quinta-feira, março 08, 2012

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

Impossível não postar uma análise tão profunda e tão visceral. Uma análise contrastante do universo prático e não burocrático dos evangélicos e do progressismo de gabinete. Aquela atitude velha e que só promove alardes e radicalismos supostamente intelectualizados da esquerda. Segue o texto:

O que a esquerda deveria aprender com os evangélicos

Ultimate Fighting Championship: Marx vs. Cristo

"As massas de homens que nunca são abandonadas pelos sentimentos religiosos
então nada mais vêem senão o desvio das crenças estabelecidas.
O institnto de outra vida as conduz sem dificuldades
ao pé dos altares e entrega seus corações aos preceitos
e às consolações da fé."


Alexis de Tocqueville, "A Democracia na América" (1830), p. 220.

No Brasil, um novo confronto, na forma como dado e cada vez mais evidente e violento, será o mais inútil de todos: o do esclarecimento político contra o obscurantismo religioso, principalmente o evangélico, pentecostal ou, mais precisamente, o neopentecostal. Lamento informar, mas na briga entre os dois barbudos – Marx e Cristo – fatalmente perderemos: o Nazareno triunfa. Por uma razão muito simples, as igrejas são o maior e mais eficiente espaço brasileiro de socialização e de simulação democrática. Nenhum partido político, nenhum governo, nenhum sindicato, nenhuma ONG e nenhuma associação de classe ou defesa das minorias tem competência e habilidade para reproduzir o modelo vitorioso de participação popular que se instalou em cada uma das dezenas de milhares de pequenas igrejas evangélicas, pentencostais e neopentecostais no Brasil. Eles ganharão qualquer disputa: são competentes, diferentemente de nós.

Muitos se assustam com o poder que os evangélicos alcançaram: a posse do senador Marcello Crivela, também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, no Ministério da Pesca e a autoridade da chamada “bancada evangélica” no Câmara dos Deputados são dois dos mais recentes exemplos. Quem se impressiona não reconhece o que isso representa para um a cada cinco brasileiros, o número dos que professam a fé evangélica ou pentecostal no Brasil. Segundo a análise feita pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), a partir dos microdados da Pesquisa de Orçamento Familiar 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a soma de evangélicos pentecostais e outras denominações evangélicas alcança 20,23% da população brasileira. Outros indicadores sustentam que em 1890 eles representavam 1% da população nacional; em 1960, 4,02%.

O crescimento dos evangélicos não é um milagre, é resultado de um trabalho incansável de aproximação do povo que tem sido negligenciado por décadas pelas classes mais progressistas brasileiras. Enquanto a esquerda, ainda na oposição política, entre a abertura democrática pós-ditadura e a vitória do primeiro governo popular no Brasil, apenas esbravejava, pastores e missionários evangélicos percorreram cada canto do país, instalaram-se nas regiões periféricas dos grandes centros urbanos, abriram suas portas para os rejeitados e ofereceram, em muitos momentos, não apenas o conforto espiritual, mas soluções materiais para as agruras do presente, por meio de uma rede comunitária de colaboração e apoio. O que teve fome e dificuldade, o desempregado, o doente, o sem-teto: todos eles, de alguma forma, encontraram conforto e solução por meio dos irmãos na fé. Enquanto isso, a esquerda tinha uma linda (e legítima) obsessão: “Fora ALCA!”.

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O crescimento dos evangélicos não é um milagre,
é resultado de um trabalho incansável
de aproximação com o povo

Desde Lutero, a fé como um ato de resistência (Life of Martin Luther and and the Heros of Reformation, litografia, 1874)

O mapa da religiosidade no Brasil revela nossa incompetência social: os evangélicos e pentecostais são mais numerosos entre mulheres (22,11% delas; homens, 18,25%), pretos, pardos e indígenas (24,86%, 20,85% e 23,84%, respectivamente), entre os menos instruídos (sem instrução ou até três anos de escolaridade: 19,80%; entre quatro e sete anos de instrução: 20,89% e de oito a onze anos: 21,71%) e na região norte do país, onde 26,13% da população declara-se evangélica ou pentecostal. O Acre, esse Estado que muitos acham que não existe, blague infantilmente repetida até mesmo por esclarecidos militantes de esquerda, tem 36,64% de evangélicos e pentecostais. É o Estado mais evangélico do país. Simples: a igreja falou aos corações e mentes daqueles com os quais a esquerda nunca verdadeiramente se importou, a não ser em suas dialéticas discussões revolucionárias de gabinete, universidade e assembleia.

O projeto de poder evangélico não é fortuito. Ele não nasceu com o governo Dilma Rousseff. Ele não é resultado de um afrouxamento ideológico do PT e nem significa, supõe-se, adesão religiosa dos quadros partidários. Ele é fruto de uma condição evangélica do país e de uma sistemática ação pela conquista do poder por vias democráticas, capitalizada por uma rede de colaboração financeira de ofertas e dízimos. Só não parece legítimo a quem está do lado de fora da igreja, porque, para cada um dos evangélicos e pentecostais, estar no poder é um direito. Eles não chegaram ao Congresso Nacional e, mais recentemente, ao Poder Executivo nacional por meio de um golpe. Se, por um lado, é lamentável que o uso da máquina governamental pode produzir intolerância e mistificação, por outro, acostumemo-nos, a presença deles ali faz parte da democracia. As mesmas regras políticas que permitiram um operário, retirante nordestino e sindicalista chegar ao poder são as que garantem nas vitória e posse de figuras conhecidas das igrejas evangélicas a câmaras de vereadores, prefeituras, governos de Estado, assembleias legislativas e Congresso Nacional. O lema “un homme, une voix” (“um homem, uma voz”) do revolucionário socialista L.A. Blanqui (1805-1881), “O Encarcerado”, tem disso.

Afora a legitimidade política – o método democrático e a representação popular não nos deixam mentir – a esquerda não conhece os evangélicos. A esquerda não frequentou as igrejas, a não ser nos indefectíveis cultos preparados como palanques para nossos candidatos demonstrarem respeito e apreço pelas denominações evangélicas em época de campanha, em troca de apoio dos crentes e de algumas imagens para a TV. A esquerda nunca dialogou com os evangélicos, nunca lhes apresentou seus planos, nunca lhes explicou sequer o valor que o Estado Laico tem, inclusive como garantia que poderão continuar assim, evangélicos ou como queiram, até o fim dos tempos. E agora muitos militantes, indignados com a presença deles no poder, os rechaçam com violência, como se isso resolvesse o problema fundamental que representam.

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A esquerda nunca dialogou com os evangélicos,
nunca lhes apresentou seus planos,
nunca lhes explicou sequer o valor do Estado Laico

George Whitefield (1714-1770) pregando nas colônias britânicas

Apenas quem foi evangélico sabe que a experiência da igreja não é puramente espiritual. E é nesse ponto que erramos como esquerda. A experiência da igreja envolve uma dimensão de resistência que é, de alguma forma, também política. O “não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso espírito” (Paulo para os Romanos, capítulo 12, versículo 2) é uma palavra de ordem poderosa e, por que não, revolucionária, ainda que utilizada a partir de um ponto de vista conservador.

