sexta-feira, outubro 31, 2014

Alguns filmes de outubro

O mês de novembro chega à curva do caminho. Aos poucos vai morrendo. Não mais existirá um outubro de 2014, significando que este mês é marco realizável, mas que não será mais experienciável - apenas em 2015, 2016 etc. O mês de outubro foi carregado de emoções. Mês de eleições. Para presidente foram dois turnos, em que se pôde presenciar de tudo: mentiras, dissimulações e tentativas de golpes por parte da mídia nacional. Fiz uma militância sem igual. Emendei críticas contra raciocínios pequenos; contra visões afetadas pela miopia política e filosófica. Estive com o coração aos saltos em alguns momentos, principalmente, domingo, 26, dia decisivo do segundo turno.

Além dessas atividades, assisti a doze filmes. Tomei a firme resolução de ver dois filmes, no mínimo, por semana sempre que possível. Claro, em alguns momentos a conta foi exacerbada. Alguns filmes eu revisitei como, por exemplo, o sempre aprazível O nome da rosa e os bons filmes brasileiros Desmundo e Mauá: o imperador e o rei. Estiveram ainda na linha de ação: o brasileiro Carlota Joaquina; o surpreendente filme alemão A onda; os hollywoodianos O preço do amanhã, que se mostrou interessante pela trama distópica, mas que encerra com aqueles finais previsíveis; e o fraquíssimo - e também distópico - O doador de memórias (Meryl Streep já esteve melhor); assiti à sensacional pintura política em forma de comédia de Kubrick, o Dr. Fantástico; o sensacional Nebraska, um road movie de fina sensibilidade, do diretor Alexander Payne; o filme possui uma trilha sonora (que tenho escutado bastante) arrebatável, entre o folk americano e a reflexão onírica e impressionista encontrada nas cenas filmadas em preto e branco;  vi o épico A Infância de Ivan, de Tarkovski; esteve também em meu cardápio o bom filme uruguaio O quarto de Leo, que aborda a temática homossexual. Todavia, dois filmes me deixaram muito feliz - o filme chinês O caminho para casa e o franco-belga Violette, bastante denso e de uma visceralidade arrebatadora.

Não pretendo dar spoilers sobre os filmes. Quero apenas apontar algumas impressões sucintas:

Violette (2013), de Martin Provost, é um daqueles filmes que embriagam. A começar pela belíssima fotografia da França da Segunda Guerra Mundial. O diretor nos coloca em uma Paris com laivos suburbanos. Uma cidade melancólica, porém charmosa e de febricitante produção intelectual; uma cidade de casas com aquecedores problemáticos e papéis de paredes mofados. Provost já havia conseguido esse recurso no bonito Séraphine (2008) e o repetiu agora. O filme mostra a personalidade conturbada e o drama pessoal de Violette Leduc até que esta se torne a escritora bem sucedida de A Bastarda. Inclusive, procurei o livro para comprar na Estante Virtual. Não tive êxito. Há a notificação de que existem alguns exemplares, mas não conseguimos efetivar a visualização da disponibilidade. O filme põe no centro a aproximação intelectual de Leduc com Simone de Beauvoir (a companheira de Sartre), uma feminista no sentido lato do termo. É nesse período conturbado do século XX, que Beauvoir está escrevendo O segundo sexo, uma das obras fundamentais do século passado, que debate o papel da mulher na sociedade burguesa. De certa forma, o papel de Leduc é simbólico para o desenho da obra que Beauvoir escreve. Leduc é uma personagem de personalidade complexa: abortara na juventude. possuía inclinações homossexuais; é perseguida por tramas mentais que colocam mulheres em posição de vanguarda em um ocidente cristão machista e conservador. Enfim, é um filmaço!

O caminho para casa (2000), de Zhang Yimou, é uma experiência singular de fina poesia e beleza. Há algum tempo atrás vi Balzac e costureirinha chinesa (2002), do diretor Dai Seiji, e fiquei impressionado com a suavidade da obra. A cena final do filme é uma das cenas mais sublimes que já vi: a personagem caminha pelas montanhas de uma China que vive sob o maoísmo e um dos Concertos para violino de Mozart (não lembro qual) toca e aquilo vai se rarefazendo, mostrando o poder infinito da beleza. Já no filme de Yimou, temos novamente uma China rural, bucólica, singela. O filho vem de uma cidade  grande para o enterro do pai.. Ao chegar encontra a mãe desconsolada. O que ela queria era fazer com que o marido viesse pela estrada que levava ao povoado (ele estava morto em outro lugar). Nesse ponto, o filho, como um narrador em off, começa a contar como se dera o romance entre a mãe e o pai - que viera ser professor no pequeno povoado. Curioso recurso é utilizado pelo diretor: o início e o final do filme foram filmados em preto e branco e, no meio, onde encontramos a construção do romance, o filme ganha cores (primeiro do outono e depois do inverno), talvez para mostrar a relação construída por eles. Belíssimo filme!

segunda-feira, outubro 27, 2014

Uma resposta, um esclarecimento

Os dois textos abaixo são resultado de uma resposta a um comentário que fiz; e, logo abaixo, uma réplica feita por mim. Escrevi algo no Facebook que gerou uma crítica. Nesses dias em que a falta de inteligência e o preconceito tomaram de conta do Brasil, fui chamado de forma subliminar de ignorante. Abaixo, veio a minha resposta. 

A resposta de alguém que não concordou com aquilo que escrevi: 

A esquerda demonstra certa altivez ao pensar que quem crítica os escritos de Marx, Engels, Gramsci, Weber, e demais, o faz por não ter lido detidamente seus tratados. Em muitos casos, ocorreu foi o contrário. E além desses autores, gastou-se tempo lendo também, Von Mises, Hayek, Smith, Friedman dentre outros. Autores esses que refutaram aqueles, com certo triunfo. 

Como disse, a julgar pelos argumentos que leio aqui, não se conhece bem uma das duas (ou as duas), (1) a história da luta de esquerda, e as consequências que ela traz; (2) a comosvisão cristã. Dogmas existem tanto à direita, quanto à esquerda. O esquerdismo em si não seria um? 

Por que digo isso? 

Porque as lutas de esquerda, no médio e longo prazo, deixaram mais sequelas do que benefícios. Pegue a questão da fome na Ucrânia, o chamado Holodomor, que matou, segundo sustentam alguns, mais de 3 milhões de pessoas. Acrescente-se a incapacidade com que governos de esquerda demonstra em lidar com a liberdade de pensamento, de ir e vir, religiosa etc. 

Vocês, de ideologia de esquerda, reduzem o debate à ajuda aos necessitados. E isso é um erro tremendo, posto que os fins não justificam os meios. Há muito mais coisa na esquerda que vai para o lado oposto daquilo que sustenta luta cristã. 

Cristãos de esquerda confundem ALTRUÍSMO com ASSISTENCIALISMO (a caixa alta é apenas para realce, uma adaptação para o "negrito"). O primeiro é fruto de um espírito grato pela salvação que recebeu. O segundo, um programa de estado, que em certos casos é legítimo. 

O amigo que lê os profetas confunde, até mesmo, o contexto de tais escritos. Comete um anacronismo histórico, não observa as nuances textuais, que devem ser observadas para uma boa interpretação de qualquer texto, eclesiástico ou não. 

Aqueles homens denunciavam a corrupção moral dos líderes daquelas nações, a falta de temor ao Deus da aliança com o povo escolhido e a mistura ideológica deles com os povos que não estavam debaixo do mesmo pacto. Por causa disso Deus os julgaria. E os profetas denunciavam isso. 

Deveria ser considerado por vocês que, por exemplo, nenhum país de herança protestante nasceu, se construiu e se tornou potência debaixo dos ideais de esquerda. Nenhum! Não há nem um exemplo sequer. 

A história mostra o contrário. Países de esquerda se tornam intolerantes com os cristãos. O próprio Karl Marx, um dos proeminentes do pensamento esquerdista, cunhou, em plena Alemanha protestante, de maioria cristã, a célebre frase "a religião é o ópio do povo". O ideal socialista nasce nesse berço. 

Por outro lado, vemos que os países mais filatropos do mundo são justamente os que vocês, de esquerda, definem como neoliberais. São os que mais enviam dinheiro para os lugares onde a fome e a miséria são latentes, como a África de maneira geral. 

Dizer que as ações sociais da igreja são tacanhas é desconsiderar, mais uma vez, o que ensina a história. Quantos hospitais construídos mundo à fora? Quantas escolas também? Quantas universidades nasceram pelo esforço de cristãos (como exemplo, cito apenas o pastor John Harvard, que fundou a universidade com seu sobrenome), observe o índice de recuperação dos presos nos presídios administrados por cristãos na Coréia do Sul, país com forte presença cristã protestante e veja que tudo isso depõe contra o que foi alegado aqui. 

