Dando uma zapeada pelo Youtube e vendo alguns vídeos do Jethro Tull, eu acabei encontrando esse registro fantástico. Trata-se de uma entrevista realizada pelo Jô Soares com o Ian Anderson em 1990. Anderson mostra-se, na entrevista, o grande artista que é e sempre foi - inteligente e com um grande senso de humor. No final, os caras ainda tocam duas músicas. Muito bom!
sexta-feira, maio 17, 2013
domingo, maio 12, 2013
O absurdo de existir - O estrangeiro, de Albert Camus
Terminei a leitura de O estrangeiro, de Albert Camus, escritor existencialista franco-argelino e fiquei pensando nas cenas do último capítulo. O livro é uma narrativa curta. Fácil. De leitura de fluência prazerosa. O que impressiona no livro é a carga densa de filosofia instilada da existência da personagem Meursault. O Estrangeiro talvez seja a obra mais conhecida de Camus, juntamente com A peste e o Mito de Sísifo.
O livro, ao meu modo de ver, é dividido em três momentos: (1) a descrição inicial da vida e da morte materna da personagem principal, Meursault; sua vida de trabalhador de um escritório e suas preocupações burocráticas; e a atividade sexual com Marie. (2) o assassinato cometido por Meursault, seu julgamento e a sentença de morte. (3) a consciência adquirida por Meursault na cadeia. O último capítulo, por exemplo, é aquele que mais me chamou a atenção.
Após ter sido condenado à morte pelo tribunal, Meursault é recolhido à prisão e passa a ruminar a existência. Rejeita a visita do capelão da prisão por diversas vezes. Até que certo dia, este aparece e tenta estabelecer um diálogo com uma finalidade bem óbvia: o arrependimento e a conversão à fé, como fica claro no diálogo estabelecido pelos dois. Todavia, Meursault se nega a este artifício. O padre tenta derrogar a obstinação de Meursault, mas em vão.
É curiosa essa citação do livro: "Mas todos sabem que a vida não vale a pena ser vivida. No fundo, não ignorava que tanto faz morrer aos 30 anos ou aos 70 anos, pois, em qualquer dos casos, outros homens e outras mulheres viverão, e isso durante milhares de anos". (p. 114). Impressiona o niilismo dessa afirmação e aqui chegamos, talvez, a um dos fundamentos básicos da filosofia de Camus: o absurdo. O que é viver? Para quê serve a vida? Em que ela deve se sustentar?
Para explicar isso, é conhecido a alegoria criada pelo escritor em um ensaio de 1941, conhecido como O mito de Sísifo, para exemplificar em que a vida está estribada. Segundo ele, Sísifo, personagem da mitologia grega, foi condenado pelos deuses a rolar uma pedra de peso e proporções enormes por um aclive. O trágico da existência de Sísifo é que, todas as vezes que ele chegasse ao cume da montanha, a pedra rolaria monte abaixo. E Sísifo empreenderia a ação infinitamente, sempre de maneira infausta e deprimente. O seu esforço redundaria sempre em insucesso.
Como um bom existencialista, Camus sabia que a única possibilidade é, de enquanto rolamos a pedra montanha acima, nos ocuparmos com um projeto que abra janelas de sentidos. É assim que surge a frase como um lampejo de luz nessa atmosfera agônica e trágica em O estrangeiro: "Mamãe costumava dizer que nunca se é completamente infeliz. Mesmo na prisão..." (p. 113). Ou seja, mesmo condenados a vivermos no absurdo podemos experimentar as cintilações de beleza do universo. Mas a pedra... ah! a pedra rolará, pois estamos condenados a isso...
P.S. Luchino Visconti, que adaptou belamente Morte em Veneza, de Thomas Mann, filmou em 1967 O Estrangeiro, de Camus. Vale a pena ver. Pode ser encontrado no Youtube.
sexta-feira, maio 10, 2013
"As convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras"
Diz Paulo Freire em sua Pedagogia do Oprimido que não é possível manter uma relação dialógica com quem não comungue com o seu projeto ideológico. Pensava que existia um certo radicalismo nessa assertiva, até que ontem percebi que o educador pernambucano estava correto. Nietszche diz também em um dos seus livros que "as convicções são inimigas mais perigosas da verdade do que as mentiras".
