sexta-feira, dezembro 23, 2011

O dia do juízo sobre nossa cultura? - Por Leonardo Boff

Extraordinário texto. O Boff é uma poeta com profundo senso profético. Uma voz que merece/deve ser ouvida.

O final do ano oferece a ocasião para um balanço sobre a nossa situação humana neste planeta. O que podemos esperar e que rumo tomará a história? São perguntas preocupantes pois os cenários globais apresentam-se sombrios. Estourou uma crise de magnitude estrutural no coração do sistema econômico-social dominante (Europa e USA), com reflexos sobre o resto do mundo. A Bíblia tem uma categoria recorrente na tradição profética: o dia do juízo se avizinha. É o dia da revelação: a verdade vem à tona e nossos erros e pecados são denunciados como inimigos da vida. Grandes historiadores como Toynbee e von Ranke falam também do juízo sobre inteiras culturas. Estimo que, de fato, estamos face a um juízo global sobre nossa forma de viver na Terra e sobre o tipo de relação para com ela.

Considerando a situação num nível mais profundo que vai além das análises econômicas que predominam nos governos, nas empresas, nos foros mundiais e nos meios de comunicação, notamos, com crescente clareza, a contradição existente entre a lógica de nossa cultura moderna, com sua economia política, seu individualismo e consumismo e entre a lógica dos processos naturais de nosso planeta vivo, a Terra. Elas são incompatíveis. A primeira é competitiva, a segunda, cooperativa. A primeira é excludente; a segunda, includente. A primeira coloca o valor principal no indivíduo, a segunda no bem de todos. A primeira dá centralidade à mercadoria, a segunda, à vida em todas as suas formas. Se nada fizermos, esta incompatibilidade pode nos levar a um gravíssimo impasse.

O que agrava esta incompatibilidade são as premissas subjacentes ao nosso processo social: que podemos crescer ilimitadamente, que os recursos são inesgotáveis e que a prosperidade material e individual nos traz a tão ansiada felicidade. Tais premissas são ilusórias: os recursos são limitados e uma Terra finita não agüenta um projeto infinito. A prosperidade e o individualismo não estão trazendo felicidade; mas, altos níveis de solidão, depressão, violência e suicídio.

Há dois problemas que se entrelaçam e que podem turvar nosso futuro: o aquecimento global e a superpopulação humana. O aquecimento global é um código que engloba os impactos que nossa civilização produz na natureza, ameaçando a sustentabilidade da vida e da Terra. A conseqüência é a emissão de bilhões de toneladas/ano de dióxido de carbono e de metano, 23 vezes mais agressivo que o primeiro. Na medida em que se acelera o degelo do solo congelado da tundra siberiana (permafrost), há o risco, nos próximos decênios, de um aquecimento abrupto de 4-5 graus Celsius, devastando grande parte da vida sobre a Terra. O problema do crescimento da população humana faz com que se explorem mais bens e serviços naturais, se gaste mais energia e se lancem na atmosfera mais gases produtores do aquecimento global.

As estratégias para controlar esta situação ameaçadora praticamente são ignoradas pelos governos e pelos tomadores de decisões. Nosso individualismo arraigado tem impedido que nos encontros da ONU sobre o aquecimento global se tenha chegado a algum consenso. Cada pais vê apenas seu interesse e é cego ao interesse coletivo e ao planeta como um todo. E assim vamos, gaiamente, nos acercando de um abismo.

Mas a mãe de todas as distorções referidas é nosso antropocentrismo, a conviccção de que nós, seres humanos, somos o centro de tudo e que as coisas foram feitas só para nós, esquecidos de nossa completa dependência do que está à nossa volta. Aqui radica nossa destrutividade que nos leva a devastar a natureza para satisfazer nossos desejos.

Faz-se urgente um pouco de humildade e vermo-nos em perspectiva. O universo possui 13,7 bilhões de anos; a Terra, 4,45 bilhões; a vida, 3,8 bilhões; a vida humana, 5-7 milhões; e o homo sapiens cerca de 130-140 mil anos. Portanto, nascemos apenas há alguns minutos, fruto de toda a história anterior. E de sapiens estamos nos tornando demens, ameaçadores de nossos companheiros na comunidade de vida. Chegamos no ápice do processo da evolução não para destruir mas para guardar e cuidar este legado sagrado. Só então o dia do juízo será a revelação de nossa verdade e missão aqui na Terra.

DAQUI


quarta-feira, dezembro 21, 2011

Anticristo, de Lars von Trier

Na última segunda-feira, fui à locadora aqui perto de casa e loquei Anticristo de Lars von Trier. Relutei ao máximo em vê-lo. Adiei o quanto pude a tarefa de assistir à película. Não gosto de filmes de terror nem de suspense. O estresse proporcionado por aquelas cenas tensas; as surpresas que são maquinalmente feitas para chocar o telespectador para mim são cacetes; a taquicardia, ao meu modo de ver, é desnecessária. Mas o filme de Trier me assediou por dois dias. Até que na manhã de hoje, eu resolvi vê-lo em meu notebook. Quis evitar maiores dissabores. E que surpresa me esperava. Descobri que o filme não é um terror. Poderia classicá-lo como um drama com fortes doses de suspense. Mas há apenas a utilização deste último artíficio para causar os efeitos possíveis, desejados pelo diretor.

O filme proporciona uma experiência tão densa que, após tê-lo visto, tenta-se reorganizar o caos mental, a experiência dorida a qual se enfrentou. De certa forma, ainda estou tentando ordenar os vários elementos, ou seja, cada peça que constitui a obra. Trier prende o telespectador, machuca-o, fere-o com cenas de violência, de uma eroticidade acachapante, de uma uma plasticidade quase que desnecessária. Mas como disse, nada no filme é desnecessário.

A príncipio, a história está colocada entre dois espaços, conectados a um "Prólogo" e um "Epílogo", momentos da mais intensa beleza surgida nos últimos tempos no cinema. O "Prólogo" e o "Epílogo" representam os dois espaços lumisos do filme. No intervalo desses dois espaços, está o escuro, o agonizante, o desespero e a depressão (“Luto", "Dor (Caos Reina)", "Desespero (Genocídio)" e "Os Três Mendigos"). Os cinco minutos iniciais do filme é de uma beleza e pureza enlevantes. O casal, representado pelo extraordinário Willem Dafoe e pela extraordinária Charlotte Gainsbourg, está fazendo sexo no banheiro. Trier busca ser realista. Mostra a genitália dos amantes - o pênis penetrando a vagina - talvez para sugerir o natural, o primitivo, a união profunda do homem e da mulher. As cenas se sucedem em câmera lenta. Tudo em preto e branco. Uma ária de Handel (Lascia Ch’io Pianga, com interpretação da soprano norueguesa Tuva Semmingsen) embala as emoções. A água do chuveiro cai. Fora da casa onde o casal está, a névoa despenca do céu em flocos suaves, como se fosse uma farinha celestial. O pequeno filho do casal sai do berço e ver a mãe e o pai realizando o gesto amoroso. Vira as costas. Faz uma cadeira de apoio e sobe até a janela. Brinca com a neve. E despenca. A queda parece ser uma poesia. Os pais não veem a queda do filho. Uma cena do filme, mais à frente, sugere que a mãe viu o filho caindo. Mas nada no filme de Trier é demasiadamente lógico.

Do evento trágico da morte do filho, desencadea-se o sofrimento para o casal. A mãe se ver aturdida pela dor e pelo desespero. É acometida por distúrbios psicológicos. E aqui começa de fato a viagem bíblica e psicanalítica proporcionada pela obra. Os personagens não possuem nome. Estão presente no filme a força do homem (a inteligência), contra o impulso da mulher (a demência). O marido mostra-se no filme como a energia racional, capaz de pensar os processos, de organizar o caos. É quem conduz, do ponto de vista da psicanálise, o tratamento psicológico da esposa. E é curioso o fato do casal se refugiar no interior de uma cabana chamada Éden, no coração de uma floresta. Éden segundo a Bíblia significa "paraíso" ou "jardim das delícias" e foi o local criado por Deus para que nele morasse e vivesse o primeiro casal humano - Adão e Eva. É somente após a queda, acepção bíblica, que a mulher recebe o nome de Eva. Ou seja, antes da queda ela não possuía nome. Já o homem é considerado "o pai de todos os homens" - Adão, do hebraico "adamar" ou "aquele que foi tirado da terra".

Éden, no filme de Trier, é o lugar da tentativa de cura, da busca pelas lembranças prazerosas e remidoras. Mas é em meio à natureza que os medos e reações mais intempestivas da esposa se voluntarizam. Cena curiosa e instigante é aquela que a esposa escuta um choro de uma criança. Ela procura em toda parte, mas não encontra nenhum personagem para protagonizar aquele vagido. De repente, a câmeta foca a netureza. A imensidão é mostrada. É a pópria natureza que chora. Uma agonia cósmica, metafísica, se insinua. A dor, então, é uma faceta natural do cosmos. Uma frase enunciada pelo marido no início do filme parece corroborar com esta ideia: "O sofrimento não é uma doença. É uma reação saudável e natural".

Na floresta, em meio à natureza, os instintos mais tenebrosos da esposa se avivam. Ela um ser frágil, vai adquirindo uma energia animalesca, pornográfica. Sua ânsia por sexo é um retrato curioso. Numa cena, ela atinge o falo do esposo com um objeto e este, com a dor, acaba desmaiando. E o que se sucede até o final é de uma audácia incrível. Numa cena de demasiada crueza, a esposa mutila o próprio clítoris com uma tesoura e tenta matar o marido. O marido como para se libertar da pulsão de destruição da esposa, acaba por enforcá-la e matá-la. Esse ato representa a liberdade. Ele fica livre da dor, da agonia, do selvagem que habita o feminino.