Em nenhuma organização política o homem comum terá protagonismo tão rápido quanto em uma igreja evangélica. O poder que se manifesta pela fé, a partir da suposta salvação da alma com o ato simples de “aceitar Jesus no coração como senhor e salvador”, segundo a expressão amplamente utilizada nos apelos de conversão, transforma o homem comum, que duas horas antes entrou pela porta da igreja imundo, em um irmão na fé, semelhante a todos os outros da congregação. Instantaneamente ele está apto a falar: dá-se o testemunho, relata-se a alegria e a emoção do resgate pago por Jesus na cruz. Entre os que estão sob Cristo, e são batizados por imersão, e recebem o ensino da palavra, e congregam da fé, não há diferenciação. Basta um pouco de tempo, ele pode se candidatar a obreiro. Com um pouco mais, torna-se elegível a presbítero, a diácono, a liderança do grupo de jovens ou de mulheres, a professor da escola dominical. Que outra organização social brasileira tem a flexibilidade de aceitação do outro e a capacidade de empoderamento tal qual se vêem nas pequenas e médias igrejas brasileiras, de Rio Branco, das cidades-satélite de Brasília, do Pará, de Salvador, de Carapicuíba, em São Paulo, ou Santa Cruz, no Rio de Janeiro? Nenhuma.

Se esqueçam dos megacultos paulistanos televisionados a partir da Av. João Dias, na Universal, ou da São João, do missionário R.R. Soares. Aquilo é Broadway. Estamos falando destas e outras denominações espalhadas em todo o território nacional, pequenas igrejas improvisadas em antigos comércios – as portas de enrolar revelam a velha vocação de uma loja, um supermercado, uma farmácia – reuniões de gente pobre com sua melhor roupa, pastores disponíveis ao diálogo, festas de aniversário e celebrações onde cada um leva seu prato para dividir com os irmãos. A menina que tem talento para ensinar, ensina. O irmão que tem uma van, presta serviços para o grupo (e recebe por isso). A mulher que trabalha como faxineira durante a semana é a diva gospel no culto de domingo à noite: canta e leva seus iguais ao júbilo espiritual com os hinos. A bíblia, palavra de ninguém menos que Deus, é lida, discutida, debatida. Milhares e milhares de evangélicos em todo o país foram alfabetizados nos programas de Educação de Jovens e Adultos (EJAs) para simplesmente “ler a palavra”, como dizem. Raríssimo o analfabeto que tenha sido fisgado pela vontade ler “O Capital”, infelizmente. As esquerdas menosprezaram a experiência gregária das igrejas e permaneceram, nos últimos 30 anos, encasteladas em seus debates áridos sobre uma revolução teórica que nunca alcançou o coração do homem comum. Os pastores grassaram.

segunda-feira, março 05, 2012

Segunda sessão do sábado movie

Minha semana é bastante cheia. Trabalho como professor e a vida de quem ensina não é fácil. Quando não estamos em sala de aula, geralmente estamos preparando aulas ou corrigindo provas ou trabalhos. Minha mulher diz com certa recorrência que trabalho de professor "nunca acaba". E eu confirmo com todas as letras essa realidade em minha vida.

Com tanto tempo comprometido nessa atividade, sobra-me pouco espaço para fazer o que eu gosto. Ou seja, ler, ouvir música (embora quando estou em casa, sempre estou ouvindo alguma coisa) e assistir aos filmes de que gosto. Sendo sabedor dessa realidade de aperto, resolvi me munir de uma estratégia - os sábados vespertinos serão, doravante, chamados de "sábado movie". Em outras palavras: nas tardes de sábado, por volta das duas da tarde, terá início a minha sessão cinematográfica. Isso já me aconteceu por dois sábados seguidos.

No dia 25 de fevereiro, eu assisti ao filme Morangos Silvestres e, no último sábado, eu vi Amnésia (Memento), de 2000 - que havia sido indicado por um colega professor há algum tempo atrás. O filme do diretor Christopher Nolan, deixou-me com uma sensação de absurdo. Guy Pearce faz o papel de um sujeito que não consegue gravar as informações recentes em por causa de uma pancada que levou na cabeça. Ele fica impossibilitado de gravar as memórias mais distantes. Sabe do aqui e agora, mas rapidamente esquece aquilo que vivenciou em pouco tempo. O filme é constituído por um mosaico de acontecimentos que vão se encaixando e costurando os fatos fragmentados da vida do personagem vivido por Pearce. Apesar de o filme ser colorido, fez-me pensar naqueles noirs policiais no qual o fato nunca é solucionado.

Ou num romance kafkaniano, no qual percebemos o sofrimento do personagem, sem que este saia da "arapuca" que parecem ter armado para ele. E que por mais que ele faça movimentos, sua sina é estar preso em um cipoal de fatos viscosos e irracionais. A história é boa. O filme é bem contado. Tecnicamente, não aprsenta problemas. A atuação de Pearce é convicente. E ao final da película, proferimos em tom mofino: "O que foi isso que eu acabei de ver?" É assim que me sinto desde a última sessão do meu sábado movie.


segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Hollywood, muito dinheiro, poucas ideias e flu-flus

Um antigo colega meu certa vez me disse: "É preciso ser um bom analista de notas". Fiquei curioso e inquiri: "Como assim?" E aí ele encerrou a fala, dizendo: "Se você ficar a maior parte do seu tempo lidando com notas verdadeiras, um dia quando você pegar uma nota falsa, rapidamente você terá condições de identificar o falso do verdadeiro". Hoje, passados alguns anos, aplico esse ensinamento para muitos dos eventos que se dão comigo.

À medida que vamos ficando expostos àquilo que é de boa qualidade, rechaçamos por completo o feio, o pequeno, o superficial. Passamos a entender que a vida é breve e que não temos tempo para a mediocridade. Faz-me lembrar do livro panflentário de Gorki, A mãe. Segundo o romance, o filho à medida que se engajava na luta, no conhecimento e no estudo, mudava os modos e se tornava cada vez mais sisudo com relação àquilo que queria. E a sua mãe, antes submissa; camponesa sem cultura, escrava dos seus medos e crenças infudadas, tornava-se uma heroína, capaz de guiar os homens para uma nova crença. Lembro que após ler vorazmente o livro do Gorki, aquela imagem se cristalizou em minha mente.

Claro, é pretensioso da minha parte evocar essa imagem, mas à medida que vamos lendo, conhecendo, assistindo a bons filmes e documentários, lançamos por terra a obra ruim, o texto ruim, a opinião ruim. Analisando os blogs de pessoas com sensibilidade crítica e literária, vamos entrando num mundo contestador por natureza. Mas por quê estou fazendo essa digressão? Apenas para deixar gravado uma intuição que se materializou assim que li o blog da professora Rachel Nunes no dia de hoje. Num texto do referido blog, a professora Rachel faz uma explanação sobre a crise cinematográfica por que passa Hollywood. E não é difícil de sustentar essa tese.

Hollywodd sustenta o seu charme em decorrência de uma propaganda fortíssima existente no circuito do cinema Ocidental. Analisando historicamente, os melhores filmes que já foram feitos, não vieram de lá. Não há nos Estados Unidos diretores como um Fritz Lang, um Tarkovski, um Antonioni, um Bergman, Buñuel. Com isso não desprezo Woody Allen, Kubrick ou o Eastewood, que são diretores americanos consagrados. O fato é quando vemos uma festa como a do Oscar, olhamos meio intrigados a pobreza de ideias que invadiu Hollywood. As histórias inventadas não impressionam. Não nos dão aquela sensação embasbacadora: "Nossa! Que filme!".