Há, ainda, o fato de que os países onde existe mais igualdade social são exatamente os países que nasceram em berço cristão, sobretudo o protestante. Como exemplo, dentre os muitos possíveis, temos Suíça, Suécia, Noruega, Holanda e EUA. Se tornaram ricos, não nasceram ricos. 

Enfim, um pouco mais de atenção aos bons livros de História e vocês perceberão que o cristianismo, no âmago, não possui nenhum vínculo ideológico com a esquerda, a principiar pelas motivações. 

Para o cristianismo, restauração material, intelectual e espiritual andam de mãos dadas. Para a esquerda, a restauração material basta (no campo ideológico. No prático, nivela-se por baixo, empobrecendo o rico, ao invés de enriquecer o pobre). Eis a aí o cerne do descompasso.

Minha réplica em forma de resposta:

Li atentamente o seu texto e percebi a contumácia, a obstinação, que é tão típica em pessoas que acreditam que estão com a verdade. A certeza da verdade gera conforto. Isenta-nos de investigações. Faz com que durmamos de forma tranquila. Quando somos sabedores que não temos mais sobre os ombros o susto da dúvida e que todos os nossos caminhos são luminosos, viver passa a ser um gesto de profunda leveza. Ou seja, eu tenho a verdade, mas os outros... ora, os outros são os outros.  Notei a vaidade da fala de um protestante por trás de cada uma das vírgulas, das letras, das sentenças, das orações, dos períodos “firmemente” construídos. 

Permita-me apontar alguns problemas conceituais no seu texto: 

(1) Você colocou Marx, Engels, Gramsci e Weber como sendo de “ideologias ditas de esquerda”, algo que é problemático. Weber não pertence a esse grupo. Quando se fala em nomes que constituem o pensamento marxista (digo: marxismos), Weber não se encontra entre eles. Se pelo menos aqueles que são críticos da “famigerada” esquerda, lessem Weber, teríamos mais facilidade para entender alguns processos como, por exemplo, o desencantamento do mundo, as sociedades modernas sobre o influxo do capitalismo, a burocratização das sociedades e a base motivacional das sociedades ditas desenvolvidas. Depreende-se disso que misturar Gramsci, Engels, Marx e Weber é um problema de quem não leu nem este nem aqueles. 

(2) Os economistas citados são em sua essência liberais. Sua refutação aos comentários acima demonstra a sua crença em um tipo de modelo econômico absurdamente problemático para países como o nosso. Inclusive, o nosso país é vítima desse modelo econômico.  O liberalismo é um modelo que otimiza o primado do individualismo em detrimento da solidariedade (Como disse George Kennan, um dos fundadores do neoliberalismo via Consenso de Washignton: “paremos de falar de valores vagos e poucos realistas como direitos humanos, a elevação do nível de vida e a democratização”). As nações europeias o praticaram de forma profunda em suas histórias, principalmente a partir do século XVIII, quando a burguesia se apropria do mundo e dos mercados. Após a Revolução Francesa, alguns economistas entenderam que era necessário que houvesse liberdade para que as mercadorias circulassem. Todavia, por trás da assunção do discurso da ordem e do progresso, havia uma brutal luta pela sobrevivência. Mas isso não era um problema para o liberalismo. A Inglaterra das máquinas, da Revolução Industrial, era um antro em que crianças de 8, 9, 10 anos, se embrenhavam em buracos para retirar carvão por 8 ou 10 horas por dia. Homens e mulheres trabalhavam de forma escrava para receber um emolumento ordinário. A burguesia se apropriou do poder e percebeu que precisava de liberdade e mercados para que os seus produtos escoassem. Ou seja, é justamente aí que reside o problema, pois passa a haver uma classe explorada e uma que se beneficia da exploração. O individualismo, o mérito, a iniciativa pessoal, eram meios necessários ao fortalecimento da atuação do capitalismo que se robustecia dia a dia. Esses sujeitos citados buscaram desenvolver teorias para tornar a exploração e o domínio meios de legitimar teoricamente o sistema, para fazer valer o lucro acima de todas as coisas. Os países do continente latino-americano, da África e boa porção da Ásia foram as geografias que serviram de centros produtores de matéria prima para gerar a riqueza dos países centrais – europeus e os Estados Unidos. Portanto, se eles refutaram Marx, o fizeram apenas com um intento: justificar o lucro, as novas formas de robustecer o sistema e legitimar a propriedade privada dos meios de produção. 

(3) A generalização é outro problema, pois se chama de esquerda todo movimento existente. De qual esquerda se fala? Ou: o que é à esquerda? A nomenclatura “esquerda X direita” passou a ser utilizada na Revolução Francesa. Do lado direito ficavam aqueles que queriam a manutenção do Antigo Regime, que via no absolutismo do rei a sua força e, do outro, à esquerda, aqueles que queriam mudanças. Ora, utilizemos esse raciocínio: analisando Jesus e seus contemporâneos, quem estava à direita e quem estava à esquerda? Os fariseus representavam quem? Ora, os profetas, sei, no fundo, buscavam fazer uma pregação moral para que o povo se voltasse para Javé, mas de que lado eles estavam?  Quando vociferam contra a injustiça e a malevolência das elites aristocráticas que viviam bem, enquanto o povo passava fome, de que lado estavam?  Hobsbawn diz que o livro de Amós parece “um discurso bolchevique inflamado”. O grande problema é ler sempre os textos históricos com uma determinação dogmática, despolitizando-os. Por trás de toda sociedade, existe um contexto de lutas sociais. Existe um governo constituído, valores, embates, contradições. São essas contradições que permitem o avanço da história. A história é justamente o resultado da colisão de fatos, que fazem originar situações novas repletas de elementos dos processos anteriores. O que é a cosmovisão cristã, senão uma maneira de olhar de forma etnocêntrica para o mundo? Senão uma forma de torná-lo em vontade e representação? Submetê-lo a uma linguagem? Uma forma de se achar dono de todas as interpretações históricas, pois para o cristianismo dogmático, a história já está encerrada, afinal: (a) existe um Deus que é providencial e já determinou todas as coisas; (b) existe uma teofania; (c) uma epifania; (d) existe uma ascensão profética, por isso, se diz: “Vejam! A volta de Jesus está próxima. Não há mais soluções para o mundo”. Ou seja, interpretações dos fatos da eternidade pelos fatos da história; (e) essa revelação do fim da história é salvífica; (f) é apocalíptica; (g) ela é universal, pois compreende toda realidade conhecida; e (h) e é completa, pois tudo se consumará. Ora, tais apontamentos devem gerar certezas e afirmações repletas de juízos com relação àqueles que não estão conscientes disso. Se tudo está determinado de forma positivista, por que se importar com a história e com a luta do oprimido?  

(4) Parece que consigo notar um outro tipo de generalização muito costumeira, que é a comparação, deixando de lado o significado histórico de cada movimento dito de esquerda,  aonde ele aconteceu. Quero crer que se faça aqui menção à União Soviética, a Cuba, à Coreia do Norte, ao Vietnã, à antiga República Democrática Alemã etc. É preciso ler um pouquinho os textos de Marx para perceber que esses supostos movimentos não chegam nem perto daquilo que o alemão apontou em seus escritos. Marx nos propôs um projeto de emancipação para a humanidade, uma espécie de desafio muito parecido com aquele proposto pelo Evangelho. Ou seja, um projeto de liberdade, de generosidade, de solidariedade. Nesse sentido, Marx está mais perto de Jesus do que Friedman, Ricardo ou Smith. Estes propunham a lei do mais forte – pois no fundo é isso que é o liberalismo – e aquele propunha um projeto de emancipação do ser humano. Quando leio o evangelho, eu não consigo visualizar outra coisa senão isso.  Acredito que o problema esteja no modo como se interpreta. Quando leio o segundo capítulo de Atos, não vejo nada diferente de uma sociedade comunal. 

(5) O processo de desconstrução da suposta esquerda apontada por você começou a após a Segunda Guerra Mundial. Naquele momento, os EUA saíram como a nação mais forte da Guerra. Antes da Guerra eles já eram fortes, mas se consolidaram como vendedores de armas e exportadores de produtos para o mundo todo. O anti-comunismo (esquerdismo?) ficou mais forte após a divulgação dos Relatórios Krushev, em 1956.  Após as várias Ditaduras instaladas na América Latina pelos Estados Unidos, a esquerda passou a ser vista como inimiga, como monstro, como “comedora de criancinhas”, mito que muitos defendem ainda hoje. Nessa época, o primado da liberdade e da democracia estavam assentados na família, na fé cristã e na propriedade privada. Ou seja, o seu pensamento faz jus a isso. Não o culpo. Você é vítima de um projeto anti-esquerdista. Outra questão: aqueles que se dizem anti-esquerda, só fazem referências às mortes provocadas pela suposta “ditadura do proletariado”. Quantas? 50 milhões? 60 milhões? E quantos agora estão morrendo nos continentes africano e latino-americano por causa da ingerência capitalista? A suposta “filantropia” alegada é uma farsa, posto que os países centrais acabaram com esses continentes e, hoje, ficam enviando migalhas (que servem para distencionar crise estabelecida na relação capital-trabalho) sobejadas da mesa lauta deles. Isso é bem a cara do cristianismo institucional. 

