segunda-feira, julho 15, 2013

"Febre do Rato", de Claudio Assis, a poesia 'esperneante' que vem debaixo

"É a coletividade que vai dar uma lapada nas leis e uma bicuda no ovo da ordem" - Zizo, in Febre do Rato

Fazia um certo tempo que eu não assistia a um filme que me perturbava tanto. O último, talvez, que me vem à memória é o Sétimo Selo, de Ingmar Bergman, que vi em 2011. Fiquei dias ruminando os efeitos filosóficos e teológicos da película de Bergman. Dessa vez, o filme que me deixou em transe foi Febre do Rato, do brasileiro Claudio Assis. O cineasta pernambucano, fugindo das preocupações do mainstream, tem produzido obras significativas, o que já o coloca como um dos grandes do cinema nacional. Assis produziu pouco. Três filmes apenas - Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e o febricitante Febre do Rato (2011). Antes dos filmes, Assis produziu alguns documentários e curtas.

Não cheguei a fazer uma pesquisa, mas acredito que o termo 'febre do rato' esteja circunscrito ao mundo linguístico pernambucano. Cresci ouvindo o meu pai dizer (sou pernambucano e de família pernambucana): "Ele não está com a febre do rato", quando queria dizer que alguém não deveria exceder o bom senso, extrapolar a realidade e se fiar pelo mundo da loucura. Assim, 'febre do rato" é a realidade daquilo que não é comum, que está fora do padrão; que assume uma natureza para além do corriqueiro.

E talvez não exista nome mais adequado do que este para a película de Cláudio Assis. Como os outros dois filmes, a história se passa em Pernambuco - especificamente Amarelo Manga se passa em Recife e Baixio das Bestas centra a sua temática na zona rural pernambucana. Febre do Rato em sua exposição crua, em sua visceralidade extasiante, é o foco sendo dado ao submundo dos centros urbanos. As palavras iniciais do narrador (o poeta Zizo) aturdem, mescladas ao mundo insalubre dos cortiços à beira do mangue: "Logo ali por trás do mangue, descansa insone a faca, o serrote, o trabalho, o sexo e o sangue. Abismo, mundo escuro, profundo buraco; lateja o fardo de tuas ruas, lateja o grito ruminante, gritos de não. Não de abismo".

O filme é uma poesia desvestida. A começar pela película em preto e branco, que confere à obra uma aspecto atemporal, sublime e de funda envergadura metafísica. Não há uma fotografia corriqueira, daquelas produzidas para agradar. Tudo é feito para contrariar a estética do belo e realçar a estética do "cuspe" e do "escarro" de Augusto dos Anjos. O que existe é o movimento. O movimento da poesia, que é embriagada e embriagante como o personagem principal da obra - Zizo (Irandhir Santos, que está impecável na obra!).

A obra de Assis foge ao convencional. O grupo de amigos, que está sempre junto do poeta, composto por traficantes, vagabundos, travesti, coveiro, embriagados, parece constituir os habitantes de Sodoma e Gomorra. Ou seja, as personagens suprimem a lógica burguesa. Poeta e obra buscam pregar uma atitude anárquica ante as coisas. Não se trata diretamente ou meramente da supressão do Estado ou da ordem burguesa instituída. O filme busca fazer com que o homem médio saia de sua letargia, de seu sono profundo. Que se posicione diante do descalabro da irgonorância e do ventriloquismo a que é submetido. Em certa altura do filme, Zizo diz: "As pessoas ficam falando em futuro, em mudança, mas não estão nem aí para as coisas que estão realmente mudando. Perderam a capacidade de espernear". ( o destaque é meu)



É justamente essa capacidade "de espernear" a que o filme faz alusão. Zizo é o porta-voz, o profeta sem deus, cuja religião é a poesia. O Antônio Conselheiro, o Sandino, o Zumbi, o messias do gueto, do submundo, do mundo-abismo da periferia, obumbrado pela inferno da indiferença burguesa. Zizo é a poesia esperneante que chama os homens a trazerem vasilhas para encherem de liberdade; a que tragam as vasilhas para que encham de cumplicidade; que tragam as vasilhas para encherem de força.


Claudio Assis se aproximou dos grandes nomes ao dirigir Febre do Rato. Talvez, tenha se aproximado de um Glauber Rocha em sua capacidade dançante de construir enredos eivados de força ou de um aludido Bergman capaz de fazer grandes discursos por meio das imagens. Febre do rato é a extrapolação de qualquer consideração metódica . Fez-me refletir como a palavra pode ser utilizada como libelo que constroi realidades desestabilizadoras; que suprime as névoas do olhar; que emancipa o sujeito; que traz os atores (vítimas da omissão) a serem protagonistas de uma nova verdade dialógica. 

Penso que Claudio de Assis tenha conseguido fazer um dos filmes mais belos e delirantes da história do cinema brasileiro. Que bom saber que estamos chegando a esse nível de maturidade. 

É possível assistir ao filme no Youtube

P.S. Aviso: os moralistas burgueses e religiosos podem se chocar com algumas cenas. Afinal, é preciso ser louco para ser livre. Desculpem a afirmação que soa a clichê. Mas acredito que Zizo gostaria dessa frase.

quinta-feira, julho 11, 2013

Incidente em Antares, algumas impressões

"Eu quisera acreditar em Deus e na vida eterna. Mas não posso. Nunca pude. Mas acredito na vida. E como! Tenho esperança num futuro melhor para nossa terra, para o mundo. Quero que meu filho nasça, cresça e viva para participar desse mundo"  
Érico Veríssimo, in Incidente em Antares

Incidente em Antares foi o último romance escrito pelo gaúcho Érico Veríssimo. Dos cinco ou seis romances que li de Érico, com certeza, Incidente em Antares é aquele que provocou um efeito maior pelo nível de maturidade, profundidade e elegância. O livro está dentro daquele ciclo de romances com foco universal, que ainda podem ser colocados O prisioneiro, O senhor embaixador, construindo um paralelo ao lado de dois outros grupos - os romances urbanos (Clarissa, Olhai os lírios do campo, Caminhos cruzados etc) e os romances épicos (na qual se encaixa a monumental trilogia O tempo e o vento, que remonta boa parte da história do Rio Grande do Sul).

Érico Veríssimo sabia contar uma história como ninguém. Possuía uma simplicidade para construir um enredo como somente os grandes escritores possuem. Era um sujeito baixo, de fala mansa e de grande sensibilidade. Foi com essa característica que o gaúcho de Cruz Alta, construiu uma das mais importantes obras da história da literatura brasileira. 