A festa do Oscar é uma celebração à mediocridade do cinema americano. O melhor filme da noite do Oscar era A Separação, filme iraniano, que ganhou uma única estatueta somente por não ser americano. Se o fosse, estaria justificada a chuva de premiações. Mas, pelo contrário, quem leva a estatueta de melhor filme é O Artista, obra controversa, que ao se arrogar obra do cinema mudo, vilipendia diretores como Eisenstein, Fritz Lang ou Charlie Chaplin. As obras destes diretores são imortais, enquanto Hollywood incensa suas produções com muita purpurina e pouco conteúdo. Para explicar melhor, cito a professora Rachel Queiroz:

"
Em nenhum momento o filme [O Artista] se refere a qualquer conflito que não seja entre o velho e o novo, o primeiro devendo ceder necessariamente ao segundo, porque o último traz novos elementos passíveis de consumo. O conflito se resolve com a superação do “fracasso” pela via do “talento”. Há lugar para todos na sociedade, e o sucesso vem quando o indivíduo apresenta-se como produto dotado de uma certa distinção, por mínima que seja. A mocinha, uma pinta, e o jeito serelepe afim à Katharine Hepburn que, ainda personificando heroínas feministas, ao final sempre cedia à força dominante masculina. O mocinho, o talento para a dança. No final, conflitos resolvidos, comunhão entre o velho e o novo, nenhuma fissura social, e também nenhum mérito artístico. Afinal, O Artista não trata de arte, mas de produtos industriais; não trata de seres humanos, mas arquétipos e estereótipos; não reconhece no público um conjunto de seres inteligentes, capazes de refletir e dialogar com obras de arte, mas apenas uma massa bovina em busca de entretenimento, que não é nada mais do que a louvação demagógica de suas “virtudes” de massa.

Trata-se, como vimos, de um representante do cinema comercial, de massa, a fazer o elogio da arte enquanto objeto de comércio, manipulador de emoções e correio de transmissão ideológica das ideias conservadoras, tudo isso sob uma roupagem de suposto ineditismo, ao recuperar as técnicas e imagens de uma época em Hollywood, para mostrar, enfim, que não há nada demais quando os tempos mudam, desde que mudem a favor da indústria, desde que a indústria sopre seus ventos e leve de roldão as massas.

Como se surpreender, então, com o Oscar? Como sair do cinema feliz com o elogio da “arte” enquanto produto cuja finalidade é prover o público de válvulas de escape para os problemas cotidianos, principalmente da mediocridade imposta às massas como medida necessária à exploração das mesmas? Como é que chamam o diretor deste filme de artista, certamente contrariando as próprias intenções dele? Não se preocupe, Michel Hazanavicius, você não é um artista".

O fato é quando olhamos para a história das premiações do Oscar e vemos um filme como o Titanic ser ganhador de 11? estatuetas, questionamos os princípios validadores do que é uma obra de arte segundo Hollywood. Podemos afirmar que de cada 10 filmes produzidos por Hollywood, 7 são de um gosto questionável. A América é especialista em produzir filmes de heróis e outras porcarias - Homem Aranha I, II, III; Transformers I, II; Capitão América; X-Men I, II; Super Man I, II, Homem de Ferro I, II e o escambau. Todavia, quando o que está em jogo é uma boa obra, aí já é outra história. E o Oscar vai para...

domingo, fevereiro 26, 2012

O sabor doce e selvagem de "Morangos Silvestres" de Bergman

Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman, está naquela lista de obras imortais. A película sueca de 1957 causa espanto por causa de sua maviosidade poética. A fotografia da obra parece ter sido pintada pelas mãos hébeis do diretor sueco. Após ter visto esse filme na tarde de ontem, fica-me a certeza de que Bergman foi um dos maiores diretores da história (se não o maior).

O que torna Bergman singular é a capacidade de depurar com uma linguagem muito pessoal, fatos marcantes e imprimir no telespectador uma sensação de quietude, de embasbacamento filósofico e teológico. Nunca mais surgiu no cinema alguém com a capacidade de Bergman para fazer filmes no qual o silêncio das imagens, as feiçoes dos atores, sejam capazes de promover "um bem-estar", uma sensação de que estamos diante de uma obra iluminada. A obra de Bergman é um mergulho na alma humana. Seus filmes estão assentados em questionamentos sobre vida, sobre a existência de Deus, sobre o medo da morte (ou a inevitabilidade dela), sobre o caos que habita o interior do mundo humano. Em suma, as perguntas que todos fazem em momentos de perplexidades, mas nunca achamos respostas e seguimos pela vida a fora - "quem somos", "aonde estamos", "para onde vamos".

Não pretendo comentar toda a história da obra, mas Morangos Silvestres é um road movie. Conta a história de Isak Borg (Victor Sjöstrom) e sua viagem de Estocolmo até Lund, onde vai receber um prêmio. Nesta viagem, ele leva a sua nora Marianne, papel encenado pela maravilhosa Ingrid Thulin. A Marianne emcenada por Ingrid Thullin é uma personagem emblemática, seu aspecto denota mistério e uma tristeza de aspectos inifinitos. Um sol velho, numa galáxia abandonada. Uma das cenas mais extraordinárias do filme é quando ela conversa com o marido, filho de Isak Borg, sobre o fato de estar esperando um filho.

É nesta viagem que Isak Borg consegue se conectar ao passado após visitar a casa na qual morou 50 anos antes. A visão que ele tem do passado possui um brilho descomunal. Trata-se de uma viagem espiritual e existencial.

A obra está repleta por uma atmosfera de sonho. Em dados momentos não conseguimos distinguir o que é sonho e o que é realidade.

Abaixo, uma das cenas iniciais do filme. O diálogo entre Isak Borg e Marianne. É possível observar como há um nível de tensão na fala dos atores. Marianne destila uma crueldade misteriosa, com uma habilidade incomum. Sua beleza é misteriosa, todavia seu humor é seco e cortante.


terça-feira, fevereiro 21, 2012

Facebook - uma máquina de lucro, espionagem e "curtição"

O Facebook tornou-se uma ferramenta poderosa, uma febre generalizada. Acredito que ele tenha materializado (ou virtualizado) as intenções potenciais da internet. É curioso como o Facebook nos remete à ideia do rizoma formulada pelo pensador francês Gilles Deleuze. Ou seja, da rede infinita de contatos, de "ramos" que se alastram num campo sem fim, invisível ao primeiro olhar. O jogo "inocente", no início, gera atrativos e especulações. A rede social formulada por Zuckenberg é um dos grandes eventos desse início de milênio. Não sei até quando ela continuará a ser essa febre.

Espanta-me como o Facebook alimenta necessidades emocionais e uma dependência psicológica no usuário. Ele fica horas e horas sem que se aperceba da noção de tempo. Numa espécie de devoção ao "curtir"; ele sai apertando e "bisbilhotando" a vida de suas supostas amizades. "Comentando". "Compartilhando". Criando e manipulando imagens. "Rindo" com uma escrita onomatopéica, que beira o rupestre. O usuário não se constrange em deixar lá seus dados - idade, nome completo, onde trabalha, telefone e outras informações. Uma pergunta nos surge: "Onde ficam amarzenadas essas informações? Para quem servem? Podem ser utilizadas por órgãos governamentais?"

Vale ressaltar que há algum tempo atrás a Inglaterra assistiu a uma série de manifestações proletárias (na cidade de Tottenham), que a mídia denominou como sendo de "pertubadores", "arruaceiros", "bandoleiros". A Scotland Yard, a famosa e poderosa polícia secreta da Inglaterra, para encontrar aqueles que haviam participado dos protestos, utilizou as redes sociais (Facebook, Twitter e Youtube) para encontrar os possíveis responsáveis. Ou seja, as redes sociais se tornaram em terminais poderosos de espionagem. Uma pergunta intrigante surge: "Futuramente, os usuários das redes sociais não correriam um risco sério, se os dados das contas caíssem em mãos erradas?". Durante a Segunda Grande Guerra, Hitler conseguiu capturar muitas das suas vítimas por causa de bancos de informações do Estado Alemão. Estamos nos referindo a uma época em que não se tinha instrumento tão poderoso quanto a internet. Nunca as grandes massas da contemporaneidade estiveram tão presas, amarradas e inseguras quanto estão agora. Outro aspecto curioso é que tudo isso é feita de forma voluntária. Ou seja, uma servião voluntária.