(6) Se eu errei cometendo um “anacronismo”, o que dizer quando uma pessoa cita Marx, ignorando o contexto da fala do autor? Pois fique sabendo, que com essa fala, Marx não estava condenando a religião – ou a possibilidade de se seguir uma. Nos escritos de Marx, ausente das relações estranhadas, o homem pela manhã trabalharia e, à tarde, ouviria música, plantaria um jardim, comporia poesias, iria para a sua paróquia, ou seja, ele pode “ser-mais”. A frase “A religião é o ópio do povo” é como aquela frase de Nietszche (“Deus está morto!”), que crente adora citar em Escola Dominical, mas que desconhece o significado delas.  

(7) Citar a Universidade de Havard ou os fundadores dos EUA, acredito que não cabe aqui. São contextos completamente diferentes. Foram sociedades construídas com finalidades bem distintas. A sociedade americana segue a sua própria história como uma religião. Ela está fundada em ideias como fé cristã, individualismo, liberdade (palavra que possui um valor simbólico, já que deve ser entendida como a possibilidade de não coibir o sujeito para as iniciativas a que ele se determinar), moralismo e crença em um destino como terra capaz de subjugar todas as demais. A suposta “caridade” realizada por esses países é “mesquinha”, “pequena”, pois não toca na principal questão para acabar com a desigualdade, que a existência de um modo de produção que fulmina com a vida de milhões de pessoas todos os anos. Cerca de 1 bilhão de pessoas da humanidade passam fome. Ou seja, será que essas pessoas são culpadas ou existe uma razão para isso? E aí começam a surgir as perguntas. Coreia do Sul, a Suécia, a Suiça, enviam mantimentos, mas quantas multinacionais desses países estão instaladas em lugares pobres e miseráveis, subtraindo as riquezas dos povos. Por exemplo, só a Suécia são mais de 300 empresas que estão instaladas pelo mundo afora, inclusive aqui no Brasil. Não acredito que o verdadeiro Jesus aprovasse isso. 

(8) Suas palavras são coerentes com o espírito da fé protestante, que gera “descompassos”, pois é arrogante e individualista. E se existe algo que a fé protestante fez foi sacralizar a consciência e dessacralizar o mundo. Ao acontecer isso, a humanidade como um todo perdeu o seu valor sacral, magnânimo. O mundo tornou-se um fim para o utilitarismo. Uma aposta para o acentuamento da desigualdade e da indiferença.  Em um mundo em que todas as coisas são medidas segundo a sua utilidade, até mesmo o homem corre o risco de se perder. Foi a fé protestante que serviu de cimento ideológico para a racionalização econômica do ocidente. Foi ela que permitiu o surgimento do liberalismo, que funciona em sociedades como a americana ou a inglesa, locais estes onde não houve acontecimentos dramáticos como os que se deram aqui no Brasil ou em qualquer país da América Latina. Nesse sentido, aconselho que você leia um livro de Jean Delumeau, chamado de “Nascimento e Afirmação da Reforma”. 

(9) E outro erro conceitual é acreditar que o PT seja um partido de esquerda. Isso é um desconhecimento profundo da história do Partido dos Trabalhadores e das determinações que ele veio a tomar, sobretudo, com a Carta ao povo brasileiro. Talvez, o PT não chegue a ser nem mesmo um partido social-democrata, embora tenha algumas aproximações. O PT hoje assumiu uma posição de centro, com nuances progressistas e desenvolvimentistas. Fez acordos com os setores econômicos mais conservadores. Se existe um partido com os quais os capitalistas lucraram, esse foi o PT. Nos últimos 10 anos, as ações da bolsa de valores brasileira, somente perdeu para a China e para o Índia. Os bancos nunca lucraram tanto. Nunca se pagou tanto os juros da dívida pública, que chega a consumir cerca de 42% da arrecadação. Mas, por que então tirar o PT? Hoje, o PT ainda defende posições que incomodam o grande capital, principalmente, com o modelo econômico que mantem os níveis de emprego e uma preocupação – mesmo que incipiente – com a distribuição de renda.  

Gostaria de finalizar. Não estou disposto continuar esse bate-papo. Não levará a lugar nenhum. Você pensa com a sua “cosmovisão cristã” e, eu, com algumas categoriais com as quais você não corrobora. Então, enquanto falarei sobre o dia, você falará sobre a noite; enquanto você discursar sobre o céu, falarei sobre a terra; enquanto você discursar sobre a metafísica como elemento que determina a materialidade, falarei das relações materiais que se dão na história.  

sexta-feira, outubro 24, 2014

Sobre a cartada desesperada da Veja

Uma tentativa de golpe político como o aplicado pela revista Veja demonstra o perfil de nossas elites e a conivência criminosa dos seus apoiadores ocultos. Durante o período a partir da República (1889), o país nunca ficou mais de 30 sem que houvesse um golpe ou uma mudança política realizada por intermédio do jogo de cartas das velhas oligarquias. O último intento da Veja é a tentativa desenfreada e desesperada de confundir milhões de brasileiros. Isso tem acontecido com uma regularidade científica. Já daria para formular uma lei com todos os elementos do processo científico - ou seja, período das eleições, o PT está na frente. O candidato da Veja está atrás numericamente nas pesquisas, então, a consequência: arma-se ou se constrói uma reportagem supostamente bombástica para tentar reverter o cenário. Somente uma pessoa desguarnecida de inteligência e discernimento não consegue perceber o quanto essas notícias possuem fins eleitorais. 

Em um segundo turno que parecia que não haveria reversão para a candidata do PT. Os debates se iniciam e o povo percebe que a candidatura de Dilma está assentada em dados sólidos, de mudanças reais, como afirma o jornal espanhol El País. De repente, há uma mudança no jogo. Dilma avança, abre uma vantagem considerável em relação ao candidato do PSDB. E no dia em que ela chega a abrir 6 pontos, segundo o Datafolha e, 8, segundo o Ibope, a Veja solta o factoide, como se fosse uma dinamite criminosa que não poupa nem respeita o direito do povo brasileiro de escolher. Isso apenas atesta a minha tese de que com uma imprensa como essa que temos, retrocedemos aos piores dias da história. A Veja e seus associados, que não se manifestam, mas que aplaudem essa iniciativa, prestam um desserviço ao povo brasileiro. Aniquila a inteligência de muita gente. Amarre a ponta dos fatos e você perceberá como os perdedores somos nós, os trabalhadores. 

Essa "narrativa absurda" da Revista, faz-me lembrar o livro "O Processo", de Franz Kafka. No livro, K., personagem central, dorme e acorda pela manhã em uma cela. Ele não sabe o que acontece com ele. A única coisa que ele fica sabendo é que há um processo, uma acusação sem rosto, sem matéria, sem substância, contra a sua pessoa. Apenas uma acusação impessoal, vinda das entranhas da burocracia de um ente invisível. No livro, K. tenta descobrir quem fez aquilo com ele, mas acaba não descobrindo. O que fica é um absurdo de uma acusação que se mostra surreal, não fática, mas que domina e provoca estragos. Da mesma forma, desenha-se um contexto absurdo, quase onírico, pela Revista a 72 horas das eleições. Aqueles que são defensores do bom senso e da verdade; que lidam com a lógica e com o argumento coerentes, acabam ficando insatisfeitos e decepcionados com tão grande leviandade - meu caso!. Não se trata de jornalismo. Trata-se obviamente de golpe baixo. De vilania. De maucaratismo radical. De picaretagem estrutural. 


terça-feira, outubro 21, 2014

À guisa de um vídeo: os dois brasis e a justificativa de uma escolha política



Se boa parte dos jornalistas desse país tivessem a sua sobriedade, Bob Fernandes, talvez fossemos poupados de tanta ignorância, de tanto ódio de brasileiros contra brasileiros - e, sobretudo, de brasileiros que "têm", contra brasileiros que "nada têm". O que está em cena é aquilo que o velho Marx já nos advertiu há dois séculos: o jogo feroz de uma sociedade contraditória, onde de um lado estão trabalhadores alienados de sua condição humana e os donos de meios materiais de produção do outro lado. O Brasil é uma país que possui feridas que ainda sangram. Suas chagas estão abertas. Os negros, os índios, os nordestinos pobres, as mulheres, as mais variadas minorias ainda não contaram suas respectivas histórias. 