Em Incidente em Antares, Veríssimo constrói um romance em que o Realismo Fantástico dita a tônica da história. E é, sob vários aspectos, uma história a qual percebermos uma forte crítica às oligarquias, ao conservadorismo burguês e (por quê não?) uma "cutucada" no Governo Militar - já que o livro é de 1971. 

A obra é dividida em duas partes:

Érico Veríssimo
Na primeira parte, Érico preocupa-se em remontar o cenário histórico de onde surge Antares; a luta hercúlea entre o clã dos Vacarianos e dos Campolargos, que se digladiarão com golpes, ódio mortal e atrocidades inimagináveis em mais de setenta anos. Aos poucos Érico nos insere no século XX e mostra  quanto Antares passa a fazer parte do cenário político brasileiro. O escritor, como isso, coloca o leitor a par do que acontece a partir do Governo Vargas. As vicissitudes e as habilidades políticas do gaúcho de São Borja. Figuras reais são colocadas na história - João Goulart, Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda. A a partir da descrição dessas personagens históricas reais, o enredo assume um forte tom político, o que faz com que a história ganhe em realismo e verdade. Os acontecimentos políticos, do suicídio de Getúlio à renúncia de Jânio Quadros e o drama que envolveu a posse do seu vice João Goulart, tudo é acompanhado com máxima atenção pelos antarenses - principalmente pelos Campolargos e Vacarianos, senhores da cidade, que essa altura da história já fizeram as pazes.

Na segunda parte do livro, Veríssimo se preocupa em narrar o "incidente" aludido no título da história. A cidade de Antares, também invadida pelo forte clamor trabalhista e progressista que tomava conta do país, é vitimada por uma greve geral. Os coveiros também aderem à greve e a confusão se alastra. Com isso, sete pessoas morrem. O fato de serem sete pessoas, talvez, seja resultado das intenções de Érico, posto que o número "sete" é considerado o número da perfeição. E como os defuntos são impedidos de serem sepultados, acabam acordando de seu "sono mortal" e vão tirar "satisfações" com os vivos. Os sete constituem um exemplo do tecido social. Tem-se um advogado, uma religiosa, um comerciante anarquista, um líder sindical, um artista, uma prostituta e um beberrão. Tais personagens ajustam as contas com a sociedade e denunciam os desatinos, a hiprocrisia e toda sordidez dos setores mais nobres de Antares. Tal evento se dá numa sexta-feira, 13 de dezembro de 1963. 
Personagens da minissérie exibida pela Rede Globo em 1994

A história, na segunda parte, centra a atenção na sociedade de Antares, fazendo dos eventos um microcosmos da sociedade brasileira. Notamos como as estruturas corrompidas da sociedade são constituídas pelos conchavos entre as forças políticas. Érico também insere a Igreja Católica na história. Temos assim, duas representações da história: a primeira realizada pelo padre Gerôncio, mais velho, preocupado com a instituição, representando uma velha ordem; e o padre Pedro-Paulo, que possui o nome de dois dos principais apóstolos de Cristo, representando o lado mais progressista da Igreja. Este último representa a Igreja atenta as movimentos da história. Padre-Paulo questiona os principais dogmas da Igreja e está ao lado dos grevistas e dos pobres.

É importante frisar que o livro possui uma tendência para firmar oposições, o que realça o forte tom político. Por exemplo, tem-se duas famílias rivais, dois clubes de futebol, dois padres (sendo que um Pedro-Paulo) que revelam forças contrárias dentro de uma mesma instituição, forças conservadoras da sociedade e forças progressistas; a oposição entre os homens e as mulheres (que à exceção de Dona Quitéria Campolargo) são submissas aos seus maridos; o submundo da favela Babilônia e o centro requintado representado pela aristocracia de Antares. Toda essa trama de teias de poder que leva o médico ser vendido ao prefeito, que é vendido ao coronel, que é vendido ao advogado em um efeito dominó, é descrito por um narrador que conta a história em terceira pessoa e que está presente oniscientemente em todos os fatos.
Érico, o extraordinário escritor!

Érico se utiliza da ironia e do sarcasmo. Em alguns momentos, certos excertos me fizeram lembrar de Machado de Assis, mestre neste quesito. O livro é denso e comporta uma abordagem mais profunda do painel sócio-político da sociedade gaúcha e a bem dizer brasileira. E nesse sentido, é interessante notar a habilidade do escritor para remontar o cenário político brasileiro e construir uma ficção da mais lata distinção.

Incidente em Antares é daqueles livros que terminda a leitura, ficamos a pensar em sua teia complexa. Pensamos na sociedade de aparências; no jogo de poder; na força irracional das oligarquias que se perpetuam; no desejo por melhores dias; na práxis que leva à luta e à aspiração por justiça e verdade. Pensamos, finalmente, no Brasil que é e no Brasil que sonhamos. Viva Érico Veríssimo!

quarta-feira, julho 10, 2013

Um excerto e uma constatação

O excerto abaixo foi extraído de uma postagem feita pelo "cavalo" do Charlles Campos. Claro, "cavalo" em acepção positiva. Não o conheço pessoalmente, mas o sujeito é uma das mentes mais eruditas que já tive oportunidade de me deparar. Deixemos o puxa-saquismo para lá. O post (um dos melhores dos últimos tempos produzidos por ele) entre as muitas ideias e reflexões levantadas traz um trecho que muito me chamou a atenção pela acidez cética e esquerdista de quem percebe com desconfiança a ditadura da mediocridade. O texto toca numa questão que me incomoda bastante: a ditadura dos celulares de última geração. Sempre vi o uso excessivo desses aparelhos de última geração como uma compulsão adolescente. Lido com esse público todos os dias e já consigo diagnosticar alguns comportamentos previsíveis. Aonde quer que eu vá, lá está o burguês médio com seu vício irreprimível, conectado a uma rede social a "curtir" sensaborias. A ignomínia de tal comportamento me leva a crer que vivemos o deserto do real. A barbárie do vício digital por bestuntices. 