Faço essa divagação, pois ontem tive o desprazer de tentar estabelecer um diálogo com um sujeito o qual estudei em um seminário teológico. Nos anos de seminários, notava o quanto o sujeito era "quadrado", radical; o quanto baseava seus argumentos em convicções extremadas. Ontem, pelo Facebook, fiz uma correção a uma afirmação sem fundamento histórico colocada por esse ex-colega e ele me respondeu com uma ironia despropositada. Além do que, enviou-me um texto que, quando li, dei grandes risadas.
O texto busca desqualificar o marxismo, fazendo uma mixórdia de afirmações desencontradas. Fiquei com a impressão irônica de que a principal função de Marx era perseguir o cristianismo e acabar com a religião de Paulo. Um verdadeiro desbunde. Imaginei, ainda, que (se eles - construtores de teologias alienígenas - leram os textos de Marx) eles haviam lido outros textos, que não aqueles escritos pelo autor de O Capital. O nome dado pelos adeptos desse radicalismo esquizofrênico é "marxismo cultural". Marxismo cultural seria o movimento de cunho cultural, alimentado por intelectuais e pelos meios de comunicação de massa para arruinar os valores judaico-cristãos.
O que me chamou atenção foi a incapacidade do sujeito ler os fatos por uma perspectiva crítico-dialética. Ele se diz professor de Filosofia no estado do Maranhão. Temi pelo que o sujeito anda ensinando para os sues alunos. Afinal, ele colocou o socialismo, o nazismo e o fascismo na mesma esteira de comparação. Ele ignora o fato de que foi a União Soviética que derrotou o nazismo. Não quero entrar no aspecto do socialismo real implementado pela União Soviética, já que sempre associam o socialismo às ditaduras variadas. Todavia, vivemos, também, uma ditadura muito bem-disfarçada sob a égide da democracia e da liberdade.
Indicou-me alguns escritores aos quais já tive a oportunidade de conhecer - Peter Kreeft, Olavo de Carvalho, Nancy Pearcey, Charles Colson, William Craig, John C. Lennox. A maioria deles, da direita ultra-conservadora dos Estados Unidos. Ou seja, defensores da política de Bush.
O que me deixa impressionado é saber como um sujeito que se arroga a ser formador de opinião se mostra tão míope. Sua preocupação mais intensa é o movimento homossexual. Desconhece o sujeito que os valores morais seguem a lógica de cada momento da dialética da história. E que a própria sociedade judia possuía os seus valores e esses foram cristalizados no tempo pelo movimento religioso que dogmatizou os seus aspectos culturais. Impressiona-me como os valores culturais de uma determinada sociedade, no caso a judia, por meio dos valores ditos bíblicos, cegam um ser humano ao ponto de descaracterizar, distorcer a própria realidade em que vive. Impressiona-me perceber que, como no Mito da Caverna de Platão, alguém enxerga o mundo por meio de sombras. Assusta-me o nível de embrutecimento gerado pelas convicções da fé. Isso explica, por exemplo, a atitude de um homem-bomba ou a capacidade de ser implacável com os diferentes.
Paulo Freire e Nietzsche me fizeram entender um pouco mais sobre a natureza do humana, demasiado humana.
quinta-feira, maio 02, 2013
Filme "Criação" - sobre a vida de Charles Darwin
Assisti, ontem à noite, ao filme Criação (2009), do diretor Jon Amiel, que trata sobre a vida de um dos homens mais comentados e polêmicos da história, Charles Darwin. A obra é boa sob vários aspectos. Todavia, percebemos outros elementos de cunho ficcional que foram inseridos para aumentar o drama sobre a vida do inglês.
O filme possui uma fotografia belíssima. Passa-se na Inglaterra vitoriana, época em que a religião e o moralismo, baeado nas ideias divinas, possuíam uma força disciplinadora. Assim, a obra busca mostrar dramas físicos, espirituais e mentais enfrentados pelo inglês antes da divulgação de A origem das espécies, de 1859. O fato é que Darwin relutava consigo mesmo antes divulgar uma teoria que poria em xeque o ideal criacionista de que todas as coisas emanam da vontade de um criador bondoso e benovolente.