No "Prólogo", após ter matado a esposa: ele caminha cambaleante. Alimenta-se de frutas silvestres. É a harmonia com a natureza. Enquanto caminha, dezenas de fêmeas vêm ao seu encontro. Sobem o monte. O que seria esse monte? O Gólgota? - lugar da crucificação de Cristo. Mas essas mulheres não possuem rosto. E de repente, a película termina e por dois segundos, num fundo escuro, aparecem os dizeres: "Dedicado a Andrei Tarkovski (1932 a 1986)”. Tarkovski, nascido na antiga Uniãpo Soviética, foi um dos maiores diretores da história.

Lars von Trier tem gerado as mais distintas reações com os seus filmes. Polemista, "arengueiro", como se diz no Nordeste do Brasil, o diretor dimarquês tem arrancado uma beleza descomunal de suas obras. Os filmes de Trier possuem o poder de nos fazer pensar por dias. É daquelas obras que encerram efeitos densos. Deixando de lado maiores polêmicas quanto às suas afirmações sobre posicionamento político ou postura pessoal (o diretor se intitulou como o melhor do mundo e, em outro momento, disse admirar Hitler), Trier é um dos nomes mais importantes da arte cinematográfica da atualidade. Incensado por uns, odiado por outros, o diretor alimenta aquele tipo de sentimento que reside em torno dos grandes artistas.

terça-feira, dezembro 20, 2011

Fantoches


"A suprema ironia do capitalismo é que o dominado pensa com a cabeça do dominador". Alberto Tosi Rodrigues.

Algo que me deixa bastante absorto é a existência de uma crítica pesada e injusta com tudo aquilo que se refira a Marx. Na existência dos dualismos, Marx e o marxismo personificam o mal. Até aí tudo bem, pois o alemão cortou com o bisturi da dialética o nervo da história e expôs as relações dos homens - com eles mesmos e com a história. Curioso, é que a maioria daqueles que falam mal de Marx sequer tiveram a curiosidade de ler uma página dos seus escritos, de suas reflexões.

Vivemos uma época de mortícinios - da natureza, das relações dos homens com os homens; do homem como sujeito histórico e da capacidade de se insurgir. Vivemos em uma época de cinismos, de acomodamentos cegos. Somente somos quando temos condições de consumir. Ontem, enquanto assistia aos jornalões da Tv, que mais deformam do que informam, percebi como foi tratado em tom de chacota a morte do líder da Coreia do Norte - King Jong-il. À sua pessoa estava agregada a "pecha" "tirano comunista".Que não se leia aqui uma defesa ao obscurantista King Jong-il. Por sua vez, vi também o anúncio da morte de Vaclav Havel. E algo assim: "A Europa chora!". "Aquele que ajudou, que resistiu à ditadura comunista!" "Que lutou pela democracia no leste europeu".

O que me deixa estarrecido com esse tipo de informação é a capacidade cínica de deixar mensagens subliminares. Tal discurso é criminoso e voluntarista. A mídia arrivista possui um contrato com a imoralidade e com a mentira. É função dela domesticar. "Amansar", "doutrinar", criar uma ideia de pacifidade. Criminaliza-se todo e qualquer esforço dos trabalhadores. Mas não contam verdadeiramente que vivemos sob uma ditadura. Que a nossa liberdade é falsa. Que somos livres apenas para vender a nossa força de trabalho e consumir, resultando numa ciranda que nos dá uma compreensão a-histórica daquilo que de fato somos. Esquecem que a consciência está ligada aos modos materiais de vida, ao intercâmbio econômico entre os homens e que nos deram a mais criminosa de todas as percepções - a ideia de liberdade.

"À medida que o tempo passa a sociedade capitalista se estabiliza, ela é percebida pelas pessoas, na vida cotidiana, como a única sociedade possível. Assim como em outros, a sociedade feudal, por exemplo, foi percebida pelos homens com a única sociedade possível (durante séculos, num intervalo de tempo, aliás, bem maior do que a duração do capitalismo)". Alberto Tosi Rodrigues, Sociologia da Educação, p. 37

E a barbárie toma conta do mundo. Para aonde estamos indo?

domingo, dezembro 18, 2011

Érico Veríssimo, a honestidade da literatura

Ontem, 17 de dezembro de 2011, se vivo, Érico Veríssimo completaria 106 anos de idade. Absurdo alguém viver 106 anos? Não! Dia 15 de dezembro, Oscar Niemeyer completou 104 anos, com margem de voo para mais uns dez! O fato é que Érico era cardíaco e foi isso que fê-lo deixar este mundo em 1975. O escritor é dono de uma obra sólida e respeitada. Recordo-me que ainda era um adolescente quando entrei em contato com a sua literatura. Era um volume de Olhai os Lírios do Campo, um dos seus manifestos humanizantes e políticos.

O livro me deixou com uma visão do belo. Depois vieram outros - O Resto é Silêncio, Clarissa, O prisioneiro, Solo de Clarineta I etc. Existe uma fluência, uma cadência gostosa no estilo do Érico. Para alguns críticos, tal fluência beira o simples, o que resulta numa obra sem profundidade. Embora, a minha opinião não interfira em tal juízo sobre o escritor, discordo plenamente. Obras como a Trilogia de O Tempo e o Vento (que possui mais e duas mil páginas) ou Incidente em Antares, são suficientes para atestar a competência e profundidade de Érico. O crítico é sempre o chato que nada faz e sempre dá pitacos desnecessários para "enlamear" a virtude alheia.

Algo que sempre me chamou a atenção é que a obra de Érico sempre foi atual em sua temática. E por conta desse aspecto relevantíssimo, penso que o Ministério da Educação, as escolas e os professores de Língua Portuguesa e Literatura deveriam enfatizar a importância da obra do gaúcho para as novas gerações. Que os adolescentes ao invés de lerem aquelas mitologias vampirescas sem nexo, com abordagens artificiais, lessem o bom e velho Érico - sempre gentil, sempre amoroso, sempre sensível. Em 2003, após ler sua autografia - Solo de Clarineta - bateu-me um profundo senso de respeito à obra do autor de O Senhor Embaixador. Recordando a sua vida, Érico cita a importância da música de Brahms, Bach e Mozart para a sua existência. O quanto, por exemplo, Brahms lhe fazia bem. Impingia sensações boas, prazerosas.

Em minha biblioteca particular, devo ter mais vinte livros do escritor, algo que muito me orgulho. Em alguns momentos, olho para a trilogia de O Tempo e o Vento e suspiro. Nenhum escritor brasileiro é tão honesto quanto Érico Veríssimo. As mais de 2 mil páginas da trilogia ainda são um grande desafio. Penso em lê-las futuramente. Há livros que são imprescidíveis e que devem ser lidos antes da morte de qualquer indivíduo. Nesta lista encontram-se Os Miseráveis de Victor Hugo, Guerra e Paz de Tolstoi, A Divina Comédia de Dante, Dom Quixote de Cervantes, Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, Os irmãos Karamazov de Dostorivéski, entre tantos outros; e penso que a trologia de O Tempo e o Vento se inscreve necessariamente nesta lista.

Abaixo, indico o texto do literato e profundo conhecedor da obra e de muitos aspectos pessoais da obra de Veríssimo Milton Ribeiro. O texto saiu ontem no site do jornal gaúcho Sul 21. No texto, Milton resslta os aspectos mais importantes da vida do escritor nascido em Cruz Alta.

O vídeo abaixo possui a direção do escritor mineiro Fernando Sabino, que era metido a cineasta. A sua Bem-Te-Vi filmes produziu alguns filmes curiosos, de escritores como Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Vinícius de Morais, entre outros. Sabino também produziu um belo filme sobre Érico Veríssimo. Algumas curiosas caractéristicas podem ser ressaltadas - a música de Brahms (terceiro movimento da Terceira Sinfonia de Brahms), o homem de família - com os netos e com sua esposa Mafalda) e o seu "porão liberdade", como ouvi certa vez o seu filho Luís Fernando dizer que o pai chamava o seu local de trabalho.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Jorge Luis Borges e o labirinto da literatura

A literatura é um caminho de possibilidades infinitas. É uma planície que desemboca no mistério sem fim. O livro de Eclesiastes, filho da sabedoria judaica, diz que "não há limites para se escrever livros". O Google estima que existam mais de 3 trilhões de livros em todo mundo. Uma quantidade quase impensável, absurda. Se colocados lado a lado daria para dar voltas e voltas em torno do mundo. As possibilidades desses livros nos inclinam a mentalizar imaginações surreais, próximas daqueles quadros pintados por Salvador Dali.

E Borges, para nos aturdir, escreveu um conto chamado "Biblioteca de Babel" na qual imagina um universo constituído por livros. Ou seja, uma biblioteca do tamanho do universo, com prateleiras que se sucederiam umas as outras. Ao imaginarmos algo assim, bate-nos o senso de completo o entedimento de algo que fere as regras da lógica. O escritor argentino, na verdade, quis apenas construir uma metáfora, uma espécie de brincadeira com as possibilidades infinitas do texto ou com a possibilidade de criar; ou ainda uma metalinguagem com conhecimentos acumulados pela humanidade até os dias de hoje. O que nos assusta perante este fato é o noção de pequenez diante de estruturas invisíveis. O conhecimento que podemos apreender é finito. E as areias do tempo escorrem de maneira quase que infinitas em nossa percepção finita. Não poderemos ler todos os livros do mundo. Há uma limitação. O bibliófilo José Mindlin morto no ano de 2010, afirmou ter lido em toda a sua vida, algo em tono dos 8 mil títulos. Incrível. Pensando nisso, inquita-nos saber que as bibliotecas estão repletas de trilhas infinitas.