Somos um país de mentalidade machista e patriarcalista. Escravizamos e dizimamos índios; saquemos a fé, os costumes de centenas de povos e hegemonizamos a cultura do europeu. O que nos faz lembrar aquele poeminha do Oswald de Andrade: "Quando o português chegou/ Debaixo duma bruta chuva/ Vestiu o índio/ Que pena! /Fosse uma manhã de sol/ O índio tinha despido /O português". Durante a época da colônia, cerca de 60% do país era constituído por escravos ou descendentes destes. Sempre houve um Brasil do alto, virtual, das elites - que a nova classe média tenta imitar e visualiza pelas novelas da Globo e pela revista "Caras" - e um Brasil debaixo, onde está o povo com suas dores e mazelas. É esse povo que sofre, apanha, é vilipendiado pelo estado. Um estado que em mais de quinhentos anos de história sempre se mostrou feroz e parcial. Ele existe para servir a famílias e a grupos de oligarcas monopolistas, que encontram na mídia impressa e visual, seu escudo, seu "ventilador de ideologias". São desses veículos que são propagados os "ventos envenenados" que entorpecem o povo. Somado esse elemento à nossa história mal contada, temos aquilo que Marilena Chauí chama de "a mosca diante do prato de mel". Talvez isso justifique o meu voto em Dilma Rousseff em detrimento de Aécio Neves. Penso que Aécio representa um outro Brasil, que eu e boa parte dos brasileiros não conhecemos - o Brasil debaixo. Belíssimo vídeo!


domingo, outubro 19, 2014

Uma resposta à ignorância

O blog está abandonado ultimamente. Não é que me faltem ideias para novos textos magros - excessivamente magros. É que as coisas evoluem, passam, e eu acabo por postergar novas postagens. Nestes dias de eleições, tenho assistido a bastantes filmes e documentários, sempre voltados para uma temática mais política. Tal experiência tem sido positiva. Sem falar nos livros que tenho comprado. Há alguns dias atrás, vi uma afirmação medonhamente fascista plasmada com grande exultação pelo seu autor - como tantas que temos visto por brasileiros conservadores e cooptados pela mídia criminosa do nosso país. Aquilo encheu os meus olhos de sangue. Não pude deixar de dar uma resposta. É o texto que segue abaixo - claro, com algumas adaptações. Pretendo nos próximos dias tirar o blog da letargia, do silêncio

Em primeiro lugar, queria dizer que não tentei ser agressivo contra a sua pessoa, mas contra a ideia subjacente em sua fala. Que você é de direita dá para perceber pela objetividade da enunciação, completamente descontextualizada. É curioso notar que afirmar-se de direita no Brasil se tornou uma virtude. E mal sabem aqueles que supostamente se alegam como tal, que ser direita é afirmar está do outro lado da luta - é está do lado dos setores conservadores e atrasados da sociedade e, que a maioria das vezes, é contrário aos interesses dos debaixo. Quando leio os profetas, principalmente, Amós, Miquéias, Habacuque, Oséias, penso que esses homens não estavam na direita. Estavam na esquerda, lutando pela causa da viúva e do necessitado; enfrentado "as vacas de Basã", como disse Amós; lutando em favor dos desprezados pelas políticas mantenedoras do "status quo" das elites. 

Quando olho para Jesus, não penso que ele ficaria do lado da direita. Acredito que ele ficasse do lado dos oprimidos, dos enlutados, dos esfomeados, dos que não tinham emprego, das prostitutas, dos párias, dos estigmatizados, das minorias (Mt 9.10-13; 11.19;) ; daqueles que precisavam de uma palavra de transformação e esperança. A direita prega o preconceito, a desinformação, a não libertação. Acredito que o evangelho não seja da direita, mas o cristianismo dogmático que muitos defendem o seja. É, por isso, que o cristianismo prega a sua desimportância, por ser uma fé alienada, por não ser inserir nas lutas históricas. A suposta solidariedade pregada pelos cristãos é tacanha. Fica restrita ao ambiente eclesiástico. 

A igreja não olha para fora dos seus muros e, quando olha, vê apenas perdidos, desviados e pessoas que precisam ser "salvas". É por isso que vemos tanto obscurantismo e preconceito na igreja. Porque ela pensa na dicotomia "perdido" x "salvo". Esses são termos criados pelo dogma. O principal compromisso do evangelho é com a libertação do homem, com a sua dignidade. E eu penso que todo e qualquer processo que sirva para dá mais dignidade, esperança ao homem, é revolucionário. 

Uma segunda questão fica por conta do processo histórico do Nordeste. A região já foi um dos redutos econômicos mais viçosos do Brasil. Isso nos dois primeiros séculos de nossa história, quando do ciclo da cana-de-açúcar. Nesse momento da história, o Nordeste era farto. Os engenhos, que mantinham uma mão de obra escrava, enriqueciam a metrópole e geravam privilégios para a casa-grande. Após a derrocada do produto, por causa da intervenção dos holandeses, o comércio do açúcar definhou e a região amargou uma crise profunda. Com a descoberta do ouro na região Sudeste, o ciclo econômico muda-se para o centro sul. Vale ressaltar ainda que quando do ciclo do açúcar, os estados privilegiados pela produção eram Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Estados como Piauí e Maranhão estavam afastados. Não havia atividade econômica relevante nesses estados. O homem comum tinha que submeter aos favores de algum oligarca e vender a sua força de trabalho. É, por isso, por exemplo, que no Piauí, as famílias Gurguéia, Martins e, atualmente, a família Portella, são tão fortes; ou os Sarneys no Maranhão, que se instalaram com tanta força. São famílias que desde tempos imemoriais fazem parte da oligarquia política da região. 

Esse cenário se estabeleceu pelos séculos seguintes. O Nordeste sempre foi visto como uma região de migrantes,  uma região de pessoas que saem para procurar melhores condições em outras locais. Mas isso se deu por conta da decadência econômica da região.  Esse ciclo tem permanecido ao longo da história.  Se deu assim no início do século XX , por exemplo, com o ciclo da borracha na Região Norte. O estado do Acre possui uma população cearense grandiosa, justamente, por causa do grande fluxo migratório. Ao longo do século XX, a leva grossa de migração continuou a sua marcha. Dessa vez para o Sudeste. E, quando se deu a construção de Brasília, para a nova capital. Mas o problema da pobreza não foi resolvido, pois como dizia Euclides da Cunha: "O que separa o interior do Nordeste do seu litoral não são cem quilômetros. São cem anos". Observe que a pobreza do Nordeste é uma questão histórica. O desemprego sempre foi algo sério. Muito gente sai de lá por entender que, lá, as chances são pequenas e inexpressivas. Eu, como você, somos um exemplo disso! É, por isso, que os nordestinos apoiam o governo do PT, pois foi a partir das políticas sociais de Lula e Dilma que os homens e mulheres daquela região viram as coisas mudar. Portanto, falar que o Bolsa Família está gerando uma leva de "não trabalhadores" é incorrer numa falácia histórica. 

E terceiro lugar, as políticas sociais do governo melhoraram a vida de milhões de pessoas. Meus familiares que estão em Pernambuco, boa parte deles, recebe Bolsa Família. Mas, nem por isso, são não trabalhadores ou "vagabundos" como se quer fazer crer. O Bolsa Família é uma política contingente. O instrumento que regula a política é a manutenção do filho estudando.  Se o menino deixa de ir para a escola, o programa é cortado. Falo isso, pois minha mãe já recebeu Bolsa Família. Meu pai havia morrido. Ficamos eu e mais dois irmãos e a minha mãe numa situação difícil. Naquela ocasião, meu irmão mais novo estava no ensino fundamental e não podia faltar a escola. E minha família era contemplada com R$ 70,00 que ajudava a engrossar o salário mínimo que minha mãe ganhava. O dinheiro ajudava bastante. Tínhamos que pagar aluguel, comprar comida e tudo aquilo que fosse necessário. Hoje, minha mãe não ganha mais o Bolsa Família – e continua a trabalhar como sempre fez. Muitas famílias passaram a comer mais depois do Bolsa Família. Quem disse isso foi a ONU. Pela primeira vez em 500 quinhentos anos, o Brasil não está mais no mapa mundial da fome. Penso que isso fosse motivo para a igreja ficar feliz. Claro, uma igreja coerente e comprometida com o necessitado. A fome não precisa de palavras soltas, vazias de conteúdos, precisa de substância material. Agostinho disse certa vez que toda verdade é verdade de Deus. Parafraseando Agostinho, podemos dizer que toda ação de solidariedade que venha trazer bem-estar, dignidade, é uma ação afirmativa em favor daquilo que prega o coração do evangelho. 

