Vi hoje cedo este enigmático vídeo e fiquei alguns instantes a refleti-lo. Rino Stefano Tagliafierro "sugere" determinados movimentos àqueles quadros consagrados pela história da arte. Há pinturas de Cornelius von Max, Rembrandt, Bouguereau, Caravaggio, Roberto Ferri, Pagliei, Falero, Thomas Hill, James Sant, Asher Brown Durand, Tanoux, Andrea Vaccaro, Guido Reni, Johannes Vermeer, Théodore Géricault, Rubens, etc. Com música de Enrico Ascoli, o vídeo imprime uma cadência misteriosa àquilo que tentamos enxergar quando contemplamos estes quadros. É como se Tagliafierro antecipasse a nossa visão. Excelente! Para ser ver muitas vezes.
domingo, janeiro 26, 2014
sexta-feira, janeiro 24, 2014
Os rolezinhos nos acusam: somos uma sociedade injusta e segregacionista - por Leonardo Boff
Excelente texto! Vale ser compartilhado para os possíveis leitores incidentais que surgirem por aqui.
O fenômeno dos centenas de rolezinhos que ocuparam shoppings centers no
Rio e em São Paulo suscitou as mais disparatadas interpretações.
Algumas, dos acólitos da sociedade neoliberal do consumo que identificam
cidadania com capacidade de consumir, geralmente nos jornalões da mídia
comercial, nem merecem consideração. São de uma indigência analítica de
fazer vergonha.
Mas houve outras análises que foram ao cerne da questão como a do jornalista Mauro Santayana do JB on-line e as de três especialistas que avaliaram a irrupção dos rolês na visibilidade pública e o elemento explosivo que contém. Refiro-me à Valquíria Padilha, professora de sociologia na USP de Ribeirão Preto:”Shopping Center: a catedral das mercadorias”(Boitempo 2006), ao sociólogo da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jessé Souza,”Ralé brasileira: quem é e como vive (UFMG 2009) e de Rosa Pinheiro Machado, cientista social com um artigo”Etnografia do Rolezinho”no Zero Hora de 18/1/2014. Os três deram entrevistas esclarecedoras. Eu por minha parte interpreto da seguinte forma tal irrupção:
Em primeiro lugar, são jovens pobres, das grandes periferias, sem espaços de lazer e de cultura, penalizados por serviços públicos ausentes ou muito ruins como saúde, escola, infra-estrutura sanitária, transporte, lazer e segurança. Veem televisão cujas propagandas os seduzem para um consumo que nunca vão poder realizar. E sabem manejar computadores e entrar nas redes sociais para articular encontros. Seria ridículo exigir deles que teoricamente tematizem sua insatisfação. Mas sentem na pele o quanto nossa sociedade é malvada porque exclui, despreza e mantém os filhos e filhas da pobreza na invisibilidade forçada. O que se esconde por trás de sua irrupção? O fato de não serem incluidos no contrato social. Não adianta termos uma “constituição cidadã” que neste aspecto é apenas retórica, pois implementou muito pouco do que prometeu em vista da inclusão social. Eles estão fora, não contam, nem sequer servem de carvão para o consumo de nossa fábrica social (Darcy Ribeiro). Estar incluído no contrato social significa ver garantidos os serviços básicos: saúde, educação, moradia, transporte, cultura, lazer e segurança. Quase nada disso funciona nas periferias. O que eles estão dizendo com suas penetrações nos bunkers do consumo? “Oia nóis na fita”; “nois não tamo parado”;”nóis tamo aqui para zoar”(incomodar). Eles estão com seu comportamento rompendo as barreiras do aparheid social. É uma denúncia de um país altamente injusto (eticamente), dos mais desiguais do mundo (socialmente), organizado sobre um grave pecado social pois contradiz o projeto de Deus (teologicamente). Nossa sociedade é conservadora e nossas elites altamente insensíveis à paixão de seus semelhantes e por isso cínicas. Continuamos uma Belíndia: uma Bélgica rica dentro de uma India pobre. Tudo isso os rolezinhos denunciam, por atos e menos por palavras.
Em segundo lugar, eles denunciam a nossa maior chaga: a desigualdade social cujo verdadeiro nome é injustiça histórica e social. Releva, no entanto, constatar que com as políticas sociais do governo do PT a desigualdade diminiui, pois segundo o IPEA os 10% mais pobres tiveram entre 2001-2011 um crescimento de renda acumulado de 91,2% enquanto a parte mais rica cresceu 16,6%. Mas esta diferença não atingiu a raíz do problema pois o que supera a desigualdade é uma infraestrutura social de saúde, escola, transporte, cultura e lazer que funcione e acessível a todos. Não é suficiente transferir renda; tem que criar oportunidades e oferecer serviços, coisa que não foi o foco principal no Ministério de Desenvolvimento Social. O “Atlas da Exclusão Social” de Márcio Poschmann (Cortez 2004) nos mostra que há cerca de 60 milhões de famílias, das quais cinco mil famílias extensas detém 45% da riqueza nacional. Democracia sem igualdade, que é seu pressuposto, é farsa e retórica. Os rolezinhos denunciam essa contradição. Eles entram no “paraíso das mercadorias” vistas virtualmente na TV para vê-las realmente e senti-las nas mãos. Eis o sacrilégio insuportável pelos donos do shoppings. Eles não sabem dialogar, chamam logo a polícia para bater e fecham as portas a esses bárbaros. Sim, bem o viu T.Todorov em seu livro “Os novos bárbaros”: os marginalizados do mundo inteiro estão saindo da margem e indo rumo ao centro para suscitar a má consciência dos “consumidores felizes” e lhes dizer: esta ordem é ordem na desordem. Ela os faz frustrados e infelizes, tomados de medo, medo dos próprios semelhantes que somos nós.
Por fim, os rolezinhos não querem apenas consumir. Não são animaizinhos famintos. Eles tem fome sim, mas fome de reconhecimento, de acolhida na sociedade, de lazer, de cultura e de mostrar o que sabem: cantar, dançar, criar poemas críticos, celebrar a convivência humana. E querem trabalhar para ganhar sua vida. Tudo isso lhes é negado, porque, por serem pobres, negros, mestiços sem olhos azuis e cabelos loiros, são desprezados e mantidos longe, na margem.
Esse tipo de sociedade pode ser chamada ainda de humana e civilizada? Ou é uma forma travestida de barbárie? Esta última lhe convem mais. Os rolezinhos mexeram numa pedra que começou a rolar. Só parará se houver mudanças.
Daqui
quarta-feira, janeiro 22, 2014
"Crimes e Pecados", de Woody Allen - um tratado sobre o comportamento humano
Vi ontem, com um olho aberto e outro e outro fechado, em decorrência do sono, o ótimo filme Crimes e Pecados, de Woody Allen. Assisti a esse filme sempre foi uma luta (risos!). Iniciei várias vezes e nunca terminei. Desejei, da última vez, iniciar e finalizar. O filme é imensamente agradável. Está dentro do gênero comédia, mas, ao fim, percebemos que se trata de uma tragicomédia, com forte sabor filosófico.
Crimes e Pecados constrói uma tese cristã sobre os homens: todos os homens são culpados; todos os homens cometem crimes morais e, por isso, são pecadores. Os personagens centrais possuem máculas em sua personalidade ou cometem delitos privados, omitidos na vida pública. O oftalmologista bem-sucedido, dono de uma aparente reputação ilibada; pai de família exemplar; segue um fluxo amplo nas relações sociais, mas acoberta um adultério. E quando a amante ameaça trazer o romance proibido à tona, ele decide matá-la. Depois, se ver acometido pelo remorso e pela culpa, já que descendia de forte educação judaica. E segundo seu pai, "Deus retribuirá com um prêmio ao homem bom e com o castigo o homem mal".