(...) Minha irmã tem um ótimo rendimento mensal, não é esse o propósito da vida? Não é esse o objetivo esperado? Na televisão, um apresentador pergunta em qual país as vacas são tidas como seres sagrados, e minha irmã desvia os olhos por um momento do i-phone (com o qual chama atenção para um jogo estúpido de estourar balões que enebria meus filhos) e pergunta "qual país é mesmo?", ela que sempre foi uma aluna notável, monitora de química e física, de uma disciplina espartana para os estudos, qualidades as quais não obtive nem um quarto da distinção dela. Ela precisa saber de uma inutilidade completa dessas, que serve agora para programas insossos de tardes de domingo? Uma vez, levei ela e um antigo namorado dela para um pesque-pague, e na estrada eles viram uma vaca com um chifre imenso, e se surpreenderam com o fato de que não só o boi tem chifre, mas a fêmea do boi também, e me perguntaram, com um desalento infantil, como chifres tão grandes passavam pelo canal da vagina durante o parto. Eu levei tempo para perceber que eles não estavam brincando, esses exemplares bem sucedidos do homo-urbanus moderno. Mas logo me vi pensando em Sherlock Holmes, ao revelar para um atordoado dr. Watson, em Um estudo em vermelho, que ele desconhecia a rotação da Terra e várias outra informações inúteis, e só ocupava sua mente com coisas que lhe interessavam para sua vida prática. E assim é a maioria, para quem as sutilezas da leitura e de constatações não mais tão naturalmente óbvias sobre a paisagem cercante não representam nada em sua progressão para um posto bem localizado e remunerado na grande fauna citadina. E o quanto as armas de poder de sua rede de conhecimentos faz com que minha irmã esteja anos à frente de mim, muito mais preparada darwinianamente para enfrentar o mundo, quando ela, como um mágico vaidoso, pede para que eu coloque no som a música mais inacessível e desconhecida que eu tenho, aponta em seguida o i-phone para o estéreo, e na tela líquida aparece a foto do álbum, o nome da banda e a música inteira para ser ouvida.

Mas me mantenho teimoso e fiel a intuições arraigadas. Mês passado levei meu carro para a retífica, e eles me devolveram um carro tão potente e novo tal qual quando ele saíra da concessionária, em 1997. Minha irmã vendeu seu carro 2010 e comprou um modelo zero quilômetro, financiando um valor alto em 36 meses. Ainda penso que a alegria é muito superior à felicidade, que aliás essa última não existe, e passar pelo mundo engolindo toda espécie de entregas superfaturadas e falsas para meramente atender a uma necessidade de pertencimento é trair a complexidade que nos é dada no início e sobre a qual, o mínimo que devemos fazer em retribuição, é nos mantermos sempre em um suave, ingênuo e ativo deslumbramento. A leitura sempre me ofereceu esse tipo de inferno: a da consciência do outro, da responsabilidade de não estar-se sozinho no tempo e no espaço. E se tudo correr bem, as derivações pelo caminho não sendo muito sinuosas, meu filhos continuarão recebendo esse presente" (...).

segunda-feira, julho 08, 2013

"O amante", de Marguerite Duras, algumas impressões

Marguerite Duras
"Muito cedo na minha vida ficou tarde demais" 
Marguerite Duras

O único livro que li de Marguerite Duras, O amante, passou-me uma impressão positiva sobre essa escritora. O amante é um dos seus livros mais conhecidos. Segue uma "tendência" muito recorrente em sua obra que é a abordagem auto-biográfica. O livro é do ano de 1984 e se tornou uma das suas principais obras - se não a maior.  Duras escreveu aos 70 anos esse relato sobre sua juventude. Estreara na escrita em 1943. Mas o livro de 1984 é uma obra de grande importância para a sua carreira. Foi com O amante que a escritora chegou ao ápice da produção, sendo que ele foi traduzido para mais de 40 idiomas. Vale mencionar que O amante da China do norte - que retoma o mesmo tema -  também possui uma importância fundamental para a sua obra. 

Outro trunfo da escritora é a aventura cinematográfica. Ela escreveu bons roteiros para o cinema. Entre esses roteiros se destaca Hiroshima, meu amor, indicado ao Oscar na década de 60. O amante, por sua vez, é permeado pelos temas oriundos do seus nascimento em Saigon, antiga capital do Vietnã, quando este era uma colônia francesa. 

Duras nos coloca diante de um estilo que é uma espécie de junção dos excertos para um primeiro romance. O livro possui uma narrativa fragmentária, explorando o viés da jovem subvertida pela paixão. Ora nos coloca diante das relações de uma sociedade pobre na qual a mãe da personagem não possui os privilégios de alguém da metrópole europeia e tem que lutar pela sobrevivência junto com os nativos; ora os ecos de uma sociedade que é um misto de ruralização e subdesenvolvimento. O estilo da francesa é uma dança de avanços e digressões. Em alguns momentos ela usa a terceira pessoa se distanciando da narrativa; em outros, usa a primeira pessoa e se coloca como personagem da obra. Outro aspecto é o avanço e o recuo no tempo, fazendo digressões inusitadas. O leitor pouco afeito a livros assim sente dificuldades com relação à manutenção do eixo temático da obra. 

Duras ainda insere as dificuldades relacionais dos irmãos, tão antagônicos. A força bruta e a irracionalidade castrante do irmão mais velho. E a delicadeza do irmão novo. A escritora é dona de um estilo que prima pela concisão, pela economia nas explicações. Ela é frugal. Não coloca o excessivo. Extrai tudo aquilo que torna o texto enviesado. Existe uma crueza em sua forma de narrar. Ao mesmo tempo em que busca a concisão, expõe, com nudez, o realismo de uma paixão que não era apenas física com o chinês Cholen. A relação desenvolvida era existencial. 

Nesse sentido, Duras alarga as dimensões do seu romance e abrange também um debate social, já que naquela sociedade era inadmissível uma branca europeia se envolver com alguém rico a não ser pelo prisma do preconceito. aqui nota-se o debate inter-racial estabelecido pela obra. Assim, mesmo com essa forma tão peculiar e "seca" de narrar, como se o uso do adjetivo e de toda caracterização fosse um gesto inaceitável, Duras deixa-nos vislumbrar pelas frestas de sua narrativa as relações sociais de uma sociedade oriental tão diversa do mundo europeu. 

Comprei, hoje, na livraria da Saraiva, pela internet, o livro O amante da China do norte, pois me bateu uma curiosidade maior pelo seu estilo. O que me atraiu em Duras não foi a história em si, mas a forma de narrar da escritora. 