O Facebook tornou-se um nome poderoso. Atualmente, quase um sétimo da população da terra possui uma conta na rede social. Levando-se em conta que quase 2 bilhões têm acesso à internet, é como se 1 em cada 2 dos usuários tivessem uma conta na famosa rede social. As projeções são mais que otimistas. Zuckenberg caminha para ser um dos homens mais ricos do mundo. A empresa no ano de 2011, arrecadou US$ 3,2 bilhões de dólares somente com anúncios publicitários. Estima-se que a empresa valha 50 bilhões de dólares e a fortuna do jovem americano chegue aos 20 bilhões. Algo realmente que nos impressiona.

Zuckenberg enriquece com os cliques dos usuários. E estes cliques valem bilhões. E todos estão amarrados numa grande teia de interconexões.

Abaixo segue um link para um baita texto chamado "Facebook: como lucrar com uma máquina de espionagem". Pode ser encontardo AQUI.

Pontalina-GO/Brasília - DF

domingo, fevereiro 19, 2012

Se não pode ficar com os livros, leve-os com você

Não queria ter saído de casa neste carnaval. Gostaria de ter ficado me refestelando com obras fílmicas programadas, muita música (do rock setentista do Sabbath, passando pelo jazz, ao clássico, que são verdadeiramente os estilos que me apetecem); além disso queria colocar as leituras atrasadas em dia. Nas últimas duas semanas eu trabalhei de maneira operosa. Cansei. Fatiguei-me com as exigências da profissão que exerço: professor. Estando posto nestas condições, quando surge um desses feriados que se assemelham a um oásis, ficamos imensamente ansiosos. A gente vem numa caminhada alucinante, angustiante, e, de repente, encontramos essas ilhas de possibilidades. E o resultado é que grandes expectativas são grassadas.

Mas a minha mulher acabou me convencendo a sair de casa. Arrancou-me da minha ilha imaginária. E penso que isso seja uma característica da espécie. Acredito que num tempo primal, os homens por viverem fora de casa (as mulheres, por sua vez, por estarem sempre recolhidas no antro doméstico a cuidar da prole e dos afazeres do lar), num momento ou outro queriam, quando voltavam das caçadas e do trabalho agrícola, recolherem-se pachorrentamente, sem serem incomodados. As mulheres por viverem numa condição inversa, sentiam uma necessidade de saírem, de socializarem, de verem as novidades do mundo. Claro, vivemos em um outro tempo, mas isso ainda continua inscrito num código invisível, em alguma região adormecida do vulcânico cérebro feminino.

Ao sair de casa, trouxe comigo o volume maravilhoso - Karl Marx - ou o espírito do mundo - de Jacques Atalli. A leitura das primeiras páginas causaram uma funda impressão poética. Attali faz uma análise 'secular' de Marx, alguém que parece ter se constituído numa entidade hagiográfica. As análises, geralmente, sobre Marx ou são apaixonadas e sacralizantes ou rasteiras e criminalizantes; ou o amam ou o odeiam. Pelo que que pareceu, Attali decinge-se de uma visão acachapante e unilateral de Marx, como tantos têm feito. O filósofo alemão é uma das mentes mais engenhosas e influentes da história. Poucos filósofos falaram tanto nos últimos quinhentos anos quanto o pensador nascido em Trier. Nenhum filósofo provocou tanta especulação quanto ele. Enormes disputas - militares, ideológicas, estratégicas - surgiram por causa de supostas interpretações exegéticas feitas dos seus escritos que abarcam a economia - o modo de produção e a vida dos homens. E até os dias de hoje, o mundo se "re-arranja" após a Guerra Fria, resultado de uma nação que se levantou para fazer óbice ao capital, personalizado na figura dos Estados Unidos da América. As crises cíclicas do capitalismo já eram apontadas pelo informado jornalista Marx.

Marx disse que as nossas lutas acontecem na história. Não há outro mundo possível. A não ser aquele que nascerá como resultado da luta dos trabalhadores, sobrepujando as contradições da sociedade capitalista. Nesse sentido, como dizia Nietzsche, a doutrina de Marx se assemelha ao cristianismo, por ser proponente de um mundo balizado no idealismo. Continuarei a leitura. Conaterei as novidades.

Ontem à tarde, após ter chegado à capital goiana fui a um shopping da cidade e após ter entrado na Livraria Saraiva, acabei cometendo algumas extravagâncias. Não gosto de ir a lojas de livros. Isso me faz sofrer. Olhar aquelas volumes indeléveis e deixá-los intactos, sem poder levar para casa, me é muito difícil. Adio ao máximo esse fato. Mas acabei cedendo. Comprei quatro livros - On the Road - Pé na estrada, livro de Jack Kerouac ao qual eu estava há muito tempo com o intento de comprar; Por que não sou cristão - Bertrand Russell, este talvez por ter sido influenciado pelo Charlles Campos (embora eu goste bastente do estilo frugal e elegante de Russell); Um artista da fome e outros contos, de Kafka (ando na minha fase Franz Kafka. Tenho tetando lê-lo ao máximo). O estilo do escitor polonês me deixa com a impressão de que um louco resolveu fazer literatura, criando metáforas incríveis e sofisticadas; e o último foi A origem da família, da propriedade privada e do Estado, de Friedrich Engels, um clássico do amigo de Marx. Possuo este livro em casa, todavia numa edição ordinária. Resolvi comprá-lo pela surpreendente editora Expressão Popular, que tem realizado um trabalho extraodinário no sentido de publicar os grandes clássicos do marxismo.

Sendo assim, a minha viagem não está sendo de todo ruim. Estou hospedado em um hotel numa cidade do interior, com vários livros sobre a minha cama. Ouço o Duplo Concerto para cello e orquestra de Brahms em meu notebook. Faz um calor terrível, o que é amenizado pelo ar condiocionado. E a certeza de que muitas vozes falam comigo está comigo. Sendo assim, se você não pode ficar em casa com os seus livros, leve-os com você.


Goiânia/Pontalina - GO
19/02/2012


segunda-feira, fevereiro 13, 2012

Quando ficamos mais pobres

Não gosto de emprestar livros. Sou muito ciumento com relação aos meus livros. Quando morava na casa de minha mãe, meu irmão costumava emprestar os meus livros para os colegas dele. Aquilo me enfarava. Artudia-me. Deixava-me com nervos em estado de choque. Lembro-me de que quando eu era criança eu assistia ao desenho da Disney Ducktales. A figura do tio Patinhas sempre me chamava a atenção. Ele era um velho rabugento e sovina que guardava o seu dinheiro numa caixa forte. Conseguia contabilizar todas as moedas. Cena curiosa era aquela em que ele nadava na dinheirama da qual era dono. Quando faltava uma moeda da sua caixa forte, ele conseguia perceber. Ficava louco, desconcertado e, geralmente, encetava uma cruzada para conseguir o objeto desaparecido.

Pois, curiosamente, desenvolvi essa capacidade para com os meus livros. Sendo possuidor de mais de 1400 livros, conseguia perceber quando algum estava fora do lugar. Infelizmente num desses empréstimos clandestinos, três livros se foram de minha biblioteca e não mais voltaram. Agora que casei e saí da casa da minha mãe, estou resolvido a comprá-los de volta. São eles: Doutor Fausto, de Thomas Mann; O livro do desassossego, de Fernando Pessoa; e Lady Macbeth do Distrito de Mtzensk, de Nikolai Leskov (sendo que este último eu mesmo emprestei e ele nunca mais voltou).