Darwin passa entender, por meio de suas observações, que existe um gládio na natureza. Sua grande viagem pelo mundo realizado no HMS Beagle (1831-1836), fê-lo compreender empiricamente que, na natureza, os romances são dispensáveis. O que prevalece é a força e a imparcialidade. O mais forte sobrevive e transmite aos seus descendentes as suas características. Para que uma espécie sobreviva é necessário, muitas vezes, que prevaleça sobre a mais fraca. Isso fica claro numa das cenas do filme, quando Annie diz para seus irmãos ao perceberem uma raposa matar um coelho indefeso: "A raposa tem que comer o coelho, se não os bebês da raposa morrerão. É o equlíbrio das coisas".
Ou seja, Darwin não é a-religioso. Deve se entender que a existência filósofica do conceito de moral, amor ou compaixão é um elemento fincado no mundo humano. Na natureza não existem bondades. Apenas a luta de cada espécie para gerar descendentes férteis e sobreviver. A verdadeira luta de todas as lutas na natureza, é a luta pela vida. A grande questão em Darwin é que ele tirou a cabeça dos homens do mundo das ideias; das explicações religiosas e não sustentadas por uma base empírica, portanto, científica, e as colocou no mundo natural. É como se ele dissesse: "Escutem! Todas as explicações para compreendermos todas as coisas estão aqui". Os argumentos da religião atuam nas lacunas. Se não se pode entender ou explicar com argumentos plausíveis, fala-se: "Não podemos especular ou contradizer as escrituras ou as coisas de Deus".
No filme, o amigo de Darwin, Thomas Huxley, que foi um dos maiores defensores da teoria no século XIX, diz: "Você matou Deus". Penso que Darwin não matou Deus. Talvez, sim, do ponto de vista da logicidade e da desnecessidade de colocar Deus no cerne da teoria. Afinal, não há lugar para um criador em sua teoria. Deus pode continuar a existir na cabeça daqueles que acreditam em sua existência, sem que interfira nas coisas da ciência. Darwin lutava contra as consequências da divulgação de suas ideias, pois há muito que ele deixara de crer em um criador. Haveria uma desagregação generalizada, no seu entender. Como as pessoas, as sociedades ficariam? Pensava em sua mulher.
O filme é bom. Todavia, exarcerba no dramalhão envolvendo Darwin e a morte de sua filha, Annie. Em alguns momentos dá a entender que o vetor principal que atrapalhava Darwin para não pulblicação do livro foi a morte da filha. Ela parecia exercer, no filme, um fascínio fantasmático. Segundo seus biógrafos, a morte da filha em 1851, encorpou a sua não crença na religião. De qualquer forma, é uma excelente obra para conhecermos um pouco mais sobre a vida de um dos maiores cientistas de todos os tempos.
quarta-feira, maio 01, 2013
Rubem Braga - "um poeta espião da vida"
"Um escritor é um homem cuja matéria de trabalho é a palavra. Sua diginidade consiste em dizer a verdade, isto, reivindicar para cada palavra o seu valor".
Rubem Braga, in Retratos Parisienses, p. 126
Este ano, o nosso país comemora o centenário do nascimento do escritor capixaba Rubem Braga, um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro no século. O que é singular em Braga é que ele se tornou uma referência literária apenas escrevendo crônicas. Escreveu mais de 15 mil. Um número bastante expressivo. Morreu em 1990.
O primeiro contato que tive com o escritor nascido em Cachoeiro do Itapemirim foi no livro "Ai de ti, Copacabana", que li em 1998. Revisitei-o outra vez alguns anos mais tarde. Trata-se de um dos livros mais belos que já li. É curioso perceber como alguém conseguiu dominar com tanta maestria esse estilo literário. Afonso Romano Sant'Anna, outro excelente cronista, diz que "o cronista é um escritor crônico". Mais que um jogo de palavras, a frase quer apontar a contumácia, teima, a produção pródiga do cronista. Para o cronista, tudo é motivo para se produzir - a mulher, o dia, a manhã, a criança que brinca no pátio, os problemas da política, os intelectuais, o ônibus lotado, a árvore, a mulher que espera o homem, o velho sentado na praça etc.
