: “Corra o risco de ser considerado louco: vá visitar os ipês. E diga-lhes que eles tornam o seu mundo mais belo. Eles nem o ouvirão e não responderão. Estão muito ocupados com o tempo de amar, que é tão curto. Quem sabe acontecerá com você o que aconteceu com Moisés, e sentirá que ali resplandece a glória divina...”.

Por Carlos Antônio Maximino de Albuquerque
Data: 27 e 29 de agosto de 2008, quarta e sexta-feira.

terça-feira, agosto 09, 2011

Reflexões natalícias II - quando se olha para trás e se aprende que viver é agora

O filósofo dinarmarquês Soren Kierkegaard disse certa vez que "vivemos a nossa vida para frente, mas a entendemos quando olhamos para trás". Por outro lado, temos aquela metáfora bíblica sobre a mulher de Ló. Diz a Bíblia que a cidade de Sodoma e Gomorra seria destruída por Deus por causa da maldade dos seus moradores. Deus pediu que Ló e sua família (que eram os únicos justos da cidade) saíssem do lugar, pois ela seria subtraída, deixaria de existir. Seria queimada com pedras inflamadas que cairiam do céu. Ló e sua família receberam a ordem para que não olhassem para trás. No dia em que aquilo que foi avisado que aconteceria começou a se dar, Ló e sua família iniciaram a fuga da cidade. A mulher de Ló cheia de curiosidade resolveu olhar para trás, talvez, para verificar o que estava acontecendo. Mas, de repente, ela se tornou numa estátua de sal. Quiça esta metáfora tenha por finalidade deixar claro que enquanto o homem caminha não lhe é lícito ou permitido olhar para trás. Quem olha para trás esquece as promessas do presente e as possibilidades de construção do futuro.

Os romanos eram mais criativos. Para lidar com imagem do tempo, eles criaram a pessoa de Janus, o porteiro celestial. Ele era retratado com duas cabeças, representando os términos e os começos, ou seja, passado e futuro. Inlusive, o nome janeiro, primeiro mês ou mês inaugural de cada ano, foi dado em homenagem a esse deus. Mas a frase de Kierkegarrd, filósofo de palavras sábias, introduz em mim uma possibilidade reflexiva. Vivemos para frente, pois o tempo é como uma locomotiva feroz que corre em sua fúria, sem parar, sem se compadecer dos passageiros que leva.

Quando olho para trás, o que vejo? Às vezes, faces de acontecimentos indistintos; em outros momentos, faces de acontecimentos distintos. Os indistintos são aqueles que passaram e que com o tempo vão se apagando. Mas há os distintos, aqueles que tatuaram as suas marcas em mim. Que não tive como escapar de suas influências em meu ser. Outro dia eu estava pensando enquanto caminhava como a cada dia que passa vamos nos tornando num espaço habitado pela saudade. Viver é um constante sentir saudade. Sentir saudade daquilo que foi; das pessoas que já passaram por nós; das experiências que tivemos; do beijo que damos; dos caminhos que cruzamos; daquele vento povoado por fragrâncias. Eu, por exemplo, todos as vezes que sinto cheiro da terra molhada pela chuva, naqueles primeiros instantes em que tudo começa, sou reportado à minha infância.

Eu sou um baú de estético de sensações. Dentro de mim moram as memórias daquilo que o meu corpo já viveu. Sou uma imensa esponja que vai guardando fatos, acontecimentos, eventos. Por isso, enquanto eu viver serei aquilo que aprendi a ser sendo. Heidegger disse certa vez que "o ser humano é aquele não-poder-ficar e também não-poder-sair do lugar". Ou seja, somos aquela indecisão. Aquela expectativa que gera insatisfação com o agora, mas ao mesmo tempo estamos sujeitos à facticidade do nosso tempo que acontece nesse exato momento. Sofre aquele que não consegue celebrar o presente. Certa vez li uma frase curiosa do Rubem Alves: "Cheguei onde estou por caminhos que não planejei". Esta afirmação é uma afirmação de respeito para com a vida. Primeiro, porque leva em conta o aspecto dialético da vida. A vida vai nos tornando aquilo que somos em cada momento do nosso existir. Não nascemos programados e isso é extraordinário. Não caminhamos pela mesma estrada duas vezes. Caminho uma vez, mas quando volto a caminhar a estrada terá mudado e, eu, também. Esse devir dá à vida uma mecânica poética. Segundo, pois é uma afirmação que mostra alguém maduro, que aprendeu a fazer as peguntas certas à vida.