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| Judah Rosenthal (Martin Landau) e Dolores Paley (Anjelica Huston |
Halley Reed (Mia Farrow), que aparenta ser um oceano de recato moral, acaba casando com Lester (Alan Alda), simplesmente, por interesse. Cliff Stern (Woody Allen), apesar de parecer um sujeito aparvalhado, por certo momento, decide trair a esposa com a companheira de profissão, Halley Reed. Queria levar à frente o romance, mas se ver impedido pela deferência da moça. Até mesmo a esposa de Cliff, nas cenas finais do filme, diz ao irmão Lester que havia conhecido uma pessoa. Ou seja, a consumação de mais um adultério. Claro, as minhas descrições ficam apenas no campo do imediatismo, sem esboçar contundentemente a gama complexa trabalhada no filme.
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| Cliff Stern (Woody Allen) e Halley Reed (Mia Farrow) |
Frase lapidar é enunciada pelo personagem de Woody Allen: "Nós somos a soma de nossas decisões". Entendo que essa frase possua metade do devir pela qual somos acometidos. Ela é verdadeira. Mas entendo que não são apenas as nossas decisões que fazem cada um de nós. Somos resultado de conjunturas sociais, culturais etc. Mas, por sua vez, o que Cliff quer dizer é que muitas das decisões que tomamos acabam por trazer consequências e que nos colocam em caminhos que definem a nossa existência. Escolher uma estrada é optar, também, não caminhar por outra estrada. E os fatos e relações que estão presentes na estrada que decidi caminhar, criam ramificações que vão trazendo consequências e se instauram como fios tentaculares. Tais eventos acabam gerando fatos que estão para além do nosso controle, como acontece, por exemplo, com o oftalmologista a qual citei acima.
Nossas decisões encerram premissas morais. A tese do filme é pessimista em excesso - e porque não dizer niilista? Ou seja, todos os homens são corruptos ou passíveis de corrupção. Isso me faz lembrar uma passagem bíblica: "O homem pode prevaricar até por um pedaço de pão" (Pv 28.21). Uma das definições para "prevaricar", segundo o Aurélio, é "torcer a justiça", "faltar ao dever", dando a entender que se trata de algo que encerra um elemento moral. Nesse sentido, Crimes e Pecados confirma essa afirmação reputada a Salomão.
Excelente filme! Vale a recomendação.
O filme pode ser visto no Youtube.
terça-feira, janeiro 21, 2014
"Ninfomaníaca, Volume I" - de Trier - ainda penso...
Na sexta-feira, dia 10 de janeiro, quando fiquei sabendo da estreia do mais novo filme de Lars Von Trier - Ninfomaníaca - Volume I (2013) - fiquei com uma vontade imensa de ir ao cinema. Infelizmente, não pude ir naquele dia, pois chegara de Pirenópolis-GO e estava arrumando as malas para partir, no outro dia, para o Nordeste. Cheguei de Pernambuco no domingo, dia 19, e fomentei para o outro dia a possibilidade de ir ver o filme. E assim fiz numa sofreguidão incrível.
Tratava-se de um filme de Trier. O diretor dinamarquês é daqueles sujeitos talentosos e sabem vender bem a imagem que possui. Megalomaníaco em excesso, Trier já foi responsável por afirmações que, no final, sabemos, resulta em ganhos mercadológicos. Em 2009, por exemplo, no Festival de Cannes, afirmou ser o melhor diretor do mundo. E, talvez, até o seja! Estamos em uma época em que o cinema anda em um marasmo terrível com aquelas porcarias vindas de Hollywood.
Trier é um sujeito que sabe usar explorar bem isso. Tem sido assim com seus últimos dois filmes - O Anticristo (2009) e Melancolia (2011). O simples fato de ser um filme de Trier já desperta a curiosidade e aí temos a tese confirmada. Não sabemos ao certo se Trier é um artista erguido pelas qualidades geniais ou pelo mero marketing. Suas pretensões são, quiçá, de deixar o seu nome na história como um Bergman ou Tarkovsky. Mas, claro, trata-se de especulação.
Após ter visto Ninfomaníaca, ainda continuo pensando que sua grande obra é Dogville (2003), cuja análise sobre a natureza humana e beleza estética estão longe de serem superadas por qualquer filme lançado neste século XXI. Em Ninfomaníaca, o diretor busca criar uma tese moral e usa como ingrediente o sexo, assim como alguém usa açúcar para atrair formigas. Falar sobre sexo na sociedade judaico-cristã ocidental é gerar dois sentimentos, no mínimo: (1) ou de interesse voyeurista; (2) condenação afetada pelo julgamento moralista.
Trier é sabedor dessa estratégia e busca com isso gerar estupefação na audiência. Percebi isso enquanto via o filme. Pelos menos três casais saíram da sala do cinema. Quero crer que se trate de uma fenômeno isolado. Todavia, analisando os recursos cinematográficos utilizados pelo diretor, notei que em dados momentos as cenas vão gerando uma "agonia", um "enjoo" filosófico. É como se ele tivesse por intenção provocar o espectador; mexer com suas veleidades morais; afrontá-lo em suas convenções de burguês-cristão.
Ninfomaníca - Volume I, pelo menos para mim, não causou impacto profundo como causou o já aludido Dogville ou Dançando no Escuro (2000), ambos de grande beleza plástica. O que Trier buscou insinuar com a Ninfomaníaca? O sexo é mau? Buscou criar sofisticação com um tema-tabu para a sociedade ocidental e com isso aumentar a audiência para a sua obra? Quis justificar seus próprios problemas pessoais? O filme confirma a tese de que Trier é alguém com ideias muito bem definidas do ponto de vista das especulações.
Penso que Ninfomaníca, desde 2000, tenha sido o filme mais fraco de Trier. A tentativa de fazer um estudo (psicanalítico? moralista? metafísico?) sobre a vida da personagem Joe, vivida por Charlotte Gainsbourg (sempre presente nos filmes do diretor) e a estreante Stacy Martin (que faz Joe ainda jovem), não se mostrou convicente. Percebi algo cuja finalidade é uma tentativa de pirotecnia com um tema sempre polêmico quando vem à baila - sexo. Outro fato é a tentativa de associar a "catedral numérica" na tentativa de encontrar a perfeição de Deus da música de Bach, a fatos relacionados com a vida da personagem. Isso é corriqueiro em Trier.
Talvez, aquilo que ainda não foi revelado em sua efetividade fique claro na segunda parte do filme, já que a obra foi separada em duas partes. Originalmente possui mais de cinco horas, mas essa extensão será exibida somente nas salas de festivais.
Tratam-se de impressões pessoais e aqui estão as minhas: rápidas e descuidadas!
sábado, janeiro 04, 2014
Tudo russo.
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| Dmitri Shostakovich |
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| Piotr Ilitch Tchaikovsky |
É só observar, por exemplo, a força presente na Marcha Eslava, de Tchaikovsky; ou na fúria irônica e cínica do Concerto para cello de Shostakovich; ou ainda na beleza trágica da Abertura Romeu e Julieta, Tchaikovsky; ou na desolação acabrunhante do Concerto para violino, Shostakovich. Obras não faltam - as sinfonias e os quartetos de cordas de Shostakovich; a maravilhosa Sinfonia Patética de Tchaikovsky; as obras ululantes de melancolia de Glazunov; a energia metalizada de Rymsky-Korsakov etc
E isso não está presente apenas na música. Está espargido na literatura - Dostoiévsky, Tolstói, Gogol, Maikovsky, etc.Mas isso já é outra história.
Adora a alma russa.