Com Rubem Braga esse fato tornou-se algo efetivo. Em "Ai de ti, Copacabana", Braga desfere golpes com pétalas de flores. Seu olhar é privilegia o instante. Observador preciso, Braga parece contar as palavras para exatificam esse instante. As crônicas mais belas do livro são aquelas que ele se voltou para um fragmento do tempo, como um observador que se atém em um pedaço de uma paisagem.
Terminei a leitura de um livro recente, editado pela José Olympio. E, mais uma vez, pude recuperar a emoção de ler o Rubem. O livro, lançado este ano, se chama "Retratos Parisienses". Fiquei sabendo da existência do livro na edição de março da Revista Cult. Trata-se da compilação feita pelo professor de Literatura Brasileira e poeta Augusto Massi. O livro reúne crônicas inéditas, escritas em 12 meses em que Braga esteve em Paris - entre 1950 e 1951.
O livro busca mostrar outra faceta do escritor - o de cronista cultural. No livro, Braga centra o foco sobre importantes personalidades artísticas e políticas da Europa do pós-guerra - Sartre, Thomas Mann, Picasso, Cocteau, Andre Bretton, Marc Chagall, Juliette Gréco, Louis-Ferdinand Céline entre outros. Braga, apesar de ter ido a Paris como jornalista, subverte, quando entrevista algumas dessas personalidades, a ideia jornalística de que uma eentrevista deve ser realizada com perguntas e respostas.
É interessante notar a habilidade preservada de Braga, no livro, para descrever de forma incisiva e contundente, os traços de determinada pesonalidade. Ele consegue, com poucas palavras, fornecer uma imagem precisa do retratado. Por exemplo, quando descreve Cocteau, usa as seguintes palavras de uma precisão assustadora:
Não sei a idade de Cocteau; deve estar entre os cinquenta e os sessenta anos; os cabelos são grisalhos sobre a testa alma mas fina; há uma coroa, que os cabelos não chegam a dissimular bem, como se ele fosse um padre renegado. A cara magra, nervosa e triste, talhada de rugas; o nariz bem-traçado e firme; a boca pequena, as orelhas pontudas agarradas à cabeça. Tudo isso lhe dá um ar mesmo tempo de cansaço e de atividade; os olhos pequenos, as pálpebras fatigadas, são alternativamente vivos e sonhadores. Fala com rapidez e facilidade, e sua conversa prende, proque passa incessantemente de observações práticas e precisas para coisas de poesia e sonho. Sente-se que ele vive a um só tempo nesses dois mundos; confunde-os em só, a que chama realidade.
Percebe-se em Rubem a habilidade para o ofício de escrever. As palavras eram arranjadas de forma matemática. Ele garimpava a palavra. Burilava. Dispensava o superflúo. Como diz André Seffrin, Rubem Braga era "um poeta espião da vida".
quinta-feira, abril 25, 2013
Manguel - sobre leituras, juventude e o nosso tempo
"O intelectual não tem prestígio numa sociedade em que o que vale é o
financeiro. As pessoas falam todo tempo que as crianças e os jovens não
leem. Não é um problema isolado, mas consequência. Instruem a não nos
ocuparmos de coisas que tomam tempo, que são profundas, lentas ou
difíceis. Dizer que o intelectual não tem importância hoje leva aonde? É
um tema mais profundo: que tipo de sociedade estamos propondo. Hanna
Arendt define cultura como aprendizagem da atenção. Aprender a prestar
atenção. Toda a cultura que alimentamos hoje é contra a atenção, com um
elenco de gadgets que requerem um salto constante de uma coisa a
outra. Interrupção de toda atividade pelo toque do celular, de e-mail,
do que seja, o que implica que a conversação atenta e longa é menos
importante. Uma estrutura estética para todas as artes visuais em que a
duração do período de atenção, o parágrafo visual, é demasiadamente
breve.