Estou com um desejo enorme de ler Doutor Fausto, mas fui surrupiado por intenções ávidas e incógnitas. Minha "caixa forte" (biblioteca) está mais pobre - e eu também.

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

Confissão apaixonada!

A literatura é uma vitamina que fortalece as percepções do espiríto. Esta frase canhestra, quase que saída de um protocolo de auto-ajuda me veio gratuita. Não encontro outra para descrever o sentimento que me balança. Lembro de outra mais séria e segura do crítico brasileiro Afrânio Coutinho: "A literatura é transfiguração do mundo". Descobri a literatura muito tarde em minha vida. Queria ter nascido com ela. Gostaria que ela fizesse parte do meu código genético. Que se misturasse aos fluídos do meu corpo. Mas somos resultado de uma interação. E geralmente as coisas se aproximam de nós por causa, na maioria das vezes, de uma confluência sócio-histórica. Ainda bem que ela veio a mim, mesmo que tarde.

Em matéria de conhecimento literário eu não passo de um pedante. Um diletante raso, sem matéria, sem nervos fortes. Sou estreito como um regato em tempo de seca. Não li ainda a maioria dos clássicos universais. Aqueles livros que entraram na categoria de imortais. E quando lemos um livro como O Processo, vem a nós uma sensação de estupidez, de questionamento aniquilador: "Por que você perdeu tanto tempo antes de chegar até este livro?". Apesar de ter lido A Metamorfose há dois anos atrás mais ou menos, somente agora estou lendo O Processo. Este ano ainda quero ler O Castelo e Carta ao Meu Pai, textos célebres de Kafka.

E fica-nos a pergunta: "O que foi Franz Kafka?". Um ateu religioso, criador de mundos repletos de si mesmo? Uma mente complexa que parece antever (no dizer de Lukács) a decadência do mundo burguês? O escritor, nos seus textos, descreve a esquizofrenia do nosso tempo. O absurdo de nossos processos existenciais, ordenado por um poder burocrático invísivel. Somos baratas asquerosas e os outros homens fingem nos aceitar. Gregor Samsa é uma metáfora.

Continuemos a nossa leitura exultando esta descoberta. Ah! a literatura... musa de corpo excitante e intangível.

domingo, fevereiro 05, 2012

Início de leitura - O Processo, de Franz Kafka


Apesar da semana corrida, tive a oportunidade de iniciar a leitura de O Processo de Franz Kafka. Leitura visceral. Texto atordoante e eivado pelo absurdo. Como um sujeito reagiria se percebesse que foi preso por motivos não explicados? Pois esta é a tortuosa e tensa história de Joseph K. A narrativa asfixiante e tortuosa nos dá a sensação dolorosa das impressões advindas ao personagem. A prisão é um absurdo e a não explicação desta é o que atormenta. Continuemos a leitura.

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Anotações sobre Anton Tchékhov

Achei o texto bastante pertinente. Resolvi postá-lo por conta disso. Foi extraído do jornal Sul 21 e escrito por Milton Ribeiro. O texto trata sobre um dos maiores escritores russos de todos os tempos (e por quê não dizer da literatura ocidental?)





Anton Tchekhov e Liev Tolstói

Milton Ribeiro

É curiosa a celebridade póstuma alcançada por Anton Tchékhov. Seja na Rússia ou em qualquer lugar do mundo, o escritor está cada vez mais próximo do nível de semideuses de Dostoiévski e Tolstói, só para ficar entre seus conterrâneos. É justo. Não há uma “grande obra” do autor, mas o numeroso mosaico formado por seus contos, peças teatrais e novelas merece lugar entre as maiores da literatura ocidental.

O fascínio de nossa contemporaneidade com o escritor russo não é casual: o realismo, a clareza, o humor, a leveza, a abordagem compreensiva dos personagens, a pouca ênfase a coisas que outros escreveriam cheios de exclamações — ele parece dizer: não te ajudarei, descubra sozinho o que há de importante aqui — , a imaginação para criar cenas e situações significantes, sua visão sem ilusões do amor e a total falta de preconceitos não apenas o permitia transitar por toda a sociedade russa do século XIX como permite que o mesmo aconteça entre os leitores de hoje. Talvez ele não fale a todos da mesma forma, mas há um fato comum citado por vários ensaístas: ele é uma leitura inteligente cuja presença e essência é amiga e irônica. Ou seja, ele vicia.


Tchékhov viveu apenas 44 anos e era médico. Até os 26 anos, publicou 300 histórias em jornais russos, quase todas cômicas. Vivendo em Moscou, era obscuro. Porém, sem que soubesse, estava tornando-se famoso em São Petersburgo, onde tinha numerosos leitores. Isto perdurou até o dia em que recebeu uma carta do severíssimo crítico Grigorovitch:

Os atributos variados de seu indiscutível talento, a verdade de suas análises psicológicas, a maestria de suas descrições (…) deram-me a convicção de que está destinado a criar obras admiráveis e verdadeiramente artísticas. E o senhor se tornará culpado de um grande pecado moral, se não corresponder a estas esperanças. O que lhe falta é estima por este talento, tão raramente conhecido por um ser humano. Pare de escrever depressa demais…

Tchékhov mudou e, sem perder a graça e a leveza mozartiana de seu texto, tornou-se realista. O novo estilo custou-lhe violentas críticas, que acusavam seu “mau gosto” e a utilização de “detalhes sujos e grosseiros”. Ele respondeu: “Pensar que a literatura tem como finalidade descobrir as pérolas e mostrá-las livres de qualquer impureza, equivale a rejeitá-la.”


Rubens Figueiredo, tradutor e prefaciador de O Assassinato e outras histórias faz importantes observações sobre Tchékhov:

No ambiente intelectual russo, o debate só parecia fazer sentido quando tomava formas extremadas. A fama crescente de Tchékhov e a expectativa em torno de seus textos obrigaram-no a defender-se dos mal-entendidos, cada vez mais numerosos.

Os leitores russos se haviam acostumado a tomar os escritores como campeões de credos políticos e religiosos mas, no caso de Tchékhov, esbarravam em textos obstinadamente inconclusivos. Mais grave ainda, suas entrelinhas pareciam indicar que tanto as grandes sínteses intelectuais quanto os padrões de pensamento herdados pelos costumes serviam antes para encobrir a realidade.

O desconcertante é que Tchékhov consegue munir sua prosa de uma sutileza capaz de sugerir outras camadas de experiência, como se a realidade nunca se esgotasse.

E, mais desconcertante para a época:

Para Tchékhov, a religião era moralmente indiferente. Ou seja, a crença, seus conceitos, seus símbolos e rituais eram ineficazes para deter a crueldade e o egoísmo, mas tampouco constituíam suas causas.

E o próprio Tchekhov escreveu, demosntrando uma posição absolutamente moderna, a do escritor que se nega a proferir “verdades”:

Não cabe ao escritor a solução de problemas como Deus ou o pessimismo; seu trabalho consiste em registrar quem, em que circunstâncias, disse ou pensou sobre Deus e o pessimismo.