Tchaikovsky, Marche Slave Op.31 Evgeni Svetlanov
Tchaikovsky, Romeo e Juliet, Gergiev, London Symphony Orchestra
Shostakovich: Cello Concerto n.1 op.107 - Mischa Maisky - 1st mvt.
David Oistrakh "Violin Concerto No 1" Shostakovich
quinta-feira, janeiro 02, 2014
Alguns devaneios e um livro de Paul Tillich - "História do pensamento cristão"
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| Paul Tillich |
Sempre fui religioso. Durante muito tempo, o medo e a culpa foram as minhas principais religiões. Fiz minhas preces. Li a Bíblia quatro ou cinco vezes. Frequentei igreja. Elaborei prédicas. Semeei esperanças e julgamentos. Tudo em nome de um dogma. Estudei em um seminário. Formei-me em teologia. Perscrutei como são as entranhas da religião. Senti o cheiro de seus órgãos. Como são estruturados os seus tecidos. A régua de cálculo é a teologia. É com ela que se mede os espaços; que se estabelece aquilo que é certo ou errado. A religião é, por natureza, dicotômica. Ela não existe sem um "sim" e sem um "não". Ou seja, ela não consegue existir sem a ideia de "bem" e sem a ideia de "mal". De "bem" se chama aquilo que está harmonizado com os ditames do dogma; de "mal" se chama aquilo que não está de acordo com as sentenças do dogma.
Analisando friamente a história da evolução do homem, chegamos a conclusões desconcertantes. Tudo está na história. Ela explica o presente. A questão essencial passa a existir quando negligenciamos a análise dos processos históricos. O mundo sempre foi o mesmo? Os antigos não estruturaram as nossas consciências? A resposta para as certezas do presente não estariam no passado?
Hoje temos a tecnologia por todos os lados. Ela nos pervade. Estamos tão acostumados a ela, que achamos estranho quando ficamos sem nosso celular ou sem acessar a rede mundial de computadores; ou quando a energia elétrica tem o fornecimento prejudicado. Acostuma-nos às informações. Quando queremos saber algo vamos ao Google. Lá encontramos todas as respostas. Tudo é tão óbvio. A medicina caminha a passos largos. Conseguimos coibir boa parte da enfermidades que eram capazes de dizimar populações inteiras. Temos ressonâncias computadorizadas sofisticadíssimas. Enxergamos, hoje, o núcleo essencial da vida. Mapeamos geneticamente o DNA. Vimos que não estamos distantes dos outros seres do ponto de vista genético. Existe um nível de parentesco muito grande - principalmente, com os primatas. Podemos escolher o sexo, a cor dos olhos, do cabelo das crianças.
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| Sören Kierkegaard |
Mas tudo foi assim? E quando queríamos entender essas coisas e não tínhamos um aparato científico tão desenvolvido? É, justamente, aí que entra a religião. Ela foi a primeira forma de explicação. Os mitos surgiram como forma de explicar a materialidade. Os antigos, simplesmente, disseram: "É vontade dos deuses!" Era a forma de construir diques contra o caos de uma existência fincada no nada. Em momentos de solidão, de agonia, de dor, o melhor remédio é saber que não se está sozinho. Daí, ao se criar um "ser invisível", "onipotente", "onipresente", que vigia e guarda os nossos desejos, passamos a experimentar uma estabilidade psicológica. Feuerbach, filósofo alemão do século XIX, costumava dizer que religião é "antropologia". Eu diria, também, que religião é "psicologia". Tudo é resultado de uma consciência depositada em receptáculo onipotente (deus), que passa a guardar, salvar, premiar, privilegiar e explicar a totalidade do universo.
O crente encontra tudo o que ele procura em sua fé. Ela explica tudo. Tire-se a fé e ele tem as suas estruturas psicológicas abaladas. Todavia, ele não sabe que tudo está em nós. Ou seja, a religião revela intimidade do próprio homem. Seus medos. Inseguranças. Seus desejos velados. Sua necessidade de justiça ante a injustiça. Sua vingança contra os cataclismos de um mundo desordenado. É a saudade sentida por algo que ele nunca experimentou, que se transforma em torrente psicológica quando ele verbaliza para um ente invisível. Deus é o próprio homem querendo achar a si mesmo na noite escura da alma.
Ocorreram-me esses devaneios, depois que li o livro História do Pensamento Cristão, de Paul Tillich, um dos maiores teólogos da história do cristianismo protestante. Tillich era polonês e após ter participado da Primeira Guerra Mundial teve as suas percepções sobre o ser humano e a história completamente alterados. Por ter vivenciado as agruras da guerra como capelão, observou o quanto o ser humano é habitado por uma torpeza absurda. Abraçou uma epistemologia existencialista. Kierkegaard é um dos progenitores do seu pensamento. Leciounou teologia em um seminário que tinha nomes como Heidegger e Rudolf Bulltmann. E a partir desse entendimento buscou trazer lampejos de esperança ao homem do século XX. A desolação de uma época fundada na desesperança fez com que Tillich construísse uma teologia que respondia a um questionamento: "Onde está Deus em meio a tudo isso? Onde achar esperança?" E Tillich respondia: "A mensagem de esperança está escondida em ti. Deus é um evento relativo que está escondido em ti mesmo, ó homem do caos".
A mensagem, necessarimente relevante, é aquela que responde a uma necessidade pessoal. A religião fica nua, sem os seus dogmas, sem as suas folhagens; sem seus códigos construídos pelos "eminentes" teólogos. Ou seja, a filosofia passa a está à frente da fé. Não é a fé que, agostianamente, dita o que é certo ou errado em matéria de crença, mas a existência que determina o ser ou não-ser. Poderia dizer que é um quase tomismo sem o método escolástico.
O livro de Tillich solidificou uma desconfiança que há muito me acompanhava. Vi como os dogmas do cristianismo, as polêmicas e o pensamento hegemônico se consolidaram. O mundo que está aí foi montado por alguém. E essa deve ser a premissa. Ora, quem "construiu" os dogmas do cristianismo? Por que se crer desse jeito e não de outro? Por que o mundo ocidental é cristão e não politeísta ou não se tem uma fé gnóstica? Por que se crer na trindade? Esse conceito sempre existiu? A dupla natureza de Cristo é algo que sempre foi acreditado dessa forma? E os livros bíblicos ditos sagrados, quem os tornou "santos"? E o dogma do pecado original?
São questões que devem ser respondidas com máxima urgência. Quando se olha para a história, nota-se que determinados sujeitos construíram esses conceitos. Os concílios fomentaram aquilo que se deveria crer e aquilo que não se deveria crer. Ou seja, o mundo ocidental acredita naquilo que foi construído pela institucionalização de um movimento. A cultura hegemônica de um povo tornou-se a referência absoluta incomparável. Gramsci afirma de forma lapidar sobre esse tema:
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| Antonio Gramsci |
"(...) A história da filosofia, como é comumente entendida, isto é, como história das filosofias e dos filósofos, é a história das tentativas e das iniciativas ideológicas de uma determinada classe de pessoas para mudar, corrigir e aperfeiçoar as concepções do mundo existentes em todas as épocas determinadas e para mudar, portanto, as normas de conduta que lhes são relativas e adequadas, ou seja, para mudar a atividade prática em seu conjunto"
"A filosofia de uma época não é filosofia deste ou daquele filósofo, deste ou daquele grupo de intelectuais, desta ou daquela grande parcela das massas populares: é uma combinação de todos estes elementos, culminando em uma determinada direção, na qual sua culminação torna-se norma de ação coletiva, isto é, torna-se "história" concreta e completa (integral)".