O sistema utilizado pelas séries televisivas é formulado assim:
alguém fala algo, o outro responde, segue nova cena. Há um corte rápido
para dar lugar ao comercial, também editado muito freneticamente. Tudo
contribui para a educação da atenção breve. Educam-se as crianças para
que não dediquem a algo atenção maior do que cinco minutos. Depois de um
minuto já muda de canal ou deixa o que está fazendo, muda a
conversação. Isso é grave porque o tempo de reflexão deveria ser mais
longo do que o tempo de observação. Vejo algo e logo precisaria de tempo
para pensar, discutir ou experimentar novamente se fosse o caso.
Estamos eliminando isso de nossa sociedade, para dar lugar ao elemento
mais necessário que temos hoje, que é ser consumidor. Este necessita não
refletir nada, não prestar atenção, porque um consumidor que preste
atenção, que reflita quando olha um jeans a 500 euros pode achar
ridículo e pensar: por que comprar? Se ele refletir, não irá comprar,
não irá consumir. É fundamental que ele veja a publicidade e diga “eu
quero comprar”, e passamos à próxima etapa ou fase, como num videogame.
Isto parece ser o problema essencial. Civilização do espetáculo, como
fala Llosa, sim. Mas por quê? Como? E, sobretudo, o que fazer para
mudar?"
(Alberto Manguel, in Revista Cult, no. 178, mês de abril)
Entrevista completa aqui
domingo, abril 21, 2013
Sobre o excelente filme romeno "Os Contos da Era de Ouro"
Nicolae Ceausescu governou a Romênia de 1964 a 1989, ano em que foi assassinado, após a Revolução Romena. O povo se mobilizou para depor o governo do Chefe Supremo, como se auto-intitulou Nicolae Ceausescu. Nos anos que antecederam esse momento tão marcante da história recente da Romênia (que foi único país o qual o comunismo terminou de forma violenta), o regime de Nicolae Ceausescu foi controverso. Suas medidas levaram o povo a passar fome e privações materiais de toda sorte. Mas mesmo em face disso, Ceausescu intitulou os 15 últimos anos de seu governo como a "Era de Ouro".
Em 2009, saiu o excelente filme "Os Contos da Era de Ouro", dirigido pelo consagrado Cristian Mungiu (ganhador da Palma de Ouro em Cannes, 2007) e quatro outros diretores - Hanno Höfer, Constantin Popescu, Ioana Uricaru e Razvan Marculescu retratando esse momento. O filme não tem por finalidade "debochar" ou "achincalhar" o regime do Nicolae Ceausescu, mas, no fundo, fica essa impressão. Em seis fantásticas histórias, o telespectador entra em contato com um estudo bem realizado de como os momentos de dificuldade de um povo pode fazer surgir as mais diversas e hilariantes saídas. Busca, de forma bem humorada e irônica, mostrar como um povo é capaz de construir um "jeitinho".
Enquanto assistia ao filme, pensei o quanto a obra também fala do Brasil. Afinal, não existe, no mundo, um país em que a ideia de "jeitinho" seja levada tão a sério quanto no nosso. Pagamos um alto preço por causa disso. Quando ele nasceu? O filme nos passa ideia de que essa "esperteza" é o modo de "respirar" em momentos dificéis. Se isso é verdade, quando foi que começamos a utilizar o jeitinho? Por quê não o deixamos? Estamos ainda em dificuldades? Ou nos acostumamos com a "malandragem"? São perguntas para serem refletidas e discutidas em moutro momento.
No filme, as histórias são muito bem urdidas. Pelo menos em duas ou três eu ri bastante. Uma delas conta a história de um líder Ocidental que vai visitar a Romênia. Na foto oficial, o presidente Ceausescu pareceu menor do que o visitante. A partir desse ponto começa a rocambólica saga de dois fotógrafos para colocar um chapéu na cabeça do venerável líder para ser veiculado pelos jornais do país. Uma montagem é feita. O chapéu é colocado na cabeça de Ceausescu. Todavia, graças a uma desatenção, Ceausescu parece na foto com dois chapéus. Quando perceberam já era tarde demais. Os jornais já haviam sido rodados e enviados a todos os cantos da Romênia. Começa o esforço hilariante dos membros do Partido para recolher os jornais.