Blumenau-SC

quinta-feira, julho 04, 2013

Nota de uma leitura não iniciada - "O amante", de Marguerite Duras

No início do mês junho, ainda sob o paroxismo das atividades profissionais, fui à biblioteca pública de Ceilândia, que ainda insisto em permanecer como membro, e peguei dois livros: O amante, de Marguerite Duras e Sidarta, de Hermann Hesse - (curioso é que tenho esses dois livros em minha biblioteca. Peguei as obras - como sempre faço -, pois isso me força a ler; cria um imperativo). Infelizmente não pude ler os dois livros durante todo o mês. Muitas obrigações. Eu a me arrastar em leituras menores. O cansaço a me vergar os olhos. O sono a me espreitar quando chegava depois de um dia de labuta. E as exigências atrabiliárias do trabalho a criar obstáculos. Agora, nestes 20 dias de recesso de que disponho, resolvi lê os dois livros. Amanhã, eu e a minha esposa viajaremos para Florianópolis e de lá iremos para Blumenau-SC. Pretendo encetar toda a leitura do livro de Duras nas duas horas de viagem de avião. Afinal, trata-se de uma obra concisa. São apenas 127 páginas na edição que está comigo. Andei lendo algumas coisas sobre o livro. É um romance autobiográfico dessa escritora francesa nascida no Vietnã, quando este país ainda era colônia do país europeu. Abaixo, um vídeo bem interessante com uma apresentação convincente sobre o livro em português lusitano.

segunda-feira, julho 01, 2013

Sobre deuses e rezas - por Rubem Alves

Li a crônica abaixo há pouco e me pus a pensar sobre ela. Resolvi, então, compartilhá-la. Está em um dos livros do Rubem Alves cuja leitura estou terminando de realizar - Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade). Como nos bons textos desse mineiro sensível e poeta, a provocação emulada por penas filosóficas suaves, sempre nos cutuca, colocando-nos
numa posição reflexiva.


Sobre deuses e rezas


Perdida no meio dos viajantes que enchiam o aeroporto, ela era uma figura destoante. A roupa largada, os passos pesados, uma sacola de plástico pendurada numa das mãos – esses sinais diziam que ela já não mais ligava para a sua condição de mulher: não se importava em ser bonita. Pensei mesmo que se tratava de uma freira. Seu comportamento era curioso: dirigia-se às pessoas, falava por alguns momentos, e como não lhe prestassem atenção procurava outras com quem falar. Quando vi que ela tinha uma Bíblia na mão compreendi tudo: ela se imaginava possuidora de conhecimentos sobre Deus que os outros não possuíam e tratava de salvar a alma deles.

Meu caminho me obrigou a passar perto dela – e quando olhei para o seu rosto de perto levei um susto: eu o reconheci de outros tempos, quando ela era uma moça bonita que ria e brincava e para quem olhávamos com olhares de cobiça.

Não resisti e chamei alto o seu nome. Ela se espantou, olhou-me com um olhar interrogativo, não me reconheceu. Com razão. Os muitos anos deixam suas marcas no rosto.

– Eu sou o Rubem!

Seu rosto se iluminou pela lembrança, sorriu, e pensei que poderíamos nos assentar e conversar sobre as nossas vidas. Mas sua preocupação com a minha alma não permitia essas perdas de tempo com conversa fiada. E ela tratou de verificar se o meu passaporte para a eternidade estava em ordem:

– Você continua firme na fé!?

– Mas de jeito nenhum. Então você deixou de ler a Bíblia? Pois lá está dito que Deus é espírito, vento impetuoso que sopra em todo lugar, o mesmo vento que ele soprou dentro da gente para que respirássemos, fôssemos leves e pudéssemos voar. Quem está no vento não pode estar firme. Firmes são as pedras, as tartarugas, as âncoras. Você já viu um papagaio firme? Papagaio firme é papagaio no chão, não voa. Pois eu estou mais é como urubu, lá nas alturas, flutuando ao sabor do imprevisível Vento Sagrado, sem firmeza alguma, rodando em largos círculos.

Ela ficou perdida, acho que nunca havia ouvido resposta tão estranha, mudou de tática e tentou pegar a minha alma do outro lado, desatou a falar de Deus, informou-me que ele é maravilhoso etc., etc., etc., como se estivesse no púlpito em celebração de domingo.

Refuguei e disse:

– Acho que quem não está firme em Deus é você. Olha, passei a noite toda respirando, estou respirando desde que acordei, e juro que agora é a primeira vez que penso no ar. Não pensei nem falei no ar porque somos bons amigos. Ele entra e sai do meu corpo quando quer, sem pedir licença. Mas a história seria outra se eu estivesse com asma, os brônquios apertados, o ar sem jeito de entrar, ou, como naquele anúncio antigo do xarope Bromil, o coitado do homem sufocado por uma mordaça, gritando pelo ar que lhe faltava. Por via das dúvidas até andaria com uma garrafa de oxigênio na bagagem, para qualquer emergência.

E continuei:

– Pois Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando pelo nome dele. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado na Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado...

Aí ela viu que minha alma estava perdida mesmo e, como consolo, fez um sinal de adeus e disse que iria orar muito por mim. Aí eu protestei, implorei que não o fizesse. Disse-lhe que eu tinha medo de que Deus ficasse ofendido. Pois há rezas e orações que são ofensas. É óbvio: se vou lá, bater às portas de Deus, pedindo que ele tenha dó de alguém, eu lhe estou imputando duas imperfeições que, se fosse comigo, me deixariam muito bravo.

Primeiro, estou dizendo que não acredito no amor dele, deve ser meio fraquinho, sem iniciativa, preguiçoso, à espera do meu cutucão. Se eu não der a minha cutucada, Deus não se mexe. E isso não é coisa de ofender Deus? Segundo, estou sugerindo que Ele deve andar meio esquecido, desmemoriado, necessitado de um secretário que lhe lembre suas obrigações. E trato de, diariamente, apresentar-lhe a sua agenda de trabalho. Mas está lá nos salmos e nos evangelhos que Deus sabe tudo antes que a gente fale qualquer coisa. Ora, se a gente fica no falatório é porque não acredita nisso. Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio.

Voltei à minha amiga:

– Veja você. Tive um filho que estudava longe. Eu gostava dele. Ele gostava de mim. De vez em quando a gente se falava ao telefone. E o dinheiro da mesada ia sempre, com telefonema ou sem telefonema. Agora imagine: de repente começo a perceber telefonemas dele três vezes por dia e mensagens por sedex, cartas e telegramas louvando o meu amor, agradecendo a minha generosidade... Você acha que isso me faria feliz? De jeito nenhum. Concluiria que o meu pobre filho havia endoidecido e estava acometido de um terrível medo de que eu o abandonasse. Pois é assim mesmo com Deus: quem fica o dia inteiro atrás dele, com falatório, é porque desconfia dele. Mas o pior é o gosto estético que assim se imputa a Deus. Uma pessoa que gosta de passar o dia inteiro ouvindo os outros repetindo as mesmas coisas, as mesmas palavras, as mesmas rezas, pela eternidade afora, não deve ser muito boa da cabeça. Para mim isso é o inferno. Quem reza demais acha que Deus não funciona bem da cabeça. Acho que ele ficaria mais feliz se, em vez do meu falatório, eu lhe oferecesse uma sonata de Mozart ou um poema da Adélia...