Mas o fato é que Borges é um escritor instigante. Seu texto é uma costura com outros textos falando do seu próprio texto - ou de outros textos. Terminei de ler O Livro de Areia, escrito em 1975. E torna-se curioso como ele brinca com a possibilidade do duplo. Seu texto é uma rede labiríntica, no qual nos perdemos em sensações e em tentativas de definições, de conclusões. Cada conto do livro é um quadro com linhas infinitas que constroem um tecido infinito. A erudição de Borges beira o absurdo. Seu estilo parece incorporar - fica-nos a sensação de paradoxo - de que ele abarcou quase que todos os conhecimentos possíveis. Suas citações, referências, construção de personagem são um passeio pela história - e as areias escorrem numa espécie de ampulheta invisível. Os personagens fictícios possuem uma verossimilhança absurdo com o real como no conto Avelino Arredondo, um dos mais instigantes do livro.

Fiquei pensando no arranjo do livro. O primeiro conto é O outro, conto este que tem sido alvo de teses e artigos acadêmicos. Borges brinca com o leitor. Existe um duplo aturde. Ao final, saímos da experiência nos perguntando: "terá isso sido verdade? É Fantástico!" Mas, o último conto do livro chama-se O Livro de Areia. Neste conto, logo no início achamos a afirmação: "A linha consta de um número infinito de pontos; o plano, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de linhas; o volume, de um número infinito de planos; o hipervolume, de um número infinito de volumes...."

Borges parece escrever uma metalinguagem de sua própria obra, uma espécie de autotexto. Ou em outra abordagem, o escritor argentino parece construir uma metáfora do próprio caráter instável da literatura, pois não sabemos de onde vem esse livro de areia. Essa imagem apenas realça a ideia de labirintos infinitos nos quais nos perdemos neles. Os caminhos nunca são planos ou retos em Borges. Eles sempre nos conduzem para encruzilhadas, para planos justapostos. O espaço da ficção e da realidade é separado por uma película fina, tênue, quase transparente.

Procurarei outro livro de Borges - Ficções - para ler. Por enquanto, ficarei com aquelas cenas pintadas com um realismo mágico; uma ficção poderosa que nos insere num plano de imagens densamente fortes. Em Borges, não sabemos se estamos conhecendo personagens fictícias ou memórias reais.

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Clarice, literatura e mistério - 91 anos

Apesar de já terem passado 4 dias (pois no último dia 10 de dezembro completaram-se 91 do nascimento de Clarice Lispector), não pude me esquivar da tarefa de escrever algumas linhas magras sobre uma das maiores filósofas da literatura brasileira do século XX. A consciência me impulsinou, me fustigou para que desse vida a algumas inquietações sobre essa que é considerada por muitos como uma das maiores escritoras de nosso país de todos os tempos. É um susto ler Clarice. E corroborando com a ideia de susto, Clarice tem permanecido um mistério para críticos e leitores. Há um mundo surdo, silencioso e aterrorizante em seus escritos.

O que dizer de Macábea, potencializadora de teses sobre o indíviduo-nada, mas que encontra a redenção na morte? Ou de G.H, personagem anônima, filha dos grandes centros, constituidora dos aglomerados da burguesia, que vive uma crise de nada ser, mas que parece adquirir uma redenção catártica quando come uma barata, numa metamorfose à la Gregor Samsa (Kafka)? Clarice - repito - é um mistério. Pessoalmente, a escritora era tímida. Sua voz possuía um sotaque enviesado. Nascida na Ucrânia, veio para o Brasil com um ano de idade, fuginfo da perseguição bolchevique contra os judeus (1921). Morou em Maceió e no Recife. Depois se estabeleceu no Rio de Janeiro. Aos poucos se lança pela literatura. Foram mais de 30 anos intensos de escrita - romances, crônicas, cartas, contos, literatura infantil.

A percepção do texto clariceano é terrificante. Ela é a tradutora de uma linguagem incofessável que se esconde nos interstícios do ser - dela mesma e do outro. Diria que Clarice Lispector é a Virgínia Woolf brasileira. Clarice é a dona de casa que vive em meio ao caudal burguês. Criava os filhos, dava ordens à empregada, fazia compras, falava com os amigos ao telefone. Mas, a maior parte do tempo, debruçava-se sobre a máquina de escrever e redigia os seus textos densos dela mesma. É possível conhecê-la por trás do manto de tantos personagens - a maioria deles mulheres. É possível sentir o seu cheiro em cada descrição que faz dos personagens; suas inquietações, sua intimidade escondida por trás da seriedade.

Uma observação que fazemos quando lemos o seu texto é intuição de que ela está à procura da palavra que realizará o personagem. É como se a vida dependesse daquela fala, daquele sentido, daquela semântica para que a existência ganhasse significado. Mas o que se deseja não brota. Está fincado no chão estéril da vida, de onde nada nasce, a não ser o absurdo que se amplifica à medida que a percepção do personagem aumenta. O grito entalado no fundo do ser, a palavra que ribomba e que não quer sair cria uma espécie de mistificação. Em Clarice a palavra sussurra a sua verdade à vida escondida na bruma do cotidiano. Analisando por esse ponto de vista, é uma literatura que pensa e analisa do homem do nosso tempo. O homem urbano, acondicionado, acostumado e domesticado ao enlace diário de repetir comandos e que nunca pensa a respeito de si mesmo.

* Abaixo, o trecho de uma entrevista gravada com ela em 1977. Esta entrevista foi concedida ao jornalista Jaime Lerner. Clarice morreria naquele ano vitimada por um câncer que se alastrou em seu útero. A entrevista nos dá uma visão mais aproximada de quem era a escritora - embora esta estivesse um pouco combalida por causa da doença terrível que lhe roía as estranhas.

sábado, dezembro 10, 2011

“A morte de Deus” e o Natal sem religião

Por Enio Squeff

O poema de Machado de Assis em que ele pergunta se somos nós que mudamos ou se o Natal, parece anteceder a uma questão hoje corrente: a irreligiosidade da sociedade contemporânea. Émile Zola – que foi um dos primeiros críticos a elogiar os pintores impressionistas – achou de chamá-los de “realistas”: eles, de fato, romperam uma tradição do cristianismo, de pintarem o ideal, como seriam as cenas religiosas. Mesmo quando retratavam alguém, não raro, um Rubens, um Delacroix ou mesmo um Ingres, trataram de fazê-lo, tendo como pano de fundo, digamos, uma cena idealizada, ou antes, um fundo nenhum. Foi o que fez Charles Dickens. Em seu famoso conto de Natal (“Christmas Carol”), tratou de pôr fantasmas na mente culpada do empresário que maltrata seu empregado, a partir da descrição de um literal pesadelo.

O espectro, que arrasta correntes pela casa, e que o persegue no meio da noite, é claramente o demônio de sua consciência. Em seu poema, Machado de Assis não fala da questão do consumo que, em seu tempo, era muito precário em comparação com o que se vê hoje em dia. Mas ao detectar uma transformação (“Mudaria o Natal ou mudei eu”?), o escritor projeta a resposta que o mundo deu no futuro: o Natal, em si, já não é uma festa religiosa. Tudo indica que o que mudou foi o Natal.

Talvez a questão resida, de novo, no Papai Noel, um ícone de mentira, que sabemos ser de mentira, e que, por isso mesmo, não passa de um ícore. Na verdade, o personagem não tem nada de religioso: ele atravessa os ares com seu trenó, deixa presentes às crianças, mas não reivindica qualquer ligação com o além. Não é o Cristo da Manjedoura que o envia. Quando muito, talvez, sugira, pelas cores, a Coca-Cola: foi com o refrigerante que o Papai Noel apareceu na forma que tem hoje. O mais é a mistura: os sinos tocam em Belém “para o nosso bem”, etc e tal – mas os personagens da Manjedoura parecem resolutamente secundários, coadjuvantes quase. E para os chamados “crentes” – que na atualidade constituem mais de um terço dos religiosos do país- o Presépio sequer existe. Assim também nas representações públicas. No máximo, temos a parafernália das luzes que se enrolam nas árvores, ou que despencam dos edifícios como um espetáculo feérico – mas que parece ter mais a ver com o neon da publicidade do que com as cenas consagradas pela tradição – aquela que se estreita numa gruta, com o Menino, a Virgem, os pastores vindos ao longe – anjos luminosos, uma estrela guia, e as músicas ressoando desde a estratosfera.

Quando Nietszche disse que Deus estava morto, a reação alcançou todos os setores das religiões; a grita geral atingiu vários níveis e o próprio Nietszche foi anatemizado. Sua constatação, de que as religiões perdiam seus elos com a totalidade dos homens, a começar pela sua posição no Estado, nunca foi contestada pelos fatos. E o alarido que se seguiu a sua conclusão, fez muita gente contabilizar, não só os milagre – como os de Fátima, de Lourdes e outros -, mas todo um elenco de fatos extraordinários, os quais, entretanto, nem de longe parece terem tido o condão de ressuscitar Deus.

Evidentemente, existem os religiosos: o Papa ainda reza a Missa do Galo, os crentes em suas denominação cada vez mais numerosas (a contar pelo número de pastores “empreendedoristas”), continuam a erguer seus braços na saudação a Cristo Jesus e em seus “aleluias”. Algumas igrejas católicas esplendem em cores e luzes. Além do mais, há o islamismo. Dizer que Maomé já não tem Deus para ser seu último profeta, parece desconsiderar uma religião que cresceu desmesuradamente nos últimos anos, a ponto de os islâmicos serem, no mundo atual, em números, uma comunidade muito maior que a cristã. De fato, há aspectos de guerra religiosa na resposta que muitos muçulmanos dão às bombas dos EUA e da Otan, que negam, em princípio, a morte de Deus. No entanto, pode-se objetar que, ainda assim, soa inclusive para muitos seguidores do Profeta, quase uma regressão conceber a organização das sociedades em Estados Religiosos. No próprio Irã, aliás, há quem dê como em dias contados, a manutenção da predominância dos clérigos na condução do Estado. Lá, também Alá estaria morto.