Sofre muito pela vida a fora que faz os questionamentos errados, aprende a sibilar, a produzir garatujas verbais, a balbuciar em demasia, reclamar que nada é. E o Rubem arremata: "Plantei árvores, tive filhos, escrevi livros, tenho muitos amigos e, sobretudo, gosto de brincar. Que mais posso desejar? Se eu pudesse viver novamente a minha vida, eu a viveria como a vivi porque estou feliz onde estou". O lamento é sempre uma força que enfraquece, que debilita, que nos torna murmuradores ressentidos, que não consegue enxergar nada de bom naquilo que já viveu. Nietzsche costumava dizer que feliz é o sujeito que possui memória fraca, pois ele pode viver as mesmas eexperiências como se estas fossem a primeira vez.

Portanto, é preciso aprender a olhar para trás. Não ter medo de olhar para trás como faziam os judeus. Mas saber olhar para trás e enxergar uma vasta planície pedagógica, uma campo de possibilidades que explicam o meu presente e que me conduz a um caminho certo, plano.

Ao completar mais uma ano de vida, sou grato por tudo aquilo que vivi. Pelas pessoas maravilhosas que conheço. Pelas dificuldades que sempre me forçam a aprender a ser mais, querer sempre partir, no dizer de Heidegger. Sou grato pela esposa que tenho. Não fiz planejamentos para muito daquilo que sou e tenho. Agradeço pela minha infância. Pelos dias em que celebrei o barulho e o perfume da chuva; quando pisei descalço no chão pernambucano. Sinto mudanças em meu corpo físico. Está tudo escrito no pergaminho do meu rosto - eu sou a soma de tudo aquilo que vivi - sorrisos de pessoas, abraços, livros que li, músicas que ouvi, conversas que guardei, despedidas, lágrimas que derramei, escolhas que a vida me permitiu fazer. Preciso ser como Janus - olhar para o passado porque ele me forjou, viver o presente como uma dádiva e apostar no futuro, pois é para lá que a vida nos leva.

Que venha a próxima primavera!

segunda-feira, agosto 08, 2011

"O socialismo é uma doutrina triunfante", entrevista com Antonio Candido

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. "O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele", afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

Brasil de Fato – O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Antonio CandidoAntonio Candido – Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado "Literatura e sociedade" que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como "O cortiço" [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Brasil de Fato – Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Antonio CandidoAntonio Candido – Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

Brasil de Fato – O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Antonio Candido – Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

Brasil de Fato – É o que senhor mais gosta?

Antonio Candido – Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

Brasil de Fato – E de qual o senhor mais gosta?

Antonio CandidoAntonio Candido – Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos... Acho que já li "São Bernardo" umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: "a tradução matou a obra", então a obra era boa, mas não era grande.

Brasil de Fato – Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

Antonio Candido – É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. "A divina comédia" é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

Brasil de Fato – O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Antonio CandidoAntonio Candido – Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

Brasil de Fato – O senhor acha que vai?

Antonio Candido – Não sei. Eu não tenho nem computador... as pessoas me perguntam: qual é o seu... como chama?

Brasil de Fato – E-mail?

Anyonio CandidoAntonio Candido – Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas... Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos... que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

Brasil de Fato – E o que o senhor lê hoje em dia?

Antonio Candido – Eu releio. História, um pouco de política... mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

Brasil de Fato – O senhor é socialista?

Antonio CandidoAntonio Candido – Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo... tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: "o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana". O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na "Ideologia Alemã": as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias... tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Brasil de Fato – Por quê?

Antonio CandidoAntonio Candido – Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

Brasil de Fato – O socialismo como luta dos trabalhadores?

Antonio Candido – O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Brasil de Fato – Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?ntonio Candido

Antonio Candido – Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola... não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser... o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

Brasil de Fato – O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?Antonio Candido

Antonio Candido – O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando... não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão - e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos... então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

Brasil de Fato – A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Antonio Candido – Conheci em Poços de Caldas... essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: "é melhor ser fascista do que não ter ideologia". Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

Brasil de Fato – E o dever da atual geração?

Antonio Candido – Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

Brasil de Fato – No seu livro "Os parceiros do Rio Bonito" o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Antonio CandidoAntonio Candido – Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia... Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: "ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?". Eu disse pra ele: "não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra". Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria... Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: "mas é claro que não vende, o carro não acaba". O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro "Os Parceiros do Rio Bonito", em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

[Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.]