Mas aí o alto-falante chamou o meu vôo, tive de me despedir, e imagino que ela ficou aflita, temerosa de que Deus derrubasse meu avião com um raio. Mal sabia ela que Deus nem mesmo havia ouvido a nossa conversa pois, cansado das doidices dos adultos, ele foge sempre que vê dois deles conversando e se esconde deles, disfarçado de criança.

Extraído do livro Teologia do Cotidiano - meditações sobre o momento e a eternidade. Editora Olho D'Água.

sábado, junho 29, 2013

"O colosso", de Goya. Algumas impressões

Goya foi um pintor sensacional. Viveu no século XVIII em uma época de mudanças. Era sensível aos acontecimentos de sua época. Pintou quadros inquietantes e que, de alguma forma, imprimiram uma admiração profunda pela sua obra. O quadro acima se constitui em um desses momentos sensacionais. O quadro é uma antecipação àquilo que ficou conhecido em sua obra como "Os desastres da guerra" e as "Pinturas Negras".

"O colosso" é um óleo sobre tela (116x 105 cm). O que é curioso no quadro é a prevalência das cores escuras, de tonalidades sombrias e que transmitem uma ideia de pessimismo e apocalipse. As nuvens em tom cinzento escondem um musculoso e ameaçador gigante que passa por cima de montanhas e gera uma debandada de homens e animais que fogem sem direção. Aturdidos com tal cena, o caos se instala. Alguns vão para a esquerda; outros, para a direita. O que é curioso é que a ideia de desarticulação e anarquia da fuga, não pertuba um asno que permanece impassível com o acontecimento (no canto inferior esquerdo). 

Alguns historiadores e críticos sustentam que o quadro tinha uma intencionalidade clara: criticar as invasões napoleônicas em solo espanhol. O gigante seria Napoleão que, assim como na pintura tem o punho levantado com intentos agressivos, traria o caos e a guerra. A debandada desorganizada seria o estado em que ficaria o país. O asno imperturbável representaria Fernando VII e a nobreza que permaneceriam apáticos e inamovíveis em sua condição não resiliente. Simplesmente genial esta pintura!

terça-feira, junho 18, 2013

Para quem os protestos? O Brasil muda com o voto?

A bíblia, tida por sagrada pelos cristãos, é um livro notável. Gosto de sua profundidade espiritual. De sua profusão de temas literários. De seus conselhos altos. De suas sentenças proverbiais. Como em uma passagem da qual me lembrei hoje à noite. Recordei-me da passagem por está lendo algumas frases, amontadoados de sentenças, textos de opinião, jaculatórias insensatas de leigos, via Facebook, afirmando que o melhor protesto é saber votar em 2014. Rapidamente me veio à mente um texto bíblico. O texto está em um dos evangelhos. Jesus diz que é, simplesmente, impensado colocar vinho novo em odres velhos. Acho essa passagem fantástica. Aqui Jesus diz que o velho não comporta o processo novo. É inapropriado por causa da natureza daquilo que é velho e a natureza daquilo que é novo.

É bom ver a população brasileira saindo às ruas para exigir um país mais justo, menos corrupto, com lideranças comprometidas com justiça social, ética e honestidade. Todavia, penso que falte foco a essas manifestações. É  mais ou menos assim: chegamos até aqui. E agora, José? O que fazer? Seria interessante que se estudasse um texto de Vladimir Lênin - "Que fazer?" - que é bem oportuno ao momento. Fico receoso que após todas essas marchas o otimismo arrefeça e cada um volte para sua casa como naquela parábola de "Os gansos", de Kierkegaard, que outro dia aludi. E essas páginas belas que têm sido escritas não sejam apagadas pelo tempo.

Esses movimentos itinerantes que surgiram pelo Brasil indicam que o povo está cansando dos desmandos de um Estado, que nos últimos quinhentos anos, continua o mesmo. Quando analisamos a história brasileira notamos que não houve mudanças, rupturas significativas. O processo de Independência, de Proclamação da República, de Abolição da Escravatura, que teve uma participação popular bastante tímida, não afugentou o drama do rompimento com um estágio anterior. Ou seja, as mudanças mais importantes da história do nosso país foram realizadas por aqueles que estão no poder. O povo sempre viu tudo de longe. Quem foi "rei" continua como "rei"; e quem foi "vassalo" continua como "vassalo". Apesar de não vivermos na Índia, o nosso país possui um regime de castas. Talvez, seja por causa do povo não está envolvido nos processos, revoluções (se é que houve alguma!), que tenhamos um dos modelos de formação social mais árbitrários do mundo. 

O Estado brasileiro é violento. A chamada "democracia" existe só de fachada, pois as oligarquias dominaram no passado e continuam dominando no presente por meio dos diversos aparelhos do Estado. Essa mesma oligarquia está instalada nos vários escalões de poder e possui a seu favor o conservadorismo e o poder simbólico das mídias. Os grandes monopólios desse país estão construídos no campo das ideias. A televisão, infelizmente, ainda continua sendo a escola de muitos brasileiros. O que o William Bonner, esse grande ventríloquo global diz no "Jornal Nacional"(o jornal da ignorância nacional), ainda é tido como verdade irrefutável. Diante de um poder tão grande, essa entidade chamada Globo, aliançada com a Folha de São Paulo, Veja e todo a imprensa conservadora, constrói um muro de falsidades e reacionarismos, que busca crimizalizar os movimentos sociais e tudo aquilo que sugira a contradição.

É formidável ver o povo nas ruas, mas penso que as metas e objetivos dessas passeatas se tornem mais claros, transparentes e substantivos para que a mobilização não feneça. Está equivocado quem pensa que é votando que se melhora o país. Já tentamos de todas as formas fazer isso. Mas o que falta não é um candidato, mas um projeto que dê uma cara de Brasil ao Brasil. Erra quem acha que é determinado candidato que vai mudar o país. Esse messianismo é uma grande falácia. Esse ainda é o discurso da mídia que quer fazer todos acreditarem que determinada pessoa mudará o país. A história não feita por um homem, mas por homens que, juntos, constroem a história. 

Por isso, penso que a frase bíblica citada acima tenha tudo a ver com essa expectativa. O modelo novo que desejamos para o país não pode ser contido nessa estrutura arruinada que temos no presente. O cerne da alma brasileira está contaminado pela corrupção, pelo jeitinho, pelos desmandos e megalomanias vindos da casa-grande. Essas passeatas para terem um resultado profícuo precisam continuar pelos próximos anos, décadas. A monta de problemas é gigante. É preciso estabelecer uma agenda de atuação e lutar por isso - educação, saúde, transporte, transparência, salários de parlamentares pagos, fugindo da realidade do trabalhador assalariado, gastos com mancebias estranhas entre o público e o privado, etc. Ou seja, fazendo isso e realizando marchas reivindicatórias constantes, talvez mudemos esse país.