"A filosofia de uma época histórica, portanto, não é senão a história desta mesma época, não é senão a massa de variações que o grupo dirigente conseguiu determinar na realidade precedente: neste sentido, história e filosofia são inseparáveis, formam um "bloco". (GRAMSCI, 1981, p.32).
Assim, nota-se que a construção de determinada massa ideológica ou determinado força filosófica hegemônica se dá em determinado momento histórico pelo grupo majoritário, pelo jogo de interesses do grupo dominante. Os dogmas ou os sentidos da fé são resultado da força da Igreja que açambarcou a estrutura do Estado romano e se tornou a força ideológica totalizante. Os filósofos, teólogos, são, simplesmente, debatedores de uma dogma criado superestrutura que tinha a Igreja como força oficial. Ou seja, debatiam o status quo filosófico.
O livro do Tillich é relevante. Ele faz um passeio pela história. Discute o pensamento de cada filósofo e as querelas suscitadas pelas filosofias de cada um deles. Boa parte do livro é dedicado a discutir o pensamento teológico e filosófico dos primeiros séculos da era cristã. Explica os principais movimentos filosóficos religiosos que faziam parte do background dos mundos grego e romano e que foram extirpados pelo cristianismo. Teólogos importantes como Pelágio, Orígenes, Filo de Alexandria, Ário, Sabélio, tiveram seus pensamentos colocados na marginalidade pela força oficial da Igreja. As cidades importantes que fomentaram importantes debates - Alexandria, Antioquia, Bizâncio, Calcedônia.
Discute os principais nomes da filosofia e da teologia medieval - Tomás de Aquino, Abelardo, Bernardo de Claraval, Joaquin de Fiori, Anselmo, Guilherme de Ockham, Meister Eckhart. Discute os principais dogmas da Reforma e da Contra-Reforma. Discute, em seguida, o movimento escolástico protestante e o iluminismo. O livro é excelente para quem quiser conhecer profunda e filosoficamente como a fé ocidental está estruturada. O livro, na verdade, é resultado das aulas de Tillich dadas no período em que ele morou nos Estados Unidos.
Tinha o livro desde 2007 e li no final de dezembro último. O interesse foi tão salutar que comprei o outro livro do teólogo (Perspectivas da Teologia Protestante nos séculos XIX e XX), em que Tillich aborda a filosofia e a teologia dos séculos XIX e XX. Consegui-o em um sebo de Goiânia pela bagatela de vinte e um reais. Está novinho em folha.
GRAMSCI, Antonio. Concepção Dialética da História. Civilização Brasileira. trad. Carlos Nelson Coutinho, São Paulo. 1981, pp. 341
TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. ASTE. São Paulo. 2004, pp. 293
quinta-feira, dezembro 26, 2013
Algumas considerações sobre o "Punk Rock" e o documentário "Botinada - a origem do 'punk' no Brasil"
Assisti ao excelente documentário Botinada - a origem do punk no Brasil, 2006, dirigido pelo polivalente Gastão Moreira. O documentário busca retratar a história do movimento punk dos anos de 1976 a 1984 aqui no Brasil. Foram reunidas mais de 200 horas de vídeo; 77 pessoas foram entrevistadas ao longo de quatro anos de um trabalho árduo a fim de reunir documentos - fotografias, reportagens, imagens raras, depoimentos das personagens que fizeram a história do punk no Brasil.
É importante dizer que o punk apesar de ter surgido como movimento em meados dos anos 70, teve a sua gestação com bandas como MC5, com suas letras repletas de veneno político. É só ouvir a maravilhosa Kick out of the jams. Está tudo lá! Outra importante banda são os The Stooges, a banda do imortal Iggy Pop, que se consagrou pelo som ruidoso, de letras fáceis, melodia pegajosa e irreverência louca no palco. É só ouvir Down on the street, 1969, I wanna be your dog. Ou ainda o The Kinks e a maravilhosa All Day and All of the Night. Ou seja, podemos afirmar que essas e outras bandas são responsáveis por um proto-movimento que criava uma estética de irreverência, agressividade, tonalidades pegajosas, letras provocantes que "agrediam" o mainstream.
Mais para frente, por volta de 1971 ou 1972, o New York Dolls, que possuía uma estética bastante provocante foi formado. Algumas de suas músicas atestam isso como, por exemplo, Personality Crisis ou Jet Boy. O New York Dolls influenciaria uma série de bandas, entre elas o The Ramones. Devem ser citados ainda Blondie, Johnny Thunders and the Heartbreakers, The Cramps, Talking Heads.
Todavia, o que fermentou a explosão do Punk na Inglaterra? Pode se afirmar entre outras causas: a década de 70 enfrentava uma séria crise econômica. O Estado keynesiano havia entrado em agonia. Não havia possibilidade de continuá-lo. Era preciso "enxugar" o social do Estado. Foi a época de fundação do neoliberalismo por Margaret Tchatcher, que tornaria primeira ministra da Inglaterra em 1979. Entre as medidas adotadas por ela estavam a desregulamentação do setor financeiro, privatização das empresas estatais, flexibilização das leis e do mercado de trabalho. Ou seja, as consequências das medidas tomadas mais tarde por Tchatcher já vinham sendo experimentadas pelos jovens em anos anteriores. Deriva daí a premissa social do punk. Ou seja, os jovens queriam por meio da rebeldia e de uma estética plástica "apavorante" protestar contra o sistema capitalista. O desemprego, o empobrecimento, as políticas sociais sendo desmanteladas pelos tentáculos do noliberalismo jogou milhões na miséria. Era necessário "chocar" e subverter a ordem.
É nesse contexto que vão surgir duas bandas que revolucionariam os destinos do punk: o The Sex Pistols e o The Clash. Outras bandas surgidas nesse mesmo contexto inglês foram importantes. Entre elas ressaltam-se o The Damned e Buzzcocks. Estas bandas, rapidamente, exportaram uma atitude provocativa para o mundo. As roupas eram rasgadas; broches pela roupa; em alguns, era possível maquiagens anômalas; cortes de cabelos aberrantes; um palavreado eivado por palavrões; e muita, mas muita atitude. O The Sex Pistols, por exemplo, representa o que foi a atitude punk. Vale falar ainda do The Clash, que tinha uma vertente mais política e que se enveredou por outras sonoridades. O álbum London Calling, de 1979, é considerado um dos maiores discos da história.
O punk era uma estação necessária contra o rock alternativo. Pode se afirmar que a opção pela música barulhenta, rápida, de acordes fáceis e letras simples e provocativas estão firmadas em um voluntarismo estético. Um exemplo disso é o primeiro disco do The Ramones, de 1976, que possuía quatorze músicas em vinte nove minutos. Fazer uma música com essa tessitura era uma forma de insultar o quadro comercial oficial.
O punk se desintegra rapidamente. Das suas entranhas brotou a New Age, ou nova onda, que trazia uma estética mais comportada. Mas é possível observar que outras bandas deram seguimento àquilo que era necessário ao movimento punk: ou seja, a sonoridade e a contestação. Um exemplo disso são bandas como Dead Kennedys, Bad Brains, The Germs, Black Flag, entre outras. A New Wave é aquilo que pode se chamar de versão comercial do punk. Uma enxurrada de bandas surgiram nessa época: Elvis Costello, The B-52's, The Jam, Tears for Fears, Duran Duran, Devo; e bandas que inaugurariam um movimento mesclado por um visual gótico-surrealista: Echo and the Bunnymen, Joy Division, The Cure, New Order, The Smiths, U2, The Sonic Youth. O punk continuaria a destilar o seu poder e influenciaria o Grunge da década de 90. O que são bandas como Alice in Chains, The Melvins, Mudhoney ou Nirvana e suas respectivas estéticas, senão uma continuidade desse movimento?