DAQUI

sexta-feira, agosto 05, 2011

Dawkins e a Religião,(" a raiz de todo mal")

Há alguns dias atrás assistir ao documentário instigante A Raiz de todo mal do cientista inglês Richad Dawkins. Certamente, Dawkins é um dos nomes mais controvertidos do nossos dias. Figura polêmica, é odiado por religiosos do mundo inteiro. O inglês estriba suas concepções na ciência. É uma neodarwinista. A Raiz de todo mal é um documentário que tem a finalidade de polemizar acerca de Deus e da fé. Por que as pessoas creem? Em qual fundamento elas assentam as suas convicções? E, de fato, crer é uma aventura. Impera o silêncio cosmos. A facticidade da história não nos dá certezas. À nossa frente, apenas as leis naturais e os seus dogmas incontestáveis. Então o crente coloca-se à frente dos silêncios infinitos e diz ouvir ruídos divinos ininteligíveis. Crer é posicionar-se à frente dos silêncios e apostar que existe uma voz que verbaliza na eternidade.

Dawkins na tentativa de entender esse mistério, viaja por comunidades católicas, evengélicas, judaicas e islâmicas em busca de respostas. Sua posição é de observador e questionador. O ponto alto dessas visitas se dá em dois momentos: (1) quando Dawkins tenta conversar com um bem-sucedido ministro evangélico americano. A conversa assume posições conflitantes. (2) Quando Dawkins tenta dialogar com um fundamentalista islâmico. O discurso virulento do crente islâmico enxota o professor Dawkins. A seguir, duas citações Dawkins acerca da ciência e da religião:

"Ciência é uma disciplina de investigação e de dúvida construtiva, que busca com lógica, evidências e razão para elaborar conclusões. Fé, ao contrário, exige uma real suspensão da nossa capacidade crítica".

"A ciência funciona através do estabelecimento de hipóteses, ideias ou modelos e aí tenta-se desmenti-las. Então o cientista está sempre fazendo perguntas, sendo cético. A religião se resume em tornar uma crença não testada em uma verdade imutável, através do poder de algumas instituições e o passar dos tempos".

Dawkins dialogando com o pastor evangelico Ted Haggard, conselheiro do ex-presidente Bush:



Dawkins conversando com o islâmico Yousef Al-Khattab:

quinta-feira, julho 28, 2011

Morre aos 90 anos o teólogo inglês John Stott

Fiquei sabendo, no dia de ontem, que o teólogo inglês John Stott, um dos grandes nomes da teologia ortodoxa do século XX, faleceu aos 90 anos. Senti-me despertado a escrever algumas magras linhas em homenagem ao ilustre capelão da rainha da Inglaterra. Recordo-me que nos anos do meu "sono dogmático" - para lembrar Kant -, a saber os anos em que estudei teologia num seminário evangélico de confissão reformada e calvinista, Stott foi um dos nomes que mais li. E tal lembrança me instiga a trazer à memória os bons momentos em que estive com ele. Apesar de atualmente as minhas inclinações com relação a teologia passar por um revisionismo de cunho filósofico do entedimento da fé, ainda possuo em minha biblioteca alguns livros do teólogo anglicano - por exemplo, A Cruz de Cristo, Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, Crer é também pensar, Batismo e Plenitude no Espírito Santo; comentários sobre as cartas de Paulo aos Romanos, aos Galátas e as cartas de Paulo a Timóteo.

Enquanto estive no seminário alguns livros de Stott exerceram uma profunda influência nas minhas atitudes e no modo como eu passei a enteder a Bíblia. Recordo-me que a leitura de Contracultura - Estudos no Sermão do Monte trouxe uma espécie de idílio de caridade. Outras obras como Crer é também pensar(um despertar ao bom senso); A Cruz de Cristo (de um denso conteúdo teológico); Eu creio na Pregação (um livro para fazer queimar o coração); Cristianismo Básico (de um idealismo cristão impressionante e desafiante); Ouça o Espírito, Ouça o Mundo (uma reflexão sobre os pressupostos básicos da fé cristã à frente de um mundo que perdeu o referenciais de "verdade", segundo o autor); e outros foram livros que exerceram uma forte influência em mim.