A questão, contudo, não parece simples; e não é. Há anos, um religioso escreveu um livro sobre a arte sacra do nosso tempo. Defendia que ela existiria, a despeito da irreligiosidade desenfreada que paradoxalmente se seguiu à Segunda Guerra. Referia-se ao catolicismo e nomeava alguns artistas contemporâneos. Olivier Messiaen que morreu não faz muito, foi, realmente, um compositor que sempre se postou como católico. Escreveu obras textualmente, “para Jesus” e guardou-se de que sua fé era inquebrantável, o que não deixou de ser reafirmado até sua morte. Georges Rouault, pintor, um pouco mais velho que Messiaen, francês como ele, fez uma obra quase que inteiramente religiosa. Françoise Gilot, ex-mulher de Picasso, autora de um livro sobre o pintor, refere-se a Rouault como um artista, eminentemente, religioso. O próprio escritor inglês Graham Greene, morto há uns vintes anos, expôs o problema religioso no âmbito das questões existenciais prioritárias do nosso tempo. Mas, pelo fato de ter colocado a questão, justamente como “um problema”, não parece ter esmorecido a questão concreta de que, com ou sem “o problema”, Deus estaria, de fato, morto.

Pode-se, certamente, ler de muitas maneiras a afirmação (“aforismo”) de Nietzsche. A um homem convicto de sua fé – e há um sem número deles, inclusive entre grandes intelectuais e cientistas – a consideração seria ociosa, até contraditória. Teria de se a avaliar a questão com as devidas reservas: José Saramago, um decidido agnóstico, não imputou a Deus o “grande mal do mundo”? Como considerá-lo morto, se a cada homem-bomba no Iraque ou no Afeganistão, reacende-se a questão do martírio, que só se concebe na crença de uma fé inquebrantável? Realmente, é assim. Mas se torna cada vez mais difícil associar a Natal ao nascimento de Cristo. Ou melhor: existe muito pouco, na “maior festa da Cristandade” que conduza à conclusão de o Natal ser realmente uma festa cristã.

Claro, alguém dirá que é próprio do capitalismo não estreitar comemorações na religião. Complicado, realmente, vender certos produtos com as menções a Deus. Geladeiras e máquinas de lavar roupa, com as bênçãos do Manjedoura, são difíceis de engolir. Os religiosos que o digam.

Há as medalhinhas católicas e os dízimos protestantes, sem dúvida: todos são produtos vendidos ou comprados “em nome de Deus”. Os pagadores de promessa, que se reúnem em Aparecida, aumentam sempre, talvez não na mesma proporção de tempos atrás, mas são numeroso; só que, em todas as manifestações, o que nos identifica já não é a totalidade do ser religioso socialmente, senão a especificidade de o sermos, no âmbito de nossas respectivas igrejas e templos.

Parece ser, enfim, inelutável entre os homens, a existência de um sentimento religioso difuso. Mas já Deus é um traço subjetivo, que não se expõe na última análise das músicas, cantadas nos templos, que só têm de verdadeiramente religioso a invocação direta a Deus. Canta-se Deus em forma de rock, de música de alto consumo, mas justamente por ser também Deus um objeto de consumo. Ou seja, parece que Deus prescinde de uma música especial, de comportamentos que distingam os religiosos dos consumidores. Somos crentes para invocarmos Deus, mas não para nos alijarmos dos outros como uma característica especial.

Durante as perseguições religiosas na Roma antiga, a marca do cristão era uma espécie de divisor de águas: não havia a “mercadoria Deus”. Deve ser por Papai Noel mostrar-se tão importante, que se prescindem as ginásticas para não ofendermos ninguém, ao não invocarmos Deus justamente naquela que seria a marca da “maior festa da Cristandade”?

A pensar, certamente.

terça-feira, dezembro 06, 2011

Fausto, uma metáfora do humano

"Quem ama o dinheiro jamais dele se farta; e quem ama a abundância nunca se farta da renda... Todo o trabalho do homem é para a sua boca; e, contudo, nunca se satisfaz o seu apetite".

Eclesiastes 5.10; 6.7


O Fausto
de Goethe me causou uma impressão atordoante. Li-o sofregamente. Cada palavra proferida; cada sentença explanada, deixou-me com os cabelos arrepiados. Nunca havia lido algo tão direto, com tanta "felicidade metafórica". Impossível não enxergar nele possibilidades simbólicas; interpretações literárias vastas; intertextualidades extravagantes.

As cenas iniciais aturdem. O herói está angustiado. Profere palavras incensadas de agonia. Deseja o grande. Procura respostas para o desatino de sua existência. Um intelectual completamente perdido no niilismo da vida, na qual a filosofia, a ciência, a teologia (metafísica) e os saberes perderam completamente o sentido. Fausto utiliza palavras embriagadas de paixão. Nem mesmo um deus seria capaz de consolá-lo. Impossível não enxergar nisso uma metáfora da modernidade. Do homem que se perdeu em meio aos saberes. Às possibilidades científicas. Que mesmo tendo desenvolvido tecnologias inovadoras, parece não ter achado a resposta necessária para o aspecto nodal da vida.

Mefistófeles ou Mefisto, personificação do demônio, acaba fazendo um pacto com Fausto. O herói recebe a promessa de que teria as respostas necessárias e a sua existência seria coroada por uma torrente insufladora de peixão, técnica e um desejo extravagante pelo progresso. A promessa do diabo: "Nos dias que hão de vir posso logo mostrar-te/ O que homem nenhum no mundo pode ver". E mais: "Sentes sempre que és homem entre seres humanos./ Não penses que desejo, à força, te envolver/ Com a canalha vil que vive ao desabrigo; / Não sou tão importante, e não tenho poder;/ Se quiseres, porém, andar a sós comigo/ Teus passos vou guiar por mil trilhas da vida./ E essa é, para mim, tarefa apetecida./ Dar-te-ei assistência amistosa e agradável,/ Serei teu companheiro humilde e inseparável,/ Cumprirei meu dever com justo e extremo zelo,/ Serei teu servo enfim com máximo desvelo".

O que nos fascina no texto goethiano, resultado de mais de 60 anos de labor, é a pertinência arquetípica. A promessa de Mefisto é uma possibilidade para o arrojo, para o prazer, para o conforto. Fausto veria galáxias. Luzes. Colocar-se-ia acima dos demais homens. Caminharia por entre multidões e estaria nele a marca da distinção - o diabo seria o seu servo. Mas, o preço de tudo isso seria alto - a saber, a própria alma do herói. Fausto seria um homem oco. O seu ser não lhe pertenceria. O verniz (suas faculdades físicas) experimentaria o prazer, todavia em seu interior haveria o caos, a confluência do trágico infernal.

Sua relação com Margarida é fadada ao fracasso. A sua musa não foi capaz de dar, também, o que ele queria. Nota-se que ao fim da relação, Margarida também está esgotada. A moça pura, gentil, pobre, porém, honrada, é maculada pela maldição que persegue Fausto. A dor do herói se agudiza. Torna-se maior do que no princípio de suas inquirições. Fausto é arrastado para o inferno. A cena final é de uma tragicidade aterradora. Mefisto volta-se para Fausto e diz em tom senhorial: "Vem comigo!" E Goethe conclui: "[Mefistófeles] desaparece com Fausto".

Ao ler isso, não pude deixar de perceber o quanto Goethe refletiu sobre o ser humano nesta obra. Fausto é metáfora do homem fáustico. De uma maldição que orbita sobre o homem - a maldição do desejo, da ganância, do desejo de poder. Como nas palavras escritas por Marshall Berman, no excelente ensaio do livro Tudo que é sólido desmancha no ar: "A inquietação fáustica do homem na história mostra que o ser humano não se satisfaz com a simples satisfação de seus desejos conscientes" (BERMAN, 2007, p.99).

O homem moderno é a representação mais fidedigna do desejo fáustico. Ele fez um pacto com o progresso, com o capital, com um estilo de vida que o levará à tragédia. A cada dia que passa a sua Margarida, a Terra (natureza), sofre com as agressões, com a vilania, com a ganância expropriadora que mata. Os notíciários, os documentários dos canais especializados, as revistas científicas, jornalistas, intelectuais, organismos não governamentais e os próprios cientistas afinam o discurso quando o objetivo é apontar a falência do estilo de vida do homem moderno. A Terra chegou a um nível de esgotamento que não comporta mais o desejo pelo lucro, pelo poder, pelo acúmulo de capitais. A tecnologia, as viagens, o turismo, a possibilidade do consumo não trará a redenção ao homem. Muito pelo contrário, tem gerado uma coisificação, um embrutecimento da humana raça.

Assim como se deu com Fausto, o destino humano está fadado ao obscuro. Sua caminhada é trágica e, o destino, incerto. Um futuro abismal parece espreitar. O pacto com o progresso, com a ciência e com a tecnologia custará caro. Em menos de cem anos o resultado se mostrará fulminante e aterrador. O estilo de vida ("o Mefistófeles do homem moderno") cobrará sua conta e então será tarde demais. Pessimismo de minha parte? Não. Penso que não há outro destino para o homem, assim como não houve para Fausto.

Livros consultados:

BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar. Companhia de Bolso: São Paulo. Companhia das Letras, 2007.