Este cenário serve de pano de fundo para mostrar como se deu o nascimento do movimento punk aqui no Brasil. As primeiras bandas surgiram em 1977, influenciadas por aquilo que estava acontecendo na Europa e nos Estados Unidos. No documentário fica claro que o nascimento do punk se deu em São Paulo, embora outras cidades como Brasília e Salvador reivindiquem essa origem. Entre as bandas que são responsáveis por isso podem ser apontadas a Banda do Lixo e o Joelho de Porco.
Mais tarde, surgiriam as bandas que sedimentariam o punk como um movimento com identidade aqui no Brasil. Inocentes, AI-5, Ratos de Porão, Olho Seco, Condutores de Cadáver, Lixomania, Cólera, Garotos Podres, Os Replicantes, Aborto Elétrico etc.
O documentário é relevante por levantar informações sobre esse movimento que avocar atitude, pois o punk é movimento, conforme a sua gênese, sócio-cultural. Existe uma inflexão política. Um elemento contestatório. A vertente mais famosa do punk a promover justamente essa atitude é anarcopunk, que promove anarquismo como filosofia operante.
Dois fatos me chamaram a atenção:
(1) A mobilização da mídia com a finalidade de enfraquecer e deturpar o movimento. A responsabilização por acontecimentos variados. A confusão com nomes. Os primeiros grupos eram confundidos com nazistas. Ou seja, uma profunda ignorância, já que uma das lutas do movimento é justamente contra os totalitarismos, entre eles o nazismo.
Dois fatos me chamaram a atenção:
(1) A mobilização da mídia com a finalidade de enfraquecer e deturpar o movimento. A responsabilização por acontecimentos variados. A confusão com nomes. Os primeiros grupos eram confundidos com nazistas. Ou seja, uma profunda ignorância, já que uma das lutas do movimento é justamente contra os totalitarismos, entre eles o nazismo.
(2) O que me chamou a atenção no documentário, também, é como se encontram aqueles que fizeram o movimento aqui no Brasil. Estão subempregados. Lutando pelo pão de cada dia. Longe do mainstream. Isso serve para mostrar o quanto o movimento é marginal. Botinada é um importante documento a favor dessas personagens.
Pode ser visto no Youtube.
quarta-feira, dezembro 25, 2013
Cento e trinta anos depois, ainda Marx?
Excelente o texto! Traz à baila justamente a
questão do posicionamento anti-marxista, antes mesmo que se conheça
Marx. Criticar Marx sem que se tenha lido uma única página de Marx é uma
baita de uma ignorância. A regra geral é que aqueles que
fazem a crítica, geralmente desarrazoada, absorvem os argumentos
daquilo que foi feito em nome de Marx. É o exemplo mostrado no texto. A
ignorância histórica leva a associar o marxismo a práticas totalitárias.
"Existem fatos históricos que podem explicar essa associação, sendo que
o principal deles é a associação entre Marx e o regime estalinista da
União Soviética. O problema é que entre as ideias de Marx e as práticas
totalitárias existe uma série de mediações históricas, políticas e de
ideias que são deixadas de lado. Assim, se chega a uma conclusão análoga
a algo como atribuir a Einstein a responsabilidade pela bomba atômica".
A teoria social desenvolvida por Marx é ampla, complexa e abarca a
totalidade. Os reducionismos anti-marxistas nem resvalam na superfície
do pensamento de Marx. O pensador buscou superar as contradições da
materialidade, trazendo no bojo ideias como libertação, humanização e
liberdade. Isso, sim, é Marx! O resto é caricatura e ignorância!
Cento e trinta anos depois de sua morte, Karl Marx continua causando
polêmica. Poucos meses atrás, em Porto Alegre, foi veiculada a notícia
de que ‘livros marxistas’ teriam sido apreendidos como documentos
incriminadores. Pouco depois, o responsável pelas operações afirmou que
isso não teria ocorrido. Enquanto isso, um estudante de relações
internacionais ganhou notoriedade nacional ao se recusar a escrever
sobre Marx em sala de aula. O que esses fatos mostram, antes de tudo, é
que Marx continua vivo no debate político ideológico.
O problema é que poucos se aventuram a entrar nos escritos deste
controverso pensador. O que geralmente se vê são críticas feitas ao
totalitarismo, ao despotismo e à falta de liberdades. Em entrevista
repercutida no jornal Zero Hora, o estudante mencionado foi questionado e
convidado a explicar por que se posicionava contra o marxismo. Não
respondeu. Afirmou: “Minha educação sempre foi pela liberdade, pela
vida, pela justiça acima de tudo. Os regimes totalitaristas se tornaram
genocidas, trouxeram miséria e morte. Vejo que o Brasil caminha para ser
uma Venezuela.” Se vê claramente que a pergunta não foi respondida, e
isso é reflexo da ignorância generalizada acerca das ideias de Marx, já
que o rótulo ‘marxismo’ traz consigo a ideia pronta e acabada que
associa o marxismo com o totalitarismo.
Existem fatos históricos que podem explicar essa associação, sendo
que o principal deles é a associação entre Marx e o regime estalinista
da União Soviética. O problema é que entre as ideias de Marx e as
práticas totalitárias existe uma série de mediações históricas,
políticas e de ideias que são deixadas de lado. Assim, se chega a uma
conclusão análoga a algo como atribuir a Einstein a responsabilidade
pela bomba atômica. A questão que mais interessa, neste momento em que
vivemos, não é mais essa, e sim por que o estudante que recusa o
marxismo sem ter condições de responder por que é contra o marxismo,
ganha notoriedade nacional? Perguntas como essa poderiam encontrar
respostas na concepção filosófica do próprio Marx, para quem as ideias e
as representações da consciência estão entrelaçadas com a atividade e
as trocas materiais. Vivemos em 2013 momentos de contestação e
questionamentos acerca das desigualdades sociais que assolam o País. A
produção material da vida e as regras que determinam quem ganha e quem
perde estão sendo questionadas, e esse embate se reflete também nas
ideias e na consciência. Assim, para além de um posicionamento político,
a teoria de Marx continua válida nos dias de hoje para explicar esses
embates. No entanto, é necessário compreendê-la, e não aceitar
acriticamente associações automáticas que se escondem sob o véu da
ideologia. Quem perde com isso são aqueles que querem aprender, conhecer
e entender o mundo.
Rafael Kruter Flores é Doutor em Administração/UFRGS
Daqui
terça-feira, dezembro 24, 2013
Pedra Bonita, de José Lins do Rego; e algumas memórias
Terminei na última sexta-feira, a leitura de mais um dos romances do escritor paraibano José Lins do Rego. Minha intenção é ler toda a obra do autor de Menino de Engenho. Talvez, faltem uns quatro ou cinco livros. Tenho tido um êxito considerável. Não tenho seguido um script cronológico. Olho para os volumes disponíveis em minha biblioteca, saco-os e inicio a leitura. Muito simples. Seguindo essa lógica randomizante, o próximo livro a qual lerei será Cangaceiros, de 1953, um dos últimos romances escritos por José Lins; em seguida, pretendo ler Pureza, de 1937, primeiro romance escrito após o término do Ciclo da cana-de-açucar.
A cada livro que termino do escritor paraibano, surge-me uma pergunta: "O que me atrai a José Lins do Rego?". As suas produções são de cunho memorialístico. É estranho a Zé Lins a capacidade de criar a partir de elementos do não vivido, de inovar. As temáticas são recorrentes. Ou seja, aquilo que experimentou, que seus olhos captaram enquanto era moço na Paraíba, nos engenhos de açúcar, transformou-se em bagagem existencial que o seguiu pelo resto da vida. José Lins era um Balzac rural, um descritivista da vida do sertão nordestino.