Indicações de leitura

Há muitos livros de Tchékhov para serem indicados. Como ele era contista, novelista e dramaturgo, há muitas coletâneas e, nelas, muitos contos e novelas repetidas. Vamos começar pelas peças teatrais: As Três Irmãs, A Gaivota, Tio Vânia e O Jardim das Cerejeiras são tão extraordinárias que prescindem dos atores e podem ser lidas como uma novela de diálogos. O extraordinário A Enfermaria Nº 6 está em vários livros, assim como os contos Inimigos, A Dama do Cachorrinho e um conto clássico que os tradutores deveriam reunir-se a fim de estabelecer um nome, pois ele pode se chamar Queridinha aqui, O Coração de Olenka ali, Dô-doce (?) acolá, assim como Amorzinho ou qualquer outra coisa.

A novela A Estepe, curta e genial, narra a viagem de uma criança como uma metáfora da viagem que atravessamos sem saber porque e para quê. A impressão estranha que a novela causa é semelhante a causada pelo filme Olhos Negros de Nikita Mikhálkov, em que Mastroianni recorda “as névoas da Rússia num passeio de carruagem, na infância, há muito tempo”.

O melhor livro talvez seja uma tradução dos contos feita por Bóris Schnaidermann:

A Dama do Cachorrinho e outros contos. Editado primeiro pela Civilização Brasileira, depois pela Max Limonad e finalmentye para Editora 34.

Outros livros:

Contos e Novelas. Edições Ráduga (Moscou). 1987. Um primor de tradução para o português realizada por Andrei Melnikov.
O Assassinato e outras histórias. Cosac & Naify. 2002. Trad. de Rubens Figueiredo.
O Beijo e outras histórias. Círculo do Livro. 1978. Trad. de Bóris Schnaidermann.
A Enfermaria Nº 6 e outros contos. Editorial Verbo. 1972. Trad. de Maria Luísa Anahory.
Os mais brilhantes contos de Tchekhov. Edições de Ouro. 1978. Trad. de Tatiana Belinky.
Lenco Tchékhov. Ensaio e Contos. Ediouro. 2004. Trad.de Tatiana Belinky.

Filmes: há dois esplêndidos filmes de Nikita Mikhálkov baseados “em qualquer coisa de Tchékhov” (palavras do próprio diretor e roteirista): Peça Inacabada para Piano Mecânico (1977) e o famoso Olhos Negros (1987) com Marcello Mastroianni detonando no papel principal atrás da Dama do Cachorrinho.


A opinião de Tolstói

Os personagens de Tchékhov são cheios de boas intenções sobrecarregadas de estupidez, inatividade e finalidade. Tchekhov é moderno em sua concisão, pouca adjetivação e principalmente na recusa em explicar o mundo. Confrontado com as idéias de Tolstói — o qual em seus textos parece ter resolvido todos os impasses da humanidade — , Tchékhov era um apresentador de realidades complexas e insolúveis que habitam uma dentro da outra. Também defendia, uma novidade na época, os efeitos benéficos da ciência e do progresso. Porém, apesar de totalmente diferente, Tolstói apreciava muito sua obra.

Em vida, Anton Tchékhov era razoavelmente conhecido, mas não era uma celebridade. Após sua morte, Tolstói disse: “Creio que Tchékhov criou novas — absolutamente novas — formas de literatura que não encontrei em parte alguma. Deixando de lado falsas modéstias, afirmo que Tchékhov está muito acima de mim”.

Naquele tempo, os contemporâneos não deram atenção a esta opinião. Pensavam que o conde já idoso estava a superestimar o amigo, atribuindo-lhe características acima das que merecia. Passados cem anos, vemos agora que Tolstói não estava tão equivocado. Atualmente, na Rússia, Anton Tchékhov encontra-se ao lado dos grandes clássicos: Púchkin, Gogol, Dostoiévski e Tolstói. E, como dramaturgo, está entre os mais célebres e montados autores mundiais.

As mortes de Tchékhov

Anton Pavlovitch Tchekhov sentou-se na cama e de maneira significativa disse, em voz alta e em alemão: ´Ich sterbe´ – estou morrendo. Depois, segurou o copo, voltou-se para mim, sorriu seu maravilhoso sorriso e disse: ´Faz muito tempo que não bebo champanhe´. Bebeu todo o copo, estendeu-se em silêncio e, instantes depois, calou-se para sempre. E a pavorosa calma da noite foi apenas alterada por um estampido terrível: a rolha da garrafa não terminada voou longe.

Olga Knipper, esposa de Anton Tchékhov.

A morte de Tchékhov no balneário de Badenweiler é uma das mais recontadas da historia da literatura. Parece haver enorme sedução na cena do escritor moribundo, sua mulher, seu médico, o estudante que chegou para ajudar e a garrafa de champanhe. Quem pediu a bebida? O médico ou Tchékhov? A sedução é tanta que o grande Raymond Carver escreveu um conto, Três rosas amarelas, no qual narra a cena, só que cheia de detalhes inventados. Talvez isso tenha nascido da narrativa de Olga Knipper, atriz e mulher do escritor. Em seu relato, a cena é contada com tanto, mas tanto romantismo que não parece verdadeira. O cômico sobre sua morte é que a prórpia Olga narrou a morte do marido várias vezes. De forma sempre diversa…

Faz pouco mais de 100 anos que o fato narrado ocorreu. Tchékhov faleceu em 15 de julho de 1904 em Badenweiler, Alemanha. Tinha nascido em 29 de janeiro de 1860.

sábado, janeiro 28, 2012

Memórias - os itinerários do tempo (IV)

Atrapalhava-me perceber que um ato às vezes determinava punição, outras vezes não determinava. Impossível orientar-me, estabelecer norma razoável de procedimento.

Graciliano Ramos, in Infância, p. 89

O povo nordestino é conhecido pela sua natural compreensão acerca do machismo. Machista é aquele indivíduo que adquiriu modos de macho, de machão, que salienta e se orgulha da masculidade. Estes são conceitos que estão amalgamados no interior do povo nordestino. Este é um ponto importante na forma como se vê e interpreta o mundo. Quem nasceu no nordeste e foi criado no ambiente rural, traz em si um pouco desta mancha.

Meu pai e meus avôs estavam dentro desta cultura do macho. Desde cedo somos ensinados a respeitarmos os mais velhos. Menino não deveria se intrometer na conversa de pessoas mais velhas. Quando um adulto estivesse conversando e uma criança decidisse dar uma opinião, era repreendido por olhadelas consumidoras, que afirmavam informações repressoras inteiras. Menino que era menino tinha que saber o seu lugar. A obediência estava vinculada mais ao medo do castigo, do que o respeito que nascia da consciência. Lembro-me que era necessário dar benção aos mais velhos. Ao chegar a determinado lugar onde encontrasse meus avós, tios, mãe, pai, tinha que proferir:

- Benção, fulano! – Ao que o interlocutor respondia:

- Benção, meu filho!

Quando não respondia era repreendido por frases severas, intempestivas:

- Esse menino anda uma coisa séria. Nem parece gente. Parece mais bicho.

Ficava pelos cantos desconfiado, com o olhar pidão, envergonhado por tamanha falta. Prometia a mim mesmo que na próxima ocasião eu me emendaria. Consertaria tudo. Poria remendos grossos naquele ato tão ignóbil. E o pior de tudo é que iam reclamar à minha mãe dos meus modos. Levava outra reprimenda da minha mãe.

Tratava-se de um mundo patriarcalista no qual homens mandavam por, simplesmente, serem homens. Durante toda a minha infância, cresci com este conceito de que “homem é assim”, “homem faz assim”, “homem age assim”.

Um exemplo disso é meu avô materno. Trata-se de uma figura de uma compreensão antiga acerca dos fatos. Descendente de escravos, meu avô é negro, como negra era a minha bisavó. Casou-se duas vezes. O primeiro casamento acabou em desquite. Vivia brigando com a primeira esposa como cão e gato. A mulher não se submetia aos conceitos de meu avô e o resultado eram escoriações e hematomas nos dois.

