quarta-feira, abril 15, 2015

Brasil: um país de discursos e crises... I

O atual momento enfrentado pelo Brasil é bastante complexo. Um país que historicamente foi governado por uma elite pouco preocupada com a construção de um projeto identitário de nação, atravessa uma das suas piores crises institucionais e representativas. Quem seria o responsável por essa crise? Como ela surgiu? Não tenho competência teórica para responder essas duas perguntas. Todavia, possuo algumas intuições. 

Primeiro: é preciso entender a conjuntura mundial e qual o papel do Brasil à luz do todo. O mundo, também, atravessa uma crise. Isso é inegável. Em 2008, Lula, diante do caos econômico que envolveu as principais economias globais, disse que o Brasil sentiu "uma marolinha". À época, o mercado interno brasileiro estava aquecido pela prodigalidade do crédito. Com "dinheiro fácil", os brasileiros saíram às compras. Em meu simplismo, sei que a lógica que fundamenta uma sociedade capitalista é o lucro. Três protagonistas devem estar presentes para que isso exista: a mercadoria, o crédito (dinheiro) e o consumidor. Dos três, aquele que se mostra mais frágil é o consumidor, pois para adquirir a mercadoria, ele precisa de crédito. Mas uma vez que consiga o crédito como resultado do seu trabalho, compulsoriamente, ele se ver dentro de uma obrigação jurídica, pois deve pagar à instituição credora. Comprometido financeiramente, o consumidor não pode adquirir novas mercadorias. Existe um problema: para que o capitalista continue a ter lucro, novas mercadorias mercadorias são produzidas para serem consumidas. Contudo, o que acontece quando há mercadoria, mas não existe consumidor pelo fato de o dinheiro se tornar "curto" e caro? Instala-se a crise e excedente de mercadoria. Ao meu modo de ver, a crise de 2008, está chegando por aqui em decorrência de uma lógica que não muda dentro de uma sociedade capitalista. As crises seguem uma lógica de gangorra. Ora estamos nela, ora saímos dela. Ela está sempre no horizonte. 

A pequena burguesia foi a principal privilegiada desse bum do crédito, tendo a possibilidade de viajar mais, consumindo objetos variados, parecendo ter encontrado o momento definitivo de sua ascensão; trocando de carro etc está endividada neste momento e, com a instabilidade econômica, enxerga no horizonte presságios nebulosos. 

Segundo: é preciso perceber o quanto o Partido dos Trabalhadores contribuiu para o presente momento. Aqui deve se enxergar a realidade de forma dialética. Uma leitura sensata nos permite entender que convivem interesses antagônicos no seio da sociedade brasileira: de um lado estão as elites que não se veem representadas pelo PT e buscam recuperar o palco perdido desde 2002; e do outro lado, estão aqueles que, convulsamente, ainda resistem às investidas do golpismo midiático a favor das elites, mas, que, por causa do PT, foram enfraquecidos e esvaziados de qualquer tática, sem saber como devem reagir. 

Sempre houve na história do Brasil um jogo de cooptação da burguesia. A classe média conservadora compra para si o discurso das elites. Se ver representada institucionalmente por um discurso de estabilidade. O modo como as informações são trabalhadas ajudam a criar determinadas intencionalidades discursivas. É só assistir ao noticiário de qualquer canal aberto para perceber o estratagema discursivo dos detentores do monopólio da informação.  A mídia brasileira é um o principal partido político perante a sociedade. Ela consegue inverter tendências, suplantar interpretações, ocultar pedaços relevantes de acontecimentos. 

De modo que de tanto ouvir notícias negativas com personagens ligados ao governo, o brasileiro médio passou a odiar tudo aquilo que diga respeito à política e ao Governo Federal. O sujeito que trabalha muito, que busca viver a sua vida de forma digna, ao perceber um estado de coisas em que aqueles que foram escolhidos para gerir os negócios do Estado, são tidos por responsáveis por um suposto esquema corruptivo, passa a ser guiado para determinado sentimento. 

A onda fascista por que passa o Brasil atualmente foi construída por certo tipo de discurso. É por conta disso, que enxergamos determinadas incoerências que acabam sendo defendidas pela sociedade civil. A construção de dicotomias é comum no Brasil. Nosso modo de interpretação está baseado no maniqueísmo. Utilizamos sempre categorias duais para julgar o mundo concreto - bom e mal; feio e bonito; branco e preto. Assim, aquilo que diz respeito a mim é bom; mas aquilo que é do outro só pode ser o mal. A minha fé é boa, todavia, a do outro é ruim. Esse fenômeno faz do Brasil uma sociedade altamente violenta. Segundo pesquisas, nos últimos 60 anos, mais de 1 milhão de pessoas participaram de linchamentos públicos. 

O homem médio enfrenta uma espécie de esquizofrenia. Ao mesmo tempo que é contra o aborto, é favorável à redução da maioridade penal e à pena de morte. No tocante a isso, pesquisa feita pelo Datafolha no dia de hoje,  afirma que 87% é favorável à redução da maioridade penal. Ao mesmo tempo em que diz que é um povo pacífico é favorável à suspensão do Estatuto do Desarmamento, como o projeto que tramita no Congresso. Diz que aceita as diferenças, mas é machista e homofóbico. 

Essa dualidade sempre existiu em nossa sociedade. O que acontece é que ela estava adormecida. Os últimos acontecimentos políticos serviram para aquentá-la ou destampar o caldeirão de boçalidades. Como externei acima, essa tendência ao dualismo é algo tão certo que a sociedade não consegue visibilizar os políticos brasileiros, como uma extensão da própria sociedade. Os quadros que fazem as leis ou desmobilizam direitos são uma consequência direta do espectro social. Como foi dito determinado vez: "Cada povo tem o governo que merece". Pretendo continuar essa conversa. 

sábado, abril 11, 2015

O suicído do co-piloto: expressão do niilismo da cultura pós-moderna? - Por Leonardo Boff

O suicídio premeditado do co-piloto Andreas Lubitz daGermanwings levando consigo 149 pessoas, suscita várias interpretações. Havia seguramente um componente psicológico de depressão, associado ao medo de perder o posto de trabalho. Mas para chegar a esta solução desesperada de, ao voluntariamente pôr fim a sua vida, levando consigo outros 149, implica em algo muito profundo e misterioso que precisamos de alguma forma tentar decifrar.