Eu sabia que ler Stott era ser remetido a uma perspectiva de coerência e objetividade. Foi isso que me atraiu ao seu estilo. Dos vários teólogos que já li, Sott era um daqueles que sabia ser convincente pela didática que utilizava. Seu estilo não era afetado. Unia objetividade, clareza e erudição. Achava curioso como ele conseguia escrever com tanto balisamento e tanta profundidade de uma forma completamente simples. Até hoje quando estou lendo, resumindo ou desenvolvendo ideias, procuro estruturar os meus argumentos com aquele senso didático tão peculiar ao teólogo inglês.

John Stott lia e estuda muito. Para saber o que sabia e conhecer o que conhecia, era necessário que tivesse uma vida repleta do exercício intelectual. Certa vez li em um dos seus livros (A Verdade do Evangelho?) que o teólogo lia mais de 50 livros por ano. Aquilo ficou em minha memória. Passou a ser um desafio. Como alguém como ele, com tantos compromissos conseguia ler e eu não conseguia? Desde então, todas as vezes que vou ler algum livro lembro dessa matémática de Stott. Buscamos aprender para sermos simplíces, humildes e objetivos como John Stott.

Descanse em paz, professor!

domingo, julho 24, 2011

Afirmar a vida - sempre!

Estou lendo um livro que tem me surpreendido desde a primeira página pelo nível de abrangência - Heidegger - um mestre da Alemanha entre o bem e o mal, de Rüdiger Safranki. Dizem os entendidos que este é um dos grandes livros que já foram escritos sobre o filósofo alemão. No capítulo 3 (A intuição leva ao coração do mundo), Safranki constrói um belo cenário sobre a "filosofia da vida" que se impunha desde Nietszche e que encontra em Bergson e Dilthey ressonâncias respeitáveis. A filosofia de afirmação da vida não foi abraçada por Heidegger desde a sua juventude. No início, o jovem estudante simpatizara com os escolásticos por mera convenção ao momento em que vivia. Husserl o libertou do "sono dogmático". O realismo filósofico era um desafio àqueles que buscavam extrair do ser as paisagens que chamam à vida. Achei sensacional a citação que Safranki faz de Scheler. Transcrevo um dos parágrafos da página 84:

"Com Heidegger ainda não se sente nada daquela sensação de irrupção que Max Scheler expressa em sua Tentativa de uma Filosofia da Vida[Max Scheler] escrita naquela época. Uma 'transformação da concepção do mundo', escreve Scheler, ocorre diante de nosso olhos: 'Ela será como o primeiro passo de alguém que anos a fio esteve numa prisão escura, para um jardim florido. E essa prisão será o nosso ambiente humano com sua civilização, cercado pela razão meramente mecânica e mecanizável. E aquele jardim há de ser o mundo colorido de Deus, que nós - mesmo que ainda longe - vemos abrir-se para nós e nos saudar, luminoso. E aquele prisioneiro será o homem europeu de hoje e ontem, que caminha gemendo e suspirando sob a carga de seus próprios mecanismos, e que, tendo na visão só a terra e peso no corpo, equeceu o seu Deus e o seu mundo".

P. S. Acima de tudo poética esta descrição de Max Scheler.

Goiânia - GO.

terça-feira, julho 19, 2011

Ágora – mais um belo filme espanhol

Os espanhóis voltaram a fazer um bom filme - Ágora – do diretor Alejandro Amenábar, tendo como protagonista a bela Rachel Weisz que faz o papel de Hypatias, filósofa neoplatônica do primeiro século depois de Cristo. A ágora para os gregos era o local onde a vida pública propriamente dita acontecia. Nesse sentido, o filme possui uma fotografia incrível. As descrições históricas impressionam. Retrata com fidelidade os fatos atinentes à vida e ao contexto político e social da época em que viveu a bela pensadora.

Os séculos IV e V d.C. foram extraordinariamente conturbados. Uma crença tomava de conta de todos os setores da vida social. O radicalismo da fé chegava a paroxismos nunca vistos. Os cristãos que haviam sido perseguidos, transformados em mártires, reverteram o quadro histórico e conseguiram fazer com que o Estado Romano tolerasse a sua fé. O imperador Teodósio (347-395 d.C) havia se convertido ao cristianismo. A fé que não a cristã não era aceita por aqueles que se diziam discípulos de Jesus Cristo. O culto aos deuses greco-romanos passou ser intolerado. Houve assim a institucionalização do radicalismo.