GOETHE, W. Fausto. Editora Nova Cultural. São Paulo, 2003.


sexta-feira, dezembro 02, 2011

Contra a Leitura

Tomei a liberdade de postar o texto abaixo - e que delícia de texto! Repleto de ironias, subtilezas e delicadezas finas. Dignas dos grandes textos. Um verdadeiro manual àquele que precisa - e deve - aprender a ler. Texto que exorciza a doença terrível do pedantismo. Do enfatuamento. Que nos ensina termos o direito de ler não ler. Ler é liberdade. A citação da frase conhecida de Schopenhauer me fez rir: "Há indivíduos que leram tanto que ficaram idiotas".

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Por José Ribamar Bessa Freire

– “Não se ofenda, professor, mas eu quero saber se o senhor bebeu, hoje, antes de vir para a universidade?”. A pergunta me foi feita dentro da sala, por uma aluna, chamada Luíza, depois que eu anunciei, convicto, o tema da aula: uma reflexão CONTRA a leitura. Perplexa, Luíza confessou sua profunda decepção. Afinal, a gente havia se conhecido anos antes, numa biblioteca comunitária criada pelo pedreiro Evando dos Santos, na garagem da casa dele, Vila da Penha, no Rio, durante um concurso de poesia no qual ela fora premiada. A partir de então, militamos juntos em prol do livro, participando de vários eventos. Por isso, achou que, agora, eu devia estar de porre.

Apresento aqui um resumo da aula que dei, para que os quatro fiéis leitores dessa coluna possam avaliar também meu estado etílico, já que eles podem ficar incomodados com a crítica à leitura, pois todos os domingos a exercitam aqui nesse espaço. Dessa forma, espero também provocar os participantes do Festival Literário Internacional da Floresta – o Flifloresta – cuja abertura ocorre amanhã, em Manaus. Um dos seus objetivos é justamente o de formar novos leitores. Para ler o quê? Como?

A paixão de ler

O discurso dominante reverencia o livro, como algo sagrado que transporta luz e saber. Por isso, quem defende a não-leitura é considerado herege ou, no mínimo, bêbado. A leitura é endeusada como o único caminho que conduz ao conhecimento. Quanto mais leitura, mais humanos somos. A ausência de leitura nos brutaliza. Mentira! Puro blá-blá-blá. A História mostra que essa moralização da leitura é falsa. Por inacreditável que pareça, muitos professores, editores e pais de família que proclamam as vantagens da leitura, raramente abrem um livro. Esse discurso é tão escandalosamente hipócrita, que dá vontade de esculhambá-lo, chutando o pau da barraca.

Qual é à crítica que faço ao ato de ler? É que como prática social, a leitura deixou de ser algo livre e prazeroso, para se tornar uma obrigação, que confere status. Virou uma atividade burocrática, cobrada pelo professor na escola, que em vez de estimular a fome, empurra goela abaixo do aluno comida de qualidade duvidosa. Assim, um escritor tão vital para nós como Machado de Assis acaba sendo odiado. A escola alfabetiza, mas raramente desperta o sabor da leitura. Se para aprender a falar os bebês tivessem que ir pra escola – meu Deus do céu! – mais da metade da população seria muda ou gaga.

Vivemos num país de forte tradição oral, que não tem o hábito coletivo da leitura. Aí, de vez em quando, Secretarias de Cultura e outros órgãos não-governamentais tentam compensar as falhas da escola, desenvolvendo, às vezes com boa intenção, campanhas inúteis e dispendiosas para promover a leitura, o que equivale a criar uma repartição pública ou uma empresa destinada a promover, por exemplo, o namoro e o beijo. O namoro precisa de promoção? Não. A gente namora porque é bom. E ponto.

Ler é que nem namorar, só tem sentido se fundamentado na liberdade, na indisciplina, na anarquia, na paixão. Querer domesticar essa paixão significa sua morte. O jornal O Globo tenta incentivar a leitura, através do projeto “Quem lê jornal sabe mais”. Sabe mesmo? Sabe o quê? Essas campanhas servem para estimular o preconceito in-su-por-tá-vel e quase racista desenvolvido por aqueles que sabem ler contra os que vivem fora do mundo do livro e da leitura, tratados como burros e inferiores. Desenvolve ainda um sentimento de culpa nas pessoas por não terem lido determinados livros.

O babaca alfabetizado

Afinal, quem lê sabe mais do que quem não lê? A leitura melhora a gente? Conversa fiada! Ler não faz ninguém melhor. A leitura em si não aperfeiçoa as pessoas, sobretudo as que se acham superiores só porque leram alguns livros. Se fosse verdade, não haveria tanta gente babaca, arrogante, pretensiosa e moralmente podre. George Bush, deputados, juízes, desembargadores, empresários – como o desalgemado Daniel Dantas – fazem parte do mundo da leitura e nem por isso merecem nossa admiração.

A leitura não cura nenhuma doença e pode até agravá-la. Quem é babaca, depois de ler fica ainda mais babaca. O mesmo acontece com os ridículos, os vaidosos, os frívolos, os pedantes, os corruptos, os bestinhas e os bostinhas. Nós somos aquilo que somos, independentemente da leitura. Ler não serve pra nada, é um vício, uma perdição, uma felicidade. O único motivo pelo qual alguém pode se interessar por um livro é a dimensão mágica de seu conteúdo, a perplexidade, o assombro, a fantasia e a interrogação diante dos enigmas do cotidiano da vida que a leitura pode suscitar em nós.

Existem leitores ávidos, cujas virtudes humanísticas são nulas. São ratos de biblioteca, não lêem para viver, vivem para ler. Não namoram, não furunfam, não jogam nem dominó nem conversa fora com amigos. Perderam o sentido da vida. Levam vidinha superficial, cheia de preconceitos, indignidade e irracionalidade. São injustos, egoístas, soberbos e babacóides. Outros, só porque leram cinco, dez ou cem livros, assumem secretarias de cultura e se acham “os in-te-lec-tuais”. Humilham quem não leu os cem livros que eles juram conhecer.

Por outro lado, todos nós conhecemos não-leitores, dignos e justos, que possuem qualidades morais, inteligência e sensibilidade. Sou amigo de um pajé guarani, da aldeia de Biguaçu (SC), que não quis ser alfabetizado, mas é um sábio, conhece tudo do mundo, da natureza e da espécie humana; quando fala, ilumina quem o escuta, como um poderoso farol. Não leu nenhum dos 4 milhões de livros da Biblioteca Nacional, mas é um poço de integridade, de sapiência e de reserva moral. Aliás, nem o maior devorador de livros consegue em toda sua vida ler 0,1% dos livros já editados. É por isso que a chave da leitura está na não-leitura.

A não-leitura

O filósofo alemão Schopenhauer escreveu no século XIX que livro ruim é veneno intelectual, que estraga o espírito. Livros ruins, escritos apenas com o objetivo de gerar dinheiro, além de inúteis, são prejudiciais, porque para ler um livro bom, a condição é não ler o ruim, já que a vida é curta, e o tempo e a energia são escassos. Quem vive para ler, perde a capacidade de pensar por conta própria, como quem sempre anda a cavalo acaba esquecendo como se anda a pé. “Leram até ficar estúpidos” – diz o filósofo, para quem a leitura, sem a não-leitura, paralisa o espírito, da mesma forma que o excesso de alimento ou o alimento inadequado prejudica o corpo. O importante não é comer, mas digerir, não é ler, mas ruminar.

Não abrir livros é sabedoria. A escola, porém, nos ensina a ler, mas não nos ensina a não-ler. No entanto, o segredo da leitura reside ai: na não-leitura, que não é uma atitude passiva, mas ativa. Não é ausência de leitura, mas uma atividade organizadora e seletiva da leitura, para não se deixar afogar ou deformar pelos livros.

Há alguns anos dei um curso para professores indígenas, no coração da floresta. Era final de outubro. Quando cheguei, a maloca estava toda embandeirada para comemorar o dia do professor. Num lugar onde era difícil encontrar papel, as bandeirolas haviam sido confeccionadas com páginas de livros enviados por órgãos governamentais. Eram todos absolutamente inúteis. Pensei, então, que esse havia sido o melhor destino dado àquele veneno letal.

O historiador carioca Marcelo Lemos, meu amigo, cujo sobrenome é uma (in) citação à leitura coletiva, me enviou os dez mandamentos redigidos por Daniel Pennac, contendo os direitos do leitor: 1. O direito de não ler; 2 – O direito de pular páginas; 3 – O direito de não terminar o livro; 4 – o direito de reler; 5 – o direito de ler qualquer coisa, inclusive o que é considerado ruim; 6 – o direito ao bovarismo, doença textualmente transmissível; 7 – O direito de ler em qualquer lugar, inclusive na privada; 8 – O direito de ler uma frase aqui e outra ali; 9 – O direito de ler em voz alta ou em voz baixa; 10 – O direito de calar sobre aquilo que lemos, porque nossas razões para ler são tão estranhas quanto nossas razões para viver e ninguém pode invadir nossa intimidade.

Se você dedicou preciosos minutos à leitura dessa coluna, percebeu que não estou bêbado, mas caio numa contradição. As idéias aqui expostas não existiriam sem a leitura de quatro livros abaixo mencionados. Não menciono, porém, a longa lista dos livros que deixei de ler. Só dois deles: “Presidentes da Academia Amazonense de Letras – 1918 a 2006” (Valer – Manaus, 2006) e “Titulares da Academia. Perfis Acadêmicos” (Manaus – 1997) ambos do mesmo autor, Robério dos Santos Pereira Braga. Como os novos leitores formados pela Flifloresta vão encarar esse tipo de livro?