Atualmente este medo de perder o emprego e viver sob uma grave frustração por não poder nunca mais realizar o seu sonho, leva a não poucas pessoas à angústia, da angústia, à perda do sentido de vida, e esta perda, à vontade de morrer. A crise da geosociedade está fazendo surgir uma espécie de “mal-estar na globalização” replicando o “Mal-estar na cultura de Freud.

Por causa da crise, as empresas e seus gestores levam a competitividade até a um limite extremo, estipulam metas quase inalcançáveis, infundindo nos trabalhadores, angústias, medo e, não raro, síndrome de pânico. Cobra-se tudo deles: entrega incondicional e plena disponibilidade, dilacerando sua subjetividade e destruindo as relações familiares. Estima-se que no Brasil cerca de 15 milhões de pessoas sofram este tipo de depressão, ligada às sobrecargas do trabalho.

A pesquisadora Margarida Barreto, médica especialista em saúde do trabalho, observou que no ano de 2010 numa pesquisa ouvindo 400 pessoas, cerca de um quarto delas teve ideias suicidas por causa da excessiva cobrança no trabalho. Continua ela: “é preciso ver a tentativa de tirar a própria vida como uma grande denúncia às condições de trabalho impostas pelo neoliberalismo nas últimas décadas”. Especialmente são afetados os bancários do setor financeiro, altamente especulativo e orientado para a maximalização dos lucros.

Uma pesquisa de 2009 feita pelo professor Marcelo Augusto Finazzi Santos, da Universidade de Brasília, apurou que entre 1996 a 2005, a cada 20 dias, um bancário se suicidava, por causa das pressões por metas, excesso de tarefas e pavor do desemprego.

A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de três mil pessoas se suicidam diariamente, muitas delas por causa da abusiva pressão do trabalho. O Le Monde Diplomatique de novembro de 2011 denunciou que entre os motivos das greves de outubro na França, se achava também o protesto contra o acelerado ritmo de trabalho imposto pelas fábricas causando nervosismo, irritabilidade e ansiedade. Relançou-se a frase de 1968 que rezava: “metrô, trabalho, cama”, atualizando-a agora como “metrô, trabalho, túmulo”. Quer dizer, doenças letais ou o suicídio como efeito da superexploração do processo produtivo no estilo ultra acelerado norte-americano, introduzido na França.

Estimo que, no fundo de tudo, estamos face à aterradoras dimensões niilistas de nossa cultura pós-moderna. O termo, niilismo, surgiu em 1793 durante a Revolução Francesa por Anacharsis Cloots, um alemão-francês e foi divulgado pelos anarquistas russos a partir de 1830 que diziam: “tudo está errado, por isso tudo tem que ser destruído e temos que recomeçar do zero”. Depois Nietzsche retoma o tema do niilismo, aplicando-o ao cristianismo que, segundo ele, se opõe ao mundo da vida. No após guerra, em seu seminário sobre Nietzsche, Heidegger vai mais longe ao afirmar, creio que de forma exagerada, que todo o Ocidente é niilista porque esqueceu o Ser em favor do ente. O ente, sempre finito, não pode preencher a busca de sentido do ser humano. Alexandre Marques Cabral dedicou dois volumes ao tema:”Niilismo e Hirofania: Nietzsche e Heidegger’(2015) e Clodovis Boff três volumes sobre a questão do Sentido e do Niilismo.

Em setores da pós-modernidade, o niilismo se transformou na doença difusa de nosso tempo, quer dizer, tudo é relativo e, no fundo, na vale a pena; a vida é absurda, as grandes narrativas de sentido perderam seu valor, as relações sociais se liquidificaram e vigora um assustador vazio existencial.

Neste contexto, se retomam tradições niilistas da filosofia ocidental como o mito, citado por Aristóteles no seu Eudemo, do fauno Sileno que diz:”não nascer é melhor que nascer e uma vez nascido, é melhor morrer o mais cedo possível”. Na própria Bíblia ressoam expressões niilitas que nascem da percepção das tragédias da vida. Assim diz o Eclesiastes:”mais feliz é quem nem chegou a existir e não viu a iniquidade que se comete sob o sol”(4,3-4). O nosso Antero de Quental (+1860) num poema afirma:”Que sempre o mai pior é ter nascido”.

Suspeito que esse mal-estar generalizado na nossa cultura, contaminou a alma do co-piloto Lubitz. Também pessoas que entram nas escolas e matam dezenas de estudantes em vários países e até entre nós em 2011 no Rio na escola Tasso da Silveira quando um jovem matou mais de umaz dezena de alunos, revelam o mesmo espírito niilista. Medo difuso, decepções e frustrações destruíram em Lubitz o horizonte de sentido da vida. Quis encontrar na morte o sentido que lhe foi negado na vida. Escolheu tragicamente o caminho do suicídio.

O suicído pertence à tragédia humana que sempre nos acompanha. Por isso, cabe respeitar o caráter misterioso do suicídio. Talvez seja a busca desesperada de uma saída num mundo sem saída pessoal. Diante do mistério calamos, pasmados e reverentes, por mais desastrosas que possam ser as consequências.


domingo, abril 05, 2015

Abc do preguiçoso - Xangai

Um dos maiores artistas populares do nosso país. Abc do preguiçoso é uma das canções mais sensacionais do seu repertório. No vídeo, Xangai consegue representar de forma genial. É uma "ópera popular". Não há palavras para descrever.

sábado, março 28, 2015

O cinema em fevereiro

Othon Bastos, no papel de Paulo Honório
O mês de fevereiro não me proporcionou a diligência necessária para ver filmes. Foi o mês em que tive de voltar ao trabalho. E o excesso de reuniões noturnas, a adaptação forçada à sala de aula após mais de um mês de férias, fez minguar "a audiência" desejável. 

Ao todo foram apenas cinco filmes. Posso classificar como um período excessivamente mirrado. Desde o mês de junho do ano passado, quando assisti a apenas um filme (Os últimos passos de um homem - 1995), que eu não via uma quantidade tão ínfima. Dos cinco filmes, o destaque fica com São Bernardo, baseado no livro homônimo de Graciliano, filme de 1972; e Nove Rainhas, mais um filme argentino com o onipresente Roberto Darín, que tem sido bastante comentado por aqui nos últimos meses. Os outros três são colocados num subgrupo. São eles: Santo Agostinho - o declínio do Império Romano (2010), Coração Valente (1995) e Oblivion (2013).