Outra história curiosa é a da visita oficial a um vilarejo afastado. Outra ainda é "A lenda do policial ganancioso". Esta, a última história do filme. Ri bastante com ela. O policial ganha um porco vivo do cunhado e diante da impossbilidade de matá-lo (ele não queria dividir com ninguém os despojos do animal), tenta asfixiar o animal com gás butano. Ri bastante com essa história.
O que fica claro em cada uma das seis histórias é o quanto os regimes totalitários naufragam no rídiculo e nas aparências. E o quanto o povo consegue driblar a burocracia, o aparato repressor do Estado e toda o senso doutrinário que redunda sempre em artificialidade. Apesar de aparecerem como lendas, as histórias me pareceram bem reais. Muito bom!
quinta-feira, abril 18, 2013
Algumas palavras de Affonso Romano Sant'Anna
Affonso Romano Sant'Anna é um intelectual de grande quilate. Gosto de sua serenidade profunda; de sua fala fácil, grácil, eivada por conceitos complexos da literatura, da filosofia ou do mundo político atual, abordados, sempre, de forma leve e didática. Affonso é daqueles intelctuais que podemos ficar a ouvir de forma ininterrupta por horas e horas por suas muitas qualidades. Aqui, neste pequeno tracho selcionado pela Saraiva, temos o poeta falando sobre seu encontro com Manuel Bandeira ainda adolescente, sobre a juventude, a ideia tempo para os jovens, a arte pós-moderna e um conselho para os escritores iniciantes. Muito bom!sábado, abril 13, 2013
"O Idiota, de Dostoévsky, e o ideal de homem perfeito
"...perguntamos pelo bem não ignorando a vida, mas entrando nela. A própria pergunta pelo bem faz parte da nossa vida, assim como nossa vida pertence à pergunta pelo bem. A pergunta pelo bem é formulada e respondida em meio a situações definidas e ao mesmo tempo inacabadas de nossa vida, únicas e ao mesmo tempo transitórias, em meio a ligações vivas com pessoas, coisas, instituições, poderes, isto é, em meio à nossa existência históricas. A pergunta pelo bem é inseparável da indagação pela vida, pela história".
Dietrich Bonhoeffer, Ética, p. 120
Terminei a leitura, no dia de ontem, de O Idiota, de Dostoiévsky. Consumei, com grande expectativa e pesar, a leitura densa, complexa, de um dos livros mais fasntásticos entre os escritos pelo russo. A leitura se deu de forma irregular. O muito trabalho me impossibilitou de ler com disciplina. Li a maior parte de suas quase 700 páginas no metrô de Brasília - indo e voltando, de segunda a sexta-feira. Trajeto realizado em uma hora de minha casa para o trabalho - meia hora para ir e meia hora para voltar.
A príncipio, o que dizer de O Idiota? É um livro que nos deixa meio atordoados pela complexidade, pela profusão de temas, de diálogos densos, elétricos, arrebatadores; pela complexidade das personagens escuras. O que é o príncipe Michkin? A materialização da metafísica da bondade. Dostoiévsky nos coloca ante o pessimismo e o otimismo; ante o bem e o mal; ante a mesquinhez e a solidariedade. Michkin é tão bom, tão repleto de qualidades, que não se assemelha a um ser humano. Ele é um ente espiritual de bondade extrema, qual um Cristo que desce, mais uma vez à terra, para uma travessia experimental a fim de fazer uma incursão existencial amorosa entre os homens daqui. Em compensação, as outras persongens são modelos de vileza, ganância, loucura, interesse, arrogância e egoísmo. As personagens são mesquinhas em suas intenções. Forjam ardis. Agem motivadas pela vaidade.
E tudo aquilo que engendram, apenas serve de antagonismo àquilo que Michkin é. Ele possui uma moralidade lisa. Nada o toca. Nada o atinge. Ele é o modelo de homem perfeito. Um modelo ideal de cristão quixotesco, radical em sua essência como, por exemplo, na discussão suscitada em torno da religião. Ele representa o modelo ideal do grande homem russo. É a antítese do materialismo ocidental. É a força do cristianismo oriental-bizantino. Michkin critica o catolicismo como sendo uma religião deformada, falseadora do verdadeiro Cristo. Roma se assenhoreou, pela força, do poder e prega o anticristo, que a ausência de Cristo. Voa altaneiramente acima das mesquinharias dos homens burgueses, maculados pela natureza deformada.