Em quatro lugar, termino com uma pergunta: onde estaríamos se tivéssemos continuado - você no Piauí e, eu, no Pernambuco? Não quis ser deseducado com você. Nunca mais tive oportunidade de conversar com você. Seria interessante fazê-lo. Um abraço!

terça-feira, outubro 07, 2014

O fascismo ronda o Brasil em 2014 – por Frei Betto


Este texto resume as intuições que me habitam nestas últimas semanas ao perceber as manifestações misóginas, homofóbicas, higienistas, racistas, criminosas, nazi-fascistas, burras, preconceituosas, etc, de setores da igreja e de boa parte da população brasileira sobre o resultado das eleições, indicando claramente que não acertamos conta com o nosso passado. Havia pensado em escrever algo nesse sentido, mas Frei Betto se antecipou a mim (risos!). Boa leitura!



Jean-Marie le Pen, líder da direita francesa, sugeriu deter o surto demográfico na África e estancar o fluxo migratório de africanos rumo à Europa enviando, àquele sofrido continente, “o senhor Ebola”, uma referência diabólica ao vírus mais perigoso que a humanidade conhece. Le Pen fez um convite ao extermínio.

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy propôs a suspensão do Tratado de Schengen, que defende a livre circulação de pessoas entre trinta países europeus. Já a livre circulação do capital não encontra barreiras no mundo… E nas eleições de 25 de maio a extrema-direita europeia aumentou o número de seus representantes no Parlamento Europeu.

A queda do Muro de Berlim soterrou as utopias libertárias. A esquerda europeia foi cooptada pelo neoliberalismo e, hoje, frente a crise que abate o Velho Mundo, não há nenhuma força política significativa capaz de apresentar uma saída ao capitalismo.
Aqui no Brasil nenhum partido considerado progressista aponta, hoje, um futuro alternativo a esse sistema que só aprofunda, neste pequeno planeta onde nos é dado desfrutar do milagre da vida, a desigualdade social e a exclusão.

Caminha-se de novo para o fascismo? Luis Britto García, escritor venezuelano, frisa que uma das características marcantes do fascismo é a estreita cumplicidade entre o grande capital e o Estado. Este só deve intervir na economia, como apregoava Margareth Thatcher, quando se trata de favorecer os mais ricos. Aliás, como fazem Obama e o FMI desde 2008, ao se desencadear a crise financeira que condena ao desemprego, atualmente, 26 milhões de europeus, a maioria jovens.

O fascismo nega a luta de classes, mas atua como braço armado da elite. Prova disso foi o golpe militar de 1964 no Brasil. Sua tática consiste em aterrorizar a classe média e induzi-la a trocar a liberdade pela segurança, ansiosa por um “messias” (um exército, um Hitler, um ditador) capaz de salvá-la da ameaça.
 
A classe média adora curtir a ilusão de que é candidata a integrar a elite embora, por enquanto, viaje na classe executiva. Porém, acredita que, em breve, passará à primeira classe… E repudia a possibilidade de viajar na classe econômica.
 
Por isso, ela se sente sumamente incomodada ao ver os aeroportos repletos de pessoas das classes C e D, como ocorre hoje no Brasil, e não suporta esbarrar com o pessoal da periferia nos nobres corredores dos shopping-centers. Enfim, odeia se olhar no espelho…
 
O fascismo é racista. Hitler odiava judeus, comunistas e homossexuais, e defendia a superioridade da “raça ariana”. Mussolini massacrou líbios e abissínios (etíopes), e planejou sacrificar meio milhão de eslavos “bárbaros e inferiores” em favor de cinquenta mil italianos “superiores”…
 
O fascismo se apresenta como progressista. Mussolini, que chegou a trabalhar com Gramsci, se dizia socialista, e o partido de Hitler se chamava Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, mais conhecido como Partido Nazista (de Nationalsozialist).
 
Os fascistas se apropriam de símbolos libertários, como a cruz gamada que, no Oriente, representa a vida e a boa fortuna. No Brasil, militares e adeptos da quartelada de 1964 a denominavam “Revolução”.
 
O fascismo é religioso. Mussolini teve suas tropas abençoadas pelo papa quando enviadas à Segunda Guerra. Pio XII nunca denunciou os crimes de Hitler. Franco, na Espanha, e Pinochet, no Chile, mereceram bênçãos especiais da Igreja Católica.
 
O fascismo é misógino. O líder fascista jamais aparece ao lado de sua mulher. Como dizia Hitler, às mulheres fica reservado a tríade Kirche, Kuche e Kinder (igreja, cozinha e criança).
O fascismo é anti-intelectual. Odeia a cultura. “Quando ouço falar de cultura, saco a pistola”, dizia Goering, braço direito de Hitler. Quase todas as vanguardas culturais do século XX foram progressistas: expressionismo, dadaísmo, surrealismo, construtivismo, cubismo, existencialismo. Os fascistas as consideravam “arte degenerada”.
 
O fascismo não cria, recicla. Só se fixa no passado, um passado imaginário, idílico, como as “viúvas” da ditadura do Brasil, que se queixam das manifestações e greves, e exalam nostalgia pelo tempo dos militares, quando “havia ordem e progresso”. Sim, havia a paz dos cemitérios… assegurada pela férrea censura, que impedia a opinião pública de saber o que de fato ocorria no país.
 
O fascismo é necrófilo. Assassinou Vladimir Herzog e frei Tito de Alencar Lima; encarcerou Gramsci e madre Maurina Borges; repudiou Picasso e os teatros Arena e Oficina; fuzilou García Lorca, Victor Jara, Marighella e Lamarca; e fez desaparecer Walter Benjamin e Tenório Júnior.
 
Ao votar este ano, reflita se por acaso você estará plantando uma semente do fascismo ou colaborando para extirpá-la.

sábado, outubro 04, 2014

Desabafo

Quem nunca foi à periferia de uma grande cidade - ou ao interior do Nordeste; quem nunca visitou uma prisão; quem somente "viu a pobreza" quando leu Vidas Secas na escola e achou o livro chato; quem nunca precisou das políticas sociais do governo - Pronatec, Prouni, Luz para todos, Bolsa Família, Farmácia Popular, Minha Casa Minha Vida, Brasil sem miséria, Enem, Mais médicos, leis trabalhistas para as empregadas domésticas etc; quem acha que pobre não trabalha porque não quer; quem acha que o mundo apenas é aquilo que ver e interpreta em cores enviesadas; quem nunca passou dificuldades; quem acha que porque come três vezes ao dia (no mínimo), todos vivem essa realidade; quem está acostumado a viajar pelo menos duas vezes ao ano para passar férias em locais variados - seja no Brasil seja no exterior; quem sempre estudou em escola de qualidade e, no ensino superior, em universidade pública; quem nunca teve curiosidade para aprender um pouco da história de luta de classes de seu país e acha que a história do homem se limita ao presente em que vive; quem nunca pegou um ônibus lotado saído de uma periferia; quem nunca morou em um barraco de tábuas; quem nunca sentiu o cheiro da pobreza em seus mais variados matizes; quem acha que é só lutar que Deus ajuda, jamais vai entender a transformação pela qual o país passou nos últimos doze anos. Muito me impressiona o discurso raivoso de pessoas que são massa de manobra da mídia e ainda se acha culto ou entendido. Não consegue perceber o projeto golpista dos meios de comunicação. A mensagem subliminar ensaiada todos os dias. 

Saiamos da menoridade intelectual. Saibamos diferenciar essência e aparência, duas categorias extremamente relevantes a pessoas sensatas. Existe uma passagem curiosa na bíblia que tem morado em minha mente nestes dias. Jesus tinha ido à casa de um fariseu, um líder religioso da época. Alguém bastante influente e respeitado pelo "status quo" da sociedade. Fazia parte da elite intelectual, econômica e religiosa. Ao chegar lá, uma mulher pôs-se a chorar. Com suas lágrimas ela ungia os pés de Cristo. O fariseu ficou a olhar e a condenar aquela cena. Afinal, em seu moralismo interno, na defesa de seu dogma cego e cruel, ele pensava: "Se esse sujeito fosse quem ele diz ser, com certeza, que não aceitaria os rogos dessa mulher". Diz o texto de Lucas que Jesus percebeu suas intenções. Contou uma história para o homem e logo em seguida diz mais ou menos nesses termos: "Quem pouco foi agraciado, pouco vai entender o que é o amor, pouco vai amar". (Lc 7.36-50). É curioso notar como o ódio daqueles que falam mal das políticas do Partido dos Trabalhadores, possui uma tese contrária contra a vida de milhões de brasileiros que tiveram suas existências melhoradas. Trata-se de uma julgamento que tem a sua raiz na naturalização de um discurso de raiva e que está preso a uma sentença: é preciso tirar o PT. Quando leio ou escuto algo assim, entendo que esse recado é contra mim, que estudei com Bolsa do Prouni; contra muito dos meus familiares que receberam Bolsa Família. Venho de uma origem humilde. E a minha vida, como a vida de tantos brasileiros, mudou para melhor. A bondade, a humildade, e a piedade estão a serviço da misericórdia.