São Bernardo é daquelas obras que exigem mais de uma leitura - pelo menos uma a cada ano. É um trabalho cujo nível de análise de uma personagem chega a alturas adstringentes, de laceralidade psicológica, de secura de exame que nos coloca diante de um dilema: Paulo Honório é um herói ou um homem mal, rústico, bárbaro, desumanizado? Graciliano Ramos narra a história de um sujeito amargo, de vontade indômita, que subjuga os seus semelhantes como subjuga a terra. Paulo Honório conta a a história. Já nas primeiras páginas do livro, notamos a querela em torno da redação de um romance. Mas é depois que sua esposa Madalena se mata, que Paulo Honório inicia o seu calvário existencial. É um sujeito que busca se compreender, se medir. Afinal, como diz Eduardo Coutinho: "...a ambição de poder acaba por consumi-lo: ser e ter, define-lhe a visão de mundo".

Acima, ative-me de forma sucinta e superficial aos aspectos mais gerais dessa obra, uma das maiores da nossa literatura. O que é fantástico é que o ícone do Cinema Novo Leon Hirszman, que mais tarde faria aquele que é um dos grandes filmes do cinema brasileiro - Eles não usam black-tie (1981), conseguiu fazer uma das adaptações mais felizes que conheço. Othon Bastos conseguiu fazer viver esse que é um dos mais complexos personagens da literatura brasileira.

O outro filme que destaco é Nove Rainhas, que tem como diretor Fabían Bielinsky e é protagonizado pelo incansável Ricardo Darín e Gaston Pauls. Trata-se da história de dois picaretas que vivem a tirar vantagens de situações pequenas, até que surge a oportunidade de se darem bem. Eles conseguem uma série de selos ingleses raros conhecidos como Nove Rainhas e, a partir daí, terão que negociar com um empresário. Mas o que é surpreende no filme é o desfecho inesperado que deixa o telespectador boquiaberto, com ar embasbacado e a dizer: "Meu Deus, o que aconteceu?!" A partir desse evento, um sorriso bobo espraia-se no canto da boca, enquanto percebemos a ficha técnica do filme subindo. Foi assim que me senti ao ver essa produção argentina bem urdida.

Os três filmes que restaram ficam em um degrau abaixo, como enunciei acima. Coração Valente, uma obra cuja duração tem quase três horas, vi quando ainda era adolescente. Isso lá pelos idos de 1996 ou 1997. Voltei a ver a obra movido por uma curiosidade analítica, que busca reviver antigos otimismos que se fecundaram em tempos passados. O filme é plasticamente bem elaborado. Mel Gibson, que é diretor e protagonista (vive o papel do caudilho libertador William Wallace), conseguiu jungir drama épico, belezas naturais, fortes emoções e um mote invencível, a busca pela liberdade. Se não estou equivocado, Coração Valente ganhou o Oscar de melhor filme do ano de 1995. É uma drama épico grandioso. Podemos notar nesse tipo de filme dois aspectos: (1) quando o herói consegue cumprir a sua missão, realizando aquilo que é esperado dele, essa previsibilidade nos leva a um desenlace daqueles: "e eles viveram felizes para sempre", o que é tão típico em filmes hollywoodianos; (2) mas quando o herói morre, como é caso de Coração Valente, resta fazer desse evento algo grandioso, capaz de gerar emoções ou inocular no telespectador uma impressão de que ele era grande, enorme; que o herói mesmo morrendo é imortal. Mel Gibson conseguiu isso com a obra.

Já em Santo Agostinho - o declínio do império romano, o otimismo foi baldado pela qualidade ruim do filme. Agostinho foi o filósofo relevante para a história da Igreja e para ampliar o debate sobre temas metafísicos. Sua conversão à fé cristã mudou a sua forma de compreender o homem, a história e o tempo universal. O filme buscou retratar a sua vida pública como exímio orador a serviço do estado romano e a sua conversão como esforço incontido de sua mãe, Mônica, e a influência do bispo Ambrósio. Agostinho foi um sujeito importante para a minha caminhada. Li As confissões, o relato apaixonado de sua vida até a conversão, em 2005. Fiquei com uma impressão profunda do livro. Agostinho fala do seu Deus como alguém que está apaixonado, que vive a desmedida necessidade de respirar, sorver cada porção de ar como se fosse o último de sua existência. Recentemente, ouvi o filósofo Clóvis de Barros Filho, da USP, falar que As confissões é um livro suspeito. Para ele, trata-se de uma propaganda de Agostinho, uma forma de alcançar notoriedade. Agostinho era um sujeito que manejava bem as palavras, que sabia imprimir efeitos no interlocutor e o seu livro buscava essa finalidade.

Já o quinto filme, Oblivion, estrelado por Tom Cruise, não exige muita reflexão. Vi-o numa sexta-feira à noite, momento em que estamos desguarnecidos de qualquer coragem; e acabamos por sucumbir ante o programa fácil, kitsch; ante à estética de Hollywood. O ponto alto do filme é a canção Ramble On, do Led Zepellin - do Zep II - que há muito eu não escutara e, a partir dali - passou a ser o tema do alarme do celular, que me acorda durante a semana às cinco e meia da manhã a fim de que eu esteja na sala de aula às sete e meia da manhã.

sexta-feira, março 27, 2015

Sem maniqueísmos...

Esse é problema de se entrevistar gente esclarecida: os maniqueísmos acabam sendo desfeitos e o bom senso prevalece. Parte alta da entrevista: 

       O entrevistador enuncia.
        - Miriam Leitão em artigo desmentiu que a maior parte do dos "manifestantes" [do dia 15/03/2015] tenha votado no Aécio. Já o ministro do governo [Mercadante, penso] disse que quem participou das manifestações não votou no governo. Você concorda com o ministro ou com a Miriam?
       Ao que entrevistado responde de forma galharda:
       - Concordo com o ministro. E ao concordar com o ministro não se trata de uma opinião.


domingo, março 15, 2015

Como desestabilizar uma nação

Muito oportuno para o momento.