É nesse contexto tumultuado que vive Hypatias, filha do filósofo Theon, em Alexandria. É professora arguta. Segundo os historiadores, sucedeu o eminente filósofo Plotino, conhecido pelo seu neoplatonismo. É uma jovem sábia, de inteligência inquieta. Quando inquirida certa vez por qual motivo ainda não havia casado, respondeu peremptoriamente: “Estou casada com a verdade da filosofia”. Alexandria ficou mais conhecida na Antiguidade pela bela biblioteca que a cidade abrigava. Para outros, tal biblioteca nunca existiu. Seus aspectos faraônicos, dessa forma, não passam de uma lenda. Mas o fato é que existia em Alexandria uma tradição pelos livros – papiros. Inúmeros papiros são a companhia benquista da jovem pensadora.

Mas aos poucos, os cristãos entram em conflito com os não-cristãos. Os cristãos vão se estabelecendo. Arrostando. Subjugando pela força da espada. A figura de Cirilo de Alexandria, discípulo do bispo Teófilo, é fundamental. Cirilo exala intransigência. Ele é conhecido por fazer triunfar o cabedal temporal da Igreja sobre o espiritual. Se a Igreja Católica é essa potestade histórica, certamente Cirilo contribuiu para isso. Segundo Cirilo, fora da Igreja, a Grande Mãe, não havia salvação. Tal entendimento prevaleceu na história, fazendo da Santa Sé, em dados momentos, um “monstro manco”, capaz de estabelecer, pela sua posição, relações espúrias com o mundo e aquinhoar os homens com castigos e medos infundados. Mais tarde Cirilo foi transformado em doutor da Igreja.

A intemperança e o domínio da força fez com que os cristãos subjugassem Alexandria. Orestes, o prefeito da cidade, amigo da filósofa, acaba sendo vergado à vontade de Cirilo. Trata-se de um belo símbolo – ou seja, da Igreja dobrando o Estado, submetendo o mundo á sua vontade caprichosa. Hypatias fica sozinha. É acusada de ateísmo. Chamam-na de bruxa. Prostituta. Acusam-na com os motivos mais vis. A filósofa mostra-se até fim com total integridade. Não há dolo em suas ações. Age com virtude e com a intuição da verdade. Ama o saber – e ama-o até o fim. Conforme o filme, após ter dispensado a escolta de soldados romanos é apanhada por cristãos enquanto caminhava pela rua, como uma pessoa comum. Segundo a História, foi conduzida para o interior de um templo cristão e lá foi morta a pedradas. Seu corpo, logo em seguida, foi estilhaçado com cacos de conchas do mar. Fizeram-na em pedaços. Hypatias foi morta pela intolerância.

O filme Ágora deixa-nos a lição de que a irracionalidade pode subjulgar o bom senso. E, uma vez que isso ocorra, as conseqüências são danosas. Hypatias percebia incoerências no sistema ptolomaico. Ela percebeu que o sol era o centro do universo, sendo assim uma das primeiras cientistas da história a observar esse fato. Somente depois de 1200 anos é que se Nicolau Copérnico voltaria a estudar esse evento.

O sistema ptolomaico servia aos interesses da Igreja. Colocava a terra e os homens numa posição de dignidade. Permitia que ilações acerca das intenções de Deus fossem estabelecidas. Foi por causa do sistema ptolomaico que o Mundo Ocidental deixou a luminosidade da Antiguidade Clássica, com possibilidades e intenções científicas, e mergulhou numa noite de mil anos. É preciso assinalar que a Idade Média teve sua beleza, mas foi um tempo no qual a escuridão foi forjada, a ignorância alimentada e teve como resultado o atrofiamento da razão.

Ágora
retrata esse fato com tomadas áreas. Aos poucos a imagem se distancia do ponto geográfico – Alexandria – até que tenhamos o Planeta Terra. Sua dimensão. Grandiosidade. E o silêncio do Universo. Os homens são movidos, direcionados, por impulsos de credulidade, mas há apenas o silêncio dos espaços infinitos. A imagem se coaduna com a agonia existencial de Pascal: “Esses espaços infinitos me apavoram”. A grandiosidade do homem na terra é apenas aparente. A dignidade do sistema ptolomaico conferia apenas uma casca de orgulho premeditado. A terra era/é apenas mais um astro sem luz própria, girando em torno de uma estrela de quinta grandeza, numa costela afastada de uma galáxia. Só existem verdades para os homens. Recordo-me de alguns belos versos de Alberto Caieiro:

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?


"Constituição íntima das cousas"...
"Sentido íntimo do Universo"...
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em cousas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.