Quando penso essas coisas, talvez, encontre um pouco dos motivos que me prendem à sua narrativa. Cresci na zona da mata pernambucana. Vivi lá até os nove anos de idade. E ainda aprisiono dentro de mim as rutilâncias febris da infância: a autoridade dos mais velhos, principalmente do meu pai e do meu avô materno; as brincadeiras com objetos primitivos forjados pela necessidade; os imensos canaviais das terras dos meus avôs; os riachos para as quais eu ia me banhar, ficar horas e horas a fio na água poluta; as árvores variadas e suas estações frutíferas (jaqueiras, mangueiras, jenipapeiros, jambeiros, saputizeiros, cajueiros, ingazeiros, larajeiras etc); os cheiros variados nos invernos imensos; a água que escorria feroz nos meses de maio e junho de cada ano, alargando os fios anêmicos dos regatos; as biqueiras dos telhados que faziam despencar veios arteriais profusos; a sensação de espanto quando ia à cidade; os trabalhadores no corte da cana; a fragrância inconfundível da cana queimada; o barulho do vento na palha dos coqueiros.
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| Graciliano Ramos e José Lins do Rego |
Ou seja, toda aquela planície ensolarada descortinada no texto de José Lins do Rego faz parte de mim. Está contida em galáxias interiores, neste vasto universo do meu ser. Esse cenário abrangente toma conta de mim. Cria conexões. Portas dimensionais são escancaradas e me fio por elas. Posso estabelecer um paralelo comparativo entre Graciliano Ramos e José Lins do Rego. Com relação ao primeiro, entendo que se trata de um dos nossos maiores escritores de todos os tempos. Com relação ao texto, Graciliano era um depurador de palavras. Seu estilo é inconfundível. Seu texto possui as gradações corretas. A pontuação precisa com a finalidade de criar efeitos estéticos únicos. É um texto que caminha com os pés na terra, medindo cada passo para chegar a determinado lugar com bastante precisão e estudo. Admiro isso. Já José Lins é dono de uma prosa "descuidada". Comete atropelos quanto à regência. Em alguns momentos se delonga em excesso em descrições. Em outros, passa-me a impressão de que está cometendo divagações. Todavia, "os pedaços" dessa prosa singular são conectados e temos um texto que produz sensações elétricas. José Lins sabia contar uma história como ninguém. Talvez, em nossa literatura o caso mais parecido seja o escritor gaúcho Erico Veríssimo.
Terminei a leitura de Pedra Bonita, livro escrito em 1938.Trata-se de um livro de temática religiosa. Aborda um elemento vital do imaginário do povo nordestino: a superstição. A história se passa em algum lugar do estado de Pernambuco, pois as referências aludem a isso. Há a citação de cidades como Garanhuns, Limoeiro, Goiana e Recife, cidades pernambucanas. O vilarejo de Açu reconstitui a arquitetura tão rotineira nas cidades interioranas do Brasil: a vida pacata do povo que se reúne embaixo de uma árvore para especular sobre a vida dos outros; a paróquia no centro da cidade; os coronéis que mandam na cidade; os comerciantes; e a gente comum; a devoção exagerada à tradição erguida pela Igreja Católica.
Como protagonistas temos o padre Amâncio e Antônio Bento, cuja história se ligava a ecos de acontecimentos espetaculosos com a cidade de Pedra Bonita.O jovem Antônio Bento havia sido adotado pelo padre. Era intenção do sacerdote torná-lo padre, mas o sacerdote teve suas intenções inviabilizadas em decorrência das dificuldades econômicas. Antônio Bento, assim, torna-se coroinha da paróquia. Passa a assistir o padre nos trabalhos da igreja. Todavia, a maior parte do povo de Açu não gostava do jovem. Ele era discriminado. Sofria com os debiques dos moradores da cidade.
O fato é que ao final da história, Antonio Bento se ver dividido entre ajudar o padre Amâncio, que estava em seu leito de morte, aguardando outro padre para fazer a confissão; ou se juntar aos seus patrícios de Pedra Bonita, que seriam vitimados pelas tropas do Estado que vinham com fúria para alijar do tumulto gerado por mais um frenesi messiânico.
O livro possui um realismo duro. O Estado parece como força tirana. Os militares batem sumariamente nas pessoas sem que estas possuam direito ao contraditório. Espancam velhos. Buscam à toda força, lançar por terra os cangaceiros que, também, surgem na história como força antitética aos desmandos do governo. Todavia, acabam se constituindo em mais um "flagelo" do sertão, pois defloravam moças, saqueavam os moradores da terra, alastravam pânico e a especulação de medo por onde quer que passassem.
Em dados momentos do texto, os infortúnio do tempo parecem acometer ao personagem Antonio Bento. A realidade parece sufocar a sua existência. Não há saídas. Existe uma espécie de fado do tempo histórico que é maior do que ele. Antonio Bento não tem saídas. Ele parece ser um joguete do destino. O céu está contra ele; os homens estão contra ele; a história está contra ele. Esse neorrealismo com pitadas de naturalismo, liga Pedra Bonita a Zola ou Aluísio de Azevedo, escritores do século XIX.
Muito bom o livro, embora não seja um dos melhores de José Lins do Rego.
sexta-feira, dezembro 20, 2013
Uma música "endiabrada" de Charles Mingus
Esta música é um "estouro". Esse George Adams é um ser mágico, de outro planeta. Que voz! Que agonia e desespero elegantes. Que música!
quinta-feira, dezembro 19, 2013
"Habemus Papam" - Por Mauro Saytayana. Uma contribuição contra a imbecilidade
Quando vejo disposições "sacadas" do lugar comum contra Marx, vêm a mim
dois sentimentos: primeiro de indignação e, segundo, de consciência da
ignorância do oponente. O capitalismo conseguiu cooptar, por meio do
deus mercado e da construção de um estilo de vida manco, a naturalização
do niilismo e do individualismo massacrante. Tal estilo de vida tem
levado o planeta ao colapso e, a humanidade, à barbárie. Confundem
experiências ou tentativas de materialização do socialismo com a
filosofia de Marx. Marxismo é acima de tudo uma força que busca a
liberdade, a humanização e a dignificação do ser humano. Um excelente antídoto (texto) contra o fascismo e a imbecilidade.
Habemus Papam
Por Mauro Saytayana. Extraído do site do Leonardo Boff.
Acusado por um conservador norte-americano de ser marxista, Jorge
Mario Bergoglio, o papa Francisco, negou sê-lo, mas disse que não se
sentia ofendido, por ter conhecido ao longo de sua vida muitos marxistas
que eram boas pessoas.
A declaração do papa, evitando atacar ou demonizar os marxistas, e atribuindo-lhes a condição de comuns mortais, com direito a ter sua visão de mundo e a defendê-la, é extremamente importante, no momento que estamos vivendo agora.
A ascensão irracional do anticomunismo mais obtuso e retrógrado, em
todo o mundo — no Brasil, particularmente, está ficando chique ser de
extrema direita — baseia-se em manipulação canalha, com que se tenta,
por todos os meios, inverter e distorcer a história, a ponto de se estar
criando uma absurda realidade paralela.
Estabelecem-se, financiados com dinheiro da direita fundamentalista,
“museus do comunismo”; surgem por todo mundo, como nos piores tempos da
Guerra Fria, redes de organizações anticomunistas, com a desculpa de se
defender a democracia; atribuem-se, alucinadamente, de forma
absolutamente fantasiosa, 100 milhões de mortos ao comunismo.