O que se aconteceu hoje no país é resultado de um projeto com doses fortes de psicologia social. 

sábado, março 14, 2015

Algumas considerações sobre "Os sertões", de Euclides da Cunha. Uma leitura futura


Nunca li Os Sertões, de Euclides da Cunha. Tenho um exemplar adquirido no ano de 2003. A assinatura impressa na página diz 14-05-2003. É assim que faço com os livros que compro: ponho a data com objetivos cronológicos exatificados. Lá pelos idos do ano 2000, tentei ler o livro. Era um jovem pouco afeito à leitura. Aquilo me custou um trauma. Quando iniciei o trajeto pelas sendas duras da prosa de Os Sertões, na parte primeira, que trata da geografia da terra, acabei caindo nos buracos, lacerações surgiram por extensões amplas; escoriações enormes se tatuaram em meu otimismo, o que me fez desistir da leitura. O fluxo dos fatos me proibiu de voltar ao livro. 

Hoje cedo, senti-me premido a revisitá-lo. Os Sertões não é um livro fácil. A erudição de Euclides da Cunha é intimidante. Trata-se de uma das mais bem-sucedidas exemplificações de como se faz uma reportagem. O autor foi enviado como adido do Jornal O Estado de São Paulo, para cobrir uma das expedições do estado brasileiro contra o Arraial de Canudos, uma aglomeração que surgira com gente pobre, miserável, supersticiosa e povoada pela esperança redentora oriunda da prédica de Antônio Gomes Maciel, alcunhado de Antonio Conselheiro. 

Os Sertões é uma obra imponente, de linguagem austera, rica em polifonias e ressonâncias. Tais características fizeram com que um escritor do calibre de Mario Vargas-Llosa se apaixonasse pela história e quisesse, ele mesmo, escrever a sua versão da história do Arraial de Canudos. Claro, sem prescindir do valor da obra de Euclides da Cunha. O livro do peruano está aqui comigo. Chama-se A guerra do fim do mundo. Penso que "fim do mundo" possua uma ambiguidade fecunda, pois: (1) pode representar a distante localização geográfica; (2) a narração de "um Brasil esquecido" pelo "Brasil civilizado", focalizando a contradição entre o Brasil litorâneo e "o Brasil profundo", o Brasil preterido pelas elites, pelo progresso; e (3) simplesmente fazer emular a ideia de um fim biblicamente apocalíptico, já que Conselheiro era dado a pregar o fim do mundo. 

O fato é que Euclides por ser engenheiro de formação militar, republicano, positivista e evolucionista, consegue fazer um "tipo de leitura" sobre esse Brasil esquecido. Os preconceitos científicos e as ideias eugênicas estão inscritas em seu texto, seguindo à risca a vanguarda intelectual da época. Termos como "tabaréu ingênuo", "caipira simplório"; ou simplesmente chamar o nordestino de "neurastênico" evidenciam o tipo de visão sustentada pelo escritor baiano. 

O fato é que Canudos é um dos exemplos de como o estado brasileiro açambarcado pelas elites, tratou historicamente os mais humildes ou como dizia Florestan Fernandes: "os de baixo". A violência que a cidade sofreu é uma vergonha histórica para o estado brasileiro. Trata-se de um caso de guerra civil do Brasil litorâneo contra o Brasil miserável do interior. É violência do otimismo bambo contra a simplicidade supersticiosa de um Brasil relegado pelos ciclos históricos. Canudos serviu de "bode expiatório" para a crença republicana do progresso propagandeado pelas elites subalternas. Um exemplo claro é a lobby criado pela intelligensia da época, que dizia que Canudos era um obstáculo, um mácula contra o "republicanismo revolucionário". Não há algo mais risível e patético. Com um pensamento como esses, chegamos a um veredicto: nossas elites são burras, cegas, criminosas, preconceituosas, xenófobas.

Fica uma certeza: lerei "Os sertões" nos próximos meses.

P.S. Hoje cedo, procurei alguns vídeos no Youtube e encontrei um material considerável sobre Canudos. Entre eles, encontrei quatro belas reportagens sobre a cidade e sobre o Nordeste. 

segunda-feira, março 09, 2015

Uma resposta - mais uma!



Uma resposta!

Meu caro xxxxx, você acredita realmente nisso? A realidade é um dado objetivo da materialidade, mas essa materialidade não é apenas aquilo que realmente vemos. Não existe um fazer político sem ideologia e nem oportunismos. O movimento é ideológico (por mais que a maior parte de pessoas que estão nele nem saiba o que acontece nos bastidores do mundo político) e, portanto, político em sua essência. Então vamos lá: 

(1) Carta Capital é uma revista diferente dos demais veículos hegemônicos. Ela possui aproximações com a esquerda, sim. É uma opção ideológica. Mino Carta assim se define. Não há problemas com relação a isso. O grande problema, no Brasil, são as outras que se dizem imparciais. Elas afirmam isso, querendo deixar claro que são isentas, independentes, mas trabalham contra a democracia, contra o povo por, constantemente, "desvirtuarem" informações com finalidades muito óbvias. Com relação à publicidade: O governo é um dos maiores pagadores - e um bom pagador! Todas as grandes mídias recebem dinheiro do governo. A publicidade feita por ele gera cifras milionárias. Por exemplo, em 2013, a Rede Globo lucrou quase um bilhão com publicidade do Governo Federal. Não é somente a Carta Capital. 

(2) O movimento que se organiza para a suposta “passeata da indignação” possui, sim, apoio partidário. Não enxerga quem não quer ver. O PSDB com seu núcleo duro (FHC – uma ratazana política, metida a intelectual -, Aloysio Nunes, Aécio, Serra, Jeressaiti etc), representantes de um setor da sociedade brasileira, são os mais interessados nessa “onda de descontentamento”. Eles não verbalizam isso de forma explícita por saberem que apoiar um golpe traria problemas com a opinião pública. Mas, no fundo, haverá participação dos sujeitos desse partido. Essa manifestação não foi orquestrada pelo povo apenas. Ela é resultado de um tipo de postura golpista que sempre existiu nesse país. Se formos analisar a história da tenra e claudicante República Brasileira, nunca ficamos mais de trinta anos sem que houvesse um golpe. É inadmissível para as elites desse país (que tem o PSDB como principal partido a os representar), que um partido como o PT fique tanto tempo no poder. Criam factóides diários, como a dita aberração: “Foi o PT que inventou a corrupção”. Ou: “O maior escândalo de corrupção da história do país”. Quer saber mesmo? O maior escândalo de corrupção desse país foi a privataria tucana do Governo FHC. Ou o saque que Don João VI fez aos cofres do Banco do Brasil, quando voltou para a Europa no século XIX, entre outros escândalos. Sabia que, quando Caminha terminou escrever a sua famosa carta para o rei de Portugal, pediu para que o monarca arranjasse um emprego para um parente seu, num flagrante claro de nepotismo? Ou seja, estava fundado ali o jeitinho brasileiro. Falar de corrupção sem considerar a história é agir de má fé. 