O papel da religião deve
ser outro. Não abafar a voz da ciência. Deve, por sua vez, debater e apregoar virtudes. E não oferecer óbices à razão. Afinal, se Deus é o criador dos cosmos e deu inteligência ao homem, a criatura capaz de ter consciência de que está consciente, este deve utilizar a consciência de si para se situar no mundo. Quando a religião obstacula essa possibilidade, surgem os radicalismos, as fogueiras da inquisição, as trevas e o conseqüente assalto à capacidade humana.

O filme deixa transparecer, de maneira metafórica, que a morte de Hypatias, a filósofa independente, não vendida aos caprichos da Igreja, é o própria sepultamento da razão cientifica e da liberdade do pensar filosófico. Ou seja, a religião matou a razão e a consequência foi mil anos de uma escuridão úmida e pegajosa. A luz do inquirimento viria a brilhar novamente com o Renascimento.

Data: 13 e 16/11/2010, sábado e terça-feira

sexta-feira, julho 15, 2011

A festa de Babette e a poética da alegria

Ontem à noite eu tive uma experiência curiosa. Vi ao filme A festa de Babette. Trata-se de um filme dinamarquês do final da década de oitenta. Era um projeto antigo, mas que somente ontem eu consegui realizá-lo. Resultado: a experiência foi melhor do que toda expectativa que alimentei durante esse tempo. É como naquela frase de O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry: "Quando você diz que vem às 4 da tarde, eu começo a me alegrar desde às 3" - estou citando a frase de cabeça.

O filme é uma experiência estética prazerosa. Sua mensagem é uma metáfora cristã. Mas nem por isso impede que aqueles que são alheios à fé cristã não possam se alegrar com ele. O livro de Apocalipse diz que um dia o Cordeiro, Cristo, sentar-se-á com todos os povos em torno de uma mesa. Todos serão convidados para aquilo que a Bíblia chama de "As Bodas do Cordeiro". Diante da mesa as diferenças serão suplantadas. Todos os povos, etnias e nações falarão a mesma língua. Talvez isso queira significar o elemento de igualdade, como sacramento da fé. Afinal, a religião em grande parte é um sonho da mente humana. Uma semente de esperança que é lançada no chão da história. Viver num mundo de desigualdades e injustiças levou os homens a formularem esquemas espirituais, sonhos ideais num outro mundo.

A festa de Babette celebra a possibilidade da igualdade em torno da mesa. Num pequeno vilarejo, em pleno século XIX, as fofocas, intrigas e desentendimentos grassam por todos os lados. Mas, em determinado dia, Babette a cozinheira que possui poderes mágicos, a artista que é talentosa consegue criar beleza. Sua imaginação é cheia de sabores. Esses sabores antes de serem transportados para os pratos que são preparados, já existem em sua mente. Babette é uma alquimista que metamorfoseia possibilidades com o espelho de sua consciência. Edifica pratos que são obras de arte. Todos estão à mesa. Sentados. Todos os convivas já são avançados em idade. Calejados pela vida. Envergados pelo peso da prostração física. Mas os sentidos, portais que nos fazem ver, experimentar, sentir o mundo, ainda estão vivos. E é por essa via dimensional que Babette inocula o sabor da poesia. Começam a comer e os seus semblantes vão sendo iluminados. Os olhares vão sendo transformados. Vinhos, iguarias; a estética dos pratos são um convite ao prazer. De repente, aquilo que a religião já não era capaz de fazer é feito pelo sabor da culinária.

Ao final, uma cena belíssima enche os olhos. Os velhinhos dão as mãos em dançam uma ciranda como se fossem crianças. Celebram na noite escura, de céu estrelado os efeitos do prazer. Num dos últimos diálogos do filme, Babette diz: "Um artista jamais será pobre". Ela entregara os seus dez mil francos para preparar o jantar. Fora rica, mas decidiu ficar pobre pelo simples prazer da poética da cozinha que pode despertar gestos adormecidos. Assim, como na mensagem cristã, que diz que Cristo entregou tudo o que possuía para que todos fossem enriquecidos e experimentassem a graça (eis aí outra similitude), a alegria de Babette é costurar acertos, transformar sorrisos, nutrir de esperança e gratidão o coração dos homens.