Casou-se uma segunda vez. Esta outra esposa é a minha avó – ainda viva. Desde os dezenove anos de idade gastando-se na beira do fogo. Vai manhã, vem tarde e ela com a sua paciência pachorrenta e inalterável. Sempre com o mesmo temperamento. Nunca a vi alterada por qualquer ato buliçoso. Desconfio que seja uma santa.

Meu avô era um tipo primitivo, modelo dos antigos senhores de engenho. Pai de todos. Sempre com os beiços enrugados. Numa sisudez de assustar os anjos. A casa do meu avô materno é um asilo de traumas e medos enlatados em conserva. Os filhos têm um respeito – medo – encabulador do pai, meu avô. Ele os criou em regime de servidão. Surras sobejas, trabalho duro e rude foi a alimentação vitaminada que receberam com fartura. Hoje ele está com oitenta anos, mas ainda preserva traços do patriarcalismo antigo e castrante. Um olhar dele ainda arrepia os cabelos da alma dos filhos – meus tios e tias e a minha mãe. Quando era pequeno passei muitos sustos com ele. Um rabo de olho congelava-me as ações, paralisava-me o coração, emudecia a minha loquacidade, mofava os movimentos ágeis e libertários da minha infância.

Uma certa vez acabei passando dois meses sem ir à casa do meu avô. Minha mãe havia me mandado buscar uma caixa de fósforos. Queria fumar. Naquele instante ela estava no rio lavando roupas nas pedras. Deu vontade de fumar, mas ela esqueceu o fósforo. Mandou que eu fosse buscar. Protestei, resmunguei. Finalmente, ela me venceu pela autoridade. Ameaçou-me. Fui contrariado. Menino descalço, galguei a ladeira com xingamentos implícitos em cada frase. Caminhada medonha. A casa distante. Sol a pino no céu. Fui à casa de minha avó buscar a caixa de fósforos. Quando vinha, ainda remoia injustiças. Quando surgiu-me o fantasma da tentação. Ao passar próximo às canas do meu avô, que naquela ocasião estavam pequenas, cobertas pela palha do corte da safra que acabara há poucos meses, risquei o fósforo na matéria seca. A lingüeta do fogo surgiu rápido. Cresceu. Fortaleceu-se com o combustível que estava ali. Perdi o controle do fogo. Tentei abafá-lo. Meus esforços foram debalde. Corri. Não sei quem viu ou apagou o fogo. Dentro de mim, eu tinha consciência de que havia prevaricado. Uma sensação de que havia cometido um crime hediondo. Meu avô com certeza me daria um “lapo”, como ele costumava dizer. Entreguei os fósforos para a minha mãe e fiquei ali quieto. Amofinado. Pensando em qual seria o resultado daquilo tudo. Com a consciência em formigamentos, eu iria ao outro lado da terra se minha mãe mandasse. Mudança abrupta.

Ausentei-me da casa de meu avô. Quando o via à distância, escondia-me. Certo dia minha mãe chegou em casa perguntando:

- Oh!, Carlos, tu tocou fogo na cana do teu avô, foi? Tu não tem o que fazer não, menino? – escondi-me em mim mesmo e gaguejei qualquer explicação bronca.

Meu avô havia contado para ela que o incendiário do canavial havia sido eu. O medo avolumou-se na minha alma. Quase todos os dias eu tinha o costume de ir à casa do meu avô, mas agora não tinha o que fazer. Teria que abdicar das minhas idas até lá. Tentei arranjar uma estratégia. O tempo seria responsável pelo esquecimento. Nada melhor do que a sucessão de dias que sempre traz eventos novos e acaba fazendo com que o passado fique como algo distante, esquecidiço. Após oito semanas decidi ir à casa de meu avô. Cheguei meio desconfiado, pelos cantos. Estudando todos os movimentos. Cada passo seguia uma diligência filosófica. Todavia, a primeira pessoa que encontrei foi meu avô que foi logo dizendo num crescendo de gigante.

- Foi você, seu cabra, que tocou fogo nas minhas canas, num foi? A próxima vez que você fizer isso, você vai me apanhar, tá entendendo? – petrifiquei-me. Certamente ele tinha uma autoridade fabulosa. Certamente ele havia adquirido dos deuses tamanho poder. Como infundia autoridade a sua voz! Era o eco de um trovão que entrava-me pelos ouvidos, machucava-me a interiodade.

Minha tia Lurdes era outra que me ameaçava com sentenças graves. Eu, Zequinha, meu irmão e Ginado gostávamos de ir tomar banho num riacho. Passávamos ali quase todas as manhãs. De manhã quando chegávamos ali as águas estavam limpas. Víamos o fundo como que por um espelho. Ali peixes nadavam e exibiam despreocupação. Começávamos a pular e água rapidamente ficava escura. Achávamos extraordinário. Divertimento de menino. Minha tia não via com bons olhos essa nossa ida – minha e do meu irmão – para o riacho tomar banho. Dizia que íamos pegar doença. A maleita ia nos vitimar. Ela ficava responsável por mim e pelo meu irmão quando minha mãe ia trabalhar na roça.

Fazíamos longas excussões para chegarmos ao riacho. Atravessávamos canavias de folhas cortantes. Peregrinávamos por um caminho três vezes mais distante do que o comum para chegarmos ao córrego a fim de que não fossemos vistos. Cresci num ambiente de moralidade forte. De uma religiosidade forte. De um catolicismo arraigado nas entranhas do povo. Com afirmações como estas: “Menino mal educado pode ser levado pelo papa-figo”. Até hoje não sei quem é esse papa-figo. “Menino que responde os mais velhos, o papai do céu castiga”. Ouvia estas sentenças sem saber divisar muito bem para o que elas serviam. Concentrava-me na sentença grave. A ameaça do castigo plasmava-se na minha mente e ecoava por regiões inteiras da minha alma. “Papai do Céu” devia ser um velho muito ranzinza, como o meu avô para que se zangasse e se importasse com o que as crianças faziam. Imaginava o ente enorme de cabelos alvos como algodão, com uma chibata na mão, pronto a me surpreender quando eu vacilasse. Com certeza, ele era um senhor idoso, que se utilizava da força cósmica para consumir aqueles que transgredissem a moral. Parece que a moral estava apenas do lado dos mais velhos. Eu, simples, criança sobrevivia subjugado pela força de Deus e dos homens.

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Meus Verdes Anos, de José Lins do Rego, é uma obra metalinguística

Após ter lido Meus verdes anos de José Lins do Rego, fiquei com a funda impressão de que aquilo que li era uma obra metaliguística. O livro foi publicado no ano de 1956, ou seja, um ano antes da morte de José Lins, que morreria a 12 de setembro de 1957. Escrever Meus verdes anos foi abrir um baú de memórias com as cores da infância. Era como se o escritor afirmasse: "Aqui está o meu material literário. Isso explica tudo".

Nos parágrafos finais do livro de memórias, o garoto do Pilar explica as suas dores pelo fato do canário Marechal (presente do negro José Joaquim) ter ido embora. Destaco as seguintes palavras: "E mal pus os pés por debaixo da goiabeira, ele voou para longe até sumir-se na distância. Ainda o vi como um pontinho no céu. Vi-o furando o espaço e correndo para o mundo. Lá se fora ele com os cantos que enchiam de alegria as minhas madrugadas de asmático. Lá se perdia ele para sempre, assim como estes meus verdes anos que em vão procuro reter" (o destaque é meu). As palavras em destaque expressam esse desejo de uma tentativa de reter as fragrâncias infância.