Os representantes dessa elite caricata que chegou aos nossos dias, ainda estão insatisfeitos com a derrota na última eleição. Já tentaram invalidá-la por duas vezes junto ao TSE, lançando suspeições sobre a apuração que deu a vitória a Dilma. Esse tipo de postura golpista aconteceu em 1954 contra Getúlio; aconteceu em 1964 contra Jango. Marchas como essas são a materialização de um movimento sujo, subterrâneo, ideologicamente enviesado das elites brasileiras, que têm nos banqueiros, nos donos de mídias, nos donos do capital rentista e em outros setores conservadores sua sedimentação; querem que o deus mercado triunfe sobre as necessidades mais prementes do homem simples, que trabalha e trabalha duro para sustentar a sua família em uma periferia. O que esse povo deseja é um tipo de estado que os sirva. Aquelas pessoas que irão à famigerada passeata (fascista em sua essência por não aceitar o que a maioria decidiu nas urnas em outubro passado) são, no fundo, massa de manobra. São brasileiros formados pela mídia. São pessoas que, do alto de seu conservadorismo anacronicamente atômico, acham que estão sendo sujeitos de um movimento legítimo. Não. Como já disse: “esse movimento é golpista, é fascista, é subproduto, de um outro movimento, que tem nas elites brasileiras, a sua principal fonte criadora. 

Já tentaram “deslegitimar” as eleições e viram na manifestação do dia 15 a oportunidade tão desejada. São pessoas que nunca olharam para trás para entender a história do seu país. Que acham que a materialização do presente é resultado, unicamente do presente. São pessoas que acham que Dilma governa o país sozinha e que faz o que bem quer. São pessoas que pensam que a realidade, o presente, está desligado das demais contingências. São pessoas que nunca leram um clássico da historiografia, da sociologia ou da antropologia para entender o que é o mundo político e acham que sabem das coisas. São pessoas que não sabem que os poderes da República são independentes e harmônicos entre si e que o Executivo não manda como quer no país. São sujeitos induzidos pela mídia, que, no Brasil, julga e condena antes que os órgãos oficiais do Estado o façam, num verdadeiro atentado contra a Constituição. São pessoas que desrespeitam a presunção de inocência e ônus da prova. Em suma, são aquilo que a Marilena Chauí fala tão bem: são um abominação ética, uma abominação política e uma abominação cognitiva.

domingo, março 08, 2015

O cinema em janeiro de 2015

Serge, interpretado por Fabrici Luchini, em Pedalando com Molière
Somente agora, tendo chegado ao mês de março, que farei o meu relatório dos filmes que vi no mês de janeiro. No mês de janeiro eu viajei para o Nordeste. Lá fiquei por quinze dias. Período de descanso. Momento de rever amigos, parentes; de visitar locais que foram abandonados, mas que moram aqui dentro como paisagens recorrentes e apaixonadas. Sou um homem habitado por paisagens e fragrâncias. No meu corpo estão tatuadas as memórias que funcionam como espelhos. Elas são portas por onde entro e me vejo como criança, imergindo em um passado que se faz sempre presente. As imagens são bandeiras tremulantes, sempre a indicarem a vitória de um exército chamado saudade (sei, no fundo, é piegas). Visitei o Rio Grande do Norte, a Paraíba e o meu Pernambuco querido.

Mesmo com esse período de viagem, ainda consegui assistir a oito filmes. Os destaques ficam por conta de Pedalando com Molière (2013), Efeito Borboleta (2004), Segunda-feira ao sol (2002), Festa de família (1998) e o Filho da Noiva (2001). Numa segunda renque, ficam Trotski, a revolução começa na escola (2009), O mesmo amor, a mesma chuva (2000) e Tatuagem (2013). 

Principio falando daqueles que ficaram secundarizados. Trotski, a revolução começa na escola é uma produção canadense. É uma comédia incipiente. Busca retratar a história de um jovem que se acha a encarnação do revolucionário russo. Achei-o meio bobo. Em O mesmo amor, a mesma chuva,  produção argentina, o onipresente Darín encena um romance com Soledad Villamil. Dos filmes argentinos vistos por mim recentemente, achei que esse ficou bem aquém da boa e sólida filmografia do país. Já Tatuagem é uma produção ousada do cinema pernambucano e traz o polivalente Irandhir dos Santos, uma das grandes revelações do cinema brasileiro dos últimos anos. O filme é visceral e cru em sua proposta. Somente vendo para entender o que digo.

Penso que o filme que mais me chamou a atenção no mês de janeiro foi Efeito Borboleta, embora a maviosidade de O filho da noiva, tenha me tocando fundo. Efeito Borboleta, dos irmãos Eric Bress, J. Mackye Gruber, cuja fama eu havia escutado apenas por comentários esparsos, é daqueles filmes que deixam a gente impressionado pela sua proposta filosófica. O filme aborda em linhas gerais a seguinte questão: por que eu tenho esta vida e não outra? E se eu tivesse feito outras escolhas, como seria a minha vida, aonde eu estaria? E se naquele dia eu não estivesse naquele lugar? E se eu não tivesse me decidido por realizar determinadas ações e não as que realizei e tenho realizado? A obra é rica em reflexões filosóficas, sendo que o seu fulcro epistemológico é a teoria do caos. A outra obra, como aludi acima, é o sensível O filho da noiva, um filme que mostra um Darín fantástico. Um dos grandes filmes argentinos realizados até hoje. 

Vale mencionar ainda Festa de família, do dinamarquês Thomas Vintenberg, uma das primeiras realizações do manifesto chamado de Dogma 95, que teve também Lars von Trier como signatário. O filme possui uma revelação espetacular. A família se reúne para uma comemoração. Quando todos seus fartos ramos familiares se reúnem com amigos, filhos, netos, o primogênito revela que foi abusado sexualmente pelo pai. Um mal-estar coletivo toma proporções impensadas. Excelente filme. 