sábado, setembro 13, 2014

Jesus virou menino e mora em uma aldeia - por Alberto Caeiro

O poema abaixo é de uma beleza sublime, capaz de provocar epifanias variadas. Ontem estava a lê-lo e senti o meu coração bater mais forte. Penso que Alberto Caeiro (um dos heterônimos de Fernando Pessoa) teve uma revelação em sentido bíblico para escrever o poema. Atualmente, esta é a espiritualidade e a oração requerida e proferida por mim; é o desejo mais forte que existe em minha alma. Execro os exegetas apocalípticos de lábios espumantes, dispostos a observarem as regras estapafúrdias da dogmática teológica; fujo dos fundamentalismos enviesantes, pobres e estéreis, que criminalizam a humanidade potencializada em cada um de nós. A religiosidade é anti-humana; é estreita e radical em sua violência monocromática. O menino Cristo desceu do céu, pois lá não tinha poesia; não havia sensações; não havia flores, o vento, os regatos coleantes que driblam as pedras a cada nova marcha pela ladeira abaixo; queria rir e brincar com os outros meninos. Queria chapinhar as poças d'águas; brincar de roda; cantar canções e olhar o vermelho do por do sol. Poema lindo! Preciso lê-lo todas as semanas para não esquecer o quanto é importante se tornar menino e brincar. Até mesmo o menino deus desceu da eternidade para experimentar as emoções certas que somente nós podemos experimentar. Não é um Jesus guerreiro, arrogante, capaz de condenar ao inferno; ou o Jesus sofredor, causador de penas. Não.  Não o Jesus do símbolo nefasto, mas que é capaz de morar em cada um de nós e adormecer em nosso colo e ninar os nossos sonhos.

Ler o poema - AQUI

Abaixo, Antonio Abujamra declama o poema:

sexta-feira, setembro 05, 2014

Marina é uma voz contraditória soprando no deserto do niilismo político

Gosto de ler os comentários dos fóruns em vários sites. E fico impressionado com o niilismo político que tomou conta do Brasil. As opiniões geralmente tendem para o obscurantismo fascista. Após entrar em contato com as opiniões de jovens atomizados, escondidos na fria indiferença da rede, tento associar esse fato ao prezado momento eleitoral; e não deixo de pensar na candidata do PSB, Marina Silva. Tentar entender o fenômeno Marina Silva é um exercício complexo. Até o início do mês passado, ela era uma coadjuvante no processo eleitoral. Estava à sombra de Eduardo Campos, ex-governador do estado de Pernambuco, e que estava estacionado em crônicos 8% nas intenções de votos. A sua morte prematura e trágica permitiu a configuração de um cenário curioso. Aquela que era apenas um nome periférico, uma sombra inexpressiva, ganhou vulto e subiu de forma inexplicável nas intenções de voto. Parece tirar o tucano Aécio Neves do segundo turno e ameaça Dilma Rousseff, candidata do Partido dos Trabalhadores (PT), que busca a reeleição. Mas surgem algumas perguntas: como explicar o fenômeno Marina? Quem é ela e o que representa? Quem são os seus eleitores?

Não é fácil achar uma resposta para essas perguntas. É possível indicar algumas pistas, que estão relacionadas a fatos políticos bem recentes da história social do nosso país e do mundo: 

(1) Segundo os institutos de pesquisa, a maior parte dos eleitores de Marina Silva são jovens desiludidos com a política. É gente que tem entre vinte e menos de quarenta anos. Que foi adolescente nos anos noventa e possui uma memória seletiva para os fatos; que não viveu e não percebeu posteriormente os dramas do neoliberalismo, introduzidos pelo Governo Collor e, mais tarde, levado a paroxismos com FHC e o desmonte do estado; que desconhecem completamente o drama histórico vivenciado pela estagnação econômica, vivida nos anos 80 e início dos anos 90. 

(2) É uma gente que possui um processo mental altamente pragmático e utilitarista. É o pensamento que entende que se algo não funciona, deve ser trocado, mesmo que as consequências sejam danosas para o processo. Não se questiona as implicações da troca. Não se entende a conjuntura. Não se quer saber a qualidade e a essência dos elementos trocados. Apenas se troca. Assim, como se dar com uma roupa com problema que se compra numa loja de departamento; ou ainda um celular que não funciona muito bem. 

(3) Um público que passa a maior parte do tempo experimentando os efeitos da virtualidade; que se especializou em colóquios monossilábicos nas redes sociais; que não consegue se desconectar do mundo dos simulacros e prestar atenção na realidade com suas implicações. E que confunde os efeitos das imagens virtuais com aquilo que acontece no mundo material. Entre o virtual com sua capacidade enfeitiçante e o mundo material com sua "feiura", prefere-se o primeiro ao segundo.

(4) Trata-se de um contingente que se diz cansado com a política. É como se a política não tivesse nada de bom; como se a vida política e os políticos encerrassem em si aspectos de uma densidade negativa de profunda contundência. Para quê se envolver com aquilo que não presta? Some-se a isso, o fato de que a vida social está assentada no individualismo. O homem do nosso tempo é treinado para viver preocupado apenas consigo mesmo. A única instituição capaz de frear esse instinto individualista e gerar coesão é a família. Fora do eixo familiar e jogado no seio das grandes cidades, o homem burguês do nosso tempo, entende que ele é único e deve sobreviver em meio a essa selva. Agora, potencialize esse pensamento em todos os seres das cidades e teremos uma rede de caos. O sentido de coletividade é completamente perdido. 

(5) O homem burguês é um consumidor voraz de imagens e informações. Ele é bombardeado pelo rádio, pelos jornais e revistas, pelo cinema, pela televisão, pelos livros, pelos outdoors, que vendem de macarrão a corpos de mulheres; pela rede mundial de computadores, pelos celulares. A babel de informações que se mostra pelos mais variados canais não chega sistematizada, organizada. Ela chega de forma caótica, revoluteante; de forma confusa e vertiginosa. Os sujeitos não conseguem distinguir as informações de maior credibilidade, daquelas que possuem intenções subjacentes atreladas à propaganda mercenária. E aí surge um problema de intenção de discurso: quem exerce o poder de fazer a inevitável seleção das informações que serão direcionadas ao homem comum? Como construir uma compatibilidade com um programa democrático de sociedade e o exercício desse poder de escolha, quando poucas empresas possuem o poder de influenciar a opinião pública? Inevitalmente, esse sujeito acaba se acostumando com "o dito". As imagens trabalhadas acabam legitimando um determinado enquadramento da realidade. Já não há o que se questionar, pois as notícias descrevem aquilo que acontece com o mundo real. Não há tempo para perscrutar as intenções secundárias. A imagem diz tudo em sua força propositiva.

(6) O sujeito do nosso tempo possui uma completa desconexão com o conceito de história. O capitalismo no século XX, deu à luz a um tentáculo - o neoliberalismo. E o neoliberalismo potencializa o privado em detrimento do público, do coletivo. Ora, segundo Leandro Konder: "A história é a ação do homem no tempo, é o que eles fazem, é o desdobramento da práxis, isto é, da aitvidade pela qual os seres humanos se realizam". É mais ou menos a seguinte relação: o Planeta Terra viaja pelo universo a mil e seiscentos quilômetros por segundo e, ao mesmo tempo, gira em torno do sol. Isso acontece a bilhões de anos. Todavia, nós que estamos na Terra não sentimos esse movimento. Percebemos os efeitos dele pela sucessão dia-noite, noite-dia. Da mesma forma, o homem burguês perdeu completamente a noção de história. Ele percebe que os anos passam, apenas isso; assim como percebe o dia e a noite. Essa distorção do conceito de história impede que os homens olhem para trás para entender o que já fizeram e de onde vieram; o presente como sucessão dialética do passado; e o futuro como possibilidade do trabalho e da práxis transformadora. O capitalismo "desumanizou" a história, pois extraiu a noção de relação coletiva. Ele consagra apenas a privatização dessa relação. Não me vejo como parte de uma comunidade que luta por melhorias; que possui ideais; que luta por transformação e que se alinha em torno de causas comuns. Assim, a história passa a ser vista como ilusão, como algo pela qual não se deve lutar, pois trata-se de batalha inexoravelmente sem sentido; ou se cria a noção de que tudo caminha para um destino em que a realidade pode se autorregular a um estágio de progresso consequente.