Abaixo segue um pequeno trecho de uma crônica escrita por Rubem Alves para o Correio Popular de Canpinas. Chama-se A festa de Babette:

(...) Quem pensa que a comida só faz matar a fome está redondamente enganado. Comer é muito perigoso. Porque quem cozinha é parente próximo das bruxas e dos magos. Cozinhar é feitiçaria, alquimia. E comer é ser enfeitiçado. Sabia disso Babette, artista que conhecia os segredos de produzir alegria pela comida. Ela sabia que, depois de comer, as pessoas não permanecem as mesmas. Coisas mágicas acontecem. E desconfiavam disso os endurecidos moradores daquela aldeola, que tinham medo de comer do banquete que Babette lhes preparara. Achavam que ela era uma bruxa e que o banquete era um ritual de feitiçaria. No que eles estavam certos. Que era feitiçaria, era mesmo. Só que não do tipo que eles imaginavam. Achavam que Babette iria por suas almas a perder. Não iriam para o céu. De fato, a feitiçaria aconteceu: sopa de tartaruga, cailles au sarcophage, vinhos maravilhosos, o prazer amaciando os sentimentos e pensamentos, as durezas e rugas do corpo sendo alisadas pelo paladar, as máscaras caindo, os rostos endurecidos ficando bonitos pelo riso, in vino veritas... Está tudo no filme A Festa de Babette. Terminado o banquete, já na rua, eles se dão as mãos numa grande roda e cantam como crianças... Perceberam, de repente, que o céu não se encontra depois que se morre. Ele acontece em raros momentos de magia e encantamento, quando a máscara-armadura que cobre o nosso rosto cai e nos tornamos crianças de novo. Bom seria se a magia da Festa de Babette pudesse ser repetida..."

Por Carlos Antônio M. R. Albuquerque

quarta-feira, julho 13, 2011

Rock, uma força que nos faz deitar e rolar - 13 de julho, dia internacional do rock n' roll

Eram os idos de 1992. Meu pai me presenteou com uma fita K-7. Achara o produto em um ônibus. Ouviu mas não gostou. Eu era um garoto de apenas doze anos. Havia uma efervescência no mundo. O rock estava em alta. Havia bandas por todos os lados - Nirvana, Pearl Jam, Metallica, Soundgarden; outras antigas haviam passado por uma revitalização. Era o caso dos Rolling Stones ou o Ramones, que gravaram álbuns consideráveis naquele ano. O Iron Maiden havia gravado uma série de discos. O Rock n' Rio fazia edições cada vez mais suculentas. Trazia as bandas de Seatle; investia em novidades. O Titãs, aqui no Brasil, estava cada vez mais grunge. Outras bandas se destacavam pelo mundo a fora - Red Hot, Faith no More, Alice in Chains etc. Quem lembra de um tal de EMF? Se não lembra, vá ao Youtube e digite You're Unbelievable. Essa música tem a cara dos anos 90.

Na fita a qual o meu pai me presenteou, havia um material do primeiro álbum do Guns n' Roses, Appetite for Destruction, banda que hoje me enfastia. Aquilo me fulminou. Acertou-me de cheio. Fiquei embasbacado com aquele som. Músicas rápidas e de vocal rasgado forjavam cenários de impressões radicais e de puro senso de liberdade. O rock possui em sua essência um ímpeto libertário. É uma música que aguça os sentidos. O lado mais primitivo da psiquê humana. Acompanhei durante muito tempo cena rock internacional. Até hoje não consegui me desvencilhar do contágio. Bandas como Beatles, AC/DC, Led Zeppelin, Deep Purple, Black Sabbath, Rush, Queen, entre outras, ainda falam muito a mim. Surgido no sul dos Estados Unidos, o rock é mais do que um estilo musical, é o manifesto de uma geração. Na década de 60, o Woodstock constituiu uma arma contra a força hegemônica do capitalismo. O protesto consistia em fazer música e amor e não guerra.

Quem gosta de rock certamente já ouviu um ditado: "O rock é imortal. Jamais morrerá". Esta é uma afirmação até certo ponto instigante. O rock já completou 70 décadas. E a cada novo ano se reinventa. Do surfing music ao heavy metal; do punk ao hard rock; do progressivo ao neometal; do doom metal ao trash metal. O rock possui um poder de auto-mutação. O som muda as atitudes daqueles que o escutam. Quem nunca viu um adolescente vestido de negro, com maquiagens aberrantes? Qual foi a força que o impulsionou a vestir-se daquela forma? O som e a rebeldia domesticam.