P.S. – Ah, antes que me esqueça, a Luiza, excelente poeta, além de leitora crítica, depois entendeu que eu, naquele dia, havia bebido apenas os autores abaixo relacionados.

i) Arthur Schpenhauer (1851): Sobre livros e leitura.Tradução de Philippe Humblé e Walter Costa. Florianópolis. Paraula. 1993; ii) Pierre Bayard: Comment parler des livres que l´on n´a pas lus? Paris. Minuit. 2007; iii) Juan Domingo Arguelles: Que leen los que no leen? México. Paidos. 2003; iv) Michèle Petit: Lecturas: del espacio íntimo al espacio público. Mexico. Fondo de Cultura. 2001.


segunda-feira, novembro 28, 2011

Nietzsche e a religião


Rogério Miranda de Almeida

Todo aquele que se interrogar pela concepção de Friedrich Nietzsche com relação ao cristianismo e à religião em geral deve dar um passo a mais na sua interrogação e perguntar-se pela concepção que tem o filósofo dos valores que até então atravessaram a história da moral ocidental e a história de toda moral. Um passo a mais será ainda necessário na medida em que, para Nietzsche, o que realmente subjaz à criação e à destruição dos valores são as forças e as relações de forças que não cessam de se superar, de se recriar, de se repetir, de se renovar, de se excluir e de se incluir numa dinâmica recíproca que permeia, invade, domina e determina toda a realidade, todo o existir, todo o ser.

Com efeito, se existe um problema que acompanhou e obsedou o discípulo de Dioniso, esse foi o problema das forças e das relações de forças responsáveis pela criação e pela destruição, pela construção e pela demolição dos diferentes valores. Embora a vontade de potência só se encontre plena e explicitamente elaborada no terceiro e último período do filósofo – que, na minha leitura, começa com Aurora (1881) e se estende até os últimos escritos (1888) –, este conceito já se faz presente no primeiro período – dominado pelas análises em torno da tragédia e da cultura grega em geral – e também no segundo, com Humano, Demasiado Humano I e II (1878-1880), cuja característica principal é o deslocamento de acento para um determinado tipo de moral, a moral utilitária.

Dos três conceitos básicos de Nietzsche – a vontade de potência, o niilismo e o eterno retorno –, foram os dois primeiros que principalmente pontilharam e fundamentalmente marcaram o desenrolar e a dinâmica de seu pensamento e de sua escrita. O niilismo, que é essencialmente inerente à vontade de potência, é ambíguo na medida em que se desdobra como uma contínua destruição dos antigos valores e, simultaneamente, como uma construção de novas e imprevisíveis interpretações, valorações, significações. Recriações. Não há, pois, um demolir para depois construir; há antes uma aniquilação e uma reedificação que se fazem concomitantemente, simultaneamente, na repetição e na diferença, na satisfação e na insatisfação, no gozar e no querer-mais.

Convém ressaltar que as religiões, e o cristianismo em particular, não são sinônimos de niilismo, embora, na perspectiva de Nietzsche, não se possa conceber uma religião que não moralize e, consequentemente, não encerre uma tábua ou uma hierarquia de valores. A religião cristã e as religiões orientais não subsumem o niilismo, que é um movimento muito mais amplo e do qual, enquanto forças niilistas da decadência, estas se apresentam como expressões ou manifestações essenciais. Não se pode pensar na concepção nietzschiana do judeu-cristianismo e do budismo sem vinculá-la à sua visão da religião grega no tempo da tragédia e à crítica que, já na sua primeira fase, ele endereçara à filosofia de Schopenhauer.

Os deuses do Olimpo e o Deus judaico-cristão

Com efeito, já nos seus primeiros escritos, Nietzsche denuncia o fundo moral e as relações de forças a ele subjacentes que disputam entre si a potência sob os mais variados disfarces e os mais sublimes, nobres, elevados e espirituais atributos. Segundo Nietzsche, há basicamente dois tipos de forças: as forças que afirmam e enaltecem a vida e aquelas que, ao contrário, a denigrem, depreciam, caluniam e rebaixam. Eis a razão pela qual, já na Visão Dionisíaca do Mundo (1870) – escrito póstumo que data de dois anos antes da publicação do Nascimento da Tragédia –, o filósofo fazia ressaltar a superioridade da religião grega sobre as demais religiões, porquanto os deuses gregos que descrevem Homero, Hesíodo e Epicuro não são divindades que exprimem a indigência, a ascese ou o dever, mas, antes, criaturas que apontam para um excesso de força, de seiva e, consequentemente, para tudo aquilo que a vida tem de belo, de bom, de mau, de transbordante, de afirmativo e cruel. Os artistas que forjaram esses deuses eram, pois, senhores de uma fantasia genial que, projetando suas próprias imagens sobre o céu azul da Grécia, construíram um Olimpo onde essas formas podiam respirar o triunfo da potência juntamente com um sentimento de exuberância e justificação da existência e do mundo.

Curiosamente, num fragmento póstumo da mesma época – fim de 1869, primavera de 1870 –, Nietzsche analisa essa mesma problemática ao chamar a atenção para a figura do asceta cristão que, ao contrário do artista heleno, encarna o tipo do negador e destruidor da natureza. Para o autor de , as direções ascéticas são o que há de mais hostil e oposto à natureza e à fertilidade que esta encerra. No seu intuito e no seu trabalho subterrâneo de tudo negar e tudo emendar, elas já revelam o que realmente são: frutos enfezados e estiolados que a própria natureza se encarregou de rejeitar, porquanto ela não quer propagar uma raça ou uma espécie de depauperados e enfraquecidos. “O cristianismo só poderia triunfar num mundo degenerado”, diz Nietzsche.

A partir dessas considerações, súbito se adivinha: os deuses se apresentam para Nietzsche como reflexos da exuberância ou da indigência de um povo. De sorte que, quanto mais potente e aguerrida for uma nação, tanto mais exibirão os seus deuses as marcas da guerra, da conquista e do orgulho nacional. Inversamente, os deuses dos “bons”, dos falidos e dos fracos não terão senão sentimentos de vingança, de rancor e ressentimento contra tudo aquilo que eleva, transfigura e diz “sim” à vida. É o que Nietzsche já mostrava da maneira mais enfática no escrito de transição, Humano, Demasiado Humano I (1878). É o que ele também dirá num de seus últimos textos, O Anticristo, redigido no final de 1888 e publicado em 1895.

No parágrafo 114 de Humano, Demasiado Humano, que tem sintomaticamente por título “O Não-grego no Cristianismo”, o filósofo declara que os helenos não olhavam para os deuses homéricos como seres acima deles próprios, à maneira de senhores; não se viam tampouco abaixo dos deuses, como servos, ao modo dos judeus. “Viam como que apenas a imagem em espelho dos exemplares de sua própria casta que melhor vingaram; portanto, um ideal, não um contrário de sua própria essência.” Onde, porém, os deuses olímpicos se eclipsavam, a vida grega também se revelava mais sombria, mais inquieta e ameaçada de arruinar-se. “O cristianismo, por sua vez” – conclui o filósofo –, “esmagou e alquebrou completamente o homem, e o mergulhou como que em um profundo lamaçal.”

No Anticristo, Nietzsche verá essa mesma dialética em ação no seio do próprio judaísmo, na medida em que ele considera a época dos reis o período mais rico, mais próspero e potente da história de Israel. Consequentemente, Javé era a manifestação da consciência que este povo possuía da sua própria soberania, da sua força e alegria de viver. Portanto, através de Javé o povo esperava vitória e libertação; por meio dele depositavam confiança na natureza para que esta lhes concedesse aquilo de que mais necessitavam: chuva e uma colheita abundante. No entanto, essa época também devia chegar a um fim, ao qual Nietzsche atribui três causas principais: a anarquia interior, a ameaça assíria do exterior e a ascensão da classe sacerdotal ao poder. Gradualmente, portanto, o Deus de Israel, que até então refletia o orgulho e o amor-próprio de seu povo, viu-se reduzido a um Deus condicionado e vinculado a preceitos morais: toda felicidade era vista como uma retribuição pela obediência a Javé; todo infortúnio era, ao invés, recebido como uma punição pela desobediência a ele infligida.

Se esta é, pois, uma das perspectivas a partir das quais Nietzsche analisa a religião dos gregos e aquela que brotou do solo e do povo judeu, como então ele considera o budismo e a sua relação com a filosofia de Schopenhauer?

Schopenhauer, a tragédia e a negaçãobudista da vontade

Na época em que Nietzsche redigia O Nascimento da Tragédia – publicado em janeiro de 1872 –, ele se achava sob a quase total influência de Schopenhauer. Assim, para o discípulo de Dioniso, a sabedoria trágica reproduzia, por meio da ilusão apolínea e da música dionisíaca, a mais íntima essência do mundo, da natureza, dos homens, da vontade ou, em suma, do Uno originário. No que diz respeito especificamente à música dionisíaca, esta se apresentava como um espelho sobre o qual se refletia a própria vontade universal, que nos chega como a verdade eterna ou, mais exatamente, como a verdade que jorra do fundo ou do núcleo do Uno originário.

Sem embargo, na própria obra O Nascimento da Tragédia – e mesmo em alguns textos que a preludiam –, já se vê desenhar uma tomada de posição crítica vis-à-vis de Schopenhauer. E esta posição só tenderia a acentuar-se à medida que Nietzsche fosse também se distanciando do autor de O Mundo Como Vontade e Representação. Destarte, na seção 7 daquela obra, Nietzsche critica Schopenhauer justamente naquilo que o filósofo tem de comum com o budismo: a resignação e a negação da vontade diante do sofrimento que acarreta todo desejo. Ora, na perspectiva do discípulo de Dioniso, a consolação metafísica que suscita a tragédia, e que se encarna no coro satírico, é toda ela entretecida de gozo, o gozo na sua potência indestrutível que afirma a vida, apesar do caráter mutável do mundo fenomênico. Por conseguinte, o heleno profundo que o coro vem consolar – e que lança seu olhar sobre as forças demolidoras da natureza – corre ele também o risco de “aspirar a uma negação budística da vontade”. No entanto, a arte vem em seu socorro para redimi-lo, mas, “pela arte, é a própria vida que o redime para si mesma”.