Segunda-feira ao sol, do diretor espanhol Fernando León de Aranoa, é outra boa película. A obra, que traz Javier Bardem no papel principal, faz uma reflexão amarga sobre a crise econômica europeia e como esta traz os seus efeitos deletérios sobre a estima de um grupo de desempregados espanhois. Numa sociedade de consumo, quanto vale um homem que não pode consumir, que não pode vender a sua força de trabalho? O capitalismo gera crises profundas na alma daqueles que não podem participar da sua dança. E não poder dançar, significa sofrer a estigmatização social e uma auto-mutilação psicológica. Aranoa também fez Nos guetos de Madri (1998), outra película que quero ver.

A comédia amarga Pedalando com Molière é uma delícia. Recordo-me que vi esse filme no cinema, quando da sua estreia em 2013. Resolvi vê-lo novamente por conta da atuação de Fabrici Luchini que, no filme, faz o personagem Serge. O filme é estudo sobre a alma humana. Ou seja, até que ponto a vaidade humana pode crescer em um sujeito. Além de ser muito divertido, tendo fortes doses de simulação teatral, Serge é o alter-ego de O Misantropo, do dramaturgo Molière. O personagem funciona como uma metáfora metalinguística para a obra. Muito bom esse filme francês.

sábado, março 07, 2015

A sensação "de ser livre"

Sob a lei geral do capitalismo - gerar o máximo de lucro com o mínimo de despesas -, o trabalhador precisa separar-se do seu produto. A educação, a ciência, a técnica, a inteligência e a arte são gratuitas apenas para o capitalista.

Dos métodos brutais de exploração do capitalismo do século XIX passou-se no século XX aos métodos racionalizados e ao trabalho em série, dividindo o trabalho em múltiplas fases, tornando-o repetitivo, impessoal e mecânico. Embora o esforço físico tenha diminuído, o impacto sobre a mente humana leva frequentemente ao stress e à fadiga mental.

Se o trabalhador de hoje pode, muitas vezes, escapar durante uma parcela do seu tempo do domínio da produção esgotante, não é menos explorado nesse seu tempo livre. Através da criação e incentivo de "necessidades" de todo tipo, torna-se escravo de uma sociedade que o obriga ao consumo do que interessa unicamente ao capitalista.

Se contarmos as horas extras e o tempo de locomoção da casa à fabrica ou ao local de trabalho, o chamado "tempo liberado", o segundo emprego ou o biscate, para a grande massa dos trabalhadores, o tempo livre é apenas uma ilusão. As horas de TV serão as únicas capazes de distraí-los. Seria um suplício ter de aguentar na TV ou fora dela um debate dos problemas políticos e econômicos. Por isso ele vê ("é isso o que eles querem", dizem isso os programadores de TV) o que sonha: ambientes bonitos, finos, ouve coisas boas e engraçadas, vibra com o amor e o casamento do rico com o pobre etc. notadamente através das novelas incluídas nos "horários nobres" da reposição física de trabalho.

GADOTTI, Moacir. Concepção Dialética da Educação. Editora Cortez. 16ª edição. São Paulo. 2012. pp. 58-59.

quarta-feira, fevereiro 25, 2015

O "FORA DILMA" e as "opiniões"

O Brasil atual, do ponto de vista político, tem sido um palco para uma profunda crise de representatividade. O governo atual é responsável por um pouco desse aspecto cinzento que se abateu sobre a política nacional. Mas, penso que essa realidade seja sustentada, principalmente, pelo desserviço que a mídia conservadora presta diariamente em seus veículos ditos informativos - sejam eles escritos, visuais ou falados (no caso das emissoras de rádio). Um forte movimento fascista e golpista se instalou de forma silenciosa a serviço de certos interesses e, como se fosse um vírus, passou a fazer parte do vocabulário do homem médio (algo que se estende das crianças aos idosos) contra o governo. Ora, se existe esse consenso e uma forma homogeneizada de discurso raivoso, canino, babão, contra o governo petista, o "FORA DILMA" não é nada mais nada menos do que uma espécie de "catapora coletiva" pulverizada pelos jornalões que têm uma clara posição ideológica e que acometeu a sociedade. 

Não defendo o governo petista. Votei em Dilma o ano passado como um último recurso político. Penso que a base hegemônica que comanda o PT há muito esmaeceu o sonho inicial de fundação do partido. Nas eleições do ano passado, quando os movimentos sociais e vários intelectuais apoiaram o partido, fiquei de longe observando os passos do governo, e, principalmente, do explícito interesse midiático e do mercado em torno do projeto de cada um dos candidatos. Havia duas possibilidades: a guilhotina (Aécio), que era a decapitação certa, sem possibilidade de graça, indulgência ou anistia a e cruz (Dilma), mas que trazia em seu bojo toda aquela força esperançosa e simbólica que o objeto representa. Boa parte dos brasileiros optou pela cruz. Todavia, a esperança se mostrou mole, frouxa, como uma chuva de dois minutos. Simplesmente, ela não aconteceu, pois o braço hegemônico do PT, que tem em Dilma Rousseff a sua base, optou por uma saída pela direita em meio à crise. O fato é que a crise está posta com toda a sua latência. Mas o PT ao invés de sair pela esquerda, com a opção clara pelo trabalhador e pelos movimentos sociais, o que fortaleceria o governo e o tornaria defensável, ficou sem titubeios com o mercado.

Mauro Iasi já apontava isso em seu lúcido e esclarecedor artigo O sexto turno, escrito quinze dias antes do segundo turno da corrida presidencial. Nele, o intelectual falava sobre a opção clara que o Partido dos Trabalhadores havia feito desde o primeiro mandato de Lula e, que não seria naquele momento, que as coisas mudariam. Analisando a atual conjuntura à luz da reflexão de Iasi a realidade se torna mais clara. A mídia sabe do "alheamento político" do brasileiro médio - e faz política em cima disso. São hábeis jogadores. Buscam desgastar o governo por causa de suas últimas decisões para salvar o mercado - aumento da gasolina, alta dos impostos, corte nos direitos trabalhistas etc; os escândalos de corrupção, principalmente, aquele que tem ajudado a lançar abaixo os flancos táticos do governo, o caso Petrobras. Trata-se de um jogo em que, aquele que tem o poder de formação da "opinião", acaba levando a partida. Aconteceu isso, por exemplo, em 1992 com os caras pintadas. Isso parece clichê: mas não foi o povo que necessariamente que impeachtmou Fernando Collor; mas sim, a Globo que fez isso. Ela o colocou e ela o tirou.