O rock possui um forte apelo sexual. Sua música é envolvente. As perfomances dos músicos revelam aquilo que foi denominado por Freud de id, ou seja, o lado do desejo, das ânsias, da irracionalidade, dos instintos. Nietzsche chamaria isso de música dionísiaca? O fato é que o rock tem sido e será por muito tempo, uma força rompente. Uma energia vibrante que faz tremer.

Abaixo segue uma apresentação de Chuck Berry no ano de 1958. É curioso como o músico negro, o rock tem a sua origem no sul dos Estados Unidos, é aceito pela platéia de brancos. Numa época de intolerância racial, um negro toca para os brancos. A desenvoltura de Berry impressiona. É a energia vinda do rock. O instrumento que ele toca parece ser uma extensão do corpo. Seus trejeitos sugerem uma força sexual. Sua habilidade é a de um amante, um galanteador inveterado.


sexta-feira, julho 08, 2011

Os Imperdoáveis - mais que imperdoável

Após assisitir a Os Imperdóaveis, ganhador do Oscar de melhor filme de 1992, pela segunda vez fiquei com uma sensação de extravagância. Não no sentido negativo. O filme inteiro é um blues, daqueles bem dramáticos, repletos de sentimento. O vídeo abaixo mostra uma das últimas cenas da obra. Clint Eastwood (diretor e personagem principal da película) é um pistoleiro aposentado. Seu passado é nebuloso, rico em excessos e crueldades. Aposenta-se da pistolagem por causa de uma mulher que o redime. Vive num rancho decadente com dois filhos, numa condição de penúria. A mulher morrera. Mas é balançado pela proposta de mil dólares. Um jovem ("Kid", personagem cômico e fanfarrão) o convoca para a empreitada: matar dois sujeitos que retalharam uma prostituta. William Munny, como é chamado Clint no filme, ainda chama seu amigo Ned, papel feito por Morgan Freeman. O filme é repleto de silêncios e planícies extasiantes. O vento do oeste sopra. As feições de Clint Eastwood de homem cruel são geniais.

Mas o amigo de William Munny é morto de forma implacável. Munny que há muito não bebia, decidiu beber. E aí temos a cena abaixo que é um retrato épico de um excelente western. Clint Eastwodd está impecável no papel de William Munny. Sua abordagem mítica sobre a alma do oeste merece todos os adjetivos possíveis. O diálogo mais extraordinário da cena é quando Munny enuncia para os sujeitos amofinados dentro do bar: "Quem não quiser morrer, saia pela porta dos fundos". Como disse acima, alguém deveria fazer um blues sobre isso.


quinta-feira, julho 07, 2011

A alquimia do desafio

É preciso ser honesto consigo mesmo para admitir determinado evento. A crítica pela crítica fere o bom senso. Nivela e absolutiza. Tomei uma decisão diferente. Aceitei o desafio por entender que agindo dessa forma, estaria em paz com a minha razão. Vamos às explicações:

No dia de otem aceitei a decisão de ler Paulo Coelho. Retrocedi na cadeia evolutiva como devorador de literatura? Não. Trata-se apenas de um dever para comigo mesmo. De um acerto de contas com a minha consciência. A maioria das pessoas que criticam Paulo Coelho, nunca leram nenhuma das suas obras. É uma crítica auricular, baseada em boatos.

Recordo-me neste instante do pesonagem bíblico Jó. Segundo os poemas sagrados, Jó diz, numa conclusão silogística, após ter encontrado o Eterno: "Eu te conhecia só de ouvir falar, mas agora os meus olhos te veem". Claro, Paulo Coelho não é nenhum deus. Mas não deixo de pensar nisso. Conhecer só de ouvir falar é um contrasenso. Gera apenas argumentos fracos, incosistentes.

Não defendo Paulo Coelho, sujeito que não inspira maiores expectativas. Quero lê-lo para não voltar a lê-lo. É o que aconteceu comigo, por exemplo, com relação a Augusto Cury. Observava comentários e críticas a respeito desse psicólogo da auto-ajuda e, após lê-lo, achei-o demasiado artificial. Nunca mais voltei a visitar os seus livros aguados.

Esperemos. Após ler "O Alquimista" determinarei a minha opinião sobre o senhor Coelho.

P.S. Encontro uma informação nas costas do livro, mas ignoro a priori: "Comparado [O Alquimista] a 'O Pequeno Príncipe' de Saint-Exupéry e a 'Fernão Capelo Gaivota', de Richard Bach". Não ignorarei o informe a posteriori. Tecerei a minha opinião definitiva após a leitura. Voltarei a escrever.