A análise psicológica das personagens impressiona. Nastasia Filippovna Barashkova é um modelo exuberante e escandoloso nesse sentido. A moça guardava qualquer coisa de misteriosa. Possuía uma força oculta, uma loucura irremediável. Michkin a ama. Encanta-se por ela, mesmo estando cônscio dessa sua natureza partida. Ele a ama como um ente santo, enquanto, Rogozhin, outro personagem, ama-a odiando. Aqui fica claro o quanto o príncipe se mostra um modelo de virtude nas mais variadas situações.
O príncipe Michkin se constitui um modelo singular dentro da literatura de Dostoiévsky. Ele parece em seu ideal, um Raskholnikov reabilitado. Enquanto a paixão em Raskholnikov o emula para um ideal criminoso, mas mesmo assim, habitado por um forte senso filósofico, a força bondosa que existe em Michkin, impele-o sempre para o bem. É patente a ligação da personagem com aquela ética mais sensível dos evangelhos. Por exemplo, quando Michkin toma um soco e não reage. Ou seja, uma clara alusão à passagem de Mateus 5.39,40,41 ("...não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; e, ao que demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas").
Michkin é a materizalição dessa ética. Ele leva à frente esse ideal propugnado pela ética cristã. A força do seu caráter possui contumácia e regularidade. Jesus nos evangelhos diz: "Sede perfeitos". E Michkin parece possuir um motor moral que o torna a exatificação desse imperativo. A face mais real desse ideal.
Cheguei à seguinte constação pela complexidade caótica de O Idiota: por mais que leiamos dez vezes a obra, ainda assim, seus temas e profundidado não se esgotam. Dostoiévsky era um sujeito absurdamente religioso. Michkin seria aquilo que ele tinha como valor ideal de homem perfeito? A leitura dessa obra torna-se mais grandiosa à medida que entendemos que existe uma moralidade cristã ideal e que era alvo do romancista. Michkin certamente se coloca aqui como substrato desse fato. Ele é a compilação do mais alto nível de perfeição dentro da literatura.
Próximo livro do russo: "Os demônios". Sigamos, pois os horizontes são imensos.
sexta-feira, abril 12, 2013
"Em nome de Deus" e algumas afirmações sobre Pedro Abelardo (1079-1142)
Na última quarta-feira, 10, assisti, pela terceira vez, ao filme Em nome de Deus, de 1988. Clive Donner é o diretor. O filme é muito bom. Conta a história de amor entre Pedro Abelardo, filósofo medieval, e Heloísa, literata de mente arguta e inquieta. A obra busca colocar em primeiro plano a história de amor entre os dois, passando-nos alguns lampejos do pensamento de Abelardo. Segundo Le Goff, quando Abelardo se enamora por Heloísa, esta possui 17 anos e, aquele, 39. Até aquele momento o pensador vivera de forma casta. Mas a paixão pela jovem desatou-lhe os nós da prudência. A maior parte do romance se passa na casa do tio de Heloísa, Fulbert. Este toma inimizade pela relação dos dois.
Então, desde a última quarta, ando inquieto para saber mais sobre o pensador. A Idade Média é um período sempre gerador de curiosidade por mim. É um dos momentos mais fantásticos da história humana. Há muita produção filósofica nesse período. Aquele preconceito iluminista de que se trata da Idade das Trevas acabou gerando equívocos. Afinal, foi nesse período da história que viveram pensadores extraordinários como Santo Agostinho (final da história antiga e início da Idade Média); João Escoto Erígena, Anselmo, Alberto Magno, João Duns Escoto, Boaventura, Tomás de Aquino, Guilherme de Ockham, Mestre Eckhart, Pedro Lombardo, Alberto Magno, Avicenna, Averróis (ambos do mundo árabe) e o próprio Pedro Abelardo. Assim como o século XI foi o século de Alnselmo e, o século XIII seria o século de Tomás de Aquino, o século XII foi o século de Pedro Abelardo.