Num fragmento póstumo do verão-outono de 1884, que faz parte de seu terceiro e último período, Nietzsche se mostrará ainda mais incisivo com relação às forças niilistas da decadência, que, por natureza, são negadoras da vida e de tudo aquilo que ela tem de fértil, de belo, de abundante, de potente, de tenso, de deleitoso e sensual. Com efeito, nada repugna mais a Nietzsche do que uma religião cuja moral recomenda a domesticação dos instintos e a supressão do prazer. Esta é “uma medida de emergência tomada por naturezas que não conhecem o critério da medida e que não têm outra escolha senão a de se tornarem libertinos e porcos, ou então ascetas”. Essas naturezas – continua o filósofo – encontraram no cristianismo e no budismo um modo de pensar que é, no mais alto grau, adaptado a toda a escória dos decadentes, dos doentes e malogrados da existência. Pode-se, pois, perdoar-lhes o fato de denegrirem um mundo onde foram malsucedidos. “Mas faz parte da nossa sabedoria considerar essas doutrinas e religiões como grandes manicômios e casas de reclusão.”

Em Para Além de Bem e Mal (1886), parágrafo 56, Nietzsche defenderá uma reflexão aprofundada sobre o pessimismo livre “da estreiteza e da simplicidade semicristã e semialemã” que, segundo ele, se exprimiram por último na filosofia de Schopenhauer. Assim, prossegue o filósofo, todo aquele que tiver lançado um olhar nos abismos do pensamento mais radicalmente negador – um olhar “para além de bem e mal e não mais, como Buda e Schopenhauer, na órbita da moral e de sua ilusão” – chegará talvez a abraçar um ideal totalmente oposto: o ideal do homem mais generoso, mais exuberante e mais afirmativo que possa existir.

Ora, conquanto o problema central da filosofia de Nietzsche esteja nas forças e nas relações de forças que não cessam de se superar e de se recriar, retorna inevitavelmente a questão: não seriam justificados todos os seus ataques contra a religião, ou as religiões, justamente por elas se apresentarem, na sua perspectiva, como as manifestações essenciais das forças niilistas da decadência?

sábado, novembro 19, 2011

Quantos são os evangélicos no Brasil?

Artigo extraído do sítio Cristianismo Hoje. Achei interessante e curioso o artigo, que apesar de buscar ser científico e imparcial, ficou (no fundo) com um sabor de triunfo típico de "crente". Algo dessa natureza: "Vamos ganhar essa nação para Jesus!" - um bordão triunfalista cego e sem materialização consequente.

Por Marcos Stefano


A velha máxima de que os números não mentem pode estar com os dias contados. Pelo menos, no que diz respeito a estatísticas sobre religião no Brasil. Contrariando as últimas pesquisas sobre a fé no país, que apontam os evangélicos como sendo 20,2% da população – ou menos de 40 milhões de pessoas –, diversas denominações apostam em um panorama mais otimista, no qual os crentes já seriam atualmente 51,1 milhões. Dizem mais: que, caso se mantenham as atuais taxas de crescimento do segmento cristão evangélico, os crentes em Jesus serão, já em 2020, mais da metade da população brasileira, o que equivaleria a 105 milhões de almas. Números evangelásticos (termo cunhado para se referir aos constantes exageros dos crentes) à parte,o certo é que organizações que se dedicam a estatísticas religiosas trabalham com números que apontam uma maioria religiosa protestante no Brasil em apenas dez anos.

O cálculo é feito por organizações como o Departamento de Pesquisas da Sepal (Servindo Pastores e Líderes) e o Ministério Apoio com Informação (MAI), levando em conta a taxa de crescimento que os evangélicos tiveram nas últimas décadas, sobretudo a de 1990. As projeções têm como ponto de partida os Censos periódicos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Pelo levantamento de 1991, por exemplo, sabe-se que os evangélicos eram 13 milhões naquele tempo, ou 8,9% da população brasileira. Nove anos depois, em 2000, já haviam dobrado de tamanho, passando a ser 26, 1 milhões, 15,45%. “Se o crescimento anual se mantiver nesses patamares, de cerca de 7,4% ao ano, poderemos ter, sim, mais de 50% da população brasileira composta por evangélicos”, aponta o pastor Luis André Bruneto, ligado ao Departamento de Pesquisas da Sepal. “Tudo bem que a tendência mais para frente é que esse aumento venha a se estabilizar. Mas, levando-se em conta a taxa de crescimento anual dos evangélicos, que é mais de três vezes o da população do país em geral, podemos dizer que hoje um em cada quatro brasileiros é protestante”, confirma a matemática Eunice Zillner, do MAI.

Em relação às disparidades de números com um dos últimos levantamentos feitos, o Mapa das Religiões da Fundação Getúlio Vargas (FGV), baseado nos dados da Pesquisa de Orçamento Familiar do IBGE, Bruneto aponta que essa classificação pode ser imprecisa. O estudo destaca uma estabilidade do crescimento pentecostal, que fica em 12% do total da população, um pequeno crescimento das denominações históricas, que passam de 5,39% para 7,47%, e um forte aumento daqueles que se dizem evangélicos, mas não estão em nenhuma denominação específica. “Essas nuances já eram esperadas quando comparadas as mesmas curvas estatísticas entre os censos de 1980 e 2000. Por outro lado, o Mapa das Religiões coloca as quase 200 classificações batistas como ‘históricas’, quando a maioria desse grupo deveria ser classificada como ‘pentecostal’. Em contrapartida, a Universal do Reino de Deus, que sofre grande concorrência, é tida também como ‘pentecostal’ – mesmo grupo no qual foram incluídas as Testemunhas de Jeová no estudo”, critica.

Apesar deste e outros notáveis equívocos, o Mapa das Religiões também confirma o que diversos estudiosos do fenômeno religioso brasileiro já vinham falando: o crescimento econômico e as melhores condições sociais e educacionais no Brasil favoreceriam uma migração de fiéis para igrejas históricas, conhecidas pelo ensino bíblico mais profundo e pela organização eclesiástica que favorece maior participação dos membros, inclusive em termos administrativos. Já o aumento explosivo dos evangélicos, hora ou outra, acabaria levando a um processo de secularização, com o surgimento de crentes apenas “nominais”. Ou seja, é gente que se identifica como protestante por ter nascido ou feito parte de uma denominação, mas agora não frequenta mais a igreja.

PADRÕES HISTÓRICOS

Tais nuances fazem com que muita gente fique com a pulga atrás da orelha com previsões muito otimistas neste aspecto. Mesmo trabalhando com os números, o próprio Bruneto é um que recomenda cautela. “Não se tratam de dados reais. São apenas projeções e perigosas”, observa. Como se está lidando com pessoas, e não com uma ciência exata, é bom deixar claro que a dinâmica populacional é muito intensa e que disparidades e mudanças dificultam a concretização de muitas previsões. Um bom exemplo é o surgimento do secularismo e a queda do crescimento de qualquer religião, comuns após a terceira ou quarta gerações dos convertidos. Exemplo disso acontece na Região Sul, justamente onde aportaram os luteranos, primeiros protestantes a chegarem ao Brasil como grupo organizado, a partir de 1824, com a imigração germânica. No Rio Grande do Sul, é possível encontrar a cidade mais evangélica do Brasil, Quinze de Novembro, com 80,4% de crentes, a apenas 20 quilômetros de uma das menos evangélicas, Alto Alegre, com 0,28% de protestantes. Outro caso é Timbó, em Santa Catarina. Lá, a Igreja Luterana tem mais de 15 mil membros, mas apenas 40 pessoas participam de seus cultos a cada domingo.

“Não existem estudos sérios e estatísticas confiáveis que nos permitam acreditar que o Brasil terá maioria evangélica em uma década”, sentencia o sociólogo Paul Freston, professor catedrático de religião e política na Wilfrid Laurier University, no Canadá, e colaborador na pós-graduação em sociologia na Universidade Federal de São Carlos (SP). Ele defende que, para fazer uma conta mais próxima da realidade, é necessário considerar os padrões históricos de crescimento dos evangélicos a partir dos anos 1950 e não somente na década de 90, quando houve um “pulo”. “Tempos atrás, também falaram que alguns países da América Central teriam a maior de parte de suas populações composta por evangélicos ainda antes da virada do milênio. Claro, isso não se confirmou. Se uma religião avança, outras respondem para frear a perda de fieis”, argumenta o estudioso.

Freston, que é evangélico, diz que já foi considerado um homem sem fé por causa de suas posições mais conservadoras, mas prefere optar por estimativas que considera mais realistas. “Se o crescimento não continuar tão acelerado, os evangélicos terão fracassado? De forma alguma”, ressalva. “A se confirmar o maior crescimento dos tradicionais, devemos levar em conta que, durante 25 anos, pentecostais e neopentecostais estiveram na linha de frente do avanço evangélico no Brasil. Mas essa perda de vigor também precisa ser melhor analisada. O processo pode mostrar uma perda de capacidade de diálogo dos evangélicos com a sociedade. E isso pode trazer consequências ruins a longo prazo”, alerta. Até a divulgação dos números definitivos do Censo 2010, que se promete para o ano que vem – e mesmo depois disso, já que eles parecem tão inconclusivos –, muita água vai correr sob essa ponte.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Memórias - os itinerários do tempo (II)

Nasci na Zona da Mata pernambucana. Região que recebe esta designação, porque abrigava grandes porções da Mata Atlântica quando da chegada dos portugueses. Lugar de exuberância verde. De pluralidade de espécies. De uma vegetação pródiga. De um terreno muito típico. De clima tropical. Planaltos e planícies enormes. Ainda hoje é possível encontrar pedaços da vegetação preservada em locais da Zona da Mata nordestina. Por conta das exigências econômicas, os portugueses foram destruindo a vegetação original: primeiro com o pau-brasil, que teve por conseqüência um “esvaziamento” lento da mata, seguido pela degradação; em seguida, com o cultivo da cana de açúcar, na qual grandes porções foram desmatadas. Ainda hoje a região é conhecida como zona canavieira.