Acredito que esse conjunto de cinco elementos se unam para formar aquilo que vimos o ano passado nas manifestações de junho. Naquela ocasião, jovens das mais variadas origens saíram às ruas para protestar. Organizaram-se pelas redes sociais. As armas não eram ideias, uma pauta clara com reivindicações precisas, mas celulares. O barulho aconteceu, mas logo arrefeceu, pois as marchas não devem parar de "caminhar". O movimento se dizia contrário à política, sem perceber que estava fazendo um tipo de política niilista, sem substrato, um caudal de orientações desencontradas que não levariam a resultados precisos. Outro fato que fortaleceu a possibilidade das manifestações foi a incapacidade do Partido dos Trabalhadores (PT) de dialogar com a sociedade de forma clara. As alianças do PT acabaram por acorrentá-lo no campo da indiferença. Não houve um debate político preciso. Os erros do governo, somado à forma como a mídia deu visibilidade a isso, fez aumentar a "a patologia da representação". Quando penso nas manifestações de junho, surge uma surpresa inevitável, mas que se pode visualizar ali a explosão ou o sintoma de um modelo de civilização que chegou ao seu colapso. Ou seja, o capital não gera a humanização da história; não promove um espírito altruísta em favor do próprio homem. Entrementes, mata por asfixia aquilo que de mais necessário o homem criou. Assim, entendo que aquelas jornadas de junho, representam "o suspirar", o reclamo contra algo. Mas o que seria esse algo? O resultado de um estilo de vida fincado numa melancolização do conceito de história e um enfeiamento das estruturas políticas por parte da mídia que desenha, por meio de seu monopólio, a desnecessidade dos movimentos sociais - sindicatos, agremiações dos trabalhadores e os movimentos mais variados da sociedade; e a inabilidade do governo petista de dialogar com os jovens e os mais variados setores da sociedade. O governo abriu as portas para que se comprasse celulares e badulaques variados, mas não se preocupou politizar e construir cidadania. O governo gerou consumidores e não sujeitos políticos.

Ora, some todos esse fatores e você terá um eleitor da Marina. O que mais atrai os eleitores da Marina é o discurso da candidata. Poucos têm consciência ou conhecimento de sua política econômica. Quais são os pactos que ela está estabelecendo para governar. A agenda neoliberal com a qual ela se municiou. A conveniência dos abraços. A casca das convenções. As alianças com os dragões do capitalismos. A negação de um projeto para o povo, pois a única coisa que ela quer é governar para os banqueiros, o deus mercado e o capital especulativo. O que a torna um fenômeno é justamente o fato de que ela fala que representa "um novo modo de fazer política". Se os seus supostos eleitores descobrissem como ela faz política, com certeza se desiludiriam. Marina é uma voz contraditória soprando no deserto do niilismo político. Sua oratória "da boa vontade" é insuficiente para trazer as modificações que o país precisa. Política não se faz apenas com retórica. Em um país complexo e que sempre esteve nas mãos das elites, Marina desconsiderou a sua história (porque talvez a veja como algo superado, de um tempo distante e que não diz mais respeito a ela), para se estabelecer vínculos com as elites desse país, que negam justamente o povo e suas necessidades.


quinta-feira, setembro 04, 2014

Mafalda, a sopa e Karl Marx


A tirinha acima é uma das mais geniais da Mafalda, do cartunista argentino Quino, que já tive oportunidade de ler. Ela vai ao centro da questão fundamental: como estaríamos hoje, se Marx não tivesse colocado "a contradição" como elemento necessário de interpretação da história, ou seja, se ele não tivesse "tomado a sopa"? Lênin vai explicar isso muito bem o que é "a sopa" de Marx em seu belo texto "As três partes e as três fontes constitutivas do marxismo". Como seriam os movimentos sociais? Como seriam os direitos trabalhistas? Até hoje, suas ideias não foram trazidas plenamente à luz. Aquilo que escutamos como regimes marxistas nos mais variados cantos, não passam, na verdade, de caricaturas, de tentativas cinzentas e pobres do pensamento do alemão.

Acredito que com a frase "Os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo", o pensador sintetize muito bem quais suas perspectivas em relação á história. Marx reuniu em seu pensamento aquilo que de mais alto, mais célebre, as ciências e o saber humano haviam conquistado. E nos deu um desafio enquanto seres humanos: é preciso que repensemos que tipo de mundo queremos construir, enquanto projeto que transforma, modifica e dá dignidade ao ser humano. O pensamento marxiano é um desafio em favor da manutenção da vida e do ser humano. Nunca estudá-lo e lêlo foi tão necessário.


domingo, agosto 31, 2014

A naturalização do cotidiano e a política

















Karel Kosik diz em sua Dialética do Concreto algo essencial: "O indivíduo não é apenas aquilo que ele próprio crê nem o que o mundo crê; é também algo mais: é parte de uma conexão em que ele desempenha um papel objetivo, supra-individual, do qual não se dá conta necessariamente". (KOSIK, 1976, p. 62). Com isso, o pensador marxista nos deixa a ideia de que existe uma realidade a qual o homem comum perde o contato em seu cotidiano. Mas o que é essa cotidianidade? 

Na cotidianidade vivem todos os homens. Cotidianidade não é o espaço privado prevalecendo sobre o espaço público. Para ele "a vida de cada dia tem sua própria experiência, a própria sabedoria, o próprio horizonte, as próprias previsões, as repetições, mas também as exceções". Os homens vivem esses fatos e se acostumam a tais eventos, entendendo, que as coisas são aquilo que são. Que não existe uma outra forma de ser. Ou seja, a vida objetiva passa a criar uma instintividade mecânica em relação às coisas e ao mundo. 

O homem, assim, acaba criando um para si, em que considera a realidade como o seu próprio mundo, pois sua visão sobre as coisas se tornam eventos familiares. O sujeito acostumado com o aparente não consegue divisar a existência de outro mundo, de outra forma de ser possível à realidade. A vida calcada no cotidiano e fincada no aparente, sem que tenha uma expectativa da essência, leva o homem a naturalizar determinados acontecimentos. A naturalização dos fatos, leva o sujeito ao comodismo; à incapacidade para fazer julgamentos sobre qual a relação que o seu cotidiano tem com a história.

Um exemplo disso é o hábito que o sujeito moderno tem de colocar o dedo no interruptor de luz e acender ou apagar, sem se dar conta de que por trás de tal ação existe uma cadeia histórica. Ou quando liga a torneira e ver a água jorrando, sem se dar conta do processo que trouxe a água até à sua casa. Sartre menciona esse processo de naturalização tão comum da vida burguesa em seu romance existencialista A Náusea. Os jovens de hoje naturalizaram a consciência de que o mundo é da forma que eles veem; que os celulares são um elemento que acompanha a humanidade desde as mais remotas datas. Não saberiam viver sem os aparelhos, pois acabaram naturalizando a existência desses objetos portadores de fetiche. 

Quando penso estas coisas, me vêm à mente uma afirmação de José Carlos Libâneo em sua famosa Didática. O educador afirma em tom althusseriano que "O sistema educativo, incluindo as escolas, as igrejas, as agências de formação profissional, os meios de comunicação de massa, é um meio privilegiado para o repasse da ideologia dominante". Poderíamos completar afirmando: "para a naturalização do mundo". Em seguida, o educador nos propõe que desconfiemos nas seguintes afirmações:

(1) O Governo sempre faz o que é possível; as pessoas é que não colaboram;
(2) Os professores não têm que se preocupar com política; o que devem fazer é cumprir sua obrigação na escola;
(3) A educação é a mola do sucesso, para subir na vida;
(4) Nossa sociedade é democrática porque dá oportunidades iguais a todos. Se a pessoa não tem bom emprego ou não consegue estudar é porque tem limitações individuais;
(5) As crianças são indisciplinadas e relapsas porque seus pais não lhes dão educação conveniente em casa;
(6) As crianças repetem de ano porque não se esforçam; tudo na vida depende de esforço pessoal;
(7) Bom aluno é aquele que sabe obedecer (LIBÂNEO, 2008, p.20)

As afirmações são aplicadas no contexto do mundo da educação, mas, na vida cotidiana, poderíamos ampliar a lista, sem esquecer que muitas dessas premissas são construídas pelos meios de comunicação de massa e acabam ganhando um grau de verdade inquestionável:

(1) Política não presta; político é tudo corrupto; 
(2) Se passou na televisão é por que é verdade; não há o que se discutir;
(3) A violência é um problema que é resolvido pela presença da polícia;
(4) Os menores são os responsáveis pela violência nas grandes cidades;
(5) O Brasil é um país que não dar certo; nada presta por aqui;
(6) Comunismo, marxismo e socialismo são símbolos de ditaduras; 
(7) Manifestação ou reivindicação social é um movimento orquestrado por "vândalos" e "vagabundos";
(8) Você é capaz de ter sucesso na vida; para isso é só se esforçar que você consegue;
(9) Só é pobre quem quer, pois é só trabalhar;
(10) Deus sempre ajuda aquele que ora;
(11) O mundo sempre foi assim; não tem como mudá-lo; 
(12) "Sou brasileiro e não desisto nunca";
(13) Somos uma democracia racial; 
(14) A desigualdade social é um problema de gestão;
(15) O mundo pode ser "consertado"; para isso, basta eu fazer a minha parte; 