Euclides da Cunha diz algo fabuloso em "Os Sertões": "O que separa o litoral do interior não são quilômetros, são séculos". E essa frase é evocativa para que profiramos neste instante: "O que falta para transformar o Brasil em país decente não é uma marcha, duas marchas; são séculos de marchas. Pois não estamos atrasados cinquenta anos, mas talvez  trezentos". Continuemos a marchar com consciência.

domingo, junho 16, 2013

Comentário abrasivo sobre Brasília


Comentário sobre Brasília, extraído do site Viomundo. Sentença ácida e crítica de um dos visitantes do sítio. Apesar de ter alguns erros de digitação, creio, deixei como está no endereço eletrônico. O comentário foi feito em um post sobre as vaias dirigidas à presidenta Dilma. 

"Brasília é a invenção mais diabólica que o Brasil urdiu. É a Casa Grande estlizada, enfeitada, sonho desvairado de um lunático de que se travestiu de estadista, é o gueto da corrupção, da malandragem sofisticada, mas tão amestrada quanto o cão mais dócil, dos arranjos escatológicos e pornográficos, é um Brasil de brasileiros de outra raça, assentados em um planalto de onde se divisa todo o resto da Nação, que é olhado com desdém, escárnio, polo de atração de tudo quanto o Brasil tem de pior, de degradado, de degenerado, mas que quando se descobre, quando se revela, não passa de um charco imundo, cheio de podridão, pântano de atoleiros que consome toda e qualquer decência, boa intenção, todo e qualquer gesto de solidariedade, de respeito, de cidadania, de amor à Pátria. Coroando essa obra que enebria os menos avisados, qual Colosso de Rodes, maravilha das maravilhas, o estadista de araque faz o arremate final e tras para entre nós a indústria que é a “locomotiva do mundo”, a que constroi os monstros sorvedoros do óleo das entranhas da terra, definindo, de forma inexorável, o destino dos brasileiros: consagrar suas vidas, imolando-se qual Cristo na cruz, aos rebentos do monstro, o automóvel, os ônibos, os caminhões, bi-trens, tri-trens, seus novos e perenes guias, conduzindo-os ao longo das estradas, das avenidas, dos viadutos, dos túneis, dos becos, para um dia alcançar mais cedo o lugar do repouso eterno".

sábado, junho 15, 2013

Uma imagem que fala


Emblemática esta imagem. Fiquei refletindo depois que a vi. Faz alusão a uma passagem da bíblia (se não estou equivocado, Provérbios 22). Uma blague forte e certeira. Não me impressiona o fato de que se trata de uma criança lendo Nietzsche e desconstruindo a ideia que somente a religião judaico-cristã pode educar. Impressiona-me, na verdade, as significações filosóficas da frase e da imagem. Muito bom!

terça-feira, junho 04, 2013

Uma marcha conservadora e reacionária

Viver em sociedade leva à construção de determinados pactos. Thomas Hobbes diz que a construção do Estado foi uma necessidade para que os homens não se digladiassem. Assim, a finalidade do Estado é salvaguardar o direito de todos. Todavia, o meu direito não deve ultrapassar a esfera de direito do outro  - e vice e versa. Assim como é direito, em um Estado capitalista, eu ter o direito à propriedade privada, os outros cidadãos também o usufruem desse mesmo direito. Assim, as leis que existem têm por finalidade proteger o meu direito e o direito do outro para que não sejam violados. Quando o meu direito ou o direito do outro é colocado numa categoria que indica o prejuízo de uma das partes, aparece a figura do Estado para fazer com que os litigantes cheguem a um acordo e a ofensa seja reparada.

Essa minha explanação inicial, leva-me a ponderar sobre dois aspectos da Marcha da Liberdade de Expressão (sic), marcado para o dia 5 de junho, em Brasília. Conduzindo tal evento está o clérigo controverso e obscurantista Silas Malafaia, alguém que tem se destacado pelas posições conservadores e desassistidas de razão nos últimos tempos. Tal "marcha" me faz refletir sobre três coisas:

(1) A repetição da história. No dia 19 de março de 1964, militâncias conservadoras também marcharam em vários locais do Brasil, sob a alegação de que o estavam fazendo em nome da família e dos bons costumes. A marcha tentava alertar a sociedade para o "mal vermelho" do comunismo e do governo de Jango. Havia uma onda que descaracterizava "os movimentos sociais" e a condução do Brasil por João Goulart. Um religioso chegou a proferir: "Hoje é o dia de São José, padroeiro da família, o nosso padroeiro. Fidel Castro é o padroeiro de Brizola. É o padroeiro de Jango. É o padroeiro dos comunistas. Nós somos o povo" (sic) (daqui) Não se trata de mera coincidência, pois politicamente esses movimentos com "fachada democrática" são meramente revanchistas, preconceituosos, reacionários e afecciosos. Curiosamente, a chamada da "A marcha da família com Deus pela liberdade", redundou em um golpe militar, que levou o Brasil a mergulhar em um dos seus momentos mais nebulosos de sua história. Lamentável. Nada na história é coincidente.

(2) Hobbes diz algo curioso em O Leviatã e que serve de adendo: "Não há quase nenhum dogma referente ao serviço de Deus ou às ciências humanas de onde não nasçam divergências que se continuam em querelas, ultrajes e, pouco a pouco, não originem guerras; o que não sucede por falsidade dos dogmas, mas porque a natureza dos homens é tal que, vangloriando-se de seu suporto saber, querem que todos os demais julguem o mesmo". A fé religiosa é uma questão de perspectiva cultural. E os movimentos de cunho religioso sempre andam na contramão da história. Sempre tendem ao conservadorismo e a uma visão reducionista da realidade. Assim como eu não posso tornar a minha vontade uma tirania, o outro não deve tornar a sua vontade em uma tirania contra mim. Analisando os fatos friamente, quem atua como um tirano nessa história, os movimentos religiosos ou as minorias que estão sendo atacadas por essa onda conservadora? Todas as sociedades da terra são arranjadas segundo os ditames bíblicos ou o entendimento bíblico é o resultado da percepção de uma cultura, a saber, a judaica?

Sinceramente, eu entendo que a maior parte dos mandamentos morais defendidos pelos cristãos são aspectos da cultura judaica cristalizados no tempo. Os judeus conseguiram universalizar a sua cultura por meio do cristianismo. Será que a cosmovisão judaica é a única que existe no universo e deve "violentar" o direito dos diferentes? Creio que não. O maior erro desse movimento religioso que protesta contra a união homoafetiva é tentar tornar o seu entendimento religioso em uma regra para o mundo, em uma ditadura com fins universais. 