Busca-se associar, até do ponto de vista iconográfico, o marxismo ao
nacional-socialismo, quando, se não fossem a Batalha de Stalingrado, em
que os alemães e seus aliados perderam 850 mil homens, e a Batalha de
Berlim, vencidas pelas tropas do Exército Vermelho — que cercaram e
ocuparam a capital alemã e obrigaram Hitler a se matar, como um rato, em
seu covil — a Alemanha nazista teria tido tempo de desenvolver sua
própria bomba atômica e não teria sido derrotada.
Quem compara o socialismo ao nazismo, por uma questão de semântica,
se esquece de que, sem a heroica resistência, o complexo
industrial-militar, e o sacrifício dos povos da União Soviética — que
perdeu na Segunda Guerra Mundial 30 milhões de habitantes — boa parte
dos anticomunistas de hoje, incluídos católicos não arianos e sionistas,
teriam virado sabão nas câmaras de gás e nos fornos crematórios de
Auschwitz, Birkenau e outros campos de extermínio.
Espalha-se, na internet — e um monte de beócios, uns por ingenuidade, outros por falta de caráter mesmo, ajudam a divulgar isso — que o Golpe Militar de 1964 — apoiado e financiado por uma nação estrangeira, os Estados Unidos — foi uma contrarrevolução preventiva. O país era governado por um rico proprietário rural, João Goulart, que nunca foi comunista. Vivia-se em plena democracia, com imprensa livre e todas as garantias do Estado de Direito, e o povo preparava-se para reeleger Juscelino Kubitscheck presidente da República em 1965.
1964 foi uma aliança de oportunistas. Civis que há anos almejavam
chegar à Presidência da República e não tinham votos para isso,
segmentos conservadores que estavam alijados dos negócios do governo e
oficiais — não todos, graças a Deus — golpistas que odiavam a democracia
e não admitiam viver em um país livre.
Em um mundo em que há nações, como o Brasil, em que padres fascistas
pregam abertamente, na internet e fora dela, o culto ao ódio, e a
mentira da excomunhão automática de comunistas, as declarações do papa
Francisco, lembrando que os marxistas são pessoas normais, como
quaisquer outras — e não são os monstros apresentados pela
extrema-direita fundamentalista e revisionista sob a farsa do “marxismo
cultural” — representam um apelo à razão e um alento.
Depois de anos dominada pelo conservadorismo, podemos dizer, pelo
menos até agora, que Habemus Papam, com a clareza da fumaça branca
saindo, na Praça de São Pedro, em dia de conclave, das veneráveis
chaminés do Vaticano.
Um Papa maiúsculo, preparado para fortalecer a Igreja, com o
equilíbrio e o exemplo do Evangelho, e a inteligência, o sorriso, a
determinação e a energia de um Pastor que merece ser amado e admirado
pelo seu rebanho.
terça-feira, dezembro 17, 2013
As viagens de Gulliver - algumas considerações pós-leitura
Consegui, após três meses de jejum,
terminar a leitura de um romance. E não se trata de qualquer romance.
Consegui concluí a leitura de As viagens de Gulliver. Tratava-se de um
projeto antigo, mas que consegui realizá-lo esta semana. O livro está
entre aqueles clássicos imortais da literatura universal. Foi escrito
por Jonathan Swift em 1726 e revisado em 1735. Swift escreveu uma
espécie de relato de viagem, muito comum à época, com a finalidade de
realizar uma crítica cáustica à sociedade europeia - principalmente a
inglesa.
É
um livro leve, de texto agradável e de uma agudeza mordente. Swift
narra as diversas viagens realizadas pelo personagem principal,
Gulliver, e a visita inevitável a personagens curiosos que personificavam a sociedade do seu tempo. Com o primeiro naufrágio,
Gulliver chegou a um lugar chamado Lilliput, cuja significação pode ser
"o país tanto de mentes pequenas quanto de corpos pequenos". Os moradores de Lilliput mediam em média 15 cm. E eram marcados pela pequenez moral. Perdiam bastante tempo com fatos insignificantes. Gulliver acaba sendo traído pelos lilliputianos. Assim, o autor traça um retrato do seu país: da mediocridade e da pequenez que assolava a sua terra; da sociedade firmada em convenções, com um rei bobo e suscetível a influências variadas e perniciosas.
Em seguida, visita a ilha de Brobdingnag, país que constitui uma antítese em relação a Lilliput. Brobdingnag é a terra dos gigantes. É terra dos sujeitos autossuficientes. Pode ser interpretado que esses gigantes eram os realizados financeiramente e que, consequentemente, constituíam-se em donos da verdade. Gulliver passa bastante tempo entre Brobdingnag. É exibido como uma animal de estimação.
A terceira viagem se dar a Laputa. Laputa era uma ilha voadora, cujos habitantes viviam assoberbados pelo pensamento, imersos nos cálculos matemáticos e na música. Com relação a Laputa, nota-se claramente a crítica feita aos intelectuais frívolos, que se alimentam de questiúnculas a fim de perpetuarem, com a necessidade de se autoafirmarem. Swift se dirige ao racionalismo científico alienado, mas essa reflexão é trans-histórica, pois em todas as épocas encontramos sujeitos enfatuados por causa do saber, revestidos de perversidade e presunção. O muito conhecimento ao invés de vestir determinados indivíduos de candura e humildade, pode fazer com estes mesmos sujeitos se tornem arrogantes e de má índole.
Na sua quarta viagem, Gulliver encontrou os Houyhnhm, uma espécie de cavalos nobres que cultivavam a inteligência, os ideais de verdade e razão. E aqui nota-se que o livro vai assumindo um tom cético e niilista. No país dos Houyhnhm, Gulliver encontra os yahoos, uma metáfora clara dos seres humanos, movidos por instintos primitivos, gananciosos e irracionais. Nesse quarto bloco da história, Swift não constrói sua crítica apenas contra a sociedade inglesa ou francesa, mas à humanidade como um todo. Os yahoos exatificam aquilo que de mais brutal, banal, frívolo e baixo existe no ser humano. As viagens de Gulliver nesse sentido sai do campo da literatura infantil, como é classificado por muitos, para se tornar numa daquelas sátiras à la Luciano de Samósata, o filósofo romano do segundo século.
No último capítulo do livro, encontramos a seguinte passagem, a qual notamos a crítica explícita ao mundo europeu: "Navios são enviados na primeira oportunidade, os nativos são confinados ou destruídos, seus príncipes são torturados para que entreguem seu ouro; uma licença é dada a todos os atos de desumanidade e lúxuria; a terra fica fedendo com o sangue dos seus habitantes e aquela execrável tripulação de açougueiros empregadas em tão pia expedição é uma colônia moderna enviada para catequizar e civilizar um povo idólatra e bárbaro".
As viagens de Gulliver, dessa forma, tecem uma contundente crítica ao processo colonial e imperialista da sociedade inglesa - e extensível às demais nações europeias, que pilharam os continentes asiático, africano e americano. Há uma citação explícita ao nome de Fernando Cortez, espanhol que foi responsável pelo massacre às civilizações encontradas no México. Cortez subjugou o México em menos de dois anos. A crítica ferrenha à sociedade arrogante e irracional, fundada na moral capitalista, e em pleno auge da Revolução Industrial é clara.
Tendo desenvolvido uma ojeriza aos yahoos (metafóra dos "seres humanos"), Gulliver passou a viver de acordo com as filosofias dos Houyhnhms. Aqui nota-se uma referência à razão iluminista, que tinha o objetivo de reformar a sociedade europeia por meio da razão e fundar uma época baseada na liberdade, igualdade e fraternidade. O resultado nós conhecemos. Assim, a crítica realizada contra os yahoos continua viva, permanente.
P.S. Segundo informação extra-oficial (li isso em algum lugar), As viagens de Gulliver era um dos livros prediletos de George Orwell, que o teria lido mais de onze vezes.