O filme de Clive Donner nos passa imagem de Abelardo como sendo um professor exemplar. Um pensador refinado, revolucionário, que se colocava à frente do seu tempo na aplicação dos métodos pedagógicos. Seus alunos o veneravam, respeitavam-no; possuíam uma vida de amizade e saber constante com os seus pupilos. O pensador consagra a dúvida como um instrumento de aprendizagem. A dialética era a sua ferramenta de averiguação.
Para o pensador a razão (ratio) possuía um protagonismo essencial. Todavia, a razão não era um instrumento capaz de desautorizar a Bíblia. A ratio era um instumento de afinamento, de ajustamento para que o inquiridor entendesse melhor. Assim, a razão ajustava o foco para o verossímil. Ele sabia que a razão era limitada, mas pensar dessa forma em pleno século XII era por demasia avançado. A fé absorvia a razão, fazendo com que o discurso filósofico não absorvesse a razão, mas o facilitase e o tornasse acessível. A razão não justificava a fé, mas tirava esta de um mero mecanicismo.
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| Abelardo e Heloísa em casa de Fulbert |
No campo da ética, Abelardo coloca a consciência como centro das intenções do agir ético, regulado por uma lei que emanava de Deus. Para ele, existe uma intenção pré-moral em todo homem. Por exemplo, desejar uma mulher. Em sua concepção, nesse fato não havia uma transgressão. Todavia, o problema ético residia no fato em se dar voz a essa intenção. Ou seja, o problema ético está centrado no obedecer aos próprios desejos e não atender à lex divinae.
Seus pensamentos possuíam tanto fermento crítico e, indicavam um novo viés metológico, que acabou tendo suas ideias sendo rechaçadas e condenadas em dois concílios (Soissons, em 1121; e Sens, em 1140. Jacques Le Goff vai dizer que Abelardo é a "primeira grande figura do intelectual moderno".
Pedro Abelardo, morreu em 1142.
P.S. Algumas informações de cunho histórico foram extraídas do livro História da Filosofia - volume 1, de Giovanni Reale e Dario Antiseri, da Editora Paulus; e do livro Os intelectuais na Idade Média, de Jacques Le Goff, editora José Olympio.
quinta-feira, abril 11, 2013
"...pode alguém ser deveras feliz?"
Somente a literatura para definir o que as religiões tentam entabular em discursos afetados e alambicados - e com mais beleza - onde, de fato, mora a beleza em um mundo grávido de instabilidades e devires. Parafraseando Richard Dawkins: já não basta a beleza do jardim, por que se deve imaginar que ali moram fadas?
"... pode alguém ser deveras feliz? Posso eu, por exemplo, me considerar infeliz só porque sou doente, só por causa do meu caso triste? Mas se posso ser feliz! Palavra que não entendo como é que existe gente que ao passar por uma árvore não se sinta feliz em vê-la! Como pode uma pessoa conversar com outra e nã osentir felicidade em amar essa outra pessoa? Estão entendendo? O que digo é certo, exato, nítido! Só que nã oconsigo me exprimir certo... E que de coisas inefáveis deparamos a todo instante, a cada passo, tantas e tais que mesmo o homem mais desesperançado tem de se sentir feliz, pelo menos ao dar com uma delas! Que nossos olhos batam no rosto de uma criança, que nossos olhos se deslumbrem diante do nascer do sol, que se abaixem para ver como a erva cresce! Isso não chega para a felicidade? E se nossos olhos dão de chofre com uns olhos que nos amam?!" [O Idiota, Dostoiévsky, p. 611]
domingo, abril 07, 2013
Democracia! O que é isso?
Adoro esta tirinha da Mafalda. Ela expressa bem aquilo que sinto quando escuto os meios de comunicação de massa afirmarem que vivemos em um regime democrático. Democracia à moda burguesa é uma linguagem utilizada para a ausência de mudanças e a consolidação do conformismo. Perfeito, Quino!
quarta-feira, abril 03, 2013
Um toque brechtiano - "O açucar", de Ferreira Gullar
Fantástico este poema!
O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
(Dentro da Noite Veloz, 1975)
O açúcar
O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
(Dentro da Noite Veloz, 1975)
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