O atual movimento antidilmista possui uma fonte clara. Só não não enxerga quem diz "FORA DILMA!". Não é o PT de Dilma que é incompetente. É o tipo de política a favor do mercado e do capital rentista que traz essas consequências. Foram as escolhas e as alianças costuradas a favor do deus mercado. Com Aécio não seria diferente, já que o seu partido é a personificação de um projeto de política que possui um rio que se sabe onde desemboca: no mar do conservadorismo e do atraso. Como diz Alysson Leandro Mascaro em Estado e forma política, sob o capitalismo, até mesmo o estado tornou-se uma mercadoria para a burguesia. Ou seja, o estado se tornou uma força que age a favor do lucro e dos interesses do capital. Uma prova disso, como se pode atestar, é o lucro absurdo do Banco Itáu. Em um tempo de arrocho e suposta crise, como se pode explicar uma entidade financeira que lucra 20 bilhões de reais em um ano, sendo que o recorde se consuma ano a ano?

Mas, por que escrevi essas linhas? Ontem olhava de forma descompromissada algumas coisas no Facebook. Percebi que o Milton Ribeiro havia curtido determinado comentário. Quando o li, percebi que ali estava uma das declarações mais felizes que li nos últimos meses. Fez-me lembrar o livrinho que tenho aqui em casa de Schopenhauer, em que ele fala sobre o perigo dos textos ou de leituras mal feitas. No caso em questão, o grande perigo é a leitura de opiniões de colunistas que escrevem claramente aquilo que o chefe manda e depois apregoam os termos carunchados imparcialidade e independência, como se isso fosse possível, quando interesses de classe estão postos. Não conheço o dono do comentário, mas penso que "papagaios de plantão" antes de proferirem o baboso "Fora Dilma", deveriam ler algum livro de ciência política; ao invés de ouvir o Bonner, deveriam ler os iluministas (Hobbes, Locke, Rousseau, Montesquieu etc), que são responsáveis pela elaboração da concepção de estado moderno; ao invés de fixarem atenção naquilo que os colunistas (animais amestrados das redações) falam a mando do patrão, deveriam ler algum livro de história para entender a complexidade que é o Brasil e quais foram os interesses que o formaram.

Segue o texto:



O objetivo de se estudar e ler muito (num primeiro momento descartem os jornais e partam para os livros) não deve ser o de querer mudar o mundo, mas o de mudar a si mesmo, de se proporcionar a possibilidade de olhar em volta com olhar crítico, analisando as situações e os fatos de forma coerente, racional. A leitura (filosofia, história, antropologia, sociologia, literatura) te dá a capacidade de entender as nuances, os jogos, as distorções, a má intenção por trás do que é escrito em notícias e principalmente do que é dito por comentaristas. Ler jornal não torna ninguém inteligente. Dizem (não sei se é verdade) que certa feita Luis Fernando Veríssimo afirmou que em certos dias a única coisa verdadeira em um jornal é a data. Há alguns anos eu lia muito jornal. Hoje leio bem menos, e o aumento diário de dedicação aos livros melhorou a qualidade da minha leitura de jornais - quando os leio. A notícia é para informar. Opinião cada um deve ter a sua. Acontece que a grande maioria não distingue uma da outra, principalmente quando uma se disfarça de outra. E está cheio de gente aí que não tem opinião própria (acha que tem mas não tem), apenas replicam o que ouvem do marido, da esposa, do companheiro, da companheira, do pai, da mãe, do tio, do jornal, da TV etc. Tá cheio de gente opinando sobre política, sobre a economia do país, sobre corrupção, sem sequer pegarem em um livro. Sua inteligência e conhecimento resumem-se em adjetivar de vaca a mandatária do país. Apenas repetem feito papagaios (maritacas, caturritas) o que ouvem dos outros. Façam uma tabela com horário diário de trabalho e muita leitura, e só depois de se dedicarem DIARIAMENTE à leitura, aos estudos, por pelo menos uns quatro anos, poderão então opinar sobre algum assunto sem correrem o risco do ridículo. E olhem lá, tempo de estudo nem sempre é atestado de inteligência...             

segunda-feira, fevereiro 23, 2015

A literatura é um denominador comum da experiência humana, por Mario Vargas Llosa

Baita texto! Sintetiza a finalidade e a dignidade da literatura como construtora que exatifica a experiência humana. 

Em feiras de livros ou mesmo livrarias, frequentemente alguém se aproxima pedindo-me autógrafo. “É para minha mulher, filha ou mãe”, explica. “Ela adora ler!” De pronto pergunto: “E o senhor? Não gosta de ler?” E a resposta é quase sempre a mesma: “Gosto, mas sou muito ocupado.”

Já ouvi essa explicação dezenas de vezes. Esse homem – e milhares outros como ele – tem tantos afazeres importantes, tantas obrigações e responsabilidades, que não pode perder seu precioso tempo mergulhado num romance.

Segundo esse raciocínio, a literatura seria uma atividade dispensável, uma diversão que somente pessoas com muito tempo livre poderiam se permitir.

Gostaria de apresentar alguns argumentos contra a ideia da literatura como passatempo e em prol de considerá-la, além de uma das ocupações mais estimulantes e enriquecedoras do espírito humano, uma atividade insubstituível para a formação de cidadãos na sociedade moderna e democrática. Por essa razão, ela deveria ser semeada nas famílias desde a infância e fazer parte de todos os programas educacionais.

Vivemos numa era de especialização em virtude do extraordinário desenvolvimento da ciência e da tecnologia, e da conseqüente fragmentação do conhecimento em incontáveis avenidas e compartimentos.
A especialização traz benefícios. Possibilita pesquisa e experimentos, e é a força motriz do progresso. Mas também destrói os denominadores comuns culturais que permitem a coexistência, a comunicação e a solidariedade. E leva à separação dos seres humanos em guetos culturais de especialistas, confinados – pela linguagem, por códigos de conduta e pelo conhecimento particularizado – a uma especificidade contra a qual um antigo provérbio já nos advertia: não se concentre tanto na folha, a ponto de esquecer que ela é parte da árvore e esta, da floresta.