A lista poderia continuar. Esses são apenas algumas frases que me ocorreram. Kosik ainda afirma: "A alienação da cotidianidade reflete-se na consciência, ora como posição acrítica, ora como sentimento do absurdo. Para que o homem possa descobrir a verdade da cotidianidade alienada, deve conseguir dela se desligar, liberá-la da familiaridade, exercer sobre ela uma "violência"".(p.78). Por violência, entenda-se a capacidade de "ver a própria face e conhecer o próprio mundo", destruindo de uma vez por todas a naturalização - a pseudoconcreticidade. 

sábado, agosto 30, 2014

Marilena Chauí e sua reflexão sobre a classe média

Que lucidez! É justamente essa mesma classe média que, hoje, busca "arrancar" o PT do poder. Como diz a Marilena Chauí, "os programas sociais dos últimos dez anos balançaram a cabeça da classe média", pois ela viu pobre ir para aeroporto - gente que ela via pelo vidro do carro nas periferias, nas favelas; gente que não tinha perspectivas e passou a frequentar a faculdade. Então essa mesma classe média entrou em pânico, pois sentiu que o seu espaço foi invadido. E se existe um medo que terrifica a classe média é o medo da proletarização. Pois ela é patrimonialista, privatista dos espaços públicos. Dentro do seu carro, ela se sente "blindada" do mundo. Ela é funcionalista em essência e acha que a ordem do mundo e da história se auto-regulam. E tudo aquilo que é colocado como contradição e, necessariamente, altera essa ordem, é visto como uma ameaça à estabilidade. Talvez isso explique o desejo sanguinário pela redução da maioridade penal; ou a adoção da pena de morte; e a criminalização aos movimentos sociais. 

Pois ela entende que ordem e a propriedade devem ser defendidos pela repressão. Olhando o cenário eleitoral atual, entende-se claramente o desmazelo da candidatura do Aécio, que não decola (claro, somente os aviões do aeroporto particular da família construído com dinheiro público); e como a Marina é o nome possível capaz de derrotar o Governo do PT, criou-se um entusiasmo em torno do nome dela. O que está em jogo é um projeto de desmantelamento do Estado brasileiro e a destituição de um Governo que tirou mais de 40 milhões da linha pobreza; e trouxe ao debate temas caros à sociedade brasileiro, claro, apesar de ter silenciado em outros em nome da governabilidade. Se fosse outro nome que estivesse no lugar da Marina e fosse capaz de derrotar o PT, esse nome teria apoio. Se um poste ou uma árvore, o poste e árvore seriam eleitos, "pois se vence o PT, então eu quero". O ex-colunista da Veja, Diogo Mainardi, já se posicionou dizendo que é Marina até a posse da candidata. Diante dos fatos, é preciso distinguir os acontecimentos. Daí os conceitos sobre a classe média de abominação ética, porque violenta e conservadora; abominação política, porque fascista; e abominação cognitiva, porque ignorante. Ser classe média não é apenas um dado estatístico, mas também uma condição moral. 

quinta-feira, agosto 28, 2014

Diários de Motocicleta e "o outro lado do rio"

E não haveria ação humana se não houvesse uma realidade objetiva, um mundo como "não eu" do homem, capaz de desafiá-lo; como também não haveria ação human se o homem não fosse um "projeto", um mais além de si, capaz de captar a sua realidade, de conhcê-la para transformá-la. Paulo Freire in Pedagogia do Oprimido.

Há alguns sábados atrás eu assisti, pela terceira vez - talvez -, ao filme Diários de Motocicleta (2004), do brasileiro Walter Salles. Após ter visto o filme e refletido sobre ele, não consigo tirá-lo de minha cabeça. Não consigo me deslindar dos temas profundos e ao mesmo tempo pela beleza plástica das cenas, que têm uma preocupação de mostrar o continente sul-americano. O filme nos conta a história do jovem Ernesto Guevara, que mais tarde seria conhecido como "Che". 

Estudante de Medicina e filho de uma família de classe média argentina, Ernesto decide fazer uma viagem de moto ao lado do seu amigo Alberto Granado, repleta de metáforas políticas e existenciais que definiriam o seu futuro. Aquilo que no início era apenas um intento juvenil aventureiro, aos poucos vai mudando quando os jovens companheiros entram em contato com as mais destacadas e imorais explorações e misérias. Empresas estrangeiras se apropriam das riquezas minerais do continente e, para isso, exploram os trabalhadores que vivem em uma situação de penúria. São expulsos de suas terras. Ficam sem moradia. E são forçados a marcharem errantes de braços dados com a incerteza. Isso se dá, por exemplo, em regiões campesinas do Peru. As injustiças perpetradas contra os indígenas emociona. O drama de famílias que são separadas pela miséria, vai lapidando o olhar do jovem Ernesto. 

Um dos momentos mais bonitos e simbólicos do filme acontece quando Ernesto e Alberto conversam, após terem chegado a um lugar onde se internam pessoas leprosas. O lugar era cuidado por religiosas católicas. Havia o rio que se interpunha entre as pessoas que não tinham lepra e aqueles que eram portadores da enfermidade. O diálogo se dar da seguinte forma:

- Viu o rio? - diz Ernesto.
- Claro. - responde o seu amigo. Ao que Ernesto acrescenta:
- Ele separa os doentes dos sãos.

Mais tarde, quando os habitantes da comunidade ribeirinha resolvem fazer uma festa de despedida para os dois amigos que haviam auxiliado de forma fantástica os doentes do lugar, o jovem argentino diz as seguintes palavras: 

Apesar de nossa insignificância para sermos porta-vozes de vossa causa, acreditamos, e depois desta viagem com mais firmeza ainda, que a divisão da América em nacionalidades vagas e ilusórias, é totalmente fictícia. Constituímos uma única raça mestiça do México até o estreito de Magalhães.E, assim, me despindo de qualquer provincialismo, eu brindo pelo Peru. E pela América unida. 

Trata-se de um dos momentos mais bonitos do filme. É quando a opção, a escolha do jovem aventureiro se enquadra. É noite e Ernesto deixa a comemoração e sai para ver o grande rio. O amigo Alberto o segue. E aqui encontramos a decisão ontológica necessária. Fuser, como era chamado pelo amigo Alberto, pergunta: 

- Sabe onde está o barco? O amigo responde:
- Não, não estou vendo.
- Vou comemorar meu aniversário do outro lado. - completa o jovem Che.

Esta fala completa a sua percepção. E aqui notamos o compromisso histórico assumido em favor dos injustiçados, dos doentes, dos que não são. Florestan Fernandes costumava dizer que só existem duas posições em política: ou se está ao lado dos oprimidos ou se está ao lado dos opressores. A via do meio é a via da omissão histórica; é a via do pequeno burguês metido em seu medo crônico, em seu conservadorismo tacanho e reacionário. 

A escolha subjetiva se faz a partir de uma relação dialética com a realidade. Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade. Os homens necessariamente, no dizer de Paulo Freire, atuam correspondentemente por meio da "relação dialética subjetividade-objetividade". O meu olhar se faz a partir da relação que tenho com o mundo objetivo. A reflexão libertadora acontece quando percebo a minha práxis, a minha prática, sobre a história a fim de que a minha ação seja capaz de romper a barreira entre opressor e oprimido. Ou como dizia Marx: "O critério de verdade é a prática". 

Quem não experimentou, visualizou ou testemunhou a contradição existente na sociedade, jamais sairá do subjetivismo e do objetivismo, como dizia Paulo Freire. O primeiro é a "objetividade dicotomizada da subjetividade"; e o mesmo fenômeno se dá com o subjetivismo. Ora, quem faz uso do objetivismo e do subjetivismo cai em um simplismo ingênuo, incapaz de reconhecer a contradição posta na história. Dizer que "o rio separa os doentes dos sãos" é identificar a "rachadura" que existe no mundo social. E mais tarde dizer: "vou comemorar meu aniversário do outro lado", é tomar uma decisão ontológica baseado na dialogicidade entre o objetivo e o subjetivo.

Quando penso nisso, entendo o porquê de muita gente ter raiva do socialismo, do marxismo ou do comunismo. Pois, estes sistemas entendem que existem leis que regem a materialidade. Que a realidade não é construída apenas com subjetivismos inconsequentes e apressados ou com objetivismos pragmáticos, apenas.

E, ao final do filme, encontramos a maravilhosa música do uruguaio Jorge Drexler, que tenho escutado como nunca nas últimas semanas. Há algumas semanas atrás corri doze quilômetros ouvindo repetidamente essa música. Chorei diversas vezes. E, assim, vamos treinando o nosso olhar e lançando os remos no lago. Abaixo a bela música - Al otro lado del rio.