(3) Fico pensando que durante a história, vários foram os momentos em que algumas posturas foram tomadas de maneira irracional. Por exemplo, nos primeiros séculos da era cristã, a Igreja realizou um Concílio para verificar se as mulheres possuíam alma. Este fato parece patético, quando analisado nos dias de hoje. Mas entendia-se, àquela época, que a mulher era um ser inferior. Atualmente, rimos desse fato e o achamos caricato. Da mesma forma, penso que a defesa dessa marcha famigerada esbarre em algo bem parecido. Talvez daqui a 50 anos, a próxima geração que surgirá ficará rindo da nossa geração e achará caricato o fato de debatermos com tanta fúria e parcialidade, hoje, essas coisas. Penso que seja uma questão está posta e que não possui volta. A religião com seus dogmas "empoeirados" pelo tempo continuará sua militância errática e barulhenta, mas não terá possibilidades de refrear o que já existe. A história é construída dialeticamente.


domingo, junho 02, 2013

200 anos de Kierkegaard - algumas palavras de admiração

Aprendi a admirar o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard ainda nos anos de seminário. A primeira vez que li algo a respeito dele, fiquei estarrecido com a sua paixão pelo paradoxo. O texto que li àquela época falava sobre o noivado do filósofo com a bela Regina Olsen. Kierkegaard após consumar o noivado, pede logo em seguida para desfazê-lo. Sua personalidade complexa aplicou um golpe nos sonhos da jovem Regina, que ainda tentou reatar o noivado, mas sem sucesso.

Durante muito tempo procurei informações sobre o filósofo. Comprei livros. Li a respeito dele. E, sobretudo, li alguns livros dele - Diário de um sedutor, Temor e tremor e O desespero humano. Kierkegaard sempre foi para mim um grande mistério. Sou um admirador do seu ideal de espiritualidade. É possível colocá-lo na categoria de um Agostinho ou de um Pascal, que foram nomes que viveram de maneira exponencial a fé cristã em uma época em que a razão prevalecia sobre os anseios existencializantes da interioridade humana.

Mês passado, precisamente, dia 5 de maio, o mundo comemorou duzentos anos do nascimento do filósofo. Kierkegaard passou um bom tempo no anonimato, pelo menos até as décadas de 40 e 50 do século XX, quando se deu uma onda existencializante na filosofia - Sartre, Jaspers, Heidegger, Camus e até mesmo os filósofos de Frankfurt etc, resgataram a filosofia do dinamarquês. Tanto foi assim que ele recebeu o epíteto de "pai do existencialismo". Não é de se estranhar que ele tenha ficado algum tempo incógnito. Afinal, a fria e distante Dinamarca ficava fora do cenário dos grandes debates. Kierkegaard escrevia em dinamarquês. A língua da filosofia era o francês ou alemão, sendo tolerado, quando muito, o inglês. O que poderia vir da longínqua Jutlândia?

O filósofo era uma figura, no mínimo, estranha. Escrevia sobre determinadas categorias as quais não eram referenciáveis. Os seus patrícios não o entendia. Nascido em 1813 e morto em 1855, Kierkegaard mesmo estando longe da arena filosófica não ficou alheio às grandes controvérsias filosóficas do seu tempo. Viajou à Alemanha para ouvir, por exemplo, uma palestra de Schelling. O século XIX é o século do idealismo hegeliano e, mais tarde, dos ideias materiais de Darwin, Comte e Marx. Onde se poderia colocar a filosofia singular de Kierkegaard que postulava que o individual prevalece sobre o universal? Ou seja, ao invés de se começar a análise do gênero para a espécie, deve se fazer o contrário, colocando o indivíduo sobre todas as coisas. É a existência singular do sujeito que o torna único ante todas as realidades.

Ele parecia "o patinho feio" da filosofia, fazendo uma referência ao seu conterrâneo Hans Christian Andersen. Enquanto a filosofia hegeliana explicava todas as coisas, bem como a ciência em vertiginoso desenvolvimento, Kierkegaard diz que faltava discutir sobre o indivíduo com toda a sua singularidade. Era pelo crivo do individual que a história deveria ser medida. Para ele, o sujeito precisa "decidir ser". E o instante da decisão é a loucura pela qual o universo inteiro deve parar, observar. O homem é aquilo que escolhe ser, é aquilo que se torna. E "tornar-se" é a maior das aventuras. Daí, que surge a sua máxima: "procuro uma verdade que seja verdadeira para mim", pois tudo para diante do indíviduo. São os seus olhos que observam a contigência, pois a existência é o reino do devir na história. 

Kierkegaard é o homem avesso a qualquer sistema que prenda a possibilidade de ser do sujeito individual. A possibilidade é a mais pesada e árdua das categorias, pois sugere uma escolha de fé e 'a fé é aquilo que deve sobrar quando tudo acaba'.

Kierkegaard era um "poeta cristão". Cena curiosa é aquela em que o diabo aparece para a personagem principal de Doutor Fausto, de Thomas Mann. Quando da chegada do diabo, este percebe Adrian lendo um dos livros do filósofo dinamarquês. O diabo então profere: "Então, lendo o cristão?" Em outras palavras: Kierkegaard foi aquilo que escreveu. Tornou a sua noção de fé e suas experiências em algo com sentido. Podemos dizer que ele encontrou a sua verdade. Sua filosofia era um estilo de vida. Como ele mesmo dizia: "ninguém pode se pôr em meu lugar diante de Deus". 

Selo de comemoração aos 200 anos de nascimento do filósofo
É diante de Deus, que o sujeito fica nu e se torna aquilo que deve se tornar. Daí, deerivam dois conceitos que são inextricáveis à obra do filósofo - o conceito de angústia e o conceito de desespero. A angústia é típica do homem na sua relação com o mundo; e o desespero é próprio do homem na sua relação consigo mesmo. As raízes do desespero estão em não querer se aceitar nas mãos de Deus. Quem está em desespero ainda não está consigo mesmo, ainda não se achou plenamente. Aqui cria-se a ideia do paradoxo, pois ao passo que mais me firmo na fé e me aproximo de Deus e, fujo do desespero, mais abomino o mundo e me torno pronto para a eternidade. 

Nesse sentido, é necessário mencionar os três estágios - o estético, o ético e o religioso. O estético seria aquele se vale dos prazeres. É o nível na qual os homens naturais se encontram.  O segundo estágio é o ético em que prevalece a observação das regras morais, dos códigos jurídicos. E o terceiro e último é o religioso, ou seja, o estágio em que o sujeito individual se torna a si mesmo e vive reconciliado com a eternidade.