José Lins foi "um escritor menino". Nunca esqueceu as suas experiências de infância. É curioso como em Meus verdes anos a força sinestésica dos eventos estão presas em suas descrições. Ele consegue falar em "miado de gato", "chiado de carro de boi"; do "cheiro do capim" cortado pelo negro José Joaquim; da "fragrância" lascivizante de Zefinha; da vulva escura da negra que lhe dava banho e que se abria como uma flor rubra. Lê-lo é imergir num rio imenso, como o rio Paraíba (descrito no livro).

Quando lemos Meus verdes anos, entedemos Menino de Engenho, Doidinho, O Moleque Ricardo, Cangaceiros ou Usina, por exemplo. Acentuamos a compreensão de muitos dos personagens do escritor. Daí é que falamos de uma metaliguagem do livro publicado em 1956.

A obra de Zé Lins é um retrato imprescindível para a formação de uma antropologia do homem do nordeste em dado momento histórico. Assim como a obra de Balzac mostrou a França burguesa - seus costumes, hábitos, valores e doenças -, Zé Lins mostrou como nenhum outro o retrato das oligarquias do açucar e o tipo de sertanejo que é formador do homem regional brasileiro - o cangaceiro; o homem religioso; a ligação inconsciente com a igreja. Revelou os aspectos ecônomicos - a ascensão e a decadência dos engenhos. José Lins escrevia sem preocupações de engajamento e compromisso aparentes. Ele escrevia porque tinha o que dizer, como que para libertar-se das várias vozes que ele havia captado em sua infância.

Estou desejoso para ler, ainda, Usina, Pureza, Moleque Ricardo e Riacho Doce nesse primeiro semestre. Como é bom e gostoso ler José Lins do Rego, o escritor menino!

segunda-feira, janeiro 23, 2012

Dogville, uma obra magnífica

Fiquei com uma sensação de espanto após ter terminado de assistir ao filme Dogville de Lars von Trier. Tive que fazer uma concessão - Trier é "o cara"! Fiquei afrontado com o Anticristo. Julguei que o diretor dinarmarquês havia desferido golpes demasiados no juízo do espectador. Havia feito um filme para chocar; chamar a atenção para si; propalar que ele era/é "o melhor" e fazia o que bem queria. Mas após assistir a Dançando no Escuro e a Dogville, percebi uma dimensão religiosa nos filmes de Trier; aquiesci que Trier é muito bom. Talvez lhe falte apenas um pouco de humildade.

Em Dançando no Escuro, filme de 2000, protagonizado pela islandesa Björk, Trier consegue produzir uma das obras mais belas dos últimos tempos. Um musical repleto de uma linguagem sensível, terna, angélica. Selma, a personagem de Björk, é um anjo encarnado. Sua bondade é tão extrema que nos atinge. Deixa-nos enraivecidos. Trier consegue transferir emoções fortes, instigando o espectador a sentir-se dentro do filme. Sofremos com a personagem. Reunimos argumentos internos para afirmar: "Não faça isso, Selma! Não é necessário se entregar dessa forma. Seja autêntica!". Mas a obra caminha para outro rumo. O final é surpreendente.

Já em Dogville, Trier propõe uma tese anti-humana. Seu dogmatismo nos deixa de queixo caído, exemplificando em mais um caso a sua religiosidade. A obra chega a ser quase uma metáfora bíblica da história de Sodoma e Gomorra. Segundo o livro de Gênesis, estas duas cidades foram alvo da ira divina por causa da maldade dos seus moradores. Em Dogville, Grace (Nicole Kidman) chega à cidade de Dogville e pede abrigo. Ela chegara à cidade porque estava sendo perseguida por gângsteres. Os moradores da estranha cidade reúnem-se em conselho e decidem deixá-la entre eles. Talvez aqui o diretor queira fazer uma crítica contundente à ideia de democracia. O nome Grace ("graça" em português) é outro elemento que nos chama a atenção. Segundo os teólogos, graça é uma bondade oferecida pelas mãos divinas. Ou seja, é aquilo que se recebe sem que se mereça. A personagem Grace começa a oferecer a sua ajuda imaculada aos moradores. Não pede nada em troca. Queria apenas ser aceita pelos cidadãos de Dogville. Eles acham por bem remunerá-la pelos trabalhos.

O que nos impressiona é a fotografia do filme. Trier monta os cenários como Brecht em seu cinema político, naquilo que ficou conhecido como "o teatro do absurdo". Lembrei de Mãe Coragem, peça do dramaturgo alemão que vi há algum tempo atrás. Os planos nos dão uma experiência de totalidade teatral. Enquanto uma cena se passa no primeiro plano, vemos no transfundo, o que acontece com os demais personagens e com a cotidianidade da cidade. Desse modo, a estrutura do filme possui nove capítulos e um prólogo. Um narrador onisciente nos conta a história, como se tudo fosse uma faz de conta.

O dogmatismo da tese de Trier começa a se acentuar quando a polícia começa a fazer visitas à cidade à procura de Grace. A partir desse momento, os moradores revelam o seu lado cruel. Resolvem duplicar o trabalho e tratar Grace, "a graça", de uma maneira insensível. É repreendida por muitos daqueles que outrora a tratavam bem. Passa a ser alvo da lascívia dos homens da cidade, tornando-se numa espécie de Geni da música cantada por Chico Buarque. A comunidade passa a "jogar pedra na Grace". As injustiças revelam o lado asqueroso da "cidade dos cães". O nome Dogville passa a fazer jus à cidade. O intelectual e reflexivo Thomas Edison Jr. tenta ajudá-la, mas por sua vez, suas iniciativas são patéticas e infaustas. Talvez, resida nesse sentido, uma crítica ao papel ineficiente dos intelectuais. A falta de eficácia. As teorias rebuscadas e que grassam poucos resultados na realidade efetiva. O discurso vago e desarticulado. A falta de coerência com o mundo prático.

Como uma grande obra que é, o filme permite inúmeras leituras - teológica, histórica, sociológica, filósofica. Por exemplo, para alguns críticos, Dogville é uma metáfora da sociedade americana e sua aversão ao estrangeiro. A visão estagnada para o outro. Ou seja, para aquilo que vem de fora. Outra leitura mais globalizante, seria aquela que fala da condição humana. Nesse sentido, Trier caminha na direção contrária do "bom selvagem" de Rousseau. No fundo, a obra nos passa a mensagem de que os homens são deliberadamente arrogantes, gananciosos, lascivos, egoístas e grávidos pelos próprios interesses. Segundo, o filme não há salvação para a humanidade.

Fiquei verdadeiramente impressionado com as cenas finais do filme. O pai de Grace, o gângester (que queria partilhar o seu poder com a filha), acha-a. E os diálogos são de uma visceralidade filósófico-teológica que beiram o absurdo. Ao chegar à cidade, o gângster indaga a Grace se ela deseja que a cidade seja aniquilada. Curiosamente, ninguém vê o rosto do pai, como se este fosse um poder invisível que decide o destino dos homens. A personagem de Nicole Kidman, conversa com o todo onipotente pai sobre o poder e sobre o destino da cidade. E, por final, Grace resolve solicitar ao pai que reduza a nada a cidade. O diálogo de Grace com o pai nos faz lembrar a conversa do texto bíblico entre o patriarca Abrãao e a divindade de Israel quando da destruição das cidades já mencionadas - Sodoma e Gomorra.

O próximo filme que eu verei será Melancholia (2011). Quando vemos filmes como este nos indagamos: "Será que o cinema americano terá condições de produzir algo assim?" Mas não sejamos dogmáticos!