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| Em Lilliput |
A terceira viagem se dar a Laputa. Laputa era uma ilha voadora, cujos habitantes viviam assoberbados pelo pensamento, imersos nos cálculos matemáticos e na música. Com relação a Laputa, nota-se claramente a crítica feita aos intelectuais frívolos, que se alimentam de questiúnculas a fim de perpetuarem, com a necessidade de se autoafirmarem. Swift se dirige ao racionalismo científico alienado, mas essa reflexão é trans-histórica, pois em todas as épocas encontramos sujeitos enfatuados por causa do saber, revestidos de perversidade e presunção. O muito conhecimento ao invés de vestir determinados indivíduos de candura e humildade, pode fazer com estes mesmos sujeitos se tornem arrogantes e de má índole.
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| Em Laputa |
Na sua quarta viagem, Gulliver encontrou os Houyhnhm, uma espécie de cavalos nobres que cultivavam a inteligência, os ideais de verdade e razão. E aqui nota-se que o livro vai assumindo um tom cético e niilista. No país dos Houyhnhm, Gulliver encontra os yahoos, uma metáfora clara dos seres humanos, movidos por instintos primitivos, gananciosos e irracionais. Nesse quarto bloco da história, Swift não constrói sua crítica apenas contra a sociedade inglesa ou francesa, mas à humanidade como um todo. Os yahoos exatificam aquilo que de mais brutal, banal, frívolo e baixo existe no ser humano. As viagens de Gulliver nesse sentido sai do campo da literatura infantil, como é classificado por muitos, para se tornar numa daquelas sátiras à la Luciano de Samósata, o filósofo romano do segundo século.
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| Entre os Houyhnhms |
No último capítulo do livro, encontramos a seguinte passagem, a qual notamos a crítica explícita ao mundo europeu: "Navios são enviados na primeira oportunidade, os nativos são confinados ou destruídos, seus príncipes são torturados para que entreguem seu ouro; uma licença é dada a todos os atos de desumanidade e lúxuria; a terra fica fedendo com o sangue dos seus habitantes e aquela execrável tripulação de açougueiros empregadas em tão pia expedição é uma colônia moderna enviada para catequizar e civilizar um povo idólatra e bárbaro".
As viagens de Gulliver, dessa forma, tecem uma contundente crítica ao processo colonial e imperialista da sociedade inglesa - e extensível às demais nações europeias, que pilharam os continentes asiático, africano e americano. Há uma citação explícita ao nome de Fernando Cortez, espanhol que foi responsável pelo massacre às civilizações encontradas no México. Cortez subjugou o México em menos de dois anos. A crítica ferrenha à sociedade arrogante e irracional, fundada na moral capitalista, e em pleno auge da Revolução Industrial é clara.
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| Jonathan Swift |
Tendo desenvolvido uma ojeriza aos yahoos (metafóra dos "seres humanos"), Gulliver passou a viver de acordo com as filosofias dos Houyhnhms. Aqui nota-se uma referência à razão iluminista, que tinha o objetivo de reformar a sociedade europeia por meio da razão e fundar uma época baseada na liberdade, igualdade e fraternidade. O resultado nós conhecemos. Assim, a crítica realizada contra os yahoos continua viva, permanente.
P.S. Segundo informação extra-oficial (li isso em algum lugar), As viagens de Gulliver era um dos livros prediletos de George Orwell, que o teria lido mais de onze vezes.
terça-feira, dezembro 10, 2013
Mosaicos
Minhas férias começam oficialmente na sexta-feira. Mas, já começo a sentir os seus eflúvios soprando suavemente nos vales mais interiores de mim mesmo. Foi um ano cheio. Trabalhei muito. Excessivamente. Ainda estou vivo. O blog - esse espaço para minhas garatujas descompromissadas - anda às moscas. Voltarei a ler. Livros não faltam. Existe uma montanha me esperando: biografias (Tolstói, Malcom X, Hobsbawn, Marx etc); romances (Mario Vargas-Llosa, Swift - que já estou lendo -, José Lins do Rego, Brontë, etc); poesia (João Cabral de Melo Neto); história (Hobsbawn, Darcy Ribeiro, Boris Fausto) etc. Não sei se dará tempo de ler tudo isso. Sinto-me como uma criança numa loja de brinquedos. É muito estímulo, muitas possibilidades.
Para tirar as teias de aranha deste espaço, resolvi colar um comentário que fiz lá no Facebook no dia de ontem, sobre uma reportagem que li sobre o resultado que o Brasil alcançou na prova do Pisa.
"Este texto assusta! E serve como ecplicação para uma série de problemas com os quais convivemos. O
Brasil é um país firmado na desigualdade. E essa desigualdade acaba
provocando consequências drásticas no processo formador de nossas escolas.
Se por uma lado temos uma escola pública deficitária, com alunos pouco
interessados ou mais preocupados com o percentual mínimo para passar de
ano, temos por outro lado os filhos da classe média, que sofrem com os
mesmos problemas de nossa educação deficitária - só que em escolas
privadas(sic). Os mais privilegiados financeiramente buscam garantir por
meio de mensalidades estratosféricas, em uma suposta instituição
privada "decente", a vaga do filho nos estabelecimentos superiores
públicos de educação, quando este terminar a educação básica. Todavia,
tal fato não é uma garantia eficaz, pois temos um gargalo
sócio-histórico que gera consequências alarmantes. E tais problemas vão
desde o processo de formação dos professores, às avaliações que são
aplicadas nas escolas. A profissão docente, no Brasil, tornou-se
proletarizada; multiplicam-se as instituições de ensino que formam
pessimamente os professores; a relação do professor com o aluno ainda é
desarmoniosa; quando esta não está fundada na indiferença, está fundada
no medo do aluno (cliente) "mandar" no professor (empregado, pois aquele
paga o salário deste); ou mesmo de nossos currículos baseados no
decoreba e que desestimulam o conhecimento historicamente produzido pela
sociedade; ou ainda, problemas sociais sérios que acabam criando a
evasão escolar, gerando como consequência uma horda de sujeitos que não
entenderam a relevância histórico-cultural da escola. Assim, entendo que
quando as políticas públicas são ineficazes no que tange à educação, o
Estado se torna responsável por consagrar as desigualdades sociais. Ou
seja, o Estado se torna criminoso, porquanto acaba jogando de forma
acintosa os mais pobres na ignorância da inoperança histórica. A escola
ainda é, para os mais pobres, a única forma de se conseguir a
emancipação social. Como dizia Gramsci, é lá que deve atuar a figura do
intelectual orgânico, capaz de fazer convergir forças para tornar
pública e explícita uma "práxis" contra-hegemônica.
O texto abaixo serve para que reflitamos um pouco. Serve para mostrar o quanto a burguesia brasileira sempre tenta/tentou imitar os modelos estrangeiros. Todavia, essa empresa nunca foi bem-sucedida, pois a sociedade desigual baseada no modelo defendido por ela cria um processo de equidistância e retro-alimentação, colocando-nos numa roda-viva histórica.
O Brasil foi o país que mais evoluiu desde 2003 - período do governo do PT -, mas é preciso caminhar com compromisso e responsabilidade".
O texto abaixo serve para que reflitamos um pouco. Serve para mostrar o quanto a burguesia brasileira sempre tenta/tentou imitar os modelos estrangeiros. Todavia, essa empresa nunca foi bem-sucedida, pois a sociedade desigual baseada no modelo defendido por ela cria um processo de equidistância e retro-alimentação, colocando-nos numa roda-viva histórica.
O Brasil foi o país que mais evoluiu desde 2003 - período do governo do PT -, mas é preciso caminhar com compromisso e responsabilidade".
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