Ainda é possível vê o resultado desse tempo de progresso e privilégio econômico. A região era preenchida por grandes engenhos, que como feudos medievais abrigavam toda sorte de gente. Os donos de engenho podiam ser considerados como os senhores feudais. Uma classe constituída por “privilegiados”, exploradores da ingenuidade e da miséria do povo. Ela detinha soberanamente toda sorte de regalias econômicas, políticas e podia interferir na vida de quem quisesse como um César da Antiga Roma. Do outro lado havia os assalariados que “viviam de depender” do senhor de engenho, possuidor da alcunha de “coronel” ou “doutor”.

Os engenhos eram organismos que possuíam vida própria. O vigor de um engenho era medido pela visão que se tinha da sua chaminé. Para um estado normal na saúde do engenho, era preciso que ele cuspisse fumaça. Significava que ali havia vida produtiva nos pulmões do engenho. Pessoas ali estavam trabalhando, produzindo, moendo a cana. O sangue que corria nas veias do engenho era doce. Aquilo entusiasmava os moradores do engenho, pois isso significava trabalho, ocupação, possibilidade para os “matutos” daquela comunidade terem o que fazer, buscar subsistência, ter condições de oferecer o necessário para a família – geralmente volumosa.

Quando a safra da cana passava, iniciava-se o período de cultivo, de adubagem, processo de “temperar” o solo a fim de fazer com que, a cana que crescia, encontrasse os nutrientes necessários. Dessa forma, o ciclo manter-se-ia e a saúde do engenho permaneceria sem ameaças graves.

Com o tempo, os engenhos foram entrando em decadência. Começaram a passar por um processo de “constipação estrutural”. Processo grave, de desembocadura terrificadora. Geralmente, os agentes patrocinadores dessa debilidade eram a maquinaria obsoleta, os modos rústicos e primevos dos engenhos que não podiam fazer frente às usinas que surgiam como locomotivas velozes, imparciais, prontas para atropelar quem estivesse à frente. Os achaques não isentavam ninguém. Quando o engenho adoecia, adoeciam também os moradores. A miséria gravitava na sorte de cada um dos moradores do engenho como um morcego negro, anunciador de augúrios inamistosos. Para onde ir com a família? Aonde alugar o serviço da enxada ou dos lombos duros como uma cangalha de jumento? Os engenhos estavam ameaçados por um vírus para qual não havia antídoto, a modernidade tecnologizada. A maquinaria substituiria os braços bambos, excessivamente magros do trabalhador acostumado às tarefas insensíveis.

Os engenhos adoeciam. As suas luzes eram extintas como estrelas que se obliteram num processo de gastamento, de perda de energia fluídica. As chaminés não mais faziam espirrar fumaça para o céu. Dia a dia elas se apagavam denunciando um mal estar que parecia crônico. Os moradores não tinham mais o que fazer. Como José Lins do Rego escreveu no seu romance Bangüê quando da ameaça de extinção do engenho Santa Rosa: “O engenho Comissário, em ruínas, com os restos do maquinismo exposto ao tempo. O melão-de-são-caetano gosta de enfeitar sempre estas desgraças. Onde houver uma casa caindo lá se encontra ele com viço, com aquele gesto de hiena pelos cadáveres” . A ruína dos engenhos foi sendo sacramentada pela fúria faminta das usinas. Muito dos moradores dos engenhos se tornaram retirantes, nômades da miséria, que pervagavam num desterro medonho, como alma penada. Saíam pelo mundo a oferecer os seus serviços, procurando uma Canaã na qual pudessem plantar, criar um novilho, uma cabra que desse leite. Em suma, buscar uma vida que conferisse possibilidades de alimentação regulares. Sonho pequeno, mas alimentado por uma expectativa volumosa, cheia de arrebiques supersticiosos. Supertição que sempre fez parte do imaginário do povo nordestino. A realidade miserável e lúgubre é entendida por uma metafísica determinista, de um Deus caprichoso, cheio de desejos e vontades mesquinhas. Deus este que parece caçoar com a miséria insalubre que o povo nordestino vive mergulhado: prende as chuvas, não se agrada das sazões providentes; concede privilégios a poucos e enfia o resto numa existência de penúrias e sortilégios. Tragédia. Caos social.

Os engenhos foram se tornando ruínas. Com a saúde desfalecida, restava a decomposição estrutural; com o tempo, os esqueletos do que fora o engenho ficavam à mostra. Cavername medonho. Carcaça morta. O bangüê arruinado. Tachas com samboques, morada de lagartixas. Bagaceira com entulhos mofados – ninho de jararacas e corais. Moenda enferrujada, comida pela ação dos agentes naturais. Esqueleto ruído, arreganhado, os engenhos morriam numa espécie de hecatombe processual.

Estes espaços passaram a pertencer às usinas. Aqueles engenhos que não foram vendidos ou apoderados pelas usinas, abrigaram os magotes de seres alheados do mundo. Gente matriculada na escola da sobrevivência, doutrinada nos métodos pedagógicos da subserviência, treinada no abecedário da subsistência. Gente analfabeta para as letras, mas capaz de soletrar a vida como ninguém. Foi de uma localidade com estas feições que vim para a vida.

Escrito em 2006.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Dia dos Mortos, 7 bilhões de humanos, Bach e o BWV 232

Aproveitando o ensejo da data, estou ouvindo algo profundamente "santificante" - o BWV 232 do "grande pai". Esta semana tive a oportunidade de conversar com um professor, colega de trabalho, sobre a informação veiculada pela mídia acerca dos 7 bilhões de humanos que agora habitam a terra. Falamos sobre Malthus e ele me explicou sobre as deficiências da teoria do inglês. Mas não deixamos comentar sobre o estágio avançado de agonia da civilização ocidental, gestora de um modo de vida que nos leva inevitavelmente para o buraco. A sociedade capitalista com toda a sua parafernália tecnológica possui uma finalidade - nos conduzir ao prazer. Mas à medida em que somos conduzidos ao prazer, recai sobre nós a maldição do niilismo.

A terra já não é um lugar que promove espantos contemplativos. O que regala os olhos do homem do nosso tempo são as superfícies vítreas. Nelas o indivíduo do nosso tempo encontra a redenção narcísica de que tanto a sua alma vazia precisa. O capitalismo e o estilo de vida acabou criando aquilo que os especialistas vão chamar de "não-lugar". Ou seja, não há um lugar que promove encantos, novidade, fascinação, pois o que há são as mesmas lojas, as mesmas lanchonetes, as mesmas marcas, as mesmas fragrâncias, como se as nossas percepções tivessem sido uniformizadas.

O meu colega contou uma experiência curiosa. Disse ele que uma amiga fora fazer um cruzeiro marítimo, mas ficou decepcionada. Ela queria novidades. Todavia, no navio em que estava, as lojas, os pubs, os cafés, eram os mesmos que ela estava acostumada a frequentar em terra firme. Ou seja, ela teve mais do mesmo, pois não existe um lugar de novidade. Existe um "não lugar" que está em toda parte. É por isso que o homem do nosso tempo viaja tanto. Ele está atrás de novidades. Ele quer encontrar um regalo para a sua fome insaciável. Perdemos o encantamento pela "nossa casa", pela mãe sábia, a natureza.

Mas o que tudo isso tem a ver com a missa de Bach? Muita coisa. É que o meu colega disse a certa a altura de nossa conversa que a única forma de brecar o calapso de nossa civilização está na formação de valores sadios, num processo a qual poderíamos dizer que se dá de dentro para fora. E para ele, um dos resposáveis para que isso ocorra é a religião. Não deixei de pensar na afirmação dele. Possuo uma visão crítica em relação a religião. Afinal, a religião é tão antiga quanto a própria humanidade. Se a religião fosse capaz de redimir, ela já teria redimido, transformado o nosso mundo num local de paz. Pois o que não falta é religião.

Gostaria de mudar a afirmação do meu colega e dizer que o que pode salvar o homem é a metafísica, a espiritualidade que se encontra na beleza. E para se chegar à capacidade de apreciação e percepção dessa beleza é preciso educar os sentidos. É preciso direcionar os olhos para aquilo que nos torna maiores do que somos, deixando de lado os anseios vis da materialidade, que promete felicidade, mas não é capaz de gerar beleza, de fazer brotar um jardim no coração. Lembro aqui as palavras de Cristo: "O que adianta o homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?" Ou seja, a capacidade de ser humano, de sensibizar-se com a natureza, com a simplicidade dos elementos silenciosos que foram gerados pelo silêncio do universo.

Olhando do ponto de vista da objetividade, penso não haver chances para o homem. Em pouco mais de cem anos, as condições para a vida na terra tornar-se-ão insustentáveis. Para reverter isso é preciso de espiritualidade, da metafísica, que habita a obra de arte, os sonhos, a inocência, os silêncios gravitacionais das palavras, do rio que corre e não se cansa, nas amizades, na música, em Bach... Afinal, a natureza é um instrumento tocado pelo universo onde estão adormecidas as mais belas canções. Enquanto escuto essa extraordinária missa de Bach, vou pensando nisso tudo - e fico estarrecido e beatificado no dia dos mortos.

Abaixo um pequeno trecho do BWV 232 de Bach - regência de Herbert Blomstedt.