Em grande medida, a noção da existência dessa floresta depende do senso de conjunto que une a sociedade e não a deixa se desintegrar numa centena de especificidades. A ciência e a tecnologia, portanto, já não podem desempenhar esse papel unificador da cultura.

A literatura, por sua vez, foi e, enquanto existir, continuará sendo um denominador comum da experiência humana. Aqueles de nós que leram Cervantes, Shakespeare, Dante ou Tolstoi entendem uns aos outros e se sentem indivíduos da mesma espécie porque, nas obras desses escritores, aprenderam o que partilhamos com seres humanos, independentemente de posição social, geografia, situação financeira e período histórico.
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais. Nada nos ensina melhor do que os bons romances a ver nas diferenças étnicas e culturais a riqueza do legado humano e a estimá-las como manifestação da multifacetada criatividade humana.

Ler boa literatura é ainda aprender o que e como somos – em toda a nossa humanidade, com nossas ações, nossos sonhos e nossos fantasmas -, tanto no espaço público como na privacidade de nossa consciência. Esse conhecimento se encontra apenas na literatura. Nem mesmo os outros ramos das ciências humanas – a filosofia, a história ou as artes – conseguiram preservar essa visão integradora e um discurso acessível ao leigo, pois também eles sucumbiram ao domínio da especialização.

O elo fraternal que a literatura estabelece entre os seres humanos transcende todas as barreiras temporais. A sensação de ser parte da experiência coletiva através do tempo e do espaço é a maior conquista da cultura, e nada contribui mais para renová-la a cada geração do que a literatura.

O que a literatura deu à humanidade, então?

Um de seus primeiros efeitos benéficos ocorre no plano da linguagem. Uma sociedade sem literatura escrita se exprime com menos precisão, riqueza de nuances, clareza, correção e profundidade do que a que cultivou os textos literários.

Uma humanidade sem romances seria muito parecida com uma comunidade de gagos e afásicos. Isso também vale para o indivíduo. As pessoas que nunca lê, lê pouco ou lê apenas lixo pode falar muito, mas vai sem dizer pouco, porque dispõe de um repertório mínimo de palavras para se expressar.

Não se trata de uma limitação somente verbal, mas também intelectual, uma indigência de idéias e conhecimento, porque os conceitos pelos quais assimilamos a realidade não são dissociados das palavras que nossa consciência usa para reconhecê-los e defini-los.

Nenhuma disciplina substitui a literatura na formação da linguagem. O conhecimento transmitido por manuais técnicos e tratados científicos é fundamental, mas eles não nos ensinam a nos exprimir corretamente. Ao contrário, com freqüência são mal escritos porque os autores, às vezes expoentes indiscutíveis em sua profissão, não sabem transmitir seus tesouros conceituais.

Outro motivo para se conferir à literatura um lugar de destaque na vida das nações é que, sem ela, a mente crítica – verdadeiro motor das mudanças históricas e melhor escudo da liberdade – sofreria uma perda irreparável. Porque toda boa literatura é um questionamento radical do mundo em que vivemos. Qualquer texto literário de valor transpira uma atitude rebelde, insubmissa, provocadora e inconformista.

A literatura apazígua essa insatisfação existencial apenas por um momento, mas nesse instante milagroso, nessa suspensão temporária da vida, somos diferentes: mais ricos, mais felizes, mais intensos, mais complexos e mais lúcidos. A literatura nos permite viver num mundo onde as regras inflexíveis da vida real podem ser quebradas, onde nos libertamos do cárcere do tempo e do espaço, onde podemos cometer excessos sem castigo e desfrutar de uma soberania sem limites. Como não nos sentirmos enganados depois de ler “Guerra e Paz” ou “Em Busca do Tempo Perdido” e voltar a este mundo de detalhes insignificantes, obstáculos, limitações, barreiras e proibições que nos espreitam de todo canto e em cada esquina corrompem nossas ilusões?
Nada nos protege melhor da estupidez do preconceito, do racismo, da xenofobia, do sectarismo religioso ou político e do nacionalismo excludente do que esta verdade que sempre surge na grande literatura: todos são essencialmente iguais.
Quer dizer, a vida imaginada dos romances é melhor: mais bonita e diversa, mais compreensível e perfeita. Talvez seja esta a maior contribuição da literatura ao progresso: lembrar que o mundo é malfeito, e que poderia ser melhor, mais parecido com o que a imaginação é capaz de criar.

A sociedade livre e democrática requer cidadãos responsáveis, críticos, independentes, difíceis de manipular, em constante efervescência espiritual e cientes da necessidade de examinar continuamente o mundo em que vivemos, para tentar aproximá-lo do mundo em que gostaríamos de viver.

Sem insatisfação e rebeldia, ainda viveríamos em estado primitivo, a história teria parado, o indivíduo não teria nascido, a ciência não teria alçado vôo, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos e a liberdade não existiria. Tudo isso nasce dos atos de desafio a uma vida que se mostra insuficiente ou intolerável. Para esse espírito que despreza a vida como ela é – e, com a insensatez de Dom Quixote, tenta tornar o sonho realidade -, a literatura serve de magnífica espora. A verdade é que o desenvolvimento da mídia audiovisual – que ao mesmo tempo que revoluciona as comunicações monopoliza cada vez mais o tempo que dedicamos ao lazer, relegando a leitura a segundo plano – permite-nos imaginar para um futuro próximo uma sociedade moderníssima, repleta de computadores, telas e microfones, mas sem livros.

Temo que esse mundo cibernético seja profundamente incivilizado, sem espírito, apático – uma resignada humanidade de robôs.

Evidentemente , é muito improvável que essa terrível perspectiva venha algum dia a se concretizar. Não existe um destino que decida por nós o que vamos ser. Depende de nosso discernimento e de nossa vontade que essa utopia macabra se realize ou se apague.

Se queremos evitar o desaparecimento dos romances – ou sua restrição ao sótão dos objetos inúteis – e com isso o desaparecimento da própria fonte que estimula a imaginação e a insatisfação, que refina nossa sensibilidade e nos ensina a falar com eloquência e precisão, que nos torna livres e nos garante uma vida mais rica e intensa, então devemos agir. Precisamos ler bons livros e incitar à leitura os que vêm depois de nós.