Esse sujeito que possui uma consciência psicológica da sua condição é o "cavaleiro da fé". Fé não é meramente crer, mas é ressignificar a realidade. A filosofia de Kierkegaard sempre se constituiu em algo a ser admirado para mim. Sempre lembro dele uma hora ou outra. Ele falava daquilo que é mais fundamental na vida: tornar-se a si mesmo com todos os seus implicativos. Numa era a qual notamos um nível tão grande barbarismo e superficialidades, o pensamento de Kierkegaard surge como um desafio para que possamos nos encontrar na curva da existência do devir histórico.


quinta-feira, maio 30, 2013

Algumas impressões sobre o filme "Somos tão jovens", que conta os anos iniciais da carreira de Renato Russo

O filme "Somos tão jovens", do diretor Antonio Carlos Fontoura, deixou-me impressionado com a atuação do ator Thiago Mendonça. Ficou claro que o ator estudou com bastante atenção os trejeitos, os cacoetes e todo o mundo existencial de Renato Russo, vocalista e principal nome da Legião Urbana. O longa mostra a cena política e cultural de Brasília no final dos anos 70 e início da década de 80. 

O filme foca a atenção no espaço do Plano Piloto, região da Capital Federal onde mora a burguesia da cidade - servidores públicos do auto-escalão do Estado, políticos, diplomatas etc. Renato Russo, por exemplo, era filho de um economista do Banco do Brasil. O jovem Renato morara nos Estados Unidos e, na Capital Federal, estudou no Colégio Marista, uma das escolas mais tradicionais e influentes, ainda hoje, aqui em Brasília.

A obra não busca mostrar toda a vida do líder da Legião Urbana. Foca no curto espaço de 16 aos 22 anos. E é, por isso, que deixa a impressão de obra inacabada. Quando menos se espera, o filme acaba. Mas, a produção de Antonio Carlos Fontoura é convicente.

De 1964 a 1985, o Brasil experimentou um dos períodos mais escuros da sua história. Esse período que ficou conhecido como Ditadura Militar, trouxe repressão e censura. Vale mencionar que no final da década de 1970 e início dos anos de 1980, o capitalismo vivia um período de crise. O movimento punk surgira na Inglaterra nos bairros operários e se espalhara pelo mundo. Bandas como The Sex Pistols ou The Clash haviam surgido na Inglaterra com uma atitude panfletária e rebelde. Nos Estados Unidos bandas como The New York Dolls e Ramones também marcaram o compasso. As roupas rasgadas, a música distorcida e gritada com poucos acordes, o visual provocativo e a atitude rebelde eram as principais marcas do movimento punk. O protesto tinha uma direção: a sociedade capitalista moralista e religiosa, geradora de desigualdade e de um projeto burguês que visava docilizar as ações do homem comum.

Nessa mesma época, outra banda importante, o Joy Division, de duração efêmera, também possui a sua relevância. O Joy Division, apesar de ser citado em "Somos tão jovens" de forma superficial, imprimiu uma nova linguagem ao rock, que pode ser chamada de pós-punk, posto que trazia influências do punk, mas amalgamada às influências de uma melancolia intensa, que desembocaria na new age.  O genial vocalista do Joy Division, Ian Curtis, que se matou ainda muito jovem, creio, foi uma influência para o líder da Legião Urbana. Músicas como Ainda é cedo mostra a influência do pós-punk e uma textura muito similar à banda de Curtis. Um importante filme sobre a vida do problemático Curtis é Control (aqui também) de 2008, do diretor Anton Corbijn. Mas o Renato era a mistura de muitas coisas.


Após a digressão, vale afirmar que tais características serviram de inspiração para os filhos da burguesia - os rebeldes sem causa. A expectativa de estabilidade gerada pelo mundo burguês e uma sociedade que vivia a realidade da Ditadura, levou essa juventude a protestar, a construir ideais. Curiosa é uma das passagens da música Química escrita pelo Renato Russo: "Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão/ Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão /Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão".

É nesse contexto que aparece a figura de Renato Russo, que ainda no final dos anos 70, forma o Aborto Elétrico e o nome já um escracho ou uma tentativa de cooptar a atenção. A banda do ponto de vista sonoro era péssima, mas havia um sujeito habilidoso com as palavras. As letras eram de alto nível. Era como se colocasse um diamante em um recipiente de palha. A banda consegue, com apresentações tacanhas, se firmar no cenário cultural da Capital.

É dessa época também o surgimento de duas outras bandas - a Plebe Rude e o Capital Inicial (esta última dos escombros do Aborto Elétrico). Outro músico indiretamente surge do cenário musical de Brasília, Herbert Vianna, líder e fundador de Os Paralamas do Sucesso.

Todavia, o que me chamou a atenção no filme foi a tentativa acertada de reproduzir a personalidade complexa de Renato Russo, que acreditava em astrologia e possuía uma sensibilidade poética incomum. E o quanto gostava de literatura. O nome Russo é uma homenagem, como mostra o filme, a Bertrand Russel, filósofo inglês, e o filósofo francês Jean-Jacques Rousseau. Pouca coisa já era suficiente para mover-lhe as emoções. Uma cena em que isso fica patente é quando da morte de John Lennon. O filme mostra o quanto aquilo que mexeu com o Renato Russo. 

Tais complexidades foram responsáveis pelo fim do Aborto Elétrico. Os dois outros músicos Fê Lemos (baterista) e Flávio Lemos (baixista) - ambos fundadores, com Dinho Ouro Preto, do Capital Inicial - viviam às turras com o futuro líder da Legião. Após essa cisão, Renato muda a postura rebelde e investe num estilo mais folk. Deixa a barba crescer e faz apresentações solitários, auto-proclamando-se 'O trovador solitário'. E aos poucos essa expressividade vai crescendo até a formação da Legião Urbana, com os dois parceiros de toda a carreira - Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos. O filme termina justamente nesse ponto, quando os músicos após terem feito um show em Patos de Minas, são convidados a irem ao Rio de Janeiro. Como afirmei acima, o filme é bom. O ponto mais forte da obra é a atuação de Thiago Mendonça, que travestiu-se de Renato Russo. Thiago conseguiu transmitir o jeito teatralizante e performático do líder da Legião. As músicas cantadas também mostram uma qualidade positiva. 

Um dos principais objetivos que me levou a assistir ao filme foi entender um pouco mais sobre o cenário político e cultural da Brasília da época da Ditadura. E penso que o filme conseguiu me passar uma impressão positivo sobre este fato. Muito bom!